Mostrar mensagens com a etiqueta José Mário Branco Discos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Mário Branco Discos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 21 de abril de 2016

MARGEM DE CERTA MANEIRA


Abril.

Margem de Certa Maneira

Eh Companheiro!
Música de José Mário Branco
Letra de Sérgio Godinho



Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou pra te falar
Estas paredes me tolhem
os passos que quero dar
uma é feita de granito
não se pode rebentar
outra de vidro rachado
p'ras duas pernas cortar

Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Só tem medo desses muros
quem tem muros no pensar
todos sabemos do pássaro
cá dentro a qu'rer voar
se o pensamento for livre
todos vamos libertar

Eh! Companheiro eu falo
eu falo do coração
Já me acostumei à cor
desta negra solidão
já o preto que vai bem
já o branco ainda não
não sei quando vem o vento
pra me levar de avião

Eh! Companheiro respondo
respondo do coração
ser sozinho não é sina
nem de rato de porão
faz também soprar o vento
não esperes o tufão
põe sementes do teu peito
nos bolsos do teu irmão

Eh! Companheiro vou falar
vou falar do meu parecer
Vira o vento muda a sorte
toda a vida ouvi dizer
soprou muita ventania
não vi a sorte crescer
meu destino e sempre o mesmo
desde moço até morrer

Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou p'ra responder
Sorte assim não cresce a toa
como urtiga por colher
cresce nas vinhas do povo
leva tempo a amadur'cer
quando mudar seu destino
está ao alcance de um viver

Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou pra te falar
De toda a parte me chamam
não sei p'ra onde me virar
uns que trazem fechadura
com portas para espreitar
outros que em nome da paz
não me deixam nem olhar

Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Portas assim foram feitas
p'ra se abrir de par em par
não confundas duas coisas
cada paz em seu lugar
pela paz que nos recusam
muito temos de lutar.


domingo, 4 de abril de 2010

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES

GUILDA DA MÚSICA DP 01
Arranjos e direcção Musical José Mário Branco
Capa de Armando Alves e José Rodrigues
Gravação em 8 pistas no “Strawberry Studio” no Chateau d’ Hérouville.
Editado em 1971.

Lado 1
Aertura – Gare d’Austerlitz
Cantiga para pedir dois tostões – Sérgio Godinho/J.M. Branco
Cantiga do Fogo e da Guerra – Sérgio Godinho/J.M. Branco
O Charlatão – Sérgio Godinho
Queixa das Jovens Almas Censuradas – Natália Correia/ J.M. Branco

Lado 2
Nevoeiro – José Mário Branco
Mariazinha – José Mário Branco
Casa Comigo Marta – Sérgio Godinho/J. M. Branco
Perfilados de Medo – Alexandre O’ Neill/J.M. Branco
Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades – Luís de Camões/J.M. Branco e Jean Sommer

Bob Dylan já nos avisara que os tempos estavam a mudar.

Foi quando chegou José Mário, pela pena de um tal Luís de Camões, a dizer-nos que todo o mundo é composto de mudança.As vontades também.

A abertura conseguida de um som de comboios na Gare d’Austerlitz, um acordeão em fundo, lembrando quem, do país cinzento, saíu em busca de outras perspectivas de vida ,e em Austerlitz desembarcava. os outros, os perseguidos politicamente, passavam as fronteiras a salto.

“- Entregas-me as peles em Moiros.
- A que horas?
-Às onze”

As “peles”, explica Miguel Torga no seu “Diário”, eram os emigrantes clandestinos. “Onde pode chegar o aviltamento humano”, comenta Torga.

“assim se encerra a fase confusa
da nova música portuguesa
assim se inaugura uma época nova
onde também cantar bem e compor melhor
serão condições a exigir a canção útil
da afinação da palavra
à desafinação das cordas
à percussão das peles e teclas
à imaginação nos arranjos
à criação melódica à vocalização justa
aqui o circo foi desmantelado
com todas as ferramentas do som".


Palavras que José Duarte escreveu nas badanas de Mudam-se os Tempos e as Vontades”e fez questão de deixar um abraço a Sérgio Godinho, porque poeta bom não morre à sombra.

Queixa das Almas Jovens Censuradas


Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céul
evado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte