Devia estar aqui a capa do single da Doris Day a cantar “Que Sera Sera”, uma das canções da vida do meu pai. O single, como tantos outros discos, levianamente, perdeu-se por aí.
Esta é apenas a capa de um CD que reúne êxitos de Doris Day.
A canção ouviu-a o meu pai, no filme de Alfred Hitchcock “O Homem Que Sabia Demais” (“The Man Who Knew Too Much”, 1956), com James Stewart e Doris Day, que mais não é que o filme, com o mesmo nome, que Hitchcock realizara em 1934.
Diz a lenda, e segundo John Ford as lendas são para serem publicadas, que quando ouviu pela primeira vez a música "Que Sera, Sera", Doris Day recusou-se a gravá-la, alegando tratar-se de uma música infantil. A música não só obteve o Óscar para a melhor canção original, como veio a ser o maior êxito da carreira de Doris Day.
Truffaut, nas suas conversas com Hitchcock, lembra que Doris Day no seu livro de memórias, refere a frustração que sentia pelo laconismo de Hitchcock:
“Pensava constantemente que fora escolhida como cantora e que ele lamentava a falta de Grace Kelly. Talvez se enganasse; aliás no fim da rodagem, Hitccock disse-lhe: “Não falava consigo porque tudo estava a corre bem, mas, se alguma coisa não tivesse sido correcta ter-lhe ia dito.”
Num texto sobre Ezra Pound, Alfredo Barrosos conta:
«Há exactamente 35 anos, no dia 6 de Maio de 1958, véspera da sua libertação oficial do Hospital Federal de St. Elizabeths, onde estava internado como louco, há quase 13 anos, Ezra Pound ouviu, muito impressionado, a letra de uma canção popular difundida pela rádio. A seu lado estava sentada uma jovem estudante texana, Marcella Spann, sua admiradora e amiga, que se tornara já na derradeira amizade amorosa do poeta.
O que mais o impressionou foi o refrão da cantiga:
Que Sera Sera,
what ever will be, will be;
The future`s not ours to see.Que Sera Sera,
Por que razão a letra desta canção o terá impressionado tanto, Ezra não o disse. Porventura o tom prosaico, ingénuo e sensato – tão tipicamente americano – do refrão, perguntando em italiano e proclamando em inglês aquilo que para o comum dos mortais parece ser uma evidência»
A melodia entrou bem no duro ouvido do meu pai, mas do que ele gostava mesmo, também era essa evidência de que o futuro não nos pertence, o que tiver de ser será.
Uma canção como “Que Sera Sera”, da autoria de Jay Livingstone e Ray Evans, atravessará todos os tempos.
Amiúde ouvimo-la, cantada em coro pelos adeptos, nos estádios ingleses de futebol.
Doris Day tem hoje 87 anos.
Como dizia o velho Groucho Marx:
Conheci Doris Day quando ela ainda não era virgem.