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quarta-feira, 20 de maio de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Continuo a lamentar que a Fundação José Saramago ainda não tenha deitado mãos à tarefa de reunir as cartas que José Saramago trocou com os seus pares e com os seus leitores, apesar das muitas observações que Saramago foi deixando ao longo da vida que é um trabalho importantíssimo.

Apenas existe um volume com a Correspondência trocada com José Rodrigues Miguéis, organização e notas de José Albino Pereira, publicado pela Editorial Caminho, em Abril de 2010.

É desse livro que respigamos uma carta de José Rodrigues Miguéis, datada de Nova Iorque no dia 21 de Maio de 1971:

«Querido Saramago:

Chegou-me há semanas o seu livro de crónicas, que venho agradecer-lhe com algum atraso, porque tencionava, e não me tem sido possível, fazê-lo com mais largas considerações. Pelo que lhe escrevi há tempos, quando me deu a ler algumas delas, já Você sabe o que delas penso. A leitura do volume só me conformou nessa opinião. Não creio que nenhum outro cronista nosso escreva hoje de maneira tão toante, directa e moderna – e tão bem! – sobre os pequenos e grandes quotidianos da nossa vida: humanidade, ironia, e um pessimismo sorridente, isento de amargura. Algumas são pungentes, como a Neve Preta, outras de um sereno humor que contrasta com o tom geral da nossa literatura e jornalismo. Embora reunidas em volume, se acentue o efémero das crónicas de jornal, estas guardam a flagrância dos apontamentos de um pintor-poeta que percorre a paisagem do dia a dia e do lugar, ou a outra, mais funda, das memórias.»

Legenda: entrada de 8 de Agosto de 1998 no Último Caderno de Lanzarote

sábado, 29 de novembro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Foi a semana em que tivemos a boa notícia que estava a ser republicada a obra de José Rodrigues Miguéis.

Em Outubro de 2001 realizou-se, em Lisboa, um colóquio sobre a vida e obra de Miguéis. Raúl Hestnes Ferreira, filho mais velho do poeta José Gomes Ferreira, relatou algumas memórias dos tempos em que conviveu com o autor.

Cito este pormenor:

«Ainda hoje me lembro do entusiasmo e felicidade com que ouvia a Sinfonia Brinquedo de Haydn, começando a dançar e arrastando todos os outros em fila.»

É essa obra de Haydn que será, hoje, a nossa Música pela Manhã.

O disco encontra-se na Biblioteca da Casa e faz parte de «Os Clássicos do meu Pai»


sexta-feira, 28 de novembro de 2025

REOLHARES

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Publicado em 17 de Julho de 2020

Há uma frase de José Rodrigues Migueis que José Gomes Ferreira citou em A Memória das Palavras:

«Os sonhos da juventude, realizam-se sempre. Se não aos trinta, aos quarenta anos… ou aos cinquenta… ou aos sessenta… mas realizam-se sempre… A questão está em querê-lo bem do fundo da teima dos ossos!»

Exilado nos Estados Unidos, José Rodrigues Miguéis, mesmo longe, assistiu à queda da ditadura, viu a cor da liberdade, como poetizou Jorge de Sena.

Morreu em Nova Iorque no dia 27 de Outubro de 1980.

Tinha 78 anos.

«Muitas vezes me perguntaram, porque é que não regresso? Talvez porque nunca cheguei a partir.»

Por vontade expressa as suas cinzas vieram para Portugal onde chegaram em Maio de 1981 e tal como escreveu em A Escola do Paraíso:

«Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficará para sempre dentro dele como um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir e de voltar: quando? e  para onde?»

Digo-o com mágoa, muita mesmo: José Rodrigues Miguéis está praticamente esquecido.

E é uma pena que não seja lido.

Segundo uma nota final que escreveu, Miguéis diz-nos que começou a escrita de O Milagre Segundo Salomé, sentado numa mesa d’A Brasileira do Chiado «Junto à porta, e sozinho como quase sempre, eu tenha tomado num papelinho de acaso a primeira nota para uma cena que viria a ser germe e fulcro do romance: «Onde a lava transborda,»

Deu-o, provisoriamente, por terminado pelos anos cinquenta e recopiou-o, em forma final entre 1966 e 67. Deu-o a ler a Mário Castro, a quem o livro é dedicado, a Rogério Fernandes, José Saramago, Maria da Graça Amado da Cunha, Prof. Oliveira Marques, outros de que não recorda o nome e todos tiveram, além de reparos, palavras de encorajamento.

«Houve até quem me incitasse a publicá-lo em pleno caetanismo - -«É agora a altura!» - num surto de crença nas boas intenções de que está cheio o nosso pequeno inferno. Quanto a mim, era mais um Romance-para-a-Gaveta, como outros, menos felizes, que esperam drástica revisão.»

Ainda da nota final, que tenho vindo a citar:

«OMilagre Segundo Salomé não é um romance histórico: não pretende reconstituir factos ou acontecimentos nem evocar pessoas cuja realidade ou verdade será apenas a que uns e outras assumirem aos olhos do leitor; e os que se inspiram da realidade aparecem aqui transpostos, anacronizados, telescopados ou conjugados seguindo as conveniências da narrativa. Qualquer semelhança entre este «milagre» e algum milagre do mundo não ficcional, deve-se apenas a uma assimilação lógica ou formal, e não ao desejo de fazer proselitismo ou de rebater o segundo.»

Miguéis considerava-o o seu melhor livro, mas a publicação em 1975, durante o PREC, prejudicou fortemente a atenção que crítica e leitores lhe poderiam conceder, o que deixou Migueis profundamente desgostoso.

Mas é um livro extraordinário que retrata a sociedade lisboeta nos primeiros anos do século XX, a decadência dos ideais da Repúblca que originarão o 28 de Maio de 1926 e tudo o que se lhe seguiu.

José Rodrigues Migueis recusou sempre qualquer espírito de nacionalismo, mas tinha um enorme sentimento pelo País onde nasceu, e exigiu ser sepultado em Lisboa.

No topo do texto, o monumento que encima o local onde estão depositadas as suas cinzas.

Reproduz-se a noticia que o Diário de Lisboa, aquando da chegada dos restos mortais, publicou no dia 4 de Maio de 1981.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

A RECORDAÇÃO DE UMA PERSONALIDADE EXTRAORDINÁRIA

«Conheci José Rodrigues Miguéis algum tempo depois de, no ano de 1959, ter começado a trabalhar na Editorial Estúdios Cor, de que eram proprietários, meio por meio, Manuel Correia e Fernando Canhão, e director literário Nataniel Costa. Miguéis havia publicado, um ano antes, o livro de contos e novelas Léah, excelentemente acolhido pelo público e pela crítica de então. Foi essa a primeira obra que li dele, e não necessito dizer que me entusiasmou. Não sei exactamente quando conheci Miguéis em pessoa, que por aqueles dias estaria nos Estados Unidos. O que, sim, sei, é que desde a narrativa Um homem sorri à morte com meia cara, publicada em 1959, até ao romance Nikalai! Nikalai!, que apareceria em 1971, passando por A Escola do Paraíso e O passageiro do Expresso, ambos de 1960, Gente da terceira classe, 1962, e É proibido apontar, 1964, os meus contactos com José Rodrigues Miguéis foram constantes, praticamente diários quando se encontrava em Portugal, frequentes, por carta, quando regressava aos Estados Unidos. Essa correspondência, que mereceu ser escolhida para a tese de doutoramento de José Albino Pereira (e no mesmo plano ponho a correspondência trocada com Jorge de Sena), dá-me o direito de dizer que não tenho feito má figura neste mundo. A minha relação epistolar com Miguéis só se rompeu quando saí da Editorial, nos finais de 1971. Vi-o algumas vezes, poucas, depois, não houve mais cartas, que eu recorde, mas ficou-me para sempre a recordação de uma personalidade extraordinária, com uns dons oratórios fora do comum e uma memória capaz de recriar em poucas palavras as situações mais complexas.

 Uma simples conversa com ele era um presente real, dialogar com a sua brilhante inteligência tornava mais inteligente o interlocutor. Pessoalmente, e sem querer gabar-me por isso, aproveitei desses momentos o melhor que pude. Morreu há quase trinta anos, mas recordo-o como se fosse ontem.»

José Saramago em O Caderno 2º volume

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

SAÚDE-SE O REGRESSO DA OBRA DE JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS


No cinzentismo do quotidiano também aparecem gratas notícias:

A editora Assírio & Alvim vai publicar a Obra Completa de José Rodrigues Miguéis, e começam com Léah  e Um Homem Sorri à Morte com Meia Cara.

A juntar a esta notícia, a publicação pela Âncora Editora de uma biografia de José Rodrigues Miguéis da autoria de Teresa Martins Marques.

Sinopse da Editora:

«Nos Passos de José Rodrigues Miguéis é uma biografia escrita como um romance, através de diálogos entre o escritor e a cientista Maria de Sousa, sua grande amiga e confidente, assentando no processo narrativo monologal, em forma diarística encenada de José Rodrigues Miguéis, e dialogal, em entrevista imaginária de Maria de Sousa ao escritor, temporalmente situada entre 25 de Abril de 1979 e 27 de Outubro de 1980, dia da sua morte.

Foram compulsados e citados numerosos fragmentos, de cartas inéditas de Miguéis a intelectuais e amigos. São igualmente citados excertos de crónicas, paratextos e aforismos, bem como excertos de cariz autobiográfico da sua obra ficcional. As 986 notas deste livro esclarecem a origem e veracidade de quanto aqui se narra.

O leitor ficará a conhecer uma vida repartida por várias geografias e ambientes desde Lisboa de princípio do século XX até Bruxelas nos anos 30 e Nova Iorque dos anos 30 até aos anos 80.

Foca-se não apenas a sua agitada vida privada, mas também a intervenção pública, na Seara Nova e no Núcleo de Ressurgimento Nacional, e também a recolha de fundos durante a Guerra Civil de Espanha.

Analisam-se as principais obras migueisianas com rigor científico, mas sem opacidades, tornando este livro útil a especialistas, nomeadamente pelo exaustivo levantamento bibliográfico, mas também ao leitor comum. Na Postumografia descrevem-se actividades ligadas à obra migueisiana, depois de 1980, bem como as vicissitudes da sua herança literária.»


 Legenda: José Rodrigues Miguéis a comprar jornais em Nova Iorque.

« Todas as manhãs, quando as dores físicas não me apoquentam, antes de dar início aos meus afazeres (de pobre escritor!), levo uma boa hora a reconciliar-me com a ideia de que me é indispensável continuar a viver.»

terça-feira, 22 de julho de 2025

À LUPA


A Lupa desce até uma crónica que, no dia 26 de Junho, Guilherme d’Oliveira Martins, publicou no Diário de Notícias, uma crónica sobre José Rodrigues Miguéis.

Mário Dionísio disse de Miguéis: «… um dos maiores escritores de língua portuguesa dos nossos dias».

José Saramago confidencia que Léah foi a primeira obra que leu de Miguéis e não teve necessidade de escrever que o entusiasmou.

«… ficou-me para sempre a recordação de uma personalidade extraordinária, com uns dons oratórios fora do comum e uma memória capaz de recriar em poucas palavras as situações mais complexas. Uma simples conversa com ele era um presente real, dialogar com a sua brilhante inteligência tornava mais inteligente o interlocutor. Pessoalmente, e sem querer gabar-me por isso, aproveitei desses momentos o melhor que pude.»

José Rodrigues Miguéis era um homem sereno. 

Escreveu em Páscoa Feliz que A serenidade é a maior virtude da inteligência.

Hoje muito poucos o leem. Não sabem mesmo o que perdem.

Sim, sei que estou velho e tornei-me um leitor mais de releituras do que novos autores.

Sei que faço mal mas… há sempre um regresso à casa da Dona Genciana…

 “Até que um dia, pela primeira vez ao fim de tantos anos, me atrevi a pisar a soleira daquela porta: para ver Dona Genciana. Estava uma sombra, quase irreconhecível, o cabelo todo branco e ralo, os olhos fechados.»

E como diz Guilherme d’ Oliveira no final da sua crónica no Diário de Notícias:

«Assim se desvanecem as memórias.»


Legenda: começo e final do conto Saudades para Dona Genciana que é uma das história que podem ser lidas  em Léah

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Em Janeiro de 1971 o livro Deste Mundo e do Outro de José Saramago custou-me 20 escudos, tal como se pode ver na 1ªpágina, canto superior direito, escrito, a lápis pelo livreiro.

Eu passava a saber que, para além de poeta, Saramago era um cronista. O volume reúne crónicas publicadas em A Capital e no Jornal do Fundão.

É neste volume que surge a primeira dedicatória à escritora Isabel da Nóbrega.

Numa carta, datada de 7 de Junho de 1968, Saramago escreve a José Rodrigues Miguéis:

 « A minha falta de notícias, essa, liga-se a problemas de ordem particular que me têm posto o juízo em água. Tanto tempo andei a dar na ponta de uma agulha, que por fim acabei por me empalar nela… Se um tal estado e uma tal situação são compatíveis com a disponibilidade de espírito necessária para escrever cartas – deixo isso ao seu critério… Não queira saber o que tem sido (e continua a ser) a minha vida!»

 Neste livro encontram-se as evocações da avó Josefa (página 25), do avô Jerónimo (página 28) que, aquando do primeiro Discurso de Estocolmo na entrega do Prémio Nobel, utilizará, como esteio, no comovente discurso que, então, proferiu.

Volto às cartas de Saramago para Miguéis:

«E peço-lhe que não faça caso da aridez desta carta: ontem deu-me para recordar o meu avô camponês – e fiquei assim: amargo. Felizmente para a literatura portuguesa deu crónica… Manha de literato, defeito de escriba: tudo acaba por se transformar em literatura…» 

Também por um comovente discurso em Estocolmo com o Prémio Nobel como pano de fundo.

Da crónica de Josefa:

«Estou diante de ti e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este Mundo e não curaste de saber o que é o Mundo. Chegas ao fim da vida, e o Mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não fazia parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal, a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha vã e chão de terra batida.»

Da crónica de Jerónimo:

«Mas a imagem que me não larga é a do velho que caminha sob a chuva, obstinado e silencioso, como quem cumpre um destino que nada pode modificar. A não ser a morte. Mas, nesta altura, este velho, que é meu avô, ainda não sabe como vai morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia vai ter a premonição (perdoa a palavra, Jerónimo) de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, dos frutos que não voltará a comer, das sombras amigas. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória o não fizer ressurgir no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a interrogacão das estrelas. Só isto — e também o gesto que de repente me põe de pé e a urgência da ordem que enche o quarto aquecido onde escrevo.»

 Ainda o grande lamento da avó Josefa:

«O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!» 

 São notáveis as crónicas de José Saramago:

«Bem sei que os tempos, aqui para nós, não vão para crónicas. Dividido entre o título da primeira página e o boletim meteorológico (ou não9, entre as notícias do estrangeiro e as novidades locais – o leitor afasta os olhos carregados de preocupações ou com bilhete para as evasões possíveis. Crónicas, que são? Pretextos ou testemunhos? São o que podem ser…» (página 49).

Uma crónica notável, O Sapateiro Prodigioso que, em findar de texto fica assim retratado: 

«É um homem interessado que vive numa aldeia e tem uma loja com um horizonte de plátanos que se arrepiam à noite, quando o céu se cobre de estrelas. (página 24).

 «O meu sapateiro tinha muitos amigos, mas as horas da visita variavam consoante a posição social de cada um. O médico nunca estava quando lá ia um pé mal calçado; o prior não passava da porta; os lavradores da terra evitavam encontrar-se com inimigos da estrema vizinha, e diziam coisas graves e profundas, ou bisbilhotices de meia-porta, enquanto ponderosamente iam remexendo nos bolsos do colete.

Só eu era um freguês de todas as horas.» (página 22)

 Outras crónicas, outros sublinhados:

«Ninguém sabe nada de si antes da acção em que tiver de empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move Não conhecemos o amor antes do amor.» (página 11).

«A história das pessoas é feita de lágrimas, alguns risos, uma tantas pequenas alegrias e uma grande dor final.» (página 21).

«Estarmos vivos é já em si uma vitória. A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver.» (página 39).

 «Não sei o que cá faço, e é importante que o saiba. Mas mais importante é fazer.» (página 44).

 «Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão.»(página 53)

 «Ora, a vida é feita de pequenas e minúsculas tarefas. Escrever é uma delas.» (página 146)

 O meu velho livrinho da Arcádia está repleto de sublinhados.

 Por mister difícil, são escassos, entre nós, os verdadeiros cultores da crónica de jornal.

 Saramago, com este livro, mostrava que era um cronista de mão cheia. 

 E assim me aconteceu.

 Ou como o editor sobre este livro, colocou palavras de Mário Sérgio nas badanas de A Bagagem do Viajante:

 «Irei agora pôr Deste Mundo e do Outro naquele pedaço de estante onde vivem os livros que tenho de ver todos os dias, de tocar e folhear todos os dias e de ler nem que seja apenas um parágrafo.»

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

OLHARES


 O que ele gostava dos cafés de Lisboa.

Um dos muitos simples prazeres da sua vida.

Depois começaram a transformá-los em agências bancárias, em casas de trapos.

As grandes mágoas que então nasceram.

Quando José Rodrigues Miguéis foi obrigado ao exílio nos Estados Unidos, o primeiro grande choque que enfrentou foi a não existência de cafés.

Sua mulher Camila conta o episódio:

«Quando chegou aos Estados Unidos a primeira coisa que o ia matando foi quando descobriu que não havia cafés. Como é que podia viver sem um café onde encontrava os amigos, onde se sentava e levantava logo que se sentia desconfortável ou aborrecido, ou quando lhe surgia uma ideia e tinha de regressar a casa para a escrever? Como é que as pessoas podiam viver daquela forma? Isto foi um problema muito, muito difícil para ele, e eu sentia-me desanimada, porque não o podia resolver. Quando lhe disse o que tínhamos – restaurantes, cafetarias, balcões, vários locais -, ele disse: «Mas eu estou a falar de um café; tu não percebes.» E esta situação aborreceu-o a vida toda. Aborreceu-o mesmo.»

Foi dura, e inglória, a luta pela manutenção dos cafés.

O poeta José Gomes Ferreira nos seus Dias Comuns fala dessas lutas, quando juntamente com o Carlos de Oliveira, O Augusto Abelaira, tantos outros, andaram em bolandas, de café para café que lhes dessa possibilidades de manterem as suas tertúlias.

Os cafés da minha preguiça" como escreveu o Mário de Sá-Carneiro.

Ler o jornal, um livro num café com uma bica à frente.

Jorge Silva Melo: Sabores de outros tempos: o ovo a cavalo, o molho, as batatas fritas dos velhos cafés de Lisboa.

Façamos a evocação de um café de Lisboa: o Vává, símbolo dos anos 60 que viu nascer o cinema novo português, também músicas, conspirações várias.

Lauro António, que há dias nos deixou, escreveu diversas crónicas sobre a cidade no jornal digital  «Mensagem de Lisboa».

Uma dessas crónicas lembra o VáVá e a sua história:

Nasci em 1942, em Campo de Ourique. Passei sete anos da minha vida em Portalegre, para onde o meu pai, professor, foi deslocado para se efectivar. Regressei a Lisboa em 1958 e vim morar para as avenidas novas, precisamente para a avenida dos EUA, muito perto do cruzamento com a avenida de Roma. O Café Restaurante Vavá existe desde esse ano e foi um dos meus cafés de eleição. Os outros foram a Grãfina e o Nova Iorque

Além de mais, tem sido o meu café-restaurante prioritário, acompanhei todas as transformações, lidei com todas as gerências, fui assistindo à reciclagem da clientela, e descobri que o espaço, apesar de tudo, se mantém como local de culto e de saudosa romagem. Por isso vale a pena contar a história física, que é pouca, mas sobretudo recordar o espírito do lugar, que se conserva, muito para lá das vicissitudes do tempo e dos circunstancialismos vários da vida de cada um.

Julgo ser, por isso, uma pessoa bem informada para dar conta do recado, ainda que nestes casos, o recado, por muito factual que se queira, tenha sempre de ser subjectivo, com o que a posição comporta de risco, mas também de sinceridade. O meu testemunho não é totalmente imparcial e a tender para o abstracto, antes se afirma desde início, pessoal e apaixonado. Esta será uma “visão”, uma “visão” possível entre muitas outras, de um espaço que vem cumprindo, vai para cima de seis décadas, a função para que foi criado.

 OVavá nasceu em 1958, criado por uma dupla de gerentes, dois irmãos, Petrónio e Luís Gonzaga. Irmãos que apenas se pareciam no apelido, e igualmente na gentileza, dado que um era basto volumoso, de presença imponente, arrastando por detrás do balcão uma bonomia ruborizada, enquanto o outro, mais discreto e aprumado, ia deslizando delicadamente pelo mesmo balcão. Às vezes em simultâneo, outras revezando-se no comando das operações.

 O Vavá que eles idealizaram era um espaço enorme, que abrangia o que ainda hoje lhe compete, e ainda o que o Banco BPI agora ocupa e lhe comprou. O Vavá não era apenas o dobro, em extensão, à superfície, mas ainda possuía uma extensa cave, onde se encontrava uma, na época, muito disputada sala de bilhares.

 A decoração inicial produziu o milagre que ainda hoje perdura, apesar de pouco restar dela presentemente. Mas todo o recinto ganhava um ar acolhedor e recolhido, com as madeiras de um castanho-escuro, os maples de couro, igualmente de castanho-escuro, colados juntos às paredes, circulando todo o espaço. Mesas e cadeiras a condizer e um balcão que dividia a sala em duas, sem as tornar isoladas, como hoje acontece, pela intromissão de uma parede que não fazia parte da estrutura original.

 A iluminação era dourada, discreta, difusa, pequenos candeeiros desciam do tecto sobre as mesas, o ambiente era intimista, o que terá seduzido a clientela destas avenidas novas que iam surgindo lentamente por estes lados.

Não muito longe do cruzamento da Avenida de Roma com a Avenida dos EUA, nesta praça onde se encontram frente a frente o Vavá e o Luanda, começavam as quintas e os quintais, viam-se rebanhos de ovelhas e cabras e cultivavam-se as couves. Paulo Rocha fala dos “Verdes Anos” destes locais no seu filme, um dos que abriu caminho ao Novo Cinema Português (curiosamente o Novo Cinema marchou lado a lado com o Vavá, mas disso falarei mais a frente).

 Avenidas Novas, vidas novas, novos arrendatários. Quem veio habitar estes bairros foram os filhos da burguesia endinheirada, num período em que a estabilidade social e uma ligeira abertura ao exterior permitiram a ascensão de novas classes profissionais, vivendo com relativo desafogo, que lhes possibilitava pagar rendas mais caras, e usufruir de maior qualidade de vida.

 Do Areeiro à Avenida do Brasil, a Avenida de Roma era o exemplo da modernidade em Lisboa. Aqui se vinham descobrir as novidades, na moda, nos usos e costumes. Os quarteirões encheram-se de jovens de novas profissões: publicidade, moda, canção, cinema, televisão, aviação, arquitectura, decoração, etc. Mas, por detrás dessas luxuosas avenidas novas, existiam novos bairros de habitação social que contribuíam igualmente para o aparecimento de uma população diferente e diversificada.

 Foram esses os frequentadores habituais do Vavá nesses primeiros anos. Foram eles que criaram o estilo da casa e impuseram um tom. Aberto até de madrugada (fechava às duas da manhã), permitia a criação de tertúlias espontâneas, de amigos e conhecidos que todas as noites ali se reuniam para falar e discorrer sobre os mais variados temas, com a política sempre como prato de resistência.

 É importante referir que os finais da década de 1950 e o início da de 60 foram tempos difíceis para o governo de Salazar. Poucos meses depois das eleições de 1958, que opuseram Humberto Delgado a Américo Tomás, e que este haveria de ganhar com batota descarada, abria o Vavá. Iniciava-se igualmente um tempo de revolta e conspiração sem precedentes na história do Estado Novo.

 Em todas as tertúlias lisboetas se comentava o que não se podia saber pela informação escrita, radiofónica ou televisiva (a RTP acabava igualmente de iniciar as suas transmissões) e se soprava de ouvido a ouvido. O Vavá não era excepção. Congregando clientes já de alguma idade com a rebeldia da juventude, o Vavá era local de conspiração certa (segura nunca seria, pois “os olhos e os ouvidos” do regime estavam um pouco por todo o lado).

 A proximidade da Cidade Universitária criava outra clientela, maioritariamente irreverente e interventiva. Os alunos que vinham estudar para a capital escolhiam quartos de abrigo perto das faculdades. Este era outro potencial cliente, que o Vavá logo aglutinou. A contestação universitária que eclodiu em pleno durante a crise académica de 1962 foi dispersando pólos de inquietação. Os cafés eram centros de estudo, mas igualmente focos de rebelião, onde se discutia e se organizava a revolta.

 Tínhamos assim uma fauna variada, de extractos sociais diferenciados, profissionalmente irreverente e moderna, maioritariamente jovem. Entrando no café numa noite de inverno ou atravessando a esplanada numa solarenga tarde de verão, eles estavam lá, em pequenos grupos que se distinguiam pelos interesses profissionais ou pelos escalão etários, mas que por vezes se interpenetravam e fundiam em grandes grupos de amena cavaqueira.

Em Novembro de 1993, para uma revista então publicada pela livraria Barata, escrevi um texto que não resisto a recuperar. Dizia assim:

O café, enquanto local, e não só chávena, e não só bebida, refere duas realidades, ambas de agradável evocação: a bica, que se toma, e a tertúlia de amigos com quem se fala, enquanto se bebe a primeira.

 Muitos escritores têm relembrado, em saborosos textos, tertúlias célebres ao longo das décadas. Não vem ao caso historiar, mas Lisboa esteve bem provida destes locais de referência obrigatória, e não há certamente quem ignore o papel do Martinho da Arcada, da Brasileira do Chiado, do Nicola, do Café Gelo, do Monte Carlo, do Ribadouro, de tantos e tantos outros. Escritores e pintores deixaram marca num local, actores e encenadores eram habituais noutros, os cinéfilos reuniam-se sobretudo no antigo VaVá,  mesas pegadas com cançonetistas e baladistas dos idos de 60, e, antes do 25 de Abril, políticos e “gente do reviralho”, como então eram chamados os opositores ao regime, apareciam um pouco por todo o lado, acumulando funções na maioria dos casos.

 Os cafés eram locais de encontro, logo depois do almoço, e antes de se entrar no trabalho, ou a seguir ao jantar, prolongando-se então a cavaqueira pela noite dentro, até que as portas do café fechassem, e muitas vezes até para lá do seu encerramento. Nunca antes das duas ou três da matina. Muitos artigos se escreveram, muitos romances e poemas se pensaram, muitos espectáculos se montaram, muitos filmes se idealizaram, muitos quadros adquiriram ali cores e formas, muitos governos caíram e muitos outros se formaram à mesa de um café de Lisboa, do Porto, de qualquer cidade do interior de Portugal.

Não havia ainda televisão em doses industriais, para agarrar audiências pelos processos mais singulares; não havia internet, chats, blogues ou Facebook; não havia ainda Betas, VHS ou DVDs para se verem os filmes em casa; não havia concertos rocks todos os dias, nem espectáculos a toda a hora; não havia as drogas pesadas a influir negativamente nos horários dos donos dos cafés, que se querem ver livres de tão ingratos clientes, e fecham muito mais cedo; não havia a ameaça da violência urbana que apesar de tudo pesa sobre o comportamento de muita gente que prefere a segurança do lar à incerteza das ruas; nem havia, sobretudo, estes mercantis balcões de agora, onde as pessoas tomam apressadamente café, enquanto outras comem sofregamente uma sopa e pastelinhos de bacalhau, bifanas ou mesmo “pratinhos” de feijoada à transmontana, antes de regressarem ao seu balcão no centro comercial ou à secretária no escritório.

 Dos meus tempos de Universidade, relembro cafés inesquecíveis. Desde logo, o bar da Faculdade de Letras, onde se estudava a vida, quando se faltava às aulas, para se discutir um filme, uma peça de teatro ou um livro, onde se tentava mudar o mundo à medida dos nossos sonhos, ou simplesmente se namorava uma colega, quando o tempo não estava de molde a poder-se sair com ela até ao estimulante verde do discreto estádio universitário.

 Depois, à tarde e à noite, estudavam-se as matérias, em mesas de outros cafés, por apontamentos emprestados por quem assistira ao verbo do Professor. Por mim, que morava então em casa de meus pais, na Av. EUA, os mais utilizados eram o Nova Iorque, hoje transformado em banco, e a Grãfina. Mas muitas noites as passava também entre o Monte Carlo e o Monumental, espreitando actores e actrizes com quem se procurava meter conversa, ou sendo lentamente perfilhado por tertúlias de escritores, jornalistas, pintores e excêntricos avulso.

 Pouco a pouco, fui subindo avenida acima, até ao VáVá, que então tinha bilhares e cave, e não era ainda metade banco e metade pastelaria. Ali se reunia o grupo de cinéfilos, que observava de longe, e o dos cantores, que ouvia na rádio e muito pouco na TV estatal. Com breves incursões pela Suprema, pela Sul-América e pelo Luanda, adoptei o Vává como segunda casa, ali fiz amizades e vi partir amigos, ali conheci amores e desamores, ali escrevi e li, ali pensei guiões e filmes, dali parti com equipas de filmagem para a serra da Estrela, para Sintra, para o Alentejo, ali filmei mesmo uma sequência de um deles, ali vi rodar alguns outros, ali me despedi do 24 e ali saudei o 25, há quem diga que ele é a minha sala de jantar (quanto muito seria a de almoçar), e um prolongamento do meu escritório.

 O Vává foi mudando com os anos, deixando sempre saudades do velho Vává, de maples de cabedal castanho encostados às paredes, de luz difusa e discreta, de acolhedor conforto. Ali conheci o Manuel Guimarães, que seria meu padrinho de casamento e padrinho cinematográfico, cedendo-me umas bobines de película virgem do seu derradeiro “Cântico Final” para eu realizar uma das minhas primeiras curtas-metragens; ali conheci melhor o Manuel de Azevedo, o Villas-Boas, o Rafael, o Pinto Bandeira, o Manuel Costa e Silva, o Sam, o Pedro Bandeira Freire, o João Maria Tudela, o Fernando Tordo, o Paulo de Carvalho, o Carlos Mendes, o Fernando Silva, o Mário Damas Nunes, a Acácia Thiele; ali continuo a encontrar o Manel, o Fanan, o Vasco, o Mário, o Rangel, a Lena, o Carlos, e tantos outros, alguns deles agora já acompanhados das respectivas e respectivos, com a prole a gatinhar por entre mesas e cadeiras, ganhando já, se calhar, o mesmo “vício” de ali se encontrarem no futuro; por ali passam também personagens bisonhas de tristes recordações, ali ficam suspensas memórias efémeras ou persistentes, ali se discute o presente do cinema, do xadrez, da televisão e da canção portugueses, ali se debate o futuro da TAP, ali se comentam, à segunda-feira, os “roubos” dos árbitros, invariavelmente a prejudicarem o Sporting e a beneficiarem quem se sabe, por lá passava ao fim da tarde o Frederico, na volta do colégio, para a Cola e o bolo da praxe, ali descia e desço com a Eduarda para tomar o café, antes de ir para o cinema ou de regressar a casa, para um serão televisivo.

 Os cafés de Lisboa tendem a desaparecer, e os que restam são já sombras de um passado que procuramos apesar de tudo manter vivo, contra a arremetida das leis inexoráveis do comércio, da cobiça dos bancos, do poder da televisão, da proliferação de bares e discotecas. São, aliás, os bares e as discotecas que, de certa forma, vieram a ocupar o lugar desempenhado pelos cafés, reunindo tertúlias de amigos, agora ao som da música de momento. Até esta transferência é significativa da mudança dos tempos. Em lugar do café, bebe-se whisky ou vodka; em vez do espreguiçar do pensamento em redor da bica bem quente, gritam-se frases rápidas por entre dois compassos mais trepidantes. Nem melhor, nem pior. “Tudo é feito de mudança”, como dizia o poeta. “A nostalgia não é deste mundo”, como explicava Signoret. E as bicas bem quentes continuam a incendiar a imaginação dos poetas. Que nunca dispensaram outros “acompanhamentos”, a começar pelo absinto.

 A última grande transformação do Vavá data de 2017, quando a empresa Petrónio e Gonzaga, Lda foi comprada aos anteriores proprietários pelos sócios Pedro Ferreira e João Simões. O café restaurante sofreu uma profunda remodelação, mantendo e reabilitando o espólio artístico (as obras de Menez foram todas restauradas por especialistas), tarefa levada a cabo por familiares dos gerentes, a designer Mafalda Ferreira e o arquitecto paisagista Filipe Pedro. A inauguração aconteceu a 21 de Julho de 2017 e, não muito depois, a casa foi considerada “Loja com História” pela Câmara Municipal de Lisboa.

Muitos se perguntam por quê a designação Vavá?

 Estranha homenagem a um jogador brasileiro que aparece a dar nome a um café restaurante no cruzamento da av. de Roma com a dos EUA, em Lisboa. “Vavá” era mesmo o nome por que era conhecido Edvaldo Izídio (Recife, 12 de Novembro de 1934 – Rio de Janeiro, 19 de Janeiro de 2002), jogador brasileiro de futebol, bi-campeão mundial nas copas de 1958 e 1962, conhecido também por “peito de aço”. Nascido no Recife, Pernambuco, foi como avançado da selecção brasileira bicampeão mundial nas campanhas da Suécia (1958) e do Chile (1962). Iniciou a sua carreira no Sport de Recife, transferiu-se depois para o Rio de Janeiro (1952), para jogar no Vasco, passou pelo Atlético de Madrid, Palmeiras, América do México, San Diego, dos EUA, e Portuguesa do Rio. Conquistou dois campeonatos cariocas pelo Vasco da Gama e um paulista, pelo Palmeiras, além das duas Copas do Mundo pela selecção.

 Era visto como o clássico “matador” de grande área: oportuno, sem muita técnica, mas dono de muita garra e inteligência táctica, além de bom a jogar de cabeça. O seu vigor físico valeu-lhe o apelido de “Peito de Aço”. Marcou nove golos pelo Brasil em Copas do Mundo, e em 22 jogos pela selecção brasileira, contabilizou 14 golos. Foi auxiliar técnico de Telê Santana (1982) na selecção brasileira que disputou a Copa da Espanha. Morreu aos 67 anos, na Clínica São Victor, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, após internado por três dias com insuficiência cardíaca, e enterrado no Cemitério do Catumbi.

 Porque se chama Vavá o café restaurante a que estamos a dedicar este texto, eis um enigma que não conseguimos decifrar. Numa época em que no Brasil havia Pelé e Garrincha, porquê optar por Vavá? Um mistério a que pouca gente dá qualquer atenção. Curiosamente, os nomes fixam-se e raras vezes se procura encontrar uma razão para a sua escolha. Vavá é hoje em dia algo abstracto que, neste caso, designa um café, nada mais. Uma sonoridade apenas.

 Mas esta sonoridade faz retinir recordações e memórias de outros tempos. No final da década de 1950 e na de 60 do século passado o Vavá foi local de encontro e de tertúlias diárias de uma certa inteligência nacional, urbana, resistente ao Estado Novo, ponto de encontro de diversos grupos sociais. Um deles, os jovens do que viria a ser chamado o novo cinema português, onde pontificaram os nomes de Fernando Lopes, Paulo Rocha, António Pedro Vasconcelos, Alberto Seixas Santos, António da Cunha Telles, João César Monteiro, Manuel Costa e Silva, entre outros que habitavam perto e ali se reuniam diariamente, à noite, para a bica da praxe e a conversa habitual. Foi aqui que se convencionou ter nascido o novo cinema português, que um filme como “Verdes Anos”, de Paulo Rocha, confirma (grande parte filmado no edifício do próprio Vavá onde então morava o seu realizador).

 Mas o café não era apenas refúgio de jovens cineastas, mas também de um ou outro veterano, como era o caso de Manuel Guimarães, o mais conhecido realizador português a testemunhar a influência do neorrealismo italiano no nosso país, com títulos como “Saltimbancos” ou “Nazaré”. Não confraternizavam todos na mesma mesa, o conflito geracional existia. Guimarães era frequentador de uma outra tertúlia, onde surgiam vários opositores ao regime, “malta do reviralho”, como então eram chamados, como Aquilino Ribeiro Machado, engenheiro, filho do escritor Aquilino Ribeiro e futuro Presidente da Câmara de Lisboa, entre 1977 e 1979, Dias Amado, professor da Faculdade Ciências, Manuel de Azevedo, jornalista do “Diário de Lisboa”, Aventino Teixeira, coronel, um dos capitães de Abril, Pinto Bandeira, o artista plástico Sam, Rafael, proprietário de uma agência de publicidade, entre alguns mais. Senhoras de certa idade eram raras. Uma delas era a mulher de Manuel Guimarães, a Dª Clarice, que acompanhava sempre o marido.»

Legenda:

Foto 1 – Fotografia de Aida Santos

Foto 2 – Fotografuia do jornal I

Foto 3 - Site de Lojas Com História

Foto 4 – Site de Lojas Com História

Foto 5 – Site de Lisboa ComVida

sábado, 29 de janeiro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Viver é tomar partido.

José Rodrigues Miguéis em  Nikalai! Nikalai!

Legenda: desenho de José Rodrigues Miguéis

quinta-feira, 8 de abril de 2021

OLHAR AS CAPAS


Mercurio

 Nº 4

Antologia dos Melhores Contos dos Melhores Autores

Tradução: José Villaret e Santino Siragusa

Ilustrações: Henrique Brito

Agência Jornalística e Editorial, Lda, Lisboa s/d

E esse vento, nunca vi nada assim. Diz que vai por aí muito destroço, mortes, inundações. A chuva cai como no cinema. Uma chuva mesmo americana. E os vizinhos a olhar. Que esperam eles? O pai sai, em mangas de camisa. São horas de ir limpar as cinzas da fornalha, sacudir as grelhas, recolher o lixo do elevador por onde sopra um vento  que cheira a podridão. «All right! Let me go!». O janitor vai ao seu serviço e a morta, fica morta. A chuva amainou. A noite parece cansada do temporal. O ar está morno.

«Gee», a gente esta noite vai mas é ao cinema distrair um migalho. A casa ficou cheia do crime

José Rodrigues Miguéis do conto Beleza Orgulhosa

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Isto é o Inverno que nos trouxe um frio de rachar, como o lisboeta que sou, há muito não lembrava.

Folheando José Rodrigues Miguéis:

«Esta manhã assim que abri os olhos, ouvi um piano que enchia a casa de sonoridade: Chopin, uma mazurca, e tocada por mão de mestre. Foi uma coisa que sempre me dispôs bem para todo o dia, acordar a ouvir música.»

Leio este pedacinho do mestre e pergunto-lhe se em vez de uma mazurca de Chopin, não poderá ser um Nocturno, o no. 1 op. 9, tocado, com mestria, pela Maria João Pires?

1.

Percorreu os natais suficientes para saber de ciência certa, que nunca lhe aparece no sapatinho o que queria. Sonhou discos e livros, filmes também, uma caixa de esplêndidos robustos Cohiba, algumas garrafas de gin, mas que ninguém se atreve a oferecer, escudados naquele princípio de, dizem, o mais certo é teres tudo, ou então são coisas que fazem mal à saúde…
Por isso, todos os anos, toma as suas precauções e oferece-se a si mesmo as costumeiras prendas, as que nunca lhe provocam o que quer que seja: nem surpresa, nem desilusão…

No Natal de 97, comprou o duplo CD que Maria João Pires gravou para a Deutsche Grammophon com os Nocturnos de Chpin.

2.

The Dead, filme de John Huston.

Aquele jantar de Natal que reúne a Gente de Dublin com que John Huston se despediu do número dos vivos. Foi numa cadeira de rodas, com uma garrafa de oxigénio ao lado, que o filme foi rodado. Morreu entretanto e seria um dos seus filhos a terminar o filme.

Não haverá outro jantar como aquele na história do cinema. Só mestres são capazes destas coisas. Festa de Babette à parte porque isso é uma outra história. Talvez o jantar na colónia francesa no Apocalypse Now, versão remix, se assemelhe um pouco, o  jantar em que Coppola exigiu que os vinhos estivessem à temperatura em que devem ser bebidos.

Revendo o filme de John Huston, i maginei a lareira que não tenho, mas gostava de ter. Sentado a olhar o lumi, como dizem os alentejanos, um charuto, um gin. Folhear um livro ao acaso, talvez Memorial do Convento, largamente sublinhado, reler algumas passagens, talvez esta:

«… só uma mulher que está deitada num restolho com um homem em cima de si, cuida ver qualquer coisa a passear no céu, mas julga serem visões próprias de quem está a gostar tanto.»

Se bem se lembram, Blimunda e Baltasar, estavam a ser sobrevoados pela Passarola de Bartolomeu de Gusmão.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

POSTAIS SEM SELO

A serenidade é a maior virtude da inteligência.

 José Rodrigues MiguéisPáscoa Feliz

 Legenda: imagem Shorpy

terça-feira, 21 de julho de 2020

SARAMAGUEANDO


Conheci José Rodrigues Miguéis algum tempo depois de, no ano de 1959, ter começado a trabalhar na Editorial Estúdios Cor, de que eram proprietários, meio por meio, Manuel Correia e Fernando Canhão, e director literário Nataniel Costa. Miguéis havia publicado, um ano antes, o livro de contos e novelas Léah, excelentemente acolhido pelo público e pela crítica de então. Foi essa a primeira obra que li dele, e não necessito dizer que me entusiasmou. Não sei exactamente quando conheci Miguéis em pessoa, que por aqueles dias estaria nos Estados Unidos. O que, sim, sei, é que desde a narrativa Um homem sorri à morte com meia cara, publicada em 1959, até ao romance Nikalai! Nikalai!, que apareceria em 1971, passando por A Escola do Paraíso e O passageiro do Expresso, ambos de 1960, Gente da terceira classe, 1962, e É proibido apontar, 1964, os meus contactos com José Rodrigues Miguéis foram constantes, praticamente diários quando se encontrava em Portugal, frequentes, por carta, quando regressava aos Estados Unidos. Essa correspondência, que mereceu ser escolhida para a tese de doutoramento de José Albino Pereira (e no mesmo plano ponho a correspondência trocada com Jorge de Sena), dá-me o direito de dizer que não tenho feito má figura neste mundo. A minha relação epistolar com Miguéis só se rompeu quando saí da Editorial, nos finais de 1971. Vi-o algumas vezes, poucas, depois, não houve mais cartas, que eu recorde, mas ficou-me para sempre a recordação de uma personalidade extraordinária, com uns dons oratórios fora do comum e uma memória capaz de recriar em poucas palavras as situações mais complexas. Uma simples conversa com ele era um presente real, dialogar com a sua brilhante inteligência tornava mais inteligente o interlocutor. Pessoalmente, e sem querer gabar-me por isso, aproveitei desses momentos o melhor que pude. Morreu há quase trinta anos, mas recordo-o como se fosse ontem.

José Saramago em O Caderno 2º volume

sexta-feira, 17 de julho de 2020

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Há uma frase de José Rodrigues Migueis que José Gomes Ferreira citou em A Memória das Palavras:

«Os sonhos da juventude, realizam-se sempre. Se não aos trinta, aos quarenta anos… ou aos cinquenta… ou aos sessenta… mas realizam-se sempre… A questão está em querê-lo bem do fundo da teima dos ossos!»

Exilado nos Estados Unidos, José Rodrigues Miguéis, mesmo longe, assistiu à queda da ditadura, viu a cor da liberdade, como poetizou Jorge de Sena.

Morreu em Nova Iorque no dia 27 de Outubro de 1980.

Tinha 78 anos.

«Muitas vezes me perguntaram, porque é que não regresso? Talvez porque nunca cheguei a partir.»

Por vontade expressa as suas cinzas vieram para Portugal onde chegaram em Maio de 1981 e tal como escreveu em A Escola do Paraíso:

«Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficará para sempre dentro dele como um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir e de voltar: quando? e  para onde?»

Digo-o com mágoa, muita mesmo: José Rodrigues Miguéis está praticamente esquecido.

E é uma pena que não seja lido.

Segundo uma nota final que escreveu, Miguéis diz-nos que começou a escrita de O Milagre Segundo Salomé, sentado numa mesa d’A Brasileira do Chiado «Junto à porta, e sozinho como quase sempre, eu tenha tomado num papelinho de acaso a primeira nota para uma cena que viria a ser germe e fulcro do romance: «Onde a lava transborda,»

Deu-o, provisoriamente, por terminado pelos anos cinquenta e recopiou-o, em forma fina,l entre 1966 e 67. Deu-o a ler a Mário Castro, a quem o livro é dedicado, a Rogério Fernandes, José Saramago, Maria da Graça Amado da Cunha, Prof. Oliveira Marques, outros de que não recorda o nome e todos tiveram, além de reparos, palavras de encorajamento.

«Houve até quem me incitasse a publicá-lo em pleno caetanismo - -«É agora a altura!» - num surto de crença nas boas intenções de que está cehio o nosso pequeno inferno. Quanto a mim, era mais um Romance-para-a-Gaveta, como outros, menos felizes, que esperam drástica revisão.»

Ainda da nota final, que tenho vindo a citar:

«OMilagre Segundo Salomé não é um romance histórico: não pretende reconstituir factos ou acontecimentos nem evocar pessoas cuja realidade ou verdade será apenas a que uns e outras assumirem aos olhos do leitor; e os que se inspiram da realidade aparecem aqui transpostos, anacronizados, telescopados ou conjugados seguindo as conveniências da narrativa. Qualquer semelhança entre este «milagre» e algum milagre do mundo não ficcional, deve-se apenas a uma assimilação lógica ou formal, e não ao desejo de fazer proselitismo ou de rebater o segundo.»

Miguéis considerava-o o seu melhor livro, mas a publicação em 1975, durante o PREC, prejudicou fortemente a atenção que crítica e leitores lhe poderiam conceder, o que deixou Migueis profundamente desgostoso.

Mas é um livro extraordinário que retrata a sociedade lisboeta nos primeiros anos do século XX, a decadência dos ideais da Repúblca que originarão o 28 de Maio de 1926 e tudo o que se lhe seguiu.

José Rodrigues Migueis recusou sempre qualquer espírito de nacionalismo, mas tinha um enorme sentimento pelo País onde nasceu, e exigiu ser sepultado em Lisboa.

No topo do texto, o monumento que encima o local onde estão depositadas as suas cinzas.

Reproduz-se a noticia que o Diário de Lisboa, aquando da chegada dos restos mortais, publicou no dia 4 de Maio de 1981.

sábado, 27 de junho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

SARAMAGUEANDO

Se no dia em que sair daqui sair não tiver ainda (já) outro emprego, começo o ano da estaca zero, completamente desprovido. Mas continuo a ter uma grande consideração por mim mesmo.

Miguéis por baixo deste parágrafo escreveu a seguinte nota:

Bravo! seu Saramago.

Não espantam estas palavras de José Saramago.

Uma integridade, outras coisas mais, agarrada, toda uma vida, à teima dos ossos.

«Que nos importa morrer se não morrermos de rastros?»

Versos de Cantiga de Ódio de Carlos de Oliveira.

«Posso morrer de fome mas não peço esmola.»

 «Só sei que “para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

Palavras de Mário Henrique Leiria em Depoimentos Escritos.

Foi a coragem, outras coisas mais que, em 1975, face ao despedimento do Diário de Notícias, à recusa dos seus pares e camaradas de Partido em que integrasse a equipa de O Diário, que o levou a viver de traduções, de colaborações várias, de arrancar para o Alentejo e do chão levantar um livro que o levaria, anos passados, ao Prémio Nobel da Literatura.

Apenas se conhece a versão de José Saramago sobre a sua substituição, por Natália Correia, à frente da direcção literária da editora Estúdios Cor.

Natália Correia, o que lhe sobrava em talento poético, escasseava-lhe em outros predicados que definem as pessoas.

Uma lindíssima mulher, segundo opinião corrente e variada, mas de uma vaidade cega que a conduzia a becos sem saída.

Luiz Pacheco numa das suas muitas entrevistas-descasca-pessegueiro, chama-lhe
 «degenerasda», e conta a história de que, numa das suas estadias na prisão do Limoeiro, Natália Correia teve lá em casa a mulher de Pacheco mais um filho pequeno, mas tentou assediar a rapariga, Pacheco  avança uns pormenores escabrosos e remata que, quando saiu da prisão, «esclareceu o assunto com a Natália».

Natália Correia não teve qualquer pejo em substituir José Saramago.

O contrário, certamente, não aconteceria.

Não são conhecidas as razões por que o fez mas, provavelmente, não andarão longe de motivos fúteis a roçar lampejos de inveja, porque de dinheiro não precisava Natália para viver dado que, ainda segundo Pacheco, «só «arranjava amantes velhos com massa.»


Legenda: contracapa da Correspondência entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago.

Texto publicado em 23 de Julho de 2017