Continuo a lamentar que a Fundação José Saramago ainda não tenha deitado mãos à tarefa de reunir as cartas que José Saramago trocou com os seus pares e com os seus leitores, apesar das muitas observações que Saramago foi deixando ao longo da vida que é um trabalho importantíssimo.
Apenas existe
um volume com a Correspondência trocada com José Rodrigues Miguéis, organização
e notas de José Albino Pereira, publicado pela Editorial Caminho, em Abril de
2010.
É desse livro
que respigamos uma carta de José Rodrigues Miguéis, datada de Nova Iorque no
dia 21 de Maio de 1971:
«Querido Saramago:
Chegou-me há semanas o seu livro de
crónicas, que venho agradecer-lhe com algum atraso, porque tencionava, e não me
tem sido possível, fazê-lo com mais largas considerações. Pelo que lhe escrevi
há tempos, quando me deu a ler algumas delas, já Você sabe o que delas penso. A
leitura do volume só me conformou nessa opinião. Não creio que nenhum outro
cronista nosso escreva hoje de maneira tão toante, directa e moderna – e tão
bem! – sobre os pequenos e grandes quotidianos da nossa vida: humanidade,
ironia, e um pessimismo sorridente, isento de amargura. Algumas são pungentes,
como a Neve Preta, outras de um sereno humor que contrasta com o tom geral da
nossa literatura e jornalismo. Embora reunidas em volume, se acentue o efémero
das crónicas de jornal, estas guardam a flagrância dos apontamentos de um
pintor-poeta que percorre a paisagem do dia a dia e do lugar, ou a outra, mais
funda, das memórias.»
Legenda: entrada de 8 de Agosto de 1998 no Último Caderno de Lanzarote

Sem comentários:
Enviar um comentário