«O meu ponto é apenas chamar a atenção para um facto chocante. Há quatro anos, convocados a escolher entre Montenegro e Moreira da Silva para liderar o PSD, 26.975 militantes não hesitaram e votaram massivamente no agora primeiro-ministro. O resultado foi claro: 72,5% para Montenegro e uns curtos 27,5% para Moreira da Silva.
Há um fosso que separa Moreira da Silva de Montenegro: um tem carreira
profissional, percurso internacional (na Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico e, agora, na Organização das Nações Unidas) e
experiência governativa; o outro tem um passado apenas tribunício,
complementado, sabemos agora, pela promoção de uma empresa familiar com uma
carteira de clientes intimamente ligada ao seu percurso partidário regional.
Porque escolheram, então, os militantes do PSD Montenegro? Não foi certamente
por questões de posicionamento ideológico: Montenegro opunha-se a Rio, mas
escolheu para coordenar a sua moção o autor da moção do anterior líder, o agora
ministro Miranda Sarmento. Os motivos são outros. No que é uma lei de ferro, os
partidos de poder fecharam-se, desligaram-se da sociedade, não estão
interessados em líderes com percursos autónomos, e os critérios que organizam
as escolhas internas dependem de uma teia de cumplicidades irrelevante — quando
não perniciosa — para a governação, mas decisiva para conquistar o aparelho.
O desfecho não poderia ser outro: entre Moreira da Silva e Montenegro, a
escolha foi clara. Não surpreende, depois, que os resultados sejam os que se
veem — sobre Gaza, sobre Trump e Putin, e na governação do país.»
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