quinta-feira, 31 de outubro de 2019

BRUXAS? DIZEM QUE EXISTEM!...


Abóboras gritam na calada da noite.
Travessuras ou gostosuras.
A moda chegou vinda dos filmes americanos.
Tornou-se depois o negócio que está por aí espalhado.
Na minha infância era o pão por Deus.
Não andava na catequese, muitos andavam e solidarizava-me com a malta da rua e de saco na mão andávamos naquela cantilena.
Fazíamos por não nos sentirmos sozinhos.

OLHARES


A Refood é uma organização sem fins lucrativos que pretende eliminar o desperdício que se verifica, no final dos dias, nos restaurantes, supermercados, padarias, cafés, pastelarias, hotéis. Grupos de voluntários recolhem os desperdícios e distribuem alimentos aos que precisam.
Este apelo encontrava-se numa paragem do autocarro n730 perto da Escola Nuno Gonçalves. Não é muito visível mas alguém escreveu no cartaz:

CARIDADE CORROMPE. TRABALHO SIM, ESMOLAS NÃO!

O dia já estava em si, cinzento.
Ficou pior.
Lembrei-me de uma frase de Maria Judite de Carvalho:
«Todos estamos sozinhos. Sozinhos e muita gente à nossa volta».

OLHAR AS CAPAS


Retalhos da Vida de um Médico

Fernando Namora
Capa e ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia
Editorial Inquérito, Lisboa s/d

Certa vez, chegou ali um homem rude, dos seus cinquenta anos, com as rugas da nuca e da face preenchidas por décadas de sujidade. Enquanto o observava, distraía-me a seguir a geografia dessas linhas de porcaria estratificada. Dei-lhe uma palmada nas costas, para o dispor bem, e disse:
 - Pode ficar internado, sim senhor. Vai tomar um banho, despir esse fato e entra já hoje para a enfermaria.
 - Banho, Senhor. Doutor?
 - Banho, pois… É o costume.
O homem levou as mãos às costas, coçou-as, indeciso e agastado.
 - Banho… – repetiu ele, em palavras – Banho, Sr. Doutor, é que não consinto. Não vejo de que me sirva para a minha doença.
 - Pois isso nada tem que ver com a sua doença, é verdade. Mas é do regulamento; é uma lei para si e para todos. . O banho e a mudança de roupa. Temos cá em baixo uma casa para guardar o fato dos doentes. Pode estar descansado que fica seguro.
O homem deu um passo para a saída e pegou no chapéu. Interpelei-o ainda:
 - Então o senhor não toma banho em sua casa?
 - Tomei, sim senhor, antes das sortes e antes do meu casamento. A gente não vai chapinhar na água toda a vez que se lembre. Está um homem sujeito a apanhar um catarral ou um resfriamento.
 - Qual resfriamento! Deixe-se disso e espere aí pelo criado.
Ele, embora reticente, acabou por conceder.
Dois dias depois coube-me a vez de prestar serviço na enfermaria dos homens. Numa das camas, o doente tinha a roupa arrepiada para a cabeça, como se tivesse frio. Peguei no dossier e perguntei ao enfermeiro:
 - Quem é este homem?
As mãos do doente afastaram os lençóis com brusquidão. E, de olhos injectados, vermelhos de febre e rancor, disse numa voz rouquejada, mal se percebendo as palavras:
 - Sou eu, senhor doutor! Tenho um catarral e é por sua culpa. Eu bem lhe disse que não se brinca com a água!
O homem teve realmente uma pneumonia.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


O que há de mais aristocrático na garrafa de champanhe é que não deixa que lhe ponham de novo a rolha.

Ramón Gómez de la Serna em Greguerias

OLHAR AS CAPAS


O Santo Contra a Scotland Yard

Leslie Charteris
Tradução: Mascarenhas Barreto
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 183

Dum ponto do Berengaria, chegara-lhes o grito histérico duma solteirona ultrajada, desmaiando sob o chapéu de palha mais ridículo que é possível imaginar.
Patrícia tornou a virar-se, denotando no rosto o mais vivo espanto.
Que diabo foi aquilo? – perguntou.
O Santo sorriu angelicamente.
- Foi um grito de Miss Lovedew. Abriram a mala e deparou-se-lhes Bertie sem calças – explicou o Santo.
- Podemos continuar a nossa carreira aventurosa.

O CÉU VISTO DE CIMA


Tu já estavas prometido à tristeza
da cidade mais pequena. Mas a noite
tinha passagens secretas, bastava seguir
os sinais.

Uma sombra avançava muito fundo
nos teus estratos, tacteavas um território
de pedras difíceis, às vezes perigosas.

Depois imergias e a boca estava amarga
outra vez, a roupa amontoada na cadeira
como o princípio de um poema indesejado.

Reflectido nos teus olhos, o céu
era um lugar inabitável.

Rui Pires Cabral em Resumo: a poesia em 2011

terça-feira, 29 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Educação Sentimental

Maria Teresa Horta
Editorial «A Comuna», Lisboa, Fevereiro de 1976

As mãos

Porque das mãos
toda a importância está
no que seguram

Digo-vos:

naquilo que procuram
e afloram por vezes
sem aceite

nem ternura…

Porque das mãos
toda a razão está
no que descuram

Digo-vos:

naquilo que desfrutam
e manipulam por vezes
sem vontade

nem brandura…

A SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Filhos e versos, como os dás ao mundo?
Como na praia te conversam sombras de corais?
Como de angústia anoitecer profundo?
Como quem se reparte?
Como quem pode matar-te?
Ou como quem a ti não volta mais?


1950

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que â morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge de Sena em Fidelidade em Poemas Escolhidos

Legenda: fotografia de Sarah Kurchak

TRUMPALHADAS


A última trumpalhada que aqui publicámos, está datada do dia 19 de Janeiro. Curiosamente um deslize de Marcelo Rebelo de Sousa que, em Paris, entendeu convidar Donald Trump para visitar Lisboa.
O coro de protestos que viu chegar a Belém, terá levado a colocar o assunto em banho-maria.
Claro que o presidente dos Estados Unidos, desde Janeiro, tem continuado a pôr a pata na poça, mas tornou-se indecente encharcar os viajantes do cais com tanto disparate.
Mas voltamos hoje porque este recorte, tirado do Público de 19 de Outubro, permite alimentar alguma esperança que o homem, mais dia, menos dia, seja obrigado a embrulhar a trouxa e zarpar da Casa Branca.

OLHAR AS CAPAS



Em Nome da Terra

Vergílio Ferreira
Capa: José Antunes
Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1991

Espera, deixa-me ver-te devagar. Dás uns passos, bates uma palmada no chão e sobes alto e lá no ar dás uma volta sobre ti, mas antes de caíres de pé, imóvel, fico a ver-te parada no ar. Corpo elástico, esguio, fico a ver-te. Flutuas imponderável, a Terra não tem razão sobre ti. Vejo-te no espaço, todo o corpo elástico numa curva dos pés até ao extremo das mãos, ou talvez não, recomeça o salto para ver melhor. Talvez o corpo não em prancha ao alto mas enrolado sobre si e giras no ar em rodízio até te desenrolares e caíres depois em pé firme. Queria dizer-te como isso me maravilhou, o teu corpo poderoso, desprendido das coisas, liberto da sua condição bruta, feito de um esplendor imaterial. Terei dito bem? Imaterial. Quanta coisa havia nele, os teus ossos, as tuas vísceras, mas tudo existia leve e eu só lhe via a sua forma perfeita de voo. Há uma órbita da exactidão como se diz dos astros e tu seguia-la, um rigor matemático com que o universo existe. Depois repetiste o exercício, suponho que era para «aquecer». Porque as barras assimétricas ficaram livres e tu foste para lá. Não gostei tanto e vou dizer-te porquê. Em todo o caso. Primeiro houve a corrida talvez para a barra mais alta, as pernas abertas para não embateres na mais baixa. Depois houve um bater de pernas juntas contra a barra mais baixa como uma barbatana. E por fim todo o corpo numa só peça rodou suspenso da barra mais alta e ficou um instante imóvel lá no alto. Ligeiro leve, Lá no alto, Depois rodou de novo, um deus fazia-o rodar no ar, Depois, como um macaco de galho em galho, o corpo veio para a barra mais baixa, voltou de novo para a mais alta. Depois rodou inteiro e aí veio em rodízio plantar-se imóvel no chão. Não gostei tanto, havia um macaco entremeado ao teu exercício, havia as pernas abertas descompostas ao mudares de barra, mas mesmo assim, como me entusiasmei. Bati palmas, elas ressoaram pelo espaço do Olimpo. Não fui bem eu que as bati mas o duplo de mim, não te sei explicar. As palmas foram à frente e eu já não as pude apanhar. Porque o homem, minha querida, tem sempre em si um outro de si e só num tarado é que os dois coincidem. Também não sabia bem porque o fiz, agora sei. Claro, havia a destreza, a perfeição da tua realização, mas agora sei que havia outra coisa. Queria dizer-te simplesmente que havia o teu corpo, mas não chega. Havia outra coisa – que coisa? Mónica, minha querida. Havia, deixa-me pensar. Ah, poder falar do teu corpo. Perder o pé da realidade. Fechar à volta uma cortina para que nada de ti me fugisse e ficar eu só diante de ti. Sinto agora alguém dentro de mim a perguntar e depois? que é que aconteceu? Sei lá o que aconteceu, quero lá saber. Quero é estar contigo no nada do tudo o que acontecer. Saturar-me da tua presença. E ver-te. E ver-te. Que importa o que «acontece»?

FINJO QUE SOU MAS NÃO SOU


Finjo que sou nas não sou.
Eu nem sei o que é ser.
Pra’ qui estou.
Até ver.

Finjo que estou mas não estou.
Eu nem sei como se está.
E por aqui me vou.
Até já.

Só quando finjo que finjo
Sou afinal quem pareço.
Esta não atinjo.
Esqueço.

Vitor Silva Tavares de púsias em  textinhos,intróitos &etc

domingo, 27 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


De muitas mortes se morre e nada jamais regressa.

Carlo Vittorio Cattaneo em Correspondência com Jorge de Sena

OLHAR AS CAPAS


O Desporto na Poesia Portuguesa

Pesquisa, selecção e notas: José do Carmo Francisco
Capa: António Carmo
Edição do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, Lisboa, Dezembro de 1989

Lamento dum Coração Espectador

Via primeiro num campo de pó – era o jogo
Tardes inteiras entre o rio e a estrada
As camisolas mesmo no Inverno eram fogo
Aos domingos os jogos eram «tudo ou nada».

Via depois num campo rodeado só de casas
Perto de fábricas numa vila da periferia
Pássaro pesado sem grande peso nas asas
Fugia da escola – para jogar na alegria.

Apanhado no preço do bilhete do «peão»
Finalmente viu o jogo num estádio relvado
Os olhos no campo – sem olhar a multidão
O regresso a casa como se fosse cansado.

Só lamenta agora que cada vez mais leis
Procurem marcar os golos judicialmente
Num futebol sem relva – só com papéis
Nos gabinetes longe do coração da gente.

Poema de José do Carmo Francisco

NOTÍCIAS DO CIRCO


Portugal situa-se no top 3 dos países da Comissão Europeia que mais dinheiro desvia para «offshores».

Só somos superados pelo Chipre e por Malta.

Entre 2004 e 2016, o país perdeu mais de 1,3 mil milhões de euros em impostos e em que  65% da receita fiscal perdida em Portugal foi nos rendimentos de capital.

sábado, 26 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS



O Mundos dos Outros

José Gomes Ferreira
Capa: António Domingues
Colecção Os Livros das Três Abelhas nº 40
Publicações Europa-América, Lisboa, Junho de 1961

Cada qual agarra em mim a aparência que mais lhe convém. Há patetas que me julgam engraçadíssimo e outros que choram tédio mal envesgam a minha cara longa de gato pingado. Horrorizo meia dúzia de pessoas com a minha má-criação ao mesmo tempo que fascino outra dúzia com a amenidade de açúcar do meu temperamento. E depois de empolgar três ou quatro tolos com alguns discursos inteligentes, não me importo de exibir um solo de estupidez diante dum auditório de cretinos espertos. Nem me indigno quando aquele barrigudo me pergunta se persisto em ir todas as noites ao Estoril jogar roleta. Em compensação, outro, mais magro, imagina que deposito dinheiro nos bancos. E outro, ainda mais magricelas, prega-me sermões para me tirar da cabeça a ideia do suicídio.
Isto sem me referir aos que não desistem de louvar, na minha pessoa, o músico falhado, o ex-poeta do «Longe», o ex-advogado sem clientes, o tradutor de fitas, o ex-cônsul, o jogador de barra, o homem que mete o dedo no nariz ou o neurasténico dos nervos enrodilhados.
A única divergência entre mim e a nuvem é que o pobre farrapo de vapor de água desliza pelo céu desprendido e alheio à opinião dos olhos dos homens...Mas eu não.
Eu colaboro.
Consciente ou inconscientemente, adapto-me às opiniões provisórias dos outros. Entro nas mil comédias do ramerrão diário, sem me enganar nos papéis ou confundir personalidades.
Graças ao meu profundo talento de Proteu, nunca os palermas que me julgam tímido, assistiram a um rasgo de revolta da minha parte. Nem os que me consideram abaixo da craveira normal puderam arrepender-se do seu juízo a respeito da minha imbecilidade.
Sou sempre o que eles querem: bom, mau, epiléptico, rude, cínico, amargo, bêbado, terno, violento, filosofo, íntegro, puritano, devasso, pianista, sonâmbulo, tudo...
Só nunca fui uma coisa: eu próprio.
Mas esse é um dos muitos segredos que hei-de levar para a sepultura.

AMOR COMO EM CASA


Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que não é nada comigo.
Distraído percorro o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro.
Devagar te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no amor como em casa.

Manuel António Pina de Ainda Não é o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas um Pouco Tarde em Poesia Reunida

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


A minha casa é onde estás.

José Agostinho Baptista

Legenda: pintura de Edward Hopper.

NOTÍCIAS DO CIRCO


As nossas Forças Armadas estão a transformar-se numa autêntica tropa fandanga.
Temos o caso dessa ópera bufa que é o roubo de armas em Tancos em que ninguém se entende, surge agora a notícia de que um major-general foi exonerado do Comandante Operacional do Exército na Madeira.
Em causa estão, entre outras possíveis questões, o eventual uso de material de guerra e de dinheiros públicos para fins particulares, assim como saber-se em que termos decorreu o transporte da peça de artilharia de uma unidade militar para o campo de golfe na zona oriental da ilha da Madeira e como foi decidido deslocar um equipamento de combate sem conhecimento do Estado-Maior-General das Forças Armadas.
Deixem-se de fantasias, recebem o ordenado ao fim do mês, ou reformem-se. ou fiquem na sala de oficiais a jogar à lerpa.
Os contribuintes civis que somos, agradecem.

OLHAR AS CAPAS

JL

Jornal de Letras, Artes e Ideias

Ano XXXIX – Número 1280
De 3 de Outubro a 5 de Novembro de 2019
Número dedicado ao nascimento de Jorge de Sena
Jorge de Sena nasceu a 2 de Novembro de 1919

Editorial – José Carlos de Vasconcelos
Poesia, Peregrinação e Portugal – António Carlos Cortez
As Ficções de um Poeta – Jorge Vaz de Carvalho
Uma Correspondência Única (com Eugénio de Andrade) – Eugénio Lisboa
Divulgar um Escritor Plural – Luís Ricardo Duarte
Sena e Sophia, Dois Poetas no Princípio do Mundo – Luís Filipe Castro Mendes

Acho que havia muita intuição, mas sobretudo uma atenção constante ao mundo para lá da superfície das coisas.
Sofreu muito com o exílio e com a sensação de nãp ser reconhecido, mesmo depois de uma longa carreira académica,
As cartas servem-lhe para elaborar certas ideias que depois dão origem a poemas, narrativas, ensaios ou críticas.
Uma das suas dimensões mais interessantes é a defesa da liberdade, a fluidez de géneros, comunicando com leitores de todas as idades, tendências, pertenças e opções.

Isabel de Sena

TIJOLO


Um operário esmagado no pátio.
É desta massa que se faz o barro
o tijolo e a telha.

-Os nomes? –
Focos de luz na cara
pontapés no baixo ventre.
. Basta dizeres um nome vais-te embora!

Quando o coração não resistiu
e o corpo derrocou pelo sobrado
do sexto andar o lançaram
barro em sangue amassado.

Ferozes eram. Estavas só.
Quantos assaltos invasões de medos.
Não desamarraram o lenço e os nós
que guardavam os nossos segredos.

António Borges Coelho em Fortaleza

Legenda: pormenor da capa, da autoria de Henrique Ruivo, do livro de poemas Fortaleza.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


As cinzas de cigarro que ficam entre as páginas dos velhos livros são a melhor imagem do que neles ficou da vida de quem os leu.

Ramón Gómez de la Serna em Greguerias

OLHAR AS CAPAS


As Mãos na Água A Cabeça no Mar

Mário Cesariny
A Phala – Edição do Autor. Lisboa, Janeiro de 1972

Não haverá ninguém insubstituível, mas podem passar-se muitos anos, já lá vão vinte, antes de que seja preenchida a lacuna causada pelo desaparecimento de uma figura exemplar. Certo que a diligência dos prosélitos não esquece, que nada será esquecido do enriquecimento conduzido à cultura, da mensagem «sempre viva», como se diz, dos que verdadeiramente representaram e enriqueceram a época. Não menos certo que o verno no pretérito declina a própria limitação, exalta, mas esvazia de substância. No caso do professor Bento de Jesus Caraça, a morte prematura aos 47 anos de idade, reforça, se se quiser, a mitificação da figura, mas quebra, angustiosamente para quem cá ficou, toda a promessa de desenvolvimento ulterior. Este, só o homem, aqui e agora, no-lo daria.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Como na ancestral sabedoria africana, em que as pessoas nascem com as palavras que lhes pertencem na barriga, e morrem quando as disseram todas.

Teolinda Gersão

OLHAR AS CAPAS



O Reverso do Espelho

Mickey Spillane
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa. Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 235
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Sim – murmurou -, apesar de toda a minha grandeza, apesar de ser um génio, sou inútil.
Enquanto falava, fez uma coisa que nunca fizera: mostrou-se a si mesmo e, pela primeira vez, viu a nulidade que era Ruston York. Sorriu de novo, ainda com a arma apontada a mim.
Não podia perder mais tempo, tinha de ser agora, agora! Dispunha, talvez, de um segundo apenas…
Ruston fitou-me e sorriu, consciente do que eu ia tentar.
- Sir lancelot… - murmurou, tristemente.
Depois, antes mesmo que eu saísse, sequer, da cadeira, voltou a arma, meteu o cano na boca e puxou o gatilho.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Os pais estão completamente ao telemóvel e as crianças estão a aprender com eles.

Dafna Lemish, investigadora norte-americana

ACABAR COM ESTA CONVERSA


Falas de contar-me a verdade e depois ameaças escrever por todo o lado no meu livro de poemas. Vamos acabar com esta conversa.
Manifestaste alguma curiosidade sobre se te amaria ou mataria em resposta a um dos teus gestos. Não sou um santo nem um assassino: não amo, mas também não mato. Faço amor e arranco as asas às moscas.

Leonard Cohen em A Chama

EI-LO PRESTES A REGRESSAR


Bem o sinto, bem o sinto.
Falo da próxima chegada de mais um Natal.
Neste fim-se-semana, o Expresso já trazia um suplemento com ideias para os Cabazes de Natal, não tardam os anúncios na televisão, os estaleiros da família Castro, em Lisboa, com vista à preparação e montagem das iluminações natalícias.
Não tarda muito, estarei à escrita, com os netos mais novinhos, o João e a Francisca, para as cartas a enviar ao Pai Natal.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

NOTÍCIAS DO CIRCO


Na semana passada, Marcelo Rebelo de Sousa convidou, para converseta, sessões de memes  e visita ao Palácio de Belém, uma série de gente a que chamam «influencers» que  eu entendo – mas quem sou eu ?! – ser gente que não se recomenda a ninguém, que se «notabilizam» por terem milhares de seguidores no Instagram, no Twitter, no Facebook, no sei lá mais o  quê, que  eu que nestas coisas das redes sociais considero-me  um E.T.

Esta gente, para além de frivolidades, intrigas, boatos, notícias falsas, não têm nada para dizer seja a quem for, e muito menos a um Presidente da República.

Mas Marcelo é assim.

Uma coisa destas, como ele um dia disse, não lembra ao careca.

OLHAR AS CAPAS



Longo Caminho Breve
Poesias Escolhidas 1943-1983

Luís Veiga Leitão
Prefácio: Fernando Guimarães
Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa s/d

Quem Escolhe o Caminho das Pedras


Quem escolhe o caminho das pedras
foge à fascinação do fácil

Quem escolhe o caminho das pedras
sabe de cor a cor do sangue

Quem escolhe o caminho das pedras
nada quer para tudo ser

Quem escolhe o caminho das pedras
ama o amor na raiz do lume

Quem escolhe o caminho das pedras
equilibra-se nos fios da morte

domingo, 20 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO



O maior grito pode ser um silêncio.

Almada Negreiros

sábado, 19 de outubro de 2019

RUI JORDÃO (1952-2019)


Soube da morte de Rui Jordão, quando, pela manhã, visitei o Largo da Memória do Luís Enes.

Logo me ocorreu um muito longínquo Benfica Feyenoord e deixei comentário:

«Dos mais elegantes intérpretes de futebol que vi jogar.
22 de Março de 1972: 2ª mão da Taça dos Campeões Europeus, jogo com o Feyenoord no velho Estádio da Luz. Na primeira mão o Benfica perdera, em Roterdão, por 1-0. Aos 5 minutos de jogo já Nené empatara a eliminatória. Depois foi um festival do mesmo Nené e do companheiro Jordão. Resultado final: 5-1.
Não mais esquecerei esta noite, não mais esquecerei o bailado coreografado que Jordão, depois de  meter o quarto golo, fez, na baliza norte, ao longo da linha final em direcção à bandeirola de canto. Deslumbrante.
Foi uma pena ter ido para o Sporting, dizem que era o seu clube de coração, mas foi um homem que dignificou todas as camisolas que envergou e a todas deu o seu melhor.
Já não há jogadores assim!...
Talvez um rapaz que joga no Liverpool, de seu nome Sadio Mané, aufere por semana cerca de 170 mil euros, se assemelhe.
Esta semana disse não esquecer os tempos de pobreza durante a infância.
«Para que quero dez Ferraris, 20 relógios com diamantes e dois aviões? O que faria isso pelo mundo? Eu passei fome, trabalhei no campo, joguei descalço e não fui à escola. Hoje posso ajudar as pessoas. Prefiro construir escolas e dar comida ou roupa às pessoas pobres.»
Com gente desta, podemos dizer que o futebol  pode ser mesmo o maior espectáculo do mundo.»

Quando pendurou as botas, jogava então no Vitória de Setúbal, não mais quis saber do futebol. Dedicou-se a uma paixão que sempre o acompanho: a pintura.

Rui Jordão era um homem simples.

Na entrevista que o excelente Fernando Assis Pacheco, lhe fez em Janeiro de 1988, e que intitulou «Sem Sombra de vedeta», perguntou-lhe qual era a sua refeição favorita. E este respondeu-lhe que era bife.

Assis que era um eterno gozador e praticante ávido  da boa comida, da boa bebida, comentou:.

Coisa mais monótona!

Jordão acrescentou:

Eu não tenho o prazer da mesa, seria incapaz de sair de casa para ir a tal ou tal sítio comer determinada coisa. De maneira que o que lhe estou a dizer é uma habituação: bife, arroz, às vezes peixe grelhado, pouca batata. No meu caso foram dezasseis anos desta dieta. De vez em quando lá experimentamos uma feijoada, ou um cozido à portuguesa, um bacalhau, mas nada disso entra no dia a dia.

Outra vez o Assis:

A culinária angolana seria impensável para a sua vida de jogador?

Impensável.

Recorda algum prato angolano preferido?

 Muamba. A que se come aqui em Portugal não é genuína, está falsificada.

Na abertura  da entrevista pode ler-se:

«Aí está ele outra vez, o goleador emérito, Tem 35 anos e escolheu Setúbal para voltar aos relvados, depois de um afastamento penosos em que se disse que acabar para o futebol. Rui Jordão, angolano de Benguela, quer manter-se honesto até ao fim da carreira sem cair no vedetismo.»

Assim foi.

OLHAR AS CAPAS



Retratos Falados

Fernando Assis Pacheco
Prefácio: José Carlos de Vasconcelos
Capa: Bárbara Assis Pacheco
ASA Editores, Porto, Maio de 2001

P. - Quais as qualidades decisivas para um jovem candidato à profissão de futebolista?
R. - Primeiro a humildade, e ela terá de continuar até ao fim da sua carreira. (Mas é humildade mesmo, não a imagem da humildade!) Depois a honestidade. Mesmo que o jogador a não encontre nas outras pessoas, é fundamental, até para a tranquilidade interior. E por fim o sentido do profissionalismo. Evidentemente que ao longo dos anos o jogador vai-se corrigindo pelos erros cometidos. Ninguém é perfeito. Porque o futebol é bastante difícil, sobretudo para essas pessoas humildes e honestas.
P. - Saltillo?
R. - O caso Saltillo veio cá para fora, mas há muitas outras situações, falo das relações clube-jogador, que nunca chegaram a ser conhecidas.
P. - Basicamente porquê?
R. - Porque o jogador está diminuído face ao patronato. É a este que continua a dar-se força. Depois o jogador, um egoísta, não tem quem o defenda. Resultado, muitas vezes defende-se calando-se.

(Entrevista a Rui Jordão, profissional de futebol que morreu no dia 18 de Outubro).

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

RELACIONADOS


De entre os temas que Carlos Paredes escreveu para peças de teatro e filmes, encontra-se António Marinheiro de Bernardo Santareno.

Esse tema faz parte do álbum Movimento Perpétuo.

É sempre tão estimulante, tão bonito, tão inebriante voltar a Carlos Paredes, «talvez esta mão que se desgarra(com garra com garra)esta mão que nos busca e nos agarra e nos rasga e nos lavra com seu fio de mágoa e cimitarra.», como escreveu Manuel Alegre.

Rui VieiraNery chamou-lhe Príncipe.

Um Príncipe de uma humildade arrepiante.

«Em 1958, é preso pela PIDE por fazer oposição a Salazar, é acusado de pertencer ao Partido Comunista Português, do qual era de facto militante, sendo libertado no final de 1959 e expulso da função pública na sequência de julgamento. Durante este tempo andava de um lado para o outro da cela fingindo tocar música, o que levou os companheiros de prisão a pensar que estaria louco - de facto, o que ele estava a fazer, era compor músicas na sua cabeça.» 

OLHAR AS CAPAS



Obras Completas
2º Volume
António Marinheiro, Os Anjos e o Sangue, O Duelo, O Pecado de João Agonia, Anunciação

Bernardo Santareno
Organização, Posfácio e Notas: Luís Francisco Rebello
Capa: Delgado Godinho
Editorial Caminho. Lisboa, Dezembro de 1984

ANTÓNIO (surpreendido, ferido): Doutra maneira, não nos deixam ficar juntos…
AMÁLIA: Sim, toda a gente diria que…
ANTÓNIO; Não te agrado?...
AMÁLIA: (reacção viva): Sim, tanto! Mas…
ANTÓNIO: Se me deixas, mato-me!
AMÁLIA (grito fundo de horror): Não!
ANTÓNIO: Mato-me, mato-me!
AMÁLIA: Ouve, António, escuta: eu nunca pensei em ti assim como… como homem, entendes?!
ANTÓNIO (grave): Eu sou um homem.
AMÁLIA (recuando, as mãos de novo sobre o ventre): És… Tu és um homem… (Pára de repente: grito deluz, síntese súbita de todos os seus sentimentos confusos.) Não, não! Tu és um rapazinho, tão novinho ainda… (mais uma vez se aproxima de António, acariciando-o.)
ANTÓNIO (que está sentado numa cadeira, poisando a face na mão de Amália infantil) Que voz a atua, Amália! Tão boa, tão meiga!... Quando me falas comigo, assim… é como se eu estivesse adormecido e as tuas palavras me chegassem em sonhos – num sonho bom. É verdade isto que eu te digo, Amália, juro! (Levanta a cabeça, fixando Amália) Queres saber?
Parece-me que a tua voz não é nova – coisa mais esquisita! -, que é antiga, antiga… que sempre a ouvi, sempre!... (Volta a apoiar a faxe sobre as mãos de Amália) É tão bom escutar as tuas palavras… Tão bom!...
AMÁLIA (muito suave, maternal): Quem me dera que tu fosses pequenino, António! Queria poder pegar-te ao colo, esconder-te todo nos meus braços… E sofro… Ai sofro muito! Porque já não posso fazê-lo. (Com um quase-espanto sincero.) Que crescido… Que grande, que alto que estás, António!
ANTÓNIO (infantil): Sei… Tenho a certeza de que não é de agora a tua voz… Ouvia-a muitas vezes, antes de te ver, Amália! Muitas vezes, muitas, muitas… escondida como um fio de água clarinha, no fundo na fala de outra gente, ou no vento, ou no mar: saltava de repente, como um relâmpago, e logo deixa de a escutar. Mas era ela, era a tua voz, Amália! E eu ficava todo a tremer, alagado em suores frios, com um gosto a sangue na boca…

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

OLHARES

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A minha vida profissional desenrolou-se, primeiro numa empresa alemã de import-export, que fugiram logo após o 25 de Abril sem pagar um chavo aos trabalhadores, depois numa agência de navegação.

Ambas as empresas tinham escritórios no Cais do Sodré.

Durante todo esse tempo, tinha o privilégio de subir e descer o Chiado.

Assisti a todas as transformações que a zona foi sofrendo ao longo dos anos, e nesse lapso de tempo está o trágico incêndio que, naquele 25 de Agosto de 1988 provocou o drama que não mais esquecerá.

Soube agora que a Casa Pereira, na Rua Garrett nº  38, tem os dias contados

Uma loja pequena, mercearias finas, aberta desde 1930.

Volta e meia entrava mesmo que não tivesse nada para comprar. Deliciava-me com o aroma do café, cujos lotes eram preparados pelos trabalhadores e o olhar pelas prateleiras repletas de bolachas artesanais, chás, chocolates, garrafas de licores e Vinho do Porto.

Naturalmente, a Casa Pereira fez parte dos 63 estabelecimentos que em 2016 formaram o primeiro grupo do programa Lojas com História.

Muitos já fecharam portas ou mudaram de ramo.

Lê-se no sítio da Câmara Municipal de Lisboa, que Lojas com História é um

«Projeto que surge no âmbito de um programa criado em Fevereiro de 2015 e que tem como prioridade trabalhar com o comércio tradicional e histórico da cidade de Lisboa no sentido de, por um lado, preservar e salvaguardar os estabelecimentos e o seu património material, histórico e cultural, e por outro lado, dinamizar e reativar a atividade comercial, essencial para a sua existência. É movido por um sentido de urgência na proteção deste património, sabendo que nele reside uma parte relevante da identidade e caráter da cidade e que é, ao mesmo tempo, um importante mecanismo social e económico para o desenvolvimento da cidade.»


Mas os donos da Casa Pereira vão fechar portas no final do ano.

As exigências actuais do negócio não se compadecem com romantismos.

Já está tudo apalavrado e a loja vai ser vendida mas, tanto quanto se sabe, não se manterá no ramo.

«Antigamente, 80% eram clientes habituais, agora quase todos os clientes são turistas e gente de passagem.»

Por Dezembro, os chocolates para os netos ainda serão comprados na Casa Pereira e tentarei dar-lhes conta do significado que isso encerra.

Tentarei…

RELACIONADOS


Para celebrar os 12 anos de carreira a solo, depois da saída dos Madredeus,  Teresa Salgueiro compôs música para um poema de José Saramago, tirado de Provavelmente Alegria.

O vídeo com a canção já está disponível e fará parte da celebração da carreira de Teresa Salgueiro a solo, e é ao mesmo tempo um passear pela  sua carreira a solo e chamar-se-a, tal como o poema de Saramago: Alegria.

Concertos no dia 4 de Novembro da Casa da Música, no Porto, e no dia seguinte, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

ALEGRIA


Já ouço gritos ao longe
Já vem  a voz do amor
Ó alegria do corpo
Ó esquecimento da dor

Já os ventos recolheram
Já o Verão se nos oferece
Quantos frutos quantas fontes
Mais o Sol que nos aquece

Já colho jasmins e nardos
Já tenho colares de rosas
E danço no meio da estrada
As danças prodigiosas

Já os sorrisos se dão
Já se dão as voltas todas
Ó certeza ó certeza
Ó alegria das bodas

José Saramago em Provavelmente Alegria

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Lembrem-se. Sem memória nada terá futuro algum.

João Bénard da Costa em Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 3º Volume

OLHAR AS CAPAS


O Santo e o Sr. Teal

Leslie Charteris
Tradução: Jorge Fonseca
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 224
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Simon Templar desembarcou em Inglaterra quando a nova do assassínio de Brian Quell percorria as ruas. Leu a notícia do crime num vespertino comprado em Newshaven e que pouco ou nada acrescentou ao que já sabia.
Brian Quell morreu em Paris, bêbado. Se lhe tivessem dado a escolher o estado em que preferia morrer, provavelmente teria indicado esse mesmo, pois toda a sua existência inútil decorrera nos prazeres da Cidade Alegre.

PAUSA


Agora é como depois de um enterro.
Deixa-me neste leito, do tamanho do meu corpo,
Junto à parede lisa, de onde brota um sonho vazio.

A noite desmancha o pobre jogo das variedades.
Pousa a linha do horizonte entre as minhas pestanas,
e mergulha silêncio na última veia da esperança.

Deixa tocar esse grilo invisível,
- mercúrio tremendo na palma da sombra -
deixa-o tocar a sua música, suficiente
para cortar todo arabesco da memória...

Cecília Meireles em Antologia Poética

terça-feira, 15 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Quando a idade me devolve a luz e o ar, as dedicatórias chocalham no horizonte. À medida que os anos passam, sinto as árvores, o ar, cada vez mais inúteis. E as palavras também.
Já tive melhores ilusões para envelhecer.

Jorge Fallorca em Longe do Mundo

Legenda: pintura de Nels Hagerup

PERDAS E PERDAS


Manifestantes juntaram-se, ontem, no aeroporto El Prat, Barcelona, protestando contra a decisão do Tribunal Supremo, que condenou os principais dirigentes políticos envolvidos na tentativa de independência da Catalunha a penas que vão até 13 anos de prisão.

O protesto provocou o cancelamento de 108 dos 1066 voos previstos para o dia de ontem.

Podia ler-se nas paredes do aeroporto:

«Desculpe por ter perdido o voo, pense no que é perder a Democracia.»

FRUTO


Por um desvio semântico qualquer, que os filólogos ainda não estudaram, passámos a chamar manhã à infância das aves. De facto envelhecem quando a tarde cai e é por isso que ao anoitecer as árvores nos surgem tão carregadas de tempo.

Carlos de Oliveira em Trabalho Poético 2º volume

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Lembro-me de ter lido um texto do Turner, o teórico, em que ele diz que é extraordinário que sendo as nuvens uma coisa tão fascinante as pessoas reparam muito pouco nelas.

Mário Cláudio

OLHAR AS CAPAS



A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty

Peter Handke
Tradução: Maria Adélia Silva Melo
Capa: Luís Miguel Castro
Colecção Ficções nº 24
Relógio d’Água, Lisboa s/d

O guarda-redes está a ver se descobre qual é o canto da baliza que o jogador quer atingir, disse Bloch. Se conhece o jogador, sabe qual é o canto que, de um modo geral, ele prefere. Mas, provavelmente, o jogador que vai marcar o penalty pensa também que o jogador o está a tentar descobrir. Por isso, o guarda-redes tem de admitir que precisamente hoje a bola vai entrar pelo outro canto. Mas o que é que acontece se o jogador que vai marcar o penalty seguir o pensamento do guarda-redes e acabar por decidir atirar para o canto para o qual costumava atirar?

PRÉMIOS NOBEL DA LITERATURA 2018/2019


No passado dia 10 foram atribuídos os Prémios Nobel da Literatura referentes a 2018 e 2019. O do ano passado â escritora escritora polaca Olga Tokarczuk e o deste ano ao austríaco Peter Handke.

Quatro dias depois desta atribuição, morria Sara Danius, 57 anos, vítima de cancro, a primeira mulher a ocupar o cargo de secretária permanente da Academia Sueca, responsável pela entrega do prémio. Foi sob a sua direcção que a Academia Sueca atribuiu o Nobel da Literatura a Bob Dylan, à jornalista bielorussa Svetlana Alexievitch, ao britânico Kazuo Ishiguro.

Mas foi também sob a sua direção que a instituição teve de lidar com um escândalo sem precedentes, movido por acusações de abusos sexuais contra Jean-Claude Arnault, marido de Katarina Frostenson, membro da Academia e por ambos dirigirem um clube literário que contava com o apoio da Academia. A crise que acabaria por levar não só à sua demissão como ao adiamento da entrega do Nobel da Literatura do ano passado para 2019. 

Nunca li nada de Olga Tokarczuk que confessou ter sido apanhada de surpresa pela notícia, algures a meio de uma auto-estrada, num lugar sem nome, afirma acreditar numa literatura que una as pessoas e que mostre quão semelhantes são, que nos torna conscientes do facto de estarmos ligados por fios invisíveis. Que conta a história do mundo como se este fosse um todo vivo e uno, desenvolvendo-se de forma constante à frente dos nossos olhos, e no qual nós temos um pequeno, mas poderoso papel.

A Academia Sueca justificou a escolha de Olga Tokarczuk «por uma imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiras como uma forma de vida».

Para a Academia sueca, a escritora «nunca vê a realidade como algo estável ou permanente e constrói os seus romances numa tensão entre opostos culturais; natureza 'versus' cultura, razão 'versus' loucura, masculino 'versus' feminino, casa 'versus' alienação».

A «grande obra» da laureada é, para a Academia, o «impressionante romance histórico Os livros de Jacob, publicado em 2014 e sem edição em português.

Em Portugal, a autora tem publicado apenas um livro, Viagens, vencedor do Prémio Man Booker Internacional em 2018, e Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, livro que foi finalista do Prémio Booker internacional deste ano.

 Ambos estão editados na Cavalo de Ferro.

Só li um livro de Peter Handke, A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty e comprei-o depois de ter visto o filme, baseado no livro e realizado por Wim Wenders.

Curiosamente, há quem pense o mesmo, no momento do penalty, não é o guarda-redes que sofre qualquer angústia, mas sim o marcador do penalty. Ninguém está muito à espera que o guarda-redes defenda o penalty, se isso acontece tudo bem, mas a angústia, essa está toda no lado do marcador do penalty.

Não desgostei, mas não fiquei com aquele interesse entusiasmante de voltar a ler obras suas.

A Academia entende a atribuição a Peter Handke «por um trabalho influente que, com engenhosidade linguística, explorou a periferia e a especificidade da experiência humana.»

A atribuição do Nobel da Literatura de Literatura provoca sempre largas controvérsias. A de Peter Handke promete vasta discussão.

A principal associação de vítimas do genocídio de 1995 na cidade bósnia de Srebrenica anunciou que pedirá a retirada do Prémio Nobel de Literatura 2019 a Peter Handke, acusando-o de defender responsáveis por crimes de guerra.

Munira Subasic, presidente da associação “Mães de Srebrenica”, disse:

«O homem que defendeu os carniceiros dos Balcãs não pode ter esse prémio. Ficámos muito afectados como vítimas. Como é que alguém que defende criminosos pode receber o Prémio Nobel e, acima de tudo, defende aqueles que cometeram o genocídio?»

Em Srebrenica, milícias servo-bósnias assassinaram 8.000 homens e rapazes muçulmanos em 1995 durante a guerra na Bósnia, um acto que a justiça internacional descreveu como genocídio.

Peter Handke é um admirador confesso de Slobodan Milosevc que foi condenado pelos graves crimes ocorridos durante a guerra dos Balcãs.

O primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, face à atribuição deste Nobel, não receou as palavras de condenação:

«Eu nunca pensei que tivesse vontade de vomitar por causa de um Prémio Nobel, mas a vergonha está a tornar-se uma parte normal do mundo em que vivemos.
Não, não podemos ser tão insensíveis ao racismo e ao genocídio!»