sexta-feira, 11 de outubro de 2019

VELHOS RECORTES


O Tribunal Supremo de Espanha já autorizou o Governo a transferir o corpo de Francisco Franco do Vale dos Caídos para o cemitério de Mingorrupio, na povoação de El Pardo, arredores de Madrid.

O ditador Franco e o vale dos Caídos trouze-me à memória algo que aconteceu em Fevereiro de 1965.

Num jogo, para a Taça dos Clubes Campeões Europeus, o Benfica de Eusébio & Cª, no Estádio da Luz, derrotou o Real Madrid por cinco bolas a uma.

Face a essa vitória, o tri-semanário Mundo Desportivo, titulou, à largura da sua 1ª página:

«O “Vale dos Caídos” mudou-se para Lisboa.»

Na crónica, assinada por José Valente, a abrir a prosa, podia ler-se:

«Não foi realmente a batalha de Aljubarrota. Nem tão pouco a de Valverde, ou qualquer outra em que os espanhóis e os portugueses tivessem escrito páginas gloriosas da sua história. Mas foi bonito assistir-se à vitória do futebol sobre o do Real Madrid.»

Franco terá amarinhado pelas paredes acima, Salazar fez suas as dores do colega ditador, e terá mandado recado à direcção do jornal.

Em resultado do recado o jornalista foi despedido e a censura determinou a proibição, durante oito dias, da publicação do jornal.


No dia 5 de Março, quando o jornal voltou a ser publicado, lia-se na 1ª página:

«A Empresa Nacional de Publicidade e o director do “Mundo Desportivo” lamentam e repudiam as expressões contidas numa crónica inserida neste jornal e que muito feriram a sensibilidade dos seus leitores. Ao autor da referida crónica, chefe de redacção do “Mundo Desportivo”, único e total responsável pelo escrito que veio a público, foram aplicadas as sanções que o caso requeria.»

Já agora, recorde-se que, nesse jogo, o Benfica alinhou:

Costa Pereira, Cavém, Germano, Raul, Cruz, Pérides, Coluna, José Augusto, Torres, Eusébio e Simões.
Os golos foram marcados por José Augusto, Eusébio (29), Coluna e Simões.

O Benfica chegou à final da Taça mas acabou por a perder. Num jogo, realizado em Milão, 27 de Maio de 1965, com o Inter, Costa Pereira deu um enorme frango, e, ressentindo-se de um toque com Mazzola, abandonou o relvado. Naquele tempo, não havia substituições e Germano foi para a baliza, ficando o Benfica reduzido a dez unidades.

Quando a comitiva do Benfica chegou ao Aeroporto da Portela, Costa Pereira fazia-se transportar numa cadeira de rodas.

Da tal «lesão» acabou por curar-se mas, da vergonha daquele enorme frango, jamais.

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