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segunda-feira, 5 de maio de 2025

OLHAR AS CAPAS


MFA: Motor da Revolução Portuguesa

1º Volume

Coordenação: Serafim Ferreira

Capa: Dorindo Carvalho

Diabril Editora, Lisboa, Julho de 1975

Não há nenhuma revolução que se faça (sobretudo) com boas intenções. Mas a Revolução Portuguesa, nos seus propósitos iniciais de derrubar a ditadura fascista, sem sangue e sem tiros, parece querer fugir à regra. E, sendo assim uma excepção, poderá talvez correr o risco de se desvirtuar no que de essencial deve ser atingido, ou seja, abrir realmente caminho para a instauração em Portugal de uma sociedade democrática rumo ao socialismo. Se é ambicioso este projecto político, se as linhas da política definida pelo MFA apontam na verdade para uma sociedade socialista, não há dúvida de que a Revolução Portuguesa não pode fazer-se com improvisos, com sobressaltos, com ramalhetes de cravos: uma revolução triunfa sempre quando, ao modificar certas coisas, quer de facto que tudo se modifique e não apenas que tudo fique na mesma. Uma revolução triunfa sempre quando se mostra inteiramente capaz de levar até às últimas consequências o Programa com que iniciou o processo de derrubar pelas armas uma ditadura ou um regime antidemocrático. 

segunda-feira, 24 de abril de 2023

JORNAL DE CRÍTICA


Coordenado por Orlando Neves, «Jornal de Crítica» foi um suplemento do «Repúnlica», publicava-se aos sábados, e da redacção faziam parte Afonso Cautela, Armando Pereira da Silva, Carlos Porto, Miguel Serrano, Serafim Ferreira, Tito Lívio e José Agostinho Bapaista.

O seu 1º número está datado de de 9 de Janeiro de 1971.

A partir do seu nº 11, 19 de Março de 1971, passou a publicar-se aos sábados.

O triste pio do «Jornal de Crítica», publicados que estavam 57 números, ocorre no dia  24 de Março de 1972.

Outros «valores» se levantaram de quem passou a orientar os «novos» passos orientadores do velho diário.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Raul de Carvalho: Entre o Silêncio e a Solidão

Serafim Ferreira
Campo das Letras, Porto. Abril de 1995

Claro, não se carrega pela vida fora, contra tanta incompreensão e ignomínia, por entre atropelos e cansaços, doenças e desesperos de toda a ordem, mesmo perante o alheamento ou desinteresse de alguns editores, esse sonho de se afirmar como poeta. No meio de tão amarga e dolorosa peregrinação que foi a vida de Raul de Carvalho, o sonho de ser poeta é reflexo de um querer e de uma autenticidade sem limites: a sua dimensão humaníssima, no fluxo torrencial de palavras e versos, mesmo nos desencontros ou exageros de um “discurso” por vezes tão pouco vigiado, determina-se através desses valores, emoções e sentimentos que nunca passam despercebidos.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Em relação ao trabalhador intelectual passa-se uma coisa bem portuguesa, perante a qual não distingo regimes ou partidos. Em geral, só com fins políticos dão um pequeno passeio ao domingo com a cultura. Na segunda-feira já a esqueceram.

Raul de Carvalho citado por Serafim Ferreira em Entre o Silêncio e a Solidão

sábado, 8 de outubro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Um Homem do Povo na Revolução

Roger Vailland
Raymond Manévy
Tradução: Serafim Ferreira
Colecção «Revolução», nº 5
Editorial Fronteira, Amadora, Fevereiro de 1976

Morreu porque os seus dias acabaram. Mas há milhares de outros homens, milhões de outros homens, jovens e ainda cheios de vida. Calam-se por agora, como Drouet se calava há dez anos. Contam-se. Reúnem-se em silêncio. Pensam na lição dos grandes homens de 1793. Quando se erguerem, serão capazes de vos varrer a todos, prefeito, presidente da Câmara, gendarmes, rei, nobres, arrivistas! Talvez sejam vencidos, mas outros hão-de segui-los. Nenhum de nós será capaz de ver com certeza o fim da batalha. Mas virá o tempo em que, como Drouet, o quis, cada um poderá viver livremente, como um homem autêntico que seja realmente digno da sua condição de ser homem. 

domingo, 24 de janeiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Porra! Que se fadem todos!

Serafim Ferreira em Ofício de Escritor

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

CAPAS DA ULISSEIA


São muitos os livros da Ulisseia que fazem da parte da biblioteca da casa.
A maior parte a aguardar entrada na janela de Olhar as Capas.
Aqui ficam algumas das capas dos livros que Joaquim Figueiredo Magalhães fez publicar na Editora Ulisseia.
Muitos deles nunca traduzidos.
Tradução de Helder de Macedo, Prefácio sobre o autor de José Cardoso Pires, capa de Rocha de Sousa
No prefácio, Cardoso Pires, manifesta o seu fascínio pela escrita de Vailland e exalta a figura do libertino a que voltará em A Cartilha do Marialva também publicado pela Ulisseia.


Tradução de José Blanc de Portugal, Capa de António Garcia. 

                                                 


Tradução de Carlos Vieira, Capa de António Garcia


Tradução de Virgílio Martinho, Capa de Espiga Pinto


Tradução de Serafim Ferreira, Capa de Sebastião Rodrigues


Colecção Atlântida nº10, Capa de Vespeira

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Satírica

Mendes de Carvalho
Introdução de Serafim Ferreira
Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1974

Arte de Bem Comer

Há quem coma com todo o requinte
quem coma entornado no prato
os que comem sempre a mesma coisa
há quem viva só para comer
 ou coma para aguentar os ossos
quem roa os ossos quem roa as unhas
quem coma sempre no dia seguinte
quem engula depressa devagar
quem coma de pé sentado deitado
os que mastigam com a boca aberta
 e os que não podem abrir a boca
há quem coma bicos de papagaio
quem coma aquilo que não quer
quem coma sonhos e coma flores
quem coma água e palite os dentes
quem tenha mais olhos que barriga
ou tanta barriga que ande de cor
quem coma tudo quem não coma nada
quem coma difícil com dentes postiços
 e quem tenha dentes e não tenha nozes
quem coma no ritz quem coma porrada

Não se deve viver sem mastigar

Nas várias maneiras de bem ou mal comer
a arte maior é comer e calar

sexta-feira, 3 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Cartas Na Mesa

Luiz Pacheco
Apresentação e Notas de Serafim Ferreira
Capa: Alfredo Martins
Editorial Escritor, Lisboa, Maio de 1996

     Serafim,
     fui  apreendido. Corolário lógico: depois de encafuarem os livros, segue-se o Autor. Infelizmente não tenho a sorte do Urbano (ainda ontem vi a sua máscara n’ A Capital em «crítica» duma antiga fanchona dele, a Felizarda Botelho) ou do Sttau; quando vou de cana ninguém chora nem ninguém protesta. Tão-pouco os meus crimes são nobres, ditos cívicos, de cidadania… mas delitos comuns, taras sexuais. Adiante. 2 pedidos ao Menino Serafim: a) tem por aí uma notinha para mim? (o fim do mês tá à vista!). Em carta simples c/ as últimas novidades do milieu literato. b) Boulle: para a semana recupero (desempenho) uma das duas máquinas de escritura. Gostava de rever o texto, mesmo que VV. não o queira editar (resgataria a tradução).
     Cumprimentos ao Abreu, Armando e irmão do Vítor
                                                 e para si abraços do

                                                            Luiz Pacheco  

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Uma Casa na Praia

Pablo Neruda
Tradução: Serafim Ferreira
Ilustrações: Alfredo Martins
Contraponto, Setúbal, Novembro de 1996

A minha bandeira é azul e tem um peixe horizontal fechado ou enquadrado por dois círculos armilares. No inverno, com muito vento e sem ninguém por estes caminhos abandonados, agrada-me ouvir o agitar da bandeira e ver o peixe nadar pelos céus como se estivesse vivo.
E porquê este peixe?, perguntam-me. É místico? Sim, digo-lhes eu, trata-se do bem simbólico ictionim, do pré-cirstense, do cisternário, do lucicrático, do fritango, do verdadeiro, do frito, do peixe frito.
- E mais nada?
- Mais nada.
Mas, no fim do inverno, a bandeira ainda se agita lá no alto com o seu peixe, a tremer de frio, fustigada pelo vento e pelo céu.

domingo, 17 de agosto de 2014

OLHAR AS CAPAS


Os Condenados da Terra

Frantz Fanon
Prefácio: Jean Paul Sartre
Tradução; Serafim Ferreira
Capa: Sebastião Rodrigues
Editora Ulisseia, Lisboa s/d

O colono faz a história e sabe que a faz. E como se refere constantemente à história da metrópole, indica com clareza que está aqui como prolongamento dessa metrópole. A história que escreve não é, pois, a história do país que ele despoja, mas a história da sua nação onde ele rouba, viola e espalha a fome. A imobilidade a que está condenado o colonizado não pode ser impugnada, senão quando o colonizado decide pôr termo à história da colonização, à história da pilhagem, para fazer existir a história da nação, a história da descolonização.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

OLHAR AS CAPAS


Textos Locais

Luiz Pacheco
Semi-prefácio: Mário Cesariny de Vasconcelos
Posfácio: Serafim Ferreira
Contraponto, Alcobaça, Maio de 1967

Dos jardins fantásticos da minha infância que eu nem tive infância nasci assim já velho mas sou um bocadinho bonacheirão incapaz de rancor aos meninos que tiveram infância e jardins, trago um na lembrança que era um jardim muito engraçado havia um coreto a música tocava aos domingos havia um urinol com aquele velho maluco que fazia coisas aos rapazes e também lembro um jardim, outro ou seria o mesmo que era um jardim muito engraçado com uma estantezinha verde o tipo que emprestava os livros à gente tinha uma farda preenchia-se um papel com o nosso nome e morada era coisa séria. Os jardins da minha infância tinham lagos peixes vermelhos flores subtis perfumes quentes cores triviais recantos de sombra lugares comuns esconderijos giros para a gente brincar. Não me lembro, ah que pena os namorados sim os namorados devia haver nos bancos do jardim ou perdidos passeando de mãos dadas falando ou calados apertados, não me lembro.

segunda-feira, 31 de março de 2014

OLHAR AS CAPAS



Poesia Portuguesa do Pós-Guerra 1945-1965

Antologia organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira
Capa: Espiga Pinto
Colecção Poesia e Ensaio nº 8
Editora Ulisseia, Lisboa, Outubro de 1965

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra    rio    vento    casa
Pranto    dia    canto    alento
Espaço    raiz    e    água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo


(Este poema, Pátria, de Sophia Mello Breyner Andresen, pertence ao Livro Sexto mas foi retirado desta Antologia)

sábado, 15 de fevereiro de 2014

LUIZ PACHECO, EDITOR

E ficas já a saber, meu bom Silveira, que sendo ele Luís de nome próprio como tu, este Pacheco de quem se torna inevitável que dele fale nesta narrativa teve uma vida de sete e mais fôlegos, padeceu o que nem ao diabo lembra, mas fez a sua travessia na coerência e justa pretensão de publicar alguns bons livros que fez chegar às mãos de muita gente através de um ficheiro bem organizado e em trabalho artesanal de largos anos. Editou os livros que mais lhe agradaram, alguns assinalaram mesmo a estreia literária dos seus autores (Herberto Helder, Manuel de Lima, António Tavares Manaças ou carlos Wallenstein), e devo dizer-te que foi ainda companheiro e amigo de poetas e pintores ligados ao surrealismo português.

Serafim Ferreira em  Olhar de Editor, Editorial  Escritor, Lisboa Outubro de 1999.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS



A Mãe

Maximo Gorki
Versão Serafim Ferreira
Capa Carlos Santos
Editorial Início, Lisboa Maio 1970

Virá o tempo em que os homens terão admiração uns pelos outros, em que cada um escutará a voz do seu semelhante como se fosse música. Haverá na terra homens importantes e grandes pela sua liberdade, de coração aberto e purificado de qualquer ambição ou interesse. A vida passará a ser nessa altura um culto prestado ao homem. A sua imagem será exaltada, porque para os homens livres todas as formas de cultura são acessíveis. Viveremos na liberdade e na igualdade, na busca da beleza. E os melhores serão aqueles que mais souberem abarcar o mundo no seu próprio coração, que mais o amarem! Ora por uma vida assim estou disposto a tudo. Arrancaria a mim mesmo o coração, pisá-lo-ia com os pés…

Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

sábado, 21 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS



Poesia portuguesa do Pós Guerra 1945-1965

Antologia organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira
Orientação gráfica: Espiga Pinto
Editora Ulisseia, Lda, Lisboa Outubro 1965

Em Nambuangongo tu não viste nada
não viste nada nesse dia longo longo
a cabeça cortada
e a flor bombardeada
não tu não viste nada em Nambuangongo.

Falavas de Hiroxima tu que nunca viste
em cada homem um morto que não morre.
Sim nós sabemos Hiroxima é triste
mas ouve em Nambuangongo existe
em cada homem um rio que não corre.

Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
em Nambuangongo olhei e fiquei nu. Tu
não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.

Em Nambuangongo a gente pensa que não volta
cada carta é um adeus em cada carta se morre
cada carta é um silêncio e uma revolta.
Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.
E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.

É justo que me fales de Hiroxima.
Porém tu nada sabes deste tempo longo longo
tempo exactamente em cima
do nosso tempo. Ai tempo onde a palavra vida rima
com a palavra morte em Nambuangongo.

Manuel Alegre de A Praça da Canção


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


A Vida Mundial foi, nos tempos da ditadura, uma revista de referência.

Propriedade da Sociedade Nacional de Tipografia, SARL, que também tinha ,entre outras publicações, o jornal O Século.

O primeiro número surgiu em 1939 mas não resistiu à crise empresarial-jornalística do pós 25 de Abril.

Este número da Vida Mundial é o 1548, datado de 7 de Fevereiro de 1969.
Director e editor: Francisco Eugénio Martins.

Corpo redactorial: Carlos Ferrão, Ruben de Carvalho, Afonso Cautela, Armando Pereira da Silva, Carlos Araújo, Diana Andringa, Jorge Fernandes, Nuno Vieira.
Repórteres fotográficos: António Xavier e Eduardo Gageiro.
Entre os seus colaboradores contavam-se Alfredo Canana (Cooperativismo), Armando da Silva Carvalho (Direito), Carlos Porto (Teatro), Fernando J.B. Martinho (Livros-poesia), Joaquim Durão (Xadrez), Mário Dias Ramos (Televisão), Mário Vieira de Carvalho (Música), Miguel Serrano (Rádio), Orlando Neves (Livros-Teatro), Serafim Ferreira (Livros-Ficção), Vasco Granja (Livros-cinema).

Em destaque, na 2ª página, lia-se: VISADO PELA COMISSÃO DE CENSURA.

Este número incluía o Perfil e a Obra de António Sérgio, morrera a 24 de Janeiro desse mesmo ano, da autoria de Neves Águas:

Se há fainas urgentes que os nossos editores já deviam ter encetado, publicar em volume tudo quanto António Sérgio deixou disperso, é com certeza uma delas.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

SARAMAGUEANDO


Durante mais de vinte anos José Saramago foi director literário na Editorial Estúdios Cor.

 Serafim Ferreira (1) realça a importância de Saramago à frente da editora.

É  sob a sua direcção que são publicados Histórias das Grandes Literaturas, História do Romance Português de João Gaspar Simões, Dicionário de Pintura Universal em três volumes e um deles exclusivamente dedicado à pintura portuguesa, planeado e coordenado por Mário Tavares Chicó, Armando Vieira Santos e José-Augusto França, as obras completas de Tchekov, Guy de Maupassant, a publicação de escritores como José Rodrigues Migueis, José Marmelo e Silva e Jorge de Sena.

O seu trabalho com José Rodrigues Migueis está amplamente descrito na troca de correspondência que com ele manteve.

Em carta dirigida a José Rodrigues Migueis, Saramago escreve:

Já terá sabido que saio da editora. Hoje é o último dia que aqui estarei. São largos anos de trabalho que aqui me ficam, sem falar nos sacrifícios pessoais de toda a ordem. Aguentei esta casa de pé até ao momento conveniente… para os outro. É uma história algo suja que talvez ainda acabe por vir a público (se a tanto me forçarem) mas de que, em qualquer caso, lhe darei conta quando nos encontrarmos…

Em carta a José Rodrigues Migueis, datada de 8 de Novembro de 1971, Saramago desabafa:

Demiti-me da editora em virtude de me terem criado uma situação vexatória, qual seja admissão de um novo director literário (Natália Correia), imposto pelo grupo financeiro que tomou posição na firma.
Tudo isto se passou na minha ausência em férias (entre 15 de Outubro e 2 de Novembro), e depois de ao longo de anos se ter dito aqui, em todos os tons, que nunca se quereria um director literário realmente director. E quando a questão foi posta aos Srs. Canhão e Correia, estes senhores não tiveram a coragem moral mínima de defenderem a minha posição aqui dentro, o meu trabalho de quinze anos. Aceitaram tudo a troco do prato dos feijões. Venderam-me, supondo que eu estava à venda. No que se enganaram
Aliás, tudo isto já vem de longe. Por alguma razão as suas cartas têm caído num poço de silêncio. Tenho-me recusado a tratar de certos assuntos enquanto toda  a minha situação na editora não fosse esclarecida de vez. Acabou por sê-lo agora em termos que, confesso, não esperava. Porque a safadeza ainda foi maior que a minha ingenuidade.
Saio no dia 31 de Dezembro para entregar com tempo, os assuntos noutras mãos, mas foi a partir do dia 3 de Novembro que deixei de tratar de qualquer questão para além do que considero ser minha estrita obrigação. Outras pessoas comunicarão consigo para tratar dos seus assuntos.
E é tudo. Se no dia em que sair daqui não estiver ainda (já) outro emprego, começo o ano da estaca zero, completamente desprovido. Mas continuo a ter uma grande consideração por mim mesmo!

Segundo Serafim Ferreira, Natália Correia ainda emprestou à Cor uma certa fulgurância editorial, mas foi sol de pouca dura, como diz a sabedoria popular, porque de seguida, depois de Abril ter chegado, eclipsou-se quase por completo.

Nas conversas que Saramago manteve com João Céu e Silva, fica a saber-se que, pouco depois após a saída da Cor, José Cardoso Pires indicou o nome de José Saramago para o Diário de Lisboa, porque o jornal precisava de alguém para escrever uns editoriais. Por ali esteve entre 1972 e 1973 onde se ocupava em tarefas muito dispersas.

Para além dos editoriais, Saramago dirigiu o Suplemento literário do jornal.

(1)   Olhar de Editor, Editora Escritor, Lda, Lisboa Outubro 1999
(2)  
(3)   José Rodrigues Miguéis/José Saramago, Correspondência 1959-1971, Editorial Caminho, Abril 2010.


Legenda. a ilustração do texto é a capa de A Escola do Paraíso, um dos livros de José Rodrigues Migueis que a Cor publicou enquanto Saramago foi seu director literário.
Numa carta a Migueis Saramago escreverá que A Escola do Paraíso é a sua melhor obra e um dos melhores livros destes tempos.

sábado, 20 de agosto de 2011

SARAMAGUEANDO



Data de 10 de Novembro de 1966, o primeiro recorte do longo “Dossier José Saramago” que aqui pela casa se passeia.

É uma entrevista ao “Jornal de Notícias”, feita por Serafim Ferreira, e a propósito da publicação de “Os Poemas Possíveis”.

Da introdução da entrevista:

“O poeta não tem idade; o poeta é a vida; o poeta fala pelos outros; comunica e enche de calor o mundo despovoado dos que não têm voz e não sabem cantar; o poeta enche o mundo; o poeta  é o cantor da Tempo superiormente entendido como entidade mítica que marca, de forma inexorável, a evolução da Humanidade, os passos dos homens nas suas paragens sem destino. O poeta aparece quando pode ou quando deve – o poeta, qualquer poeta, é sempre aquele homem que deseja comunicar aos outros homens o mundo da sua própria experiência.”

O jornalista pergunta a que se deve o facto de aparecer tão tarde com um livro de poemas. Saramago responde:

“Se escrevi este livro tão tarde foi porque o não podia ter escrito antes. O homem que nos meus poemas se exprime tem hoje qaurenta e três anos. Faz versos desde a  adolescência (o que não surpreenderá ninguém) e quase nada conserva do que fez. Amadureceu com os anos e com a experiência do que viu e do que observou – e nisto não se distingue dos mais homens. Podia ter assim continuado. Se necessidade sentia de exprimir-se, ela não era suficientemente forte, Mas, acontecimentos pessoais que, por pessoais, não interessa aqui referir, operaram em mim um súbito ajustamento de quanto de vago, disperso ou apenas esboçado me habitava. Esta é a explicação do nascimento e publicação deste livro.”

Serafim Ferreira fala a Saramago da necessidade de os escritores abordarem um conteúdo que reflicta as preocupações e ansiedades do nosso tempo, e  obtém a resposta:

“Cada um de nós vai cantando com a voz que tem… De resto afigura-se-me que, hoje, importa mais o que se diz do que a maneira como se diz. Daí terem o terem perdido audiência (e pelo caminho que o mundo leva, creio que para sempre) os poetas que fizeram da poesia mera prenda de salão ou de sociedade, como o tricô ou o tiro aos pombos.”

No findar da entrevista o jornalista pergunta quais os projectos a realizar no futuro.

“Os Poemas Possíveis não é o meu primeiro livro. Vai para vinte anos, publiquei um mau romance que acabou, sem glória, ao lado de muita coisa boa, nos tabuleiros. Ganhou assim uma difusão que doutra maneira não teria… É que o negócio dos arrematadores, para que fosse suficientemente rentável, uma “distribuição” tão eficiente que chegasse à mais escondida das nossas aldeias. Quero crer que não ficou um livro por vender.
Quanto a projectos não os tenho, pelo menos a curto prazo. Continuarei a escrever, ao sabor dos meus “choques”. Outros livros? É possível. Tudo é possível. E quem sabe se um segundo livro de poemas não virá a ter o “verlainiano" título de “Provavelmente?”

Foi o que veio a acontecer: “Provavelmente Alegria” seria o segundo livro de José saramago, publicado, pelos “Livros Horizonte”, em 1970, três anos e mais qualquer coisa, depois desta entrevista.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

OLHAR AS CAPAS


Olhar de Editor

Serafim Ferreira
Editorial Escritor, Lisboa Outubro de 1999

E, por este diálogo aberto que sempre mantivemos no decorrer dos anos, posso declarar, na certeza de saber que estás de acordo comigo, ser esta a altura própria para despejar o saco, escrever estas e outras memórias que andaram comigo, regressar à escrita em páginas de memória ou de ficção e crítica. E assim levar talvez o resto da vida, como me ensinou Raul Brandão, a arredar todos esses fantasmas do meu caminho. Mas não sei ao certo se o poderei fazer na justa dimensão dos sonhos e pelas sombras e lugares que ainda povoam esses caminhos. E tu me dirás, leitor de todas as horas, se fiz bem ou mal erguer por estas páginas uma narrativa em honra e memória de alguns editores. No fundo, acredita, foi agradável estar na tua e na companhia de tão boa gente. Eu sei.