sábado, 30 de novembro de 2013

POSTAIS SEM SELO


Passa uma nuvem pelo sol, passa uma pena por quem vê. A alma é como um girassol:
Vira-se ao que não está ao pé. Passou a nuvem; o sol volta. A alegria girassolou.

Fernando Pessoa

OLHAR AS CAPAS


Segundo Livro de Crónicas

António Lobo Antunes
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa Outubro de 2002

Acho que a coisa mais importante que me aconteceu na vida foi uma viagem de cerca de um mês, a Itália, com o meu avô. O meu avô guiava e eu sentado ao lado dele, com um volante de plástico, fingia que guiava também. O carro era um Nash encarnado. O meu volante de plástico, tinha, ao centro, uma bola de borracha. Apertando a bola emitia um som que na minha fantasia era uma buzina. O barulho do motor arranjava-o com a boca, de forma que não havia dúvidas de ser eu quem conduzia o automóvel. De vez em quando o meu avo fazia-me uma festa na cabeça. É engraçado mas ainda sinto os dedos dele.

Durante os dois primeiros dias o cheiro a gasolina enjoou-me e vomitava para cartuchos de papel. Íamos ficando em hotéis pelo caminho. Lembro-me dos gelados que comi em saragoça, lembro-me de assistir a uma tourada em Barcelona com Luis Miguel Dominguin e de ter ido ao teatro ver Carmen Sevilha. Estive apaixonado por ela até aos doze anos, altura em que assisti aos Dez Mandamentos e a troquei por Anne Baxter, a mulher do faraó. Nem Carmen Sevilha nem Anne Baxter me deram troco por aí além. As paixões demoravam a passar nessa época, em que tudo era lento. Dias compridíssimos, destes que demoravam séculos a nascer. O meu padrinho dava-me dinheiro pelos dentes de leite. Se eu fosse jacaré estava rico.

QUOTIDIANOS


O seu sonho é repetir literalmente o que fazia Iris Murdoch: quando acabava um livro, dava a volta ao jardim e começava outro.

De um texto de José Tolentino Mendonça sobre a escritora AnaTeresa Pereira.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


O ex-presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses Fernando Ruas, que, durante 24 anos, liderou a Câmara de Viseu, requereu ao município o subsídio de reintegração, apesar de estar reformado.
O exemplo foi seguido pelos vereadores Américo Nunes e Cunha Lemos, também aposentados. Os requerimentos dos três ex-autarcas totalizam uma verba, que ainda não foi paga, de 110 mil euros. Mas não são casos únicos no país.
O subsídio de reintegração estava consagrado no Estatuto dos Eleitos Locais e pretendia ajudar a ultrapassar as dificuldades no regresso à atividade profissional. Foi revogado em 2005, ficando salvaguardados os direitos adquiridos. Este ano, com a saída de muitos autarcas dinossauros, devido à limitação de mandatos, os serviços jurídicos da ANMP emitiram um parecer favorável, a 8 de outubro, poucos dias depois da eleições autárquicas de 29 de setembro, no sentido de os autarcas poderem recorrer a esta pensão extra.

Dos jornais

NADA DE INÚTEIS PALAVRAS


Nada de inúteis palavras apenas proferidas pela língua.
O riso deve ter um alvo.
A lágrima deve ter um rio comum onde se deite e corra.
A raiva deve adormecer satisfeita.
A crítica deve atingir os seus fins.
O sono deve acordar a tempo.
O sonho deve saber onde está e o que quer.
E dividir com alguém o sacrifício, a aespera,
       a desilusão, a esperança, o receio
      da morte e o caminho da vida.
As palavras devem permanecer juntas e unidas
       no coração dos homens:
Aqueles que estão prontos
A, não acreditando nelas,
Serem capazes de morrer por elas.
E pelos outros

                                  6 de Agosto de 1970

Raul de Carvalho em Um e o Mesmo Livro, Editorial Presença, Lisboa 1984.


Legenda: fotografia de Paulo Nozolino. 

À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro no Jardim Constantino em Lisboa.

À CONVERSA...


Perguntaram-lhe:

Deu numerosos concertos em Portugal ao longo dos últimos 25 anos. Há algo de que goste particularmente de fazer por cá além de dar concertos?

Respondeu:

Gosto de andar em Lisboa. É uma cidade boa para fazer exercício – sou um homem velho, preciso de praticar. Sou fã dos azulejos, adoro o Museu nacional do Azulejo e tenho alguns livros sobre o assunto. Já conheço alguns donos de restaurantes e vou sempre ao British Bar no cais do Sodré porque não é um sítio britânico de todo. O velhote que engraxava os sapatos à porta já morreu, infelizmente. Fiquei satisfeito porque, da última vez que lá estive, um dos veteranos do sítio chegou-se à minha mesa e perguntou: “Você já vem cá há muito tempo, não vem?” Soube muito bem


Lloyd Cole, entrevista ao Expresso.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


O governo confirmou hoje o despedimento colectivo dos 609 trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.
O governo irá gastar 30 milhões em indemnizações aos trabalhadores.
Desabafo de um trabalhador com mais de 20 anos de empresa:

Tenho muita raiva dos governantes que só nos querem aniquilar. 
Onde irei eu arranjar trabalho agora? 
Será que os nossos governantes não vêem isso? 
A única coisa que lhes desejo é que tenham um Natal igual ao que eu vou ter.


MARCADORES DE LIVROS


POSTAIS SEM SELO


O mais chato é quando a felicidade passa por nós e não nos apercebemos.

Luiz Rainha

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

OS CROMOS DO BOTECO

À LUPA


787 euros era o salário mensal do soldado Bruno Chainho, assassinado sábado, no Pinhal Novo, por um sequestrador. Enquanto este País pagar desta forma miserável a quem, da PSP ou da GNR, aceita como missão dar a vida por qualquer um de nós, ninguém tem autoridade para criticar protestos tão cândidos como os de quinta-feira.

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

O JUSTO JUÍZO VEM SEMPRE DEPOIS...



 Há 19 anos morria Fernando Lopes-Graça.

Sabe-se a importância que tem na cultura portuguesa, nada mais há a acrescentar, o importante é nunca esquecê-lo.

Fui buscar esta data por motivos que têm a ver a ver com o problema da solidão em Fernando Lopes-Graça

Perguntado sobre essa história da solidão, o Alexandre O’ Neill respondeu:

A procurada é boa, a não procurada às vezes é chata.

Fernando Lopes, durante a sua vida, enfrentou grandes dificuldades.

Nos anos 60 chegou a passar fome, a ditadura persegui-o implacavelmente, mas toda a sua vida foi uma luta desesperada contra a solidão.

Em 1940 é-lhe proposto dirigir os Serviços de Música da Emissora Nacional. Não chega a tomar posse do cargo porque recusa assinar a declaração de repúdio activo do comunismo e de todas as ideias subversivas que, então, era exigida a todos os funcionários públicos.

Numa noite em que o acompanhava até à sua casa na Parede, Olga Prats ouviu-lhe a amargura:

Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse, homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.

Para os seus amigos era o Graça.

Para alguns, um homem brilhante e especial, para outros pessoa de trato difícil., uns e outros sem nunca colocarem em cauda o ser uma das grandes figuras da cultura portuguesa.

Na entrada que colocou no 1º volume dos Cadernos de Lanzarote, dois dias depois da morte, de Lopes-Graça, José Saramago escreveu:

 Morreu o Fernando Lopes-Graça. Telefonaram hoje da TSF, muito cedo, para pedir-me, como depois verifiquei no gravador, o cumprimento desse dever mediático a que se dá o nome de depoimento. Deixaram números de telefone, mas não liguei. Por pudor acho eu. E agora acabo de saber, por Carmélia, que o Graça morreu sozinho. Creio que esta última solidão me doeu mais ainda que a própria morte. Não vai faltar quem diga que o Lopes Graça morrendo aos 88 anos, tinha vivido já a sua vida. Como frase de consolação, talvez sirva para quem se satisfaça com o que lhe foi dado. Por mim, penso que nunca acabamos de viver a nossa vida.

Nesse dia, José Saramago não ligou para a TSF, mas dias depois, escreveu um depoimento para o JL, que também pode ser lido nos Cadernos:

Morreu o querido Graça, o amigo do coração, o camarada fidelíssimo e leal. Tudo isso acabou. Sim, já sei, a recordação, a memória, a saudade, a lembrança. Essas coisas duram, de facto, mas porque duram, cansam. Um dia destes a evocação de Lopes-Graça só causará uma leve mágoa, que disfarçaremos contando uma das sua mil vezes repetidas anedotas. Buscaremos então o Graça onde ele verdadeiramente sempre esteve: nos seus livros, de uma linguagem puríssima que poderia servir de lição a escritores, principiando por este; nos seus discos, mas também nas salas de concerto, que não lhe abriram tanto quanto deveriam enquanto viveu. O homem acabou, não podemos pedir-lhe mais nada, mas a obra aí ficou, à espera do que sejamos capazes de pedir a nós próprios. O justo juízo vem sempre depois, quase sempre tarde de mais. Talvez seja essa a causa do amargor de boca que sinto ao terminar estas linhas.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Um jovem de 16 anos que encomendou a comida e a roubou ao motociclista começa hoje a ser julgado por um colectivo.
Três juízes, um procurador e um oficial de justiça são os meios destacados hoje, na 3.ª Vara Criminal de Lisboa, para o julgamento de um jovem de 16 anos que roubou pizas a um motociclista da empresa Telepizza quando este foi entregar a encomenda feita online, no valor de 31,50 euros. Indignado com a "distração" do Ministério Público, "que mandou este processo por roubo para um coletivo" nas varas criminais, o advogado de defesa oficioso do menor, Vítor Parente Ribeiro, garantiu, em declarações ao DN, que as custas judiciais para o seu cliente "serão bem mais elevadas do que o produto do roubo". "Se o miúdo for condenado, terá de pagar os meus honorários que rondam os quatrocentos e tal euros e as custas nunca inferiores a três unidades de conta. No conjunto, mais de mil euros. Mas como ele não tem condições para pagar, vai ser o Estado a suportar estes custos", sublinhou.

Do Diário de Notícias

terça-feira, 26 de novembro de 2013

DO BAÚ DOS POSTAIS


Castro Urdiales.

DYLAN POR JOAN BAEZ


Bons grupos e bons cantores têm muitas recomendáveis versões das canções de Dylan.
Mas Dylan dá-lhes sempre aquele toque que me leva a preferir o original.
Abro uma excepção: Joan Baez a cantar Boots of a Spanish Leather.
Para o caso de indagarem o porquê, digo já que não sei responder.
Faz parte de um  duplo álbum, Any Day Now, uma colectânea de Canções de Bob Dylan cantadas por Joan Baez..
É este o alinhamento do disco:

Love Minus Zero/No Limit, North Country Blues, You Ain’t Goin’ Nowhere, Drigtor’s Escape, I Pity The Poor Immigrant, Tears Of Rage – Sad-Eyed Lady Of The Lowland’s ,Love Is Just A Four-Letter Word, I Dreamed I Saw St. Augustine, The Walls of Redwing, Dear Landlord, One Too Many Morning, I Shall Be Released, Boots of Spanish Leather, Walkin’ Down The Line, Restless Farewell

BOTAS DE COURO ESPANHOL


Oh, estou de partida meu grande amor
Parto pela manhã
Há alguma coisa que te possa mandar do outro lado do mar
Do local onde vou desembarcar?

Não, não há nada que me possas mandar, meu grande amor
Não há nada que deseje possuir
Somente que voltes para mim intacta
Do lado de lá desse oceano solitário

Oh, mas pensei que pudesses querer algo requintado
Feito de prata ou de ouro
Quer das montanhas  de Madrid
Quer da costa de Barcelona

Oh, mas se tivesse as estrelas da noite mais escura
E os diamantes do oceano mais profundo
Renunciaria a todos eles em troca do teu beijo doce
Pois isso é tudo que desejo possuir

É que talvez esteja ausente muito tempo
E apenas isso te pergunto
Há algo que te possa mandar para me recordares
Para que o tempo te passe mais facilmente

Oh, como podes, como podes perguntar-me de novo
Isso só me traz mágoa
O mesmo que de ti quero hoje
Amanhã o desejaria de novo

Recebi uma carta num dia solitário enviada do seu barco no mar-alto
Dizendo não sei quando voltarei de novo
Depende como me sentir

Bem, se tu, meu amor, tens de pensar assim
Estou certo que a atua mente anda sem rumo
Estou seguro que o teu coração não está comigo
Mas com o país para onde vais

Por isso tem cuidado, tem cuidado com o vento do ocidente
Tem cuidado com o tempo tempestuoso
E sim há algo que me pode enviar
Botas espanholas de couro espanhol

Bob Dylan

Canção do álbum The Times They Are A-Changin (1964)

Nota dos tradutores:
Boots of Spanish Leather é mais uma canção inspirada por Suze Rotolo, a primeira namorada de Bob Dylan em Nova Iorque, Suze fotografada na capa do álbum The Freewheelin’Bob Dylan e entrevistada no filme No Direction Home, de Martin Scorsese, foi também fonte de inspiração para outras canções de Dylan, tais como «Down the Highway», «Ballad in Plain D» e «Simple Twist of Fate».

Bob Dylan em Canções Volume I (1962-1973) Relógio D’Água, Lisboa Setembro de 2006


Legenda: pintura de Leona Oppenheimer

NOTÍCIAS DO CIRCO


 Por dia, são penhorados 125 mil euros de pensões, num total arrecadado, até Novembro, de 39,5 milhões. Especialista aconselha a pedir ajuda a uma instituição e negociar um plano de pagamentos.

Grande parte dos casos são pensões de idosos que serviram de fiadores aos filhos e netos, que, uma vez desempregados, não têm condições de pagar as suas dívidas. 

Noutros casos, são pessoas que, sujeitas aos cortes nas pensões e reformas e ao aumento de impostos, não conseguem agora cumprir todas as suas obrigações. 

Dos jornais

DITOS & REDITOS


Viva a dentadura do proletariado.

Há vezes em que o todo é menor que a soma das partes.

Levanta-te filho, um homem não chora.

É bom ver crescer uma árvore por nós plantada.

Já volto, vou num pé e venho noutro.

As coisas são o que são.

Vale tudo menos fazer batota.

Factos são factos.

Um impossível nunca vem só.

Viver o dia de hoje, não confiar no futuro.

Quem avisa, amigo é.

Morra Marta, morra farta.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

ESTE DIA NÃO!


Como atempadamente a própria disse, a Aida teve um tasco em Almoçageme, ela bem me corrige, dizendo que era um Restaurante, mas para mim sempre foi um tasco porque é a palavra de que mais gosto para nomear sítios onde se come, onde se bebe, onde se conversa.
Enquanto por lá estivemos, muita gente entrou por aquelas portas dentro.
De entre os clientes lembro Duran Clemente.
Conversámos várias vezes, e questionado sobre tal, sempre me disse que teria que correr muita água por baixo das pontes para que um dia se saiba o que foi o 25 de Novembro de 1975. 
O livrinho que Duran Clemente já escreveu, publicado em 1976 pelas Edições Sociais, é apenas um alinhavar de notas e acontecimentos.
Não tinha qualquer intenção de referir a data, mas no blogue Entre as Brumas da Memória, Joana Lopes colocou um texto de Duran Clemente sobre o 25 de Novembro.
Porque é um texto importante, reproduzo-o com a devida vénia:

Manuel Duran Clemente deixou há dois dias este texto no meu mural do Facebook e, com a sua autorização, publico-o também aqui. Muitos leitores, provavelmente a maioria, discordarão do conteúdo e da forma peculiar e truculenta usada pelo autor. Mas é o que pensa hoje um dos ícones do (não) 25 do Novembro, aquele que ouvíamos naquela noite em nossas casas e a que foi retirada abruptamente a palavra, e faço questão de lhe «devolver» a voz.


Finalmente foram precisos mais de 38 anos para hoje toda a gente ou a sua maioria concluir que não houve nenhum golpe de esquerda...mas sim um razoável golpelho de "medrosos" (duma direita merdosa) a maior parte deles representando, conscientemente ou não, os que tinham perdido privilégios no 25 de Abril de1974 e aos quais os meus camaradas, pouco cultivados nestas coisas da política, incluindo Costa Gomes e outros experts - com Melo Antunes [a comandar os "nove"], que não sabia de politica mais do que eu - se associaram, não com medo do Partido Comunista nem dum guerra civil, mas sim com medo dos poderosos americanos , suas CIA e FBIs, que a pronto mataram J. Kennedy e Robert Kennedy, Luther King...Allende no Chile, Amilcar Cabral em Conakry, Mondelane em Moçambique, estudantes no México, o Black Power,...e toda a réstia de esperança dum ano de 1968 e de um Maio de 1968...E aqui na lusa pátria das lutas de 1962, 1969 e 1973.....e dos heróis mortos, feridos e presos do PCP...e dos de outras cores, católicos progressistas ou sociais-democratas, ditos socialistas, exilados ou refractários por Franças, Bélgicas, Alemanhas, Suiças, Holandas ou Escandinávias...terras das sereias.

No Portugal minimamente consciente…nunca ninguém teve medo do PCP, nem de Vasco Gonçalves, nem do MFA...mas toda a gente sofreu e teve horror ao fascismo, aos maus acólitos da igreja e aos nefastos caciques locais que hoje ainda perduram...na direita, na igreja e nas localidades...

Por isso Melo Antunes após este episódio fratricida de 25 de Novembro de 1975, que umas bestas pretendem ainda comemorar, debaixo do chapéu de chuva de R.Eanes...dizia (a meu ver, eu suspeitíssimo) para salvar a sua pele e a dos seus "alienados medrosos"... a democracia tem que contar com o PCP...que o mesmo era dizer a democracia tem de contar com todos nós que fizemos REVOLUÇÃO...que ele, como eu, fizemos...só com a diferença (por eu ser comunista deste os 30 anos..ou desde que nasci) não tenho a Medalha da Liberdade..(sendo dos primeiros dez a conspirar para o 25 de Abril). Coisa formal na qual me estou nas tintas… só nas tintas não. Completamente nas tintas...mas por mor dos meus pecados [acho que S.Pedro ma vai entregar à entrada do Purgatório...].

Com a incultura destes militares adeptos de Melo Antunes e de Vasco Lourenço e com pontas da lança dos EUA (desconhecidos destes e de outros genuínos capitães de Abril) (CIAs, FBIs E CARLUCCIs) infiltrados desde sempre no MFA e que me dispenso de nomear...até porque alguns jazem mortos ...que é que se poderia esperar deste saloio rectangulozinho à beira-mar plantado...??? As promessas europeias dessa outra figura "ignorante" (ignorante como revolucionário, sim...)??? Refiro-me a Mário Soares. É um intuitivo diletante que esteve sempre atrás do biombo da Revolução...como hoje está ...!!!

A diferença é esta...a esquerda "derrotada" estava e está com a Revolução...a dita "esquerda" vencedora está com o 25 de Abril...mascarada de 25 de Novembro.

Como não há 25 de Abril sem REVOLUÇÃO...para que serve o 25 de Novembro? Para, num momento destes, um dos mais graves da vida nacional, uns espertalhaços que ficaram adormecidos com os louros dos 25 de Abril/Novembro, conquistados por nós, se outorguem em dar força à direita e aos inimigos do povo português...

Ramalho Eanes....um andrógeno do 25 de Abril e da REVOLUÇÃO... teve o desplante [nesta era (hoje) sob resgate da troika] de aceitar ser homenageado no dia 25 de Novembro..Se fosse um homem genuíno, do 25 de Abril, devia ter dito que NÃO, redondamente e sem equívocos. Mas não..ao terceiro terço dos mistérios dolorosos, da santa madre igreja, após salvé rainhas...de oh clemente e oh piedoso.. que nem sei quem sois ..declarou aceitar a homenagem fracturante. Mas como tem uma missa em Alcains...(terra do meu apreço pelo belo cabrito que lá se esfola..) à qual prometeu não faltar...vai mandar a mulher (D.M.Portugal) e sua filha, alimentar, no dito jantar, a gula dos vampiros da nossa democracia...dos alegres e tristes algozes deste nosso burgo.

Mas sabem no fim disto tudo o que está em causa... é que alguns de nós que nascemos para chatear os malandros (de vários níveis) andamos para aí a espalhar que a culpa do que está a acontecer tem muito (quase tudo ou quase nada, ou qualquer coisa) a ver com uma certa data de um Outono de 1975....em que as nossas mais gloriosas esperanças (ao contrário dos dolorosos mistérios do terço da Virgem Maria) foram decapitadas por inconscientes medrosos ou por conscientes ao serviço do estrangeiro.

E, ao lado desse desígnio, militares, como Melo Antunes, (chefe dos "nove") que passando por Bissau em Agosto de 1974 ,transpirava (vulgo: suava) ao ter de enfrentar seus jovens Duran Clementes, Jorge Golias, Faria Paulinos, Bouça Serranos, Jorge Alves, Barros Mouras, Celsos Cruzeiros, Sousa Pintos, Matos Gomes e outros nobres capitães ou militares de ABRIL ..."assessores" ou "adjuntos" dum homem digno Carlos Fabião...Eu estava junto de Fabião que de Bissau mandou o General Spínola dar uma volta ao bilhar grande. Meus amigos, fui eu que traduzi, ao telefone, em Julho de 1973... Isto porque o general do monóculo queria teimoso aterrar em Bissalanca com as suas 27.000 fotografias para organizar mais um teatral e “falso” congresso do povo guineense…numa última tentativa de abafara descolonização e evitar o inevitável: a já declarada e reconhecida, por quase 100 países, independência da Guiné-Bissau!!! Nessa ocasião pasme-se Melo Antunes ainda andava indeciso com a problemática descolonização. Por isso, antes de morrer, declarou que ela tinha sido uma tragédia. Espero que tivesse, no seu íntimo, responsabilizado essa “proclamada desventura” a António Salazar, a Marcelo Caetano e à ditadura fascista.

Um exemplo da ética de Ramalho Eanes.

Mas ainda hoje se fala aos quatro ventos da ética de Ramalho Eanes. Pois bem, vou-vos contar este acontecimento. Em 1977 o Conselho da Revolução (CR) para apaziguar os militares resolveu promovera publicação dum Decreto-Lei que reintegrava todos os militares “expulsos” das Forças Armadas em consequência dos eventos do 11 de Março e do 25 de Novembro. A coisa foi noticiada em caixa alta nos jornais. Só que esta aparente generosidade de Eanes e dos seus membros do CR estava eivada dum manhoso subterfúgio. Os militares do 25 de Novembro não tinham sido formalmente expulsos, logo a lei não iria aplicar-se a eles.. Depois de termos dado conta disso avisou-se Vasco Lourenço (eu mesmo escrevi uma carta a Melo Antunes) inquirindo-os se tinham consciência do logro. Estes discutiram o facto com Eanes. Afinal a lei não contemplava os militares injustamente acusados de golpe no 25 de Novembro. Viemos a saber que a ética de Ramalho Eanes impediu que o texto da lei fosse adaptado e nos contemplasse. Éticas e manhas. Manhas e lógicas de medo e de falta de saber!!! Como hoje...

Continuarei ...se não houver problemas técnicos...há mais para contar!!!


Manuel Duran Clemente

domingo, 24 de novembro de 2013

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


De muitas coisas se pode morrer
em Veneza
De velhice de susto
de peste

ou de beleza

Jorge Sousa Braga em Poemas Com Cinema, antologia organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queiroz, Rosa Maria Martelo, Ass´rio % Alvim, Lisboa Novembro de 2010.

Legenda: imagem do filme Morte em Veneza

sábado, 23 de novembro de 2013

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


BOA EDUCAÇÃO


Um Bom Dia escrito num contentor de reciclagem no alto da Alameda Afonso D. Henriques.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Numa tarde brilhante de sol, 22 de Novembro de 1963, John Fitzgerald Kennedy, vítima de um atentado aquando da sua entrada, em Dallas no Texas, veio a morrer no Parkland Hospital.

Hoje, o assassínio de Kennedy permanece um mistério, mas não restam dúvidas que não pode ser imputado, para uns, a um tresloucado armado de uma carabina comprada, com todas as facilidades que se conhecem, numa qualquer loja da especialidade, para outros, um fanático pró-comunista recentemente regressado da U.R.S.S. e que odiava os Estados Unidos.

Lee Harvey Oswald negou sempre a sua culpabilidade.

Para as autoridades de Dallas, para os fanáticos anti-comunistas, o assunto não merecia  qualquer tipo de dúvidas, e, espantosamente em dois dias, a Polícia  deu por encerrado um complicadíssimo processo que envolvia o assassinato do seu presidente.

Nada mais havia a investigar.

Para o mundo, nem os soviéticos, nem os cubanos, nem os chineses tinham qualquer interesse na morte de Kennedy.

Os interessados na sua morte estavam dentro das fronteiras dos Estados Unidos.

Fidel Castro:

É para nós uma má notícia a morte do presidente Kennedy, apesar da política hostil para connosco. Este assassínio não pode justificar-se. Não pode ser proveitoso senão para os aventureiros… Quanto ao que nos diz respeito, não temos ódios a homens, mas a sistemas.

William Manchester no seu livro A Morte de Um Presidente:

Ao saber que Lee Oswald era um individuo simpatizante de ideias comunistas, Jacquline Kennedy teria dito: «Ele nem sequer teve a honra de ser morto pela causa dos direitos civis Tinha de ser um idiota de um comunista. Isto tira todo o significado à sua morte.»

Dois dias depois, quando Lee Oswald estava a ser transferido da cadeia de Dallas para a Prisão Estadual do Texas, numa área que havia sido objecto das maiores medidas de segurança, um gangster de nome Jack Ruby, dono de um dancing de strip-tease, o «Carousel Club» sem lhe ter sido perguntado o que estava a li a fazer, acercou-se de Oswald e abateu-o a tiros de pistola.

O chefe da secção de Homicídios da Polícia de Dallas, capitão William Fritz:

«Com a morte de Lee Oswald fica encerrado o caso do assassínio do presidente John Kennedy. Isto, porém, não quer dizer que não continuemos a trabalhar para desenterrar mais provas contra ele, Se, hoje, não tivessem abatido, temos a certeza de que ele acabaria por morrer na cadeira eléctrica…»

Ruby disse ter agido por iniciativa própria com a necessidade de vingar a srª Kennedy e os seus filhos e acabou por morrer inocente, em 4 de Janeiro de 1967, dado que a sua condenação à pena de morte fora anulada pelo Tribunal de segunda instância do estado  do Texas.

Morreu, vítima de cancro, há muito diagnosticado, 37 meses depois de ter morto Oswald.


Em Setembro de 1964, após dez meses de investigação, é tornado público o Relatório da Comissão Warren – 26 volumes de densa argumentação e em que Lee Harvard Oswald foi considerado o único culpado da morte de Kennedy.



O Relatório Warren, segundo o historiador britânico Trevor Hoper, mais não foi do que uma montagem para encobrir a verdade do que aconteceu naquele começo de tarde em Dallas: «uma publicidade feita à causa do acusador público, em que todos os elementos discordantes foram cuidadosamente eliminados e só são examinados os testemunhos que se harmonizam com a verdade escolhida pela Comissão antes do seu inquérito. Pelas suas contradições internas e a sua orientação demasiado unilateral, o relatório Warren é pouco convincente. Ninguém no mundo nele acreditou.

John Kennedy não chegou a estar três anos na presidência dos Estados Unidos.

A sua eleição ficou  rodeada por um mundo de especulações em que as malhas da Mafia tiveram um papel preponderante.



Legenda:

Capa do livro Quem Matou Kennedy? de Thomas Buchanan, Edição Livros do Brasil, Lisboa 1964

Recorte do Diário de Lisboa de 22 de Novembro de 1966

Recorte de O Século, 22 de Janeiro de 1967.

À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro na Marina de Cascais.

DONA SOL, VALQUÍRIA ESFUSIANTE


Lisboa, Avenida Almirante Reis, estação do Metro, um pouco acima da Cervejaria Portugália.
Segundo José Cardoso Pires, aqui foi o Café Hermínius, transformou-se em agência funerária e assim se manteve por muito tempo.
Fui lá a semana passada para fazer o boneco da funerária.
De repente, tão só de repente já não é funerária.
Há coisa de um ou dois meses ainda era. 
Os lobbies das funerárias têm liquidado as pequenas agências.
Ou compram-nas ou matam-nas.
Agora é uma loja de acústica médica, seja lá o que isso for.
Por quanto tempo mais?
O texto do José Cardoso Pires pertence à crónica Café Des Artistes e faz parte do livro de crónicas ACavalo no Diabo:

Hoje o Café Hermínius está transformado em agência funerária – quere-se maior ironia? Talvez que, numa noite em que eu passe por lá, me apareça no vidro da montra o eco dos rostos duma juventude que ali criou uma parte da sua visão do mundo para lá do real imediato, a sua libertação; e que por trás desse vidro, deposta sobre um chão de violetas, esteja a cabeça da Dona Sol, rodeada de coroas funerárias e iluminada por um sorriso de ternura

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


Bem aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade.

Carlos Drummond de Andrade

PEPSI, A SEDE QUE TRAZ AZAR


Os americanos permitem a contrapublicidade, isto é, uma marca pode dizer mal da outra. E está certo: sabendo que duas marcas são inimigas, o que dizem uma da outra só se formos tolos não pegamos com pinças... Um dos exemplos célebres de contrapublicidade aconteceu em 1984, num duelo da Pepsi e da Coca-Cola. Ambas quiseram contratar Michael Jackson e a Pepsi ganhou a corrida com cinco milhões de dólares. No New Generation, o vídeo publicitário que foi feito, o cantor dá os seus primeiros passos à moonwalker, passo da Lua, dando a ilusão de que recua deslizando. Mas, durante as filmagens, faíscas dos efeitos especiais incendiaram a cabeleira de Michael Jackson e ele sofreu graves queimaduras. A Coca-Cola aproveitou para fazer este anúncio: "Cara Pepsi, parabéns por teres contratado Michael Jackson. É pena é dares tanto azar..." O episódio antigo merece leitura atual. A Pepsi aproveitou a ida à Suécia de Cristiano Ronaldo para se meter com o português. Em anúncios suecos, amarraram-no a carris e espetaram-lhe agulhas vudu. Não foi, porém, jogo limpo como na contrapublicidade atrás referida. A Pepsi, que patrocina Messi, não lembrou que Cristiano Ronaldo faz anúncios à Coca-Cola - a ela só lhe interessou tirar partido da animosidade momentânea dos suecos pelo português. Mas a lição a tirar é que, com o contrário de passinhos à moonwalker, as cavalgadas fantásticas de Cristiano Ronaldo confirmaram que a Pepsi dá azar aos seus.

Ferreira Fernandes, hoje, no Diário de Notícias

MARCADORES DE LIVROS


PREOCUPANTE


No mínimo dos mínimos, a notícia é preocupante.
O Papa Francisco, desde que tomou posse, tomou uma série de medidas e decisões que começaram a preocupar quem de há muito, tem andado a servir-se da Igreja para fins que não os da doutrina cristã.
 A decisão do Papa Francisco de fazer uma "limpeza" na Igreja está a alarmar os chefes da máfia. 
Quem até agora se alimentava do poder e da riqueza que deriva directamente da Igreja, está nervoso e agitado. O Papa está a desmontar os centros de poder económico do Vaticano.

O Papa Francisco está no caminho certo mas nunca esqueceremos o que aconteceu ao Papa João Paulo I.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


 Além disso havia as frontarias dos cinemas e as lâmpadas a correrem à volta dos nomes dos actores: Esther Williams, Joan Fontaine, Lana Turner. Concebi por Lana Turner uma paixão absoluta, exclusiva. Em momentos de desânimo quase penso que me não retribuiu. Mas o desânimo, claro, é passageiro, e o cabelo platinado, as sobrancelhas evasivas desenhadas a lápis, em semicírculos perfeitos, os vertiginosos decotes de cetim, o baton escarlate, tudo me garante um amor eterno, eternamente partilhado.

António Lobo Antunes, Segundo Livro de Crónicas

OLHAR AS CAPAS


Deste Lado Onde

José Agostinho Baptista
Capa: Dorindo de Carvalho
Colecção Cadernos Peninsulares/Nova Série/ Literatura nº 11
 Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 1976

é sobretudo em noites como esta que me lembro de erika

revejoa-a então ao anoitecerr num pequeno quarto da da cidade
sentada ao piano as mãos excessivamente brancas tocando chopin
foi assim durante o outono de 70.
por diversas vezes nesses meses de de absoluta depressão pensei
dedicar-lhe um poema uma primitiva elegia em memória dos
companheiros mortos ao serviço da pátria

nunca fui capaz.

acabava invariavelmente por oferecer-lhe poncha por amar o seu
corpo desabrigado por falar exaustivamente sobre a ilha que
a luz ensombrecida das manhãs se aproximava de lisboa.
ERIKA;
passados dois anos havias de ver o meu novo rosto a nova casa os
poemas desordenados o meu corpo burguês em decomposição -
o que pode fazer de um homem um país!
nunca pensei em dar-lhe notícias.
nunca uma palavra de erika veio estremecer estas noites de 72.
sei porém que hoje erika é a streap-teaser mais aplaudida e o seu
corpo o mais desejado pelos marines em saigon.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

OBJECÇÕES


As minhas objecções à mitificação de Cunhal, que à direita e à esquerda se faz no seu centenário, vem de considerar que Cunhal é muito mais interessante como personagem, e foi suficientemente importante na História contemporânea de Portugal, para ficar preso num pedestal.

José Pacheco Pereira no Abrupto.

OS CROMOS DO BOTECO

XXVII


                                                              (Entro no café de Monte Carlo. Revolução.)

Então aquela mulher desconhecida que me beijou
com boca de sol de punhal
saltou para cima da mesa
e pôs-se a cantar
com uma rosa na mão
onde ainda retine
o cristal
do coração
de Lenine.

«Ouve»... gritou-lhe um companheiro a meu lado...
deita essa flor fora!
«Foi feita em moldes de perfumes burgueses no centro da Terra
com hábitos de lume secular, beleza dirigida pela seiva
de repetição enigmática».

Então, no meio do café,
a mulher pisou a flor burocrática,
despiu-se
e com simplicidade de nudez de bandeira,
veio para a rua,
misteriosa,
entregar-se à multidão
com o destino de tornar mais livre e puro
o sonho de (todas as flores
no futuro.

Depois, ouviu-se um tiro
de propósito para a mulher cair morta.

Morta de tão longa...
Só nos olhos a mesma chama vermelha
que na rosa foi perfume
e agora na respiração do sol
ateia
magicamente no basalto,
uma raiva de pés de lume
que começou a caminhar, sonâmbula e sozinha,
na luta contra o sonho da solidez morta
que nos rodeia.

E agora dêem-nos armas, palavras, gritos, versos, poetas,
navalhas, baionetas
para destruir
esta maldita teia!

José Gomes Ferreira em Poeta Militante 3º volume Moraes Editores, Lisboa Janeiro de 1978.


Legenda: fotografia do Café Monte Carlo tirada do blog Duas ouTrês Coisas

terça-feira, 19 de novembro de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


Ao vencer hoje a Suécia, Portugal carimbou o passaporte para estar presente no Mundial de Futebol que se realiza no próximo ano no Brasil.
Que estupenda notícia para o Governo PSD/CDS e para o prof. Cavaco!
As saudações aos jogadores, ao treinador, à Federação de Futebol já chegaram a Estocolmo.
Como irão reagir os mercados?

Legenda: imagem de A Bola

VELHOS DISCOS


A partir daqui nada mais  foi como dantes
A alegria multiplicou-se nas músicas dos bailes.
Só quem viveu estes tempos poderá calcular o que quero dizer.
Até logo, Jacaré!



QUOTIDIANOS


A notícia vem da semana passada, mas vale a pena referi-la.

O Conselho Superior de Magistratura decidiu abrir um processo disciplinar ao juiz Rui Teixeira colocado no Tribunal de Torres Vedras. Em causa está um despacho em que o magistrado obriga os serviços prisionais a reescrever um relatório social de um recluso que estava escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico, atrasando o processo.

É confortante ouvir dizer que nos tribunais, pelo menos neste, os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso, e a língua portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário.

A aplicação do novo acordo foi mais um dos muitos disparates do governo de José Sócrates, com a agravante dos órgãos de comunicação social se apressaram a aplicar o acordês.

O capachante Expresso colocou-se logo na primeira linha e tem por lá uns rapazes que são ferozes defensores do disparate. Claro que têm de levar com alguns colaboradores que os obria a colocar no fim dos artigos de que foram escritos de acordo com a antiga ortografia.

Sobre o caso do juiz, o atento e venerando Expreeso, naquela disparatada coluna de Altos e Baixos, não hesitou, como se pode ver no topo, em colocar o episódio no capítulo dos baixos.

O QUE É NECESSÁRIO


Para fazer uma casa são necessários arquitectos e projectos. Para deitá-la a baixo basta um camartelo.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


DO BAÚ DOS POSTAIS


Enviado pela Angelika e pelo Hans-Martin.

OLHAR AS CAPAS


O Homem Que Via Passar os Comboios

Georges Simenon
Traduçao: Gemeniano Cascais Franco
Colecção Ficção Universal nº 74
Publicações Dom Quixote, Lisboa Agosto de 1990

No que toca pessoalmente a Kees Popinga, temos de admitir que às oito horas da noite ainda era tempo, pois que, assim como assim, o seu destino não estava fixado. Mas tempo de quê? E podia ele fazer outra coisa além do que ia fazer, persuadido aliás de que os seus gestos não tinham mais importância do que durante os milhares e milhares de dias anteriormente decorridos?
Encolheria os ombros se lhe dissessem que a sua vida ia mudar de repente e que aquela fotografia pousada sobre o aparador, que o representava de pé no meio da família, com uma mão despreocupadamente apoiada nas costas de uma cadeira, seria reproduzida por todos os jornais da Europa
Enfim, se procurasse dentro de si mesmo, em plena consciência, o que podia predispô-lo a um futuro tumultuoso, não se lembraria sem dúvida de uma certa furtiva, quase envergonhada, que o perturbava sempre que via passar um comboio, sobretudo um comboio nocturno, com os estores descidos sobre o mistério dos passageiros.

BOM DIA, MANEL!


Se Manuel António Pina, ainda andasse entre nós a deliciar-nos com as suas palavras, faria hoje 70 anos
.
Para comemorar a efeméride, um grupo de amigos organizou um périplo pelos locais e pelos cafés – o que eu gosto dos cafés do Porto!.. – frequentados pelo Manuel António Pina: e onde serão lidos poemas seus: a Padaria Ribeiro, Livraria Lello, Café Piolho, Estação de Metro da Trindade, Café Orfeuzinho e o Café Convívio.

Se estivesse por lá, pegaria  em Como se Desenha uma Casa, parava na pág.13 e faria a leitura de O Regresso.

Assim:

Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão  primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Legenda; fotografia do Café Piolho no Porto tirada de Caminha 2000

domingo, 17 de novembro de 2013

DITOS & REDITOS


Abaixo os organismos de cúpulas. Vivam os organismos de cópula.

Um homem, uma palavra. Uma mulher, um dicionário.

Quem boa cama faz, nela se deita.

A angústia é antes do penalty não é durante.

Tudo é o longe e não se pode regressar.

Ter tempo, o maior dos presentes.

Quem não tem fome de sopa não tem fome de doce.

Respirar palavras, ir para a cama com palavras, acordar com palavras.

Copos emborcados de uma só empinadela.

É preciso ir buscar coragem à imaginação.

Fugimos do abraço com medo de uma faca nas costas.

Quem dá o que pode a mais não é obrigado.

PORQUE HOJE É DOMINGO



Chegar à janela é ver uma cadeira no passeio.
Que faz ali a cadeira?
Certamente não é como aquelas cadeiras da esplanada do Marques na Trafaria. Essas eram de ferro.
Já por aqui falei dessa juke box, já falei também do Moliendo Café que por lá se ouvia.
Há muitas mais. A Marcianita, por exemplo, e nem sequer me lembro quem a cantava, como também não sei quantas vezes dancei ao som dessa canção.
Tentei colocar aqui a versão do meu amigo Daniel Bacelar mas não consegui.
Nabice minha, certamente.
Mas apanhei a da Gal Costa.
Bom domingo.

Esperada, marcianita,
Asseguram os homens de ciência
Que em dez anos mais, tu e eu
Estaremos bem juntinhos,
E nos cantos escuros do céu falaremos de amor .
Tenho tanto te esperado,
Mas serei o primeiro varão
A chegar até onde estás
Pois na terra sou logrado,
E em matéria de amor
Eu sou sempre passado pra trás.
Sou logrado
E em matéria de amor
Eu sou sempre passado pra trás
Eu quero uma mina de Marte que seja sincera
Que não se pinte, nem fume
Nem saiba sequer o que é ié ié ié.
Marcianita, branca ou negra,
Gorduchinha, magrinha, baixinha ou gigante,
Serás, meu amor
A distância nos separa,
Mas no ano 70 felizes seremos os dois.
A distância nos separa,
Mas no ano 70 felizes seremos os dois.


POSTAIS SEM SELO


Passo o tempo lendo ou escutando música. Voltamos sempre ao princípio, estamos perdidos!

Manuel António Pina

Legenda: imagem do filme Fahrenheit 451.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Serguei, um trabalhador imigrante russo que tinha sido engenheiro no Instituto Espacial de Moscovo, conta uma história aos colegas espanhóis, como ele desempregados de um estaleiro naval em Vigo.

Dois camaradas velhos do Partido Comunista encontram-se. Um diz ao outro:

- Já viste? Tudo o que nos contaram sobre o comunismo é mentira.

O outro responde:

Isso não é o pior. O pior é que o que nos contaram sobre o capitalismo é verdade!

Numa entrevista o escritor Jorge Semprun contou:

Uma vez num filme, num guião, nos diálogos, fazendo falar dois antigos comunistas, pus um deles a dizer: eu estou convencido de que dizia verdade. Esse personagem dizia o que eu pensava, claro, porque fui eu que escrevi o texto dele. Mas o que eu quero reproduzir é isto que eles diziam: perdemos as nossas certezas mas não as nossas ilusões. Ou seja, já não temos certezas, já sabemos que não é verdade, mas temos que manter a ilusão de que é preciso fazer algo para mudar esta sociedade. Não temos já certezas mas mantenhamos as nossas ilusões.

Legenda: Segundas ao Sol filme de Fernando Léon de Aranoa