Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura.
Herberto
Helder
Legenda:
pintura de Silva Porto.
Herberto
Helder
Legenda:
pintura de Silva Porto.
Legenda: fotografia de
Eduardo Gageiro
Desconhecia-o.
Mas fui coleccionando
recortes dos suplementos literários, no tempo em que os jornais publicavam esses
suplementos, quase todos às quintas-feiras.
Ao mesmo tempo fui
comprando os seus livros que não foram lidos de imediato.
Tudo muda num repente,
quando num suplemento literário do Diário
Popular s/d leio Luna Levi perguntar, ao seu sábio irmão M.R., se já tinha
lido o último livro de Herberto Helder que era o Photomaton & Vox.
E explica:
«Devorei-o de um fôlego, num acesso de bebedeira deslumbrada.»
Comprei hoje a Biografia
de Herberto Helder – Se Eu Quisesse,
Enlouquecia – 895 páginas escritas por João Pedro George e ocorreu-me
aproveitar a rubrica REOLHARES para lembrar o que aqui se escreveu, a 24 de
Março de 2015, sobre a morte de Herberto Helder.
Da Biografia falaremos um
destes dias.
Corria o Natal de 1970 e eu encontrava-me na Livraria Portugal à procura de um livro para oferecer a mim mesmo.
Herberto Helder apenas o conhecia de nome, referido nos suplementos literários que, uma vez por semana, os jornais publicavam.
A capa colorida da 3ª edição de Os Passos em Volta de Herberto Helder, publicado pela Editorial Estampa, chamou-me a atenção.
Peguei-lhe e os olhos caíram logo nas palavras iniciais.
Gosto imenso de começos de livros. Nem todos ficam para a minha história.
Este ficou.
- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio.
Herberto Helder morreu ontem.
Tinha 84 anos.
Fugia de holofotes, multidões, mediatismos.
Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pela sua obra que, segundo o júri, iluminava a língua portuguesa.
Uma pipa de massa para quem tinha uma reforma curta.
Mas Herberto Helder recusou a distinção.
António Alçada
Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso,
tentaram demovê-lo.
Conta o Alçada Baptista:
O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.
Eu disse, meio a brincar meio a sério:
- Vimos numa difícil missão...
Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.
Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:
- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...
- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...
Ele ainda acrescentou:
- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.
Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma
arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu eu mais
íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito.
Eu só lhe disse:
- Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais.
Em Julho do ano passado publicou o seu último livro.
O título diz tudo: Morte Sem Mestre.
Um escritor como Herberto não necessita de palavreado encomiástico.
Porque sempre o considerou inútil e perene de hipocrisia.
Não gostava de dar entrevistas, nem de se deixar fotografar.
Foi um Natal feliz aquele de 1970.
Gosto de poetas misteriosos.
Gosto de autores que não consigo entender.
Sempre passos em volta.
Em volta sabe-se lá de quê.
Maria Teresa Horta:
Quantas vezes me prendi eu nas malhas envolventes da poesia de Herberto Helder e senti medo de não ser capaz dos seus poemas.
Luna Levi sobre Photomaton e Vox:
Devorei-o de um fôlego, num acesso de bebedeira deslumbrada.
É suficiente.
O resto é pegar nos seus livros.
Alguns de há muito esgotados.
Mas, certamente,
irão ser reeditados.
Não os percam!
Posso exprimir-me deste modo: escrevi cem poemas para desorientação policial. O meu prestígio estava inscrito nas zonas criminais, mas: é fácil rebentar cabeças a tiro ou estrangular gente com gravatas fulgurantes, segundo a lição hitchcockiana. Embora seja menos provavelmente abusivo cometer dois ou três homicídios do que cometer cem poemas. Com os meus cem poemas, e as dificuldades expostas e supostas deles, consegui apesar de tudo chegar relativamente ileso aos quarenta e dois anos. Além de umas passagens psiquiátricas e psicanalíticas, tive apenas um desastre barroco de automóvel e os sustos da escrita que me evitaram, esses, por opção sinuosa, as passagens penitenciárias.
Herberto
Helder em Photomaton & Vox
A Morte É Um Acto Solitário de Ray Bradbury
É um maravilhoso começo de livro
«Veneza, na Califórnia, tinha, nos velhos tempos,
muito que a pudesse recomendasse a quem gostasse de estar triste. Era o
nevoeiro quase todas as noites, e era, ao longo da costa, o gemer das máquinas
nos poços de petróleo, e o bater da água suja nos canais, e o zumbir da areia a
roçar as vidraças, quando o vento assobiava à volta das praças e ao longo das
ruas desertas.
Era no tempo em que o pontão de Veneza, a cair aos
bocados, morria no mar. E podia ver-se então gigantesca ossada de dinossauro, a
montanha-russa, a coberto ou a descoberto, com o vaivém das marés.
No fim de um longo canal, viam-se as caravanas de um circo, decrépitas, para lá atiradas e abandonadas. E quem olhasse para as jaulas, à meia-noite, veria que lá dentro havia vida – peixes e camarões de ´+agua doce, que andavam ao sabor da maré. E tudo isto, afinal, era o circo do tempo, feito ruína, desfazendo-se em ferrugem.»
Quantos anos? Depois continuamos a recordar quem não queremos esquecer.
«Tenho tudo em meio e já não me restam muitos anos
para acabar o que está e há-de vir.»
Mário Sacramento
«Morrer era agora minha liberdade, e eu tinha a vida
inteira para executá-la
pormenorizadamente.»
Herberto Helder
Há dois géneros
de pessoas: as que acham que tudo se passa no principio e as que acham que tudo
se passa no fim. Foi isso que T.S. Eliot sobre isso escreveu: «In my beginning
is my end».
Ou como diria o
vagabundo no bar irlandês, acabando a última Pin:
Life is a bitch… and then you die.
Miguel Torga diz
que o homem é em si uma solidão:
«Nascemos sós, vivemos sós, morremos sós.»
Uma prosa existente na papelada da casa e que não consegue saber o autor, ou os papéis de onde copiou, num guardanapo de café de bairro, a citação:
«Todos devemos deixar qualquer coisa atrás de nós, ao
morrermos, dizia o meu avô. Um filho, um livro, um quadro, uma casa, uma parede
ou um par de sapatos. Ou ainda um jardim plantado de flores. Qualquer coisa que
a mão tocou e para onde irá a alma no instante da morte, E quando as pessoas
olharem essa árvore ou essa flor que plantámos nós, estamos lá, sob os seus
olhos.»
e seu arbusto de sangue. Com ela encantarei a noite.
Herberto Helder
Legenda: «A Young Lady Playing the Harp» pintura de James Northcote.
«Talvez eu pudesse ouvir passos à porta do quarto, passos ligeiros que estacariam, enquanto a minha vida, e toda a vida, se suspenderia. Eu existiria então vagamente, alimentado pela violência de uma esperança, preso à respiração obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios não deixariam de passar. Estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento na verdade seria o máximo talento do homem e devia reter, só pela sua força silenciosa, essa pessoa que estava em frente da porta, a poucos centímetros, à distância de um simples movimento caloroso. Mas, nesse instante, ser-me-ia revelada a verdadeira crueldade do espírito humano. É que eu penso que não desejaria nada mais do que a presença incógnita e solitária dessa pessoa atrás da porta.»
Herberto Helder em Os Passos em Volta
E
daqui deriva também a fisionomia das suas leituras de outros poetas: elas são
mais o prolongamento do fluxo através do outro do que a análise enriquecedora
da complexidade dos textos. Nesse plano, podemos dizer que Ramos Rosa construiu
uma verdadeira cidadela – um quase autismo. Mas os grandes autores são autistas
– como o Herberto, a Llansol, a Agustina, o Vergílio ou o Eugénio de Andrade. E
poderíamos dizer de Ramos Rosa que nenhum autismo foi tão generosos na demanda
do outro para nele se prologar e confirmar – cartas, poemas, desenhos,
leituras, confluência de palavras apaixonadas.
Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I
Dizia o Manuel da Fonseca que «quando
chega domingo faz tenção de todas as coisas mais belas que um pode fazer na
vida», Armando da Silva Carvalho «domingo
é um bom dia para se olhar a tristeza, o ar anda devagar por essas ruas desertas»,
António Reis «é domingo hoje mas nós não
saímos é o único dia que não repetimos e que dura menos», Alexandre O’Neill
«os domingos de Lisboa são domingos
terríveis de passar – e eu que o diga». Eugénio de Andrade «o domingo está apenas nos meus olhos e é
grande.»
Na minha infância aguardava a chegada dos domingos para ir às matinées
do Cine-Oriente, o jantar era melhorado, nem sempre, mas a minha avó fazia uma
galinha no forno que nunca mais voltei a comer, aos domingos na Vila Gadanho os
homens sentavam-se à porta a ouvir o relato nos rádios de pilhas.
Há domingos assim, dizia o
Ruy Belo.
Herberto Helder, que nos anos 70 vivia em Luanda, escreveu crónicas e
reportagens para o semanário Notícia.
Alguns desses escritos estão reunidos em minúsculas, livro publicado em 2018.
Numa dessas crónicas fala de domingos, «que é um dia chato» os domingos de Nambuangongo, vila, se assim se pode dizer, a menos de 200 quilómetros de Luanda, uma distãncia que as colunas militares, partindo da capital, demoravam mais de três meses a percorrer, um local que se pode descrever assim: «barracões pré-fabrivadios para alojamento da tropa, quatro habitações, duas casas de comércio, uma igreja, e um campo de futebol improvisado. Uma pista para aviões (térrea), que é também estrada de acesso. E pó, claro - quero dizer: pó escuro. Os militares gracejam: "Quando escarramos, saem tijolos."»
Herberto conta que há vários domingos, um domingo arrefece em Amesterdão e aquece
em Nova Iorque e «trata-se do mesmo domingo». «Um
flagelo.»
Lembra ainda que os domingos de Paris têm pombos no Jardim de Luxemburgo, os de
Bruxelas arrastam-se pelas cervejarias mas as pessoas aborrecem-se.
«No respeitante aos domingos de
Nambuangongo, têm eles uma particularidade: não existem. Eu, pelo menos, andei
à procura e não encontrei nenhum. Em abono dos domingos, devo elucidar que
também não me foi possível encontrar nenhum sábado, ou sexta-feira, ou quinta,
etc. Um extenso dia sem nome, inconsútil e indistinto, faz o tempo de
Nambuangongo.
(…)
Um dos aspectos característicos de
Nambuangongo é ser um lugar masculino. Não há mulheres. Também, e consequentemente,
não existem crianças.
(…)
Não haver mulheres e crianças é
(digamos) inquietante. Dá ao lugar uma atmosfera parada, morta. Destitui-o
daquela espécie de delicadeza difusa, e alegria sem razão, que aparecem com o
elemento feminino e infantil.
Além dos civis solteiros, há os
militares. Que se faz num quartel de onde não se pode sair para fazer qualquer
coisa fora do quartel? Não existe lugar para onde. Não se pode sair? Pode. Eles
saem para a mata em operações. A guerra é, portanto uma ocupação. Po r acaso,
um grupo de homens, com alguns dos quais estive a beber e a conversar até tarde
na noite, foi opassar o domingo à guerra.»
O poeta Fernando Assis Pacheco esteve nessa guerra, disse ele que a guerra pode passar, mas aquela guerra entrou-lhe para os ossos e não sai.
«Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.
Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.
Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.
Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.»
O poeta Manuel Alegre também por lá andou, em Nambuangongo, onde não há
domingos, nem mulheres, nem crianças, mas algo de mais terrível e, por isso,
ele nos diz que não vimos nada em Nambuangongo.
«Em Nambuangongo tu não viste
nada
não viste nada nesse dia longo
longo
a cabeça cortada
e a flor bombardeada
não tu não viste nada em
Nambuangongo.
Falavas de Hiroxima tu que nunca
viste
em cada homem um morto que não
morre.
Sim nós sabemos Hiroxima é triste
mas ouve em Nambuangongo existe
em cada homem um rio que não
corre.
Em Nambuangongo o tempo cabe num
minuto
em Nambuangongo a gente lembra a
gente esquece
em Nambuangongo olhei e fiquei
nu. Tu
não sabes mas eu digo-te: dói
muito.
Em Nambuangongo há gente que
apodrece.
Em Nambuangongo a gente pensa que
não volta
cada carta é um adeus em cada
carta se morre
cada carta é um silêncio e uma
revolta.
Em Lisboa na mesma isto é a vida
corre.
E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.
É justo que me fales de Hiroxima.
Porém tu nada sabes deste tempo
longo longo
tempo exactamente em cima
do nosso tempo. Ai tempo onde a
palavra vida rima
com a palavra morte em
Nambuangongo.»
Oitocentos mil jovens foram mobilizados para Angola, Guiné e
Moçambique: 11 mil mortos, 40 mil estropiados e deficientes, 140 mil antigos
combatentes passaram a sofrer de “stress” de guerra. Sabemos destes números –
serão mais? Serão menos? Mas como diz João Paulo Guerra no seu livro Memórias da Guerra Colonial, «não
há estatísticas para a solidão, a ansiedade, o medo, o sofrimento, a dor». Há
feridas que custam a cicatrizar mas não é o silêncio o melhor remédio. Uma
guerra sem sentido, estúpida e inútil. E ninguém perguntou àqueles jovens se queriam ou
não participar naquela guerra.
Adeus até ao meu regresso.
De novo, o poeta Herberto Helder:
«Amanhã parto para Luanda, daqui
a não sei quantos dias encontrar-me-ei não sei onde. A movimentação da minha
vida é ao contrário da imobilidade de Nambuangongo. Quase me tenho por culpado.
Mas a minha consciência ganha vantagem à consci~encia dos outros, com sorte
bastante para se aborrecerem dominicalmente em sítios e circunstâncias
«ferviscosos» É que eu conheço Nambuangongo e os homens de lá – habitantes de
um símbolo, de uma significação. Domingos chatos, os deles, mas muito mais
importantes que uma quantidade de domingos que andam para aí.»
Hoje, que é domingo, e faz um frio de rachar, consultando a Wikipédia, ficamos a saber que «Nambuangongo é um município da província do Bengo, em Angola, com sede na vila de Muxaluando. Em 2014, tinha 61.024 habitantes. É limitado a norte pelo município de Ambuíla, a este pelo município de Quitexe, a sul pelo município dos Dembos e a oeste pelos municípios de Ambriz e Dande.»
Naquele terrível tempo, Fernando Assis Pacheco deixou escrito que as
bombas explodiam na mesa de cabeceira, «onde
estive, o capim passava do ombro, a morte passava, e a melancolia.»
E Herberto Helder, nesta crónica do semanário Notícia que temos vindo a ler, deixa desenhado que Nambuangongo «funcionará antes como um significado do que
como um lugar, ou mesmo um facto.»
Mas Fernando Assis Pacheco,no agora em que via descer a noite da sua
vida, Outubro de 1994, desversando, é muito claro:
«Trinta anos depois continuo
revoltadíssimo
V.ª Ex.ª foi de uma grande falta
de chá
nem eu precisava de Angola –
nunca!
nem Angola de mim – o que hoje
parece claro
V.ª Ex.ª argumentava nos
corredores
que eram ordens do dr. Salazar
ora adeus mandasse-o mas é a ele
tinha bom corpo para apanhar
porrada
e mesmo V.ª Ex.ª podia ter feito
uma perninha como eu fiz em Zala
não sou de rancores nem pouco
mais ou menos
mas aquela merda estava mal
parada
sabe V.ª Ex.ª o pasmo e a aflição
quando se caía em alguma
emboscada?
umas vezes olhava pelo rabo do
olho
outras fingia de morto e
mijava-me
depois voltava-se ao acampamento
para a ternura dos cães e a
tarimba rasa
um duche ao ar livre um cigarro
infeliz
o gole de cerveja a atirar para o
amargo
houve um fim de dia entre todos
cinzento
que eu me senti o maior dos
miseráveis
funesta ideia – e fui a correr
esconder
a arma de serviço por sinal uma
Walther
a esta hora já enterraram V.ª
Ex.ª
com as competentes honras
militares
mas a verdade é sempre para se
dizer
trinta anos passados não me
esqueço de nada»
Legenda: povoação de Nambuangongo retirada de Guerra Colonial: Fotobiografia de Renato Monteiro e Luís Farinha.