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sexta-feira, 19 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura.

Herberto Helder

Legenda: pintura de Silva Porto.

quinta-feira, 19 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO

Só morremos de nós mesmos.

Herberto Helder

quinta-feira, 5 de junho de 2025

POSTAIS SEM SELO


 A gente que nasce e vive junto do mar é mais pura.

 Herberto Helder em Os Passos em Volta

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

sexta-feira, 23 de maio de 2025

REOLHARES


Cheguei um tanto ou quanto atrasado à leitura de Herberto Helder.

Desconhecia-o.

Mas fui coleccionando recortes dos suplementos literários, no tempo em que os jornais publicavam esses suplementos, quase todos às quintas-feiras.

Ao mesmo tempo fui comprando os seus livros que não foram lidos de imediato.

Tudo muda num repente, quando num suplemento literário do Diário Popular s/d leio Luna Levi perguntar, ao seu sábio irmão M.R., se já tinha lido o último livro de Herberto Helder que era o Photomaton & Vox.

E explica:

«Devorei-o de um fôlego, num acesso de bebedeira deslumbrada.»

Comprei hoje a Biografia de Herberto Helder – Se Eu Quisesse, Enlouquecia – 895 páginas escritas por João Pedro George e ocorreu-me aproveitar a rubrica REOLHARES para lembrar o que aqui se escreveu, a 24 de Março de 2015, sobre a morte de Herberto Helder.

Da Biografia falaremos um destes dias.

Corria o Natal de 1970 e eu encontrava-me na Livraria Portugal à procura de um livro para oferecer a mim mesmo.

Herberto Helder apenas o conhecia de nome, referido nos suplementos literários que, uma vez por semana, os jornais publicavam.

A capa colorida da 3ª edição de Os Passos em Volta de Herberto Helder, publicado pela Editorial Estampa, chamou-me a atenção.

Peguei-lhe e os olhos caíram logo nas palavras iniciais.

Gosto imenso de começos de livros. Nem todos ficam para a minha história.

Este ficou.

- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio.

Herberto Helder morreu ontem.

Tinha 84 anos.

Fugia de holofotes, multidões, mediatismos.

Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pela sua obra que, segundo o júri, iluminava a língua portuguesa.

Uma pipa de massa para quem tinha uma reforma curta.

Mas Herberto Helder recusou a distinção.

António Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso, tentaram demovê-lo.

Conta o Alçada Baptista:

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério:

 - Vimos numa difícil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu eu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito.

Eu só lhe disse: 

- Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais.

Em Julho do ano passado publicou o seu último livro.

O título diz tudo: Morte Sem Mestre.

Um escritor como Herberto não necessita de palavreado encomiástico.

Porque sempre o considerou inútil e perene de hipocrisia.

Não gostava de dar entrevistas, nem de se deixar fotografar.

Foi um Natal feliz aquele de 1970.

Gosto de poetas misteriosos.

Gosto de autores que não consigo entender.

Sempre passos em volta.

Em volta sabe-se lá de quê.

Maria Teresa Horta:

Quantas vezes me prendi eu nas malhas envolventes da poesia de Herberto Helder e senti medo de não ser capaz dos seus poemas.

Luna Levi sobre Photomaton e Vox:

Devorei-o de um fôlego, num acesso de bebedeira deslumbrada.

É suficiente.

O resto é pegar nos seus livros.

Alguns de há muito esgotados.

Mas, certamente, irão ser reeditados.

Não os percam!

quarta-feira, 5 de março de 2025

SEGUNDO A LIÇÃO HITCHCOCKIANA

Posso exprimir-me deste modo: escrevi cem poemas para desorientação policial. O meu prestígio estava inscrito nas zonas criminais, mas: é fácil rebentar cabeças a tiro ou estrangular gente com gravatas fulgurantes, segundo a lição hitchcockiana. Embora seja menos provavelmente abusivo cometer dois ou três homicídios do que cometer cem poemas. Com os meus cem poemas, e as dificuldades expostas e supostas deles, consegui apesar de tudo chegar relativamente ileso aos quarenta e dois anos. Além de umas passagens psiquiátricas e psicanalíticas, tive apenas um desastre barroco de automóvel e os sustos da escrita que me evitaram, esses, por opção sinuosa, as passagens penitenciárias.

Herberto Helder em Photomaton & Vox

terça-feira, 24 de setembro de 2024

COMEÇOS DE LIVROS

A Morte É Um Acto Solitário de Ray Bradbury

É um maravilhoso começo de livro

«Veneza, na Califórnia, tinha, nos velhos tempos, muito que a pudesse recomendasse a quem gostasse de estar triste. Era o nevoeiro quase todas as noites, e era, ao longo da costa, o gemer das máquinas nos poços de petróleo, e o bater da água suja nos canais, e o zumbir da areia a roçar as vidraças, quando o vento assobiava à volta das praças e ao longo das ruas desertas.

Era no tempo em que o pontão de Veneza, a cair aos bocados, morria no mar. E podia ver-se então gigantesca ossada de dinossauro, a montanha-russa, a coberto ou a descoberto, com o vaivém das marés.

No fim de um longo canal, viam-se as caravanas de um circo, decrépitas, para lá atiradas e abandonadas. E quem olhasse para as jaulas, à meia-noite, veria que lá dentro havia vida – peixes e camarões de ´+agua doce, que andavam ao sabor da maré. E tudo isto, afinal, era o circo do tempo, feito ruína, desfazendo-se em ferrugem.»

Quantos anos? Depois continuamos a recordar quem não queremos esquecer.

«Tenho tudo em meio e já não me restam muitos anos para acabar o que está e há-de vir.»

Mário Sacramento

«Morrer era agora minha liberdade, e eu tinha a vida inteira para executá-la

pormenorizadamente.»

Herberto Helder

Há dois géneros de pessoas: as que acham que tudo se passa no principio e as que acham que tudo se passa no fim. Foi isso que T.S. Eliot sobre isso escreveu: «In my beginning is my end».

Ou como diria o vagabundo no bar irlandês, acabando a última Pin:

Life is a bitch… and then you die.

Miguel Torga diz que o homem é em si uma solidão:

«Nascemos sós, vivemos sós, morremos sós.»

Uma prosa existente na papelada da casa e que não consegue saber o autor, ou os papéis de onde copiou, num guardanapo de café de bairro, a citação:

«Todos devemos deixar qualquer coisa atrás de nós, ao morrermos, dizia o meu avô. Um filho, um livro, um quadro, uma casa, uma parede ou um par de sapatos. Ou ainda um jardim plantado de flores. Qualquer coisa que a mão tocou e para onde irá a alma no instante da morte, E quando as pessoas olharem essa árvore ou essa flor que plantámos nós, estamos lá, sob os seus olhos.»

domingo, 21 de janeiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra

e seu arbusto de sangue. Com ela encantarei a noite.

Herberto Helder

Legenda: «A Young Lady Playing the Harp» pintura de James Northcote.

segunda-feira, 27 de março de 2023

POSTAIS SEM SELO


 O meu único alimento é a falta de fé.

Herberto Helder em Os Passos Em Volta

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

OS COMBOIOS NÃO DEIXARIAM DE PASSAR

«Talvez eu pudesse ouvir passos à porta do quarto, passos ligeiros que estacariam, enquanto a minha vida, e toda a vida, se suspenderia. Eu existiria então vagamente, alimentado pela violência de uma esperança, preso à respiração obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios não deixariam de passar. Estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento na verdade seria o máximo talento do homem e devia reter, só pela sua força silenciosa, essa pessoa que estava em frente da porta, a poucos centímetros, à distância de um simples movimento caloroso. Mas, nesse instante, ser-me-ia revelada a verdadeira crueldade do espírito humano. É que eu penso que não desejaria nada mais do que a presença incógnita e solitária dessa pessoa atrás da porta.»


Herberto Helder em Os Passos em Volta

quinta-feira, 31 de março de 2022

POSTAIS SEM SELO


 As pontes não são o rio.

 Herberto Helder

sábado, 25 de setembro de 2021

DOS AUTISMOS...

E daqui deriva também a fisionomia das suas leituras de outros poetas: elas são mais o prolongamento do fluxo através do outro do que a análise enriquecedora da complexidade dos textos. Nesse plano, podemos dizer que Ramos Rosa construiu uma verdadeira cidadela – um quase autismo. Mas os grandes autores são autistas – como o Herberto, a Llansol, a Agustina, o Vergílio ou o Eugénio de Andrade. E poderíamos dizer de Ramos Rosa que nenhum autismo foi tão generosos na demanda do outro para nele se prologar e confirmar – cartas, poemas, desenhos, leituras, confluência de palavras apaixonadas.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I

domingo, 10 de janeiro de 2021

OS DOMINGOS DE NAMBUANGONGO


Dizia o Manuel da Fonseca que «quando chega domingo faz tenção de todas as coisas mais belas que um pode fazer na vida», Armando da Silva Carvalho «domingo é um bom dia para se olhar a tristeza, o ar anda devagar por essas ruas desertas», António Reis «é domingo hoje mas nós não saímos é o único dia que não repetimos e que dura menos», Alexandre O’Neill «os domingos de Lisboa são domingos terríveis de passar – e eu que o diga». Eugénio de Andrade «o domingo está apenas nos meus olhos e é grande.»

Na minha infância aguardava a chegada dos domingos para ir às matinées do Cine-Oriente, o jantar era melhorado, nem sempre, mas a minha avó fazia uma galinha no forno que nunca mais voltei a comer, aos domingos na Vila Gadanho os homens sentavam-se à porta a ouvir o relato nos rádios de pilhas.

Há domingos assim, dizia o Ruy Belo.

Herberto Helder, que nos anos 70 vivia em Luanda, escreveu crónicas e reportagens para o semanário Notícia. Alguns desses escritos estão reunidos em minúsculas, livro publicado em 2018.

Numa dessas crónicas fala de domingos, «que é um dia chato» os domingos de Nambuangongo, vila, se assim se pode dizer, a menos de 200 quilómetros de Luanda, uma distãncia que as colunas militares, partindo da capital,  demoravam mais de três meses a percorrer, um local que se pode descrever assim: «barracões pré-fabrivadios para alojamento da tropa, quatro habitações, duas casas de comércio, uma igreja, e um campo de futebol improvisado. Uma pista para aviões (térrea), que é também estrada de acesso. E pó, claro - quero dizer: pó escuro. Os militares gracejam: "Quando escarramos, saem tijolos."»

Herberto conta que há vários domingos, um domingo arrefece em Amesterdão e aquece em Nova Iorque  e «trata-se do mesmo domingo». «Um flagelo.»

Lembra ainda que os domingos de Paris têm pombos no Jardim de Luxemburgo, os de Bruxelas arrastam-se pelas cervejarias mas as pessoas aborrecem-se.

«No respeitante aos domingos de Nambuangongo, têm eles uma particularidade: não existem. Eu, pelo menos, andei à procura e não encontrei nenhum. Em abono dos domingos, devo elucidar que também não me foi possível encontrar nenhum sábado, ou sexta-feira, ou quinta, etc. Um extenso dia sem nome, inconsútil e indistinto, faz o tempo de Nambuangongo.

(…)

Um dos aspectos característicos de Nambuangongo é ser um lugar masculino. Não há mulheres. Também, e consequentemente, não existem crianças.

(…)

Não haver mulheres e crianças é (digamos) inquietante. Dá ao lugar uma atmosfera parada, morta. Destitui-o daquela espécie de delicadeza difusa, e alegria sem razão, que aparecem com o elemento feminino e infantil.

Além dos civis solteiros, há os militares. Que se faz num quartel de onde não se pode sair para fazer qualquer coisa fora do quartel? Não existe lugar para onde. Não se pode sair? Pode. Eles saem para a mata em operações. A guerra é, portanto uma ocupação. Po r acaso, um grupo de homens, com alguns dos quais estive a beber e a conversar até tarde na noite, foi opassar o domingo à guerra.»

O poeta Fernando Assis Pacheco esteve nessa guerra, disse ele que a guerra pode passar, mas aquela guerra entrou-lhe para os ossos e não sai.

«Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.»

O poeta Manuel Alegre também por lá andou, em Nambuangongo, onde não há domingos, nem mulheres, nem crianças, mas algo de mais terrível e, por isso, ele nos diz que não vimos nada em Nambuangongo.

«Em Nambuangongo tu não viste nada

não viste nada nesse dia longo longo

a cabeça cortada

e a flor bombardeada

não tu não viste nada em Nambuangongo.

 

Falavas de Hiroxima tu que nunca viste

em cada homem um morto que não morre.

Sim nós sabemos Hiroxima é triste

mas ouve em Nambuangongo existe

em cada homem um rio que não corre.

 

Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto

em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece

em Nambuangongo olhei e fiquei nu. Tu

não sabes mas eu digo-te: dói muito.

Em Nambuangongo há gente que apodrece.

 

Em Nambuangongo a gente pensa que não volta

cada carta é um adeus em cada carta se morre

cada carta é um silêncio e uma revolta.

Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.

E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.


É justo que me fales de Hiroxima.

Porém tu nada sabes deste tempo longo longo

tempo exactamente em cima

do nosso tempo. Ai tempo onde a palavra vida rima

com a palavra morte em Nambuangongo.»

Oitocentos mil jovens foram mobilizados para Angola, Guiné e Moçambique: 11 mil mortos, 40 mil estropiados e deficientes, 140 mil antigos combatentes passaram a sofrer de “stress” de guerra. Sabemos destes números – serão mais? Serão menos? Mas como diz João Paulo Guerra no seu livro Memórias da Guerra Colonial, «não há estatísticas para a solidão, a ansiedade, o medo, o sofrimento, a dor». Há feridas que custam a cicatrizar mas não é o silêncio o melhor remédio. Uma guerra sem sentido, estúpida e inútil. E ninguém perguntou àqueles jovens se queriam ou não participar naquela guerra.
Adeus até ao meu regresso.

De novo, o poeta Herberto Helder:

«Amanhã parto para Luanda, daqui a não sei quantos dias encontrar-me-ei não sei onde. A movimentação da minha vida é ao contrário da imobilidade de Nambuangongo. Quase me tenho por culpado. Mas a minha consciência ganha vantagem à consci~encia dos outros, com sorte bastante para se aborrecerem dominicalmente em sítios e circunstâncias «ferviscosos» É que eu conheço Nambuangongo e os homens de lá – habitantes de um símbolo, de uma significação. Domingos chatos, os deles, mas muito mais importantes que uma quantidade de domingos que andam para aí.»

Hoje, que é domingo, e faz um frio de rachar, consultando a Wikipédia, ficamos a saber que «Nambuangongo é um município da província do Bengo, em Angola, com sede na vila de Muxaluando. Em 2014, tinha 61.024 habitantes. É limitado a norte pelo município de Ambuíla, a este pelo município de Quitexe, a sul pelo município dos Dembos e a oeste pelos municípios de Ambriz e Dande.»

Naquele terrível tempo, Fernando Assis Pacheco deixou escrito que as bombas explodiam na mesa de cabeceira, «onde estive, o capim passava do ombro, a morte passava, e a melancolia.»

E Herberto Helder, nesta crónica do semanário Notícia que temos vindo a ler, deixa desenhado que Nambuangongo «funcionará antes como um significado do que como um lugar, ou mesmo um facto.»

Mas Fernando Assis Pacheco,no agora em que via descer a noite da sua vida, Outubro de 1994, desversando, é muito claro:

«Trinta anos depois continuo revoltadíssimo

V.ª Ex.ª foi de uma grande falta de chá

nem eu precisava de Angola – nunca!

nem Angola de mim – o que hoje parece claro

 

V.ª Ex.ª argumentava nos corredores

que eram ordens do dr. Salazar

ora adeus mandasse-o mas é a ele

tinha bom corpo para apanhar porrada

 

e mesmo V.ª Ex.ª podia ter feito

uma perninha como eu fiz em Zala

não sou de rancores nem pouco mais ou menos

mas aquela merda estava mal parada

 

sabe V.ª Ex.ª o pasmo e a aflição

quando se caía em alguma emboscada?

umas vezes olhava pelo rabo do olho

outras fingia de morto e mijava-me

 

depois voltava-se ao acampamento

para a ternura dos cães e a tarimba rasa

um duche ao ar livre um cigarro infeliz

o gole de cerveja a atirar para o amargo

 

houve um fim de dia entre todos cinzento

que eu me senti o maior dos miseráveis

funesta ideia – e fui a correr esconder

a arma de serviço por sinal uma Walther

 

a esta hora já enterraram V.ª Ex.ª

com as competentes honras militares

mas a verdade é sempre para se dizer

trinta anos passados não me esqueço de nada»

 

Legenda: povoação de Nambuangongo retirada  de Guerra Colonial: Fotobiografia de Renato Monteiro e Luís Farinha.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

CADA ILHA É UM LABIRINTO SEM SAÍDA


Quando morreu Herberto Helder, houve quem pensasse que dariam o seu nome ao aeroporto da Madeira, a ilha onde o poeta nasceu. Mas não. Deram-lhe o nome de Cristiano Ronaldo. Mais uma vez, a poesia do futebol ganhou à poesia pura e dura.

Claudio Hochman em Ilhas

terça-feira, 4 de junho de 2019

RELACIONADOS


Dos Cadernos do Meio-Dia saíram, entre Abril de 1958 e Fevereiro de 1960. cinco números. 
Numa ida ao Porto, talvez Abril de 1960, arranjei um tempinho, fora das tarefas que à cidade me levaram, e dei um salto à Livraria Divulgação, então na Rua de Ceuta nº 88.
Consegui encontrar 4 volumes dos Cadernos do Meio-Dia. Falta-me o nº 4 porque se esgotara.
Cada caderno custou 7$50.
Esta é a contra capa do nº 3 dos Cadernos onde se podem ler os nomes  dos colaboradores que, para este número, enviaram poesias, textos e críticas.
António Ramos Rosa faz crítica ao livro O Amor em Visita de Herberto Helder, publicado pelas Edições Contraponto do nosso muito conhecido Luiz Pacheco.
A crítica termina assim:
«Estamos em frente dum poeta autêntico que se pode situar entre os melhores da mais nova geração. Este livro, para o qual havíamos sugerido um título mais adequado, «Canto Nupcial», é, na verdade, um magnífico hino à Mulher e o poema processa-se com um ritual de amor. Com Herberto Helder, não tememos dizê-lo, surge uma nova dimensão poética, profundamente pagã e patética, uma violência genuína e não provocada, com fundas raízes no instinto, que só a sua maravilhosa música sabe flectir como esse «torso dobrado pela música».

quinta-feira, 30 de maio de 2019

UM LIVRO EM CIRCULAÇÃO CLANDESTINA


Atravessei depressa a juventude.
Tinha duas coisas- a alegria e o terror.
Percorri-os sem tomar fôlego.
Quando cheguei ao outro lado, encontrava-me em frente da maturidade- estupefacto.
Não conhecia os nomes nem as subtilezas.
Falando com certas pessoas eu dizia: conheci a alegria e o terror.
Elas sorriam.
Parece que eram sábias.
Ou estúpidas.
Nada sei disso.

Excerto de poema de Herberto Helder em Apresentação do Rosto.
Nunca consegui encontrar este livro de Herberto Helder. Melhor: encontrei-o, há dias, à venda na Loja Frenesi, mas custava 420,00 euros, completamente fora do orçamento e já não me posso sacrificar porque, medicamente, fui proibido de comer salsichas Isidoro, qual alheira de Mirandela, como naquela canção do Fausto, nem num dia quanto mais salsichas numa série de dias, não sei quê os triglicéridos, qualquer coisa assim…

Este é o texto que copio da Frenesi:

HERBERTO HELDER
capa de Espiga Pinto

Lisboa, Maio de 1968
Editora Ulisseia Limitada
impresso na tipografia do «Jornal do Fundão» de António Pauloro
1.ª edição
18,8 cm x 12,4 cm
220 págs.
reproduz na badana uma das raras fotografias do Autor
exemplar muito estimado; miolo limpo, parcialmente aberto
PEÇA DE COLECÇÃO
420,00 eur (IVA e portes incluídos)

Trata-se do livro mítico que HH tentou, ao longo dos anos, fazer desaparecer da sua bibliografia. Apreendido pela polícia in situ na casa editora, poucos volumes sobreviveram, quer à rusga quer ao próprio Autor. Hoje em dia – após um árduo percurso de escassa circulação clandestina – aqueles que surgem à venda são quase sempre os mesmos exemplares, que têm vindo a passar de mão em mão dos coleccionadores.
Exactamente devido a um historial assim, o renegado livro mereceu do poeta Manuel de Freitas um estudo que a casa & etc tornou público: Uma Espécie de Crime: Apresentação do Rosto de Herberto Helder (Lisboa, 2001).
Na época, a poucos dias de surgir o livro no mercado, HH respondia assim a uma entrevista conduzida por Maria Teresa Horta (A Capital, suplemento «Literatura & Arte», Lisboa, 10 de Abril de 1968):
«Com uma nova alegria no rosto, uma nova confiança nas suas palavras, Herberto Hélder fala-nos pausadamente, responde sem hesitações.
– Diz-se que tem um romance a sair brevemente, é verdade?
– Não é um romance. Pelo menos se considerarmos as noções do romance tradicional... É antes uma montagem de textos de natureza autobiográfica, tendo uma unidade subjacente de sentido e uma unidade evidente de estilo.
[...] A necessidade de escrever prosa parece ter-me surgido durante certo tempo de experiências muito concretas cuja essência eu ainda não apreendera, mas cujo carácter muito concreto e imediato pedia que fosse expresso. A poesia, para mim, não me parecia o melhor meio de revelar esta experiência e dela me libertar. Além disso, um ritmo novo aparecera na minha linguagem. Eu não sabia como adaptá-lo ao que considerava o meu ritmo pessoal de poema. [...]»
Surgia, então, este livro num momento em que, por assim dizer, o Autor encerrava um ciclo, e que se resumia à edição, também então recente, da sua “poesia toda” sob o título Ofício Cantante (Portugália Editora, Lisboa, 1967).

Herberto Helder sempre foi um autor estranho.
Nunca consegui saber - ou sei?! -  das razões porque entendeu correr com este livro da sua bibliografia.
Claro que sempre dizia que se quisesse enlouquecia pois sabia uma quantidade enorme de histórias terríveis…

sábado, 11 de maio de 2019

NO PAÍS DOS SACANAS


O título do post pertence a um poema de Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão.

Herberto Helder no começo de Os Passos em Volta:

Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis.

O que se passou ontem com a audição de Joe Berrado na Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco, é inenarrável.

Um vendedor de banha da cobra tem andado a enganar toda a gente com primeiros-ministros, ministros, banqueiros à cabeça da lista.

Num linguajar migrante, declarou que não tem dívidas, nem património, excepto uma garagem particular no Funchal, e culpa os bancos por lhe terem emprestado dinheiro.

«Não sabem o que fazem!»

Disse mais:

«Sou disléxico, misturo nomes, números. Não sou perfeito, ainda bem. Quem foi o mais prejudicado aqui fui eu».

Sempre me importei com determinado tipo de coisas e nada mudou ao ponto de deixarem de me incomodar.

Os breves minutos em que ouvi o traste, a rir-se de todos nós, aproximou-me do limiar do vómito, e saltei fora.

Passei pela estante e não sei se a (des)propósito saquei este poema do Jorge de Sena:

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma. 

Legenda: Imagem JM Madeira

segunda-feira, 25 de março de 2019

O QUE DIZEM AS CRIANÇAS


«Quando eu crescer, vou cortar as flores grandes, para não haver vento.» A história é esta: fazia muito vento, e por isso a mãe não deixara a filha ir brincar para a rua. Como o sinal do vento o via ela nas árvores a abanar («as flores grandes»), cortando-as desapareceria o sinal, quer dizer: a própria coisa (o vento). Então, já ela poderia ir brincar para a rua. Mas como o poder é dos adultos (a «quantidade milagrosa» - a idade), só quando ela «crescesse» poderia cortar as árvores. Modificaria a realidade segundo o princípio do desejo. E isto é não só o princípio mesmo da poesia, mas o das relações do homem com a realidade - o significado do trabalhador criador. Adaptar o mundo ao nosso desejo, através de um acto radical. E é quando o trabalho se faz jogo.

Herberto Helder em  minúsculas

sábado, 20 de outubro de 2018

POSTAIS SEM SELO


A respeito da poesia pode ainda dizer-se : - A lâmpada faz com que se veja a própria lâmpada. E também à volta.

Herberto Helder em Photomaton&Vox

sexta-feira, 11 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


O melhor cabe aos olhos apanhá-lo.

Herberto Helder

domingo, 29 de abril de 2018

DÊEM O PRÉMIO A OUTRO!



A Frenesi Loja tem à venda (30 euros, portes incluídos) uma edição comemorativa dos dez anos do Prémio Fernando Pessoa, profusamente ilustrado a cor, encadernação editorial em tela gravada a ouro na pasta anterior e na lombada, com sobre capa impressa, folhas-de-guarda impressas.

«O grande interesse nesta publicação, que reúne fotos e entrevistas com os galardoados de uma década, reside no facto de testemunhar, num registo verdadeiramente patético, o embaraço dalguns membros do júri mais audazes quando, rumo a Cascais em demanda do nosso maior poeta vivo, Herberto Helder, portadores do “ouro” do Prémio Pessoa 1994, encontraram o caminho de volta na simplicidade inflexível da palavra de um pobre guardador do seu crisol: «Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...»


«Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pela sua obra que, segundo o júri, iluminava a língua portuguesa.

Uma pipa de massa para quem tinha uma reforma curta.

Mas Herberto Helder recusou a distinção.

António Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso, tentaram demovê-lo.

Conta o Alçada Baptista:

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério:

 - Vimos numa difícil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu eu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito.

Eu só lhe disse:

- Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais.»