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terça-feira, 4 de junho de 2019

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Dos Cadernos do Meio-Dia saíram, entre Abril de 1958 e Fevereiro de 1960. cinco números. 
Numa ida ao Porto, talvez Abril de 1960, arranjei um tempinho, fora das tarefas que à cidade me levaram, e dei um salto à Livraria Divulgação, então na Rua de Ceuta nº 88.
Consegui encontrar 4 volumes dos Cadernos do Meio-Dia. Falta-me o nº 4 porque se esgotara.
Cada caderno custou 7$50.
Esta é a contra capa do nº 3 dos Cadernos onde se podem ler os nomes  dos colaboradores que, para este número, enviaram poesias, textos e críticas.
António Ramos Rosa faz crítica ao livro O Amor em Visita de Herberto Helder, publicado pelas Edições Contraponto do nosso muito conhecido Luiz Pacheco.
A crítica termina assim:
«Estamos em frente dum poeta autêntico que se pode situar entre os melhores da mais nova geração. Este livro, para o qual havíamos sugerido um título mais adequado, «Canto Nupcial», é, na verdade, um magnífico hino à Mulher e o poema processa-se com um ritual de amor. Com Herberto Helder, não tememos dizê-lo, surge uma nova dimensão poética, profundamente pagã e patética, uma violência genuína e não provocada, com fundas raízes no instinto, que só a sua maravilhosa música sabe flectir como esse «torso dobrado pela música».

quinta-feira, 30 de maio de 2019

UM LIVRO EM CIRCULAÇÃO CLANDESTINA


Atravessei depressa a juventude.
Tinha duas coisas- a alegria e o terror.
Percorri-os sem tomar fôlego.
Quando cheguei ao outro lado, encontrava-me em frente da maturidade- estupefacto.
Não conhecia os nomes nem as subtilezas.
Falando com certas pessoas eu dizia: conheci a alegria e o terror.
Elas sorriam.
Parece que eram sábias.
Ou estúpidas.
Nada sei disso.

Excerto de poema de Herberto Helder em Apresentação do Rosto.
Nunca consegui encontrar este livro de Herberto Helder. Melhor: encontrei-o, há dias, à venda na Loja Frenesi, mas custava 420,00 euros, completamente fora do orçamento e já não me posso sacrificar porque, medicamente, fui proibido de comer salsichas Isidoro, qual alheira de Mirandela, como naquela canção do Fausto, nem num dia quanto mais salsichas numa série de dias, não sei quê os triglicéridos, qualquer coisa assim…

Este é o texto que copio da Frenesi:

HERBERTO HELDER
capa de Espiga Pinto

Lisboa, Maio de 1968
Editora Ulisseia Limitada
impresso na tipografia do «Jornal do Fundão» de António Pauloro
1.ª edição
18,8 cm x 12,4 cm
220 págs.
reproduz na badana uma das raras fotografias do Autor
exemplar muito estimado; miolo limpo, parcialmente aberto
PEÇA DE COLECÇÃO
420,00 eur (IVA e portes incluídos)

Trata-se do livro mítico que HH tentou, ao longo dos anos, fazer desaparecer da sua bibliografia. Apreendido pela polícia in situ na casa editora, poucos volumes sobreviveram, quer à rusga quer ao próprio Autor. Hoje em dia – após um árduo percurso de escassa circulação clandestina – aqueles que surgem à venda são quase sempre os mesmos exemplares, que têm vindo a passar de mão em mão dos coleccionadores.
Exactamente devido a um historial assim, o renegado livro mereceu do poeta Manuel de Freitas um estudo que a casa & etc tornou público: Uma Espécie de Crime: Apresentação do Rosto de Herberto Helder (Lisboa, 2001).
Na época, a poucos dias de surgir o livro no mercado, HH respondia assim a uma entrevista conduzida por Maria Teresa Horta (A Capital, suplemento «Literatura & Arte», Lisboa, 10 de Abril de 1968):
«Com uma nova alegria no rosto, uma nova confiança nas suas palavras, Herberto Hélder fala-nos pausadamente, responde sem hesitações.
– Diz-se que tem um romance a sair brevemente, é verdade?
– Não é um romance. Pelo menos se considerarmos as noções do romance tradicional... É antes uma montagem de textos de natureza autobiográfica, tendo uma unidade subjacente de sentido e uma unidade evidente de estilo.
[...] A necessidade de escrever prosa parece ter-me surgido durante certo tempo de experiências muito concretas cuja essência eu ainda não apreendera, mas cujo carácter muito concreto e imediato pedia que fosse expresso. A poesia, para mim, não me parecia o melhor meio de revelar esta experiência e dela me libertar. Além disso, um ritmo novo aparecera na minha linguagem. Eu não sabia como adaptá-lo ao que considerava o meu ritmo pessoal de poema. [...]»
Surgia, então, este livro num momento em que, por assim dizer, o Autor encerrava um ciclo, e que se resumia à edição, também então recente, da sua “poesia toda” sob o título Ofício Cantante (Portugália Editora, Lisboa, 1967).

Herberto Helder sempre foi um autor estranho.
Nunca consegui saber - ou sei?! -  das razões porque entendeu correr com este livro da sua bibliografia.
Claro que sempre dizia que se quisesse enlouquecia pois sabia uma quantidade enorme de histórias terríveis…

sábado, 11 de maio de 2019

NO PAÍS DOS SACANAS


O título do post pertence a um poema de Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão.

Herberto Helder no começo de Os Passos em Volta:

Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis.

O que se passou ontem com a audição de Joe Berrado na Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco, é inenarrável.

Um vendedor de banha da cobra tem andado a enganar toda a gente com primeiros-ministros, ministros, banqueiros à cabeça da lista.

Num linguajar migrante, declarou que não tem dívidas, nem património, excepto uma garagem particular no Funchal, e culpa os bancos por lhe terem emprestado dinheiro.

«Não sabem o que fazem!»

Disse mais:

«Sou disléxico, misturo nomes, números. Não sou perfeito, ainda bem. Quem foi o mais prejudicado aqui fui eu».

Sempre me importei com determinado tipo de coisas e nada mudou ao ponto de deixarem de me incomodar.

Os breves minutos em que ouvi o traste, a rir-se de todos nós, aproximou-me do limiar do vómito, e saltei fora.

Passei pela estante e não sei se a (des)propósito saquei este poema do Jorge de Sena:

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma. 

Legenda: Imagem JM Madeira

segunda-feira, 25 de março de 2019

O QUE DIZEM AS CRIANÇAS


«Quando eu crescer, vou cortar as flores grandes, para não haver vento.» A história é esta: fazia muito vento, e por isso a mãe não deixara a filha ir brincar para a rua. Como o sinal do vento o via ela nas árvores a abanar («as flores grandes»), cortando-as desapareceria o sinal, quer dizer: a própria coisa (o vento). Então, já ela poderia ir brincar para a rua. Mas como o poder é dos adultos (a «quantidade milagrosa» - a idade), só quando ela «crescesse» poderia cortar as árvores. Modificaria a realidade segundo o princípio do desejo. E isto é não só o princípio mesmo da poesia, mas o das relações do homem com a realidade - o significado do trabalhador criador. Adaptar o mundo ao nosso desejo, através de um acto radical. E é quando o trabalho se faz jogo.

Herberto Helder em  minúsculas

sábado, 20 de outubro de 2018

POSTAIS SEM SELO


A respeito da poesia pode ainda dizer-se : - A lâmpada faz com que se veja a própria lâmpada. E também à volta.

Herberto Helder em Photomaton&Vox

sexta-feira, 11 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


O melhor cabe aos olhos apanhá-lo.

Herberto Helder

domingo, 29 de abril de 2018

DÊEM O PRÉMIO A OUTRO!



A Frenesi Loja tem à venda (30 euros, portes incluídos) uma edição comemorativa dos dez anos do Prémio Fernando Pessoa, profusamente ilustrado a cor, encadernação editorial em tela gravada a ouro na pasta anterior e na lombada, com sobre capa impressa, folhas-de-guarda impressas.

«O grande interesse nesta publicação, que reúne fotos e entrevistas com os galardoados de uma década, reside no facto de testemunhar, num registo verdadeiramente patético, o embaraço dalguns membros do júri mais audazes quando, rumo a Cascais em demanda do nosso maior poeta vivo, Herberto Helder, portadores do “ouro” do Prémio Pessoa 1994, encontraram o caminho de volta na simplicidade inflexível da palavra de um pobre guardador do seu crisol: «Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...»


«Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pela sua obra que, segundo o júri, iluminava a língua portuguesa.

Uma pipa de massa para quem tinha uma reforma curta.

Mas Herberto Helder recusou a distinção.

António Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso, tentaram demovê-lo.

Conta o Alçada Baptista:

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério:

 - Vimos numa difícil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu eu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito.

Eu só lhe disse:

- Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais.»

sábado, 31 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS




Novembro
Cadernos de Poesia

Poesias de António-Franco Alexandre, Fernando Assis Pacheco, Herberto Helder,
                   José Gomes Ferreira e Nuno Júdice

Coordenação de Casimiro de Brito e Gastão Cruz
Capa: Manuel Baptista
Edição dos Coordenadores, Lisboa, Novembro de 1972

Minha Pequenas Dúvidas e a Guerra


                               1

minhas pequenas dúvidas estabelecem
habitação violenta. furam pelos ossos,
espalham os dedos em volta, os caules
aquecidos do vento, roem
lentamente os pátios inertes,
instalam a dobra azul dos cotovelos,
resistem. Têm, ambígua, a elegância
elementar da água. Dobram
as espigas nos dentes,
conhecem o nervo
estendido no céu.
                            mexem
os dedos na gaveta, o calcário
das costas, vigiam com cuidado
as vísceras dos galos, a variável
rotação dos planetas; enquanto a galáxia
gira em si mesma intensamente inútil.
minhas pequenas dúvidas multiplicam os dentes,
decoram marx, passeiam o silêncio
pela trela. resistem,
furam pelos dedos, as vísceras
intensas do vento, estabelecem
cotovelos completos.
                                   têm
a violência constante dos ossos,
resistem, dobram lentamente
a trela das estrelas,
ferem as vísceras
inertes do silêncio, espalham
em volta a demasia oblíqua
das espigas nos pulsos. lêem
o jornal misturado à saliva, aprendem
sem ruído as máquinas da pele:
minhas pequenas dúvidas resistem
o calcário dos nervos,
                             estabelecem
habitação inútil,
dobram os ossos ao calor dos pátios.


                          2

 enquanto o coração se prende às cordas
cruzadas do silêncio, esmago
entre os dedos uma gota estreita de noite,
fecho os olhos ao gás das granadas em voo,
escrevo, rumino, peso as estrelas
ao fundo da garganta moída,
buscando entre polícias de dentes aos ombros
uma mancha de vento que nos sirva de céu
e um corpo que permita
o repouso velocíssimo do esperma.
                                          porque, entendes,
minhas pequenas dúvidas explodem
no ar balões de espiga, cotovelos
oblíquos, quando voam no pátio
as curvas variáveis da matraca.
uma ternura, entendes, uma ternura de ombros,
de cabelos completos, de nervos na água,
de dedos constantes ao calor dos ossos,
enquanto o coração se agarra à noite espessa
ou me conhece um caule de elegância nos pulsos.
                                    ternura, entendes,
é ter perdido voz
a granada que voa, pesada como
esta palavra: ternura, ao cair sobre a trela
elementar dos dias.
são ombros, entendes, um nervo cruzado,
a doce rotação
do sangue nos ossos,
o cansaço dos galos quando limpo
o suor anguloso das axilas,
um corpo respirado por dentro, junto à boca.


                                   3

minhas pequenas dúvidas embatem contra o chão
da gasolina ardida, moram
dentro da trela,
leram platão, arrastaram carroças,
cortaram de manhã as vísceras da água,
hesitam na carícia do corpo que se estende
e dobra sobre os ossos, como
uma fonte.
minhas pequenas dúvidas enumeram os dentes,
conhecem hegel, ultrapassam
oblíquamente os pulsos, procuram
habitação inerte.
minhas pequenas dúvidas pequenas
aconchegam no bolso um rato amargo,
vestem à pressa os ossos, aguardam
a rotação inútil dos planetas,
vigiam as estrelas moídas na garganta

                                     4

pornogràficamente acordo
com o sexo dentro da boca.
minhas pequenas dúvidas acendem luzes,
arames, fazem vibrar alarmes,
estabelecem gritos cruzados nos ossos,
abençoam granadas de dentro da janela,
acordam a polícia do seu sono oblíquo.
                              estabelecem
habitação de galos no silêncio.
minhas pequenas dúvidas arrancam os dedos
do chão, cortam as árvores,
alcatroam a alma,
                               proíbem
movimentos de mais de duas mãos.
avisaram de noite a presidência.
ferem a água, estabelecem
vísceras variáveis,
aconchegam um rato no calcário.
                                   pornograficamente
adormeço com o sexo dentro do bolso.
minhas pequenas dúvidas pequenas
abrigam-se do voo nas axilas do vento.

                                      5

minhas pequenas dúvidas não morrem. sei-as
dentro dos galos, vigiando a carroça
elementar  dos ossos,
agarradas ao nervo do silêncio.
resistem. furam pelos dentes,
espalham em torno o vento seco,
os caules, estabelecem
cotovelos inertes.

                     enquanto uma guerra
se prende às cordas
constantes da ternura,
minhas pequenas dúvidas desatam
os nós dentro da boca

                            6

madrugada, as lanternas apitam
a corrida dos dentes pela rua,
estamos contando os dedos que nos restam.
                                   não sei
se são de gás ou raiva
as lágrimas nos pulsos.
                                   ajudo-te
a despir, notando as cicatrizes
e algum piolho oculto.
minhas pequenas dúvidas cansadas
adormecem num bolso, e estamos nus.
                                       abraço-te
devagarinho, com as costas dos ossos,
dobrando os cotovelos na gaveta.

minhas pequenas dúvidas pequenas
sussurram junto ao chão,
movimentam espigas
sobre os nervos,
desejam vigilância.
                              minhas pequenas
dúvidas, minhas trelas miúdas,
sufocam numa névoa de granadas.
                   pouso
as asas angulosas no cimento.
dói-me na mão direita
uma falta de dedos, uma falta
de rios.
            pornogràficamente
adormecemos.

(Poema de António-Franco Alexandre)

sábado, 2 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


E é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.

Herberto Helder em Os Passos em Volta

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

ESTAS CRÓNICAS SÃO DE UM POETA



Em carta, datada de 3 de Julho de 1968, José Saramago informa José Rodrigues Miguéis que lhe vai enviar as crónicas, publicadas em A Capital, posteriormente inseridas e Deste Mundo e do Outro, e diz:

Segundo o que entendo, estas crónicas são qualquer coisa de novo na nossa terra.
Aguardo com interesse o seu juízo.

Em carta, datada de 24 de Julho de 1968, Miguéis dá o seu instigante e esplendoroso «juízo» sobre as crónicas:

Devolvo-lhe hoje as crónicas (como suponho V. esperava) com muita pena de não me sentir mais eloquente e explícito – arrasado que estou de Verão e apoquentações. Verá em algumas delas as anotações a lápis, que fiz à margem ao lê-las e não apaguei. Desculpe. As suas Crónicas são excelentes, por vezes óptimas, e sempre de leitura absorvente; novas ou pelo menos raras no nosso ambiente de doutrinas e castanhas piladas; sem retórica de jornal nem prosa de encher. Justas. Embora seja difícil manter-se todas as semanas ao nível do ter-carradas-de-talento, então com a vida que Você leva, nunca (até aqui) cai no fácil, no corriqueiro, no sentimental de bairro: e isto em Lisboa-Portugal, onde o Assunto é, como diria a Dona Rosa, «aves-rara»! Você consegue sempre evitá-lo, mesmo nos quadros de rua (Amolador, Cego do harmónio, etc.). Por outro lado, as notas rústicas (Alice, Sapateiro, Cair no céu, etc.) são sempre duma justeza e flagrância (e fragância) de evocação: e sem Rusticidade. (Fala do campo, das águas e das flores como quem os conhece de dentro.) Consegue sempre ser simples (que é o mais difícil) dentro da complexidade do seu estilo de poeta, pela visão e pela linguagem: algo críptica (como é devido!) mas sempre sugestiva e tão visual, e em geral risonha. Estamos desabituados desta feição especulativa e acentuadamente literária… sem «literatura». O curioso é que o seus factos, pessoas e ambiente resultam sempre mais reais (ou realísticos) através da névoa Chagalliana de cores, formas e movimento, e integrados. Porque Você desenha e colora a escrever! (Cito: «… volatilizado no interior do sol atómico». Incisivo, justo e pictural!) Ao invés dos nossos cronistas e comentadores sentenciosos, que tudo vêem (?) através dos vidros defumados de doutrinas mal digeridas, V. tem uma «filosofia» que, sem ser optimista, antes levemente céptica, amarga e protestante, nos leva a crer e a agir: «desanimar e recomeçar até chegar ao ponto onde o arco-íris tem a primeira raiz.» Isto, além de afirmativo, é belo (Desculpe). É claro, há sempre o perigo de nos deixarmos arrastar pela Prosa – mas, como eu disse do Herberto Helder, «os autênticos Poetas são de uma disciplina severa!»

quinta-feira, 1 de junho de 2017

ARMANDO SILVA CARVALHO (1938-2017)



Sabia-o muito doente e, mais dia, menos dia, esperava a notícia.
Chegou hoje.
O Herberto Helder deixou escrito que é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.
Há o Livro do Meio, romance epistolar escrito por Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, um livro maravilhosos a que poucos dedicaram a atenção merecida. 
Não sabem o que estão a perder.
Nesse livro, Maria Velho da Costa escreve:

Tenho uma rosa branca na mesa de trabalho revisitada, rosa que não cessa de não murchar (de facto, não é metáfora de qualquer tenacidade) vejo o céu que passa de azul fosco azul tinta (idem) por cima dos telhados dos remediados vizinhos, remediada também eu. Os gatos, macho e fêmea, dormem, pretos, num sofá preto, na sala. A cadela, ainda mais preta, porque reluz de muito jovem, dorme com eles. Não tenho fome, não tenho frio. Que mais quero?
O pior, Armando, é que amanhã é outro dia.
A vizinha da frente acendeu a luz na cozinha de contraplacados. Tem oitenta anos, não é viúva, nem desgraçada. Baixou agora o estore.
Eu também.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


A gente que nasce e vive junto do mar é mais pura.

Herberto Helder em Os Passos em Volta

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

sexta-feira, 29 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Os dias longos, as noites no meio do mar. Espero o porto de chegada, as virtudes restituídas, o espírito enfim reconciliado com o mundo. E desembarco, há uma qualquer experiência surpreendente, caminho para o conhecimento. Consigo agarrar essa meada ainda irreconhecível: a maneira como tudo se enreda em tudo. Desabituei-me dos milagres. Sabe-se como é: quase todas as manhãs acordo angustiado, esforço-me por imaginar que este dia é virgem e primeiro, carregado de poderes enigmáticos, destinado às revelações. Literatura. Merda. Trata-se de mais um dia em que me vou chatear, aturar os meus semelhantes, a filha-da-putice teológico-emocional de um Deus que, ainda por cima, não existe. Posso especular sobre a revolução, evidentemente. Que revolução? A revolução, claro. Pois é: a minha revolução não dá um passo.

Herberto Helder em Os Passos em Volta

segunda-feira, 4 de abril de 2016

À VOLTA DO DISCO DO ZÉ GOMES


Cuidava que nos meus dossiers de papelada, tinha uma qualquer crítica ao disco do José GomesFerreira.

Não a encontrei.

Porventura nunca existiu.

No catálogo da Exposição, Novembro de 2000, o disco é apenas referido, não existindo reprodução da capa.

O mesmo na Fotobiografia

Para a história ficam apenas as fugazes referências que José Gomes Ferreira coloca nos Dias Comuns.

Quando por qualquer motivo tenho que consultar dossiers, amiúde me perco.

O que seriam breves minutos de procura, transformam-se em horas.

Assim, acabei por entrar nos recortes que referem a morte do José Gomes Ferreira.

Um dia virás
Tu-que.não-sei-quem-és,
Com leveza de gás
No silêncio dos pés

O Herberto Helder tem uma frase em Os Passos em Volta:

E é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.

O José Gomes Ferreira costumava dizer:

Quando eu morrer isto vai ser uma desgraça: nunca mais ninguém me lê!

No fundo, sabia que seria assim.

E, no entanto:

Senhor Deus que não tenho! O trabalho que me deu a tornar poeta!

Nos dias que correm, poucos lêem José Gomes Ferreira.

Muitos, mesmo muitos, nem sequer, de nome, o conhecem.

Aquando da sua morte, escreveu Mário Dionísio:

Leiam-no, releiam-no e se, depois disso, não se sentirem outros, mais ricos, mais indignados e mais generosos, mais felizes por serem homens, mesmo num mundo de larvas e de monstros, suicidem-se são extremistas, ou, pelos menos, vão consultar o médico porque qualquer coisa está gravemente doente.

É comovente a notícia que Fernando Assis Pacheco escreveu par o JL:

Tenho saudades de José Gomes Ferreira porque era bom e alegre e tratava os mais novos com delicadeza. Das duas vezes que o entrevistei por coisas literárias, ficou-me a mesma imagem: de um senhor fluente, despedindo palavras à velocidade da memória ágil, perguntando sempre se me estaria a maçar com essa tralha toda, histórias, perfis de amigos desaparecidos, breves anedotas, e dizendo de si próprio, velho “leitmotiv”, tenho a idade do século, sou do tamanho do século.

Na sua evocação José Fernandes Fafe, lembra:


 Houve um tempo em que ele foi o meu amigo mais próximo.
Até que saí de Portugal. Nas férias não deixava de o procurar , mas, naturalmente, os contactos espaçados deslaçaram um pouco a nossa intimidade.
Um dia, numa dessas visitas, chamou-me à parte para me dizer:
- Muito obrigado.
- Obrigado porquê?
- Eu sei que o Fafe pensa de maneira diferente da minha. E quero agradecer-lhe a delicadeza de fazer como se o ignorasse…
- Ó Zé Gomes!... Ó Zé Gomes! Não nos temos nós por pessoas civilizadas?

Legenda: fotografia de Nuno Calvet publicada no disco de José Gomes Ferreira.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Morrer é assim: sepultado na luz como um pássaro no voo. Ou dormir, redondo e interno, bebendo nos próprios pés o fluir ligado.

Herberto Helder em Retrato em Movimento

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

ABUSO DE LIBERDADE DE EXPRESSÃO


Do Diário Popular de 12 de Outubro de 1967


Do Diário Popular 10 de Novembro de 1967.

sábado, 3 de outubro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Porque ficou assente: a literatura não é nada de sério.

Herberto Helder em Photomaton & Vox

sábado, 26 de setembro de 2015

POSTAIS SEM SELOS


Que bom não ter de dar pelo nome de crítico – mas possuir só, para esgotar, um momento crítico, uma vida extremamente crítica.

Herberto Helder em Retrato em Movimento

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

POSTAIS SEM SELO



É sempre fácil caminhar em cima das águas, mas é impossível fazê-lo milagrosamente. Tornou-se um número de circo – aquele equilíbrio no arame que mata o apetite da vertigem e nebulosa delinquência de uma emotividade suburbana. A última revelação é esta de sermos os produtores inexoráveis e os inevitáveis produtos de uma ironia cuja única dignidade é descender do tormento, um tormento sempre equivocado na sua manifestação sensível. Por isso cada vez me devoto às imobilidades, aos silêncios, ao sono.

Herberto Helder em Photomaton & Vox

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O LUGAR EM QUE PENSO É DIFÍCIL


Porém, Antuérpia não é um ponto de chegada, É uma cidade como as outras: com bares e nevoeiro, o silêncio das coisas, as pessoas, a matemática impenetrável das suas multiplicações e desmultiplicações, e com a música dos minutos que se corrompem. Em Antuérpia há prostitutas, há um calor humano degradado, e a embriaguez. Lá também se morre. Talvez alguém um dia tenha ressuscitado em Antuérpia. Não sei.
O lugar em que penso é difícil, sempre difícil.
Sei que ao norte existe o rio Escalda. De lá parte-se, alcança-se o mar. Uma vez, alguém me disse:
A gente que nasce e vive junto do mar é mais pura.
Penso que o mar dá uma qualidade especial à fantasia, ao desejo e à confiança humana. O mar é uma propriedade misteriosa do espírito, pela qual nos é ensinado
nada esperar, nada desesperar. Talvez seja isso a inocência. Talvez só no mar nos seja dado morrer verdadeiramente, morrer como nenhum homem pode.

Herberto Helder em Os Passos em Volta