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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

AS MULHERES ADMIRÁVEIS DA CIDADE


Colho as nêsperas de Outono e dou-vos as nêsperas de Outono
mulheres admiráveis da cidade.
As avenidas são primaveris
e vós sabeis que a vida é apenas isto,
este tempo de viver entre as flores,
os pássaros, as horas e as palavras dos companheiros, lábios amorosos
descendo amaciantes sobre a pele dos vossos corpos frescos.
Colho por isso as nêsperas de Outono açucaradas
entre guindastes, trânsito e cimento
e as disponho em vossas férteis mãos
de gestos admiráveis sobre os homens.

Eduardo Valente da Fonseca em 71 Poemas

terça-feira, 26 de junho de 2018

DAMOS UM PASSO NA CIDADE


Damos um passo na cidade e logo
nos espantamos de ainda estarmos vivos.
Para quê e porquê? perguntamos excitados.
As horas e o dinheiro nos respondem
e é então que descobrimos o mistério
de não podermos andar com os bolsos cheios
de flores de pássaros e pão
a despejá-los sem medo de ofender
pelos homens e mulheres silenciosos
regressando do trabalho pelas ruas.

Eduardo Valente da Fonseca em 71 Poemas

quarta-feira, 4 de abril de 2018

POEMA CITADINO


Talvez vocês não saibam quem foi o Alberto Caeiro,
mas eu vou dizer-vos o que se passa.
Ele era um grande poeta que não tem nada a ver comigo
porque guardava rebanhos e fazia os possíveis para ser simples,
enquanto eu sou um sindicalizado
e faço os possíveis para não morrer atropelado na cidade.

Eduardo Valente da Fonseca em Mitologia do Nosso Cotidiano

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

DE ONDE VEM A CIDADE?


Quando passeio á noite pela cidade recolhida em íntimo silencio,
olho admirado as ruas e as árvores
e interrogo enigmático sobre os olhos cerrados dos homens citadinos
o serem eles o sentido disto tudo.

E penso nas formosas flores públicas plantadas para todos,
penso na janela clara aberta sobre o mar,
nas avenidas livres fechando junto ao céu...
então maciamente vou,
espantado de estar na vida a ser um homem
e a cumprir o tempo de ser grande,
descerrar as pálpebras descidas dos humanos irmãos emparedadas
e mostrar-lhes porque existem avenidas,
de onde vêm as casas e as fábricas
e porquê quando rente á madrugada
um pássaro cantando entre o cimento e as flores
na tenra primavera da cidade
pode encher de frescura e de sentido e vida. 

Eduardo Valente da Fonseca em 71 Poemas

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

domingo, 26 de agosto de 2012

O DINHEIRO NÃO É O MAIOR BEM


Está um domingo sem ciclistas.
Não tenho um tostão no bolso
mas há tabaco e os jardins.
Se o milionário Rockfeller fosse vivo,
a esta hora estaria aflitíssimo
com o caso do petróleo e do Canal do Suez.
Morreu na mesma e nesse dia
eu li a notícia de perna cruzada
a tomar um café satisfeito,
numa esplanada com muito Sol.

Eduardo Valente da Fonseca em Mitologia do nosso Cotidiano

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Neste dia, há 122 anos, nascia em Londres,  Charles Spencer Chaplin, também conhecido por Charlie Chaplin, mas mais conhecido por Charlot.
Morreu, com 88 anos, no dia 25 de Dezembro de 1977, ele que odiava o Natal.

O CHARLOT É QUE SIM

“Creio que uma das muitas pessoas que têm razão no mundo é  o Charlot.
É certo que passa fome, tem o seu frio no Inverno e as botas todas gastas,
mas ri-se de muita coisa,
despreza admiràvelmente a ordem
e vai aguentando as cacetadas e prisões e outras violências.
No entanto,
o multimilionário Rockfeller é que passa por inteligente e empreendedor e grande,
e honesto e moralista,
e benfeitor também quando é preciso.
É evidente que o Rockfeller até trabalha aos Domingos,
e que isso vai ficar na história dos grandes feitos de hoje,
mas o que mais me alegre são as vagabundagens do Charlot,
e o orgulho dele contra as moedas acumuladas,
e aquele chuto na ponta do cigarro ao ir para a prisão,
e esse infinito voltar de costas às fardas,
e o comprar comovidamente flores à rapariga cega,
e dar-lhe a mão depois
e entristecer dos pobres serem tristes.
... É por isso que nunca sonho com o Rockfeller.”

Eduardo Valente da Fonseca em Tempo dos Manequins

Legenda: Desenho de António Bronze que faz parte das ilustrações de “Tempo dos Manequins”.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A CIDADE DOS LOUCOS


Nesta cidade apanha-se o eléctrico a correr,
toma-se o café à pressa,
morre-se  subitamente…
Nesta cidade mal cabemos todos,
mal nos vimos,
mal temos tempo…
Nesta cidade nem temos mão para o dinheiro,
nem tempo para o ganhar,
nem nada…
Nesta cidade até parece que viemos ao mundo para isto…

Eduardo Valente da Fonseca em Mitologia do Nosso Cotidiano

sábado, 25 de dezembro de 2010

NATAL


A cidade onde estou de mãos nos bolsos a olhar do fundo da noite,
tem muros velhos com flores macias a crescer nas fendas,
e do lado de lá do rio, barcaças, redes, pescadores e fome.
Ontem foi primavera nas margens e houve peixe,
mas agora é tudo lá tão longe
que só a primavera de ontem se adivinha.
E é da terra que falo. Sei
inegavelmente que  a húmida face da cidade tem por sobre si a lua
e que nas montras o azevinho mais o fio prateado dizem que é Natal.
Mas ignoro muito.

Os guindastes adormecem e os navios,
e as canções  da noite do Rabi contam que tudo sofre e que o perdoar é bom,
mas eu não aprendi a perdoar nem amo o sofrimento.
Longe sei que neva,
mas  deste lado é que a cidade fica
com pegadas de estivadores pelo cais
e sacos empilhados nos navios.
A beira-rio é assim e as gaivotas andam longe
e nós pouco sabemos das coisas de além muros.
(Que é Natal? e que dizer da secular mentira de nos habituarmos?)
Na montanha a noite é branca e há tristeza nos pinheiros.
Aqui é a cidade apenas.
Nem uma flor no caminho além da que lá pomos hora a hora.
O rio vai largo e ontem
a cheia pôs miséria nas terras marginais,
mas hoje é que é Natal, dizem.
Os jornais falaram e a cidade
encheu-se de coisas piedosas e de gente.
Houve esmolas aos pobres e gestos caridosos publicados,
Nocturnas esquecidas.
Dizem que este dia É,
mas eu não entendo!

Eduardo Valente da Fonseca

Poema retirado de “Natal… Natais”, antologia de Oito Séculos de Poesia Sobre o Natal, organizada por Vasco Graça Moura, “Público”, Lisboa s/d

Legenda: Pintura de Paul Cornoyer