A quarta canção de (não) Natal é Smile, música de Charlie
Chplin e letra de John Turner e Geoffrey Parsons, compost,a em 1936, para o filme Tempos Modernos.
O cantor brasileiro Djavan, no seu álbum Malasia, incluiu uma versão de Smile.
Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
Sorri
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri
Quando o
sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo
irá supor
Que és feliz.
Da canção há duas versões de que gosto: a de Tony
Bennett e a de Nat King Cole.
Escolhi a de Nat King Cole, foi a primeira que
ouvi e porque A voz de Nat King Cole é
um veludo eterno. É tão macia que apetece embrulharmo-nos nela. Ninguém soube
cantar como ele – como se respirasses, sem esforço, sem exibição, como se
ciciasse aos nossos ouvidos, disse
alguém de que não lembro o nome.
Mas lembro que foi João Gilberto quem disse: ele não é preto, não.
É azul.
Um cancro nos pulmões levou-nos, prematuramente, essa voz, esse
sussurro.
No dia 29 de Janeiro
de 2016, escolhi o poema «No Meu Jardim»
de Miguel Torga, para acompanhar a pintura que me ocupava nesse dia.
«No meu jardim
aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana
flor da infância
Que não tive...
E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!
O recuado Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:
Este, de ser menino
Ao pé de ti...»
Ao mesmo tempo que
vou pintando, vou cantigando.
Não consigo saber as
canções desse dia, mas acontece sempre uma música de que gosto. E batendo à
porta de Nat King Cole encontramos sempre mãos cheias de bonitas e inesquecíveis
canções.
Continuam a
passar as horas em que não sabemos nada uns dos outros, ou sabemos assim, sem
qualquer ponta de gosto, a frieza de um qualquer telemóvel… e cada vez mais
andamos para dentro de nós…
Um dia,
quando Nuno Júdice regressou de uma viagem deu-nos a conhecer:
«Depois de algum tempo fora, abri o
correio
e tirei o mar de dentro da caixa. As algas
acumulavam-se por entre cartas e publicidade;
e uma onda rebentou nas minhas mãos quando
separei a água e o céu, e a linha do horizonte
me apareceu sob uma espuma de pássaros.»
Tempo para
Nat King Cole cantar «Smile».
1.
Numa
entrevista por Skype, a uma televisão espanhola, o Papa Francisco deixou um
apelo às empresas, para não despedirem os seus trabalhadores.
O
Primeiro-ministro, ontem, em entrevista:
«Este não é o
momento para fazer despedimentos.»
O Diário
de Notícias on-line colocava, esta manhã, em título:
«Começou a onda de despedimentos, lay
offs, dispensas e férias forçadas.»
Assim como se não conhecêssemos, de, ginjeira, o nosso distinto patronato.
A
superficialidade, a ignorância, a incompetência, a maldade dos nossos
empresários, das nossos banqueiros, dos nossos directores disto daquilo e
daqueloutro, são de um tamanho sem
medida, e sempre foi uma mentira, de largos anos, em que tentaram fazer passar a mensagem de que
o pais não avançava porque os trabalhadores são de uma aflitiva miséria
laboral.
O céu há-de
castiga-los, como dizem todos aqueles que acreditam em Deus e não querem gastar
dinheiro com advogados.
2.
As Forças
Armadas espanholas localizaram vários idosos abandonados que viviam, lado a
lado, com cadáveres, em lares da terceira idade.
3.
O primeiro-ministro
japonês Shinzo Abe disse, esta terça-feira, que chegou a acordo com o
presidente do Comité Olímpico Internacional para adiar os Jogos Olímpicos por
um ano, devido à pandemia do novo coronavírus.
Os Jogos Olímpicos
de Tóquio tinham data de início para 24 de julho e iriam terminar a 9
de agosto.
4.
A cadeia de
supermercados Auchan vai entregar prémios de 20% do salário bruto de Março aos
funcionários em Portugal que continuem a trabalhar no âmbito da pandemia da covid-19.
5.
O sector do
turismo atravessa uma crise sem precedentes, e com o mundo envolvido num
combate sem data para terminar os efeitos de uma anunciada crise começam a
fazer-se sentir de forma cada vez mais real.
Diariamente o
sector tem vindo a perder cerca de um milhão de empregos.
6.
«Estamos exaustos e o medo tornou-se o
nosso companheiro», Antonio
Castelli, médico italiano.
7,
Estado paga
100 euros por teste da Covid-19 que pede aos privados.
Ah, sim! Os
privados!... Que seríamos nós, sem essa gentalha?
8.
Lembrei-me
hoje do meu querido amigo Eduardo Valente da Fonseca e daquele seu tão
interessante livro, «Os Criptogâmicos».
«Conheci seres enfadonhos, comi poeira
durante anos, assisti à florescência do bolor nas pestanas das pessoas, vi
sorrir milhares delas só com a boca e para meu espanto sobrevivi a tudo. Até
que um dia despertei voltado para a luz. E nesse momento descobri, com pavor, que
vocês não vivem, nem vegetam, nem nascem. Nem morrem. Lutaria milhares de anos
para vos ignorar, recomeçaria vezes sem conta a fugir para mil lados para vos
perder definitivamente de vista. Oh, sim, em nome das vossas vidas eu poderia
suicidar-me milhões de vezes. Lego-vos todo o bolor e todo o tédio com que,
minuciosamente, me quiseram matar. Diante de vós, fui e serei sempre o único
que sonhou com Deus».
9.
João Lopes,
no seu blogue Corvi-20:
«Há qualquer coisa de infinitamente
perverso na normalização da contagem diária que o coronavírus instalou no nosso
quotidiano: número de infectados, número de hospitalizados, número de mortos...
Perverso no sentido primordial da palavra: a perversidade como desvio a
uma norma. No limite, acomodamo-nos a esta nova aritmética, desviando-nos da
ideia segundo a qual o humano excede qualquer quantificação que o queira
integrar.
Reconhecê-lo não salva ninguém, como é óbvio; o certo é que, salvo melhor
opinião, também não ameaça a vida seja de quem for. Resta saber se estamos a
entrar numa nova cultura das quantidades, com vírus e para além do vírus.»
10.
A Alemanha
apresenta um elevado número de pessoas infectadas, mas a taxa de mortalidade é
muito baixa. As razões são básicas: a tempo precaveram-se e rodearam-se dos meios
necessários para não atingirem o inferno de milhares e milhares de mortos, como
em Itália, em Espanha.
A França
regista + de 1.100 mortes
A Itália
6.820 mortes
A Itália +
6.820 mortos
A Espanha
6.582 mortos
Portugal: 33
mortos
Em todo o
mundo já se registam 18.580 mortes.
11.
Todos
gostaríamos de, face a esta tragédia que se abateu sobre o mundo, que não
estivéssemos sujeitos a verdades inventadas.
Ao mesmo tempo… escrever
para suportar a angústia das noites.
Não lembra
bem, mas um dia o pai mandou lá ir a casa um amigo fotógrafo para que tirasse
retratos à família, uma casa em que viviam os pais, a irmã, um avô paterno, uma
avó materna.
Na foto, ele
está a ler em tempo de pose fotográfica.
Na biblioteca
do pai, a estante que se vê era a da literatura inglesa. Mandou a mão e saiu um
qualquer livro para tirar o boneco, ele que nem sequer sabia ler bem o
português, exercitava-se na leitura de A Bola, ao tempo trissemanário,
que há dias fez 75 anos e ele os fará em começos da Primavera que vem a caminho,
quanto mais o inglês.
Um esgar de
flash da máquina do fotógrafo aparece reflectido no velho Nordmend, comprado
pelo pai, em suaves prestações, e onde, espantados e felizes, o primeiro
programa que a família viu, foi um Nat King Cole Show.
Reconhece,
hoje que desses Nat King Cole Show de então, alguma coisa ficou para mais tarde
ter aprimorado o gosto por crooners.
Nesse mesmo
Nordmend viu a final da 1ª Taça dos Campeões Europeus ganha pelo Benfica ao
Barcelona, uma transmissão que a determinada altura foi interrompida porque a
Eurovisão iria passar a chegada de John Kennedy a Paris.
No topo da
estante está um vaso que o «Tio» Valentim, sargento da Armada, que casara, em
segundas núpcias com a minha avó paterna, trouxera de Macau, juntamente com um
serviço de café.
Curiosamente
esse vaso quebrar-se-ia na madrugada de 28 de Fevereiro de 1969, durante o tremorde terra que alvoroçou Portugal, magnitude 8 na escala de Richter, demorou escassíssimos
minutos mas pareceram uma eternidade.
Quando o meu pai conseguiu comprar, em suaves prestações, um televisor lá para casa, um enorme Nordmend,naturalmentea preto e branco, o primeiro programa que, espantados e felizes, vimos, foi um Nat King Cole Show.
Suponho que foi aí o meu pai agarrou o gosto pelo velho Nat.
Foi ele quem comprou todos os Eps de Nat King Cole a cantar em espanhol e português, discos que fizeram o sucesso dos bailes da casa.
Esses EPs perderam-se pelo caminho, mais tarde recuperei-os, editados em LP, e ainda por aqui moram.
Curiosamente foi a partir desses cachitos, desses quizás, desses perfidia , desses quero chorar não tenho lágrimas, desses ay coisita linda, que, anos mais tarde, passei a conhecer o verdadeiro Nat, o pianista de jazz, mas principalmente o cantor de standards que vira nos tais Nat King Cole Show e considerava uma seca de todo o tamanho.
A voz de Nat King Cole é um veludo eterno. É tão macia que apetece embrulharmo-nos nela. Ninguém soube cantar como ele – como se respirasses, sem esforço, sem exibição, como se ciciasse aos nossos ouvidos, disse alguém de que não lembro o nome.
Mas lembro que foi João Gilberto quem disse: ele não é preto, não. É azul.
Um cancro nos pulmões levou-nos, prematuramente, essa voz, esse sussurro.
Quando no dia 24 de Setembro, numa entrevista ao Le Monde, Cesária Évora afirmou que, por conselho médico, teria de terminar a carreira e regressava a S. Vicente, sua terra natal, sabia ela, ficámos a saber nós, que o fim não estaria longe.
Há dias, puxei para aqui uma conversa em que a Cise revelava que nunca teve cuidados com a voz, e fumar cigarro e tomar uns copos era uma óptima receita, experiências de uma vida difícil para o sustento diário, andar de navio em navio, de bar em bar, até que José da Silva a levou para França.
Gostava de ter sido reconhecida primeiro em Portugal, mas foram os franceses que a colocaram nos palcos do mundo e guardou sempre essa mágoa que, juntamente com outras, agora, aos 70 anos, partiram com ela.
Viajava sem sapatos na mala e justificava o insólito dizendo quem cantava era Cesária e não os sapatos.
Gostava de Bilie Holiday, Charles Aznavour, Edith Piaf, Nat King Cole, Amália.
Por esse caminho longe, partiu para outras cantorias, tomando um groguinho de Santo Antão, sorrirá ao ouvir o amigo Tito Paris dizer que o artista e o poeta praticamente não morrem. Desaparecem mas não morrem e nós vamos ouvir Cesária até ao fim da nossa vida, ela vai existir com as suas mornas e coladeras até ao último dia das nossas vidas.
Em jeito de lembrança fica aqui uma crónica de Eduardo Pardo Coelho, publicada no Público, quando Cesária Évora foi agraciada com o Grau de Grande Oficial da Ordem de Mérito.
Os Eps de Nat “King” Cole a cantar em espanhol faziam parte dos “Bailes da Vida”. O primeiro foi o que continha o “Cachito Cachito”., a que se seguiu, se bem me lembro o EPP que tinha “Ansiedad”. As vezes que esses discos rodaram. “Ansiedad, de tenerte en mis brazos Musicando,... palabras de amor Ansiedad, de tener tus encantos Y en la boca, volverte a besar Talvez este llorando mis pensamientos Mis lagrimas son perlas que caen al mar Y el eco adormecido, de este lamento Hace que este presente en mi soñar Quizás este llorando al recordarme Estreche mi retrato con frenesi Hasta tu oido llegue la melodia selvaje Y el eco de la pena de estar sin ti.” Mais tarde comprámos os 3 LPs de Nat “King Cole” a cantar em espanhol. São 35 canções e, entre outras, podem ouvir-se Maria Helena, Quizás, Quizás, Quizás, Acercate Mas, Noche de Ronda, Te Quiero, Digiste, Aduis Mariquita Linda, Vaya Com Dios, A Media Luz, Solamente Una Vez, Aquelles Ojos Verdes, Perfidia, Ansiedad, Não Tenho Lágrimas. Inesquecível.