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terça-feira, 5 de março de 2019

POSTAIS SEM SELO


Se não houvesse uma hora para fazer partir os comboios, estes não balariam nunca por causa da dor das separações, das mãos que se enlaçam, das recomendações e dos retardatários, dos ódios e das invejas, das hesitações e dos remorsos.

André Bay em Escola de Férias

Legenda: pintura de David Alexander Colville

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

QUANDO O COMBOIO PASSA


Como dizia Erik Satie, viemos ao mundo muito jovens num tempo muito velho. E é ao mesmo tempo – revela-nos Calasso – ao que Kafka faz alusão na breve e misteriosa frase solta que abre os seus Diários: «Os espectadores ficam rígidos quando o comboio passa.» O comboio é o tempo que não nos permite compreender a sua forma. É então inevitável ficar rígido, enquanto o observamos: sinal de uma última resistência.

Enrique Vila-Matas em Diário Volúvel

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Escola de Férias

André Bay
Tradução: Mário Braga
Prefácio: Fernando Namora
Capa: João de Mascarenhas
Colecção Presença nº 6
Editorial Presença. Lisboa, Novembro de 1961

Os comboios partem à hora certa. Demasiado cedo para quem os perde, demasiado tarde para quem toma lugar com muita antecedência. Só os romancistas podem fazer partir os comboios à hora que querem. Mas isto é um facto contra o qual ninguém pode nada, a não ser que se seja chefe de estação ou maquinista. É preciso essa fatalidade da hora de partida que impele, comprime, empurra o viajante, o faz praguejar, bufar, discutir, misturar o conteúdo das algibeiras e perder o lenço à força de temer não encontrar os bilhetes.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

ETECETERA


A União Europeia, colocando-se ao lado de Donald Trump e Jair Bolsonaro, permitem a perca da possibilidade de arbitrarem uma solução para a situação que se vive na Venezuela.

Os campos estão extremados.
O país está à beira de uma guerra civil.
Pedro Tadeu, em crónica publicada no Diário de Notícias-on line espanta-se por tantos colunistas exigirem a queda do regime de Nicolás Maduro sem olharem para a alternativa que está a ser montada por Donald Trump &Ca:

E, no entanto, o que vejo nos jornais e nas TVs sobre a crise política venezuelana deixa-me cada vez mais certezas de que a oposição a Maduro conduz o país a um desastre, reforça-me a convicção de que a queda de Maduro, nestas condições, prejudica o povo da Venezuela e, sobretudo, aumenta-me o número de perguntas sem respostas.»


QUOTIDIANOS

1,

Uma viúva, rica, deprimida e muito fragilizada com a morte do marido, derramava lágrimas diariamente.
Alguém foi ouvindo as mágoas e recomendou que consultasse gente que ela conhecia e que conseguem falar com os mortos.
As saudades levaram a viúva à tal gente que lhe fizeram um preço especial: dez mil euros por sessão.
Ao fim de 100 mil euros gastos pela viúva, a Polícia Judiciária deitou mão aos burlões.

2.

Na noite de quinta-feira, vários passageiros ficaram apeados em Afife depois de o comboio que fazia a ligação Porto-Valença ter deixado cair um motor em andamento.
Já perto da meia-noite foram enviados vários táxis para o local para fazer o transbordo dos passageiros e levá-los ao seu destino final. Segundo o mesmo jornal, a CP acionou um comboio de socorro para proceder ao reboque da automotora e colocou vários táxis para levar os passageiros ao destino final.

O material da CP vai-se desfazendo aos poucos e a companhia ordenou um inquérito para apurar as circunstâncias em que o motor do comboio saltou.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS




As Estações da Vida

Agustina Bessa-Luís
Prefácio: António Barreto
Capa: Carlos César Vasconcelos sobre fragmento de Le Train dans la neige
           De Claude Monet
Relógio d’Água, Lisboa, Outubro de 2018

A viagem de comboio tinha um cunho espirituoso. Sempre se encontravam pessoas raras, porque a província preservava o indivíduo e conservava o seu dialecto e os seus costumes. Eram recoveiras, caixeiros-viajantes, gente do negócio e do contrabando, estudantes em férias ou que as tinham terminado, padres e professores; e um sem-número de passageiros precavidos com um farnel de pombos estufados em vinho do Porto e cavacas de Resende. Comida de gente regalada e antiga como havia na província profunda.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

BOLO DE ARROZ FUMADO NO TÚNEL DO ROSSIO


Quando as senhoras locomotivas, num excitante cerimonial de cornetas, bandeiras e apitos, moviam êmbolos e rodas (oleados de fresco e passados a desperdício em tudo o que, metal, podia rebrilhar) da Estação do Rossio para a de Campolide e, daí, para as estações e apeadeiros do longo percurso que nos levaria às férias grandes no Norte, nós, os felizes rapazitos, metíamos cara ao túnel e esperávamos, sobressaltados, que a nuvenzinha branca que a máquina, cheia de prosápia, ia soprando para o lado, sofresse o primeiro esmagamento ao começar a composição a entrar no fuliginosos abismo horizontal. Não raro, mão vigilante nos puxava bruscamente das janelas para os assentos, para evitar in extremis, que tivéssemos o destino que tantos outros haviam tido, os pobrezinhos! Janelas fechadas era como o trânsito se fazia no túnel.
Calor, fumo, vapor de água, cheios de tabaco, de suborreco, de cabedal, de pergamoide, de brilhantinas que trinavam como passarinhos, de crianças de colo a bolsar em honestos regaços, de batôns apaixonadamente traçados em bocas que nunca coincidiam com esses patéticos desenhos, cheiros humanos, no ideal, na roupa ou no corpo, tudo ali se misturava, crescia, abafava, enjoava durante o estirado percurso subterrâneo. Pelas vidraças, leitosas, escorriam gotas. Nós tentávamos sempre ver para fora, para o escuro. Às vezes misturavam-se silvos estrídulos no túnel e uma composição descendente entrava, como um fugaz cinema louco, no nosso campo de visão.
Em Campolide abria-se a janela e respirava-se um ar puro que cheirava a carril triturado. E também deitava fora o bolo de arroz que, por esquecimento, se conservava apertado na mão. Sabia a fumo, ao fumo adocicado do túnel do Rossio…

Alexandre O’Neill em Uma Coisa em Forma de Assim

Legenda: túnel da estação do Rossio, fotografia encontrada no blogue Restos de Colecção.

domingo, 19 de agosto de 2018

UMA LUFADA DE CHEIRO A BUFETE DE ESTAÇÃO


O romance começa numa estação ferroviária, ronca uma locomotiva, um arfar de êmbolo tapa a abertura do capítulo, uma nuvem de fumo esconde parte do primeiro parágrafo. Pelo meio do cheiro a estação passa uma lufada de cheiro a bufete de estação. Está alguém a olhar pelos vidros embaciados, abre a porta envidraçada do bar, lá dentro também está tudo enevoado, como que visto por olhos de míope, ou então por olhos irritados com ciscos de carvão. São as páginas do livro que estão embaciadas como as janelas de um velho comboio, é nas frases que pousa a nuvem de fumo. É uma noite de chuva: o homem entra no bar; desabotoa o sobretudo húmido; envolve-o uma nuvem de vapor; um silvo põe-se a correr pelos carris brilhantes da chuva a perder de vista.
Um silvo que parece de locomotiva e um jacto de vapor erguem-se da máquina de café que o velho empregado do bar põe sobre pressão como se lançasse um sinal, ou pelo menos é a ideia que dá pela sucessão das frases do segundo parágrafo, em que os jogadores nas mesas ocultam o leque das cartas contra o peito e se viram para o recém-chegado com uma tripla reviravolta dos pescoço, dos ombros e das cadeiras, enquanto os fregueses em pé encostados ao balcão erguem as chávenas e sopram na superfície do café de lábios e olhos semicerrados, ou sorvem a parte de cima das canecas de cerveja com uma atenção exagerada para não as deixar entornar. O gato arqueia o dorso, a caixeira fecha a caixa registadora que faz dlim. Todos estes sinais convergem no informar que se trata de uma pequena estação de província, onde quem chega é imediatamente notado.
As estações assemelham-se todas: pouco importa que as luzes não consigam iluminar para além do seu halo esfumado; seja como for, este é um ambiente que tu conheces de cor, com o cheiro a comboio que fica mesmo depois de todos os comboios terem partido, o cheiro especial das estações de pois de ter partido o último comboio. As luzes da estação e as frases que estás a ler parecem ter a tarefa mais de dissolver do que indicar as coisas que afloram de um véu de escuridão e de névoa. Eu desembarquei esta noite nesta estação pela primeira vez na minha vida e já me parece ter passado aqui uma vida, entrando e saindo deste bar, passando do cheiro do alpendre ao cheiro da serradura molhada dos lavabos, tudo misturado num único cheiro que é o da espera, o cheiro das cabinas telefónicas quando só resta recuperar as moedas porque o número ligado não dá sinais de vida.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

UMA MANIA PROFUNDAMENTE PESSOAL


E fui de tal modo atraído para os comboios que eles se tornaram no pano de fundo de quase todos os pontos de viragem da minha vida e me levaram algumas vezes à infelicidade e ao desespero, mas também, outras tantas, aos momentos mais felizes da minha vida.
Os comboios são uma mania profundamente pessoal, mas eu soube sempre que a minha não era propriamente uma paixão secreta. O estudo dos comboios era um dos passatempos mais populares na Grã-Bretanha. Havia sempre outros rapazes a observar comboios, a tomar notas e a tirar fotografias, nas plataformas, nos ramis, nas passagens de nível fora da cidade. Minuciosamente trocávamos informações. Ouvíamos falar de incidentes curiosíssimos, de locomotivas que saíam das suas áreas como grandes aves afastadas da rota por uma tempestade. A tempestade era uma tempestade económica, que visava a homogeneização dos sistemas ferroviários locais devido á crise mundial; naquela altura, a Grande Depressão e tudo o que ela acarretava era a nossa oportunidade. E não ouvimos a tempestade a aproximar-se.

Eric Lomax em Uma Longa Viagem

Legenda: imagem Shorpy

sábado, 10 de fevereiro de 2018

GARE


O comboio perdeu-se no negrume
da noite e da distância.

A leva dos emigrantes
                                      - num sonho de riqueza
e na esperança de vida –
enchera o monstro.

Na gare, choros e gritos!
Namoradas perdidas,
mães velhinhas
E os amigos,
numa espécie de inveja dolorida,
por não poderem partir.
Na gare a dor em cada face!

E só eu
             - que não era um emigrante –
só eu tive um sorriso de mulher
pedindo que voltasse

Álvaro Feijó em Os Poemas de Álvaro Feijó

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

SEM TER TIRADO O LENÇO DA ALGIBEIRA


Quando o comboio partir não digas adeus porque ficaste no cais. Foi apenas o teu passado que se foi embora, na terceira ou na quarta carruagem de segunda classe, precisamente a que acaba de desaparecer no túnel. Foi apenas o teu passado que se foi embora: o teu presente ficou. O teu presente, isto é: ir ao bar da estação, sem ter tirado o lenço da algibeira, sem saudade, sem remorso, sem pena, e olhar pelo vidro da porta o cais vazio, com o relógio a marcar uma hora que já não é a tua.

António Lobo Antunes em Segundo Livro de Crónicas

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Gosto de aeroportos, gosto de portos, estações de comboio, apeadeiros desertos.

Ana Cristina Leonardo 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A CHAMA DOS QUE SE AFASTAM

Como é fácil amar aqueles que se despedem! É que a chama que arde pelos que se afastam é mais pura, alimentada pelo fugidio lenço que nos acena do navio ou da janela do comboio. A distância penetra como uma tinta naquele que desaparece e repassa-o de um fogo suave.

Walter Benjamim em Imagens de Pensamento

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 25 de julho de 2017

QUOTIDIANOS


O maquinista vê alguém pronto para se suicidar.
Acciona os travões de emergência e resta-lhe esperar, envolvido em perplexidade, impotência e angústia.
Sabe da pancada frontal, os rodados a passar por cima do corpo.
Segundos que ficam registados para toda uma vida.
Depois do acidente, a longa espera pelas formalidades e depois o voltar a conduzir, em situação traumática, o comboio ao seu destino.
Entre 2006 e 2015, 801 pessoas foram colhidas por comboios. 402 foram suicídios, os restantes aconteceram em passagens de nível ou em atravessamentos de linha em locais onde não são permitidos.
Soube-se agora que os maquinistas da CP pedem ajuda para enfrentar mortes na linha.

domingo, 25 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Se Numa Noite de Inverno um Viajante

Italo Calvino
Tradução: José Colaço Barreiros
Colecção Mil Folhas nº 11
Público, Lisboa, Julho de 2002

O romance começa numa estação ferroviária, ronca uma locomotiva, um arfar de êmbolo tapa a abertura do capítulo, uma nuvem de fumo esconde parte do primeiro parágrafo. Pelo meio do cheiro a estação passa uma lufada de cheiro a bufete de estação. Está alguém a olhar pelos vidros embaciados, abre a porta envidraçada do bar, lá dentro também está tudo enevoado, como que visto por olhos de míope, ou então por olhos irritados com ciscos de carvão. São as páginas do livro que estão embaciadas como as janelas de um velho comboio, é nas frases que pousa a nuvem de fumo. É uma noite de chuva: o homem entra no bar; desabotoa o sobretudo húmido; envolve-o uma nuvem de vapor; um silvo põe-se a correr pelos carris brilhantes da chuva a perder de vista.

sábado, 3 de junho de 2017

O DEL MONTE EXPRESS


Na Palace Drug Company enrolaram-se os toldos. Um pequeno grupo de homens que tinha passado a tarde em frente aos Correios saudando os amigos pôs-se a caminho para ver chegar o Del Monte Express, vindo de São Francisco.

John Steinbeck em O Milagre de SãoFrancisco

terça-feira, 23 de maio de 2017

UMA TERRÍVEL VONTADE DE DEIXAR-ME IR...


A falar de comboios, Alice Vieira, no seu livro de crónicas Bica Escaldada, conta da morte de Leon Tolstoi numa estação de caminho-de-ferro:

Um dia, sem que até hoje alguém tenha conseguido explicar a razão, o velho Leão Tolstoi fugiu de casa, apanhou um comboio, saiu dele quando já estava muito longe, e deixou-se morrer, sozinho, na pequena gare de Astapovo. Sempre me pareceu a maneira mais digna de se morrer – sobretudo, como era o caso, aos 80 anos, depois de já se terem apanhado e perdido todos os comboios essenciais de uma vida.

Das razões de Leão Tolstoi, conta José Jorge Letria, num artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 15 de Maio de 2017:

No dia 14 de Novembro de 1910, Leon Tolstói morreu de pneumonia na estação de caminhos-de-ferro de Atapovo, na província de Riaz, depois de abandonar a casa onde vivia e onde Sofia Andreievna, sua mulher e valiosa colaboradora durante muitos anos, permaneceu.
A relação conjugal fora afectada pela decisão do autor de Guerra e Paz de prescindir de metade dos seus direitos de autor. Sofia nunca aceitou essa decisão, como não aceitou a metamorfose perada na vida e nos hábitos do marido que repudiou a condição aristocrática de ambos, passou a andar descalço e começou a servir-se a si próprio nas refeições.
Uma parte significativa da inquietação que esteve na origem desta radical mudança está presente no texto de Uma Confissão, livro publicado em 1882, quatro anos antes de A Morte de Ivan Ilitch. Também rejeitou a autoridade da Igreja Ortodoxa, que o excomungou em 1901. Em tempo de ruptura e crise escreveu no seu diário: “Tenho uma terrível vontade de deixar-me ir.”

Sobre a morte de Tolstoi, o poeta brasileiro Mario Quintana escreveu Poema da gare de Astapovo:


O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua…
Sentou-se …e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Gloria,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E entao a Morte,
Ao vê-lo tao sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

quinta-feira, 18 de maio de 2017

EU VI


Eu vi
Vi os comboios silenciosos os comboios negros que
vinham do Extremo-Oriente e que passavam como
fantasmas
E o meu olhar, como a lanterna da retaguarda, corre
ainda atrás desses comboios
Em Talga 100 000 feridos agonizavam por falta
de cuidados
Visitei os hospitais de Krasnõiarsk
E em Khi!ok cruzámos com um longo comboio de
soldados loucos
Vi nos lazaretos chagas abertas feridas que
sangravam a jorros.

E os membros amputados dançavam em volta
ou levantavam voo no ar roufenho
O incêndio estava em todos os rostos em todos
os corações
Dedos idiotas tamborilavam em todos os vidros
E sob a pressão do medo os olhares rebentavam
como abcessos
Em todas as estações deitavam fogo aos vagões

E vi
Vi comboios de 60 locomotivas que se escapavam
a todo o vapor perseguidas pelos horizontes
com cio e bandos de corvos que voavam
desesperadamente atrás,
Desaparecer
Na direcção de Porto-Artur.

Em Tchita tivemos alguns dias de descanso
Paragem de cinco dias devido a obstáculos da linha
Passámo-los em casa do Senhor lankéléwitch, que
queria dar-me em casamento a sua filha única.
Depois o comboio tornou a partir.
Agora era eu que me sentara ao piano e tinha dores
de dentes
Revejo quando quero esse interior calmo a loja do pai
e os olhos da filha que vinha à noite para a minha cama
Moussorgsky

E os lieder de Hugo Wolf
E as areias do Gobi
E em Khaïlar uma caravana de camelos brancos
Creio bem que estive bêbedo durante mais de
500 quilómetros
Mas eu estava ao piano e foi tudo quanto vi
Quando se viaja deviam-se fechar os olhos
Dormir
Gostaria tanto de dormir
Reconheço todos os países de olhos fechados pelo
seu odor
E reconheço todos os comboios pelo barulho que
fazem
Os comboios da Europa são a quatro tempos enquanto
os da Ásia são a cinco ou a sete
Outros seguem em surdina são canções de embalar
E há os que no ruído monótono das rodas me lembram
a prosa pesada de Maeterlinck
Decifrei todos os textos confusos das rodas e reuni
os elementos dispersos duma violenta beleza
Que eu possuo
E me força.

Tsitsika e Kharbine
Não vou mais longe
É a última estação
Desembarquei em Kharbine quando acabavam
de deitar fogo às instalações da Cruz Vermelha.

Ó Paris
Grande lareira ardente com os tições entrecruzados
das tuas ruas e velhas casas que se debruçam
por cima e se aquecem
Como os avós
E eis os anúncios, vermelho, verde, multicolores como
o meu passado em resumo amarelo
Amarela a cor altiva dos romances da França
no estrangeiro.
Nas grandes cidades gosto de me meter nos
autocarros em andamento
Os da linha Saint-Germain-Montmartre levam-me
ao assalto da Butte
Os motores mugem como touros de ouro
As vacas do crepúsculo pastam o Sacré-Coeur
Ó Paris
Estação central cais das vontades cruzamento das
inquietações
Só os droguistas têm ainda um pouco de luz por cima
das portas
A Companhia Internacional das Carruagem-Camas
e dos Grandes Expressos Europeus enviou-me
um prospecto
É a mais bela igreja do mundo
Tenho amigos que me rodeiam como barreiras
Têm medo quando eu parto que nunca mais volte
Todas as mulheres que conheci erguem-se
nos horizontes
Com gestos lastimosos e olhares tristes de semáforos
à chuva
Bela, Inês, Catarina e a mãe ‘do meu filho na Itália
E ainda a mãe do meu amor na América
Há gritos de sirene que me rasgam a alma
Na Manchúria um ventre estremece ainda como num
parto
Gostaria
Gostaria de nunca ter feito as minhas viagens
Esta noite um grande amor atormenta-me
E contra a minha vontade penso na jovem Joana
de França.
Foi numa noite de tristeza que escrevi este poema
em sua honra
Joana
A jovem prostituta
Estou triste estou triste
Irei ao Lapin Agile recordar-me da minha juventude
perdida
E beber copinhos
Depois voltarei sozinho para casa


(Poema copiado de  novaziodaonda)

sábado, 6 de maio de 2017

UM FÃ DE COMBOIOS


Tinha-me tornado naquilo que é hoje conhecido como “trainspotter” ou fã de comboios, embora esta não seja uma palavra que eu use, tal como também não me revejo nesses rapazes solitários, de anoraques, que assombram as estações de comboios britânicas, anotando obsessivamente os números dos comboios que passam. Para mim esta era quase uma paixão académica, uma “disciplina” tão válida como a matemática ou o francês, e que eu levava tão a sério como se fosse um especialista. Em todo o caso, as locomotivas de alta velocidade, tão estandardizadas e previsíveis, da companhia que detém agora o monopólio dos caminhos-de-ferro, não se podem comparara com a magnificência e variedade das máquinas que cruzavam as estradas de ferro nos anos 30.

Eric Lomax em Uma Longa Viagem

sábado, 22 de abril de 2017

QUOTIDIANOS


Durante dez anos Gracinda Rosa foi guarda substituta. Sempre nas passagens de nível em torno da Lamarosa, tendo muitas vezes que percorrer alguns quilómetros pela beira da linha para pegar ao serviço e para regressar a casa. Acompanhava-a o farnel com comida e a garrafa de água, porque alguns dos postos de trabalho onde cumpria turnos de 12 ou 14 horas não tinham sequer um poço. À noite, Gracinda tinha a companhia da lanterna com que fazia sinal aos comboios. De vez em quando, o farol de uma locomotiva varria a escuridão, o comboio passava veloz, e a ferroviária ficava a ver o farol da cauda, a luzinha vermelha a esvair-se na noite. Depois, novamente as trevas.
Dez anos demorou a entrar nos quadros da CP e, mesmo assim, só por ordem do tribunal. «Em 1990 é que entrei para o quadro. Foi o sindicato que tratou de tudo no tribunal. Foi fácil. Entrei para efectiva e ainda recebi uma indemnização».

Carlos Cipriano em Guardas de Passagem de Nível.