Daqui por uns anos corre-se o sério risco, neste país tão triste de esquecer
gente, de Adriano Correia de Oliveira ninguém saiba quem foi, ou o que fez.
O tempo da chegada de Adriano a Coimbra na descrição de
Manuel Alegre:
Vivia-se, então, quando ele chegou a Coimbra, um tempo de grande tensão
histórica e de grande tensão interior, um tempo de impulso e de pulsão, de
mudança e mutação. Algo mudara no nosso viver colectivo. Algo mudara dentro de
cada um de nós. Era um tempo pejado de apelos e sinais, carregado de perigos e
angústias, um tempo prenhe de coisas novas, por vezes indistintas e confusas,
mas que buscavam o seu rosto e a sua forma. Ruíam tabus e mitos, levantavam-se
barreiras, apertava-se a mordaça e reforçava-se a repressão, mas algo estava em
marcha, algo que nenhuma censura e nenhuma polícia podiam travar: era uma nova
consciência que despontava, uma energia que pulsava naquela geração sobre que
se abatia, por um lado o endurecimento da ditadura salazarista, por outro o
espectro cada vez mais próximo da guerra de África. Ao mesmo tempo chegavam a
Coimbra ecos e notícias da luta libertadora de outros povos e também da tomada
do paquete Santa Maria por Henrique Galvão, do ataque ao quartel de Beja, de
manifestações e greves em Lisboa e Alentejo. E já por Coimbra tinha passado o
vendaval da candidatura presidencial de Humberto Delgado, bem como a revolta da
Academia contra o decreto 40.900 que visava a liquidação da tradicional
autonomia das associações estudantis e, no caso particular de Coimbra, da
Associação Académica. Tal como noutras épocas decisivas (recordo as gerações de
Garrett e de Antero), o sopro do tempo, a corrente das ideias, o próprio fluir
da História tinham chegado e provocavam um fervilhar de iniciativas, buscas,
enfim, uma extrema tensão geradora duma nova mentalidade e duma nova maneira de
ser. Foi nessa Coimbra que Adriano desembarcou. Trazia consigo uma grande
generosidade e aquela dose de inocência que nunca haveria de perder. Não sei
como, talvez por acaso, ou talvez não (não estará o Acaso, afinal, ma origem de
tudo?), começou a aparecer por minha casa onde já se juntavam, entre outros, o
António Portugal, o José Afonso, o Rui Pato. Descobrimos então o timbre
inconfundível da voz de Adriano e também essa sua conhecida pretensão, que
nunca perderia e haveria de provocar infindáveis discussões com o António
Portugal, de cantar uma oitava acima de Edmundo de Bettencourt.
Este homenzarrão barbado, mas com olhar cândido
como dele disse Manuel da Fonseca, foi, acima de tudo, um homem de coragem; o
melhor de todos nós na opinião de Fausto.
Eram milhares e milhares e milhares das mais diversas e diferentes gerações,
dos mais diversos partidos, muitos sem partido, outros nem sequer alguma vez
exerceram o direito de votar. Por um sábado de Setembro invadiram as ruas para, aos senhores do governo,
dizerem basta! Cantou-se o Acordai! Sabe-se que o futuro de um povo joga-se na acção, nunca na inacção. Nos últimos trinta e seis anos andámos a colocar nas cadeiras do poder
gente que nos conduziram à fome, à miséria, às mais diversas provações
Entretidos em coisas de somenos, não demos pela teia, que em redor de um
povo, uma série de aldrabões e corruptos acabaram por tecer. De repente, o povo acordou do estado de coma e veio para a rua gritar:
Acordai! Espero que de uma vez por todas… …espero.
O Acordai nasceu
durante
o reino do medo, quando os frutos amargavam e o luar sabia a azedo
e é uma das muitas canções a que alguns dos nossos melhores poetas
emprestaram palavras e que foram musicadas por Fernando Lopes Graça. Na conta capa do disco, explica ao que vinham essas canções: O que são as “Canções Heróicas” que, pela primeira vez, se oferecem ao
público editadas em disco? Resumidamente, podemos dizer que são obrinhas
de circunstância ou, se quisermos ser mais explícitos e sem temer o uso
rigoroso das palavras, defini-las-emos como canções politicamente
empenhadas. Politicamente empenhadas no sentido, ou na medida, em que
pretenderam contribuir – e cremos que de facto contribuíram – para a luta
do povo português, a que primordialmente foram destinadas, contra o regime
despótico, anti-democrático e violentador de corpos e almas que durante
cerca de cinquenta anos lhe foi imposto. Um ministro de
Salazar disse:
É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos
subversivos. Por sua vez, José Gomes Ferreira, em
A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim,conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:
Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no
campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me: -Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide… - Há por lá alguma pensão? - Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber
hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale
da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou
instalar-me. Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça,
José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira. Novamente José Gomes Ferreira: Por esses dias, com tantos poetas às ordens, ensejou-se a Fernando Lopes
Graça realizar um velho sonho que expôs em meia dúzia de frases sóbrias
aos circunstantes. Queria letras para canções. Marchas, danças, rondas
infantis, hinos… O que nos apetecesse. Contanto que não nos demorássemos
muito, pois a inspiração já ardia.
Esgotada a inspiração dos poetas circundantes, Fernando Lopes Graça
implorou o auxílio a Coimbra (Joaquim Namorado, Arquimedes, Ferreira
Monte) e a Lisboa, donde acudiram ao chamamento Mário Dionísio, Armindo
Rodrigues e Edmundo Bettencourt. Estamos hoje no limiar do desespero. Resultado da incompetência do governo, encontra-se, há uma semana, em
Portugal, uma delegação do FMI, como diz um comunicado do governo, gente
com profundo conhecimento e experiência no aprofundamento da corte de
despesas. Mais do que nunca, que ninguém esqueça: ACORDAI! Legenda: Canções Heróicas e Canções Regionais Portuguesas, Coro da Academia dos Amadores de Música, A Voz do Dono 061 – 40 328
editado em 1974 Primeira fotografia onde se vêem João José Cochofel, Fernando Lopes Graça,
José Gomes Ferreira. Segunda fotografia onde se vêem João José Cochofel e Carlos de Oliveira.
Fotografias retiradas da
Fotobiografia de José Gomes Ferreira,
Publicações Dom Quixote, Lisboa Novembro 2001.
acordai homens que dormis a embalar a dor dos silêncios vis vinde no clamor das almas viris arrancar a flor que dorme na raíz
Acordai acordai raios e tufões que dormis no ar e nas multidões vinde incendiar de astros e canções as pedras do mar o mundo e os corações
Acordai acendei de almas e de sóis este mar sem cais nem luz de faróis e acordai depois das lutas finais os nossos heróis que dormem nos covais Acordai!