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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


CINEMA

 

No meu olhar,

de gosto,

ritmo,

aroma

e seda,

com ele,

por mágica alameda

eu sonho ir ao espaço das visões,

que rolam como os mundos,

numa sagrada música visível,

onde eu me dispersaria...

 

Ó Cinema, ó maravilha

em que eu me possuiria,

mas que apenas possuo

da sombra,

na viva solidão da multidão quieta,

entre as carícias do silêncio ao pensamento,

sem esforço levado

a sofrer, a sentir

o que de eterno há num momento!

 

Em ti, a vida,

mais viva porquanto mais alada

em fantasia livre,

sem noites e sem dias,

brutal ou delicada,

é síntese movendo-se

em transcendência de tristezas e alegrias,

numa calma final de nuvens macias como penas,

que tempestades não consomem,

de encontro ao metálico recorte

das projecções estéticas do homem!

 

Cinema!

mais que tudo, és

o que lá fora buscam almas inquietas!

Mais que tudo, nos dás

o sonho que das almas sobe

nas imagens dos poetas!

Edmundo Bettencourt na antologia Poemas Com Cinema

 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

ADRIANO


Adriano Correia de Oliveira morreu há 32 anos.

Daqui por uns anos corre-se o sério risco, neste país tão triste de esquecer gente, de Adriano Correia de Oliveira ninguém saiba quem foi, ou o que fez.

O tempo da chegada de Adriano a Coimbra na descrição de Manuel Alegre:

Vivia-se, então, quando ele chegou a Coimbra, um tempo de grande tensão histórica e de grande tensão interior, um tempo de impulso e de pulsão, de mudança e mutação. Algo mudara no nosso viver colectivo. Algo mudara dentro de cada um de nós. Era um tempo pejado de apelos e sinais, carregado de perigos e angústias, um tempo prenhe de coisas novas, por vezes indistintas e confusas, mas que buscavam o seu rosto e a sua forma. Ruíam tabus e mitos, levantavam-se barreiras, apertava-se a mordaça e reforçava-se a repressão, mas algo estava em marcha, algo que nenhuma censura e nenhuma polícia podiam travar: era uma nova consciência que despontava, uma energia que pulsava naquela geração sobre que se abatia, por um lado o endurecimento da ditadura salazarista, por outro o espectro cada vez mais próximo da guerra de África. Ao mesmo tempo chegavam a Coimbra ecos e notícias da luta libertadora de outros povos e também da tomada do paquete Santa Maria por Henrique Galvão, do ataque ao quartel de Beja, de manifestações e greves em Lisboa e Alentejo. E já por Coimbra tinha passado o vendaval da candidatura presidencial de Humberto Delgado, bem como a revolta da Academia contra o decreto 40.900 que visava a liquidação da tradicional autonomia das associações estudantis e, no caso particular de Coimbra, da Associação Académica. Tal como noutras épocas decisivas (recordo as gerações de Garrett e de Antero), o sopro do tempo, a corrente das ideias, o próprio fluir da História tinham chegado e provocavam um fervilhar de iniciativas, buscas, enfim, uma extrema tensão geradora duma nova mentalidade e duma nova maneira de ser. Foi nessa Coimbra que Adriano desembarcou. Trazia consigo uma grande generosidade e aquela dose de inocência que nunca haveria de perder. Não sei como, talvez por acaso, ou talvez não (não estará o Acaso, afinal, ma origem de tudo?), começou a aparecer por minha casa onde já se juntavam, entre outros, o António Portugal, o José Afonso, o Rui Pato. Descobrimos então o timbre inconfundível da voz de Adriano e também essa sua conhecida pretensão, que nunca perderia e haveria de provocar infindáveis discussões com o António Portugal, de cantar uma oitava acima de Edmundo de Bettencourt.

 Este homenzarrão barbado, mas com olhar cândido como dele disse Manuel da Fonseca, foi, acima de tudo, um homem de coragem; o melhor de todos nós na opinião de Fausto.

Adriano

Não era só a voz o som a oitava
que ele queria sempre mais acima
nem sequer a palavra que nos dava
restituída ao tom de cada rima.

Era a tristeza dentro da alegria
era um fundo de festa na amargura
e a quase insuportável nostalgia
que trazia por dentro da ternura.

O corpo grande e a alma de menino
trazia no olhar aquele assombro
de quem queria caber e não cabia.

Os pés fora do berço e do destino
alguém o viu partir de viola ao ombro.
Era Outubro em Avintes. E chovia.


Manuel Alegre


Exílio

Poema de Manuel Alegre

Música de Luís Cília

sábado, 3 de novembro de 2012

ACORDAI!


Eram milhares e milhares e milhares das mais diversas e diferentes gerações, dos mais diversos partidos, muitos sem partido, outros nem sequer alguma vez exerceram o direito de votar.

Por um sábado de Setembro invadiram as ruas para, aos senhores do governo, dizerem basta!

Cantou-se o Acordai!

Sabe-se que o futuro de um povo joga-se na acção, nunca na inacção.

Nos últimos trinta e seis anos andámos a colocar nas cadeiras do poder gente que nos conduziram à fome, à miséria, às mais diversas provações

Entretidos em coisas de somenos, não demos pela teia, que em redor de um povo, uma série de aldrabões e corruptos acabaram por tecer.

De repente, o povo acordou do estado de coma e veio para a rua gritar: Acordai!

Espero que de uma vez por todas…

…espero.




O Acordai nasceu durante o reino do medo, quando os frutos amargavam e o luar sabia a azedo e é uma das muitas canções a que alguns dos nossos melhores poetas emprestaram palavras e que foram musicadas por Fernando Lopes Graça.

Na conta capa do disco, explica ao que vinham essas canções:

O que são as “Canções Heróicas” que, pela primeira vez, se oferecem ao público editadas em disco? Resumidamente, podemos dizer que são obrinhas de circunstância ou, se quisermos ser mais explícitos e sem temer o uso rigoroso das palavras, defini-las-emos como canções politicamente empenhadas. Politicamente empenhadas no sentido, ou na medida, em que pretenderam contribuir – e cremos que de facto contribuíram – para a luta do povo português, a que primordialmente foram destinadas, contra o regime despótico, anti-democrático e violentador de corpos e almas que durante cerca de cinquenta anos lhe foi imposto.

Um ministro de Salazar disse: É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.


Por sua vez, José Gomes Ferreira, em A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:




Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:


-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide…
- Há por lá alguma pensão?

- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou instalar-me.

Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.

Novamente José Gomes Ferreira:

Por esses dias, com tantos poetas às ordens, ensejou-se a Fernando Lopes Graça realizar um velho sonho que expôs em meia dúzia de frases sóbrias aos circunstantes. Queria letras para canções. Marchas, danças, rondas infantis, hinos… O que nos apetecesse. Contanto que não nos demorássemos muito, pois a inspiração já ardia.


Esgotada a inspiração dos poetas circundantes, Fernando Lopes Graça implorou o auxílio a Coimbra (Joaquim Namorado, Arquimedes, Ferreira Monte) e a Lisboa, donde acudiram ao chamamento Mário Dionísio, Armindo Rodrigues e Edmundo Bettencourt.

Estamos hoje no limiar do desespero.

Resultado da incompetência do governo, encontra-se, há uma semana, em Portugal, uma delegação do FMI, como diz um comunicado do governo, gente com profundo conhecimento e experiência no aprofundamento da corte de despesas.

Mais do que nunca, que ninguém esqueça:

ACORDAI!


Legenda:
Canções Heróicas e Canções Regionais Portuguesas, Coro da Academia dos Amadores de Música, A Voz do Dono 061 – 40 328 editado em 1974

Primeira fotografia onde se vêem João José Cochofel, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira.
Segunda fotografia onde se vêem João José Cochofel e Carlos de Oliveira.

Fotografias retiradas da Fotobiografia de José Gomes Ferreira, Publicações Dom Quixote, Lisboa Novembro 2001.

LISBOA, 25 DE SETEMBRO


Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

Poema: José Gomes Ferreira
Música: Fernando Lopes Graça