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sábado, 6 de julho de 2024

CRONICANDO POR AÍ


De que matéria é que se fazem os sonhos? De letras, diria eu. Ora vamos e vejamos, os sonhos dos filmes, antes de serem sonhos, antes de serem aventuras, antes de serem gargalhadas, são palavras escritas. Há, para cada filme, um argumentista, a senhora ou senhor que escreve os textos, que hão de guiar o realizador e ser frases na boca aos actores. Há tempos, os argumentistas mais reputados em actividade elegeram o melhor de sempre na profissão.

Vejam, elegeram Billy Wilder, um austríaco que pronunciava cada palavra inglesa com os pés, mas que tinha ideias e sacava diálogos de uma afrontosa originalidade, para não dizer virgindade. Escreveu coisas geniais e Ninotchka,filme realizado por Ernst Lubitsch, foi uma das obras-primas que saiu da sua máquina de escrever.

Deram-lhe um mote: “Jovem russa impregnada de ideais bolchevistas vai para a assustadora, capitalista e monopolista cidade de Paris. Apaixona-se e passa uns dias de gozo do caneco. Talvez o capitalismo não seja assim tão mau.” Deste briefing, Wilder inventou Ninotchka.

Pois bem, conhecemos a revolucionária Ninotchka na sombria Moscovo e, claro, estamos todos à espera de ver a cena da chegada, a uma gare de Paris, dessa Ninotchka, a que Greta Garbo emprestou rosto, corpo e a rouca voz.

Na gare estão à espera dela três camaradas soviéticos, já inclinados, pela vida que espreitam em Paris, à condescendência social-democrata para a qual, durante os anos da nossa geringonça, até mesmos os inflamados militantes bloquistas se deixaram deslizar, direitinhos ao bolso de António Costa.

Digo isto e não é um despropósito, há qualquer coisa de mortaguiano no primeiro contacto da camarada Garbo com um representante da espécie chauvinista, arrogante, machista, que é o aromático burguês de infeliz produção capitalista. Ela quer estudar a espécie, como um entomologista a sua minhoca.

Como se fosse a inescapável sessão de uma comissão parlamentar, Mortágua, perdão, a camarada Greta Garbo disseca o bicho capitalista e expõe, com uma imbatível lógica escolástica, as misérias que o lacinho de seda, o chapéu de feltro, o delicado fatinho, procuram ocultar. É delicioso ver a comunistíssima Greta Garbo desfazer a miséria do capitalismo.

Parêntesis: verifiquei, com surpresa, tão justa e científica é a previsão do fim do chauvinismo capitalista, que o filme foi, ao tempo, proibido na solaríssima União Soviética, onde julgo que nada era proibido.

 Palpita-me que a culpa foi das palavras que Wilder pôs na boca de Ninotchka, depois dela experimentar uns apaixonados french kisses, arrancados aos lábios e língua do execrável burguês, beijos acompanhados por umas flûtes desse borbulhante champanhe, que faz a glória da França e é a única etílica libação que a minha mulher, a revolucionária Antónia, consente. 

E diz Ninochka, de olhos postos no amado burguês e na taça de champanhe: “Estou tão feliz. Oh, que feliz que estou. Ninguém pode estar tão feliz sem ser castigado. Vou ser castigada. Tenho de ser castigada.

Wilder castiga-a! Se virem o filme, descobrem como: o sólido argumentista austríaco fá-la rir, e rir é o pecado que a velha revolução bolchevista nunca perdoou. Tenho de acrescentar que, hoje, o activismo militante, vetusto, furioso, albardado em culpas, ainda perdoa menos. A conversão de Ninotchka ao riso e ao prazer é o caminho das pedras da sua perdição em Paris e por Paris. As palavras de Wilder fazem com que a camarada Greta Garbo ponha cada pé na pedra certa, ou não fossem as palavras a matéria de que se fazem os sonhos.

Manuel S. Fonseca na sua Pàgina Negra

terça-feira, 19 de julho de 2022

DIAS INFERNAIS...


O país continua a arder.

Temperaturas extremas em Londres – Londres a cinzenta, quem diria? –  danificaram uma parte da pista de aterragem e descolagem do aeroporto de Luton, a 55 quilómetros de Londres. A pista esteve fechada durante quase duas horas e obrigou a desviar e atrasar voos.

Por cá, ficamos a saber que as altíssima temperaturas voltam amanhã.

Dou-me pessimamente com o calor. Quando trabalhava, mandava as férias sempre para Setembro.

Vou agora ter com a Autobiografia  Woody Allen para ele me contar da Primavera e do Outono em Central Park.

«Veja, o verão em Nova Iorque são más notícias. É quente, sufocante, estão todos fora, e sim, podemos andar de um lado para o outro com menos trânsito, mas é entediante, tendo todos os amigos partido e estando tudo pegajoso e húmido. De qualquer maneira, chega o outono e a cidade começa a mexer. Os nova-iorquinos regressam de férias, o tempo arrefece. Quando eu era miúdo, em Brooklyn, os verões eram uma dádiva, porque significava que não havia escola e eu podia jogar à bola todo o dia e ir ao cinema. Era divertido, mas mesmo então, o outono significava que todas as raparigas giras regressavam dos campos de férias, e embora o pesadelo dos livros e das aulas pairasse no horizonte, pelo menos havia alguma anatomia sigmoide para acelerar o fluxo sanguíneo.»

Pelos dias quentes, vou também ter com o Billy Wilder, no filme O Pecado Mora ao Lado.

A imagem que encima o texto, tem Marilyn, da janela olhando, o vizinho do andar de baixo

Quando Marilyn Monroe, a regar as flores, numa daquelas noites do Verão de Manhattan, quase espeta com um tomateiro na cabeça de Tom Ewel que, no terraço em baixo, lê o jornal.

Ele levanta-se com uma fúria desmedida, mas depara com o rosto de Marilyn entre os vasos de flores, e convida-a para uma bebida.

Marilyn aceita o convite e acontece este delicioso diálogo:

- Vou à cozinha vestir-me.

- À cozinha?

- Sim! Quando está calor guardo a roupa interior no congelador. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

OLHARES


Em Outubro de 1955, Maurice Chevalier visitou, durante as filmagens de Quanto Mais Quente Melhor ,Marilyn Monroe, e acabaram empoleirados no topo de um piano vertical.

Milton Greene andava por ali e fez o boneco.

No meio da pandemia que nos assola, é sempre bom ouvir música, e como estamos com o filme de Billy Wider nas mãos, colocar Marilyn a cantar I Wanna Be Loved By You e, recuando algum tempo, ouvir ainda a versão que Helen Hane nos deixou.


terça-feira, 28 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse, hoje, que não vai propor nova renovação do estado de emergência.

O governo irá agora decidir os instrumentos e as medidas que serão aplicadas depois de 2 de Maio.

E aqui começa um novo mar de incertezas, novos estados de angústia, de ansiedade.

Já estamos tão fartos do que nos está a acontecer.

Mas estaremos preparados para enfrentar este outro desafio?
O surto continua por aí.

E nós?

Serve esconder as nossas fragilidades?

Que mais desculpas nos damos?

Quem ensinou Mona Lisa a rir daquele modo?

Que música para hoje?

Vivaldi.

Que muitos dizem ser um clássico demasiado repetitivo, quase chato.

Eu gosto.

Saudades de ouvir, com o meu pai, a Cecília Bartoli, a cantar Vivaldi, ou o tempo em que punha a rodar «Alla Rustica», e ele começava a mexer os braços qual maestro, e falávamos do homem da bandeira que, juntamente com o meu avô e outros republicanos históricos, nunca faltavam para que um dia o botas-de santa-comba caísse, fosse lá como fosse, mas caísse.



1.

Em Harbin, uma cidade na China, vivem 10 milhões de pessoas e teme-se que está ali a desenvolver-se um novo surto de epidemia.

E agora já sabemos de que Harbin, estando tão longe, isso não é impeditivo de o vírus galgar fronteiras.

As informações sobre este surto, como velho péssimo hábito chinês, são quase inexistentes.

2.

«Moro há 45 anos mesmo ao lado do Estádio do Glorioso, E, nunca, mas nunca, tinha ouvido tantos pássaros em frente à minha janela! Um novo e estranho mundo».

Joana Lopes

3.

Billy Wilder. num delicioso filme do pós-guerra «A sua Melhor Missão, em que uma maravilhosa Marlene Dietrich anda por lá a dizer:

«Troco pastilhas elásticas por beijos.»

4.

Grupo que lidera a British Airways quer despedir 12 mil trabalhadores.
No primeiro trimestre, os prejuízos da companhia aérea britânica foram superiores a 500 milhões de euros e as receitas caíram 13 por cento.

5.

A Segurança Social aprovou 61,7% dos 62.341 pedidos de adesão ao `lay-off` simplificado que foram requeridos pelas empresas até ao início de Abril.

Os 15,1% dos pedidos (9.458) foram indeferidos por vários motivos, entre eles porque as empresas não tinham a sua situação contributiva regularizada ou não tinham certificação do contabilista ou por não cumprirem as regras da data de início do apoio.

6.

As Nações Unidas alertaram que o isolamento obrigatório de milhões de pessoas em casa vai originar um aumento em 20 por cento da violência doméstica.

7.

As creches são dos primeiros estabelecimentos a ter ordem de abertura, mas deixam um aviso aos pais: só vão aceitar as crianças de volta, caso os pagamentos estejam em dia.

8.

A SAS, a transportadora aérea mais importante de Escandinávia, anunciou que vai colocar cinco mil trabalhadores em lay-off.

A Bosch de Braga vai entrar em lay-off total.

Atualmente, os 3800 funcionários estavam num regime parcial de redução temporária dos períodos de trabalho. No entanto, perante uma descida na procura, a unidade de produção de componentes automóveis vai suspender a atividade.

9.

Os negros números:

Os Estados Unidos passaram a ser o primeiro país do mundo a ultrapassar um milhão de casos confirmados da covid-19, enquanto o número de mortos se cifra em 57.266.

Portugal regista 928 óbitos.

Itália: 27.359 mortos
Espanha: 23.822 mortos
França: 23.660 mortos
Grã-Bretanha: 21.768 mortos

Em todo o mundo já morreram 216.808 pessoas. 

sábado, 18 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Gosto de pessoas que acreditam.

Importa aquilo em que se acredita, é certo, mas há coisas simples em que se acredita e que não atrapalham ninguém.

Naquela noite de 8 de Março de 1990, no Estádio da Luz, Vata meteu o golo com a mão ao Marselha e que levou o Benfica à final da Taça do Campeões Europeus.

A bola entrou na baliza norte onde eu, entalado na multidão, apenas a vi no fundo da rede. Valdo marcou o pontapé de canto e Vata foi lá com a mão.

Numa entrevista à Antena 1, Março de 2010, insistiu que não foi com a mão mas com o ombro.

Vata, há três ou quatro dias, repete a ideia:

«Vou dizer o mesmo até morrer: marquei com o ombro».

Gosto de pessoas que acreditam, repito.

Quando ontem falava dos receios com a abertura – pequena que seja – anunciada por António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, adiantei preocupações minhas, que mantenho, tentando ser o mais razoável possível.

Devíamos impor a cada um de nós que este ano, que vai no seu quarto mês, não pode ser um ano normal.

De tempo e de vida.

Assim teremos que reconhecer, de uma vez por todas, que:

Não há campeão de futebol, não há subidas nem descidas de divisão.

Não houve Páscoa, esperemos, apenas, que haja Natal.

Não há 25 de Abril.

Não há 1º de Maio.

Não há 13 de Maio na Cova da Iria.

Não há Rock in Rio.

Não há santos populares.

Tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa.

Depois da reclusão caseira que nos impuseram – e com grandes sacrifícios, compridamente, a tenho cumprido – não podemos estragar tudo por um qualquer motivo.

Se não podemos ir ao funeral de um amigo, de um familiar, podemos ir para a rua comer bifanas e sardinhas assadas?

Podemos errar mas, a todo o custo, temos que evitar ser imbecis e irresponsáveis.

 Aqui chegado, volto a Rachmaninoff.

Descobri o compositor, teria para aí uns 17 ou 18 anos, quando nesse espantoso O Pecado Mora ao Lado, filme de Billy Wilder, o vizinho tenta seduzir Marilyn Monroe pelas mais diversas maneiras, uma delas é com o Concerto Para Piano Nº 2 em Dó Menor de Rachmaninoff.

Nenhum dos dias de Covid-19 corre bem, mas há uns piores que outros.

O de hoje tem sido amargo, pelo que ficamos com um excerto de Rhapsody on a theme of Paganini. 

É um excerto, mas ouçam-no todo, se não o tiverem em casa, recorram ao  You Tube.

Billy Wilder pensava que Rachmannoff podia resolver um qualquer pormenor que não estivesse a correr bem. 

Penso o mesmo.

1.

As Nações Unidas alertam para o facto que as crianças podem ser as grandes vítimas da pandemia de covid-19, sobretudo pela pobreza que pode afectar 62 milhões de crianças, apesar de o grupo etário não estar a ser atingido directamente pela doença.

«Todas as crianças, de todas as idades e em todos os países estão a ser atingidas pelos efeitos sócio económicos da pandemia sendo que os efeitos da crise podem vir a ter impactos de longa duração sobretudo nos países mais pobres onde existe mais vulnerabilidade»

Os três aspectos principais da crise sobre as crianças dizem respeito à infecção pelo coronavírus, os impactos sócio-económicos relacionados com as medidas contra a propagação da doença e os efeitos que atingem, a longo prazo, a implementação dos objectivos para o desenvolvimento sustentável.

Entre 42 a 62 milhões de crianças correm o risco de pobreza extrema por causa da presente crise sanitária sendo que 386 milhões de crianças já se encontravam em situação de pobreza extrema em 2019.

2.

Os negros números:

Portugal regista 687 mortos.

A Itália regista 23.227 mortos, a Espanha 20.043 mortos, a França 19.323 mortos, a Grã-Bretanha 15.464.

Os Estados Unidos continuam a ser o país do mundo com maior número de mortes: 33.049.
No estado de Nova Iorque registam 13.202 mortes.

Em todo o mundo já morreram 158.691 pessoas.

3.

João Lopes no seu Covid-20

«Que está em jogo? O regresso ao trabalho? Ou a reconversão das formas de trabalhar? Para além da questão fulcral da saúde, um dos factores mais perturbantes desta crise decorre do facto de, com ela e através dela, pressentirmos a possibilidade de uma verdadeira revolução social — entenda-se: laboral — sobre a qual não sabemos construir uma qualquer perspectiva política. Porquê? Porque esta é uma revolução liderada pela própria violência da doença, sem vanguardas nem líderes carismáticos.
Vemo-nos, assim, desapossados do próprio conceito de revolução que aprendemos na história. Por vias do Bem ou do Mal (quase sempre do Bem e do Mal), a revolução expressava-se — e, de alguma maneira, acontecia — através da miragem mais ou  menos realista de um destino. Agora, o destino, seja ele qual for, escapa-se-nos na areia do tempo.»

quinta-feira, 16 de abril de 2020

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Já há muito que andava para colocar aqui um texto sobre o Billy Wilder’s Café-Bar em Berlim.

Tinha a certeza que existia uma fotografia da procura que fizéramos para localizar o hotel do «One, Two, Three», onde acontece uma das grandes cenas do mundo de Billy Wilder, que só se tornara realizador para proteger os seus argumentos.

Procurei-a longamente sem qualquer ponta de sucesso.


Agora, com todo o tempo do mundo, graças ao Covid-19, apareceu-me, juntamente com outra tralha, dentro duma caixa de charutos.

Lá estou eu a olhar para a fachada do «Easy Side Hotel», apenas a olhar, o que admitimos ser o Grande Hotel Potemkin que aparece no filme.

Cabe dizer que, no tocante a cinema, e não só, se o Luís Miguel Mira, depois de dar todas as voltas, e mais uma, não consegue encontrar o que procura, não vale a pena fazer quaisquer outros esforços.

João Bénard da Costa diz-nos que o interior do Grande Hotel Potemkin é decalcado de um hotel por ali existente, que nos tempos da juventude de Wilder se chamava Grand Hotel Bismark e nos anos de Hitler se chamava Grande Hotel Goering.

Qual será o novo nome do Hotel nos dias de hoje?

O «Easy Side Hotel» cuja fachada se vê na fotografia?

E estávamos no exacto, ou aproximado, local?

Billy Wilder, a equipa de filmagens só se deram conta de tal facto pela manhã.


Agora pouco importa, o que importa realmente é esse espantoso filme de Wilder, que ao tempo, tempo de guerra fria, ninguém gostou, ninguém o olhou com olhos de ver, chegando a classifica-lo como «abjectamente reacionário».

A última vez que vi «Um, Dois, Três», foi na sala Dr. Félix Ribeiro da Cinemateca – quando voltarei a entrar na Cinemateca? -,  na tarde do dia 28 de Janeiro de 2003 e guardo a folhinha assinada pelo João Bénard da Costa, que me serve de fonte.

O muro de Berlim começou a ser erigido na noite de 13 de Agosto de 1961.

Muita coisa aconteceu durante a rodagem do filme. Quando chegaram para a as primeiras filmagens ainda se ia de um lado para o outro, quando as filmagens chegaram ao fim o tal muro já estava erguido e, naturalmente viria a ser afectado

«Quando via matarem os refugiados que tentavam fugir de leste para oeste na vida real, parecia-me que ia ser difícil que as pessoas aceitassem uma comédia situada em tal décor. Os realizadores são muito vulneráveis a esta espécie de riscos. Uma situação, um clima político muda e as coisas deixam de ser as mesmas no fim das filmagens do que eram quando se começaram.»

Bénard da Costa é de opinião que todos esses tempos afectaram o filme mais do que Wilder poderia supor.

«Os alemães odiaram e acharam difícil de acreditar que um «alemão» pudesse retratar assim o seu povo e o país onde vivera em jovem. Não falo dos russos porque, obviamente, jamais o viram. À época «One, Two, Three» foi o único filme de Wilder que ninguém defendeu e, ainda hoje, é dos mais mal conhecidos e estudados da sua obra.»

A folhinha da Cinemateca conclui:

«Em 1961, ninguém entendeu Wilder. Em 2003 – ai de nós, entendemo-lo bem de mais».



O resto é lembrar a fabulosa sequência no tal hotel, cena antológica das muitas de Billy Wilder, em que Lilo Pulver, no papel de Ingeborg, se mostra esplendorosa e escultural, com aquele justinho vestido às bolinhas vermelhas, o filme é a preto e branco, mas terão de ser vermelhas as bolinhas, numa dança maluca, em cima da mesa cheia de champanhe, vodka e caviar, rodeada por um turba de bêbados, tão louca, louca a dança, o frenesim infernal, que o retrato de Krustchev baloiça e cai, revelando que escondia o retrato de Estaline.

Simplesmente fabuloso.

Billy Wilder nunca gostou de rever os seus filmes.

«Só me apetece é agarrar naquilo e mudar tudo», e sorriu. «É como voltar a encontrar uma rapariga com quem se dormiu quinze anos atrás. Olha-se para ela e pensa-se ”Deus meu, dormi mesmo com ela”?»

«Quanto Mais Quente talvez seja o meu melhor filme, por ser o que tem menos erros.»

quarta-feira, 25 de março de 2020

A GRANDE PIRUETA


Quando aqui vos lembrei que Woody Guthrie tinha escrito na sua guitarra “This Machine Kills Fascists”, veio-me de imediato à memória uma outra história, que também será interessante contar. Mas serão duas as histórias, embora intimamente ligadas entre si, como perceberão.

Há muitos, muitos anos atrás, por ocasião do nascimento das minhas duas filhas mais velhas, costumava ir passar largas temporadas a casa dos meus sogros de então. Tanto eu como a minha mulher trabalhávamos relativamente perto e evitávamos, dessa forma, ter de atravessar duas vezes Lisboa de uma ponta a outra no período terminal da gravidez e no pós-parto.
Embora na altura tivesse uma vida sobrecarregada, porque trabalhava de dia e estudava de noite, nunca deixava de, à chegada a casa, dar dois dedos de conversa com o meu sogro, Francisco de Freitas Santos. Da sua vastíssima cultura e experiência de vida, aprendia sempre qualquer coisa.

Um dia, no meio de uma dessas conversas,  desafiei o Freitas Santos a ir comigo ver o “Ninotchka”, do Ernst Lubitsch, não me lembro se à Cinemateca, à Gulbenkian ou a qualquer sessão tardia de fim-de-semana mas, para o caso, também não importa...

Ao contrário do que era habitual nele, o Freitas, comunista de longa data,  reagiu mal ao convite  e disse-me que não tinha grande pachorra para ir ver filmes reacionários.

Um pequeno parêntesis para recordar, a quem não viu o filme ou já não se recorda, que, a traços muito largos, a história gira à volta de um grupo de adoráveis Camaradas soviéticos  que, primeiro sozinhos e depois  chefiados pela boa da Greta Garbo, vêm a Paris, em missão oficial da URSS,  para tentar vender uma coleção de joias “nacionalizadas” durante o período da Revolução. É escusado dizer que a Chefe se apaixonou perdidamente pelo galã  do filme, Melvin Douglas, e que todos os Camaradas se renderam, incondicionalmente, aos prazeres do “capitalistic  way of live”…

Voltando ao meu sogro, continuei a conversa e, puxando um cordelinho ali e outro acolá, rapidamente me apercebi que o bom do Freitas Santos nunca tinha visto o “Ninotchka” na vida e que a sua reação era consequência de um preconceito que lhe ficara da época da sua exibição em Portugal.

Em boa verdade, tal como o “Casablanca” foi durante muitos meses, no Politeama, pretexto para manifestações anti-fascistas de uma parte da assistência, que se levantava e cantava a “Marselhesa” em coro com o filme, é bem provável que parte da Imprensa portuguesa da época se tenha servido do “Ninotchka” para atacar o regime soviético, provocando aquela reação de repulsa por parte dos comunistas que o Freitas, quarenta anos depois, ainda tinha bem guardada dentro de si.

Para o convencer, lembro-me de lhe ter tentado explicar duas coisas: quem eram os autores do filme e o contexto muito particular em que este tinha sido escrito e realizado.


Em relação a Lubitch, o realizador,  ter-lhe-ei explicado que foi um dos primeiros a emigrar para os EUA, ainda antes da ascensão do Nazismo, tendo obtido enorme êxito e tendo-se distinguido por ter sido, em Hollywood,  um dos que mais se esforçaram por apoiar, na sua integração e obtenção de trabalho nos Estados Unidos,  os refugiados que fugiam do regime Nazi, sem qualquer distinção de nacionalidade, credo político ou religioso. E que era, também (mas isso o Freitas sabia...), o realizador de “To Be Or Not To Be” (1942) de que ele tanto dizia gostar, juntamente com “O Grande Ditador”, de Chaplin, as maiores sátiras ao Nazismo alguma vez saídas dos estúdios americanos...  

De Billy Wilder, responsável pelo cenário do filme em colaboração com Charles Brackett, ter-lhe-ei talvez dito que tinha fugido ao nazismo em 1933, imediatamente após o incêndio do Reishtag, e que , juntamente com Frank Tashlin e Jerry Lewis, terá sido um dos cineastas que, de forma mais caustica e contundente, criticaram o “american way of live” entre os anos 40 e os anos 70. 

Quanto a Charles Brackett, se tivesse nesta matéria uma posição muito distinta da de Wlder, dificilmente teria sido o seu fiel companheiro na escrita dos seus filmes, como o foi até 1950.  Só não lhe disse, porque então ainda não sabia, que Bracket era, na altura da conceção de “Ninotchka”, o Presidente da “Screen Writers Guild”, uma associação que à época era considerada um perigoso ninho de  esquerdistas... 

Esses três homens (para só falar neles…) eram o que na altura se chamava liberais anti-fascistas, e nenhum deles poderia ser considerado um “perigoso reacionário”. E se visto o filme com atenção, o modo de vida “capitalista” também não fica muito bem tratado em “Ninotchka”...

A realidade é muito diferente, e aqui terá de entrar o tal contexto...

Estes homens (e tantos outros como eles, na América daqueles tempos…) estavam muito bem informados acerca do que se passava na Alemanha. Viam familiares, amigos ou simples conhecidos ser humilhados, desprovidos dos seus bens, deportados e tantas vezes assassinados nos campos de concentração e assistiam, com alguma incredulidade e repulsa, à forma passiva e, segundo eles, conivente como os Estados Unidos e a União Soviética toleravam esse estado de coisas.

E, na lógica da então chamada “politica de apaziguamento”, foram dois os acontecimentos históricos que iriam transformar essa animosidade em ódio, sobretudo em relação à União Soviética: o Tratado de Munique, de Setembro de 1938, que traçou o destino da Checoslováquia, que seria invadida seis meses depois, e o Pacto Germano-Soviético, de Agosto de 1939, que estabeleceu o princípio da “não agressão” entre as duas potências e legitimou a invasão, por ambas as partes, da Finlândia e da Polónia.

Ora, gritavam eles então, não só a União Soviética - a grande defensora da Liberdade - não os ajudava, como se aliava ao próprio inimigo, com o beneplácito das restantes grandes potências europeias. E enquanto tudo isto se passava, os Estados Unidos assobiavam para o lado…
Ninotchka” estreou-se nos Estados Unidos em Novembro de 1939, tinha a Guerra começado há pouco mais de dois meses. Foi um filme pensado,  escrito e realizado neste contexto e só dentro dele conseguirá ser devidamente compreendido.

Não se tratou de um ataque deliberado aos fundamentos do Estado Soviético nem à ideologia Comunista, mas sim de um grito de revolta de alguns homens angustiados e impotentes face à situação que viviam, que não tiveram outra solução senão expressar-se através da sua Arte.
Recordo-me de ter gasto todo o meu “latim” em vão e que esta minha tentativa de explicação não comoveu, na altura, o meu sogro, e muito menos o demoveu da sua ideia de não me acompanhar ao cinema.

Mas também me recordo muito bem, com saudade,  de, uns anos depois, o ter obrigado a ver, finalmente, “Ninotchka” na televisão, comigo ao lado. E parece que ainda o estou a ver, sentado no grande cadeirão ao fundo da pequena sala com o seu roupão azul escuro, a fazer um enorme esforço para conter, a custo,  as suas sonoras gargalhadas.

É que “Ninotchka” é uma melhores comédias de sempre do cinema americano.


E assim se conclui a primeira história.

Passemos à segunda...

Já vimos como estava a situação nos Estados Unidos nas vésperas da eclosão da II Grande Guerra Mundial e quando esta foi, formalmente,  desencadeada  (1 de Setembro de 1939, na sequência da invasão da Polónia).

Embora algumas vozes, sobretudo judeus e uma certa  Esquerda não alinhada com o Partido Comunista Americano, defendessem ser imperativa a participação dos Estados Unidos no conflito, o Congresso e a maioria da população eram contra esta intervenção. O Presidente Roosevelt era a favor, mas tinha de se submeter...

Em coerência com a orientação seguida por todos os Partidos Comunistas na sequência do Pacto Germano-Soviético, a posição assumida pela União Soviética era apoiada e o Partido Comunista Americano era um dos principais defensores da não intervenção.

Como vimos nos dois textos anteriores, a canção era, nesses tempos, um excelente veiculo de propaganda das ideias, e não é de estranhar que um agrupamento Folk fortemente ligado ao Partido Comunista, chamado “The Almanac Singers”, de geometria variável mas constituído, em inícios de 1941, em torno dos suspeitos do costume (Woody Guthrie, Pete Seeger, Josh White, ...), tivesse aproveitado a oportunidade do lançamento do seu primeiros disco (“Songs for John Doe”, Maio de 1941) para fazer passar essa mensagem de pacifismo e de isolacionismo face ao conflito.

Em particular uma das músicas desse disco, “Billy Boy”, iria tornar-se  o verdadeiro manifesto do “não-intervencionismo”. Vale a pena dar a conhecer a sua letra:

“Will you go to the war, Billy boy, Billy boy?
Will you go to the war, charmin’ Billy?
It’s a long ways away, they are dying every day
He’s a young boy and can not leave his mother

Can you use a bayonet, Billy boy, Billy boy?
Can you use a bayonet, charming Billy?
No I haven’t got the skill to murder and to kill...
He’s a young boy …………………………………………..

Don’t you want a silver medal, Billy boy, Billy boy?
Don’t you want a silver medal, charmin’ Billy?
No desire to I feel to defent Republic Steel...
He’s a young boy……………………………………………….

Don’t you want to see the world, Billy boy, Billy boy?
Don’t you want to see the world, chamin’ Billy?
No it wouldn’t  be much thrill to die for Dupont in Brazi...l
He’s a young boy………………………………………………….

Girls would like your uniform, Billy boy, Billy boy
Girls would like your uniform, charlin’ Billy
They wouldn’t have much chance to love me with six feet of earth above me...
He’s a young boy………………………………………………………

Are you afraid to fight, Billy boy, Billy boy”?
Are you afraid to fight, charlin’ Billy?
You can come around me when England’s a democracy...
He’s a young boy………………………………………………………

Will they take you from my side, Billy boy, Billy boy?
Will they take you from my side, charming Billy?
Don’t you worry Mother dear, I’m a-satyin’over here...
He’s a young boy.………………………………………………………

Nem é preciso comentar. A letra é bem explícita.

Mas o manifesto não iria resistir muito mais tempo...

Em 22 de Junho de 1941, fazendo tábua rasa do Pacto de Não Agressão, a Alemanha invadiu a União Soviética  e a situação alterou-se radicalmente. Da noite para o dia o Partido Comunista Americano abandonou o isolacionismo e passou a defender, abertamente, a intervenção no conflito.

E poucos meses depois, a 7 de Dezembro de 1941, os japoneses atacaram Pearl Harbour e os Estados Unidos entraram oficialmente na Guerra.

 Os Almanac Singers, claro está, viram-se em muito maus lençóis. Alguns dos possuidores de “Songs For John Doe” destruíram propositadamente as suas cópias e os membros do grupo esforçaram-se por encontrar e destruir também todos os exemplares que ainda se encontravam em vias de distribuição, o que fez com que este disco se tornasse  uma das peças mais raras e mais procuradas pelos colecionadores de Folk Music.  Embora todas as suas sete canções façam parte da maioria das coletâneas dos Almanac que têm sido editadas ao longo dos tempos (deixo-vos um exemplo), o disco em si tornou-se muito difícil de obter.  

Mas os Almanac Singers, embora envergonhados,  não pararam e, num ápice, estavam a lançar um novo disco (“Dear Mr. President”, de Fevereiro de 1942)  e a cantar novas canções anti-Hitler e a favor do esforço de guerra, numa das piruetas mais famosas da história da Música Folk.  A mais célebre dessas músicas, “Round and Round Hitler’s Grave”, com base na música de “Old Joe Clark”, de Woody Guthrie, reza assim (vou abreviar, que o texto já vai longo):

“Now I wished I had a bushel
Wished I had a peck   
Wished I had old Hitler
With a rope around his neck

Hey! round, round Hitler’s grave
Round, round we go
Gonna lay that poor boy down
He won’t get up no more

Mussolini won’t last long
Tell you the reason why
We’re a-gonna salt his beef
And hang it up to dry

Hey! round, round Hitler’s grave
Round, round we go
…………………………………
………………………………….

Ou seja, em poucos meses o nosso “charming Billy”,  que não sabia usar uma baioneta, não ambicionava medalhas, não desejava ver o mundo e apenas queria ficar em casa a tomar conta da mãezinha já se via na Alemanha a enforcar Hitler e  a festejar aos saltos à volta do seu túmulo…!  

Mas não foi apenas esta música. Todo o “Mr. President” surge quase como um pedido de desculpas em relação a “Songs For John Doe”...


Só outro exemplo rápido, para não vos incomodar mais: em “Ballad of October 16th”, de 1941,  Roosevelt era massacrado por ter assinado o “Conscription Bill”, isto é, a Lei que impôs o serviço militar obrigatório aos jovens com idades compreendidas entre os 21 e os 30 anos, a primeira vez que tal acontecera nos Estados Unidos em tempos de paz; em “Dear. Mr. President”,  a “talk-song” lançada alguns meses depois, alguém escreve ao Presidente elogiando e incentivando o seu esforço de guerra  e a confessar que até já parou de discutir com a sogra, porque a ajuda dela também é necessária para se ganhar a guerra…!:

“………………………………………………
………………………………………………..
Now Mr. President, we haven’t always agree in the past, I know
But that ain’t important now
What is important is what we got to do
We got to lick Mr. Hitler, and untill we do
Other things can wait
War means overtime and higher prices
But we’re all willing to make sacrifices
Hell, I’d even stop fithing with my mother-in-aw
‘Cause we need her too to win the war
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……………………………………………………………
So Mr. President, we’ve got this one big job to do
That’s lick Mr. Hitler and when we’re through
Let no one else take his place
To trample down the human race
So what I want is you to give a a gun
So we can hurry and get the job done”

Teria esta gente de pedir desculpa por todos estes equívocos e por todas estas “piruetas”...?
Eu julgo que não…. Erros seus, má fortuna, Amor ardente…

Mas Pete Seeger entendeu que sim… Na página 22 de  “Where Have All the Flowers Gone – A Singer’s Stories, Songs, Seeds, Robberies”, uma quase autobiografia através das suas principais canções publicada em 1993, ele confessa-nos o seguinte:  

“At any rate, today I’ll apologize for a number of things, such as thinking  that Staline was simply a “hard driver” and not a supremely cruel misleader”

Moral da(s) história(s), porque há sempre uma em todas as histórias:  nunca vejas uma obra de Arte, seja de que natureza for, com os “óculos” de hoje. Para a compreenderes, terás de a situar no seu espaço, no seu tempo e no seu modo... 

PS: 
Existem muitas coletâneas de música Folk relacionadas com a II Grande Guerra. Deixo-vos aqui uma das melhores, de fácil acesso

Texto de Luís Miguel Mira

Legenda: fotograma de Ninotchka

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Nacos de Tempo

Peter Bogdanovich
Tradutores: Maria Dulce Teles de Menezes e Salvato Teles de Meneses
Colecção Horizonte de Cinema nº 13
Livros Horizonte, Lisboa, 1986

Billy Wilder acerca dos seus filmes, que não gosta de rever, disse: «Só me apetece é agarrar naquilo e mudar tudo», e sorriu. «É como voltar a encontrar uma rapariga com quem se dormiu quinze anos atrás. Olha-se para ela e pensa-se ”Deus meu, dormi mesmo com ela”?»

quinta-feira, 11 de abril de 2019

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Guardanapo que no «Billy Wilder’s Café-Bar» oferecem aos clientes com a chegada de uma bebida.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Berlim.

Um respirar de arte, cultura antiguidade, sentir, sabe-se lá porquê, que estamos mesmo na Europa.

As Portas de Brandeburgo, o passar pelo Checkpoint Charlie, a procura do que foi o tal muro, a Aida para um alemão, mapa na mão, “por favor, muro de Berlim?” e só mais tarde, muito tarde mesmo,  encontraremos um pedaço de muro.


Billy Wilder’s Café-Bar, Sony Center, Potsdammer Strasse 21075 Berlin.

Ir a Roma e não ver o Papa?

Ir a Berlim e não entrar no «Wilder’s Bar»?

Coisas que se dizem.

Ver o Papa nunca iria, mas em Berlim, por Junho de 2005, uma manhã radiosa, entrámos porta dentro para uma cerveja, com dois dedos de espuma, ao balcão, e ficar a olhar as paredes. 

Sem apetecer sair dali.

A tentativa, vã tentativa, de encontrar o hotel, no outro lado de Berlim, que aparece no «Um, Dois, Três», maravilhoso, empolgante filme de Billy Wilder.

O Luís Miguel Mira bem tentou, deu voltas e voltas para localizar o hotel, e quando o Miguel não consegue, não vale a pena mais alguém fazer qualquer esforço.

O tal hotel que foi «Potemkine», também «Bismark» e, em tempo de Heil Hitler, se chamava «Goering».


O resto é lembrar a fabulosa sequência nesse tal hotel, cena antológica das muitas de Billy Wilder, em que Ingeborg se mostra esplendorosa e escultural, com aquele justinho vestido às bolinhas vermelhas, o filme é a preto e branco, mas terão de ser vermelhas as bolinhas, numa dança maluca, em cima da mesa cheia de champanhe, vodka e caviar, rodeada por um turba de bêbados, tão maluca a dança, o frenesim infernal, que o retrato de Krustchev baloiça e cai, revelando que escondia o retrato de Estaline.