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domingo, 7 de junho de 2020

ETECETERA


George Floyd, negro de 46 anos, morreu sufocado ao ser detido por um polícia, em Minneapolis, que lhe pôs um joelho em cima do pescoço.

Nos Estados Unidos, em países, principalmente da Europa, sucedem-se as manifestações de protesto contra esta demonstração de ódio.

As manifestações, em algumas cidades norte-americanas, descambaram em  pilhagem a estabelecimentos e viaturas incendiadas.

A história diz-nos que os tribunais norte-americanos absolvem sempre os polícias que matam pessoas, principalmente se essas pessoas forem negros.

Racistas somos nós todos, mais ou menos, declarada ou obscuramente.

Vou temendo que se deixe de falar daqueles polícias do Serviço de Fronteiras que, há algumas semanas, no Aeroporto da Portela, mataram, à pancada, um cidadão ucraniano.

1.

A cultura em Portugal, sempre se arrastou pelas ruas da amargura com os seus intérpretes tratados a pontapé.

Sem dinheiro, sem apoios, nunca houve uma política que ajudasse a vida e a progressão de milhares de actores, encenadores, cantores, bailarinos, músicos, pintores.

As pessoas que os diversos governos colocam no ministério, também não têm ajudado.

Com outros personagens, João César Monteiro dizia há uns largos anos atrás:

«A primeira condição para se ser ministro da Cultura, neste país, é distinguir uma vaca de um boi.»

Ou o poeta Raul de Carvalho:

«Em relação ao trabalhador intelectual passa-se uma coisa bem portuguesa, perante a qual não distingo regimes ou partidos. Em geral, só com fins políticos dão um pequeno passeio ao domingo com a cultura. Na segunda-feira já a esqueceram.»

A actual Ministra da Cultura tem demonstrado uma insegurança, uma inabilidade que quase se transforma em desprezo pelos artistas. Infelizmente também se rodeou, ou rodearam-na, de gente que, de modo algum, tem ajudado a desenrolar o novelo em que a cultura se encontra envolta.

2.

No Brasil, morre uma pessoa a cada minuto devido à Covid-19, sendo o segundo  país com mais casos de infecção e o terceiro com mais mortos.

Bolsonaro, a exemplo de Donald Trump, ameaça retirar o país da Organização Mundial de saúde e pede dureza à polícia contra os que se manifestam contra a sua política, pois não passam de bandos de terroristas e drogados.

3.

Mercê do sistema eleitoral dos Estados Unidos, Donald Trump, apesar do seu ódio, da sua incultura, da sua incompetência e irresponsabilidade face ao seu desempenho na pandemia, mantêm a reeleição ao seu alcance. Ter mais votos não chega. São necessárias algumas habilidades.

4.

Já não lembro ao fim de quanto tempo pensei que a vida nunca mais será a mesma.

A Direcção Geral de Saúde diz-nos, agora, que estamos à beira de controlar a situação epidémica, mas que é necessário continuarmos a fazer um grande esforço, isto numa altura em que, também nos dizem, ser expectável que o número de infectados na região de Lisboa e Vale do Tejo venham a ser elevados.

Sim, o vírus não desapareceu e não sabemos quando desaparecerá.

Querem fazer-nos crer que, durante a pandemia, nos portámos bem.

Mas portámo-nos, não sei, nunca vi o filme completo, lançando-nos à cara essa terrível palavra: MEDO.

O medo é que nos conduziu e, ao que parece, já o esquecemos.

Ontem, por exemplo, em Lisboa, milhares de pessoas juntaram-se nas ruas contra o racismo e foi visível que muitos manifestantes não tinham máscaras e não respeitavam as distâncias de segurança preconizadas pela Direcção-Geral de Saúde.

5.

Enorme e abrupta recessão, económica e salarial aproxima-se a passos largos.

Trabalhadores em lay-off perdem dois a três salários no final do ano.

A taxa de pobreza irá agravar-se, as desigualdades vão aumentar.

«Antes as pessoas vinham à procura de emprego, agora procuram comida», diz o  presidente da Cáritas.

6.

Um semanário holandês, que as agências noticiosas dizem ser prestigiado, reclama:



«Nem mais um cêntimo para o sul da Europa!».

Adianta ainda que é necessário destruir a fábula de que os países do sul são pobres.

7.
 
Instantâneos do quotidiano de um povo javardo, retirados, ao acaso, da imprensa diária:

a)      Foi recuperado em Vila Nova de Gaia um carro BMW, no valor de 92 mil euros, que havia sido roubado em Guimarães.

b)     Um casal de agricultores foi morto a tiro de caçadeira, na freguesia de Carrazedo de Montenegro, Valpaços. O suspeito do crime é cunhado das vítimas e foi detido na sua casa, sem oferecer resistência. Desavenças antigas motivadas por uma caçada ao javali terão levado ao trágico desfecho.

c)       Um estudante de 25 anos matou uma colega da faculdade, lançando o corpo ao Tejo. O ciúme terá sido a razão do assassínio.

d)     Pinto da Costa colocou o Presidente da Câmara do Porto e o de Gaia na lista de honra da sua candidatura às eleições presidenciais do clube. 

      Esta gente nunca mais toma juízo: a  política e o futebol, a velha história onde nascem compadrio, corrupção e demais coisinhas más.

e)      Acordos secretos ente Benfica e Aves expõem negócios duvidosos e de alta corrupção.

f)       Um juiz desembargador mora há vários anos numa moradia arrestada pela justiça no âmbito do processo BPN evidenciando suspeitas de crimes de colarinho branco.

g)      António Mexia que lidera a EDP desde 2006, está acusado pelo Ministério Público de crimes de corrupção activa e participação económica em negociatas.

h)     ASAE apreendeu 100 mil máscaras com problemas de segurança e violação de regras comunitárias.


i)       Ricardo Salgado tem mesmo de pagar 3,7 milhões de euros de coima aplicada pelo Banco de Portugal e está impedido de exercer a actividade de banqueiro até 2028.
      
      Já não há lugar para mais recursos.

domingo, 31 de maio de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

OLHARES

Aqui ainda é O Toni dos Bifes.

Um dos restaurantes mais antigos de Lisboa, na Rua Praia da Vitória, junto ao Saldanha.

Carlos de Oliveira morava no prédio ao lado de O Toni dos Bifes.

Almoçava por lá. Depois o Augusto Abelaira ia ter com ele, ou almoçava também, e depois iam para o Monte Carlo onde continuavam a aparecer mais escritores, pintores, cineastas, artistas de teatro e cinema.

Quando ainda havia cafés.

Os cafés eram locais privilegiados para as tertúlias.

 Locais de convívio e de escrita.

Augusto Abelaira terá sido o escritor que mas utilizou os cafés para a escrita dos seus romances.

Era vê-lo mergulhado na escrita/leitura de papeis, cachimbo em riste – podia-se fumar nos cafés, pois então!

Na Cister, na Alsaciana, na Coimbra, que ainda existem.

A primeira fase consiste em escrever, escrever, porque as fases seguintes, de reescrita e montagem, têm de ser em casa. Seria preciso andar com uma mala e espalhar muitos papéis.

Mais ainda:

Como eu escrevo nos cafés, o que eu precisava era que houvesse cafés para, durante a manhã, estar a escrever. Como os cafés vão desaparecendo, a possibilidade de escrever é cada vez menor. Quando todos os cafés tiverem desaparecido de Lisboa eu encerro a escrita. Deixo de escrever, isto é, vou morrer, quando fechar o último café em Lisboa onde possa escrever.


Jorge Silva Melo foi um assíduo frequentador dos cafés de Lisboa.

O seu livro de memórias No Século Passado está cheio de referências:

E era nos cafés, abertos desde manhã cedo e até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo isso se ia passando.

Também os Dias Comuns do José Gomes Ferreira estão cheios de referências dos cafés que frequentava com os escritores seus amigos e camaradas, cafés que iam fechando – naquele tempo com destino certo de dependências bancárias - e obrigava a arranjar outro refúgio.

Tal como no 4º volume desses Dias Comuns, José Gomes Ferreira conta:

6 de Janeiro de 1968

A Bel comunicou-me este triste recado do Carlos de Oliveira: o café Bocage, nosso ninho de longos anos Avenida da República vai fechar amanhã.

28 de Maio de 1968

Fechou o Martinho.
Que se passa em Lisboa, onde já se respira tão pouco?
O Abelaira telefonou-me, alarmado, a dar-me a notícia fantástica.
- Mas será verdade’ – PERGUNTEI, INCRÉDULO.
- É… - Disse-me o Magalhães Godinho… A notícia vem no jornal da tarde.
Silêncio inquieto diante desta mutilação do fumo do passado.
- E agora?
- Talvez o Paladium  nos restauradores.
- Pois seja o Paladium!


E nisto de cafés, no fechar da página, impossível não ir buscar o João César Monteiro em Uma Semana Noutra Cidade:

São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.

Texto publicado em 21 de Janeiro de 2016

quarta-feira, 15 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Ferreira Fernandes e Catarina Carvalho pediram a demissão dos cargos que ocupavam na direcção do Diário de Notícias e a administração aceitou o pedido.

Perspectiva-se o accionamento da lay-off nos vários títulos que fazem parte da Global Média e os directores entenderam que não tinham condições para continuar.


«A partir de amanhã, a edição em papel só sairá aos domingos.

Nos restantes dias terá uma edição digital.

Dizem que é um passo em direcção ao futuro, um futuro mais firme.

Na quinta-feira, na «Quadratura do Círculo» , José Pacheco Pereira disse: o Diário de Notícias acabou!

Ferreira Fernandes não está nada de acordo e, hoje, num texto bem esgalhado, explica a Pacheco Pereira o tal futuro mais firme.

Não serei tão taxativo como Pacheco Pereira, mas, face a esta mudança,  também tenho as minhas dúvidas.

O meu avô paterno, republicano histórico, odiava o Diário de Notícias, como então se dizia, o jornal das sopeiras e só lia O Século.

Segui-lhe as pisadas e, também,  muito raramente passei as mãos pelas suas páginas.

O Diário de Notícias apenas foi o meu jornal enquanto os nomes de Luís Barros e José Saramago estiveram no cabeçalho do jornal.

De Abril a Novembro de 1975: os dias dos dias.»

Nestes Dias cruéis que vamos vivendo, é mais uma notícia triste.

Sim, aproximam-se péssimos dias para o Diário de Notícias-on line que ainda hoje destacava esta notícia:

«Choque de desemprego será o maior de que há registo em Portugal.»

Péssimas e arrepiantes notícias para todos os órgãos de informação, sejam da imprensa escrita, da rádio, da televisão.

Sou de um tempo em que o jornalismo era uma profissão respeitável, ler um jornal não era dar o tempo por perdido, era um gesto importante. Também não  existiam on-lines e havia a necessidade de olhar o que se passava no país e no mundo, mesmo sabendo que o lápis azul da censura, frequentara as pilhas de jornais que se amontoavam, ainda não havia quiosques, no ardina da esquina.

Existiam também as entrelinhas que, magistralmente, alguns jornalistas sabiam utilizar, assim fintando  os-incultos-quase-analfabetos-coroneis-da-censura.

Recordo, não com jornais, mas uma história da rádio, contada por Luis Flipe Costa:

Em 17 de Maio de 1967, Palma Inácio realizou o assalto ao Banco de Portugal da Figueira da Foz, o que seria o primeiro acto político da LUAR. Obviamente a notícia foi proibida pela censura, mas sabia-se, por portas travessas, o que tinha acontecido, e no noticiário da uma da manhã do Rádio Clube Português, o jornalista Luís Filipe Costa aproveitou a leitura do boletim meteorológico para concluir a sua apresentação:

"Felizmente, há luar".

Baptista-Bastos, Capitão de Médio Curso:

«Mais do que uma instituição pública, o jornal é uma declaração de amor, um momento, e a sua arte reside justamente na virtude de chegar na hora, na criação do contraponto entre o que permanece e o que vai acontecendo.
A solidão do jornalista decorre da fraternidade por ele jamais recusada, da responsabilidade por ele aceite como princípio ético, da severidade imposta pelo comércio das ideias feito com outros homens. Mas a solidão do jornalista é intermediária, porque reflecte uma época também intermediária, onde o poder, a força e a riqueza têm menor importância do que a ciência. Sendo acto, sonho, declaração de amor, o jornal é também uma ciência – eis porque os tiranos temem o prestígio do jornal que vê claro e escreve vivo: a felicidade apoia-se na verdade, a ilusão assenta na mentira.»

Nicolau Santos, aqui:

«Hoje. Ao fundo, um homem sai de um gabinete. O gabinete do chefe. Do ex-chefe. Do ex-chefe que ainda é chefe, ex é ele: ex-empregado. Acaba de ser despedido. É um de um rol de muitos, um nome a mais numa lista, uma fila a menos numa folha de cálculo. Sai calado, pelo espaço aberto, outros olhos viram-se primeiro para ele, depois para baixo. Outro nome é chamado, lá vai ele, o mesmo gabinete, o mesmo destino. Hoje a empresa não é uma empresa, é um matadouro. Morrem empregos. Saiu nas notícias e tudo. É um dia na vida.»

Faz-nos companhia, uma velha e gloriosa canção dos Byrds: «Turn, Turn, Turn.»

Um tempo para nascer, um tempo para morrer, um tempo, a canção não o diz mas escrevo eu, para acreditar que não é possível viver sem jornais em papel, um aceno longo ao meu pai que, no tempo da ditadura, foi jornalista, fechava o jornal madrugada fora dentro, numa correria louca para não perder os comboios que levavam o jornal para a província, hoje sabemos que os jornais cada vez estão mais pobres, arrastam-se num amontoado reles de notícias inventadas pelas redes sociais, copiadas pelos estagiários, em que se nota à vista desarmada que de há muito, foram perdidos os princípios… e assim sendo…




1.

Donald Trump cumpriu com o que havia ameaçado. A sua Administração suspendeu o financiamento à Organização Mundial da Saúde.

O Presidente dos Estados Unidos, país que é o maior doador da OMS, acusa esta organização internacional de falhar decisões no momento adequado.

Richard Horton, chefe de redacção da revista médica The Lancet:

«A decisão do presidente Trump de suspender o financiamento à OMS é simplesmente isso - um crime contra a humanidade. Todos os cientistas, todos os profissionais de saúde, todos os cidadãos devem resistir e revoltarem-se contra esta terrível traição à solidariedade social.»

2.

A China manteve o surto de Covid-19 em segredo durante seis dias. A Associated Press  revelou o conteúdo de vários documentos que indiciam que o vírus foi mantido em segredo da população durante seis dias.

No dia 14 de janeiro, altura em que foi detetado o primeiro caso de infeção pelo novo coronavírus na Tailândia, o ministro da Comissão Nacional de Saúde da China avisou vários responsáveis, entre eles o presidente, Xi Jinping, para o possível cenário de pandemia através de uma videoconferência.

Mas o presidente da China só alertou a população para a gravidade do vírus no dia 20 de Janeiro, seis dias depois e nessa altura mais de 3000 mil pessoas já tinham sido infectadas

3.

O número de trabalhadores abrangidos pela medida de lay-off simplificado, lançada pelo Governo para responder à pandemia de Covid-19, abrange actualmente já mais de 930 mil trabalhadores. O número de desempregados situa-se nos 353 mil.

4.

Os negros números:

Portugal regista 599 mortos.

O número de vítimas mortais em França, subiu para 17.167, a Itália regista 21.465 mortos.

Em Espanha já morreram 18.579 pessoas, na Grã-Bretanha 12.868 mortos, enquanto os Estados Unidos chegaram ao número de 25.757 óbitos. Só em Nova Iorque já se registaram 7.905 mortes.

5.

João Lopes no seu Covid-20:

«Tradicionalmente, define-se o jornalismo como a profissão, a arte ou a missão de dar conta da realidade. O que, convenhamos, envolve uma humildade equívoca. O jornalismo é também um sistema de linguagens que, conscientemente ou não, integra e contamina todas as componentes da dita realidade, não poucas vezes transfigurando as suas formas de percepção e verosimilhança. Desde meados da década de 1990, tudo isso passou a ser vivido, e bem ou mal pensado, também através da Internet, prevalecendo a ideia segundo a qual o mundo virtual seria tão só uma reconfiguração técnica do mundo clássico (?) em que vivíamos ou julgávamos viver. Chegados aqui, enfrentamos a mais gelada das evidências: a realidade integra o virtual. Como é que uma profissão, uma arte ou uma missão consegue viver perante tão cruel omnipresença?»

Legenda: João César Monteiro no dia em que soube que o Diário de Lisboa ia deixar de se publicar a partir do dia 30 de Novembro de 1990.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Aqui por casa, continuamos o recolhimento obrigatório...

Ao longo dos dias, idas à janela que dá para a rua: uma nesga de rua triste, com carros estacionados, quase nada de gentes, lojas fechadas.

Idas à janela das traseiras, vista mais desafogada, uma abrangente vista sobre Lisboa, olhar as peças de roupa nos estendais das vizinhas e lembrar o louco João César Monteiro em Uma Semana Noutra Cidade:

«Segunda-feira, 8 de Julho

As cuecas da filha da Dona Assunção desapareceram da corda da roupa.

Domingo, 14 de Julho

As cuecas da filha da Dona Assunção apareceram num montouro de entulho. Está salva a honra do convento».

Por música ficamos, hoje, com Chopin, os Nocturnos tocados pela Maria João Pires, reunidos num duplo CD da Deutsche Gramophone, lembrados aqui num  excerto de Os Clássicos do Meu Pai:

«O meu pai gostava muito da Maria João Pires. Se a morte não o tivesse levado teria ficado muito feliz quando a caixa  dos “Nocrurnos” de Chopin, tocados pela Maria João Pires, chegou ao top dos discos mais vendidos, no Natal de 1996, em Portugal. A morte roubou-lhe essa alegria, mas também o poupou de assistir ao desgosto de Maria João Pires com a falência do seu projecto-sonho para Belgais.

Um sonho que virou pesadelo, que a levou, inclusive, a deixar Portugal e a refugiar-se no Brasil, um sonho demasiado bonito para ter acabado da maneira como acabou. Culpas várias mas em que as de Maria João Pires serão mínimas.»


1.

Governo deu parecer favorável à renovação do período do estado de emergência por mais 15 dias. Ainda não se conhecem pormenores do decreto do governo.
O prazo de prorrogação do estado de emergência inicia-se as 00h00 de 3 de Abril e termina às 23h59 de 17 de Abril.

2.

Com caracter temporário, o Governo britânico vai libertar mulheres grávidas actualmente detidas, assim como reclusas que estejam em unidades onde residem com os filhos, de forma a protegê-las do contágio de Covid-19 nas prisões

3.

Maria do Rosário Pedreira esgalhou estes versos, deu-lhes o nome de Fado da Lisboa Doente e, não tarda aí uma loja de barbeiro, que não apareça música para a voz de Aldina Duarte:

Quem a viu e quem a vê,
Esta Lisboa onde moro.
Mas não perguntem porquê.
Pois, se explicar, ainda choro.

Na padaria da esquina
Já só se entra às pinguinhas
E até se tornou rotina
Estar a um metro das vizinhas.

Há fila para a farmácia,
Fila pró supermercado;
E nem é precisa audácia
Para se andar mascarado.

Nas traseiras do meu prédio
Uma jovem namorada
Tenta combater o tédio
Com uma videochamada.

A uns metros de distância
Parte um atleta em corrida;
Para manter a elegância
Há que fazer pela vida.

De resto, com a emergência,
Ficam as ruas desertas.
Podemos conferir a ausência
Pelas janelas abertas.

Está tudo em teletrabalho,
A olhar p’ró monitor.
Mas não encontro o atalho
Para vos falar de amor.

Dar beijos é só por escrito,
Que o vírus mata a valer.
E está tudo tão aflito
Que nem apetece ler.

Ai Lisboa, que saudade
Da tua irrequietude.
Mesmo que, em boa verdade,
Mais importante é a saúde.

Que tudo passe ligeiro,
E não afecte o meu ninho.
Da Praça do Areeiro
Envio um tele-beijinho!

4.

Os negros números:

Itália

13.155 mortes

Espanha

9.053 mortes

França

4.032 mortes

Estados Unidos

3.603 mortes

Depois de terem sido apresentadas projeções que apontam para um cenário de 200 mil mortos nos Estados Unidos, Deborah Birx, a responsável por coordenar a resposta da Casa Branca ao surto de Covid-19, diz que esse é o número num quadro "quase perfeito". No pior dos cenários, a projeção do número de mortos dispara para dois milhões.
No passado domingo, o conselheiro de saúde da Casa Branca, Anthony Fauci, fez uma previsão na CNN de que mais de 100 mil americanos podiam morrer da doença Covid-19. As piores previsões de Fauci apontam para 200 mil mortes.

China

3.603 mortes

Irão

3.036 mortes

Grã-Bretanha

2.352 mortes

Holanda

1.173 mortes

Portugal

187 mortes

No Mundo

45.497 mortes

5.

Em cada segundo do novo dia, olhamos a sombra, o silêncio da escuridão, a possibilidade de o Corvid-19 nos entrar por uma nesga da porta que temos cerrada a sete chaves.

É impossível pensarmos em algo diverso desta terrível realidade diária.

O medo que nos enlaça, pensarmos o que seremos muito em breve.

Revoltados teremos que ficar quando topamos a UEFA preocupada com o facto de as diversas federações europeias , com caracter de urgência, terem de indicar os clubes que irão disputar as taças que o organismo do pontapé bola, organiza e que lhe enchem os cofres de euros.

Ninguém os pode exterminar? 

sábado, 21 de março de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

A MINHA AMIGA RÁDIO

Agora que a bola voltou a rolar, a sério, nos relvados do Reino, lembro os meus tempos dos relatos de futebol na rádio. Escrevi rádio mas gosto mais de dizer telefonia.

Quando o futebol era jogado apenas nas tardes de domingo, Inverno às três da tarde, Verão às quatro da tarde.

No restaurante que a Aida teve em Almoçageme, não descansámos enquanto não pusemos, na parte da tasca, um velho rádio, que só dava onda média e ondas curtas. E nem sempre!

Assim como uma velha crónica do brasileiro Maurício Neves:

«No princípio era o verbo. O Flamengo era pouco mais do que o burburinho do rádio, composto pelo alvoroço dos locutores e pelo chiado das ondas médias, que meu pai tentava reduzir girando o botão maior, o da sintonia. Pacientemente. Às vezes mexia na antena, mudava o aparelho de lugar alguns milímetros, com o cuidado tenso de quem desarma uma bomba. De repente a voz de bluesman de Jorge Curi enchia a sala: “Anooooteeem... Teeeeempo e placaaaarr no maaiooorrrr do muuuundoooo...” Eu sabia poucas coisas. Mas sabia que maior do mundo era como Jorge Curi chamava o Maracanã, e sabia que logo ele estaria gritando um gol de Zico. Aliás, Zico não. Um gol de Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai seguia olhando o rádio, onde estava escrito Philco acima da tela metálica e furadinha. O som enchia a sala de heróis que circulavam ao redor de nós. Uma sucessão de espectros rubro-negros: Zico tocava a Adílio, que driblava um e abria para Júlio César, o entortador, que entortava um, dois, três, e a bola voltava para Zico que então virava Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai sorria olhando para o rádio: o Flamengo saía dali.»

Os relatos do futebol pela rádio.

As perfeitas tardes de domingo de um tempo perdido para sempre, vozes que ainda ouço apesar de já não andarem por aqui.

As tardes de domingo, os jogos a começarem todos à mesma hora, os relatos na Emissora Nacional, as marchas do John Philip de Sousa, enquanto se aguardava a ligação ao estádio, o Artur Agostinho, o Amadeu José de Freitas, o Nuno Brás e era apenas o relato de um jogo, mais tarde passaram a dois: «atenção Nuno, jogada perigosa».

João César Monteiro, em As Recordações da Casa Amarela, deitado na cama do quarto alugado, ouvindo, num rádio de pilhas, o relato da Emissora Nacional. A voz do locutor, de repente, grita: «golo do Benfica», o João César ergue-se, de braços no ar a vitoriar o golo.

Manuel Alegre, no seu livro Alma, recorda essas tardes de relatos de futebol nas tardes de domingo, a voz de Alfredo Quádrios Raposo que eu já não apanhei:

…os jogos de domingo e os relatos de Alfredo Quádrios Raposo, o melhor locutor desportivo de todos os tempos. Nesse tempo não havia transmissões directas e ao fim das tardes de domingo ainda não se sabiam os resultados. Era preciso esperar pelo resumo da primeira parte e o relato da segunda, que eu ouvia no RCA, em companhia dos meus amigos que não tinham rádio. Ouvíamos então a voz inconfundível de Alfredo Quádrios Raposo anunciar os golos do Peyroteu, os tentos do Julinho, as grandes jogadas do Vasques e do Travassos, os cortes de cabeça de Feliciano, os dribles de Mariano Amaro, a recepção de bola com o peito de Francisco Ferreira, capitão do Benfica. E as defesa do Azevedo, do Capela, do Martins, do Barrigana, as intercepções do Guilhar, os remates fulminantes de Araújo. Ou os nomes raros dos jogadores do Sul, como o Abraão e o Grazina, do Olhanense, o Patalino e o Massano, do Elvas. Eram momentos inesquecíveis, sobretudo quando havia jogos entre os grandes. A minha irmã por vezes ia espreitar por detrás do aparelho e nenhum de nós compreendia muito bem como era possível o jogo estar a decorrer nas Salésias, em Alvalade, no Campo Grande ou na Constituição e nós em Alma a ouvir o relato como se estivéssemos a ver. Seguíamos as palavras, as entoações de voz, as mudanças de ritmo, as pausas. E víamos. Era uma forma de ficção, quase sempre mais verdadeira do que a realidade. Nunca ninguém relatou como Alfredo Quádrios Raposo. Ele era a nossa ligação à capital, ao Estádio, ao jogo. Durante muito tempo ele foi a nossa festa, todos os domingos, ao fim da tarde.
Os jogadores viviam na nossa imaginação como figuras de lenda. Conhecíamo-los apenas das fotografias dos jornais, da revista Stadium e dos cromos que comprávamos embrulhados em rebuçados para depois colarmos numa caderneta. Mas era na voz de Alfredo Quádrios Raposo que verdadeiramente víamos os jogadores. Entravam em nossa casa, todos os domingos, ao fim da tarde. Vinham na voz daquele locutor de quem nunca vi o rosto nem faço a mínima ideia de como era, se alto ou baixo, se magro, se gordo, se velho, se novo. Era uma voz, um brado na tarde triste, um drible, um centro cruzado, um remate de cabeça, uma defesa para canto, uma recarga, um golo. Primeiro no RCA, depois no Telefunken trazido da Alemanha por Tiago de Faria, meu tio, que o deu a meu pai, juntamente com uma espingarda, a troco de uma edição rara, senão mesmo a primeira, da Arte de Bem Cavalgar a toda a Sela, de D. Duarte.
Também esses velhos aparelhos, quando aqueciam, tinham um cheiro. Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar, com Feliciano à ilharga, mais um golo do Sporting contra o Belenenses, no Estádio das Salésias.

Texto publicado em 13 de Agosto de 2017

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

QUOTIDIANOS


Os críticos da nossa imprensa, sejam de cinema, de livros, são um desastre.

Então desde que inventaram aquela parvoeira das estrelas… estamos conversados…

Os três críticos de cinema do jornal Público entenderam que o filme 1917 de Sam Mendes não merece ser visto.

Dois dizem que é medíocre, o outro que é razoável.

O filme poderá não ser excepcional, mas não é medíocre.

Sou do tempo em que apanhei bons críticos, tanto de cinema como de livros. Fizeram escola no Diário de Lisboa.

Neste Cais, por Agosto de 2015, falei de João César Monteiro crítico de cinema.

Nesse texto pode ler-se uma frase do João:

«Os críticos não percebem os filmes que vão ver.»

Outra de Lilian Hellman:

«Pior que um mau crítico, só um crítico que julga sê-lo.»

domingo, 2 de fevereiro de 2020

VAI E VEM


Se ainda andasse por cá, o João César Monteiro fazia hoje 81 anos.
Ontem, a Câmara Municipal da Figueira da Foz em lugar de lhe dar um nome de rua decidiu dar o seu nome a um auditório do Centro de Artes e Espectáculos, o que me parece mais ajustado.
Ajustado nos parece também recordar a Certidão de Nascimento que o João escreveu e que foi publicada no semanário & etc. nº 4 de 28 de Fevereiro de 1973.
Já agora se dirá que amanhã passam 17 anos sobre o dia em que o João, de cigarro na beiça, sem dever nada a ninguém, partiu sabe-se lá para onde.

«Tive infância caprichosa e bem nutrida, no seio de uma família fortemente dominada pelo espirito, chamemos-lhe assim, da 1 ª República. Escusado será dizer que abundavam os dichotes anti-clericais, muito embora o meu pai desejasse que eu viesse a seguir a carreira eclesiástica. Em suma: não se percebia nada. Pelo menos à primeira vista.
Por volta dos 16 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

Tendo finalmente conseguido dissipar toda a fortuna na satisfação de brutais apetites, o meu garboso pai veio a falecer vitimado por cruel ataque cardíaco, deixando-me, perplexo e sem um chavo, a coçar a cabeça. Era chegada a hora de dar o corpinho ao manifesto, como a maior parte das pessoas. Filho que era de meu pai, atravessei senhorialmente muitos e variados empregos, mas em breve me apercebi que já não podia olhar o mundo da mesma maneira. Fui até Paris para ensaiar até onde me era possível ir. Não me era possível ir muito longe. Meses depois, «ayant connu pas mal de choses», era repatriado.

Em 1960, encontrei o Sr. Seixas Santos que teve a bondade de me ensinar um pouco do muito que sabe de cinema. O Sr. Vasconcelos andava ao mesmo e parecia fazer progressos que, infelizmente (para ele), o futuro ainda não comprovou. 
No ano seguinte, trabalhei como assistente de realização do Sr. Perdigão Queiroga e admito que poderia ter aprendido mais qualquercoisinha se não tivesse sido tão presunçoso.

Em 1963, na injusta qualidade de bolseiro da Fundação Calouste Gu1benkian, parti para Londres e fim de frequentar a London School of Film Technique. Suponho que nunca por aquela escola passou aluno tão mau, mas nesse passo não tive grandes culpas no cartório: é que de facto os ingleses não nasceram para o cinema. Aliás, ainda não percebi muito bem para que é que os ingleses nasceram. Deve com certeza ser pela mesma razão que nasceram os percevejos, as baratas e o pão integral, vulgo pão que o diabo amassou. A estadia em Londres, essa foi extremamente divertida, sobretudo no salutar plano das doces amizades; contudo, no regresso à Pátria, o meu pavoroso aproveitamento escolar foi muito sentido, como vergonhosa acção, por provincianas carpideiras a quem nunca passará pelas cabeças, tão chorosas dos mal gastos dinheirinhos da Gulbenkian, que a estupidez e a incompetência assentam arraiais em qualquer parte do mundo, inclusive no coração de Londres, sob o pomposo nome de London School of Film Technique.

 Em 1965, conheci o Paulo Rocha e os seus «Verdes Anos», o Fernando Lopes e o seu «Belarmino». Tomei-me de amizade pelo Fernando e de amores pelo filme do senhor Rocha, cujos hábitos de anacoreta o tornavam pouco acessível.

 Nesse mesmo ano, tentei pôr de pé um projecto de filme em 16 m/m, intitulado «Quem espera por sapatos de defunto morre descalços». Dois dias de filmagens e rabinho entre as pernas. Falta de xis. Esse ano negro não findaria, no entanto, sem que deixasse a meio o primeiro filme publicitário que me enfiaram nas unhas: de como, graças ao Não-sei-quê, fazer desaparecer em três penadas o mau cheiro do sovaco, e me internassem num hospício para acalmar as febres.

De novo na vida civil, os meus excessos ultra-românticos, temperados pela mais nobre profundidade sentimental, tiveram enfim (ai filhas de Sidon) a justa consagração, o que não me livrou de amouchar durante um ano, como escriba de Filmes Castello Lopes, Lda.

Em 1968, após um reconfortante período em que descobri que mães há muitas e pai só um, o celeste, dei mostras de, para além do instinto de conservação, possuir muitos outros bons instintos e fui finalmente recomendado ao produtor Ricardo Malheiro. Foi, pois, na mais desregrada euforia que fiz o filmezinho sobre Dona Sophia. Pouco tempo volvido (ó desgraça!), o Malheiro ia à falência ou, o que vinha a dar ao mesmo, a falência ia ao Malheiro. Sem grande proveito, tentei ainda a publicidade. Desesperadamente. Três ou quatro filmes, uma viagem, hélas! à Guiné, e disse.

No ano seguinte, estimulado por algumas boas vontades (saudades), resolvi repegar no projecto «Quem espera por sapatos de defunto morre descalço», cujas filmagens se arrastaram ao longo de dois anos. Numa altura em que eu já deitava o filme pelos olhos, a Fundação Gu1benkian concedeu-me (obrigadinho) um subsidio de $$$$$$$$$$$$$$$$... 180 contos, divididos em 3 prestações. Aqui, tive a tentação de dar uma volta. Pedi ao Vasconcelos para filmar dois planos que faltavam ainda ao filme, e fui. Itália e a inevitável Paris. Esgotada a finança, voltei para acabar o filme, receber a última prestação e partir outra vez, ora de comboio, ora à boleia, consoante a inspiração: Barcelona, Marselha, Florença, Milão, Como, Cernobbio, Paris.

Entretanto, o filme começou por ser relativamente mal recebido junto do Mecenas (quereriam ópera por 180 contos?), continuou, pateado num festival no Sul de Espanha e foi friamente acolhido pelos críticos presentes em Nice, aquando da chamada Semaine du Jeune Cinéma Portugais. Foi pena, porque me teria dado jeito, sobretudo no que toca à fruição de algumas benesses locais, mas já que não pôde ser, paciência! Tirando isso, aproveitei a estadia niceoise para comprar um lindo fato de banho de duas peças com a nota de 100 francos que o João Bénard me emprestou e ameacei partir uma garrafa de tinto na cabeça do Cunha Teles que, impensadamente, me chamou oportunista. Não sou uma natureza agressiva, antes pelo contrário, mas ser insultado por um manhoso negociante é coisa que me põe fora de mim. Detesto a promiscuidade e ensinaram-me a guardar escrupulosamente as distâncias. Por uma única e bem simples exigência: a de manter intacta e intocada e minha pessoa, para além da consciência de todos os meus erros e imperfeições. Levo, as mais das vezes, esta fantochada com o riso no costado, mas não é por acaso que, cada vez mais, me dou com menos pessoas.

Arrumados definitivamente os «Sapatos» iniciei, no Verão passado, «A Sagrada Família», que espero terminar por um destes dias. Presumo que não lhe estará reservada melhor sorte que a do filme anterior, mas devo confessar que a considero uma experiência relativamente importante, se não, e com certeza que não, no plano global de um cinema português, pelo menos, no plano particular do meu próprio cinema e na exacta medida em que, por um lado, discute e corrige dialècticamente o filme anterior e, por outro, prepara já o filme seguinte.
O filme seguinte chama-se «A Tempestade», baseia-se no poema dramático de Shakespeare e na ópera de Purcell e será perpetrado numa Arrábida pintada a Robbialac se, como se espera, a edilidade local não levantar intransponíveis obstáculos. Quanto mais não seja, há que atender aos relevantes serviços que a prestimosa tinta, que é só a que mais pinta e que mais dura, tem prestado ao colorido da Nação.

Que pensar de tudo isto? Em primeiro lugar, que a vida está má para os pobres. Depois que, nisto ou naquilo, vivemos todos muito ocupados, inclusive na falta de ocupação. Por último, que enquanto, pela parte que me toca, passo o tempo, como agora e aqui, a acariciar o meu dilatado egozinho e a fornecer de mim imagens razoavelmente aliciantes, como estas, existem pessoas bem mais obscuras que, discreta e devotadamente se vão ocupando de mim e do meu glorioso destino o que, aliás, não é novo. Parece que tem sido uma constante da História.

Assim sendo, resta-me reconhecer a solidão moral de uma prática cinematográfica cavada na dupla recusa de ser uma espécie de carro de aluguer da classe mais favorecida e, o que é mais grave, de trocar essa profunda exigência por toda e qualquer forma de demagogia neo-fadista que transporte e venda a miserável ilusão de servir outra coisa.

sábado, 15 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Ó menina, vem no Marx. Não há omeletes sem ovos. Aumenta os salários que os resultados aparecem.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

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O José Fonseca e Costa, na Biografia Literária do Alexandre O’ Neill, escrita por Maria Antónia Oliveira, revelava que o poeta comia em tascas e bebia em tabernas, e uma das tascas era a Estrela da Sé que é cenário das Recordações da Casa Amarela.

João César assinala que a cena 06 de Recordações da Casa Amarela se passa, de dia, no restaurante Estrela da Sé.

Quando vi o filme, fiquei com a ideia que a cena interior se passa no restaurante Faz Frio ao Príncipe Real.

Mantenho a dúvida.

Eduardo Guerra Carneiro pensou o mesmo, mas engana-se quando diz que Duarte Almeida, nome que João Bénard da Costa utilizava enquanto actor, come um frango assado em vez da garoupa com todos.

É este o pedaço do texto do Eduardo que vem em Outras Fitas:

«… nesse inesquecível Recordações da casa Amarela, do João César Monteiro, atacando um frango assado, de forma erótica, num reservado do Restaurante Faz Frio.

A Estrela da Sé fica no nº 4 do Largo de Santo António e abriu portas no distante ano de 1814.

Hoje faz parte das Lojas Com História, seja lá o que isso for.


Ao longo dos últimos tempos, tem conhecido várias facetas, acompanhando o surto turístico que tem vindo a invadir e a descaracterizar Lisboa.

Perdeu aquele jeito de tasco da antiga Lisboa, com comida a saber mesmo a comida e fica-se agora com os tiques e sinais da Lisboa turística.

Estas fotografias não são recentes, mas já são de tempos nova vaga.

O meu pai tinha uma certa ternura por esta casa.

Como nasceu na Rua da Padaria, que fica um pouco abaixo da Estrela da Sé, conhecia-a de longa data.

Fomos lá uma vez jantar, mas nunca mais repetimos o cenário.

Foi um jantar para o cinzento, amargas recordações da infância do meu pai que, mesmo fazendo todos os esforços, não deixaram de vir à baila e acabaram  por ensombrar o repasto e a conversa.

O meu pai comeu pescadinhas de rabo na boca com arroz de grelos e eu fiquei-me por umas iscas à portuguesa.

Nem a comida, nem as duas garrafas de Periquita, fizeram esquecer o que para trás ficou na infância do meu pai.

José Cardoso Pires, na Balada da Praia dos Cães tem esta passagem:

«Seriam umas onze da noite, onze cucos disparados um a um por cima dos telhados da Sé, quando Elias se sentou à mesa da sala do lagarto com vista para o Tejo.
Antes disso porém comeu o seu besugo grelhado na sala luarenta do Estrela do Limoeiro com vista para o balcão e porta da calçada. A essa hora de desiludidos, Elias só teve por companhia duas velhas de guardanapo à coleira, que batiam castanholas com as dentaduras à mesa do canto, e três canários de gaiola suspensos no tecto de tabuinhas. Ao alto do aparador havia o cartaz do galo de Barcelos a anunciar Portugal.»

Quando li o livro, fiquei com a ideia que Cardoso Pires remetia para a Estrela da Sé. 

Andei às voltas para localizar a Estrela do Limoeiro, perguntas várias a conhecedores da zona, mas nada consegui apurar.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O meu primeiro contacto com João César Monteiro remete-me para a década de 70, quando começou a fazer crítica de cinema para o Diário de Lisboa, tendo como companheiros o Eduardo Prado Coelho, o Lauro António e o Vitor Silva Tavares.


«Eu sempre disse por exemplo que o cinema sou eu. E isto é uma afirmação que não tem nada de monárquico ou de centrista. Tudo o que eu faço é singular, insubstituível.»

E ainda:

«Eu sou um realizador que não sabe efectivamente, «a ponta de um corno». Sei que isto é horrível, mas é assim. Devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»

Fiquei com um gosto assolapado pelo João.

Mais ainda quando colaborou na folha cultural q. b. &.etc. principalmente, quando lá  escarrapachou A Minha Certidão:

Por volta dos 15 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do Dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade, e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

Eu e o meu pai, volta e meia, íamos para a petisqueira e para a conversa e depois havia «piolho»

Tudo corria melhor, a cereja no topo do bolo, quando calhava um filme do João César Monteiro.

Infelizmente só vimos quatro filmes, a sua morte em 1990, roubou-me esse insubstituível prazer.

Para além do génio, para além da arte, para além de tudo, os filmes do João César Monteiro davam-nos um imenso gozo.

Foram estes os filmes:

Silvestre no Cine-Bloco
À Flor do Mar no Ávila
Recordações da Casa Amarela no Fórum Picoas e éramos os únicos espectadores.

João César:

«A mim interessa-me fazer filmes para todos os públicos. Noventa por cento da população do país não é um espectador de cinema e provavelmente será esse o público mais inocente e disponível, porque menos condicionado por certos códigos imperialistas. É um dever cívico fazer cinema para essa gente, embora sem grandes esperanças de que a curto prazo possam ser espectadores de cinema.»

Vitor Silva Tavares:

«Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.»


Pego no guião de Recordações da Casa Amarela, publicado no 2º volume da Obra Escrita de João César Monteiro e entretenho-me a copiar a Cena 06 do filme.

João César escreve que a cena 06 de Recordações da Casa Amarela se passa, de dia, no restaurante Estrela da Sé.


«Ferdinando sentado à mesa, serve-se de uma cabeça de garoupa com todos. Olha para fora de campo e diz:

Ferdinando: Caríssimo João de Deus: isso é reumático ou venéreo?

João de Deus entra em campo, com o sobretudo vestido, aperta a mão a Ferdinando, enquanto sussurra, debruçado sobre Ferdinando:

João de Deus: É coisa que me apareceu nas virilhas.

João de Deus senta-se em frente de Ferdinando.

Ferdinando (a rir): Nas brilhas, como se diz no Porto. Manda vir qualquer coisa que se trinque.

João de Deus: Não me apetece, Ferdinando. Tenho a boca a arder e custa-me mastigar.

Ferdinando: Estamos todos podres, é o que isso quer dizer. E a tua mãe?

Enquanto Ferdinando se vai  batendo com a cabeça de garoupa, João de Deus puxa de um cigarro, acende-o e, com o cotovelo apoiado no tampo da mesa, encosta a cabeça ao punho fechado.

João de Deus: Lá anda.

Ferdinando: Madre de Deus só há uma. Nunca o esqueças, meu filho.

João de Deus: Não consegui foi escrever nada. Sou amigo do tipo. Pelo menos, fui amigo da mulher e custa-me um bocado. Conheço-os há uma data de anos, ainda do tempo da outra senhora.

A câmara desloca-se ligeiramente para a esquerda, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que suspende o garfo, junto à boca.

Ferdinando: Estás a perder qualidades, Se me é permitido um reparo – não leves a mal - , por vezes consegues ser contundente, mas nunca fulminante. Andas às voltas, não vais direito ao assunto. Bebe nos clássicos, meu filho. Fulmina. Recordas-te da polémica de Camilo com Mesquita Fialho?

A câmara desloca-se ligeiramente para a direita, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que muito devastou a pratada e emborca um copo de branco.

João de Deus: O problema é que este não se chama Filho.

Ferdinando pousa o copo na mesa e diz com toda a gravidade que se impõe:

Ferdinando: Mas também deputa… filho.

João de Deus: Estou farto de escrever imundícies.

Ferdinando está boquiaberto.

Ferdinando: Mas tu nunca arriscaste a ponta de um corno, nem sequer o nome.
As chatices com a «judite», os processos em tribunal, as pesadas indemnizações, tudo te tem sido poupado. Nunca me vi confrontado com um caso de tamanha ingratidão: metes-me nojo.

O criado entra pela esquerda e levanta o prato de Ferdinando.

Ferdinando: Só café e uma bagaceira fresquinha. Da casa.

O criado sai por onde entrara. Percebe-se que Ferdinando acende uma cigarrilha. O criado entre em campo com o café e o bagaço, pousa-os na mesa e volta a sair.

Ferdinando: Vá-me tirando a continha, la dolorosa.»

Uma cena maravilhosa.

Por alturas da exibição do Silvestre em Lisboa, Mário Castrim abria, no Diário de Lisboa uma sua crítica de televisão, dizendo que tinha ido ver o filme pela segunda vez como quem se vai purificar nas águas do Jordão.

Sobre Silvestre, o João César disse que era um filme para as pessoas que ainda conseguem sentir-se crianças.

Agarrando na frase, José Saramago escreveu que «é um filme que não infantiliza os adultos que nós somos, mas adultiza as crianças que continuamos a ser.»

Fernando Lopes:

«Ao César perdoa-se tudo porque ele tem um talento que se ri de si próprio. Em suma. É um grande demente que faz coisas muito belas.»

Ainda o João:

«Ninguém morre por não fazer filmes e se morrer é idiota. Não avle a pena. Morre-se, sim, por fazer filmes, por na idade em que se fazem as opções mais importantes (que não são necessariamente as mais graves) se ter optado pelo ofício de cineasta, Agora estou sozinho diante das estrelas.»

Tenho saudades do João César Monteiro, do meu pai.

A falta que me fazem!