Ó menina, vem no Marx. Não há omeletes sem ovos.
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sábado, 15 de junho de 2019
segunda-feira, 15 de abril de 2019
RELACIONADOS
O José Fonseca e
Costa, na Biografia Literária do Alexandre
O’ Neill, escrita por Maria Antónia Oliveira, revelava que o poeta comia em
tascas e bebia em tabernas, e uma das tascas era a Estrela da Sé que é cenário
das Recordações da Casa Amarela.
João César
assinala que a cena 06 de Recordações da Casa Amarela se passa, de dia,
no restaurante Estrela da Sé.
Quando vi o
filme, fiquei com a ideia que a cena interior se passa no restaurante Faz
Frio ao Príncipe Real.
Mantenho a
dúvida.
Eduardo Guerra
Carneiro pensou o mesmo, mas engana-se quando diz que Duarte Almeida, nome que
João Bénard da Costa utilizava enquanto actor, come um frango assado em vez da garoupa
com todos.
É este o pedaço
do texto do Eduardo que vem em Outras Fitas:
«… nesse inesquecível Recordações da casa Amarela, do
João César Monteiro, atacando um frango assado, de forma erótica, num reservado
do Restaurante Faz Frio.
A Estrela da Sé fica
no nº 4 do Largo de Santo António e abriu portas no distante ano de 1814.
Hoje faz parte das
Lojas Com História, seja lá o que isso for.
Ao longo dos últimos
tempos, tem conhecido várias facetas, acompanhando o surto turístico que tem
vindo a invadir e a descaracterizar Lisboa.
Perdeu aquele jeito de tasco da antiga Lisboa, com comida a saber mesmo a comida e fica-se agora com os tiques e sinais da Lisboa turística.
Estas fotografias não
são recentes, mas já são de tempos nova vaga.
O meu pai tinha uma
certa ternura por esta casa.
Como nasceu na Rua da
Padaria, que fica um pouco abaixo da Estrela da Sé, conhecia-a de longa data.
Fomos lá uma vez
jantar, mas nunca mais repetimos o cenário.
Foi um jantar para o
cinzento, amargas recordações da infância do meu pai que, mesmo fazendo todos
os esforços, não deixaram de vir à baila e acabaram por ensombrar o repasto e a conversa.
O meu pai comeu pescadinhas de rabo na boca com arroz de grelos e eu fiquei-me por umas iscas à portuguesa.
Nem a comida, nem as duas garrafas de Periquita, fizeram esquecer o que para trás ficou na infância do meu pai.
José Cardoso Pires,
na Balada da Praia dos Cães tem esta passagem:
«Seriam umas onze da noite, onze cucos disparados um a um por cima dos
telhados da Sé, quando Elias se sentou à mesa da sala do lagarto com vista para
o Tejo.
Antes disso porém comeu o seu besugo grelhado na sala luarenta do
Estrela do Limoeiro com vista para o balcão e porta da calçada. A essa hora de
desiludidos, Elias só teve por companhia duas velhas de guardanapo à coleira,
que batiam castanholas com as dentaduras à mesa do canto, e três canários de
gaiola suspensos no tecto de tabuinhas. Ao alto do aparador havia o cartaz do
galo de Barcelos a anunciar Portugal.»
Quando li o livro,
fiquei com a ideia que Cardoso Pires remetia para a Estrela da Sé.
Andei às voltas para localizar a Estrela do Limoeiro, perguntas várias a conhecedores da zona, mas nada consegui apurar.
Andei às voltas para localizar a Estrela do Limoeiro, perguntas várias a conhecedores da zona, mas nada consegui apurar.
O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?
O meu primeiro
contacto com João César Monteiro remete-me para a década de 70, quando começou
a fazer crítica de cinema para o Diário de Lisboa, tendo como companheiros o Eduardo Prado Coelho, o Lauro António e o Vitor Silva Tavares.
«Eu sempre disse por exemplo que o cinema sou eu. E
isto é uma afirmação que não tem nada de monárquico ou de centrista. Tudo o que
eu faço é singular, insubstituível.»
E ainda:
«Eu sou um realizador que não sabe efectivamente, «a
ponta de um corno». Sei que isto é horrível, mas é assim. Devo dizer que foi
com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»
Fiquei com um
gosto assolapado pelo João.
Mais ainda
quando colaborou na folha cultural q. b. &.etc. principalmente,
quando lá escarrapachou A Minha Certidão:
Por volta dos 15 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do Dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade, e nunca mais fui visto na companhia de políticos.
Eu e o meu pai,
volta e meia, íamos para a petisqueira e para a conversa e depois havia
«piolho»
Tudo corria
melhor, a cereja no topo do bolo, quando calhava um filme do João César
Monteiro.
Infelizmente só
vimos quatro filmes, a sua morte em 1990, roubou-me esse insubstituível prazer.
Para além do
génio, para além da arte, para além de tudo, os filmes do João César Monteiro
davam-nos um imenso gozo.
Foram estes os
filmes:
Veredas
no Quarteto, é neste filme que o meu pai, que já andava com ela fisgada, se rendeu à 7ª sinfonia de Bruckner.
Silvestre no
Cine-Bloco
À Flor do Mar no Ávila
Recordações da Casa Amarela no Fórum Picoas e éramos os únicos espectadores.
João César:
«A mim interessa-me fazer filmes para todos os públicos.
Noventa por cento da população do país não é um espectador de cinema e
provavelmente será esse o público mais inocente e disponível, porque menos
condicionado por certos códigos imperialistas. É um dever cívico fazer cinema
para essa gente, embora sem grandes esperanças de que a curto prazo possam ser
espectadores de cinema.»
Vitor Silva
Tavares:
«Melhor do que ele, ninguém escreve em português de -
e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de
lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa
ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais,
de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e
música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam,
libertinagens, profanações.»
Pego no guião de
Recordações da Casa Amarela, publicado no 2º volume da Obra Escrita de
João César Monteiro e entretenho-me a copiar a Cena 06 do filme.
João César
escreve que a cena 06 de Recordações da Casa Amarela se passa, de dia,
no restaurante Estrela da Sé.
«Ferdinando
sentado à mesa, serve-se de uma cabeça de garoupa com todos. Olha para fora de
campo e diz:
Ferdinando: Caríssimo
João de Deus: isso é reumático ou venéreo?
João de Deus
entra em campo, com o sobretudo vestido, aperta a mão a Ferdinando, enquanto
sussurra, debruçado sobre Ferdinando:
João de Deus: É
coisa que me apareceu nas virilhas.
João de Deus
senta-se em frente de Ferdinando.
Ferdinando (a
rir): Nas brilhas, como se diz no Porto. Manda vir qualquer coisa que se
trinque.
João de Deus: Não
me apetece, Ferdinando. Tenho a boca a arder e custa-me mastigar.
Ferdinando: Estamos
todos podres, é o que isso quer dizer. E a tua mãe?
Enquanto
Ferdinando se vai batendo com a cabeça
de garoupa, João de Deus puxa de um cigarro, acende-o e, com o cotovelo apoiado
no tampo da mesa, encosta a cabeça ao punho fechado.
João de Deus: Lá
anda.
Ferdinando: Madre
de Deus só há uma. Nunca o esqueças, meu filho.
João de Deus: Não
consegui foi escrever nada. Sou amigo do tipo. Pelo menos, fui amigo da mulher
e custa-me um bocado. Conheço-os há uma data de anos, ainda do tempo da outra
senhora.
A câmara
desloca-se ligeiramente para a esquerda, em travelling lateral, e descobre
Ferdinando, que suspende o garfo, junto à boca.
Ferdinando: Estás
a perder qualidades, Se me é permitido um reparo – não leves a mal - , por
vezes consegues ser contundente, mas nunca fulminante. Andas às voltas, não
vais direito ao assunto. Bebe nos clássicos, meu filho. Fulmina. Recordas-te da
polémica de Camilo com Mesquita Fialho?
A câmara
desloca-se ligeiramente para a direita, em travelling lateral, e descobre
Ferdinando, que muito devastou a pratada e emborca um copo de branco.
João de Deus: O
problema é que este não se chama Filho.
Ferdinando pousa
o copo na mesa e diz com toda a gravidade que se impõe:
Ferdinando: Mas
também deputa… filho.
João de Deus: Estou
farto de escrever imundícies.
Ferdinando está
boquiaberto.
Ferdinando: Mas
tu nunca arriscaste a ponta de um corno, nem sequer o nome.
As chatices com a «judite», os processos em tribunal,
as pesadas indemnizações, tudo te tem sido poupado. Nunca me vi confrontado com
um caso de tamanha ingratidão: metes-me nojo.
O criado entra
pela esquerda e levanta o prato de Ferdinando.
Ferdinando: Só
café e uma bagaceira fresquinha. Da casa.
O criado sai por
onde entrara. Percebe-se que Ferdinando acende uma cigarrilha. O criado entre
em campo com o café e o bagaço, pousa-os na mesa e volta a sair.
Ferdinando: Vá-me
tirando a continha, la dolorosa.»
Uma cena
maravilhosa.
Por alturas da
exibição do Silvestre em Lisboa, Mário Castrim abria, no Diário de
Lisboa uma sua crítica de televisão, dizendo que tinha ido ver o filme pela
segunda vez como quem se vai purificar nas águas do Jordão.
Sobre Silvestre,
o João César disse que era um filme para as pessoas que ainda conseguem
sentir-se crianças.
Agarrando na
frase, José Saramago escreveu que «é um filme que não infantiliza os adultos
que nós somos, mas adultiza as crianças que continuamos a ser.»
Fernando Lopes:
«Ao César perdoa-se tudo porque ele tem um talento que
se ri de si próprio. Em suma. É um grande demente que faz coisas muito belas.»
Ainda o João:
«Ninguém morre por não fazer filmes e se morrer é
idiota. Não avle a pena. Morre-se, sim, por fazer filmes, por na idade em que
se fazem as opções mais importantes (que não são necessariamente as mais
graves) se ter optado pelo ofício de cineasta, Agora estou sozinho diante das
estrelas.»
Tenho saudades
do João César Monteiro, do meu pai.
A falta que me
fazem!
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?
Em 1969, João César Monteiro
realizou um documentário sobre Sophia de Mello Breyner Andresen.
Numa entrevista ao Tempo e o Modo, Março/Abril de 1969, e
incluída em Os Que Vão Morrer Saúdam-te,
perguntaram-lhe como tinha nascido a ideia, e respondeu do modo de que muito
gostava:
«Sempre que chega o Verão começo a ficar aterrorizado
com a perspectiva de ter que o passar em Lisboa. O Agosto em Lisboa é terrível.
Andam-se léguas e léguas para se descobrir um tipo amigo. Está tudo nas praias
com as mulheres e os meninos. Pode-se procurar a sombra de uma árvore, mas a
páginas tantas começa-se a dar conta de quão confrangedora é essa aliança.
A única solução é escrever. Cartas sobre tudo: a pedir
emprego, a insultar credores, cartas imbecis em que se fica à mercê da menina K
que, por seu turno, passa bem muito obrigado».
E mais adiantou:
«No que ao meu filme diz
respeito, suponho que, antes de mais, ele é a prova, para quem a quiser
entender, que a poesia não é filmável e não adianta persegui-la. O que é
filmável é sempre outra coisa que pode ou não ter uma qualidade poética. O meu
filme é a constatação dessa impossibilidade, e essa intransigente vergonha
torna-o, segundo creio, poético, malgré lui. Creio também, e acho espantoso que
a crítica não tenha dado por isso (o que, aliás, só reforça uma impressão velha
sobre a infinita ignorância da dita), que muito mais do que um filme sobre a
Sophia que, para mim, só de um modo aleatório é parte dele, o meu filme é um
filme sobre o cinema nele.»
Não deixando de referir:
«Gosto bastante da poesia da Sophia, gostei de participar na pequena
aventura que foi filmá-la, mas o Camilo seria um filme muito mais pessoal por
pessoal empenho nele.»
O entrevistador ainda
perguntou se o filme não poderia constituir uma mudança na vida do
documentarismo português.
Ao que o João
respondeu:
«Não faço ideia. Acabei o filme em Dezembro e de então para cá tenho
feito publicidade e comprado camisolas de gola alta. Não se muda nada a comprar
camisolas de gola alta. Nem sequer o carácter.»
Comprar camisolas de
gola alta…
Ricardo Malheiro,
produtor do documentário sobre Sophia, disse ao João:
«Porra! Você parece mais um mendigo que um realizador!»
Seixas Santos falara
a João César Monteiro numa ideia de Ricardo Malheiro produzir uma série de
curtas-metragens sobre personalidades de relevo no panorama cultural português.
Era uma oportunidade mas João César não acreditava que alguém estivesse
disposto a apostar na sua criatura.
«Todavia, o Seixas e, depois, o António-Pedro convenceram o Malheiro
que eu era genial, apesar de não arriscarem meio tostão em mim.»
quinta-feira, 3 de maio de 2018
OS CLÁSSICOS DO MEU PAI
Para beber uma
garrafinha de tinto, a acompanhar um petisco, qualquer motivo servia.
Mas o mais feliz
de todos era irmos ver um filme do João César Monteiro: juntar o gosto
petisqueiro à genialidade do João era o suprassumo do quotidiano, dizia o meu
pai.
É durante a
exibição de Veredas que o meu pai agarra com todos os sentidos a 7ªSinfonia de Anton Brucker que, juntamente com cantos populares de Trás-os-Montes e Alto
Alentejo, mais música instrumental da Idade Média, faz parte da banda sonora
deste filme datado de 1977.
Aliás, há que
salientar que, para além da excelência dos diálogos, há que mencionar as fabulosas bandas sonoras.
O mesmo se passa
com os filmes de Woody Allen.
Lembrar Vitor
Silva Tavares:
Por mim acontece ou aconteceu que até o escrevinhei
(na orelha do volume que reúne os argumentos de Le Bassin
de J.W. e de As Bodas de Deus): Melhor do que ele, ninguém escreve em
português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia
Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e
escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula
astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram
ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias
sejam, libertinagens, profanações.
O bichinho da 7ª
de Bruckner já andava a bailar no espírito do meu pai, mas foi depois de ter visto Veredas que
correu a comprar o CD.
Também já tinha
lido em A Cidade das Flores do Augusto Abelaira:
« E sorridente continuou. É o sorriso dum homem feliz
que observa Santa Croce, lé em baixo. Que é livre, que está a cantar, a cantar
muito de mansinho, aquele tema do primeiro andamento da Sétima de Bruckner,
aquele que se repete e se prolonga ao longo da sinfonia.»
O meu pai
adorava ter prazeres secretos.
Nunca os
explicava, não merecia a pena, ninguém entenderia, murmurava de olho brilhante
pelo vinhito.
Música: companheira de todas as horas.
segunda-feira, 5 de março de 2018
SOPA DOS POBRES
Pelo menos, uma vez
por semana, para ir buscar um dos netos ao colégio, tenho que passar pela Igreja
dos Anjos.
Em frente está a
chamada «Sopa dos Pobres»
Aos anos que a sei
ali.
E sempre, mas sempre,
recordo a comovida evocação que José Saramago lhe faz no 2º volume dos Cadernos
de Lanzarote e já aqui transcrita.
Num artigo de Ângela Caires publicado na Visão, sobre
António Champalimaud, leio que o tio Henrique Sommer, em carta com valor
testamentário dirigida às manas Albana e Maria Luísa, lhes recomendava que não
se esquecessem de distribuir, pelo Natal, dois contos de réis à Sopa dos Pobres
da Freguesia dos Anjos, de Lisboa. Naturalmente, o generoso Sommer (que em
glória esteja) desejava que não sofresse mudança, depois do seu passamento, a
beneficente prática que instituíra.
Quem poderia imaginar que esta informação, escrita ao
correr da pena, viria lançar uma luz nova sobre a minha biografia secreta? De
facto, não foram poucas as vezes, no tempo da adolescência, que ocupei um
envergonhado lugar na fila de aspirantes à sopa e ao quarto de pão que se
serviam naquele atarracado e soturno edifício fronteiro à Igreja dos Anjos…
Mais ou menos por essa altura devo ter aprendido na aula de Física e Química da
Escola Industrial Afonso Domingues o princípio dos vasos comunicantes, mas só
hoje é que consegui perceber, sem reservas mentais nem dúvidas formais, como se
efectua a transmissão da riqueza e do bem-estar dos que estão em cima para os
que estão em baixo, do conto de réis para o quarto de pão, da fartura para
falta. Por muitos que fossem os seus pecados, Henrique Sommer nunca ficaria no
inferno, sempre haveria uma concha da sopa para o tirar de lá…
Jardim dos Anjos, Lisboa.
Há uns anos retiraram todos os bancos do jardim.
Tinham-se transformado em entreposto de compra e venda de droga, poiso
de prostitutas.
Os negócios continuam, mas agora há, que a pé firme, aguardar a chegada
de clientes.
Num desses bancos, nas Recordações da Casa Amarela, o destroçado João
de Deus mantém um delicioso diálogo com um sem-abrigo.
Sentados, olham o edifício da Sopa dos Pobres.
- Tem um cigarrinho?
- Hum?...
- Um cigarrinho…
(Longa pausa)
- Já abriu!
- Hum?
- Já abriu!
- Tal é a comida?
- Não é má, mas ao fim de quatro dias cansa… Tem cartão? É preciso ter
cartão. O senhor tem que ir à Junta de Freguesia do seu bairro e pedir um
cartão… igual a este.
- Quem não tem cartão?
- Se o refeitório não estiver chão talvez o porteiro o deixe entrar,
caso contrário é melhor arranjar um ali à porta, com meia nota é de caras.
- Ai é?
(Pausa)
- Vou andando. Não gosto de chegar no fim, fica-se à espera de mesa e a
comida arrefece num instante.
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sexta-feira, 2 de março de 2018
POSTAIS SEM SELO
A morte é silenciosa. Não tenho nada a dizer sobre a morte.
João César Monteiro
em Os Que Vão Morrer Saúdam-te
Legenda: não foi
possível identificar a origem/autor da imagem
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Postais Sem Selo
quinta-feira, 15 de junho de 2017
RECADOS
No dia da morte de Armando Silva Carvalho,
deixei o registo de que O Livro do Meio, romance epistolar escrito por
Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, é um livro fascinante que –
tenho essa ideia… - passou um tanto ao lado de críticos – ainda há crítica
literária?!... – e leitores.
Aguardava vez para entrar em «Olhar as
Capas» e fiz agora a publicação, com o lamento que só agora aconteça porque o Armando
nos deixou.
Obviamente, a capa leva textos de cada um
dos autores.
O livro junta memórias de infância, de
outros tempos, uma cumplicidade de anos e anos de vivências e que, dado o
calibre dos autores, nunca poderia sair fruta bichada.
Pelas 412 páginas do livro, passeia uma
série de gente, alguns vivos, outros já mortos, ódios, amores, quotidianos,
tristezas, alegrias, leituras e notícias do quotidiano, histórias de escárnio e
maldizer, amigos e inimigos, perdas e danos, um humor mordaz, venenoso q.b, mas
inteligente.
Claro que o livro retém episódios e gentes
que escapam ao leitor comum, que são vivências próprias dos autores, «afectos
flutuantes», como algures deixa cair Maria Velho da Costa, a mesma Maria que
deixa assinalada uma frase de Agustina Bessa Luís: «a amizade é confortável
como uma almofada de penas», ou Armando Silva Carvalho que a páginas 322
cita um verso de Jorge de Sena: «sempre me soube a destino a minha vida».
Repito: um livro imperdivel, editado pela Caminho
no tempo em que ainda não tinha sido devorada pela Leya.
Pode ser que ainda o encontrem na Feira do
Livro, que fecha portas no domingo.
quarta-feira, 7 de junho de 2017
CORPO
Corpo serenamente construído
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro erguidos
Contra a pureza inteira dos teus ombros.
Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.
Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.
Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro erguidos
Contra a pureza inteira dos teus ombros.
Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.
Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.
Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.
Sophia de Mello
Breyner Andresen em Cem Poemas de Sophia
Legenda: fotograma do filme sobre Sophia realizado por João César Monteiro
Legenda: fotograma do filme sobre Sophia realizado por João César Monteiro
sábado, 24 de dezembro de 2016
SÃO 10 DA NOITE. ESTOU A ESCREVER NO MONTE CARLO
São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde
só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes.
É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o
espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser
fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja
para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o mundo.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o mundo.
João César Monteiro
em Duas Semanas Noutra Cidade
Legenda: Café
Monte Carlo. Fotografia tirada do blogue Restos de Colecção
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sábado, 7 de maio de 2016
OLHARES
Se há jardim de Lisboa que me dê gosto maior é o do Príncipe Real. Primeiro, por causa da árvore-mãe que tem ao centro, baixinha e de ventre antigo, e de ramagem tão extensa que dá abrigo a meio mundo. Depois, porque o conheci rodeado de poetas, uns em verso, outros em prosa: O’Neill morou-lhe quase em frente, na Rua da Escola Politécnica, Vieira de Almeida mesmo ao lado. Ruy Cinatti na Rua da Palmeira e Agostinho da Silva na Travessa do Abarracamento de Peniche, que é um recanto pacífico para meditar.
José Cardoso
Pires em A Cavalo no Diabo
Legenda:
João César Monteiro no jardim do Príncipe Real, fotograma do seu filme Vai e Vem
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?
Senhora Amélia: Por mim, não punha mais nada. Nem presunto nos lombos, nem nada. Gordo já ele é. Levava-o ao forno assim, quase de seu natural. Umas pedrinhas poucas de sal, não digo que não. Um fiozinho de azeite, do melhor, um pezinho de salsa fresquinho e disseste, Amélia. Temperos a mais matam-lhe o gosto a mar. No resto, o lume é que manda.
João César Monteiro de À Flor do Mar em Escritas 2º volume.
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O Qu'é Que Vai No Piolho?
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
V.S.T. & ETC
A Obra Escrita de João César Monteiro é coordenada por Vitor Silva Tavares, amigo do peito e um dos melhores conhecedores da obra do cineasta, principalmente a obra escrita.
Tal como escreveu para o Catálogo publicado pela Cinemateca:
Por mim acontece ou aconteceu que até o escrevinhei (na orelha do volume que reúne os argumentos de Le Bassin de J.W. e de As Bodas de Deus): Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.
Este é o postal que vem dentro do 2º volume da Obra Escrita de João César Monteiro.
Estava o 2º volume da Obra Escrita em acabamentos tipográficos quando Vitor Silva Tavares nos deixou.
O postal é o agradecimento de Margarida Gil, realizadora e mulher do João César:
Esta edição é dedicada à pessoa que esteve tão próxima do João, em todos os momentos, Vitor Silva Tavares, o Amigo.
Neste segundo volume são publicados os argumentos de À Flor Do Mar e de Recordações da Casa Amarela.
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
O CINEMA SOU EU
No primeiro
número do Cinéfilo, livre do lápis azul dos coronéis da censura, foi
perguntado a realizadores portugueses:
E o cinema em democracia, como vai ser?
Esta é a
resposta do João César Monteiro:
O pequeno papelinho
em que vossas excelências me inquirem, sumiu-se. Seria o vento que lhe deu ou
distraída atenção?
Assim, não estou seguro de responder à pergunta que me era formulada, o que nem sequer deve constituir matéria de espanto, a não ser para quem possa ainda ingenuamente supor que iria
Assim, não estou seguro de responder à pergunta que me era formulada, o que nem sequer deve constituir matéria de espanto, a não ser para quem possa ainda ingenuamente supor que iria
COM UM CIGARRO NA BEIÇA
Em 1939, nascia,
na Figueira da Foz, João César Monteiro.
Se por cá
andasse estaria a fazer 77 anos.
Mas partiu no
dia 3 de Fevereiro de 2033.
Tal como ele
disse:
Amanhã estou morto e, com um cigarro na beiça, não
devo nada a ninguém.
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Efemérides,
João César Monteiro
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
OLHARES
Aqui ainda é O Toni
dos Bifes.
Um dos
restaurantes mais antigos de Lisboa, na Rua Praia da Vitória, junto ao
Saldanha.
Carlos de
Oliveira morava no prédio ao lado de O Toni dos Bifes.
Almoçava por lá.
Depois o Augusto Abelaira ia ter com ele, ou almoçava também, e depois iam para
o Monte Carlo onde continuavam a aparecer mais escritores, pintores,
cineastas, artistas de teatro e cinema.
Quando ainda
havia cafés.
Os cafés eram
locais privilegiados para as tertúlias.
Locais de convívio e de escrita.
Augusto Abelaira
terá sido o escritor que mas utilizou os cafés para a escrita dos seus
romances.
Era vê-lo
mergulhado na escrita/leitura de papeis, cachimbo em riste – podia-se fumar nos
cafés, pois então!
Na Cister,
na Alsaciana, na Coimbra, que ainda existem.
A primeira fase consiste em escrever, escrever, porque
as fases seguintes, de reescrita e montagem, têm de ser em casa. Seria preciso
andar com uma mala e espalhar muitos papéis.
Mais ainda:
Como eu escrevo nos cafés, o que eu precisava era que
houvesse cafés para, durante a manhã, estar a escrever. Como os cafés vão
desaparecendo, a possibilidade de escrever é cada vez menor. Quando todos os
cafés tiverem desaparecido de Lisboa eu encerro a escrita. Deixo de escrever,
isto é, vou morrer, quando fechar o último café em Lisboa onde possa escrever.
Jorge Silva Melo
foi um assíduo frequentador dos cafés de Lisboa.
O seu livro de
memórias No Século Passado está cheio de referências:
E era nos cafés, abertos desde manhã cedo e até de
madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo isso se ia passando.
Também os Dias
Comuns do José Gomes Ferreira estão cheios de referências dos cafés que
frequentava com os escritores seus amigos e camaradas, cafés que iam fechando –
naquele tempo com destino certo de dependências bancárias - e obrigava a
arranjar outro refúgio.
Tal como no 4º
volume desses Dias Comuns, José Gomes Ferreira conta:
6 de Janeiro de 1968
A Bel comunicou-me este triste recado do Carlos de
Oliveira: o café Bocage, nosso ninho de longos anos Avenida da República vai
fechar amanhã.
28 de Maio de 1968
Fechou o Martinho.
Que se passa em Lisboa, onde já se respira tão pouco?
O Abelaira telefonou-me, alarmado, a dar-me a notícia fantástica.
O Abelaira telefonou-me, alarmado, a dar-me a notícia fantástica.
- Mas será verdade’ – PERGUNTEI, INCRÉDULO.
- É… - Disse-me o Magalhães Godinho… A notícia vem no
jornal da tarde.
Silêncio inquieto diante desta mutilação do fumo do
passado.
- E agora?
- Talvez o Paladium nos restauradores.
- Pois seja o Paladium!
E nisto de
cafés, no fechar da página, impossível não ir buscar o João César Monteiro em Uma Semana Noutra Cidade:
São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde
só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes.
É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o
espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser
fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja
para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.
sábado, 9 de janeiro de 2016
O MAR DOS MEUS OLHOS
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.
domingo, 25 de outubro de 2015
V.S.T. & ETC
Falar da
excelência das edições dos livros da &etc. é apenas um falar.
È necessários
ter os livros entre mãos para se ter a noção exacta dessa excelência.
Como escreveu
Júlio Henriques em Uma Editora no Subterrâneo:
Papéis pintados com tinta ou parte não dita da poesia?
Em qualquer caso. Nada que se confunda com indizíveis ou inefáveis
transcendências. Poucas coisas serão tão tangíveis como estes livros.
Retirei-os das estantes, espalhei-os sobre a mesa e estou a folheá-los Há
horas, quase esqueço o propósito da escrita. Pouco importa. Nunca os procurei
por via escolar, nunca os encontrei em bibliografias obrigatórias. Se tiver que
escrever sobre eles, escreverei sem sombra de dever. É o mínimo que lhes devo.
Em resumo: um
homem que ama verdadeiramente os livros nunca pensa em cifrões.
Era assim Vitor
Silva Tavares.
Um homem radicalmente livre.
É bem provável
que existam outros, mas apenas conheço dois prefácios de Vitor Silva Tavares
para livros por si editados.
Um, para o livro
de João César Monteiro, Os Que Vão Morrer Saúdam-te e a que o Vitor
chamou «O César Tem Uma Grande Telha», outro para o livro do Eduardo
Guerra Carneiro «Como Não Quer a Coisa», e a que chamou «Noves Fora,
Sete»
É do prefácio do livro do Eduardo este pedacinho:
sábado, 10 de outubro de 2015
A PONTA DE UM CORNO
De uma entrevista de João César Monteiro a Adelino Tavares da Silva e publicada em O Diário de 6 de Junho de 1982.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
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