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sábado, 15 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Ó menina, vem no Marx. Não há omeletes sem ovos. Aumenta os salários que os resultados aparecem.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

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O José Fonseca e Costa, na Biografia Literária do Alexandre O’ Neill, escrita por Maria Antónia Oliveira, revelava que o poeta comia em tascas e bebia em tabernas, e uma das tascas era a Estrela da Sé que é cenário das Recordações da Casa Amarela.

João César assinala que a cena 06 de Recordações da Casa Amarela se passa, de dia, no restaurante Estrela da Sé.

Quando vi o filme, fiquei com a ideia que a cena interior se passa no restaurante Faz Frio ao Príncipe Real.

Mantenho a dúvida.

Eduardo Guerra Carneiro pensou o mesmo, mas engana-se quando diz que Duarte Almeida, nome que João Bénard da Costa utilizava enquanto actor, come um frango assado em vez da garoupa com todos.

É este o pedaço do texto do Eduardo que vem em Outras Fitas:

«… nesse inesquecível Recordações da casa Amarela, do João César Monteiro, atacando um frango assado, de forma erótica, num reservado do Restaurante Faz Frio.

A Estrela da Sé fica no nº 4 do Largo de Santo António e abriu portas no distante ano de 1814.

Hoje faz parte das Lojas Com História, seja lá o que isso for.


Ao longo dos últimos tempos, tem conhecido várias facetas, acompanhando o surto turístico que tem vindo a invadir e a descaracterizar Lisboa.

Perdeu aquele jeito de tasco da antiga Lisboa, com comida a saber mesmo a comida e fica-se agora com os tiques e sinais da Lisboa turística.

Estas fotografias não são recentes, mas já são de tempos nova vaga.

O meu pai tinha uma certa ternura por esta casa.

Como nasceu na Rua da Padaria, que fica um pouco abaixo da Estrela da Sé, conhecia-a de longa data.

Fomos lá uma vez jantar, mas nunca mais repetimos o cenário.

Foi um jantar para o cinzento, amargas recordações da infância do meu pai que, mesmo fazendo todos os esforços, não deixaram de vir à baila e acabaram  por ensombrar o repasto e a conversa.

O meu pai comeu pescadinhas de rabo na boca com arroz de grelos e eu fiquei-me por umas iscas à portuguesa.

Nem a comida, nem as duas garrafas de Periquita, fizeram esquecer o que para trás ficou na infância do meu pai.

José Cardoso Pires, na Balada da Praia dos Cães tem esta passagem:

«Seriam umas onze da noite, onze cucos disparados um a um por cima dos telhados da Sé, quando Elias se sentou à mesa da sala do lagarto com vista para o Tejo.
Antes disso porém comeu o seu besugo grelhado na sala luarenta do Estrela do Limoeiro com vista para o balcão e porta da calçada. A essa hora de desiludidos, Elias só teve por companhia duas velhas de guardanapo à coleira, que batiam castanholas com as dentaduras à mesa do canto, e três canários de gaiola suspensos no tecto de tabuinhas. Ao alto do aparador havia o cartaz do galo de Barcelos a anunciar Portugal.»

Quando li o livro, fiquei com a ideia que Cardoso Pires remetia para a Estrela da Sé. 

Andei às voltas para localizar a Estrela do Limoeiro, perguntas várias a conhecedores da zona, mas nada consegui apurar.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O meu primeiro contacto com João César Monteiro remete-me para a década de 70, quando começou a fazer crítica de cinema para o Diário de Lisboa, tendo como companheiros o Eduardo Prado Coelho, o Lauro António e o Vitor Silva Tavares.


«Eu sempre disse por exemplo que o cinema sou eu. E isto é uma afirmação que não tem nada de monárquico ou de centrista. Tudo o que eu faço é singular, insubstituível.»

E ainda:

«Eu sou um realizador que não sabe efectivamente, «a ponta de um corno». Sei que isto é horrível, mas é assim. Devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»

Fiquei com um gosto assolapado pelo João.

Mais ainda quando colaborou na folha cultural q. b. &.etc. principalmente, quando lá  escarrapachou A Minha Certidão:

Por volta dos 15 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do Dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade, e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

Eu e o meu pai, volta e meia, íamos para a petisqueira e para a conversa e depois havia «piolho»

Tudo corria melhor, a cereja no topo do bolo, quando calhava um filme do João César Monteiro.

Infelizmente só vimos quatro filmes, a sua morte em 1990, roubou-me esse insubstituível prazer.

Para além do génio, para além da arte, para além de tudo, os filmes do João César Monteiro davam-nos um imenso gozo.

Foram estes os filmes:

Silvestre no Cine-Bloco
À Flor do Mar no Ávila
Recordações da Casa Amarela no Fórum Picoas e éramos os únicos espectadores.

João César:

«A mim interessa-me fazer filmes para todos os públicos. Noventa por cento da população do país não é um espectador de cinema e provavelmente será esse o público mais inocente e disponível, porque menos condicionado por certos códigos imperialistas. É um dever cívico fazer cinema para essa gente, embora sem grandes esperanças de que a curto prazo possam ser espectadores de cinema.»

Vitor Silva Tavares:

«Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.»


Pego no guião de Recordações da Casa Amarela, publicado no 2º volume da Obra Escrita de João César Monteiro e entretenho-me a copiar a Cena 06 do filme.

João César escreve que a cena 06 de Recordações da Casa Amarela se passa, de dia, no restaurante Estrela da Sé.


«Ferdinando sentado à mesa, serve-se de uma cabeça de garoupa com todos. Olha para fora de campo e diz:

Ferdinando: Caríssimo João de Deus: isso é reumático ou venéreo?

João de Deus entra em campo, com o sobretudo vestido, aperta a mão a Ferdinando, enquanto sussurra, debruçado sobre Ferdinando:

João de Deus: É coisa que me apareceu nas virilhas.

João de Deus senta-se em frente de Ferdinando.

Ferdinando (a rir): Nas brilhas, como se diz no Porto. Manda vir qualquer coisa que se trinque.

João de Deus: Não me apetece, Ferdinando. Tenho a boca a arder e custa-me mastigar.

Ferdinando: Estamos todos podres, é o que isso quer dizer. E a tua mãe?

Enquanto Ferdinando se vai  batendo com a cabeça de garoupa, João de Deus puxa de um cigarro, acende-o e, com o cotovelo apoiado no tampo da mesa, encosta a cabeça ao punho fechado.

João de Deus: Lá anda.

Ferdinando: Madre de Deus só há uma. Nunca o esqueças, meu filho.

João de Deus: Não consegui foi escrever nada. Sou amigo do tipo. Pelo menos, fui amigo da mulher e custa-me um bocado. Conheço-os há uma data de anos, ainda do tempo da outra senhora.

A câmara desloca-se ligeiramente para a esquerda, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que suspende o garfo, junto à boca.

Ferdinando: Estás a perder qualidades, Se me é permitido um reparo – não leves a mal - , por vezes consegues ser contundente, mas nunca fulminante. Andas às voltas, não vais direito ao assunto. Bebe nos clássicos, meu filho. Fulmina. Recordas-te da polémica de Camilo com Mesquita Fialho?

A câmara desloca-se ligeiramente para a direita, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que muito devastou a pratada e emborca um copo de branco.

João de Deus: O problema é que este não se chama Filho.

Ferdinando pousa o copo na mesa e diz com toda a gravidade que se impõe:

Ferdinando: Mas também deputa… filho.

João de Deus: Estou farto de escrever imundícies.

Ferdinando está boquiaberto.

Ferdinando: Mas tu nunca arriscaste a ponta de um corno, nem sequer o nome.
As chatices com a «judite», os processos em tribunal, as pesadas indemnizações, tudo te tem sido poupado. Nunca me vi confrontado com um caso de tamanha ingratidão: metes-me nojo.

O criado entra pela esquerda e levanta o prato de Ferdinando.

Ferdinando: Só café e uma bagaceira fresquinha. Da casa.

O criado sai por onde entrara. Percebe-se que Ferdinando acende uma cigarrilha. O criado entre em campo com o café e o bagaço, pousa-os na mesa e volta a sair.

Ferdinando: Vá-me tirando a continha, la dolorosa.»

Uma cena maravilhosa.

Por alturas da exibição do Silvestre em Lisboa, Mário Castrim abria, no Diário de Lisboa uma sua crítica de televisão, dizendo que tinha ido ver o filme pela segunda vez como quem se vai purificar nas águas do Jordão.

Sobre Silvestre, o João César disse que era um filme para as pessoas que ainda conseguem sentir-se crianças.

Agarrando na frase, José Saramago escreveu que «é um filme que não infantiliza os adultos que nós somos, mas adultiza as crianças que continuamos a ser.»

Fernando Lopes:

«Ao César perdoa-se tudo porque ele tem um talento que se ri de si próprio. Em suma. É um grande demente que faz coisas muito belas.»

Ainda o João:

«Ninguém morre por não fazer filmes e se morrer é idiota. Não avle a pena. Morre-se, sim, por fazer filmes, por na idade em que se fazem as opções mais importantes (que não são necessariamente as mais graves) se ter optado pelo ofício de cineasta, Agora estou sozinho diante das estrelas.»

Tenho saudades do João César Monteiro, do meu pai.

A falta que me fazem!

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Em 1969, João César Monteiro realizou um documentário sobre Sophia de Mello Breyner Andresen.

Numa entrevista ao Tempo e o Modo, Março/Abril de 1969, e incluída em Os Que Vão Morrer Saúdam-te, perguntaram-lhe como tinha nascido a ideia, e respondeu do modo de que muito gostava:

«Sempre que chega o Verão começo a ficar aterrorizado com a perspectiva de ter que o passar em Lisboa. O Agosto em Lisboa é terrível. Andam-se léguas e léguas para se descobrir um tipo amigo. Está tudo nas praias com as mulheres e os meninos. Pode-se procurar a sombra de uma árvore, mas a páginas tantas começa-se a dar conta de quão confrangedora é essa aliança.
A única solução é escrever. Cartas sobre tudo: a pedir emprego, a insultar credores, cartas imbecis em que se fica à mercê da menina K que, por seu turno, passa bem muito obrigado».

E mais adiantou:

 «No que ao meu filme diz respeito, suponho que, antes de mais, ele é a prova, para quem a quiser entender, que a poesia não é filmável e não adianta persegui-la. O que é filmável é sempre outra coisa que pode ou não ter uma qualidade poética. O meu filme é a constatação dessa impossibilidade, e essa intransigente vergonha torna-o, segundo creio, poético, malgré lui. Creio também, e acho espantoso que a crítica não tenha dado por isso (o que, aliás, só reforça uma impressão velha sobre a infinita ignorância da dita), que muito mais do que um filme sobre a Sophia que, para mim, só de um modo aleatório é parte dele, o meu filme é um filme sobre o cinema nele.»

 Não deixando de referir:

«Gosto bastante da poesia da Sophia, gostei de participar na pequena aventura que foi filmá-la, mas o Camilo seria um filme muito mais pessoal por pessoal empenho nele.»

O entrevistador ainda perguntou se o filme não poderia constituir uma mudança na vida do documentarismo português.

Ao que o João respondeu:

«Não faço ideia. Acabei o filme em Dezembro e de então para cá tenho feito publicidade e comprado camisolas de gola alta. Não se muda nada a comprar camisolas de gola alta. Nem sequer o carácter.»

Comprar camisolas de gola alta…

Ricardo Malheiro, produtor do documentário sobre Sophia, disse ao João:

«Porra! Você parece mais um mendigo que um realizador!»

Seixas Santos falara a João César Monteiro numa ideia de Ricardo Malheiro produzir uma série de curtas-metragens sobre personalidades de relevo no panorama cultural português. Era uma oportunidade mas João César não acreditava que alguém estivesse disposto a apostar na sua criatura.

«Todavia, o Seixas e, depois, o António-Pedro convenceram o Malheiro que eu era genial, apesar de não arriscarem meio tostão em mim.»


quinta-feira, 3 de maio de 2018

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Para beber uma garrafinha de tinto, a acompanhar um petisco, qualquer motivo servia.

Mas o mais feliz de todos era irmos ver um filme do João César Monteiro: juntar o gosto petisqueiro à genialidade do João era o suprassumo do quotidiano, dizia o meu pai.

É durante a exibição de Veredas que o meu pai agarra com todos os sentidos a 7ªSinfonia de Anton Brucker que, juntamente com cantos populares de Trás-os-Montes e Alto Alentejo, mais música instrumental da Idade Média, faz parte da banda sonora deste filme datado de 1977.

Aliás, há que salientar que, para além da excelência dos diálogos, há que  mencionar as fabulosas bandas sonoras.

O mesmo se passa com os filmes de Woody Allen.


Lembrar Vitor Silva Tavares:


Por mim acontece ou aconteceu que até o escrevinhei (na orelha do volume que reúne os argumentos de Le Bassin de J.W. e de As Bodas de Deus): Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.

O bichinho da 7ª de Bruckner já andava a bailar no espírito do meu pai,  mas foi depois de ter visto Veredas que correu a comprar o CD.

Também já tinha lido em A Cidade das Flores do Augusto Abelaira:

« E sorridente continuou. É o sorriso dum homem feliz que observa Santa Croce, lé em baixo. Que é livre, que está a cantar, a cantar muito de mansinho, aquele tema do primeiro andamento da Sétima de Bruckner, aquele que se repete e se prolonga ao longo da sinfonia.»

O meu pai adorava ter prazeres secretos.

Nunca os explicava, não merecia a pena, ninguém entenderia, murmurava de olho brilhante pelo vinhito.


Música: companheira de todas as horas.


segunda-feira, 5 de março de 2018

SOPA DOS POBRES


Pelo menos, uma vez por semana, para ir buscar um dos netos ao colégio, tenho que passar pela Igreja dos Anjos.
Em frente está a chamada «Sopa dos Pobres»
Aos anos que a sei ali.
E sempre, mas sempre, recordo a comovida evocação que José Saramago lhe faz no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote e já aqui transcrita.


Num artigo de Ângela Caires publicado na Visão, sobre António Champalimaud, leio que o tio Henrique Sommer, em carta com valor testamentário dirigida às manas Albana e Maria Luísa, lhes recomendava que não se esquecessem de distribuir, pelo Natal, dois contos de réis à Sopa dos Pobres da Freguesia dos Anjos, de Lisboa. Naturalmente, o generoso Sommer (que em glória esteja) desejava que não sofresse mudança, depois do seu passamento, a beneficente prática que instituíra.

Quem poderia imaginar que esta informação, escrita ao correr da pena, viria lançar uma luz nova sobre a minha biografia secreta? De facto, não foram poucas as vezes, no tempo da adolescência, que ocupei um envergonhado lugar na fila de aspirantes à sopa e ao quarto de pão que se serviam naquele atarracado e soturno edifício fronteiro à Igreja dos Anjos… Mais ou menos por essa altura devo ter aprendido na aula de Física e Química da Escola Industrial Afonso Domingues o princípio dos vasos comunicantes, mas só hoje é que consegui perceber, sem reservas mentais nem dúvidas formais, como se efectua a transmissão da riqueza e do bem-estar dos que estão em cima para os que estão em baixo, do conto de réis para o quarto de pão, da fartura para falta. Por muitos que fossem os seus pecados, Henrique Sommer nunca ficaria no inferno, sempre haveria uma concha da sopa para o tirar de lá…



Jardim dos Anjos, Lisboa.

Há uns anos retiraram todos os bancos do jardim.

Tinham-se transformado em entreposto de compra e venda de droga, poiso de prostitutas.

Os negócios continuam, mas agora há, que a pé firme, aguardar a chegada de clientes.

Num desses bancos, nas Recordações da Casa Amarela, o destroçado João de Deus mantém um delicioso diálogo com um sem-abrigo.

Sentados, olham o edifício da Sopa dos Pobres.

- Tem um cigarrinho?
- Hum?...
- Um cigarrinho…
(Longa pausa)
- Já abriu!
- Hum?
- Já abriu!
- Tal é a comida?
- Não é má, mas ao fim de quatro dias cansa… Tem cartão? É preciso ter cartão. O senhor tem que ir à Junta de Freguesia do seu bairro e pedir um cartão… igual a este.
- Quem não tem cartão?
- Se o refeitório não estiver chão talvez o porteiro o deixe entrar, caso contrário é melhor arranjar um ali à porta, com meia nota é de caras.
- Ai é?
(Pausa)
- Vou andando. Não gosto de chegar no fim, fica-se à espera de mesa e a comida arrefece num instante.

sexta-feira, 2 de março de 2018

POSTAIS SEM SELO


A morte é silenciosa. Não tenho nada a dizer sobre a morte.

João César Monteiro em Os Que Vão Morrer Saúdam-te

Legenda: não foi possível identificar a origem/autor da imagem 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

RECADOS


No dia da morte de Armando Silva Carvalho, deixei o registo de que O Livro do Meio, romance epistolar escrito por Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, é um livro fascinante que – tenho essa ideia… - passou um tanto ao lado de críticos – ainda há crítica literária?!... – e leitores.

Aguardava vez para entrar em «Olhar as Capas» e fiz agora a publicação, com o lamento que só agora aconteça porque o Armando nos deixou.

Obviamente, a capa leva textos de cada um dos autores.


O livro junta memórias de infância, de outros tempos, uma cumplicidade de anos e anos de vivências e que, dado o calibre dos autores, nunca poderia sair fruta bichada.

Pelas 412 páginas do livro, passeia uma série de gente, alguns vivos, outros já mortos, ódios, amores, quotidianos, tristezas, alegrias, leituras e notícias do quotidiano, histórias de escárnio e maldizer, amigos e inimigos, perdas e danos, um humor mordaz, venenoso q.b, mas inteligente.

Claro que o livro retém episódios e gentes que escapam ao leitor comum, que são vivências próprias dos autores, «afectos flutuantes», como algures deixa cair Maria Velho da Costa, a mesma Maria que deixa assinalada uma frase de Agustina Bessa Luís: «a amizade é confortável como uma almofada de penas», ou Armando Silva Carvalho que a páginas 322 cita um verso de Jorge de Sena: «sempre me soube a destino a minha vida».

Repito: um livro imperdivel, editado pela Caminho no tempo em que ainda não tinha sido devorada pela Leya.

Pode ser que ainda o encontrem na Feira do Livro, que fecha portas no domingo.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

CORPO


Corpo serenamente construído
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro erguidos
Contra a pureza inteira dos teus ombros.

Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.

Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.

Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo. 

Sophia de Mello Breyner Andresen em Cem Poemas de Sophia

Legenda: fotograma do filme sobre Sophia realizado por João César Monteiro

sábado, 24 de dezembro de 2016

SÃO 10 DA NOITE. ESTOU A ESCREVER NO MONTE CARLO


São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o mundo.

João César Monteiro em Duas Semanas Noutra Cidade

Legenda: Café Monte Carlo. Fotografia tirada do blogue Restos de Colecção

sábado, 7 de maio de 2016

OLHARES


Se há jardim de Lisboa que me dê gosto maior é o do Príncipe Real. Primeiro, por causa da árvore-mãe que tem ao centro, baixinha e de ventre antigo, e de ramagem tão extensa que dá abrigo a meio mundo. Depois, porque o conheci rodeado de poetas, uns em verso, outros em prosa: O’Neill morou-lhe quase em frente, na Rua da Escola Politécnica, Vieira de Almeida mesmo ao lado. Ruy Cinatti na Rua da Palmeira e Agostinho da Silva na Travessa do Abarracamento de Peniche, que é um recanto pacífico para meditar.

José Cardoso Pires em A Cavalo no Diabo

Legenda: João César Monteiro no jardim do Príncipe Real, fotograma do seu filme Vai e Vem

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Senhora Amélia: Por mim, não punha mais nada. Nem presunto nos lombos, nem nada. Gordo já ele é. Levava-o ao forno assim, quase de seu natural. Umas pedrinhas poucas de sal, não digo que não. Um fiozinho de azeite, do melhor, um pezinho de salsa fresquinho e disseste, Amélia. Temperos a mais matam-lhe o gosto a mar. No resto, o lume é que manda.

João César Monteiro de À Flor do Mar  em Escritas 2º volume.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

V.S.T. & ETC


A Obra Escrita de João César Monteiro é coordenada por Vitor Silva Tavares, amigo do peito e um dos melhores conhecedores da obra do cineasta, principalmente a obra escrita.

Tal como escreveu para o Catálogo publicado pela Cinemateca:

Por mim acontece ou aconteceu que até o escrevinhei (na orelha do volume que reúne os argumentos de Le Bassin de J.W. e de As Bodas de Deus): Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.

Este é o postal que vem dentro do 2º volume da Obra Escrita de João César Monteiro.

Estava o 2º volume da Obra Escrita em acabamentos tipográficos quando Vitor Silva Tavares nos deixou.

O postal é o agradecimento de Margarida Gil, realizadora e mulher do João César:

Esta edição é dedicada à pessoa que esteve tão próxima do João, em todos os momentos, Vitor Silva Tavares, o Amigo.

Neste segundo volume são publicados os argumentos de À Flor Do Mar e de Recordações da Casa Amarela.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O CINEMA SOU EU


No primeiro número do Cinéfilo, livre do lápis azul dos coronéis da censura, foi perguntado a realizadores portugueses:

E o cinema em democracia, como vai ser?

Esta é a resposta do João César Monteiro:

O pequeno papelinho em que vossas excelências me inquirem, sumiu-se. Seria o vento que lhe deu ou distraída atenção?
Assim, não estou seguro de responder à pergunta que me era formulada, o que nem sequer deve constituir matéria de espanto, a não ser para quem possa ainda ingenuamente supor que iria

COM UM CIGARRO NA BEIÇA


Em 1939, nascia, na Figueira da Foz, João César Monteiro.
Se por cá andasse estaria a fazer 77 anos.
Mas partiu no dia 3 de Fevereiro de 2033.
Tal como ele disse:

Amanhã estou morto e, com um cigarro na beiça, não devo nada a ninguém.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

OLHARES


Aqui ainda é O Toni dos Bifes.

Um dos restaurantes mais antigos de Lisboa, na Rua Praia da Vitória, junto ao Saldanha.

Carlos de Oliveira morava no prédio ao lado de O Toni dos Bifes.

Almoçava por lá. Depois o Augusto Abelaira ia ter com ele, ou almoçava também, e depois iam para o Monte Carlo onde continuavam a aparecer mais escritores, pintores, cineastas, artistas de teatro e cinema.

Quando ainda havia cafés.

Os cafés eram locais privilegiados para as tertúlias.

 Locais de convívio e de escrita.

Augusto Abelaira terá sido o escritor que mas utilizou os cafés para a escrita dos seus romances.

Era vê-lo mergulhado na escrita/leitura de papeis, cachimbo em riste – podia-se fumar nos cafés, pois então!

Na Cister, na Alsaciana, na Coimbra, que ainda existem.

A primeira fase consiste em escrever, escrever, porque as fases seguintes, de reescrita e montagem, têm de ser em casa. Seria preciso andar com uma mala e espalhar muitos papéis.

Mais ainda:

Como eu escrevo nos cafés, o que eu precisava era que houvesse cafés para, durante a manhã, estar a escrever. Como os cafés vão desaparecendo, a possibilidade de escrever é cada vez menor. Quando todos os cafés tiverem desaparecido de Lisboa eu encerro a escrita. Deixo de escrever, isto é, vou morrer, quando fechar o último café em Lisboa onde possa escrever.


Jorge Silva Melo foi um assíduo frequentador dos cafés de Lisboa.

O seu livro de memórias No Século Passado está cheio de referências:

E era nos cafés, abertos desde manhã cedo e até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo isso se ia passando.

Também os Dias Comuns do José Gomes Ferreira estão cheios de referências dos cafés que frequentava com os escritores seus amigos e camaradas, cafés que iam fechando – naquele tempo com destino certo de dependências bancárias - e obrigava a arranjar outro refúgio.

Tal como no 4º volume desses Dias Comuns, José Gomes Ferreira conta:

6 de Janeiro de 1968

A Bel comunicou-me este triste recado do Carlos de Oliveira: o café Bocage, nosso ninho de longos anos Avenida da República vai fechar amanhã.

28 de Maio de 1968

Fechou o Martinho.
Que se passa em Lisboa, onde já se respira tão pouco?
O Abelaira telefonou-me, alarmado, a dar-me a notícia fantástica.
- Mas será verdade’ – PERGUNTEI, INCRÉDULO.
- É… - Disse-me o Magalhães Godinho… A notícia vem no jornal da tarde.
Silêncio inquieto diante desta mutilação do fumo do passado.
- E agora?
- Talvez o Paladium  nos restauradores.
- Pois seja o Paladium!


E nisto de cafés, no fechar da página, impossível não ir buscar o João César Monteiro em Uma Semana Noutra Cidade:

São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.

sábado, 9 de janeiro de 2016

O MAR DOS MEUS OLHOS


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.

Legenda: Fotograma do documentário Sophia de Mello Breyner Andresen de João César Monteiro, 1969 

domingo, 25 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC


Falar da excelência das edições dos livros da &etc. é apenas um falar.

È necessários ter os livros entre mãos para se ter a noção exacta dessa excelência.

Como escreveu Júlio Henriques em  Uma Editora no Subterrâneo:

Papéis pintados com tinta ou parte não dita da poesia? Em qualquer caso. Nada que se confunda com indizíveis ou inefáveis transcendências. Poucas coisas serão tão tangíveis como estes livros. Retirei-os das estantes, espalhei-os sobre a mesa e estou a folheá-los Há horas, quase esqueço o propósito da escrita. Pouco importa. Nunca os procurei por via escolar, nunca os encontrei em bibliografias obrigatórias. Se tiver que escrever sobre eles, escreverei sem sombra de dever. É o mínimo que lhes devo.

Em resumo: um homem que ama verdadeiramente os livros nunca pensa em cifrões.

Era assim Vitor Silva Tavares.

Um homem radicalmente livre.

A imagem é o «hors-texte» concebido por Carlos Ferreiro para o livro de Eduardo GuerraCarneiro.

É bem provável que existam outros, mas apenas conheço dois prefácios de Vitor Silva Tavares para livros por si editados.

Um, para o livro de João César Monteiro, Os Que Vão Morrer Saúdam-te e a que o Vitor chamou «O César Tem Uma Grande Telha», outro para o livro do Eduardo Guerra Carneiro «Como Não Quer a Coisa», e a que chamou «Noves Fora, Sete»

É do prefácio do livro do Eduardo este pedacinho:

Memórias, sonhos, encontros, desencontros. As marcas incisivas do prazer - e do conhecimento da dor. O rio subterrâneo do furor poético a desaguar no mar de palha deste país à beira-mercado comum plantado. Tralhas, mapas, casas, bichos. A flagelação irónica de um lusíada coitado (é fado nosso) desconfortado no fato cívico - e o ímpeto de bomba agarrado pelo rabo. Sexo q.b. e baba ternurenta. Cervejas agoniadas. Noites de bláblá. A máquina por vezes engripada de reinvenção do dia claro (igual à noite antiquíssima) numa lisboa cesárica, nuns bons e maus cheiros de província havida. Dúvidas, fragmentos, resíduos, desarticulações. Quem é este do cântico jugulado? Quem, na essencial totalidade? Quem, na irada moderação? Quem, no nem por isso invocado direito ao erro próprio tão idêntico a sabedoria? Orfeu ensaia o canto, envolto em treva e algazarra. «Trata-se pois de uma prática de amor». E morte.

sábado, 10 de outubro de 2015

A PONTA DE UM CORNO


De uma entrevista de João César Monteiro a Adelino Tavares da Silva e publicada em O Diário de 6 de Junho de 1982.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

SEM GRANDES ESPERANÇAS...


João César Monteiro.
De uma entrevista perdida no tempo.
Mas de João César Monteiro.
Sempre.