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domingo, 1 de março de 2026

RETRATOS


 «Andar no cinema para ser contaminado por gravíssimos defeitos de carácter não é coisa que se faça a um velho católico e apostólico romano. Não acredito que se possam fazer bons filmes em pecado mortal e, por isso, espanta-me que a cólera do Senhor não se tenha ainda abatido sobre mim. É certo que o Senhor conhece a extrema pobreza em que vivo e, não obstante os caminhos da perdição serem infinitos, tem-me guiado certeiramente no exercício da minha arte.»

João César Monteiro

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOs


A partir de hoje, e até ao dia 11 de Fevereiro, a Medeia Filmes irá exibir uma retrospectiva integral da obra de João César Monteiro, em cópias digitais restauradas.

«O ideal é chegar ao plateau com a frescura de uma rosa e a agilidade de um caçador perante a presa. Para bem saudar a beleza do mundo, como é evidente. E a beleza do mundo, como se sabe, é a beleza do cinema.»

João César Monteiro

A programação pode ser consultada aqui.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

À LUPA


A Lupa a deter-se em algo sobre João César Monteiro, um escritor, um cineasta, tão amado como odiado, e mais escritor que cineasta como escreveu o Vitor Silva Tavares.

Vasco da Câmara ontem no Público:

«João César Monteiro, um libertino em Nova Iorque — integral no MoMA
Os filmes mais vistos pelos espectadores do ciclo The Ongoing Revolution of Portuguese Cinema, que o Museum of Modern Art de Nova Iorque (MoMA) programou em 2024, ano de eleições presidenciais nos EUA, foram Que Farei com Esta Espada (1975), Silvestre (1981), Recordações da Casa Amarela (1989). São três filmes de João César Monteiro (1939-2003). Isso deu um incentivo à proposta de Francisco Valente, curador do departamento de cinema do museu nova-iorquino, depois de ele próprio ter sido desafiado pela distribuidora Cinema Guild, que detém neste momento os direitos da obra de Monteiro para o mercado norte-americano, a fazer uma retrospectiva integral do realizador português.»

Bem curioso e certeiro o comentário de um leitor do artigo do Vasco da Câmara:

« Um dos poucos cineastas portugueses dignos da palavra “criação”, num país onde quase tudo o que se faz serve para lamber botas e atirar ao lixo.»

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

NESTE DIA

João César Monteiro termina o seu Diário Parisiense deitando contas à vida e concluindo que precisa de tirar umas férias.

«É preciso fazer qualquer coisa contra o medo.»



domingo, 10 de agosto de 2025

NESTE DIA


 No ano de 1999, João César Monteiro concebe um pequeníssimo diário parisiense. Dizia a si mesmo, e a quem o queria ouvir, que num qualquer dia estaria morto, com um cigarro na beiça e sem dever nada a ninguém. Recorda sempre um tal de Musil que é preciso viver em humor e desespero.

Neste dia, que é uma terça-feira, escreve:


Legenda: tem, para os lados de Marvila, uma rua.

sábado, 17 de maio de 2025

REOLHARES


A publicação que hoje fazemos dos Poemas Autografados, em que trouxemos o António Reis, leva-nos a completar a evocação do poeta com um texto de João César Monteiro sobre o António Reis cineasta.

Lembramos de novo a Maria João Duarte:

«Não sei se este homem nasceu primeiro poeta ou cineasta.»

Texto publicado no dia 21 de Abril de 1974:

«O grande destaque do nr. 29 de revista Cinéfilo, publicado a 21 de Abril de 1974, recai na entrevista, a propósito da estreia da média-metragem Jaime, que João César Monteiro faz a António Reis.

O texto de apresentação de entrevista é, simplesmente, uma prosa memorável.

João César Monteiro não esconde nada, e fica como prova - mais uma! - da excelência da sua brilhante, como genial, faceta de escritor, coisa que ele não gostava nada que se dissesse.

Este é o texto de apresentação da entrevista: “Jaime” de António Reis: o inesperado no Cinema Português:

«Tudo começou um pouco antes do Natal. O Fernando Lopes encomendou-me uma reportagem sobre um tipo que acabara um filme chamado Jaime, e é natural, tudo o indica, que eu tenha pensado o que qualquer português que se preza pensaria em idênticas circunstâncias: outra estopada para eu, qual pequeno, vil Tartufo, exercitar a gentileza.

Conhecem o dom dos derviches? Eu, o que se alimenta da própria e da cegueira alheia, não. O da conjectura, sim. Assim: um tipo, pobre diabo, é internado num hospício, enfiam-lhe (terapêutica ocupacional, dizem) umas tintas e um pincel nas unhas e, anualmente, com o velado epíteto de «arte de louco», expõem-lhe os trabalhos, promovem tômbolas, o que, para além de prestigiar o estabelecimento e fazer jus aos mais modernos tratamentos (de choque) que por lá se gastam, serve também para que uns magros patacos revertam em benefício do internado indigente: cigarritos, fardinha, alpargatas novas – doces caracóis da caridade. De Jaime, portanto, eu sabia o que se sabia para que, como nos contos de fadas, a surpresa pudesse ser total e milagrosa: um filme sobre a «pintura» de um tipo que, durante muito tempo viveu num hospício e por lá se finou.

É evidente que um assunto destes dá para tudo, sobretudo para especulações de feirantes, dificilmente para um filme com um mínimo de interesse, mais dificilmente ainda, em esta sucessão de rarefacções, para um grande filme. Entenda-se: um filme em que a severa vigilância ética nunca se separa da permanente invenção estética e, por via da feroz manutenção desse disciplinado equilíbrio, que não é só o da obstinação mas também, e sobretudo, o desse pleno voo da inteligência a que se dá o nome de capacidade poética, projecta, no espaço que é da história, o corpo, da sua própria vidência, feita de um novo furor e mistério.»

E que sabia eu de António Reis? Que escrevera os diálogos de, já tão longínquo, Mudar de Vida, de Paulo Rocha? Que publicara dois (ou mais?) livros de poemas (Poemas Quotidianos e Novos Poemas Quotidianos) que nunca li? Que nasceu no Porto e por lá viveu até há pouco, o que, ainda por cima, não era, antes pelo contrário, nenhuma recomendação especial, sabido como é que o Porto já deu o cineasta que tinha a dar e, como se isso não fosse já bastante, houve ainda que honrá-lo como instituição cinematográfica à lusa escala?

É certo que, na fria tarde de Dezembro em que me dirigi para a sala de projecção da Tóbis, fui recebido pela mais cândida e afável criatura que deve existir sobre a face deste taciturno planeta, mas só me dei conta da exacta dimensão dessas qualidades (e digo isto com o pressentimento de quão terríveis devem ser as manifestações do seu avesso), após ter visto o filme, como se o filme fosse afinal o único revelador possível e sem equívoco dessa tão veemente e natural explosão de humana grandeza.

Estou a falar de António Reis e do dia em que o conheci e que, por acaso profissional, coincidiu com a primeira vez que vi Jaime, quanto a mim, um dos mais belos filmes da história do cinema, ou, se preferem: uma etapa decisiva e original do cinema moderno, obrigatório ponto de passagem para quem, neste ou noutro país, quiser continuar a prática de um certo cinema, o cinema que só tolera e reconhece a sua própria austera e radical intransigência.

Neste sentido, creio que, numa altura em que os dados do cinema português estão a ser, se o não foram já, jogados, o surgimento de António Reis pode ser fundamental, tão fundamental como o enxerto de um coração novo num enfermo agonizante.

De facto, num meio mais do que minado por factores corruptos e já quase sem defesas contra a invasão imunda da rataria oportunista, António Reis pode, por um lado, pontuar exemplarmente a altitude moral a que nos obriga a nossa responsabilidade de cineastas e, por outro, suscitar um tipo de reflexão e discussão que torne algum cinema português mais próximo de formas de cultura de expressão genuína, e nascidas do duro conflito capaz de as desvincular de pesadas e sufocantes heranças ideológicas, o que nada tem a ver, Deus me livre, com o chavão muito em voga, e que não significa nada que sentido faça, de que «são precisos filmes que falem da realidade portuguesa».

Não é fácil, todos nós o sabemos, mas se assim não for, e, parafraseando o que Reis diz, algures, na entrevista que se segue, é preferível que chovam raios e coriscos e desabe uma porcela que tudo leve.»

segunda-feira, 31 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO


Sinto-me como se tivesse cegado por excesso de olhar o mundo.

Al Berto

Legenda: fotograma final do filme Vai e Vem de João César Monteiro. O autor garantindo-nos que nos continua a observar e que o observemos.

João Bénard da Costa: «o olho que nós olhamos é um olho morto. É por isso que se fecham os olhos aos mortos, para parecer que dormem.»

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

DIGAMOS QUE O FILME NÃO ME ENVERGONHA

- Estás satisfeito com «Branca de Neve»?

- Estou. Quer dizer, estou na medida em que é possível estar satisfeito por fazer filmes. Penso que não é motivo de satisfação para ninguém. Eu fico satisfeito quando como uma perna de cabrito, com filmes não. Digamos que o filme não me envergonha.

Entrevista de João César Monteiro a Diogo Lopes em João César Monteiro, catálogo da Cinemateca. 

quarta-feira, 15 de maio de 2024

CONVERSANDO


Citação  de um diálogo do filme de João César Monteiro A Comédia de Deus:

« Estás aonde? Em casa ou na fábrica? Esse Tomé só arranja confusões. Não, não. De amaneira nenhuma. Não te preocupes. Está tudo a andar. O costume. A mulher da limpeza voltou a não aparecer. Depois vem com umas grandes tretas. É uma chatice. Mas lá terá que ser… O problema é que não posso deixar isto entregue aos bichos. Quando o Romão vier. Combino as coisas com ele. Se tiver uma aberta passo ainda hoje pelo banco e dou uma palavrinha ao gerente. Fica descansada. E ainda temos quantos quilos em stock? Estamos à vontade. Não senhor. A ideia é muito simples: deixa-se os clientes a salivar durante uns dias com o anúncio de esgotado e relança-se o Paraíso em força. . Claro. Com um novo preço que faça jus à especialidade da casa e à originalidade do sabor. Ò menina, vem no Marx. Não há omeletes sem ovos. Aumenta os salários que os resultados aparecem. É elementar e tu sabe-lo por experiência própria: também te saiu do pêlo. Também fiquei com muito boa impressão, sim senhor. Vive sozinha com a mãe numa barraca? Também não me pareceu nada doidivanas. A ver vamos, mas uma andorinha não faz a Primavera. É. De que parte do Minho? Conheço muito bem. Papei por lá, se não estou em erro, a melhor cabidela da minha vida. É boa gente, lá isso é. É muito bonita e ainda não perdeu aquela inocência fresca e provinciana. Vou retocá-la ao  gosto das madonnas venezianas, mas sem apagar os traços rurais. Pode ser um chamariz, pode, mas toda a sabedoria vai estar no conservá-la. Alguma vez te deixei ficar mal? Ó Judite, sabes perfeitamente que em serviço não brinco. Está bem. Cá a espero. Rosário. Rosário quê? Não, não. A mim, essa Francisca nunca me enganou. Vi logo. Queixa na Judiciária? Não te metas nisso. Não paga o incómodo. Também está debaixo de olho, mas deixa-a pousar. Não quero levantar a lebre.»

Gosto deste «… vem no Marx».

O meu pai dizia muito que está tudo no Marx. Que também devia ler Lénine. De um e outro li alguma coisa.

O livro de Henri Krasucki que hoje aparece em Olhar as Capas, custou-me 35 escudos, ao câmbio de hoje, 0,175 euros.

Livros como este ajudaram a completar o que de Karl Marx fui lendo, a consciência de um Sindicato, a luta de classes, que a sociedade capitalista assenta na propriedade privada, capitalista, dos meios de produção e, por consequência, na exploração.

Tudo o mais decorre daqui.

Sim, está tudo no Marx!

Legenda: fotograma de A Comédia de Deus de João César Monteiro

sábado, 6 de abril de 2024

CONVERSANDO


 A Conversa de hoje, chega a propósito da morte de António-Pedro Vasconcelos na 1ª página do Público, onde se lê: «O cineasta que acreditava no grande público».

Agora entendam o começo da prosa como uma brincadeira, quando se diz:

«Karen Blixen teve uma fazenda em África, a Aida teve um tasco em Almoçageme».

Comida simples mas a saber a comida.

Durante uns dias, o João César Monteiro albergou-se numa casa que sua mulher, a Margarida Gil, tinha em Almoçageme.

Num sábado e num domingo, acompanhado por alguém, almoçaram no tasco.

No sábado petinga frita com arroz de pimentos, no domingo cosido à portuguesa.

Toda a conversação com esse alguém, desenrolou-se em francês. Talvez alguém ligado àquele seu projecto da adaptação do filme «La Philosophie Dans le Boudoir», e talvez ainda não tivesse chegado a conversa sobre caralhos:

Extracto da carta para o produtor Paulo Branco em Uma Semana Noutra Cidade:

«O custo unitário dos caralhos oscilava, consoante os tamanhos entre os 45 e os 60 contos. Neste passo vislumbrei com bonomia, a carinha do produtor, a tua, meu caro_

-Pa ra que são preciso tantos caralhos?

- Não sei. Pergunta ao Max.»

Na parte popular do tasco, balcão, duas mesas corridas, pipos de vinho ao alto, tínhamos colocado uma série e cartazes de filmes da colecção do Luís Miguel Mira, excepto um enorme cartaz do Casablanca. João César, depois do almoço, cigarro na beiça, deslocou-se a essa parte do tasco, olhou os cartazes e disse que fazia filmes e se estivéssemos de acordo um cartaz do seu último filme talvez  ali ficasse bem.

Foi-lhe dito que ficariam mesmo muito bem. O filme era  «A Comédia de Deus».

Pensou-se que a história ficaria por ali e o cartaz talvez para nunca mais.

Errado!

Na segunda-feira, João César, estava no tasco a depositar um rolo de cartazes do filme para escolhermos.

De imediato se mandou fazer a moldura e ali ficou.

António Pedro Vasconcelos, juntamente com uns amigos e amigas, algumas vezes, amesentava no tasco.

História primeira

Olhou e perguntou;

- Como é que aquele cartaz do filme do João César está por aqui?

Foi-lhe contado como tudo aconteceu.

- Vou trazer-lhe um cartaz do meu filme «O Lugar do Morto».

- Excelente ideia, o meu pai, por causa das pernas da Anna Zanatti, viu o filme três vezes.

O António Pedro voltou mais vezes ao tasco, mas sem o cartaz.

História Segunda

A parte popular do tasco tinha uma pequena televisão e uma telefonia para ouvir os relatos da Antena 1.

Sábado. Benfica a jogar em Braga, transmissão televisiva.

Visitas rápidas do António Pedro ao tasco para se inteirar  do resultado e ficar alguns minutos para ver como a coisa estava a correr. Na parte do restaurante, os amigos continuavam a conversar.

História Terceira.

Uma noite, António Pedro a perguntar se a Alheira que estava na lista era de Mirandela.

- Oh! António Pedro como é que os 600$00: batatas fritas, uma forma de arroz, um ovo estrelado, poderiam comportar uma alheira de Mirandela?

- Eh pá! Tem razão! Desculpe lá!...

Um homem delicado, sensível tal como largamente se disse na hora da sua morte.

Quarta história

Havia os afazeres do tasco e aguardei uma das suas visitas para ter a oportunidade de lhe perguntar como é que um homem que tanto sabia de cinema, e tanto gostava de filmes, se batia ardorosamente sobre a dobragem de filmes. A pergunta que lhe faria, olhando o cartaz do Casablanca seria para lhe dizer, que com a dobragem, não ouvir a voz, o catarro do Bogart, mas sim um qualquer assomo de um tipo desconhecido.

Esta história não aconteceu.

O tasco começou a ter um excesso de clientela. A cozinha era exígua, havia que fazer obras, mas aquilo não nos pertencia, renda mensal de 100 contos, e, por impedimentos vários, uma delas uma antiga querela de herdeiros do proprietário, não poderíamos o tasco.

António-Pedro de Vasconcelos gostava de um cinema popular, um cinema para todos.

João César Monteiro, segundo Vitor Silva Tavares odiava espectadores, estava-se nas tintas para o público.

 Ainda se lembram, na estreia de Branca de Neve, à pergunta do jornalista respondeu:

“Eu quero que o público se foda”.

António Pedro e João César foram amigos, tempos do Vavá, ambos estiveram nessa maravilhosa aventura do Cinéfilo: António-Pedro Vasconcelos como chefe, João César Monteiro na redacção, Fernando Lopes director.

Depois… as histórias, e respectivas versões, são várias.

João César Monteiro, a propósito de uma cena do seu filme «Quem Espera por Sapatos de Defunto» no seu livros Os Que Vão Morrer Saúdam-te:

«Antes do mais, é conveniente esclarecer que este plano foi, a meu pedido, filmado pelo sr. António-Pedro Vasconcelos, atendendo a que, farto do filme, me deslocara, no entretanto, para Itália em viagem nupcial. Ao sr. Vasconcelos foram deixadas todas as indicações julgadas úteis para a boa execução do plano, tarefa de que ele se encarregou escrupulosamente, segundo creio, e pela qual lhe estou grato. Bem feia acção seria, pois, eu vir agora queixar-me do trabalho generosamente despendido por um colega em proveito de um filme meu, mas lá que o enquadramento é uma boa merda, isso é. Então eu tenho que gramar aquelas verticais todas abauladas sem ficar roxo de cólera? E quem é que o mandou, seu fantasista , pôr o senhor da senhora que está na cama a ler os Cahiers du Cinéma? Não vê que isso desvia a atenção do movimento obsessivo do plano? Era preferível ter posto o homem a brincar com a pila!»

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

MÚSICA PELA MANHÃ

JOÃO CÉSAR MONTEIRO

pref. Vitor Silva Tavares

capa do pintor João Vieira

ilust. João Rodrigues

Lisboa, Novembro de 1974

& etc (co-ed. Editora Arcádia, S.A.R.L.

1.ª edição

17,5 cm x 15,5 cm

224 págs. + 1 folha em extra-texto

capa impressa a negro no verso de cartolina de dupla face, com sobrecapa em papel kraft impresso a duas cores directas

corte fumado a negro

exemplar muito estimado; miolo irrepreensível

PEÇA DE COLECÇÃO

180,00 euros (IVA e portes incluídos)

 

Ao ler este anúncio de venda, na Loja Frenesi, deste livro do João César Monteiro, sorri.

Era um tempo em que visitava as livrarias, que existiam no Chiado: a Bertrand, a Portugal, a Lello, a Sá da Costa, uma, duas vezes por semana. Mais ou menos sabia, atempadamente, os livros que iam saindo.

Tempos felizes. Foi assim que cacei este livro do César Monteiro.

«Amanhã, sai entrevista no «Phnom-Penh Post» a dizer bem de todos os cineastas portugueses inclusive dos que não sabem ligar dois planos. Não que aqui dêem qualquer importância a isso, como é óbvio, mas apenas para que o meu eventual, e já saudoso regresso à Pátria seja festejado como eventual. Se alguém, por acaso,  souber de um empregozinho modesto e que não dê muito trabalho (melhor seria não dar nenhum), é favor avisar a redacção  deste jornal. Estou encantado com o Phnom-Penh Post». Em primeiro lugar porque me pagaram logo a entrevista e, a seguir, não tive, como no nosso país, de fazer à borla o trabalho do jornalista. De qualquer forma, vou ter de cavar rapidamente daqui, se não o conseguir, paz à minha alma.!

Prevendo o funesto desfecho, peço ao V.S.T. que mande rezar algumas missas pela boa encomendação da minha alma. Não muitas, para que não pareça ostentação: só quero a Missa de Notre Dame do Machaut, a Missa de Beata Virgine do Josquin, a Missa em Si bemol do J.S. Bach e a Missa em Dó menor K.427 (com o incarnatus est» cantado pela Stich-Randall) ou o Requiem K. 626, na gravação do Bruno Wlter, ambas do Wolfgang Amadeus.

O meu mal cheirosos espólio dever ser doado à Fundação Gulbenkian. Para o Centro Português de cinema, raspas. Nem um chavo!. O mapa do tesouro vai inteirinho para os amores. Santas criaturas!»

João César Monteiro em Os Que Vão Morrer Saúdam-te, págs.70,71

 

Nota do Editor – Claro que a minha 1ª edição deste livro do César Monteiro não valerá os tais 180 euros. Porque o exemplar, tantas e tantas e tantas vezes, lido e relid), não está muito estimado, tão pouco, tão  pouco  possui  o miolo  irrepreensível tantas e tantas e tantas são as anotações, os sublinhados a lápis.




O trecho aqui reproduzido é o Kyrie de La Nesse de Notre Dame de Guillaume de Machaut.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

CITAÇÔES

Quando não sei o que dizer, cito. Posso citar sem que se note que uma citação, como a frase «sou um homem honesto», que vem no Otelo.

João César Monteiro

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

OLHARES


 O que ele gostava dos cafés de Lisboa.

Um dos muitos simples prazeres da sua vida.

Depois começaram a transformá-los em agências bancárias, em casas de trapos.

As grandes mágoas que então nasceram.

Quando José Rodrigues Miguéis foi obrigado ao exílio nos Estados Unidos, o primeiro grande choque que enfrentou foi a não existência de cafés.

Sua mulher Camila conta o episódio:

«Quando chegou aos Estados Unidos a primeira coisa que o ia matando foi quando descobriu que não havia cafés. Como é que podia viver sem um café onde encontrava os amigos, onde se sentava e levantava logo que se sentia desconfortável ou aborrecido, ou quando lhe surgia uma ideia e tinha de regressar a casa para a escrever? Como é que as pessoas podiam viver daquela forma? Isto foi um problema muito, muito difícil para ele, e eu sentia-me desanimada, porque não o podia resolver. Quando lhe disse o que tínhamos – restaurantes, cafetarias, balcões, vários locais -, ele disse: «Mas eu estou a falar de um café; tu não percebes.» E esta situação aborreceu-o a vida toda. Aborreceu-o mesmo.»

Foi dura, e inglória, a luta pela manutenção dos cafés.

O poeta José Gomes Ferreira nos seus Dias Comuns fala dessas lutas, quando juntamente com o Carlos de Oliveira, O Augusto Abelaira, tantos outros, andaram em bolandas, de café para café que lhes dessa possibilidades de manterem as suas tertúlias.

Os cafés da minha preguiça" como escreveu o Mário de Sá-Carneiro.

Ler o jornal, um livro num café com uma bica à frente.

Jorge Silva Melo: Sabores de outros tempos: o ovo a cavalo, o molho, as batatas fritas dos velhos cafés de Lisboa.

Façamos a evocação de um café de Lisboa: o Vává, símbolo dos anos 60 que viu nascer o cinema novo português, também músicas, conspirações várias.

Lauro António, que há dias nos deixou, escreveu diversas crónicas sobre a cidade no jornal digital  «Mensagem de Lisboa».

Uma dessas crónicas lembra o VáVá e a sua história:

Nasci em 1942, em Campo de Ourique. Passei sete anos da minha vida em Portalegre, para onde o meu pai, professor, foi deslocado para se efectivar. Regressei a Lisboa em 1958 e vim morar para as avenidas novas, precisamente para a avenida dos EUA, muito perto do cruzamento com a avenida de Roma. O Café Restaurante Vavá existe desde esse ano e foi um dos meus cafés de eleição. Os outros foram a Grãfina e o Nova Iorque

Além de mais, tem sido o meu café-restaurante prioritário, acompanhei todas as transformações, lidei com todas as gerências, fui assistindo à reciclagem da clientela, e descobri que o espaço, apesar de tudo, se mantém como local de culto e de saudosa romagem. Por isso vale a pena contar a história física, que é pouca, mas sobretudo recordar o espírito do lugar, que se conserva, muito para lá das vicissitudes do tempo e dos circunstancialismos vários da vida de cada um.

Julgo ser, por isso, uma pessoa bem informada para dar conta do recado, ainda que nestes casos, o recado, por muito factual que se queira, tenha sempre de ser subjectivo, com o que a posição comporta de risco, mas também de sinceridade. O meu testemunho não é totalmente imparcial e a tender para o abstracto, antes se afirma desde início, pessoal e apaixonado. Esta será uma “visão”, uma “visão” possível entre muitas outras, de um espaço que vem cumprindo, vai para cima de seis décadas, a função para que foi criado.

 OVavá nasceu em 1958, criado por uma dupla de gerentes, dois irmãos, Petrónio e Luís Gonzaga. Irmãos que apenas se pareciam no apelido, e igualmente na gentileza, dado que um era basto volumoso, de presença imponente, arrastando por detrás do balcão uma bonomia ruborizada, enquanto o outro, mais discreto e aprumado, ia deslizando delicadamente pelo mesmo balcão. Às vezes em simultâneo, outras revezando-se no comando das operações.

 O Vavá que eles idealizaram era um espaço enorme, que abrangia o que ainda hoje lhe compete, e ainda o que o Banco BPI agora ocupa e lhe comprou. O Vavá não era apenas o dobro, em extensão, à superfície, mas ainda possuía uma extensa cave, onde se encontrava uma, na época, muito disputada sala de bilhares.

 A decoração inicial produziu o milagre que ainda hoje perdura, apesar de pouco restar dela presentemente. Mas todo o recinto ganhava um ar acolhedor e recolhido, com as madeiras de um castanho-escuro, os maples de couro, igualmente de castanho-escuro, colados juntos às paredes, circulando todo o espaço. Mesas e cadeiras a condizer e um balcão que dividia a sala em duas, sem as tornar isoladas, como hoje acontece, pela intromissão de uma parede que não fazia parte da estrutura original.

 A iluminação era dourada, discreta, difusa, pequenos candeeiros desciam do tecto sobre as mesas, o ambiente era intimista, o que terá seduzido a clientela destas avenidas novas que iam surgindo lentamente por estes lados.

Não muito longe do cruzamento da Avenida de Roma com a Avenida dos EUA, nesta praça onde se encontram frente a frente o Vavá e o Luanda, começavam as quintas e os quintais, viam-se rebanhos de ovelhas e cabras e cultivavam-se as couves. Paulo Rocha fala dos “Verdes Anos” destes locais no seu filme, um dos que abriu caminho ao Novo Cinema Português (curiosamente o Novo Cinema marchou lado a lado com o Vavá, mas disso falarei mais a frente).

 Avenidas Novas, vidas novas, novos arrendatários. Quem veio habitar estes bairros foram os filhos da burguesia endinheirada, num período em que a estabilidade social e uma ligeira abertura ao exterior permitiram a ascensão de novas classes profissionais, vivendo com relativo desafogo, que lhes possibilitava pagar rendas mais caras, e usufruir de maior qualidade de vida.

 Do Areeiro à Avenida do Brasil, a Avenida de Roma era o exemplo da modernidade em Lisboa. Aqui se vinham descobrir as novidades, na moda, nos usos e costumes. Os quarteirões encheram-se de jovens de novas profissões: publicidade, moda, canção, cinema, televisão, aviação, arquitectura, decoração, etc. Mas, por detrás dessas luxuosas avenidas novas, existiam novos bairros de habitação social que contribuíam igualmente para o aparecimento de uma população diferente e diversificada.

 Foram esses os frequentadores habituais do Vavá nesses primeiros anos. Foram eles que criaram o estilo da casa e impuseram um tom. Aberto até de madrugada (fechava às duas da manhã), permitia a criação de tertúlias espontâneas, de amigos e conhecidos que todas as noites ali se reuniam para falar e discorrer sobre os mais variados temas, com a política sempre como prato de resistência.

 É importante referir que os finais da década de 1950 e o início da de 60 foram tempos difíceis para o governo de Salazar. Poucos meses depois das eleições de 1958, que opuseram Humberto Delgado a Américo Tomás, e que este haveria de ganhar com batota descarada, abria o Vavá. Iniciava-se igualmente um tempo de revolta e conspiração sem precedentes na história do Estado Novo.

 Em todas as tertúlias lisboetas se comentava o que não se podia saber pela informação escrita, radiofónica ou televisiva (a RTP acabava igualmente de iniciar as suas transmissões) e se soprava de ouvido a ouvido. O Vavá não era excepção. Congregando clientes já de alguma idade com a rebeldia da juventude, o Vavá era local de conspiração certa (segura nunca seria, pois “os olhos e os ouvidos” do regime estavam um pouco por todo o lado).

 A proximidade da Cidade Universitária criava outra clientela, maioritariamente irreverente e interventiva. Os alunos que vinham estudar para a capital escolhiam quartos de abrigo perto das faculdades. Este era outro potencial cliente, que o Vavá logo aglutinou. A contestação universitária que eclodiu em pleno durante a crise académica de 1962 foi dispersando pólos de inquietação. Os cafés eram centros de estudo, mas igualmente focos de rebelião, onde se discutia e se organizava a revolta.

 Tínhamos assim uma fauna variada, de extractos sociais diferenciados, profissionalmente irreverente e moderna, maioritariamente jovem. Entrando no café numa noite de inverno ou atravessando a esplanada numa solarenga tarde de verão, eles estavam lá, em pequenos grupos que se distinguiam pelos interesses profissionais ou pelos escalão etários, mas que por vezes se interpenetravam e fundiam em grandes grupos de amena cavaqueira.

Em Novembro de 1993, para uma revista então publicada pela livraria Barata, escrevi um texto que não resisto a recuperar. Dizia assim:

O café, enquanto local, e não só chávena, e não só bebida, refere duas realidades, ambas de agradável evocação: a bica, que se toma, e a tertúlia de amigos com quem se fala, enquanto se bebe a primeira.

 Muitos escritores têm relembrado, em saborosos textos, tertúlias célebres ao longo das décadas. Não vem ao caso historiar, mas Lisboa esteve bem provida destes locais de referência obrigatória, e não há certamente quem ignore o papel do Martinho da Arcada, da Brasileira do Chiado, do Nicola, do Café Gelo, do Monte Carlo, do Ribadouro, de tantos e tantos outros. Escritores e pintores deixaram marca num local, actores e encenadores eram habituais noutros, os cinéfilos reuniam-se sobretudo no antigo VaVá,  mesas pegadas com cançonetistas e baladistas dos idos de 60, e, antes do 25 de Abril, políticos e “gente do reviralho”, como então eram chamados os opositores ao regime, apareciam um pouco por todo o lado, acumulando funções na maioria dos casos.

 Os cafés eram locais de encontro, logo depois do almoço, e antes de se entrar no trabalho, ou a seguir ao jantar, prolongando-se então a cavaqueira pela noite dentro, até que as portas do café fechassem, e muitas vezes até para lá do seu encerramento. Nunca antes das duas ou três da matina. Muitos artigos se escreveram, muitos romances e poemas se pensaram, muitos espectáculos se montaram, muitos filmes se idealizaram, muitos quadros adquiriram ali cores e formas, muitos governos caíram e muitos outros se formaram à mesa de um café de Lisboa, do Porto, de qualquer cidade do interior de Portugal.

Não havia ainda televisão em doses industriais, para agarrar audiências pelos processos mais singulares; não havia internet, chats, blogues ou Facebook; não havia ainda Betas, VHS ou DVDs para se verem os filmes em casa; não havia concertos rocks todos os dias, nem espectáculos a toda a hora; não havia as drogas pesadas a influir negativamente nos horários dos donos dos cafés, que se querem ver livres de tão ingratos clientes, e fecham muito mais cedo; não havia a ameaça da violência urbana que apesar de tudo pesa sobre o comportamento de muita gente que prefere a segurança do lar à incerteza das ruas; nem havia, sobretudo, estes mercantis balcões de agora, onde as pessoas tomam apressadamente café, enquanto outras comem sofregamente uma sopa e pastelinhos de bacalhau, bifanas ou mesmo “pratinhos” de feijoada à transmontana, antes de regressarem ao seu balcão no centro comercial ou à secretária no escritório.

 Dos meus tempos de Universidade, relembro cafés inesquecíveis. Desde logo, o bar da Faculdade de Letras, onde se estudava a vida, quando se faltava às aulas, para se discutir um filme, uma peça de teatro ou um livro, onde se tentava mudar o mundo à medida dos nossos sonhos, ou simplesmente se namorava uma colega, quando o tempo não estava de molde a poder-se sair com ela até ao estimulante verde do discreto estádio universitário.

 Depois, à tarde e à noite, estudavam-se as matérias, em mesas de outros cafés, por apontamentos emprestados por quem assistira ao verbo do Professor. Por mim, que morava então em casa de meus pais, na Av. EUA, os mais utilizados eram o Nova Iorque, hoje transformado em banco, e a Grãfina. Mas muitas noites as passava também entre o Monte Carlo e o Monumental, espreitando actores e actrizes com quem se procurava meter conversa, ou sendo lentamente perfilhado por tertúlias de escritores, jornalistas, pintores e excêntricos avulso.

 Pouco a pouco, fui subindo avenida acima, até ao VáVá, que então tinha bilhares e cave, e não era ainda metade banco e metade pastelaria. Ali se reunia o grupo de cinéfilos, que observava de longe, e o dos cantores, que ouvia na rádio e muito pouco na TV estatal. Com breves incursões pela Suprema, pela Sul-América e pelo Luanda, adoptei o Vává como segunda casa, ali fiz amizades e vi partir amigos, ali conheci amores e desamores, ali escrevi e li, ali pensei guiões e filmes, dali parti com equipas de filmagem para a serra da Estrela, para Sintra, para o Alentejo, ali filmei mesmo uma sequência de um deles, ali vi rodar alguns outros, ali me despedi do 24 e ali saudei o 25, há quem diga que ele é a minha sala de jantar (quanto muito seria a de almoçar), e um prolongamento do meu escritório.

 O Vává foi mudando com os anos, deixando sempre saudades do velho Vává, de maples de cabedal castanho encostados às paredes, de luz difusa e discreta, de acolhedor conforto. Ali conheci o Manuel Guimarães, que seria meu padrinho de casamento e padrinho cinematográfico, cedendo-me umas bobines de película virgem do seu derradeiro “Cântico Final” para eu realizar uma das minhas primeiras curtas-metragens; ali conheci melhor o Manuel de Azevedo, o Villas-Boas, o Rafael, o Pinto Bandeira, o Manuel Costa e Silva, o Sam, o Pedro Bandeira Freire, o João Maria Tudela, o Fernando Tordo, o Paulo de Carvalho, o Carlos Mendes, o Fernando Silva, o Mário Damas Nunes, a Acácia Thiele; ali continuo a encontrar o Manel, o Fanan, o Vasco, o Mário, o Rangel, a Lena, o Carlos, e tantos outros, alguns deles agora já acompanhados das respectivas e respectivos, com a prole a gatinhar por entre mesas e cadeiras, ganhando já, se calhar, o mesmo “vício” de ali se encontrarem no futuro; por ali passam também personagens bisonhas de tristes recordações, ali ficam suspensas memórias efémeras ou persistentes, ali se discute o presente do cinema, do xadrez, da televisão e da canção portugueses, ali se debate o futuro da TAP, ali se comentam, à segunda-feira, os “roubos” dos árbitros, invariavelmente a prejudicarem o Sporting e a beneficiarem quem se sabe, por lá passava ao fim da tarde o Frederico, na volta do colégio, para a Cola e o bolo da praxe, ali descia e desço com a Eduarda para tomar o café, antes de ir para o cinema ou de regressar a casa, para um serão televisivo.

 Os cafés de Lisboa tendem a desaparecer, e os que restam são já sombras de um passado que procuramos apesar de tudo manter vivo, contra a arremetida das leis inexoráveis do comércio, da cobiça dos bancos, do poder da televisão, da proliferação de bares e discotecas. São, aliás, os bares e as discotecas que, de certa forma, vieram a ocupar o lugar desempenhado pelos cafés, reunindo tertúlias de amigos, agora ao som da música de momento. Até esta transferência é significativa da mudança dos tempos. Em lugar do café, bebe-se whisky ou vodka; em vez do espreguiçar do pensamento em redor da bica bem quente, gritam-se frases rápidas por entre dois compassos mais trepidantes. Nem melhor, nem pior. “Tudo é feito de mudança”, como dizia o poeta. “A nostalgia não é deste mundo”, como explicava Signoret. E as bicas bem quentes continuam a incendiar a imaginação dos poetas. Que nunca dispensaram outros “acompanhamentos”, a começar pelo absinto.

 A última grande transformação do Vavá data de 2017, quando a empresa Petrónio e Gonzaga, Lda foi comprada aos anteriores proprietários pelos sócios Pedro Ferreira e João Simões. O café restaurante sofreu uma profunda remodelação, mantendo e reabilitando o espólio artístico (as obras de Menez foram todas restauradas por especialistas), tarefa levada a cabo por familiares dos gerentes, a designer Mafalda Ferreira e o arquitecto paisagista Filipe Pedro. A inauguração aconteceu a 21 de Julho de 2017 e, não muito depois, a casa foi considerada “Loja com História” pela Câmara Municipal de Lisboa.

Muitos se perguntam por quê a designação Vavá?

 Estranha homenagem a um jogador brasileiro que aparece a dar nome a um café restaurante no cruzamento da av. de Roma com a dos EUA, em Lisboa. “Vavá” era mesmo o nome por que era conhecido Edvaldo Izídio (Recife, 12 de Novembro de 1934 – Rio de Janeiro, 19 de Janeiro de 2002), jogador brasileiro de futebol, bi-campeão mundial nas copas de 1958 e 1962, conhecido também por “peito de aço”. Nascido no Recife, Pernambuco, foi como avançado da selecção brasileira bicampeão mundial nas campanhas da Suécia (1958) e do Chile (1962). Iniciou a sua carreira no Sport de Recife, transferiu-se depois para o Rio de Janeiro (1952), para jogar no Vasco, passou pelo Atlético de Madrid, Palmeiras, América do México, San Diego, dos EUA, e Portuguesa do Rio. Conquistou dois campeonatos cariocas pelo Vasco da Gama e um paulista, pelo Palmeiras, além das duas Copas do Mundo pela selecção.

 Era visto como o clássico “matador” de grande área: oportuno, sem muita técnica, mas dono de muita garra e inteligência táctica, além de bom a jogar de cabeça. O seu vigor físico valeu-lhe o apelido de “Peito de Aço”. Marcou nove golos pelo Brasil em Copas do Mundo, e em 22 jogos pela selecção brasileira, contabilizou 14 golos. Foi auxiliar técnico de Telê Santana (1982) na selecção brasileira que disputou a Copa da Espanha. Morreu aos 67 anos, na Clínica São Victor, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, após internado por três dias com insuficiência cardíaca, e enterrado no Cemitério do Catumbi.

 Porque se chama Vavá o café restaurante a que estamos a dedicar este texto, eis um enigma que não conseguimos decifrar. Numa época em que no Brasil havia Pelé e Garrincha, porquê optar por Vavá? Um mistério a que pouca gente dá qualquer atenção. Curiosamente, os nomes fixam-se e raras vezes se procura encontrar uma razão para a sua escolha. Vavá é hoje em dia algo abstracto que, neste caso, designa um café, nada mais. Uma sonoridade apenas.

 Mas esta sonoridade faz retinir recordações e memórias de outros tempos. No final da década de 1950 e na de 60 do século passado o Vavá foi local de encontro e de tertúlias diárias de uma certa inteligência nacional, urbana, resistente ao Estado Novo, ponto de encontro de diversos grupos sociais. Um deles, os jovens do que viria a ser chamado o novo cinema português, onde pontificaram os nomes de Fernando Lopes, Paulo Rocha, António Pedro Vasconcelos, Alberto Seixas Santos, António da Cunha Telles, João César Monteiro, Manuel Costa e Silva, entre outros que habitavam perto e ali se reuniam diariamente, à noite, para a bica da praxe e a conversa habitual. Foi aqui que se convencionou ter nascido o novo cinema português, que um filme como “Verdes Anos”, de Paulo Rocha, confirma (grande parte filmado no edifício do próprio Vavá onde então morava o seu realizador).

 Mas o café não era apenas refúgio de jovens cineastas, mas também de um ou outro veterano, como era o caso de Manuel Guimarães, o mais conhecido realizador português a testemunhar a influência do neorrealismo italiano no nosso país, com títulos como “Saltimbancos” ou “Nazaré”. Não confraternizavam todos na mesma mesa, o conflito geracional existia. Guimarães era frequentador de uma outra tertúlia, onde surgiam vários opositores ao regime, “malta do reviralho”, como então eram chamados, como Aquilino Ribeiro Machado, engenheiro, filho do escritor Aquilino Ribeiro e futuro Presidente da Câmara de Lisboa, entre 1977 e 1979, Dias Amado, professor da Faculdade Ciências, Manuel de Azevedo, jornalista do “Diário de Lisboa”, Aventino Teixeira, coronel, um dos capitães de Abril, Pinto Bandeira, o artista plástico Sam, Rafael, proprietário de uma agência de publicidade, entre alguns mais. Senhoras de certa idade eram raras. Uma delas era a mulher de Manuel Guimarães, a Dª Clarice, que acompanhava sempre o marido.»

Legenda:

Foto 1 – Fotografia de Aida Santos

Foto 2 – Fotografuia do jornal I

Foto 3 - Site de Lojas Com História

Foto 4 – Site de Lojas Com História

Foto 5 – Site de Lisboa ComVida

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

AINDA BEM QUE ME FAZ ESSA PERGUNTA


 Estará a democracia  em perigo?

Não sei bem, até porque tenho algumas dificuldades em perceber do que se fala quando a democracia desce à mesa da conversa.

Os comentadores daqueles canais de notícias, exalam uma euforia louca. Têm congressos de partidos, têm eleições para o ano, têm, para além das idas ao multibanco, mais as selfies, os sorrisos, os afectos, as intervenções sistemáticas de Marcelo sobre tudo e nada.

Ainda têm as montanhas de corrupção em tudo o que é empresas, ministérios, autarquias, até nas forças armadas.

Ariane, no guião de João César Monteiro De Bassin de John Wayne, diz para João de Deus: «Parece que não conheces a corja da têvê»

Por outro lado, ah sim!, por outro lado:

- o drama português não é o galope da pandemia, mas a possibilidade de a selecção portuguesa de futebol, se continuar com o seleccionador dos eternos milagres não marcar presença no mundial do Catar,

- os patrões voltam a pedir contrapartidas pelo «brutal» aumento do salário mínimo que o governo pretende fixar.

- ainda os patrões, mas agora da restauração, hotelaria e do turismo, dizerem estar a sentir sérias dificuldades para encontrar trabalhadores portugueses para os sectores, e têm de recorrer a trabalhadores das Filipinas, do Nepal, por aí fora, mas o que eles pretendem é subsistir com a sua estratégia de negócios intacta: salário mínimo, horários desregulados, recurso a estagiários e trabalho temporário. A falta de mão-de-obra é a miserável desculpa de quem não quer trabalhadores, mas escravos.

- Portugal aproveitou apenas metade dos fundos da União Europeia para apoio a refugiados e as organizações que trabalham no terreno queixam-se de um processo com muitas falhas e de falta de transparência na forma como o dinheiro tem sido gerido.

- Rui Rio, independentemente do que vier a ser o resultado das eleições do próximo ano, revelou disponibilidade para um acordo parlamentar com o Partido Socialista.

- António Costa, após mandar dizer que a esquerda não deixou passar o orçamento para 2022, dando continuidade ao truque, continua a sonhar com a maioria absoluta nas eleições do ano que vem.

sábado, 16 de janeiro de 2021

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Livio, personagem do filme de João César Monteiro, «Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, a certo ponto do filme diz:

«O meu pai era um tipo melancólico. Caçava moscas e lia Camilo. Morreu»

Fui, e sou, um péssimo leitor de Camilo Castelo Branco.

Os livros existiam na biblioteca do meu pai, mas enamorei-me pelo Eça.

Já tarde no tempo, fiz várias incursões por alguns livros de Camilo, mas não ficaram registos.

Tristemente me espanto, como existindo neste blogue uma etiqueta Olhar as Capas, em que já passaram 1.466 livros da biblioteca da casa, não haja um livro de Camilo.

E dezenas deles estão por aqui.

Pior ainda: nem sequer existe etiqueta do autor.

Que dizer?

Camilo nasceu em Lisboa no dia 16 de Março de 1825.

Ficou órfão de mãe com 2 anos e de pai com 10 anos. Foi morar com uma tia e depois com a sua irmã mais velha.

O resto é a tragédia de uma vida.

Casamentos frustrados, seminário, escândalos vários, em que está incluída, cheia de salero, uma bailarina espanhola, que para a sustentar, Camilo recorre ao jogo no casino da Póvoa do Varzim, contraindo inúmeras dívidas de jogo, adultério, o impressionante rapto e casamento com Ana Plácido, filhos, um deles, louco.

A  3 de Julho de 1890, depois de ter perdido a esperança de recuperar a vista, suicida-se, em S. Miguel de Seide, disparando um tiro de revólver na têmpora direita. 

Camilo Castelo Branco foi um dos primeiros escritores portugueses a viver exclusivamente do que escrevia, deixando uma vastíssima e diversificada obra.

Não sendo um tipo melancólico, nem caçador de moscas, quase nos 76 anos, vou começar a ler Camilo Castelo Branco.

Deixando, por ora, os romances, vou ler esta Boémia do Espírito.

No Preâmbulo, Camilo explica:

«O livro é que há-de definir o título.

Se o leitor, voltada a página final, não tiver encontrado a causa que motivou semelhante rótulo, também eu não poderei esclarecê-lo.»

E termina:

«Se perguntassem a Coubert, a Mery, a Léon Gozlan, a Gautier e aos outros porque eram boémios, e não tabeliães de notas, eles não saberiam responder.»

 

1.

Continua o frio.

Nesta vida destrambelhada de confinamento, as notícias não nos fazem esquecer – como se fosse possível esquecer?! -  o que nos vai acontecendo:

Números alarmantes dizem-nos que, hoje, registaram-se 166 óbitos e 10.947 novos casos de infecção.

2.

Doentes esperam, ao longo dos últimos dias, dentro das ambulâncias, durante horas, à porta das urgências dos hospitais.

Alguns morrem.

É sempre tarde quando se chora, mas se a este estado chegámos, é porque utilizámos muito mal o dinheiro que, em tempo de vacas gordas, nos chegou da Europa. As auto-estradas, perdidas no interior do país, não são utilizadas, os milhares de rotundas pelo pedaço espalhadas, servem para o que ninguém sabe o quê.

3.

Manuel Lemos, presidente da União de Misericórdias Portuguesas:

«O Estado é o principal responsável pela existência de lares ilegais.»

4.

«Pouca é a distância entre a vida e a morte.»

De uma canção do folclore chileno.