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sexta-feira, 10 de julho de 2015

OS IDOS DE JULHO DE 1975



10 de Julho de 1975

CINQUENTA E DOIS dias depois, o jornal República regressou às bancas.
Como director, aparece o nome do Coronel Pereira de Carvalho, proposto aos trabalhadores por uma Comissão Administrativa, nomeada pelo Conselho da Revolução.
Os trabalhadores tinham decidido que deveria ler-se «Sob a responsabilidade dos trabalhadores» mas acabaram por aceitar a decisão da Comissão Administrativa.
César Oliveira no seu Os Anos Decisivos:
«A evolução do jornal República – vital para o próprio Partido Socialista que ficava sem um órgão de imprensa diário – iria cavar um abismo cada vez mais fundo num bloco social e político indispensável seja para consolidar a democracia e assegurar a originalidade da via portuguesa para o socialismo, seja para conter as aspirações da direita e das forças conservadoras, cujos interesses haviam sido profundamente lesados no caminho percorrido desde 25 de Abril.»
E acrescentava o seguinte comentário:
«O PS «sempre se deu mal» com a imprensa após o 25 de Abril. A Luta falhou, o Portugal Hoje fracassou e todos os homens que o PS nomeou, quando no governo, para cargos importantes nos órgãos de comunicação social, desde Mário Mesquita a José Eduardo Moniz, ou saíram do PS ou passaram-se para o PSD.»

 Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

- Os Anos Decisivos de César Oliveira

sexta-feira, 1 de maio de 2015

OS IDOS DE MAIO DE 1975


1 de Maio de 1975

 O povo voltou a descer às ruas, mas ficou um tanto ou quanto longe do entusiasmo do primeiro 1º de Maio.
Deveria ter sido, mas já muita água correra por debaixo das pontes.
Tal como se lê em Portugal Depois de Abril:


José Luís Judas, na altura era um dos principais dirigentes da Intersindical, assistiu a tudo.
Já afastado das lides políticas e sindicais, já depois de ter aderido ao Partido Socialista, chegando a ser Presidente da Camara de Cascais.
Judas revela aos autores de Os Dias Loucos do PREC:
«Quem deu ordem para não deixar entrar Mário Soares foi o major responsável da segurança da tribuna, ligado aos sectores esquerdistas». O major em causa era Campos Andrada que, segundo um documento da Comissão Política do CR, «se declarou contrário à entrada fosse de quem fosse na tribuna, temendo consequências desagradáveis para o PR». Os socialistas reagem e retiram-se do estádio. José Luís Judas considera que «esse 1º de Maio marca o início da ruptura do PS com o resto da esquerda. O PS percebeu que era um excelente pretexto para começar a separar as águas».
César Oliveira em Os Anos Decisivos:
Penso ter começado aqui, com os incidentes do Primeiro de Maio e com a passividade, perante essas ocorrências, do Conselho da Revolução, um processo de crise política, cada vez mais profunda, que só terminaria no 25 de Novembro.
Mário Soares, numa entrevista a Maria João Avilez em 1995, há-de, cito de memória, que entraram no Estádio lº de Maio para estragar a festa, entrando aos socos e encontrões.


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso.
- Os Anos Decisivos de César Oliveira.  

Legenda: tribuna do comício do 1º de Maio de 1975.


sexta-feira, 10 de abril de 2015

OS IDOS DE ABRIL DE 1975


10 de Abril de 1975

O DIÁRIO DE LISBOA publica na íntegra o Pacto proposto aos partidos pelo MFA.
O primeiro-ministro Vasco Gonçalves sobre o PACTO MFA-PARTIDOS:
Não poderíamos perder por via eleitoral o que tanto tem custado a ganhar ao povo português.

PROSSEGUE a campanha eleitoral.
Rosa Coutinho ao semanário Expresso:
As eleições não vão representar realmente a vontade do povo, porque ele, coitado, ainda não tem realmente o poder de análise. Nós não fizemos uma revolução para que numa parvoíce eleitoral percamos, de um momento para o outro, todos os ganhos alcançados.
Apela-se ao voto em branco como um voto no MFA.
O historiador César Oliveira, um dos principais dinamizadores do Voto em Branco, reconhecerá, mais tarde, no seu livro Anos Decisivos, o clamoroso erro político.
Basicamente decorria do facto de considerar que o MFA poderia desempenhar um papel de «produtor político», isto é poderia ter capacidade para elaborar uma ideologia, uma estratégia e um programas políticos, capazes de congregar toda a esquerda e retirar, da esfera de influência das forças conservadoras e de direita sectores sociais importantes. Tal erro foi terá apelado ao voto em branco, identificando tal voto a um voto no MFA, entendido como estrutura eventualmente imune à interferências dos partidos políticos, Foi um erro político grave, de que nenhum outro membro do grupo dos Ex-MES poderá ser responsabilizado e que partiu seja do facto de não ter considerado vários factores importantes, seja da intenção de evitar um resultado favorável ao MDP/CDE.
Assim ignorei, em primeiro lugar, o desejo intenso, sentido por toda a população, de participar no acto eleitoral, o primeiro do novo Portugal, escolhendo o partido da sua preferência, fazendo nas urnas eleitorais uma escolha e uma opção que nunca livremente pudera fazer, em segundo lugar, que o MFA não poderia nunca ser imune às contradições, clivagens e dinâmica político-partidária existentes na sociedade portuguesa, pois ele era, exactamente um movimento de natureza político-militar emergente da própria sociedade.

JOSÉ SARAMAGO toma posse do cargo de director adjunto do Diário de Notícias, um diário que, disse tem condições para se «o jornal desejável e desejado», e onde se criticará, a actuação do Governo.
O lugar de director é ocupado por Luís Barros.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Os AnosDecisivos de César Oliveira.

sexta-feira, 13 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


13 de Março de 1975

A INSTITUCIONALIZAÇÃO  imediata do MFA, através do Conselho Superior da Revolução e da Assembleia do MFA; a decisão de que o acto eleitoral decorra nos prazos previstos; a confirmação de que há civis ligados ao alto capital presos por estarem implicados na intentona do 11 de Março; e o reconhecimento da importância da aliançado Povo com as Forças Armadas, através da vigilância popular e da eficácia da actuação das Forças Armadas, foram os factos mais importantes referidos no decorrer de uma conferência de Imprensa dada ontem pelo ministro da Comunicação Social, comandante Correia Jesuíno que se encontrava acompanhado do capitão Duran Clemente da 5ª Divisão do EMGFA e do comandante Montês, director-geral de Informação.
O 11 de Março – adiantou o ministro - não foi um golpe militar representativo de divisões profundas no seio da Forças Armadas. Foi um golpe desencadeado por um grupo minoritário, altaamente reacionário, constituído por pessoas com um currículo já estabelecido. Inclusivamente, algumas dessas pessoas já tinham sido saneadas das Forças Armadas.
Referido, também, que se encontram detidos 25 militares, além da detenção de civis ligados ao grande capital, que subsidiaram partidos políticos e deram fugas a capitais da ordem de milhões de contos.
Quanto à participação nas eleições, dos partidos CDS e PDC, foi afirmado que a decisão caberá ao Conselho Superior da Revolução.



NUM COMUNICADO  do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha, provocado por notícias de Lisboa, que tentariam envolver o governo espanhol nos acontecimentos em Portugal, é reafirmado que o governo espanhol reafirma a sua adesão total ao princípio de não-intervenção nos assuntos internos de outro estado e que observa «rigorosamente» nas suas relações com Portugal.

SPÍNOLA  terá declarado a vários oficiais espanhóis  que «tenciona não voltar nunca mais a Portugal» e que espera encontrar asilo fora de Espanha, provavelmente no Brasil.

NUM COMUNICADO da Comissão Política do Comité Central do Partido Comunista Português lê-se que não é de crer que a conspiração abrangesse apenas os responsáveis já conhecidos. Alguma coisa falhou no plano e isso significa que houve conjurados que, por qualquer razão, não entraram em acção.

O JORNAL DE NOTÍCIAS e A Capital referem a morte de um civil às portas do RAL 1, na tarde do ataque. O civil, acompanhado de uma mulher, foi abatido pelos soldados depois de terem sido disparados tiros do carro onde fugia, depois de provocações aos soldados e populares que se encontravam junto ao quartel.

OS TRABALHADORES da Rádio Renascença consideram «irreversivelmente» anulados os despedimentos ordenados, em Setembro passado, pelo conselho de gerência da estação.
Numa carta enviada ao Presidente da República, em nome da Conferência Episcopal, D. António Ribeiro, patriarca de Lisboa, reclama o «normal funcionamento da emissora católica em condições de Liberdade».


NO SEU EDITORIAL o jornal londrino The Guardian escreve: «A não ser que os próximos dias tragam novas informações sobre o estado das coisas em Portugal, a rebelião de ontem por parte de para-quedistas e unidades da Força Aérea continuará a parecer, como parece agora, um acto de desespero político desnecessário e auto-destruidor.»

NO SEU EDITORIAL, o jornal parisiense Fígaro, destaca: «Duas interpretações dos acontecimentos são possíveis: ou a direita portuguesa é a mais idiota do Mundo, ou os «duros» do regime se comportaram com surpreendente maquiavelismo para eliminarem definitivamente os seus adversários da cena política.»

CÉSAR OLIVEIRA no seu livro Os Dias Decisivos:

O 11 de Março foi, penso eu, a tentativa bem sucedida para levar o general Spínola e os seus apoiantes para uma sublevação militar mal preparada, mal dirigida e com poucos apoios, de modo a evitar que a mesma ocorresse numa fase mais adiantada e segura de preparação.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira;
Os Dias Decisivos – César Oliveira

Legenda:
- cartaz da autoria de João Abel Manta

- Títulos de O Século de 13 de Março de 1975

sábado, 22 de fevereiro de 2014

OLHAR AS CAPAS



Os Anos Decisivos
Portugal 1962-1985
Um Testemunho

César Oliveira
Editorial Presença, Lisboa 1993

Em Cuimba pernoitámos após termos percorrido a escassa centena de quilómetros desde S. Salvador.
Procurei aí o tal capitão Ernesto Melo Antunes de quem, no calor de Luanda, o Assis Pacheco me falara.
Relativamente baixo e entroncado, óculos, sempre a fumar furiosamente cigarros de tabaco negro, recebeu-me com uma relativa desconfiança, até lhe começar dar algumas referências de que não podiam resultar equívocos ou incertezas. Abriu-se, então, num sorriso que simultaneamente envolvia os olhos e a boca, deixando apenas entrever os dentes, um sorriso «curto» e ao mesmo tempo franco e confiante, e na medida em que a nossa conversa progredia, manteve ainda esse sorriso. Para um canto do quarto (ou do gabinete?) que resguardava livros, e entregou-me para ler Les Damnés de la Terre de Frans Fanon – a «quase» Bíblia do anticolonialismo militante.
Lembro-me que lhe carpi mágoas, lhe falei de deserções que tinham ocorrido há pouco tempo,  mesmo ao lado do sector do nosso batalhão, no Luvo, com oficiais milicianos, um dos quais oriundo de Cabo Verde. Respondeu-me – naquele fim do mês de maio de 1964 – que o lugar dos antifascistas era nas Forças Armadas, que todas as possíveis mudanças políticas só poderiam vir dos militares que era necessário articular a sociedade civil com a militar em termos da ruptura com o regime e da construção da democracia. Olhei e ouvi, meio embasbacado, tanto me pareciam utópicas as palavras e os sonhos daquele capitão, o mais civil dos muitos militares que conheci.

domingo, 24 de abril de 2011

PORREIRO, PÁ!


Não choveu neste Domingo de Páscoa.
Não há matéria apetecível para o Porreiro falar com o Pá.
Após almoço familiar, estive a reler passagens de “Os Anos Decisivos” de César Oliveira, militante anti-ditadura, professor, deputado, Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital falecido em Junho de 1998.
O seu testemunho termina assim:

“Penso que somos cada vez mais um povo cinzento e mais baço, onde o oportunismo é favorecido, a partidocracia do laranjismo cavaquista gera medo, impotência e sobretudo a interiorização em muitos portugueses da pior das heranças do salazarismo: a cunha, a “pedinche” aos “senhores do poder, a subserviência perante o senhor ministro a que é sempre preciso dizer… sim, senhor ministro,
Crescemos economicamente, mas tudo ou quase tudo aquilo que é essencial num processo desenvolvimento harmonioso e integrado, que faça de cada homem o senhor da sua história e do seu destino, está por fazer. Deixámos até, muitos de nós, de ter a capacidade e a energia que leva à indignação e ao clamor colectivo que Humberto Delagdo, em 1958, no Porto, exprimiu lapidarmente ao gritar: “Estamos fartos! Cansaram-nos! Vão-se embora!”
Acredito, contudo, na capacidade de darmos colectivamente as mãos, de unirmos esforços e vontades para vencer uma batalha que coincida com a necessidade de ganhar uma guerra: construir uma alternativa que relance, em cada um e em todos, a esperança na edificação de um futuro onde, como escreveu Manuel Alegre, “as mãos do homem tenham, exactamente o tamanho das mãos do homem”.
Eu… por mim continuarei a seguir as bandeiras vermelhas que comecei a erguer, quando vi Humberto delgado numa varanda do Hotel Astória, em Coimbra, junto ao Mondego, no ano já distante de 1958.”

César Oliveira, em Os Anos Decisivos