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quinta-feira, 11 de julho de 2019

PRAÇA DA CANÇÃO


No dia 2 de Maio de 1974 chegou do exílio, em Argel, bateu à porta do PS que lhas escancarou.
Com ele vinha outro exilado, Fernando Piteira Santos, a quem um dia perguntaram porque se não tinha filiado no Partido Socialista e aquele que perguntou, ouviu a resposta: “Porque sou socialista”. 

No prefácio à 2ª edição de Praça da Canção, Mário Sacramento lembrava  a  notícia-crítica que escrevera, em 1965:

«Não me levem a mal se, apoiado num livro que pode considerar-se de estreiam, me afortunar a dizer que com Manuel Alegre nasceu o maior poeta do neo-realismo português.»

Numa carta datada de 12 de Fevereiro de 1973, Carlo Vittorio Cattaneo  contava a Jorge de Sena:

«No encontro romano, Alexandre O’ Neill, aos que lhe pediam uma opinião sobre Manuel Alegre (que conta muitos admiradores em Itália) respondeu muito duramente que Alegre não é um poeta ou, no máximo, pode-se-lhe chamar poeta somente porque escreve versos. Você também é desta opinião? A resposta interessa-me precisamente por causa do sucesso que Alegre tem com os leitores italianos.»

Em carta, datada de 7 de Março de 1973, Jorge de Sena responde:

«O que o O’Neill disse do M. Alegre é a opinião que eu também tenho. Não direi que o homem não é poeta, mas é sem dúvida um poeta muito menor. Não entendo o sucesso italiano dele, a menos que seja pelo tom «popular» e «engagé» que ele mistura muito bem para cantigas à guitarra.»

Carlo Vittorio Cattaneo publicará em 1975 «La Nuova Poesia Portoghese» e em Janeiro de 75 lembra a Jorge de Sena: «Manuel Alegre, se bem que poeta medíocre, me serve como exemplo de poesia política.»

A antologia dos poetas traduzidos por Vittorio Catttaneo inclui Herberto Helder, Ruy Belo, Pedro Tamen, Manuel Alegre, Armando Silva Carvalho, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, Nuno Guimarães, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalhães, Nuno Júdice.

domingo, 23 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS


 Correspondência
(1969-1978)

Jorge de Sena
Carlo Vittorio Cattaneo
Edição: Mécia de Sena, Jorge Fazenda Lourenço e Joana Meirim
Tradução do italiano. Jorge Vaz de Carvalho
Guimarães Editores, Lisboa, Novembro de 2013

Lamento que V. não tenha recebido a sua bolsa (alguém a recebeu em vez de si?). e vejo que o encargo de organizar a biblioteca do Instituto é assim como um prémio de consolação (ao menos pagam-lhe). Quanto ao prémio de poesia… meu caro: os prémios de poesia só se dão aos consagrados, aos amigos dos consagrados, aos amantes ou às amantes dos consagrados e dos júris. E, para ser-se um consagrado e recebê-los, é preciso ou ser-se um milagre de diplomacia e de bonomia com os idiotas deste mundo, ou fazer parte da pandilha. Eu que o diga, que nunca concorri pessoalmente a nenhum, mas que várias vezes entrei em prémios a que os editores, concorriam, por mim. Há anos, não sei se lhe contei, apesar de oposições velhas de anos, e muita raiva surda, o Prémio Nacional do Diário de Notícias foi votado para mim (50 contos que me faziam um arranjo enorme, caríssimo) – não havia saída, eu ia ganhar… ah, havia uma saída, não podiam premiar-me porque sou cidadão brasileiro (e viva a dupla nacionalidade das pátrias irmãs… ) e não apanhei o prémio que foi para o sujeito que tem apanhado sempre (é a terceira vez) os prémios que me tiram, o Torga.

(Duma carta de Jorge de Sena, datada de 16 de Novembro de 1971, para Carlo Vittorio Cattaneo).

segunda-feira, 29 de abril de 2019

UMA QUASE INCAPACIDADE DE ESCREVER


Chegamos ao fim da Leitura da correspondência trocada entre António Ramos Rosa e Jorge de Sena.
É um livro admirável, comovente, acima de tudo pelas cartas escritas por António Ramos Rosa.
Ramos Rosa tinha uma profunda consideração e amizade por Jorge de Sena.
No Natal de 1975 manda-lhe um postal:

«Meu caro Jorge de Sena:

Escrevo-lhe estas duas linhas com as quais quero testemunhar-lhe toda a minha grande amizade que não quero seja silenciada de todo pela minha inércia ou quase incapacidade de escrever. Tenho livros meus para lhe enviar, o último da poesia completa, da Plátano, e um poema Ciclo do Cavalo, muito diferente do que tenho escrito até agora. Ter-lhe-ia enviado os anteriores da Plátano? Receio que, pelo menos, o Animal Olhar não tenha seguido.
Recomende-me à Mécia e creia-me sempre o seu amigo muito grato que muito o admira e estima

António Ramos Rosa»

De Jorge de Sena, não há mais cartas.
Apenas uma de Mécia de Sena, datada de 8 de Fevereiro de 1977, em que agradece a Ramos Rosa os livros enviados e aproveita para informar que «o Jorge vai arribando devagarinho.»
A 25 de Março de 1976 Jorge de Sena sofrera um ataque cardíaco.

O livro fecha-se com o cartão que António Ramos Rosa, e sua mulher Agripina, enviam a Mécia de Sena após a morte de Jorge de Sena ocorrida a 4 de Junho de 1978:

«Mécia, querida amiga:

Sentimos dolorosamente, que as palavras são inexpressivas.
Estamos consigo, profundamente.»

sexta-feira, 26 de abril de 2019

NOS TEMPOS EM QUE NÃO HAVIA GOOGLE...


Hoje, que temos na internet ferramentas que nos facilitam trabalhos, podemos pensar em todos aqueles que, em outros tempos, tinham imensas dificuldades para escreverem os seus artigos, as suas conferências, os seus livros.
Isso deveria levar-nos a ter ainda mais consideração por tudo o que nos deixaram.
Peguemos, por exemplo, na Correspondência trocada entre António Ramos Rosa e Jorge de Sena.
Numa carta, datada de 12 de Janeiro de 1974, Jorge de Sena pedia a António Ramos Rosa:

«E agora aproveito a oportunidade para pedir-lhe um pequeno favor, que se reporta às notas que já fiz para os novos volumes de traduções minhas de poesia, coligidas. É que não consigo de maneira nenhuma encontrar indicação de se o Pierre Jean Jouve e o Jacques Prévert ainda estão vivos, e, se morreram, quando foi; e dados biográficos (bibliográficos encontro eu) do Georges Hunet que foi membro do grupo surrealista e de cuja poesia gosto muito (onde e quando nasceu, se morreu e quando, etc.). Talvez V. me possa ajudar quanto a estas informações.»

António Ramos Rosa, fragilizado como quase sempre foi a sua vida, respondia-lhe em carta datada de 21 de Fevereiro de 1974:

Se não fosse o meu estado seria de facto indesculpável não lhe ter escrito há mais tempo para lhe fornecer as informações que me pedia sobre os poetas franceses, Não descurei o assunto, mas muito pouco consegui apurar ao certo. Nos meus livros, os únicos dados biográficos que consegui obter sobre Georges Hugner, foram os seguintes (em Le Surrealisme, de Robert Bréchon, ed. Armand Colin, pp 187 e 199 de uma Cronologia): a adesão em 1930 ao grupo surrealista, juntamente com Dali, Buñuel, Char, Sadoul; e a exclusão do mesmo em 1938, juntamente com Dali. É alguma coisa mas não encontrei o mais importante: nem a data do nascimento, nem a data da morte, se é que ele já morreu. Quanto aos outros, nada consegui saber ao certo: não me consta que tenham morrido, pelo menos o Prévert que, segundo me informaram, publicou há poucos meses um livro. Penaliza-me não ter obtido mais informações, mas não consegui, apesar de ter consultado todos os livros de que dispunha, meus e de alguns amigos. Não encontrei os de Maurice Nadeau, onde talvez se encontrassem mais dados biográficos sobre Georges Hugner.

domingo, 7 de abril de 2019

SE A MINHA VIDA NÃO FOSSE UMA DIFICULDADE...


Carta, datada de 18 de Janeiro de 1959, de Jorge de Sena para António Ramos Rosa.

Sena informa que envia um poema para ser publicado nos Cadernos do Meio-Dia, publicação não periódica dirigida por António Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Fernando Moreira Ferreira e Hernâni de Lencastre.

«Dos meus livros, só está esgotado Perseguição, embora os outros tenham levado mais ou menos sumiço, e eu não possua controlo da situação em que eles se encontram. Coroa da Terra foi editado por Lello & Irmão e ainda há alguns exemplares, que eu saiba. Juntamente lhe envio o exemplar da minha mulher para V. copiar dele o que quiser e mo devolver. Se a a minha vida não fosse uma dificuldade, teria o maior prazer em comprara um para lho oferecer
Quanto  à revista em que me fala, pela mesma razão não posso assiná-la. E colaborar regularmente também não posso prometer, esmagado como ando de encargos e compromissos.
Aqui lhe mando copiado o poema que me pede e é dos que não tiveram lugar em Fidelidade. Se possível gostaria de ver uma prova dele.
Abração com muita e grata estima o seu camarada

JORGE DE SENA

P.S. – O exemplar da Coroa, além do valor estimativo, é o único que possuo. Peço-lhe o maior cuidado no uso e na devolução dele.»

É este o poema publicado no nº 4 dos Cadernos do Meio-Dia, Fevereiro de 1959, poema incluído no Post-Scriptum de Poesia I (1961), com novo título:


 «Reconciliação».

DEPOIS DA ESPERANÇA, QUALQUER PAZ

Reconciliamo-nos sempre.
No fundo, e às vezes nem muito ao fundo,
a reconciliação nos espreita,
na mira da primeira fraqueza, da primeira humidade
de lágrima ou de sexo. Às vezes,
nem sequer disso: a poalha dispersa
que o sol define em branda agitação,
ou mesmo a própria luz num reflexo
(quanto mais breve e modesto melhor emociona)
lhe bastam.
Espreita-nos para que aceitemos, para que
pensemos noutra coisa ou nesse refúgio das pequenas coisas
que é, diz-se, não pensar em nada.
reconciliamo-nos pois. E amamos logo tudo,
ou, mais subtilmente, fingimos que do tudo
apenas uns sinais, algo de nobre
e muito humilde. Assim
como se a solidão se acompanhasse
de muitas outras reconciliações humanas, simultâneas,
paralelas, mas não connosco, de outrem.
Quase mais que a nossa própria nos espreita
a reconciliação, suposta apenas, de outros.

1958


Legenda: a capa de Coroa da Terra foi encontrada em gabrielagouveialivrosantigos.

terça-feira, 26 de março de 2019

FARTO DE COISAS NECROLÓGICAS


Carta de Jorge de Sena, datada de 28 de Setembro de 1958, para António Ramos Rosa:

«Eu não gosto de escrever postais, porque me parecem uma desculpa para as cartas que não escrevemos; e cada vez tenho menos tempo para escrever cartas, o que tanto gosto de fazer e não posso.»

Em carta anterior Ramos Rosa tinha pedido a Sena que lhe enviasse colaboração para os Cadernos do Meio-Dia. Lembrava que o nº 3, a sair em Outubro de 1958, seria dedicado à memória de Afonso Duarte:

«Não lhe mando poema para o número do Afonso Duarte, porque já me vou pessoalmente fartando dessas coisas necrológicas em que tenho passado a vida a participar.»

Em Correspondência

Legenda: Afonso Duarte

sábado, 16 de março de 2019

PROVEITOSOS CENÁCULOS


Carta, datada de 31 de Dezembro de 1955, de Jorge de Sena para António Ramos Rosa:

Bem sei que não ando a salvar a Pátria ou a renovar a Literatura pelos cafés da Capital, que sempre nos absorvem, no afã de ver-se muita gente; mas também me parece que lhe dei sempre um pouco mais de confiança do que a que costuma ser colhida e recebida nesses proveitosos cenáculos. Se lhe digo isto, meu caro, é porque V. já sabe que eu digo mesmo tudo, quando acho que as pessoas ainda merecem ouvir.
Que tem feito? Que projecta? E aqui me tem a a gradecer-lhe as Boas-Festas e a desejar-lhe para o Ano Novo quanto razoavelmente deseje.

Em Correspondência

terça-feira, 5 de março de 2019

NÃO ESTOU EM CONDIÇÕES DE RECUSAR



No tempo da ditadura, as grandes dificuldades de alguns escritores: perseguição política e, dadas as posições contra Salazar, impedimentos vários de obtenção de trabalho que permitisse a sobrevivência.

Carta de António Ramos Rosa, datada de 30 de Outubro de 1954, para Jorge de Sena:

«Arranjei, finalmente, uma tradução dum livro de capa e espada, dos Livros do Brasil. 300 páginas para eu resumir 200 e apresentar no prazo dum mês – 1.000$00.
Diga-me se é mal pago, para começar. Certamente é pouco, mas eu não estou em condições de recusar.»

Jorge de Sena, carta datada de 28 de Novembro de 1954, responde a António Ramos Rosa:

«Ainda bem que V. arranjou uma tradução; que, nessas massas, o essencial est´+a em começar a meter a mão.» 

Em Correspondência

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

FAÇO-ME COMPREENDER?


Carta de Jorge de Sena, datada de Lisboa 11 de Outubro de 1953, para Ant´nio Ramos Rosa:

Meu caro Ramos Rosa

Não, não acho que V. seja um «chato». Pelo contrário, agrada-me tanto que apelem para mim! Agrada-me tanto poder ser útil ou agradável por pouco que seja! E aqui tem também V, como eu também sou: fiquei-me embevecido no agrado do apelo e, disperso pela minha vida (o seu postal apanhou-me até ausente no Porto, em serviço), não acudi e era o que quereria, mais o que devia. Perdoa-me V. o silêncio e a demora? E está V; melhor?
Por este correio, seguem o último número da Critique e o livro do Caillois, em que V, fala, e que tenho em espanhol por sinal (para o caso tanto faz).
Não, Rosa, eu não assino nada (nem pude ainda renovar a assinatura da Critique), e mal compro um livro – se o dinheiro nem me chega para eu e a família passarmos ao mês seguinte! Não tenho o Frénaud em que me fala também. O livro do Monnerot chama-se Les faits sociaux  ne sont pas des choses – é de muito interesse, mas não o tenho também.

Noutro passo da carta, sena escreve:

Porque, meu caro Rosa, não só com poemas nunca ninguém ganhou a vida, mas, bem pior que isso (visto que nos deveria assistir o direito de não a ganharmos…), se perde a independência perante a realidade, que, em si mesma e sem nós, não é poética. Faço-me compreender? E vai longe o tempo dos Mecenas e das princesas de Thurn e Taxis emprestando castelo aos Rilkes.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

SOU UM CHATO MUITO GRANDE!


Em carta, datada de 30 de Julho de 1973, Jorge de Sena, sobre os números da Critique, responde a António Ramos Rosa:

Por este correio seguem 8 números da Critique (7 fascículos – Junho 1952 a Janeiro 1953). Daí em diante estão emprestados ao Casais Monteiro; e daí para trás, suponho que são os que V. leu. Não são uma dádiva celeste que lhe faço – é um empréstimo que repito com gosto. E deixe-me dar-lhe um conselho (não se zanga?) – não se confine aos artigos exclusivamente literários. Um dos meus maiores receios em relação ao desenvolvimento daquele, para todos os efeitos. Mais novos, é que se confinem demasiado ou na poesia (que mata tudo) ou no «letrismo» (que não mata nada, o que será ainda pior). Os ângulos de compreensão que uma cultura variada permite sobre a vida podem muita vez salvar-nos do desespero que sempre nos acompanha por um caminho demasiado único.
Que ideia a sua! – então eu não lhe responderia, porque a sua resposta não «correspondia» não sei quê de belo e grande que lhe escrevi. Nunca V. deixe que a solidão se apodere de V.: apodere-se V. dela, que é seu dever de poeta ( e dê de comer à sua águia… em vez de o dar aos macacos do sótão… - eu sei que a águia já não  se usa, mas ainda serve).

Jorge de Sena envia ainda um P.S.:

Trate-me as revistas com estimação, sim? Sou, de facto, um «chato» muito grande – tenha paciência.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

SOMOS TÃO HIPER-SENSÍVEIS!


Aquando do lançamento das Leituras com a Correspondência entre António Ramos Rosa, referia a comovedora humildade de António Ramos Rosa, um homem tão amável como a sua poesia, e encontro em Eduardo Lourenço a afirmação que remete para a ética do pudor de António Ramos Rosa.

Na resposta ao envio dos livros feito por Ramos Rosa, Jorge de Sena, em carta datada de 26 de Dezembro, atalha:

«Simplesmente, perdoe-me V. que lhe chame a atenção, não chegou tudo. Creio que V. ainda tem os Mythes et Porttaits do Groethuysen e alguns números da Critique, o nº 51-52 e o nº 54 (embora eu suponha, mas não esteja certo, de que um destes dois, um só, não lhe emprestei a si. Pelo menos isto, porque não encontro uma das listas, que é a segunda. Mas io que for o poderá V. saber tão bem, ou melhor do que eu, como é o caso.. Não leve a mal o que lhe estou escrevendo, mas há-de concordar comigo que tenho. Com a demora e o com o silêncio, sobretudo com este último, uma certa razão de queixa. E razãp tanto maior quanto poucas pessoas terá V. encontrado que tão liberalmente se disponham a emprestar livros, em qualidade e em quantidade, às outras pessoa que lhes mereçam consideração e estima, Não será assim?  E precisamente porque tenho a consciência limpa neste ponto é que lhe falo francamente. Espero que – e tenho o direito de esperar – qualquer que possa ser momentaneamente a sua reacção (somos sempre tão híper-sensíveis todos, sobretudo quando sabemos que não temos inteira razão) não reatará o silêncio anterior.

Em Correspondência

Legenda: Jorge de Sena

domingo, 28 de outubro de 2018

LEITURAS


No dia 21 acabámos de percorrer O Livro dos Salmos de Mário Castrim.
No seu lugar irá surgir a Correspondência trocada entre António Ramos Rosa e Jorge de Sena.
Jorge de Sena é o escritor que mais livros publicados tem de correspondência trocada com os seus pares.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

ESTOU FARTO DESTA AMÉRICA


Carta de Jorge de Sena, datada de 22 de Dezembro de 1972, para Sophia de Mello Breyner Andresen:

Estou a cerca de um mês de partir para a Inglaterra, no meu «tour» de conferências por várias Universidades, para maior glória de uma pátria vil, que em lugar de se honrar com isso, se rói da inveja de que sempre viveu a sua mesquinharia. Irei também a Paris, a Rennes e a Bruxelas. E só voltarei em fins de Março. Pelo menos respirarei Europa, farto que estou desta América que perdeu o último comboio da decência e da dignidade. E vê como são as coisas… Ma Alemanha, 95% dos eleitores que são 80% da população compareceram às urnas; aqui só apareceram a votar (por demissão, desespero sem saída, canalhice reacionária, etc.) 53% de um eleitorado que é 75% da população – e cerca de 60% daquilo reelegeu o Imperador (mas não lhe deu e até diminuiu, o que já era minoria dele no Senado e na Câmara, valos lá), o que significa que S. Excia foi eleito por 24% da população, nada mais… E viva da democracia liberal – o pior é que ainda não se inventou outra coisa melhor, embora seja a pior possível. Como se vê, os outros 29% votaram contra, e 50% ficou em cada a ver televisão e a comer o  a sanduiche da deseducação política. Mas não fazes ideia da ignorância do mundo em que esta população é mantida – e os milhares  que o têm visto não são suficientes para mudar as coisas.

Em Correspondência

Nota do editor: o Imperador referido por Sena é Richard Nixon.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

AS PESSOAS DESAPARECEM


Carta de Jorge de Sena, datada de 9 de Janeiro de 1968 para Sophia de Mello Breyner Andresen, e em que lhe transmite os sentimentos pelas mortes da mãe e do irmão:

… a morte súbita de seu irmão me chocou; a de Sua Mãe, como me conta, foi apesar de tudo uma coisa diferente, se a morte é diferente de si mesma alguma vez. A impressão que cada vez mais tenho é a de que, de certa altura em diante, na vida, nós começamos a viver como o Rilke diria que os anjos se sentiam: sem saber se estamos entre vivos ou entre mortos, porque as pessoas desaparecem, transformam-se em memória, e a gente vai ficando numa cada vez mais estranha irrealidade em que a maioria dos vivos não faz parte do nosso mundo que atravessam como espectros secundários, enquanto o espaço vazio se acumula de espectros autênticos que precisamente são os que deixaram de existir.

Em Correspondência

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O PRÉMIO QUE VOCÊ ME ARREBATOU...



Numa carta para Sophia, datada de 12 de Julho de 1964, Jorge de Sena continua a manifestar a sua falta de tempo para escrever aos amigos e felicita Sophia pela atribuição do Grande Prémio de Poesia ao Livro Sexto.

… E também para felicitá-la pelo prémio de poesia, que Você me arrebatou… (É uma maneira de dizer, porque aquele júri com alguns comunistóides jamais me premiaria, porque me recusei terminantemente, há muito, nas manobras internacionais «deles», a ser rentável). Eu não esperava ganhar; mas agente sempre acredita em em milagres, por mais céptico que seja. E o meu livro, pelo menos ao que alguns me dizem e eu penso, é uma espécie de milagre. E, a não ganhar eu, desejava ardentemente que ganhasse a Sophia que eu estimo e considero, e não alguns que fazem os versos que eu desdenhei de fazer. Foi isso mesmo o que aconteceu. Para falar francamente, Sophia, eu não acredito que esses sujeitos a admirem sinceramente, e a tenham premiado (uns dois deles, pelo menos) com honesta consciência. Essa gente apenas faz com os vivos, ou tenta fazer, o que tem passado a vida a fazer com os AQUILINOS mais ou menos moribundos. Mas que, neste caso, tenha havido coincidência num nome que é dos maiores da poesia portuguesa contemporânea, eis o que pode considerar-se uma justiça que eles praticaram por coincidência. Isto não significa que eu me tenha convertido ao anti-comunismo de indústria; mas que cheguei à conclusão que nada se pode esperara deles, porque lhes falta o mínimo de ética, para lidarem com pessoas decentes. Sempre os achei assim: mas, às vezes as conveniências forçam uma certa honestidade… e já lhes passou a oportunidade, ou, melhor dizendo, esse oportunismo. Deixemos isso. Mas quero que saiba a que ponto me alegrou que o prémio tenha sido seu.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

PORTUGAL NÃO PRECISA DE SER SALVO


Só a 20 de Dezembro de 1962 Jorge de Sena consegue responder às cartas que Sophia lhe foi enviando. E explica-se:

Perdoe-me, se pode o meu silêncio. Mas eu não sei que fazer para aguentar o trabalho incrível que é cada vez mais vai sendo o meu. Todos os dias penso nas cartas que preciso de escrever àqueles que estão presentes no meu coração; e todos os dias sucumbo ao peso das urgências atropeladas de tudo o que tenho aceitado fazer. Se, nestes últimos meses, eu não estivesse livre da Direcção do Curso de Letras de que me demiti, não sei como estaria vivo…
(…)
Não foi, pois, por desinteresse que tenho estado calado, mas por humana impossibilidade. Espero que esta carta lhe chegue às mãos e se lhe demore nelas. Nunca imaginei que a PIDE se tentasse com os meus autógrafos…. Resta-me a consolação de pensarmos que ficaram sabendo o que já sabiam ou o que até bom seria que soubessem. A minha posição política continua inalterável: não tenho, e não terei nunca (a menos que me filie em mim mesmo), filiação partidária. Penso que a unidade de todos é a suma necessidade; mas reconheço que é impossível colaborar com a mediocridade invejosa, que é a dos nossos políticos, desde a clandestinidade em que mesmo no exílio se comprazem os comunistas, até ao Palácio de São Bento. Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo. Porque estará sempre perdido como merece. Nós todos é que precisamos que nos salvem dele. Mas sabe que não há maneira fácil?

sábado, 14 de outubro de 2017

QUASE TUDO ME NÃO MERECE


Carta de Jorge de Sena, datada de 2 de Abril de 1961, Domingo de Páscoa, para Sophia  onde lhe agradece as palavras que lhe dirigiu sobre a Poesia I e Novas Andanças do Demónio:

Eu não sei, Sophia, aí quase tudo me não merece. Mas o que lhe garanto é que, aqui, também não nos merecem. Temos por cá o mesmo carreirismo torpe, cuja virtude é ser representado em descarado makebelieve. E, quase definitivamente, ninguém culturalmente se interessa por nós. Respeitam-me, estimam-me ou admiram-me, pelo que publico e faço; mas ninguém busca ler ou conhecer o que publiquei ou fiz – e isto sucede com nós todos. Se eu ler poemas seus, como já li em público, as pessoas gostam e admiram. Mas não se dão ao trabalho, sequer, de pedir-me os seus livros para a lerem como nunca me pediram os meus. Eu sou o grande escritor, aquele sujeito formidável que fez e faz conferências esplêndidas, escreve belos artigos no estado de São Paulo, é astro de congressos… e aqui a coisa acaba. Nós não existimos para eles, de resto, culturalmente, poeticamente, nada existe: tudo é literatura Os estudos de literatura brasileira enchem tudo, envenenam tudo. Acha a Sophia que nós existiríamos culturalmente, se tivéssemos a vida desenterrando e admirando as belezas supremas dos poetas portgueses de 20ª categoria, por exemplo, os ultra.rmânticos do Trovoada, do Gonçalves Crespo, qualquer texto que se imprimiu na Bahia, em 1750? É o que, equivalentemente, aqui se faz. E a vibração poética, dramática, angustiosamente metafísica, que faça o melhor dos nossos versos, como ser apreciada bem, se acab equiparad a um soneto de Bilac? A grande vantagem, aqui, é haver condições de trabalho para fazermos a nossa obra, sem nos intrometermos se não abstractamente nesta pandilha literária que, assim nos não incomoda. Mas sabe V. que, há meses, quando fui elevado a secretário-Geral do Congresso da Crítica, houve tumultos ocultos, porque sou estrangeiro?! Pois houve.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

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Chegou ao fim a viagem, iniciada a 27 de Janeiro, por algumas das cartas trocadas entre Eugénio de Andrade e Jorge de Sena.

Graças ao trabalho de sua mulher, Mécia de Sena, Jorge de Sena será o escritor português que mais livros publicados tem da correspondência que, ao longo da vida, trocou com os seus pares.

Será a Correspondência que Sena trocou com Sophia de Mello Breyner Andresen que nos acompanhará por algumas semanas.

Jorge de Sena escrevia muitas cartas, mas Sophia, numa sua carta a Sena, diz:

«Desculpe o longo silêncio: você sabe que eu tenho a maior vocação para falar ao telefone e nenhuma vocação para escrever cartas.»

Maria Andresen de Sousa Tavares, filha de Sophia, sublinha, no prefácio ao livro desta Correspondência:

«… a importância da preservação e edição deste tipo de escrita pois, como se sabe, quer o género epistolar, quer a forma de comunicação por carta morreram.»

José Saramago insistia muito que a obra completa de um escritor só estaria completa publicando-se a sua Correspondência, e «realmente completa» quando se publicar uma selecção das cartas dos seus leitores. 

UM NATAL EM QUE NÃO ACREDITO


Carta de Jorge de Sena, datada de 24 de Dezembro de 1960, para Sophia de Mello Breyner Andresen:

Querida Sophia

É noite de natal, de um Natal em que não acredito, mas desejaria verdadeiro, por conta de uma humanidade que, cada vez mais, considero irremediável na sua maldade. E cada vez mais acredito que nada subsiste senão, para além de tudo, a confiança que só a amizade dá a um desesperado amor pela humanidade que, afinal, amorte, um dia, tornará perfeitamente inútil. Por isso, aqui estou com a Mécia, a mandar-lhe, e ao Francisco, para todos vós, as mais afectuosas lembranças e os desejos de Ano Novo feliz.

Neste silêncio de mais de um ano, em que não soubemos se não indirectamente uns dos outros, e em que um trabalho terrível me isolou de tudo (aproximando-me de todos, como nunca) sempre VV. estiveram presentes no meu espírito. Mas que tem a Sophia feito, que tem publicado? E o Francisco o que tem feito? E que tem feito e vos tem feito a vossa vida? Escrevam, dizendo e contando, de Portugal não vos pergunto que sei, talvez, dele mais aqui que vós podeis saber aí.

domingo, 17 de setembro de 2017

A JORGE DE SENA, NO CHÃO DA CALIFÓRNIA


No dia 25 de Março de 1976 sofre um enfarte de miocárdio.
Ainda vem a Portugal entre 3 e 17 de Maio e de 3 a 20 de Junho de 1977. Neste segundo período, esteve em Coimbra, a 7, na Guarda entre 10 e 11 para as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidade Portugueses, em que discursou, e no Porto, entre 15 e 17 de Junho.
Jorge de Sena adoece, gravemente, no início de 1978, com cancro., vindo a falecer no dia 4 de Junho.

Carta de Eugénio de Andrade, datada de 5 de Ju8nho de 1978, enviada a Mécia de Sena:

Querida Mécia:

Aqui me tem, quase sem palavras, só para um abraço emocional, e não só pela perda do Jorge – um dos raros portugueses universais do nosso tempo, que nos morre, como já tive ocasião publicamente – mas também por si.
Disponha de mim para o que necessitar e, quando tiver ocasião, diga-me se o Jorge ainda recebeu a minha última carta quando soube da gravidade da sua doença, pois depois de a ter metido no correio verifiquei que não indiquei o número que se segue a Califórnia.
Grande abraço do seu, afectuosamente

                                                                           Eugénio de Andrade

Carta de Eugénio de Andrade, datada de 9 de Outubro de 1978, para Mécia de Sena:

Querida Mécia:

Aqui vai o poema sobre o Jorge. Quero que V. seja dos primeiros leitores destes versos.
Junte-lhe as saudades e um grande abraço


A JORGE DE SENA, NO CHÃO DA CALIFÓRNIA

É por orgulho que já não sobes
as escadas? Terás adivinhado
que não gostei desse ajuste de contas
que foi a tua agonia?
É só por isso que não vieste
este verão bater-me à porta?
Não sabes já
que entre mim e ti
há só a noite e nunca haverá morte?

Não te faltou orgulho, eu sei;
orgulho de ergueres dia a dia
com mãos trementes
a vida à tua altura
-mas a outra face quem a suspeitou?
Quem amou em ti
o rapazito frágil, inseguro,
a irmã gentil que não tivemos?

Escreveste como o sangue canta:
de-ses-pe-ra-da-men-te.
e mostraste como não é fácil
neste país exíguo ser-se breve.
Talvez o tempo te faltasse
para pesar com mão feliz o ar
onde sobrou
um juvenil ardor até ao fim.

No que nos deixaste há de tudo,
desde o copo de água fresca
ao uivo de lobos acossados.
Há quem prefira ler-te os versos,
outros a prosa, alguns ainda
preferem o que sobre a liberdade
de ser homem
foste deixando por aí
em prosa ou verso, e tangível
brilha
onde antes parecia morta.

Às vezes orgulhavas-te
de ter, em vez de uma, duas pátrias;
pobre de ti: não tiveste nenhuma;
ou tiveste apenas essa
que te roía o coração
fiel às palavras da tribo.

Andaste por muito lado a ver se o mundo
era maior que tu - concluíste que não.
Tiveste mulher e filhos portugueses
repartidos pela terra,
e alguns amigos,
entre os quais me conto.
E se conta o vento.

                                                                             Agosto de 1978
                                                                    Eugénio de Andrade