sábado, 31 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Todos os anos as mesmas palavras.
A velha senhora ao balcão do Café do Paulo:

Não se pede grande coisa: trabalho e saúde!

SARAMAGUEANDO


José Saramago, na noite de 31 de Dezembro de 1994, em Lanzarote:

A noite de Lanzarote é cálida, tranquila. Ninguém mais no mundo quer esta paz?

Legenda: fotografia de João Francisco Vilhena

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Avenida João XXI.

O DESTINO A REVELAR-SE


Fora do Mills Tavern o termómetro arrastava-se quase até aos vinte e três graus negativos. A minha respiração congelava no ar mas não sentia o frio. Eu ia em direcção à luz fantástica, não havia dúvida. Será que me tinha enganado? Provavelmente não. Não me aprece que tivesse imaginação suficiente para estar iludido; também não tinha falsas esperanças. Já tinha passado por muitas coisas e visto muitas outras. Mas agora o destino ia revelar-se. Senti que estava a olhar directamente para mim e mais ninguém.

Bob Dylan em Crónicas

FIM DO ANO VERMELHO


ADEUS AO VELHO ANO


Dizem que é uma canção sobre velhas amizades.
Em alguns filmes americanos, por exemplo, O Apartamento de Billy Wilder com a Shirley MacLaine e o John Lemmon, surge como uma canção do aproximar da última badalada da meia-noite.
Nunca entendi muito bem, pois diz que os velhos conhecidos devem ser esquecidos, ou se os esquecemos devemos recordá-los.

Um Bom Ano de 2017, para todos.



                                          

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Avenida de Roma.

A ESCUTA


Aprendi com o fado a despedir-me, a partir e a regressar, por saber e sentir que tenho um lugar marcado onde sei que me encontro, a bem ou a mal, num espaço sagrado e vital e, por isso, inviolável. Nele descubro que do luto se renasce e que de amor nunca morri. Esta é a minha fortaleza redentora, ora consoladora, ora agreste, ser fadista. E é meu desejo que vos sirva de alguma coisa: a escuta.

Aldina Duarte

QUARTO POEMA DE A MORTE DE DEUS


Calava toda a esperança.

Dizia: não há tempo
não há espaço não há mudança.
Como se fosse Deus.

António Rego Chaves em Três Vezes Deus


Nota do editor: o primeiro poema está publicado em Dizendo-me Aqui Estou

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


A arte é um dos meios que une os homens.

Leon Tolstoi

Legenda: imagem encontrada em Promosaik

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Iluminações na Avenida Guerra Junqueiro.

CORREIO DE LIXO


O Sarzedas abria com vagares de velho a porta do seu gabinete no rés-do-chão e recolhia uma ou outra carta que ainda lhe iam metendo na caixa do correio. Contas, circulares da Ordem dos Advogados. Correio de lixo. Sentava-se na cadeira de espaldar depois de correr um pouco as persianas. Parava. Estava cansado. E punha-se a escutar o tropel das mulheres eternamente despenteadas mesmo que de cabelos demasiado curtos.

Alexandre Pinheiro Torres em Vai Alta a Noite

OLHAR AS CAPAS


Borno To Run

Bruce Springsteen
Tradução: Maria do Carmo Figueira e João Reis
Capa: Jackie Seow
Elsinore, Lisboa, Setembro de 2016

Nasci numa cidade à beira-mar onde quase tudo é contaminado por uma certa dissimulação. Incluindo eu. Aos 20 anos, sem qualquer espírito de rebeldia materializada em corridas louca de carros, tocava guitarra nas raus de Asbury Park e já era um membro de pleno direito do grupo dos que «mentem» a bem da verdade… artistas, com A pequeno. Mas tinha quatro grandes vantagens: Era jovem, tinha quase dez anos de experiência em bandas de bares de má reputação, um bom grupo de músicos meus conterrâneos, habituados ao meu estilo, e uma história para contar.
Este livro é, ao mesmo tempo, uma continuação dessa história e uma tentativa de descoberta das suas origens. Assumi como parâmetro os acontecimentos da minha vida que acredito terem dado forma a essa história e à minha vida como músico. Um das perguntas que os fãs me fazem vezes sem conta é: «Como é que ocas assim?» Nas páginas que se seguem vou tentar explicar como e, mais importante ainda, porquê.

A BEBER CHÁ E A OUVIR RÁDIO


Fiquei ali sentada durante muito tempo a beber chá e a ouvir rádio. Felizmente parecia que as canções tinham sido escolhidas sem qualquer ligação entre elas. Primeiro uma versão de ‘White Wedding» por uma banda sérvia de punk puro e
Duro, depois o Neil Young a cantar Ninguém sai vencedor, é a guerra do homem contra o homem. O Neil tem razão, ninguém ganha nada, ganhar é uma ilusão, essa é que é a verdade. O Sol estava a pôr-se. Para onde foi o dia? Subitamente lembrei-me de como uma vez o Fred encontrou um gira-discos portátil no armário de uma cabana que tínhamos alugado no norte do Michigan. Quando o abriu, havia no prato um single, «Radar Love», Uma canção de telepatia amorosa dos Godden Earring que parecia falar do nosso longo namoro à distância e do magnetismo que nos juntou. Era o único disco que havia e nós tocámo-lo vezes sem conta.

Patti Smith em M Train

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira 

ILUMINAÇÕES DE NATAL


A árvore de Natal do Café Império.

O ÚLTIMO POEMA


 Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira em Obras Poéticas

OLHAR AS CAPAS


Astrónomos Portugueses

Pedro Alvim
Capa: José Araújo
Editorial Caminho, Lisboa, Julho de 1978

Como quem acende o bico do esquentador, e abre a torneira do lavatório chamando a água quente – assim o começo das manhãs. O dia era sempre uma palavra de ordem, uma toalha molhada pelos olhos, um pente correndo os cabelos… O dia, primeiras horas logo, era o ambiente a modificar: eles sabiam das sílabas mal colocadas, das vogais que não riam um acento agudo, do til ondulado sem expressão de voo. Uma outra estrofe, um outro sentido. Esta, este:
«É verdade que, em toda a nossa história, houve sempre portugueses que, por espírito mesquinho de classe, estiveram de cócoras diante do estrangeiro, prontos a sacrificarem os interesses da Pátria a interesses não nacionais. Todos nós conhecemos os nomes de tais homens, e execrámo-los. Durante séculos e séculos, como bicho dentro da maçã, o partido castelhano corrompeu e desfibrou o País até o levar aos opróbrios de 1580; mais perto de nós, foram os integralistas (ora de imitação francesa, ora de figurino germanófilo e nazi) que se entregaram à mesma tarefa. Hoje, erguem-se vozes a cantar loas à Europa – não à Europa dos trabalhadores, claro, mas à Europa dos monopólios e das sociedades multinacionais. Ontem, houve quem servisse Castela contra a arraia miúda; hoje há quem deseje colocar as classes laborais portuguesas na situação de fogueiras da fornalha da Europa capitalista…» (1)
Interrogavam-se:
«Alguém um dia falará assim?»
Respondiam:
«Certamente que sim!»
«E se vier a traição e calar estas palavras…?»
Como quem acende o bico do esquentador, e abre a torneira do lavatório chamando a água quente – assim a circulação das palavras certas no começo das manhãs invertas.


(     (1) -Vasco Gonçalves, «Discurso de Almada», Agosto/75

DOS PINGOS DA CHUVA NO CALCÁRIO DOS PASSEIOS


E sempre a avançar sem se demorara em lado algum, nem na montra de uma loja nem em cumprimentos de esquina ou pequena conversa de bairro. A sua figura alta, de passos longos e firmes, era extremamente agradável à vista e vi, eu vi, muitas vezes, pessoas a olhar para ele. Ele a passar e alguém a reparar. Depois, lá regressava a casa, à hora do almoço. E terminada a refeição lá ia outra vez para o liceu e no fim da tarde voltava. Sempre a pé. Sempre e sempre a pé fizesse frio ou calor, fosse noite ou fosse dia. Rómulo evitava os transportes públicos, não tinha automóvel nem sequer carta de condução. Percorreu quilómetros sem fim nesta cidade de Lisboa para todo o lado onde podia deslocar-se a pé.
Houve um período em que todos os domingos da parte da tarde saía com a sua máquina fotográfica a tiracolo. Demorava-se umas horas. E um dia, apareceu publicado um grande livro, um álbum chamado Memória de Lisboa. Entre tantas das suas notáveis e diversas atividades, Rómulo foi também fotógrafo amador e, da cidade de Lisboa, que tanto amou, desde a Sé à Torre de Belém, de Alcântara ao cais das Colunas, guardou todas as imagens possíveis do seu rio Rejo. Das ruas, de monumentos, de pormenores, de pessoas, da luz de todos os dias, dos pingos da chuva no calcário dos passeios.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Se eu fosse cego amava toda a gente.

Almada Negreiros

OLHAR AS CAPAS


Os Meios de Transporte

Marta Cristina de Araújo
Desenho de Escher
Capa: Armando Alves
Colecção Pequeno Formato nº 40
Asa Editores, Porto, Março de 2004

À tua frente
silenciosamente
chegou o dia.

Já não vemos a cidade
o rio que passa perto
os amigos vozes barcos
confundidos na distância

Basta uma porta de exílio
todo o mundo lá ficou.
Onde longe sem fronteira
morta a memória da estrada?

Agora  nada nos prende
Ninguém nos espera mais:
No abandono dos outros
Deixámos o nosso amor

- resto de pão dividido
cada metade é a fome.
Conheço velha a que trouxe
levo comigo a que dou.

Ao teu lado
silenciosamente

chegou o dia.

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Iluminações da Avenida Almirante Reis.

OLHARES


Há 70 anos, no nº 30 da Avenida Guerra Junqueiro, a Mexicana abriu portas.

Um dos símbolos das Avenidas Novas, zona-menina-bonita dos olhos do salazarismo.

Uma lindíssima casa, concebida e decorada com gosto, o charme dos anos 50/60, mas que nos últimos tempos tem sofrido diversas alterações que não a beneficiaram, bem pelo contrário.
  
Não houvesse a circunstãncia de estar considerada com imóvel de utilidade pública, e o crime seria bem mais desastroso.

A Praça de Londres, a Avenida de Roma, chegaram a constituir uma respeitável concentração de cafés e pastelarias.

Desse conjunto resta a Mexicana e, já perto da Avenida dos Estados Unidos, o Vá-Vá e a Luanda.

Tudo o resto, pelos motivos mais diversos, fechou portas.

É assim que se envelhece…

Não havia ida ao Cinema Star ou ao Cinema Londres sem uma paragem, antes ou depois, na esplanada da Mexicana.

A efeméride é motivo para ir buscar um velhinho texto do Jorge Listopad:

Não sei porquê, mas habitualmente em Dezembro, a alguns dias ou semanas antes da ditadura directa do Natal, regresso, se possível, num dia solarengo, à Mexicana. Matar saudades? Saudades de quê? O repouso anual do guerreiro, nesse café arquitectonicamente, na sua época bem pensado (este ano um tanto restaurado e limpo), hoje o ninho da terceira idade com o passado modernista das Avenidas Novas. Portanto, acomodo-me, tomo a bica e “croissant perfeito, para depois continuar nesta balbúrdia entre Marks &Spencer e os livros da Barata. Muito a observar: a cidade.

A UTILIZAÇÃO DO TEMPO


A páginas 103 dos seus Papéis da Prisão, José Luandino Vieira, destaca uma citação de Baudelaire, tirada dos Jornaux Intimes:

«Só podemos esquecer o tempo servindo-nos dele.»

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



IVAN O TERRÍVEL NO ALENTEJO

Foi exibido pela primeira vez nesta aldeia
não longe do Torrão    onde nasceu Bernardim
Ivan o Terrível    O ecrã era um lençol enorme
estendido como um olho branco entre dois sobreiros


Os camponeses fitaram esse olho inquieto cheio
de sombras de lírios durante horas sem fim
Ou era que a eternidade concentrara
por detrás do pano o magnetismo do mundo


Muito mais tarde os camponeses regressaram
através da charneca    Com eles ia o olho branco
levando-os pela mão    E ajudava as crianças
a atravessar esperanças apenas de riachos


Chegaram por fim às suas cabanas    Tarde
E pela primeira vez os homens esperaram que as mulheres
se descalçassem e se lavassem da poeira
do caminho    Depois beijaram-lhes os pés


Os pares de namorados foram ainda procurar
résteas de um seco rio    Num pequenino charco
procuraram em vão rosto de Ivan    Mas ele ardia
alto e ardia ainda num céu de pano branco

Alexandrea Pinheiro Torres em Poemas Com Cinema, antologia organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queiroz, Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa Novembro de 2010

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Este ano, a estátua de Fernão de Magalhães, na Praça do Chile, não teve direito a iluminação natalícia.
Limitaram-se a colocar uns berloques nas árvores que circundam a praça.
A mesma sorte tiveram as árvores da Praça de Londres, já que a praça, há muito, que não tem cenário natalício.

POSSO TOCAR UMA COISINHA PARA SI?


Van Ronk olhou-me com curiosidade, foi repreensivo e arrogante, e perguntou-me se trabalhava como porteiro.
Respondi-lhe que não, nem pensar nisso e que podia esquecer essa ideia, e perguntei-lhe_ - Posso tocar uma coisinha para si? – Claro, respondeu.
Toquei-lhe «Nobody Knows You When You’re Down and Out». Dave gostou do que ouviu e perguntou-me quem eu era e há quanto tempo estava na cidade, depois disse-me que podia aparecer por volta das oito ou nove da noite e tocar um par de canções durante a sua actuação. Foi assim que conheci Dave Van Ronk.

Bob Dylan em Crónicas

Legenda: DaveVan Ronk



                                         


OLHAR AS CAPAS


Perdeu-se Uma Mulher

Raymond Chandler
Tradução: Mascarenhas Barreto
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 118
Livros do Brasil, Lisboa, s/d

- Miss Riordan goza, certamente, da sua inteira confiança.
- Ninguém goza da minha inteira confiança, Mrs. Grayle. Acontece saber alguma coisa do assunto… o que se sabe.
- Sim! – tomou um ou dois sorvos, depois esvaziou o copo num trago e pô-lo de parte. – Ao diabo com esta maneira delicada de beber – disse ela subitamente. – Vamos, mas é bater-nos com isto. Você é um homem simpático demais para essa espécie de vida!
- É uma profissão mal cheirosa – considerei.
- Não quero dizer isso. Ganha-se algum dinheiro… ou isto é uma pergunta impertinente?
- Não se ganha muito. Há muito trabalho mas também muita diversão. E há sempre a probabilidade de um caso grande.
- Como é que uma pessoa se torna detective particular? Não se importa que eu o avalie um pouco? E empurre-me essa mesa para aqui, sim?... para poder alcançar as garrafas.

domingo, 25 de dezembro de 2016

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Lisboa.
Praça Paiva Couceiro.

O QUE RESTA DO MEU SONHO AMERICANO


Hoje, dia de Natal (que notícia mais estranha, ouvida a olhar para o pinheiro), morreu a alegria ela mesmo, a melancolia ela mesmo, a esperança ela mesmo, a geometria exacta do lirismo: morreu Charlie Chaplin. Realmente, só faltava esta: morrer o Chaplin. Não era possível, realmente, descobrir notícia mais interessante, realmente, para dar no dia de Natal, do que nos virem dizer que morreu o Chaplin. O que vale, menino, é que já nada nos surpreende.
Cá por mim, íntimo de Charlot até à última costela, que passei com ele as passas do Algarve, já nem ligo. O meu amigo Charlie, ninguém o mata. É o matas. Seria matar esta gargalhada que ainda hoje dou, esta fraternidade de estar de pé, para estar de pé. Nisso, sou intransigente. Ninguém mata o Charlot porque não quero. Ninguém mata as luzes da cidade, ninguém mata as quimeras de oiro.
Estou aqui para defender esta ideia, defendê-la contra a morte. Nem que tenha de pedir a pistola emprestada ao Bogart, nem que tenha de não sei quê.
Porque é isto que resta do meu sonho americano.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas

A SUA MISSÃO DIZIA RESPEITO AOS VIVOS


- Minha gente – disse o Dr. Copeland, sem expressão, e depois houve uma pausa. E as palavras acudiram-lhe de repente:
É este o décimo nono ano em que nos reunimos nesta sala para celebrar o Dia de Natal. Foi uma época sinistra, aquela em que o nosso povo ouviu falar pela primeira vez do nascimento do Nosso Senhor. Os negros escravos eram vendidos na praça do tribunal desta mesma cidade. Desde então, temos ouvido e contado a história da Sua vida um sem-fim de vezes. Assim, hoje a nossa história vai ser outra.
Há cento e vinte anos, outro homem nasceu num país conhecido pelo nome de Alemanha… longe, do outro lado do oceano Atlântico. Este homem compreendia, tal como Jesus Cristo. Mas os seus pensamentos não estavam dominados pela ideia de céu, ou do destino dos mortos. A sua missão dizia respeito aos vivos. À grande massa de seres humanos que labutam e sofrem, e mourejam até à morte. Às pessoas que ganham a vida a lavar roupa, a cozinhar para os outros, a colher algodão, a trabalhar com as tinas de tinturas escaldantes nas fábricas. A sua missão dizia-nos respeito a nós, e o seu nome era Karl Marx.
Karl Marx era um homem de senso, um sábio. Estudou e trabalhou e compreendeu o mundo em que vivia. Disse ele que a humanidade estava dividida em duas classes, os pobres e os ricos. Por cada rico havia mil pobres que trabalham para o tornar mais rico. Não dividiu o mundo em negros e brancos ou chineses: segundo Karl Marx, ser um dos milhões de pobres, ou um dos poucos ricos, era mais importante para um homem do que a cor da sua pele. A missão da sua vida era tornar todos os homens iguais, e repartir as grandes riquezas do mundo de tal forma que não houvesse mais ricos nem mais pobres, e que cada qual recebesse a sua quota-parte dos bens do mundo. Eis um dos mandamentos que Karl Marx nos deixou: «De cada um segundo a sua capacidade, a cada qual consoante as suas necessidades.»

Carson McCullerrs em Coração Solitário Caçador

DIA DE NATAL


Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão em Poesias Completas

ENTÃO, É NATAL


O Prémio Nobel da Literatura 2016, visita-nos pelo Natal.


sábado, 24 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Aos amigos, a todos os que passam por este Cais, desejamos um Bom Natal.

Legenda: Adoração dos Pastores, pintura de Caravaggio

SÃO 10 DA NOITE. ESTOU A ESCREVER NO MONTE CARLO


São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o mundo.

João César Monteiro em Duas Semanas Noutra Cidade

Legenda: Café Monte Carlo. Fotografia tirada do blogue Restos de Colecção

ILUMINAÇÕES DE NATAL


Lisboa.
Rua Morais Soares.

OLHAR AS CAPAS


Contos de Natal

Charles Dickens
Tradução: Lucília Filipe
Colecção Mil Folhas
Público, Porto, Dezembro de 2002

- Feliz Natal, tio! Deus o salve! – gritou uma voz alegre. Era a voz do sobrinho de Scrooge, o qual se dirigiu a ele tão rapidamente que aquilo foi o primeiro sinal da sua aproximação.
- Bah! Disse Scrooge -, aldrabices!
Este sobrinho de Scrooge aquecera de tal maneira com a caminhada apressada pelo nevoeiro e geada que todo ele irradiava calor. O rosto era rosado e bonito, os olhos brilhavam e o seu hálito fumegava.
- O Natal é uma aldrabice, tio?! – disse o sobrinho de Scrooge. – Tenho a certeza de que não fala a sério.
- Falo – disse Scrooge. – Feliz natal! Que direito tens tu de te sentires feliz? Que razão tens para ser feliz. És muito pobre.
- Deixe-se disso – retorquiu o sobrinho jovialmente. – Que direito tem o tio de estar triste? Que razão tem para estar taciturno? É muito rico.
Scrooge, não tendo melhor resposta pronta de repente, disse «Bah!» outra vez e repetiu:
- Aldrabices!
- Não esteja zangado, tio! – disse-lhe o sobrinho.
-Que mais posso eu estar – objectou o tio -, vivendo num mundo destes? Feliz Natal! Deixa-te de Feliz Natal ! O que é para ti o Natal além da época de pagar as contas sem dinheiro, altura de dares contigo mais velho um ano, mas nem uma hora mais rico, altura de fazeres o balanço das tuas contas e teres cada parcela delas, em todos os doze meses do ano, com um saldo negativo? Se eu pudesse agir à minha vontade – disse Scrooge, indignado -, todo o idiota que anda para í com essa de «Feliz Natal» na boca devia ser cozinhado com o seu pudim e enterrado com uma estaca de azevinho espetada no coração. Isso é que devia!
- Tio! – suplicou o sobrinho.
- Sobrinho! – respondeu o tio asperamente. – Vive o natal à tua maneira que eu vivo-o à minha.
- Vive-o! – repetiu o sobrinho de Scrooge. – Mas o senhor não o vive.
- Então deixa-me não o viver – disse Scrooge – Vale de muito! Sempre te valeu de muito!
- Eu diria que há muitas coisas das quais talvez tenha tirado algo de bom e de que não tirei nenhum lucro – retorquiu o sobrinho. – Entre elas o Natal. Mas sei que sempre pensei no Natal – não falando na veneração devida ao seu sagrado nome e origem, se é que algo a ele ligado pode estar afastado dela -, pensei nele sempre como uma época boa; uma época de perdão, de caridade e de alegria; a única época de todo o ano, que eu saiba, durante a qual homens e mulheres parecem abrir, de comum acordo e livremente, os seus corações fechados e pensar nos que estão abaixo deles como se de facto fossem seus companheiros de viagem para a sepultura e não uma outra raça de seres destinados a outras viagens. E por isso, meu tio, ainda que ele não me tenha metido ao bolso uma só migalha de ouro ou de prata, acredito que me tem feito bem e me fará… bem e digo: bendito seja! 

ENTÃO; É NATAL!


Não há Natal sem música de Bach, dizia o meu pai.
Cantai, alegrai-vos, tal como se ouve na Abertura da Oratória de Natal.

Legenda: Adoração do Menino de Gerard Van Honthorst

                                        

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.

Sophia de Mello Breyner Andresen

ILUMINAÇÕES DE NATAL


Lisboa.
Avenida General Roçadas.

RECADOS


«Hoje na Sábado escrevo sobre Crónicas, de Bob Dylan (n. 1941), autor que corrobora o que a Antiguidade Clássica nos ensinou: todo o poeta é um cantor. Só um profundo desconhecimento do que é a poesia justifica a celeuma gerada em torno da atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Afinal, a poesia começou por ser cantada. Crónicas, agora reeditado, é o primeiro volume das memórias do homem que deveio porta-voz de uma geração. Começa com a chegada a Nova Iorque em 1961: «O que quer que eu andasse a fazer estava a dar resultado, e eu tencionava continuar assim. Sentia que estava a chegar a algum lado.» Numa prosa escorreita, Dylan descreve peripécias da sua vida pessoal, o quotidiano de Manhattan, em especial o milieu do Village, encontros com artistas e poetas, detalhes relacionados com a música que escreveu, política americana, o activismo de Joan Baez, retratos de terceiros, provocações dos media, como quando a revista Esquire publicou «um monstro de quatro caras» — a sua, misturada com as de Malcolm X, Fidel e Kennedy.» [Eduardo Pitta, no blogue Da Literatura, a propósito de crítica a Crónicas, de Bob Dylan, na revista Sábado, 15-12-2016]

De Bob Dylan, a Relógio D’Água publicou também Canções, volumes 1 e 2, e Tarântula.

Tirado do site da Relógio d’Água

JÁ NADA SERÁ COMO DANTES


Já nada será como dantes, diz ele, agora que se aproxima mais um Natal. Aliás vendo bem, há muitos, muitos anos, que já nada era como dantes. E, como sempre, nesta altura do ano, quando começam a acender-se as luzinhas das iluminações das ruas, quando as montras principiam a apelar ao consumo e as pessoas pensam em presentes, festas e reuniões familiares, abate-se sobre ele uma angústia grande, ao recordar outros tempos. Alguém poderia então perguntar: Que fizeste da tua juventude?
Os filmes da infância chegam-lhe à memória. As lágrimas com o Bambi, o divertimento com O Feiticeiro de Oz, a animação de tantas figuras criadas por Walt Disney, a começar num Pinóquio, que ele tinha lido primeiro em livro cartonado, oferta do primo coronel Bento Roma, que até agora tem nome de rua em Lisboa.
Mas, na infância, não eram os filmes que contavam. Era si, a grande família que re reunia, todos os Natais, no casarão da rua Direita, em Chaves. Era um peru cambaleante, bêbedo de jeropiga, nas escadas ao pé da cozinha, o fogão a lenha a brilhar, o cheiro dos doces, a árvore e um presépio e, tantas vezes, lá fora, neve a sério, para dar um toque naturalista. E canções, jogos, os sinos da Matriz a chamarem para a missa do galo.

Eduardo Guerra Carneiro em Outras Fitas

Legenda: pintura de Albrecht Durer

OLHAR AS CAPAS


A Menina do Mar

Sophia de Mello Breyner Andresen
Capa e ilustrações de Fernanda Fragateiro
Porto Editora, Lisboa, Novembro de 2015


- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
- Isso é por causa da saudade – disse o rapaz.
- Mas o que é a saudade? – perguntou a Menina do Mar.
- A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016