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sexta-feira, 17 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Não sou dos que se ofendem com a palavra «velho».

Gosto mais do que «idoso», ou «terceira idade».

A minha avó Brígida, amiúde, a propósito de tudo dizia: «velhos são os trapos!»

Pois é: mas estou velho.

E esse pormenor faz realçar, ainda mais, aquilo que sempre fui: um chato!

Talvez por velho e chato, não gostei da leviandade com que, primeiro-ministro e presidente da república, abordaram a entrada no terceiro estado de emergência que durará até ao dia 2 de maio.

Não gostei porque entendo - é provável que existam razões que não alcanço – que isso apela a um facilitismo que é provável que traga amarguras várias.

Desde que tudo isto começou, acordo de credo na boca e, no decorrer das restantes horas do dia, passo sérias dificuldades para, em cada poente, tentar esquecer as aflições e nem sequer estou a pensar, para já, na crise económica que se há-de abater aqui pelo pedaço.

A frase pertence a William Faulkner, mas não sei onde, agora, posso confirmar essa autoria:

"Dir-se-ia que o homem pode aguentar tudo,
até a ideia de que não pode aguentar mais."

Dizem que é importante dar confiança aos portugueses mas olha-se para Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna e dali pode sair tudo menos confiança.

Como música incidental do dia de hoje, a excpecional reinvenção do Concerto de Aramjuez de Joaquin Rodrigo, feita por Miles Davis.



1.

Mais de 52 mil pessoas já pediram subsídio de desemprego à Segurança Social desde o início do estado de emergência. o número de subsídios de desemprego atribuídos em Portugal pode aumentar 29%, para um total perto dos 230 mil beneficiários.

No final do ano de 2019 tínhamos uma taxa de desemprego de 6,5% e os recentes indícios fazem prever que o país pode atingir os 13,9%

2.

O Governo decidiu impor um limite máximo de 15% no lucro que pode ser obtido através da venda de dispositivos médicos e de equipamentos de protecção, como máscaras, álcool etílico ou gel desinfectante.
Na semana passada, a ASAE anunciou que tinha detectado uma empresa de venda de acessórios e reparações de telemóveis em Lisboa a comercializar álcool gel com margens de lucro que oscilavam entre os 300% e os 400%.

3.

Diário de Notícias e TSF, outras publicações da Global  Media entram em lay off a partir de segunda-feira.

4.

A Assembleia Geral anual da EDP aprovou a proposta da administração de distribuir um dividendo de 19 cêntimos brutos por acção, face ao ano de 2019, o que representa uma quantia total de 694,7 milhões de euros a ser paga aos accionistas.

O Sindicato do sector denunciou que a EDP tem colocado entraves à negociação da tabela salarial com os trabalhadores mas que em plena pandemia tem mais de 600 milhões de euros para distribuir lucros aos accionistas.

Também na Galp se perspectiva o pagamento de 318 milhões de euros em lucros aos accionistas. A mesma empresa, cuja Assembleia Geral reunirá a 24 de Abril, já despediu este mês, só na Refinaria de Sines, mais de 80 trabalhadores com vínculos precários.

5.

Psicólogos alertam para o risco de aumento do jogo compulsivo, consumo de álcool e tabaco.

6.

Até agora foram libertados as cadeias portuguesas 1.181 reclusos

7.

A frase é de Ferreira Fernandes:

«Um dos mais extraordinários fenómenos políticos dos tempos modernos é Donald Trump ser presidente da democrática América.»

Donald Trump está no fio da navalha pela falta de preparação, a plena desorientação revelada perante o Covd-19 e a tragédia que se abateu pelo país, e trata de acusar os jornais, rádios e televisões, os governadores dos estados, os congressistas democratas, a Organização Mundial de Saúde e vá de lhe suspender o financiamento.

O britânico The Guardian colocou em título:

«Trump volta-se contra a OMS para encobrir os seus imensos falhanços na crise da Covid-19»

8.

Os negros números:

Os Estados Unidos são actualmente o país com mais óbitos no mundo, cerca de 33 mil pessoas mortas. Em Nova Iorque já morreram 1.477 pessoas.

Na Europa a Itália apresenta 22.745 mortos, seguindo-se a Espanha com 19.613 mortos, a França com 18.681 e a Grã-Bretanha com 14. 576.

Portugal regista 657 óbitos.

Em todo o mundo já morreram 150.948 pessoas.

9.

José Gomes Ferreira que, juntamente com outros autores, nestes dias cruéis me tem acompanhado:

«Só este silêncio que nos impele
Para o abismo de solidão
Que temos na pele.»

quarta-feira, 15 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Ferreira Fernandes e Catarina Carvalho pediram a demissão dos cargos que ocupavam na direcção do Diário de Notícias e a administração aceitou o pedido.

Perspectiva-se o accionamento da lay-off nos vários títulos que fazem parte da Global Média e os directores entenderam que não tinham condições para continuar.


«A partir de amanhã, a edição em papel só sairá aos domingos.

Nos restantes dias terá uma edição digital.

Dizem que é um passo em direcção ao futuro, um futuro mais firme.

Na quinta-feira, na «Quadratura do Círculo» , José Pacheco Pereira disse: o Diário de Notícias acabou!

Ferreira Fernandes não está nada de acordo e, hoje, num texto bem esgalhado, explica a Pacheco Pereira o tal futuro mais firme.

Não serei tão taxativo como Pacheco Pereira, mas, face a esta mudança,  também tenho as minhas dúvidas.

O meu avô paterno, republicano histórico, odiava o Diário de Notícias, como então se dizia, o jornal das sopeiras e só lia O Século.

Segui-lhe as pisadas e, também,  muito raramente passei as mãos pelas suas páginas.

O Diário de Notícias apenas foi o meu jornal enquanto os nomes de Luís Barros e José Saramago estiveram no cabeçalho do jornal.

De Abril a Novembro de 1975: os dias dos dias.»

Nestes Dias cruéis que vamos vivendo, é mais uma notícia triste.

Sim, aproximam-se péssimos dias para o Diário de Notícias-on line que ainda hoje destacava esta notícia:

«Choque de desemprego será o maior de que há registo em Portugal.»

Péssimas e arrepiantes notícias para todos os órgãos de informação, sejam da imprensa escrita, da rádio, da televisão.

Sou de um tempo em que o jornalismo era uma profissão respeitável, ler um jornal não era dar o tempo por perdido, era um gesto importante. Também não  existiam on-lines e havia a necessidade de olhar o que se passava no país e no mundo, mesmo sabendo que o lápis azul da censura, frequentara as pilhas de jornais que se amontoavam, ainda não havia quiosques, no ardina da esquina.

Existiam também as entrelinhas que, magistralmente, alguns jornalistas sabiam utilizar, assim fintando  os-incultos-quase-analfabetos-coroneis-da-censura.

Recordo, não com jornais, mas uma história da rádio, contada por Luis Flipe Costa:

Em 17 de Maio de 1967, Palma Inácio realizou o assalto ao Banco de Portugal da Figueira da Foz, o que seria o primeiro acto político da LUAR. Obviamente a notícia foi proibida pela censura, mas sabia-se, por portas travessas, o que tinha acontecido, e no noticiário da uma da manhã do Rádio Clube Português, o jornalista Luís Filipe Costa aproveitou a leitura do boletim meteorológico para concluir a sua apresentação:

"Felizmente, há luar".

Baptista-Bastos, Capitão de Médio Curso:

«Mais do que uma instituição pública, o jornal é uma declaração de amor, um momento, e a sua arte reside justamente na virtude de chegar na hora, na criação do contraponto entre o que permanece e o que vai acontecendo.
A solidão do jornalista decorre da fraternidade por ele jamais recusada, da responsabilidade por ele aceite como princípio ético, da severidade imposta pelo comércio das ideias feito com outros homens. Mas a solidão do jornalista é intermediária, porque reflecte uma época também intermediária, onde o poder, a força e a riqueza têm menor importância do que a ciência. Sendo acto, sonho, declaração de amor, o jornal é também uma ciência – eis porque os tiranos temem o prestígio do jornal que vê claro e escreve vivo: a felicidade apoia-se na verdade, a ilusão assenta na mentira.»

Nicolau Santos, aqui:

«Hoje. Ao fundo, um homem sai de um gabinete. O gabinete do chefe. Do ex-chefe. Do ex-chefe que ainda é chefe, ex é ele: ex-empregado. Acaba de ser despedido. É um de um rol de muitos, um nome a mais numa lista, uma fila a menos numa folha de cálculo. Sai calado, pelo espaço aberto, outros olhos viram-se primeiro para ele, depois para baixo. Outro nome é chamado, lá vai ele, o mesmo gabinete, o mesmo destino. Hoje a empresa não é uma empresa, é um matadouro. Morrem empregos. Saiu nas notícias e tudo. É um dia na vida.»

Faz-nos companhia, uma velha e gloriosa canção dos Byrds: «Turn, Turn, Turn.»

Um tempo para nascer, um tempo para morrer, um tempo, a canção não o diz mas escrevo eu, para acreditar que não é possível viver sem jornais em papel, um aceno longo ao meu pai que, no tempo da ditadura, foi jornalista, fechava o jornal madrugada fora dentro, numa correria louca para não perder os comboios que levavam o jornal para a província, hoje sabemos que os jornais cada vez estão mais pobres, arrastam-se num amontoado reles de notícias inventadas pelas redes sociais, copiadas pelos estagiários, em que se nota à vista desarmada que de há muito, foram perdidos os princípios… e assim sendo…




1.

Donald Trump cumpriu com o que havia ameaçado. A sua Administração suspendeu o financiamento à Organização Mundial da Saúde.

O Presidente dos Estados Unidos, país que é o maior doador da OMS, acusa esta organização internacional de falhar decisões no momento adequado.

Richard Horton, chefe de redacção da revista médica The Lancet:

«A decisão do presidente Trump de suspender o financiamento à OMS é simplesmente isso - um crime contra a humanidade. Todos os cientistas, todos os profissionais de saúde, todos os cidadãos devem resistir e revoltarem-se contra esta terrível traição à solidariedade social.»

2.

A China manteve o surto de Covid-19 em segredo durante seis dias. A Associated Press  revelou o conteúdo de vários documentos que indiciam que o vírus foi mantido em segredo da população durante seis dias.

No dia 14 de janeiro, altura em que foi detetado o primeiro caso de infeção pelo novo coronavírus na Tailândia, o ministro da Comissão Nacional de Saúde da China avisou vários responsáveis, entre eles o presidente, Xi Jinping, para o possível cenário de pandemia através de uma videoconferência.

Mas o presidente da China só alertou a população para a gravidade do vírus no dia 20 de Janeiro, seis dias depois e nessa altura mais de 3000 mil pessoas já tinham sido infectadas

3.

O número de trabalhadores abrangidos pela medida de lay-off simplificado, lançada pelo Governo para responder à pandemia de Covid-19, abrange actualmente já mais de 930 mil trabalhadores. O número de desempregados situa-se nos 353 mil.

4.

Os negros números:

Portugal regista 599 mortos.

O número de vítimas mortais em França, subiu para 17.167, a Itália regista 21.465 mortos.

Em Espanha já morreram 18.579 pessoas, na Grã-Bretanha 12.868 mortos, enquanto os Estados Unidos chegaram ao número de 25.757 óbitos. Só em Nova Iorque já se registaram 7.905 mortes.

5.

João Lopes no seu Covid-20:

«Tradicionalmente, define-se o jornalismo como a profissão, a arte ou a missão de dar conta da realidade. O que, convenhamos, envolve uma humildade equívoca. O jornalismo é também um sistema de linguagens que, conscientemente ou não, integra e contamina todas as componentes da dita realidade, não poucas vezes transfigurando as suas formas de percepção e verosimilhança. Desde meados da década de 1990, tudo isso passou a ser vivido, e bem ou mal pensado, também através da Internet, prevalecendo a ideia segundo a qual o mundo virtual seria tão só uma reconfiguração técnica do mundo clássico (?) em que vivíamos ou julgávamos viver. Chegados aqui, enfrentamos a mais gelada das evidências: a realidade integra o virtual. Como é que uma profissão, uma arte ou uma missão consegue viver perante tão cruel omnipresença?»

Legenda: João César Monteiro no dia em que soube que o Diário de Lisboa ia deixar de se publicar a partir do dia 30 de Novembro de 1990.

sábado, 17 de agosto de 2019

QUE MAIS IRÁ ACONTECER?


É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).
A pedra que sustenta a abóbada desta acusação, a clé de voûte deste escândalo artístico, é a tal "pressão". Aparente palavrinha, só isso, mas fonte de grande mistério. Lembro aos leitores, todos os domingos, todos os canais televisivos portugueses dedicam, cada um deles, meia dúzia de maduros a debater a impenetrável questão: foi suficiente a "pressão" nas costas do avançado para marcar penálti ou não? Nunca, mas nunca, ouvi unanimidade. Vamos também no caso deste Domingo não concordar todos. Que pressão, por causa do amor (talvez aqui só numa vertente), usou o tenor com cada uma das senhoras?
O jornal El País, ontem, referindo-se ao caso, citou uma frase de Norman Lebrecht, um dos críticos de ópera mais conhecidos no mundo: "A relação entre a batuta e o pénis é mais poderosa do que muitos maestros estariam dispostos a reconhecer." E mais outra frase: "Os abusos de poder na música são uma rotina, já que toda a autoridade vem de um homenzinho com um pequeno bastão." O crítico falava de maestros mas poderia fazer sentido trazê-lo para o caso de um tenor, não fossem frases dessas prestarem maior tributo aos efeitos especiais do que à verdade. E nunca me esqueço de como estive quase para perder grandes obras-primas de Hitchcock, tão boas sobre coisas simples da vida, e tão pirosas pelo parolo preito americano aos psicanalistas, nos anos 1950 e 60.
Afirmações em forma de denúncia feitas, e sem acusação judicial ou policial, já Plácido Domingo não será Romeu, no próximo espetáculo em São Francisco. Está aí a primeira ironia. Até no Romeu e Julieta, de Gounod, lhe fecham a porta. Desde o primeiro ato, e dura por todos os cinco, Romeu e Julieta amam-se ao primeiro olhar, "oh, anjo adorável!", gorjeia ele, falam-se com um balcão de permeio, sem conflito nem briga, se há mortes no fim é por engano - entre os dois não há pressão de quem quer que seja. E muito menos não há autoridade de um homenzinho com curto bastão. Ambos iguais, os do casal. Não sem razão, o libreto é inspirado em peça de Shakespeare, homem de outro século que não os que alimentaram os sentimentos exacerbados da ópera.
A maior das ironias está neste castigo da Ópera de São Francisco, e já se diz que outras se seguirão, quando tudo o que a imensa maioria das óperas cantam são, justamente, as pressões amorosas exacerbadas dos seus (e suas) personagens. Em La Traviata, de Verdi, Violeta está prometida a um barão, mas, logo no primeiro ato, quando Alfredo lhe é apresentado, ele declara-se. Violeta diz que é noiva, mas sempre lhe oferece uma rosa que trazia no peito... No segundo ato já eles estão no propriamente ato. Carmen, Fidelio, La Bohème... a lista é longa e quase unitemática: há um que toma a iniciativa e outra que hesita (ou ao contrário, em Carmen), convencem ou/e traem. Na Fidelio há mulher que por amor ao homem se veste de homem, levando outra a amá-la julgando-o homem... O amor em todas as suas vertentes nunca é linear e por isso as óperas nos empolgam e tão bem contam. A ópera devia ser a última a julgar Plácido Domingo.

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O TORCIONÁRIO DO BEIJO ROUBADO


Uma noite, já longínqua e em lugar público, eu agarrei-me a um polícia, e ele a mim, aos pulos e abraços. Éramos adultos e a coisa completamente consensual mas, há que dizê-lo, estávamos a celebrar um crime. Então, não havia ainda o VAR e o crime ficou impune. Apesar disso, eu próprio me tenho encarregado de auto-denunciar a minha participação na tal prevaricação.
Isso foi, portanto, numa quarta-feira, 18 de abril de 1990. O meu conterrâneo Vata tinha acabado de cometer um golo com a mão, no jogo da Taça dos Campeões que levou o nosso Benfica a uma final europeia. Trago para aqui essa memória e não é por estar aguilhoado pelos remorsos. Não me penitencio. Assumo e explico-me: há momentos de júbilo em que os pecadilhos são perdoáveis.
Entre os abraços ao senhor agente (atenção, nunca houve beijo), vi mais gente nos mesmos preparos jubilatórios. Políticos de várias cores, cunhados que não se falavam nem no Natal (ali reunidos porque o sogro tinha lugares cativos), o pobre que se desunhou para comprar o bilhete na candonga e o administrador que fez o favor de só aceitar uma borla na bancada porque os camarotes estavam cheios... - quase todos em abraços apertados. Quero eu dizer, o meu crime de bancada era socialmente aceitável.
Assim, não o quero comparar com o crime hediondo ocorrido no dia 14 de agosto de 1945, na Times Square, Nova Iorque. Mas vou contar este por dever de atualidade. Ia Greta, com o seu vestido imaculado de enfermeira, sapatinhos e meias brancas também, e por ali andava Alfred, um fotógrafo com sua pequena Leica sem flash, como então tão pouco se usava. Havia um multidão, pois o Japão anunciou que ia render-se. Era o fim da II Guerra Mundial, 80 milhões de mortos, campos de concentração nazis e duas bombas atómicas - desculpem-me esses pormenores irrelevantes, quando estamos perante a coincidência de se encontrarem numa praça nova-iorquina a pureza da alva Greta e o Alfred tão sincero que não usava flash.
Eis que o marinheiro George assaltou esse momento diáfano! No meio da multidão, o marinheiro atacou violentamente a enfermeira Greta. Isto é, enlaçou-a (desculpem a brutalidade do termo) e beijou-a (desculpem, outra vez). O fotógrafo Alfred clicou e deixou para a eternidade o testemunho do horror. Veem-se na foto, à volta, homens e mulheres sorridentes - apesar da evidência do supremo mal tão próximo - parecendo mais interessados na minudência do fim da II Guerra, do que no crime ignóbil que assistiam. Ah, género humano, sempre tão distraído!
A foto, embora nunca exibida em nenhum museu do Mal (de Dachau ao Camboja), tornou-se famosa. Recentemente, procurou-se o marinheiro George e soube-se, para nossa vergonha nacional, que ele se chamava Mendonsa, filho de um Mendonça que emigrou. O marinheiro disse que tinha ido para a Times Square celebrar fim da guerra, até ia com a namorada, bebeu uns copitos, viu a enfermeira e pespegou-lhe um beijo à Hollywood.
 Logo no ano seguinte, Frank Sinatra e Gene Kelly, em Paixão de Marinheiro, iriam dar beijos iguais a raparigas, mas isso era Hollywood. Na vida real, em Times Square, na foto, vê-se o braço esquerdo da enfermeira, lânguido, sem estar agarrado, rendido, mas também o King Kong levou a rapariga para a Estátua da Liberdade e ela ia constrangida. Talvez a enfermeira Greta tivesse desmaiado pela violência do ataque inopinado. Quando também foi encontrada pelos jornalistas, muitas décadas depois, a enfermeira disse que o beijo não foi consensual, fora surpreendida pelo marinheiro.
Mas também contou que se chamava Greta Zimmer, fugida do seu país natal, Áustria, e refugiada nos Estados Unidos, em 1939. Quer dizer, naquele dia do fim de guerra, ela tinha motivos de júbilo. Mas não nos desviemos do essencial: a enfermeira foi atacada. O fotógrafo que publicou a foto na capa da revista Life chamava-se Alfred Eisenstaedt, era um judeu alemão, desde meados dos anos 30 refugiado na América. Naquele dia, na Times Square, também ele celebrava.
Mas porque insisto eu em falar de júbilo, quando 14 de agosto de 1945 foi o dia do horror?! Esta semana, aos 92 anos, morreu George Mendonsa, o torcionário do beijo, infelizmente sem nunca ter sido um daqueles velhos julgados como qualquer kapo de um campo de concentração nazi.

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias on-line

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

UMA MORTE APRESSADA


José-Augusto França tem 95 anos.

A idade que teria José Saramago se ainda caminhasse por aqui.

Ambos nasceram no mesmo dia, no mesmo ano, 16 de Novembro de 1922 , «ele às 14 horas (mas não muito viáveis numa declaração rural), eu às 14 e 35 minutos (declaração rigorosa de meu Pai contabilista), em sítios mais ou menos vizinhos, ele numa aldeia cerca da Golegã, eu, como se sabe, nos Estaus da cidade de Tomar.»

José Prudêncio, professor de Filosofia, investigou as cartas astrológicas de ambos, teve conversas com os dois intelectuais e escreveu sobre o assunto, um interessante livro: Um Céu e Dois Caminhos.

Ontem, o Público noticiou a morte de José-Augusto França.

Como Mark Twain, Augusto França poderia dizer:

«Parece-me que as notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas».

Todos temos a morte anunciada mas é exigível que se morra pelo próprio pé e não empurrado, para a dita cuja, pelo mau jornalismo.

A explicação da Direcção editorial do matutino:

«O PÚBLICO falhou no que não pode nunca falhar
A equipa do PÚBLICO tem um conjunto consistente de explicações para o erro que nos levou a noticiar o falecimento de José-Augusto França. Tem o rasto de uma informação que chegou à redacção e tem uma fonte credível e com rosto (que nomeamos no momento em que corrigimos a primeira notícia) que a validou. Mas essa explicação não passa disso mesmo: de uma explicação. Que não basta para justificar a gravidade do nosso erro. As fontes que ouvimos, mesmo que credíveis, não eram suficientes. E não tomámos a devida consciência que notícias sensíveis como estas, que afectam gravemente a intimidade e os direitos de pessoas concretas e das suas famílias, exigem cuidados redobrados.
O PÚBLICO errou e, manda a nossa forma transparente de estar, a Direcção Editorial assume o erro por inteiro. Vai ser necessário rever procedimentos para garantir que não haverá repetições.
Para lá destas necessárias explicações e do indispensável pedido de desculpas aos leitores, resta-nos ainda uma palavra especial para José-Augusto França e para a sua família. É dada aqui com este reconhecimento e será dada de forma pessoal pela nossa equipa.»

A nota pontual de Ferreira Fernandes publicada, hoje, no Diário de Notícias:

«Um jornal, que não este, anunciou ontem a morte de José-Augusto França. Logo, outros jornais portugueses, incluindo este, publicaram a citada morte. Ora, José-Augusto França, de 95 anos, está vivo. O primeiro dos jornais a publicar-lhe a morte será talvez o único a ter uma razão plausível para o erro cometido - talvez um seu jornalista tenha recebido notícias que julgou fidedignas. Talvez tenha sido vítima de uma brincadeira de mau gosto. Talvez, não sei... Porém, todos os outros jornais, incluindo o DN, não têm desculpa nenhuma.
Desses, incluindo o DN, sabe-se, sem margem para dúvidas, porque publicaram a falsa notícia: porque outro jornal já o fizera, os outros apressaram-se a segui-lo. Apressaram o push - aviso para os telemóveis e computadores dos leitores - pois um segundo de atraso diminuiria os cliques de leitura. Um push é útil porque permite aos nossos leitores terem rapidamente o alerta de uma notícia. Mas um push falso é uma arma letal: informa mal o leitor e desvaloriza o nome do jornal.
E há, como neste caso, outra consequência mais grave: a falsa notícia gratuitamente incomodou um homem, os seus familiares e os seus amigos. De notícias de mortes apressadas está a história do jornalismo cheia, algumas entraram na lenda e, com o passar do tempo, até fazem sorrir. Mas quando a razão do erro bebe numa prática que destapa as fraquezas do jornalismo atual - os seus meios limitados, as suas redações curtas e a pressão pelo imediatismo - o melhor é tomar a sério a gravidade. O push é importante, mas mais importantes são as pessoas.
E outra coisa: o push mandado por um jornal é um assunto editorial, de jornalistas, que têm uma relação com a informação que vai para lá da eficácia. O jornalista serve a verdade e só. Conselhos de técnicos da rapidez e de aumento de tráfego são bons de ouvir porque devemos lidar bem com a tecnologia. Tal como os jornalistas devem agradecer aos técnicos de ontem que lhes deram teclados QWERT para escreverem as notícias. Mas tal como aos técnicos de ontem não lhes era permitido insinuar que numa dada notícia se devia bater mais vezes na letra Q do que na letra R, um jornalista de hoje não deve permitir outra razão, além do jornalismo, que lhe apresse o push. Ponto.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

TRUMPADAS


Ponto de partida. Os serviços de inteligência americanos tinham concluído oficialmente, dias antes: "Não há dúvida de que a Rússia interferiu nas eleições de 2016."
Ponto de exclamação. Na segunda-feira, em Helsínquia, aquela questão (a ingerência russa numa eleição americana) foi posta a Donald Trump. E ele respondeu publicamente: "Não vejo qualquer razão para que tenha sido a Rússia."
Pontos nos is. No dia seguinte, terça, já em Washington, Donald Trump desmentiu-se, com firmeza: quando ele disse "não vejo qualquer razão para que tenha sido a Rússia" na ingerência das eleições, ele queria dizer "não vejo qualquer razão para que não tenha sido a Rússia". Simples.
Ponto e vírgula. Com Trump, o que é, anteontem; ontem, é não.
Ponto de interrogação. O que nos leva a uma dúvida, hoje: "?" Sinal de pontuação que é a frase mais urgente a dizer sobre Donald Trump.
Ponto final. Um tipo que se engana do sim para o não pode ser um ponto. Um simples ponto. Mas este é um Trump, o Donald Trump que se engana em matérias daquelas, numa cimeira, com o outro mais poderoso líder mundial e anda com um botão atómico.
Parênteses. (Não esquecer que o presidente Trump já disse, para algures, que a opção nuclear é uma hipótese a considerar.)
Travessão - Sim? Não? Cruel dúvida... Hoje, não. Amanhã, quem sabe?

Ferreira Fernandes, hoje, no Diário de Notícias on-line.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


De um Brasil-Chile, escreve Nelson (Rodrigues), no dia seguinte, no jornal O Globo: "Garrincha foi a maior figura do jogo, a maior maior figura da Copa do Mundo e, vamos admitir a verdade última e exasperada: a maior figura do futebol brasileiro   desde Pedro Álvares Cabral." O jogo foi há 56 anos mas, por cá, não há meio de sabermos ver os factos com esta objetividade.

domingo, 1 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO



O jornalismo devia ser feito só por amantes do seu ofício.

Ferreira Fernandes

sábado, 30 de junho de 2018

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Esta é a 1ª página do Diário de Notícias de hoje.

A partir de amanhã, a edição em papel só sairá aos domingos.

Nos restantes dias terá uma edição digital.

Dizem que é um passo em direcção ao futuro, um futuro mais firme.

Na quinta-feira, na «Quadratura do Círculo» , José Pacheco Pereira disse: o Diário de Notícias acabou!

Ferreira Fernandes não está nada de acordo e, hoje, num texto bem esgalhado, explica a Pacheco Pereira o tal futuro mais firme.

Não serei tão taxativo como Pacheco Pereira, mas, face a esta mudança,  também tenho as minhas dúvidas.

O meu avô paterno, republicano histórico, odiava o Diário de Notícias, como então se dizia, o jornal das sopeiras e só lia O Século.

Segui-lhe as pisadas e, também,  muito raramente passei as mãos pelas suas páginas.

O Diário de Notícias apenas foi o meu jornal enquanto os nomes de Luís Barros e José Saramago estiveram no cabeçalho do jornal.

De Abril a Novembro de 1975: os dias dos dias.

Como escreveu José Saramago no prefácio a Os Apontamentos:

«É esse o tempo em que os trabalhadores do Diário de Notícias, na sua grande maioria activa e participante, avançam para a realização de um objectivo que naquela casa, até aí, havria de ter parecido impossível, mesmo em horas de fantasia louca: pôr o jornal ao serviço das classes trabalhadoras, ao serviço do proletariado industrial e agrícola, ao serviço do socialismo, para tudo dizer em uma palavra»

sexta-feira, 9 de março de 2018

FUTEBOL, TRICÔ E CAMISOLAS SUJAS




Ferreira Fernandes, hoje, no Diário de Notícias

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


O nosso problema é terem-se aberto as sacristias, onde antes se encafuavam os doutores rançosos, e a internet nos ter revelado quanto o mal está espalhado. Falam mal e à padreca e, o que é pior, julgam que as caixas de comentários foram inventadas para eles porem o dedinho no ar e debitarem o que não perceberam.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

TRUMPALHADAS


Tem havido recentemente demasiados sinais estranhos, azares, na política mundial. Tanto mais que há um líder que não os sofre, é ele que produz os seus e passa incólume. No domingo, Trump expôs no Twitter a política para a Coreia do Norte: "Eu disse a Rex Tillerson, nosso maravilhoso secretário de Estado, que é perder tempo negociar com o Anão dos Foguetes." Com ele, a política nunca é uma xaropada, a diplomacia faz-se com pigarro de carroceiro.

Ferreira Fernandes, hoje, no Diário de Notícias

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


Domingo há Eleições Autárquicas.

Longe vão os tempos em que o Poder Local foi considerado como uma das bem interessantes Conquistas de Abril.

Tempos desempoeirados em que os autarcas, então eleitos, se preocuparam com as escolas, o saneamento básico, o ambiente e não com rotundas e pracetas num processo que veio a descambar num caciquismo vergonhoso, em interesses de amigos e amiguinhos, em corrupções descontroladas, ligações perigosas  ao imobiliário, ao futebol e que acabaram em enriquecimentos sem justa causa.

Conhecem-se alguns desses nomes.

Julgados, nem todos foram condenados.

Um sentir amargo, uma desilusão que não mais se apagará.

Claro que há autarcas competentes e honestos.

Nas eleições de domingo verifica-se o regresso de gente que se esperava não voltarmos a ver nestas andanças.

Mas há um caso bem mais miserável: o candidato que se apresenta pelo PSD, em Loures, um candidato cozinhado à medida por gente que circunda e chafurda nesse vómito que dá pelo nome de Correio da Manhã.

O espécime não gosta de ciganos, defende a prisão perpétua, a castração química dos pedófilos, a pena de morte, aquilo que à mesa da taberna a populaça costuma bolsar.

Que haja um tarado que assim pense, enfim, mas sabermos que Pedro Passos Coelho, presidente do PSD, o apoia sem vacilações é uma javardice, talvez algo poior.
Há dias, perguntava um comentador:

E se o PSD ganhar Loures e ficar em terceiro lugar (com os piores resultados da sua história) em Lisboa e no Porto, que leitura política se pode fazer?

Remate final com Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias, a chamar  ao personagem «miasma».

Assim:

O candidato do PSD para Loures aproveita tudo, até insultos, para propaganda. Mas será de recusar dizer-lhe o nome só porque ele sofre de andré ventura? A Organização Mundial da Saúde tem-se confrontado com o problema das doenças e o nome delas, porque este pode induzir em erro. Por exemplo, um vírus ficou conhecido como gripe suína mesmo não sendo disseminado por porcos. Ora, o candidato do PSD para Loures é notoriamente um andré ventura, até o anuncia nos cartazes. Como a OMS aconselha que as doenças sejam nomeadas em termos descritivos, "miasma andré ventura", no caso estudado, parece-me adequado. Já chamar André Ventura a André Ventura, talvez seja generalizador e até racista -- pode haver pedaços dele que não estejam contaminados de andré ventura. Mas o mais importante é conhecer os truques do vírus. Há dias, no debate da TVI, ele disse: "Sim, Judite de Sousa, tenho medo." Ora, a jornalista não lhe tinha perguntado por medo. O miasma disse-o a despropósito, porque tem fisgado inocular o medo, não como nas vacinas, em doses ínfimas para combater a doença, mas em doses cavalares para a difundir. Depois, interrompeu uma adversária e, quando ela protestou, disse: "Não me interrompa." Sem vergonha nenhuma, convencido de ser tempo que chegue cá a desfaçatez em debates políticos do "chefe do Ocidente", como ele chamou dias depois a um outro miasma, esse, grande e americano. Todos os pequenitos agentes infecciosos sonham pertencer a uma pandemia.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


Logo após uns dias de se tornar conhecido o assalto aos paióis de Tancos, Vasco Lourenço declarou aos jornalistas que se tratava de uma história muito mal contada, indo ao ponto de dizer tratar-se uma encenação feita para derrubar o governo.

Quem andou pela tropa sabe que em instrução nas carreiras de tiros, aqui e ali se gasta material e munições que, se atempadamente não se fizer o controlo e respectivas descargas, a coisa descamba.

Provavelmente, não terá existido roubo algum ou apenas um subterfugio para esconder leviandades.

O que realmente se passou, só a investigação policial e militar em curso, poderá esclarecer.

Porém, aconteceu no sábado passado que o Expresso entendeu mandar para a praça pública a existência de um documento cozinhado não se sabe onde. Os motivos de tal notícia giram à volta de um qualquer pedido expresso da direita que nunca mais consegue digerir que as últimas eleições não lhe permitiram formar o governo que consideravam garantido, ou de alguns militares-topo-de-carreira descontentes com o facto de se sentirem marginalizados pelo governo e chefias militares.

O director do semanário declarou à SIC que na próxima sexta-feira, dia de saída do jornal por causa dessa coisa fabulosa que dá pelo nome de «tempo de reflexão eleitoral», surgirão mais, e outros, pormenores.

Antevê-se maior venda de papel para contrabalançar a descida nas tiragens.

Ferreira Fernandes diz hoje na sua crónica no Diário de Notícias que Pedro Passos Coelho interrogou-se:

Temos de comprar o Expresso para saber o que se passa no país?

Mas quem é que hoje lê o Expresso, ou liga ao que o Expresso escreve?

Diga-se em abono de algum rigor, que o ministro não se mostrou, politicamente, o homem certo no lugar certo para conduzir o processo. As chefias militares também não ajudaram e já seria mais que tempo de o governo ter encontrado uma saída para este tancoso disparate.

Torna-se óbvio que há responsabilidade militar, mas daí à exigência da demissão do ministro ou à queda do governo, são, como se diz na bola,  outros quinhentos.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

TRUMPALHADAS


DonaldTrump foi às Nações Unidas dizer que «não temos alternativa senão destruir completamente a Coreia do Norte.»

O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou, também nas Nações Unidas, que a ameaça nuclear está «ao nível mais alto desde a Guerra Fria», avisando as partes envolvidas na crise da Coreia do Norte que «conversa inflamável pode conduzir a mal-entendidos fatais».

Ainda Guterres: «Somos um mundo em pedaços. Precisamos de ser um mundo em paz.»

A primeira reação da Coreia do Norte ao discurso de Donald Trump, quando ameaçou destruiraquele país, chegou pela boca do ministro dos negócios estrangeiros quando afirmou que o presidente dos Estados Unidos parece «um cão a ladrar».

O mundo está perigoso.

Muito mesmo!

Imperdível a crónica de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias:

«Num debate do partido chama "Ted mentiroso" a um colega (Cruz). À adversária Clinton chama "Hillary vigarista". Logo, da primeira vez que vai à ONU põe o dono da casa em pânico. António Guterres bem preveniu: "Discursos empolgados podem levar a desentendimentos fatais." E se calhar o português até fez aquele seu peculiar gesto de duas mãos a encher um pneu com bomba de bicicleta: calma, por favor... Qual o quê! O Donald esteve imparável, ontem. Sabem, aqueles rufias que estão debaixo do prédio do suicida? Em vez de apelar por juízo açulam: "Atira-te, ó cobardolas!" Assim fez Trump. Em 1962, com a crise nuclear a 80 km da Florida, John Kennedy chamou ministro dos Negócios Estrangeiros ao Mr. Gromyko e presidente a Khruchtchev - e foi firme, a ponto de ser ouvido pelos soviéticos. Não chamou Monstro do Pântano a um, nem Homem Aranha a outro. Ontem, Trump, depois de anunciar que a Coreia do Norte seria "totalmente destruída", acrescentou: "Rocket Man [o Homem Foguetão] está numa missão suicida para ele próprio e para o seu regime." Tentem seguir o fio ao pensamento. O ponto de partida é aceitável, Kim Jong-un é pírulas e dele tudo se pode esperar. Ainda mais grave do que o suicida que ameaça atirar-se do quinto andar, ele quer levar o prédio e até o bairro com ele. Mas, então, Trump goza e chama-lhe Rocket Man? O que eu quero dizer é seguinte: o gajo do quinto é maluco, mas o instigador do pátio é parvo.»

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

SALVADOR, UM RAPAZ ESPECIAL


Salvador fez-nos um vídeo e falou-nos como dois transmontanos que se dão um abraço calado porque um deles sofreu uma perda. Começa a ser rara a gente sem gatinhos no olhar e nas frases. "Olá a todos, daqui Salvador." O vídeo fixa-se nele e num desenho de garoto, pendurado por fita-cola na parede. Podia ser dele o desenho, é de homem. Fala da saúde que lhe foge: "E chegou infelizmente a altura de me entregar, de entregar, digamos, o meu corpo à ciência." Salvador desfaz a piada com nova piada: "Portanto, sair deste mundo de civis e ir para um outro onde este problema seja resolvido." Há momentos destes, redentores para a tecnologia e o progresso, falo da internet, que foi sequestrada por delambidos com pena de si próprios. Afinal, a ciência talvez nos tenha dado também uma ferramenta para gente sensível gozar com a morte e agarrar a vida. "Entregar, digamos, o meu corpo à ciência...", já tive homens e mulheres que me falaram assim, cáusticos e íntimos, mas éramos dois, já tinha desesperado que isto pudesse acontecer pela internet. Salvador acredita, não nos milhares para quem falou, mas num e outro e outro, cada um que foi tocado por um homem forte de saúde frágil. "E tudo vai correr bem", diz. No fim: "Vou tocar uma coisinha assim por brincadeira..." Pôs-se a cantar não digas adeus, diz olá. Quem percebeu soube que ele vai voltar. Que ele quer voltar. E, aqui entre nós, egoístas, precisamos que ele volte.

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias