Mostrar mensagens com a etiqueta Ferreira Fernandes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ferreira Fernandes. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 12 de março de 2026

MÁRIO ZAMBUJAL (1936-2026)


Com 90 anos, feitos no dia de 5 de Março, morreu o jornalista e escritor Mário  Zambujal.

Neste dia, o jornalista e escritor Ferreira Fernandes deixou no Mensagem de Lisboa, a evocação dos 90 anos do Zambujal:

«Um dia, Bernard Pivot foi a um restaurante de província, em França, onde lhe serviram uma soberba brandade provençal de bacalhau. Durante o último quarto do século passado, Pivot foi o mais eficaz divulgador da literatura francesa. Os seus programas televisivos Apostrophes e Bouillon de Culture são uma saudade (em francês culto, diz-se “saudade”).

Apesar de também ter gostos culinários (em português, “bouillon” diz-se caldo), não foi ao prato que ele agradeceu. À saída do restaurante La Lavande, em Lardiers, Bernard Pivot deu um abraço apertado aos dois tomos do dicionário Le Petit Robert, à disposição dos clientes e expostos na sala de jantar.

Em Les Mots de Ma Vie, As Palavras da Minha Vida, Pivot escreveu esta frase: “Amei primeiro as palavras antes de amar os livros”. No começo da Segunda Guerra Mundial, em casa, numa aldeia perto de Lyon, teve mais acesso ao Petit Larousse, outro dicionário, e às Fábulas de La Fontaine, do que eu aproveitei no consumo dos meus tantos livros infantis.

Ele dedicou-se a descobrir, compreender e comparar o que queria dizer aquela condição de “atraída” (a Raposa, pelo cheiro do queijo que o Corvo tinha no bico), ou aquela coisa, a “larva” (que a esfomeada Cigarra cantadeira arrependida implorava à Formiga trabalhadeira).

Tudo a ver com a cerimónia que passo a celebrar. Um absoluto colega do francês, também jornalista, sábio e generoso, o Mário Zambujal – e quase contemporâneo de Pivot – tornou-se hoje centenário!

Sobre a identidade profissional e cívica de ambos, lá irei, sobre as datas explico-as já: Zambujal nasceu a 5 de março de 1936 e Bernard Pivot nasceu, no mesmo dia, dois meses depois e um ano antes do português. Centenários, ambos! Não venham cá com as vossas pequenas aritméticas, “eh pá, estamos em 2026, ainda falta uma década…” Minudências (ide ver ao José Pedro Machado ou ao Morais).

É interessante que Mário Zambujal, miúdo, também tenha vivido uma guerra e até antes do camarada francês, que só aos quatro anos viu camiões militares de cá, para lá, na França ocupada. Já o português, logo meses depois de nascer, teve a sua alentejana e fronteiriça Amareleja com refugiados espanhóis fugidos à guerra civil. Havia-os acantonados no corredor comprido da sua casa. Se calhar há quem passe todo o período da amamentação indiferente aos vizinhos do corredor, mas há-os, outros. Como o Mário Zambujal.

Quando foi viver para Algarve, aos 5 anos, levou com ele o Alentejo e guardou-o, a mãe fazia migas e ensopado de borrego. Depois, foi o Bairro Alto e os jornais, onde ele chegou para distribuir com critério e beleza o que começara e continuaria a vida toda a colecionar – palavras.

Como disse o tal francês, as palavras da minha vida é a minha vida com as palavras.

Quase nenhum quiosque lisboeta pendura hoje tanto jornal quanto os títulos por onde o Zambujal passou: A Bola, Diário de Notícias, O Século, Diário de Lisboa, O Jornal, Tal & Qual, Se7e, Record… Estendam o rol, onde ele assentou prosa sua, em programas de sucesso na tevê e rádio, dita por outros, como Carlos Cruz (“Pão Com Manteiga”, na Rádio Comercial) ou Raul Solnado (“Lá em Casa Tudo Bem”, RTP)…

É muita palavra. Mais isto: cada uma feita com pesquisa de sinónimos e escolha da nuance certa. Juntem um breve deitar de olho a dicionários de etimologia, saber dar pelo flash de um calão antigo, ter dúvidas da conjugação. E o que já vos disse, a circunstância divina de ter estado acordado, ao outro, desde miúdo. Não é acaso, é convicção profunda de que se é ignorante esclarecido, quer dizer, pronto para aprender.

Apesar de só nos termos encontrado meia-dúzia de vezes (foram sete, Mário), eu conheço Zambujal ao pormenor. Fui, sou, dele, leitor contumaz e já depois com os outros Presidentes todos. Faltaram-me o Carmona e o Craveiro Lopes, pois Zambujal foi publicado pela primeira vez, aos 15 anos. Isso bate em 1951, no ano em que aqueles dois dividiram Belém, um saiu e o outro entrou. O importante foi a primeiro texto ter sido na revista Os Ridículos. Também bate certo, só goza com estas coisas quem leva a carreira a sério.

A editora Clube do Autor lança hoje uma Edição Comemorativa – 90 anos – republicando três livros de Mário Zambujal, Cafuné, Dama de Espadas e a memória coletiva e a procura em vão em alfarrabistas ainda mais coletiva: Crónica dos Bons Malandro.

A edição comemorativa, já vimos, tem aquela pequena dedução formal: Mário Zambujal nasceu em 1936, faz anos hoje, portanto, Edição Comemorativa – 90 anos…

Não, antes de contagens especiosas, o que conta é a essência do personagem. O que é hoje 05-03-2026? Uma folha que amanhã já substituo por outro no calendário da cozinha.

Ora, o sujeito do assunto é o Mário Zambujal, logo, centenário. O nosso escritor, no ano passado, se escrevesse a crónica de uma comemoração ao Senhor Coluna faria a mesma coisa que eu faria. No ano passado, o seu xará e correligionário Mário Coluna – o capitão glorioso do Benfica – fez 90 anos, pois nasceu em 2035. Mas uma crónica do Mário Zambujal sobre o assunto haveria de se chamar O Centenário do Velho Capitão.

Há gente como os dois Mários acima mencionados para quem as datas nunca são assim-assim, como as calendas gregas. Porque lhes acontece com eles são logo efeméride, número redondo! Há personagens que não cabem em livros de contabilidade, onde não se erra ao cêntimo, mas se peca no estilo. Essas pessoas são para as palavras que tomaram o poder da imaginação. Mário Zambujal, centenário, e não se fala mais disso.

Ou, se calhar, e isso aplaudo, foi daqueles bons erros malandros dos Correios e até Bancos Centrais que lançam selos e notas com um pequeno erro de edição. Recolhem a coisa e é um ver se te avias no mercado paralelo. Os meus três livrinhos já os fechei no cofre para a herança dos netos.»

domingo, 16 de fevereiro de 2025

DISTO, DAQUILO, E DAQUELOUTRO


Fernando Assis Pacheco, quando entrevistou Carlos Paredes para os seus Retratos Falados, intitulou a entrevista: «O Filho do Rei Artur».

Carlos Paredes era um homem que detestava falar de si próprio.

J. Plácido Júnior que assina, na revista Visão, a evocação dos 100 anos do nascimento de Carlos Paredes, conta a seguinte história:

«Se como pessoa e músico, provocava emoções fortes em terceiros, Paredes era, em contraponto, de uma modéstia desmesurada. Um bom exemplo está numa história relatada pelo jornalista e escritor António Costa Santos, que perdeu a conta às entrevistas que lhe fez. Numa dessas vezes, levou consigo o álbum Espelho de Sons, de 1988, para o guitarrista lhe autografar a capa. “E ele escreveu: “Com a admiração do Carlos Paredes.” António Costa Santos ficou estupefacto: “Ó Paredes, então vai pôr-me aqui com admiração?!... Quem o admira sou eu” Que não defendia-se o guitarrista, “O amigo é muito importante”. Conclusão: “Não posso mostrar isto a ninguém. É uma vergonha”, ri-se hoje António Costa Santos, embora na altura tenha ficado virado do avesso com Paredes.”»

Fernando Assis Pacheco lembra a Carlos Paredes que, em Maputo, foi aplaudido de pé no final do espectáculo.

Paredes lembra logo que as palmas não foram para ele, mas para o Malangatana - «já viu o meu descaramento?» -  porque atreveu-se a pedir ao pintor que no palco pintasse um quadro enquanto ia improvisando música de acordo com o que via surgir na tela.

«O Malangatana prezou de tal maneira este contacto com um músico português que escolheu três telas virgens, oferecidas por um grande pintor moçambicano seu mestre e, sobre elas fez três quadros. Entendemo-nos perfeitamente. Eu ia vendo surgir as cores e as formas, e entusiasmava-me.»

Rui Vieira Nery, num artigo no JL:

«Raros terão sido os criadores musicais portugueses das últimas décadas, em qualquer género, que tanto tenham marcado, como referência indispensável e querida, o nosso imaginário musical e o nosso prazer elementar  de ouvir música.»

O pintor Júlio Pomar:

«O país onde o Carlos Paredes fez a sua música numa nuvem de merda com algodão em rama por fora. O que dava arranjo a certos que hoje ainda choram de saudades desses tempos.»

A escritora Lídia Jorge:

Cresci e fiz-me adulta, pensando que a guitarra portuguesa era o Paredes. Isto é, a guitarra portuguesa e Paredes eram, para mim, coincidentes, mesmo uma única coisa.»

A este génio, a este talento do tamanho do mundo, a ditadura portuguesa, nos princípios dos anos 60, atirou-o para os calaboiços da PIDE. Esteve lá um ano e meio, acabando por expulso da função pública, após o julgamento.

Ruy Vieira Nery:

«Era um príncipe que não soubemos merecer. E no momento desta última despedida só consigo lembrar-me das palavras do Hamlet: Adeus, doce príncipe»

«No dia em que me cruzar com o russo que me atirar à cara o “Guerra e Paz” e o americano que me tente ofuscar com o Grand Canyon, eu pergunto-lhes: “Têm dois minutos e vinte e sete segundos?” Se não, pior para eles. Se sim, ficarão agradecidos para o resto da vida. Ponho-os a ouvir “Mar Goês”.

Mar Goês é a prova que sim. Sim, um dia os portugueses entraram em pequenos barcos e tornaram o mundo grande, porque completo. Havia de ser um amanuense do Hospital de São José, um tímido com andar estranho, que me confirmaria que já houve portugueses fortes. Os dedos de Carlos Paredes são como os lenhadores do pinhal de Leiria, são como o marinheiro que subia à gávea, são como o capitão que dizia por ali e não cedia.»

Ferreira Fernandes

VELHOS RECORTES

 

domingo, 19 de junho de 2022

UM POETA QUE PASSOU POR CÁ


 Feliz o título que Ferreira Fernandes escolheu para a sua crónica, de hoje, no Diário de Notícias, sobre a morte de Evtuchenko:

«Morreu Poeta que Passou por Cá».

«Morreu Evgueni Ievtuchenko, um poeta do seu tempo. Passou por Lisboa há exatos 50 anos. Era russo, da Sibéria, filho daqueles anos 60 que chegaram até à URSS. Anos que procuravam, não sabendo o quê. Entre 1956 (crítica do XX Congresso comunista a Estaline) e 1968 (invasão da Checoslováquia), a Rússia viveu um pouco disso. O livro Doutor Jivago, de Boris Pasternak, nasceu dessa procura, e o poeta Ievtuchenko, também. Pouco? Ievtuchenko fez esta frase: "Um poeta na Rússia é mais do que um poeta." Um dia, a URSS, condescendente, deixou-o sair. Foi à Espanha de Franco, também condescendente, que o deixou dar um recital, sem anúncios, na igreja dos Capuchinhos, em Barcelona. De lá, Ievtuchenko veio até Fátima, estava cá o Papa Paulo VI. Fez um poema, com versos assim: "O povo arrastava-se", "de joelhos ligados"... Snu Abecassis, que lançava a editora Dom Quixote, convidou-o para um recital de poesia, no teatro Capitólio, em 17 de maio de 1967. Salazar, também condescendente, deixou um papão russo declamar. Ficou um livro dos poemas ditos e um ligeiro incómodo nos comunistas locais, não sabendo bem se o russo estava dentro das normas. Não estava. Quando a URSS ruiu, Evgueni Ievtuchenko apoiou Gorbachev e foi viver para os EUA. No ano passado, voltou a Barcelona e disse: "Quando me perguntam se a Rússia está bem, lembro que ainda há pouco sete mil pessoas ouviram um recital de poesia." Ievtuchenko pediu para ser enterrado ao lado de Pasternak.»

 

Quando Evtuchenko passou por cá, tinha 20 anos e alinhei num quase generalizado entusiasmo.

Aqui, aquiaqui e aqui falo dessa passagem.

Estive tentado a chamar a essa visita, um embuste.

Hoje, prefiro escrever que foi um equívoco.

sábado, 14 de agosto de 2021

O TORCIONÁRIO DO BEIJO ROUBADO


Uma noite, já longínqua e em lugar público, eu agarrei-me a um polícia, e ele a mim, aos pulos e abraços. Éramos adultos e a coisa completamente consensual mas, há que dizê-lo, estávamos a celebrar um crime. Então, não havia ainda o VAR e o crime ficou impune. Apesar disso, eu próprio me tenho encarregado de auto-denunciar a minha participação na tal prevaricação.

Isso foi, portanto, numa quarta-feira, 18 de abril de 1990. O meu conterrâneo Vata tinha acabado de cometer um golo com a mão, no jogo da Taça dos Campeões que levou o nosso Benfica a uma final europeia. Trago para aqui essa memória e não é por estar aguilhoado pelos remorsos. Não me penitencio. Assumo e explico-me: há momentos de júbilo em que os pecadilhos são perdoáveis.

Entre os abraços ao senhor agente (atenção, nunca houve beijo), vi mais gente nos mesmos preparos jubilatórios. Políticos de várias cores, cunhados que não se falavam nem no Natal (ali reunidos porque o sogro tinha lugares cativos), o pobre que se desunhou para comprar o bilhete na candonga e o administrador que fez o favor de só aceitar uma borla na bancada porque os camarotes estavam cheios... - quase todos em abraços apertados. Quero eu dizer, o meu crime de bancada era socialmente aceitável.

Assim, não o quero comparar com o crime hediondo ocorrido no dia 14 de agosto de 1945, na Times Square, Nova Iorque. Mas vou contar este por dever de atualidade. Ia Greta, com o seu vestido imaculado de enfermeira, sapatinhos e meias brancas também, e por ali andava Alfred, um fotógrafo com sua pequena Leica sem flash, como então tão pouco se usava. Havia um multidão, pois o Japão anunciou que ia render-se. Era o fim da II Guerra Mundial, 80 milhões de mortos, campos de concentração nazis e duas bombas atómicas - desculpem-me esses pormenores irrelevantes, quando estamos perante a coincidência de se encontrarem numa praça nova-iorquina a pureza da alva Greta e o Alfred tão sincero que não usava flash.

Eis que o marinheiro George assaltou esse momento diáfano! No meio da multidão, o marinheiro atacou violentamente a enfermeira Greta. Isto é, enlaçou-a (desculpem a brutalidade do termo) e beijou-a (desculpem, outra vez). O fotógrafo Alfred clicou e deixou para a eternidade o testemunho do horror. Veem-se na foto, à volta, homens e mulheres sorridentes - apesar da evidência do supremo mal tão próximo - parecendo mais interessados na minudência do fim da II Guerra, do que no crime ignóbil que assistiam. Ah, género humano, sempre tão distraído!

A foto, embora nunca exibida em nenhum museu do Mal (de Dachau ao Camboja), tornou-se famosa. Recentemente, procurou-se o marinheiro George e soube-se, para nossa vergonha nacional, que ele se chamava Mendonsa, filho de um Mendonça que emigrou. O marinheiro disse que tinha ido para a Times Square celebrar fim da guerra, até ia com a namorada, bebeu uns copitos, viu a enfermeira e pespegou-lhe um beijo à Hollywood.

 Logo no ano seguinte, Frank Sinatra e Gene Kelly, em Paixão de Marinheiro, iriam dar beijos iguais a raparigas, mas isso era Hollywood. Na vida real, em Times Square, na foto, vê-se o braço esquerdo da enfermeira, lânguido, sem estar agarrado, rendido, mas também o King Kong levou a rapariga para a Estátua da Liberdade e ela ia constrangida. Talvez a enfermeira Greta tivesse desmaiado pela violência do ataque inopinado. Quando também foi encontrada pelos jornalistas, muitas décadas depois, a enfermeira disse que o beijo não foi consensual, fora surpreendida pelo marinheiro.

Mas também contou que se chamava Greta Zimmer, fugida do seu país natal, Áustria, e refugiada nos Estados Unidos, em 1939. Quer dizer, naquele dia do fim de guerra, ela tinha motivos de júbilo. Mas não nos desviemos do essencial: a enfermeira foi atacada. O fotógrafo que publicou a foto na capa da revista Life chamava-se Alfred Eisenstaedt, era um judeu alemão, desde meados dos anos 30 refugiado na América. Naquele dia, na Times Square, também ele celebrava.

Mas porque insisto eu em falar de júbilo, quando 14 de agosto de 1945 foi o dia do horror?! Esta semana, aos 92 anos, morreu George Mendonsa, o torcionário do beijo, infelizmente sem nunca ter sido um daqueles velhos julgados como qualquer kapo de um campo de concentração nazi.

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

CONVERSANDO


Voltaremos ao silêncio das ruas desertas?

 No exacto momento em que começo a escrever, o mundo atingiu o número de 1.164.094 mortes causadas pela covid-19.

Os que destas coisas sabem, dizem que teremos 4 mil casos por dia em Novembro.

 1.

 Segundo o Público, o Banco de Portugal tinha poderes para afastar Ricardo Salgado do BES um ano antes do colapso do banco, mas há que dizer que tiveram medo de afrontar o então dono disto tudo.

 2.

 Mais do que duplicou o número de grávidas dispensadas pelas empresas.

 3.

 Lares para idosos ilegais, jardins de infância ilegais, canis ilegais.

Faltam agentes fiscalizadores: incúria, descuido?

Os gabinetes dos 70 membros do Governo têm ao seu serviço 1236 pessoas.

Razão tinha a Alexandra Alpha:

«Isto não é um país, é um sítio mal frequentado.»

 4.  

 Anos 70, eu e o meu pai à conversa, boa parte eram divinos e saborosos silêncios, no banco, debaixo da parreira de uva morangueira que havia na casa de Almoçageme, por vezes, o Marcolino aparecia a dizer-nos que a maçã reineta, para ser boa, tinha que ter aço (ele queria dizer ácidas) e que o vinho só podia ser feito com uvas. Fazia um vinho caseiro sem sulfitos que tínhamos de o engarrafar colocando lacre por cima da rolha para que estas não saltassem.

5.

Vai ficar tudo bem deu-nos a ideia de que o ataque que enfrentávamos nos tornaria pessoas diferentes, solidárias, compreensivas.

A pergunta é retirada da 1ª página do Expresso.

Numa altura em que tanta gente perdeu o emprego e outros aguardam o dia pela chamada para lhes comunicarem a extinção do seu posto de trabalho, ficamos a saber que os mais ricos ficaram ainda mais ricos.

6. 

O governo, o orçamento o Novo Banco.

Palavras de Francisco Louçã:

«Num tempo em que falta dinheiro para contratar médicos, fechar os olhos às manigâncias pouco imaginativas dos banqueiros não é política. É gosto pelo abismo. E sobretudo, desmerece o país.»

 7.

Ferreira Fernandes, no Público, cita o filme Os Amantes do Tejo em que Amália Rodrigues aparece a cantar Barco Negro e onde um miúdo de Alfama pergunta a Daniel Gélin se gostava de viajar e ele respondia: «Gosto é de partir.»

8.

No ano de 1973 a Arcádia pediu a Manuel da Fonseca que fizesse uma biografia de Amália Rodrigues.

O livro nunca foi publicado mas, recentemente alguém descobriu as fitas gravadas das conversas que Manuel Fonseca teve com Amália. Totalizam cerca de nove horas. Nelson de Matos e a Porta Editora, com o enquadramento e notas de Pedro Castanheira, publicaram, agora, o livro que tem por título «Amália nas suas Palavras». Rui Vieira Nery escreveu o prefácio.

Eu que tento gosto do Manuel da Fonseca e da Amália, dirigirei um destes dias os meus passos para comprar o livro.

Sobre Amália, no seu livro «Amália: Dos Poetas Populares aos Poetas Cultivados» escreveu Vasco Graça Moura: «soube incutir como mais ninguém um acento profundamente dramático à expressão daquilo que cantava. Não apenas por ser dotada de uma voz absolutamente extraordinária. A sua articulação por vezes centrava-se mais no significante do que no significado, mas acabava restituindo misteriosamente a este último todo o seu valor, e encontrou ou inventou melismas, inflexões verbais, tensões intrasilábicas, portamentos, arabescos e outros efeitos vocais, alguns porventura de uma inspiração mediterrânica bebida da Andaluzia à Córsega, mas todos eles únicos, pessoais, intransmissíveis e sobretudo singularmente adequados a traduzir uma entrega total à intensidade dos sentimentos, das dilacerantes violências da paixão à angústia mais torturada, à ternura mais límpida, ou à alegria simplesmente ingénua dos fados que ela cantava.»

 


 Lágrima tem versos de Amália Rodrigues que, segundo Vasco Graça Moura «é uma obra-prima».

Nota do editor: a citação do livro de Vasco da Graça Moura é retirada de um artigo de Nuno Pacheco publicado no Público.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

ETECETERA

 

O Senhor Fernando Pessoa, vestido de Ricardo Reis, aconselhava:

«Para ser grande, sê inteiro».

Assim foi Juliette Gréco que, no dia 23 de Setembro, nos deixou.

Miles Davis voltou a sorrir-lhe e a repetir que reconheceria, aquele movimento de ancas em qualquer parte do mundo.

 Nasceu a 7 de Fevereiro, corria o ano de 1927.

A mãe disse-lhe que nesse dia chovia.

«A chuva ajuda todas as plantas a crescer, mesmo as venenosas», escreveu Gréco.

Jean Cocteau apelidou-a de «rosa das trevas», Sartre dizia que ela tinha mil poemas na voz.

Em 1965, para sair de um mundo ignóbil e imundo, tentou suicidar-se.

«Sartre tinha razão quando falou do inferno que são os outros. Tinha vontade de vomitar quando olhava à minha volta e via gente que era de uma tal mediocridade e de uma baixeza abominável. Todas essas personagens que dormiam com toda a gente, que não se amavam, que diziam mal uns dos outros. Aqueles a quem chamávamos a tout-Paris.

Falhou o suicídio e, mais tarde, com elegância, teve a possibilidade de dizer:

«Estou muito reconhecida à vida, embora por vezes ela tenha sido para mim muito cruel, muito dolorosa, muito difícil.»


1.

Abandonou o governo do país para se tornar presidente da união europeia, ocupa o cargo de presidente não executivo da Goldman Sachs International e agora, como presidente da Gavi-The Vaccine Alliance, irá monitorizar a distribuição de vacinas contra a Covid-19.

Durão Barroso, é ele o traste personagem que estamos referindo, dirá parvamente, entre dois arrotos de whisky, uma qualquer pilhéria, que sim, é mesmo um tipo esperto.

Para além de trafulhices, o personagem também percebe de vacinas?

O Fernando Assis Pacheco diria que isto são histórias para camelos.

Os camelos somos muitos de nós, quase a totalidade.

Isto anda tudo ligado e as vigarices, as corrupções, combinam-se em cada canto de uma qualquer rua deste mundo podre.

2.

Enquanto deputada da nação, pretendia que o orçamento da Assembleia da República lhe pagasse os fins-de-semana em Paris, cidade onde, então, vivia.

Como presidente da Câmara de Almada, disse que os miseráveis bairros de Almada têm uma vista privilegiada sobre o rio e sobre Lisboa e não se importava de lá viver.

A mediocridade política desta gente, explode em cada segundo dos dias que passam.

O nosso desencanto é enorme.

Que fazer?

3.

Segundo o Público, o governo prometeu 2500 camas para universitários mas só há 300.

E continua a desenfreada especulação, o escândalo sem nome, dos senhorios a alugarem quartos e apartamentos a estes jovens, que grande parte não conseguem suportar.

 4.

O processo chama-se Operação Lex.

Entre outros, três juízes vão sentar-se no banco dos réus.

De há muito os portugueses têm vindo a desconfiar da justiça portuguesa.

A partir de agora, aconteça o que acontecer, as razões dizem aos mesmos portugueses que não mais poderão pensar de modo diferente.

5.

Uma sondagem indica que 60,6% dos portugueses não acreditam que os fundos europeus que aí vêm, sejam bem aplicados, bem geridos geridos.

Há que seguir dinheiro.

Mas quem o fará?

 6.

António Costa vai dizendo :

«O nosso lema volta a ser emprego, emprego, emprego.»

Em resposta o Montepio deu início a uma onda de despedimentos enquanto e os inscritos nos centros de emprego de todo o país atingem os 409 mil e não havia tanto desemprego registado desde Janeiro de 2018.

7.

Uma história antiga:

«Lembro-me que me abracei a um polícia e, ambos aos saltos, saudando um crime: o Vata marcara com a mão e íamos à final da Champions.» 

Ferreira Fernandes no Público

sexta-feira, 17 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Não sou dos que se ofendem com a palavra «velho».

Gosto mais do que «idoso», ou «terceira idade».

A minha avó Brígida, amiúde, a propósito de tudo dizia: «velhos são os trapos!»

Pois é: mas estou velho.

E esse pormenor faz realçar, ainda mais, aquilo que sempre fui: um chato!

Talvez por velho e chato, não gostei da leviandade com que, primeiro-ministro e presidente da república, abordaram a entrada no terceiro estado de emergência que durará até ao dia 2 de maio.

Não gostei porque entendo - é provável que existam razões que não alcanço – que isso apela a um facilitismo que é provável que traga amarguras várias.

Desde que tudo isto começou, acordo de credo na boca e, no decorrer das restantes horas do dia, passo sérias dificuldades para, em cada poente, tentar esquecer as aflições e nem sequer estou a pensar, para já, na crise económica que se há-de abater aqui pelo pedaço.

A frase pertence a William Faulkner, mas não sei onde, agora, posso confirmar essa autoria:

"Dir-se-ia que o homem pode aguentar tudo,
até a ideia de que não pode aguentar mais."

Dizem que é importante dar confiança aos portugueses mas olha-se para Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna e dali pode sair tudo menos confiança.

Como música incidental do dia de hoje, a excpecional reinvenção do Concerto de Aramjuez de Joaquin Rodrigo, feita por Miles Davis.



1.

Mais de 52 mil pessoas já pediram subsídio de desemprego à Segurança Social desde o início do estado de emergência. o número de subsídios de desemprego atribuídos em Portugal pode aumentar 29%, para um total perto dos 230 mil beneficiários.

No final do ano de 2019 tínhamos uma taxa de desemprego de 6,5% e os recentes indícios fazem prever que o país pode atingir os 13,9%

2.

O Governo decidiu impor um limite máximo de 15% no lucro que pode ser obtido através da venda de dispositivos médicos e de equipamentos de protecção, como máscaras, álcool etílico ou gel desinfectante.
Na semana passada, a ASAE anunciou que tinha detectado uma empresa de venda de acessórios e reparações de telemóveis em Lisboa a comercializar álcool gel com margens de lucro que oscilavam entre os 300% e os 400%.

3.

Diário de Notícias e TSF, outras publicações da Global  Media entram em lay off a partir de segunda-feira.

4.

A Assembleia Geral anual da EDP aprovou a proposta da administração de distribuir um dividendo de 19 cêntimos brutos por acção, face ao ano de 2019, o que representa uma quantia total de 694,7 milhões de euros a ser paga aos accionistas.

O Sindicato do sector denunciou que a EDP tem colocado entraves à negociação da tabela salarial com os trabalhadores mas que em plena pandemia tem mais de 600 milhões de euros para distribuir lucros aos accionistas.

Também na Galp se perspectiva o pagamento de 318 milhões de euros em lucros aos accionistas. A mesma empresa, cuja Assembleia Geral reunirá a 24 de Abril, já despediu este mês, só na Refinaria de Sines, mais de 80 trabalhadores com vínculos precários.

5.

Psicólogos alertam para o risco de aumento do jogo compulsivo, consumo de álcool e tabaco.

6.

Até agora foram libertados as cadeias portuguesas 1.181 reclusos

7.

A frase é de Ferreira Fernandes:

«Um dos mais extraordinários fenómenos políticos dos tempos modernos é Donald Trump ser presidente da democrática América.»

Donald Trump está no fio da navalha pela falta de preparação, a plena desorientação revelada perante o Covd-19 e a tragédia que se abateu pelo país, e trata de acusar os jornais, rádios e televisões, os governadores dos estados, os congressistas democratas, a Organização Mundial de Saúde e vá de lhe suspender o financiamento.

O britânico The Guardian colocou em título:

«Trump volta-se contra a OMS para encobrir os seus imensos falhanços na crise da Covid-19»

8.

Os negros números:

Os Estados Unidos são actualmente o país com mais óbitos no mundo, cerca de 33 mil pessoas mortas. Em Nova Iorque já morreram 1.477 pessoas.

Na Europa a Itália apresenta 22.745 mortos, seguindo-se a Espanha com 19.613 mortos, a França com 18.681 e a Grã-Bretanha com 14. 576.

Portugal regista 657 óbitos.

Em todo o mundo já morreram 150.948 pessoas.

9.

José Gomes Ferreira que, juntamente com outros autores, nestes dias cruéis me tem acompanhado:

«Só este silêncio que nos impele
Para o abismo de solidão
Que temos na pele.»

quarta-feira, 15 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Ferreira Fernandes e Catarina Carvalho pediram a demissão dos cargos que ocupavam na direcção do Diário de Notícias e a administração aceitou o pedido.

Perspectiva-se o accionamento da lay-off nos vários títulos que fazem parte da Global Média e os directores entenderam que não tinham condições para continuar.


«A partir de amanhã, a edição em papel só sairá aos domingos.

Nos restantes dias terá uma edição digital.

Dizem que é um passo em direcção ao futuro, um futuro mais firme.

Na quinta-feira, na «Quadratura do Círculo» , José Pacheco Pereira disse: o Diário de Notícias acabou!

Ferreira Fernandes não está nada de acordo e, hoje, num texto bem esgalhado, explica a Pacheco Pereira o tal futuro mais firme.

Não serei tão taxativo como Pacheco Pereira, mas, face a esta mudança,  também tenho as minhas dúvidas.

O meu avô paterno, republicano histórico, odiava o Diário de Notícias, como então se dizia, o jornal das sopeiras e só lia O Século.

Segui-lhe as pisadas e, também,  muito raramente passei as mãos pelas suas páginas.

O Diário de Notícias apenas foi o meu jornal enquanto os nomes de Luís Barros e José Saramago estiveram no cabeçalho do jornal.

De Abril a Novembro de 1975: os dias dos dias.»

Nestes Dias cruéis que vamos vivendo, é mais uma notícia triste.

Sim, aproximam-se péssimos dias para o Diário de Notícias-on line que ainda hoje destacava esta notícia:

«Choque de desemprego será o maior de que há registo em Portugal.»

Péssimas e arrepiantes notícias para todos os órgãos de informação, sejam da imprensa escrita, da rádio, da televisão.

Sou de um tempo em que o jornalismo era uma profissão respeitável, ler um jornal não era dar o tempo por perdido, era um gesto importante. Também não  existiam on-lines e havia a necessidade de olhar o que se passava no país e no mundo, mesmo sabendo que o lápis azul da censura, frequentara as pilhas de jornais que se amontoavam, ainda não havia quiosques, no ardina da esquina.

Existiam também as entrelinhas que, magistralmente, alguns jornalistas sabiam utilizar, assim fintando  os-incultos-quase-analfabetos-coroneis-da-censura.

Recordo, não com jornais, mas uma história da rádio, contada por Luis Flipe Costa:

Em 17 de Maio de 1967, Palma Inácio realizou o assalto ao Banco de Portugal da Figueira da Foz, o que seria o primeiro acto político da LUAR. Obviamente a notícia foi proibida pela censura, mas sabia-se, por portas travessas, o que tinha acontecido, e no noticiário da uma da manhã do Rádio Clube Português, o jornalista Luís Filipe Costa aproveitou a leitura do boletim meteorológico para concluir a sua apresentação:

"Felizmente, há luar".

Baptista-Bastos, Capitão de Médio Curso:

«Mais do que uma instituição pública, o jornal é uma declaração de amor, um momento, e a sua arte reside justamente na virtude de chegar na hora, na criação do contraponto entre o que permanece e o que vai acontecendo.
A solidão do jornalista decorre da fraternidade por ele jamais recusada, da responsabilidade por ele aceite como princípio ético, da severidade imposta pelo comércio das ideias feito com outros homens. Mas a solidão do jornalista é intermediária, porque reflecte uma época também intermediária, onde o poder, a força e a riqueza têm menor importância do que a ciência. Sendo acto, sonho, declaração de amor, o jornal é também uma ciência – eis porque os tiranos temem o prestígio do jornal que vê claro e escreve vivo: a felicidade apoia-se na verdade, a ilusão assenta na mentira.»

Nicolau Santos, aqui:

«Hoje. Ao fundo, um homem sai de um gabinete. O gabinete do chefe. Do ex-chefe. Do ex-chefe que ainda é chefe, ex é ele: ex-empregado. Acaba de ser despedido. É um de um rol de muitos, um nome a mais numa lista, uma fila a menos numa folha de cálculo. Sai calado, pelo espaço aberto, outros olhos viram-se primeiro para ele, depois para baixo. Outro nome é chamado, lá vai ele, o mesmo gabinete, o mesmo destino. Hoje a empresa não é uma empresa, é um matadouro. Morrem empregos. Saiu nas notícias e tudo. É um dia na vida.»

Faz-nos companhia, uma velha e gloriosa canção dos Byrds: «Turn, Turn, Turn.»

Um tempo para nascer, um tempo para morrer, um tempo, a canção não o diz mas escrevo eu, para acreditar que não é possível viver sem jornais em papel, um aceno longo ao meu pai que, no tempo da ditadura, foi jornalista, fechava o jornal madrugada fora dentro, numa correria louca para não perder os comboios que levavam o jornal para a província, hoje sabemos que os jornais cada vez estão mais pobres, arrastam-se num amontoado reles de notícias inventadas pelas redes sociais, copiadas pelos estagiários, em que se nota à vista desarmada que de há muito, foram perdidos os princípios… e assim sendo…




1.

Donald Trump cumpriu com o que havia ameaçado. A sua Administração suspendeu o financiamento à Organização Mundial da Saúde.

O Presidente dos Estados Unidos, país que é o maior doador da OMS, acusa esta organização internacional de falhar decisões no momento adequado.

Richard Horton, chefe de redacção da revista médica The Lancet:

«A decisão do presidente Trump de suspender o financiamento à OMS é simplesmente isso - um crime contra a humanidade. Todos os cientistas, todos os profissionais de saúde, todos os cidadãos devem resistir e revoltarem-se contra esta terrível traição à solidariedade social.»

2.

A China manteve o surto de Covid-19 em segredo durante seis dias. A Associated Press  revelou o conteúdo de vários documentos que indiciam que o vírus foi mantido em segredo da população durante seis dias.

No dia 14 de janeiro, altura em que foi detetado o primeiro caso de infeção pelo novo coronavírus na Tailândia, o ministro da Comissão Nacional de Saúde da China avisou vários responsáveis, entre eles o presidente, Xi Jinping, para o possível cenário de pandemia através de uma videoconferência.

Mas o presidente da China só alertou a população para a gravidade do vírus no dia 20 de Janeiro, seis dias depois e nessa altura mais de 3000 mil pessoas já tinham sido infectadas

3.

O número de trabalhadores abrangidos pela medida de lay-off simplificado, lançada pelo Governo para responder à pandemia de Covid-19, abrange actualmente já mais de 930 mil trabalhadores. O número de desempregados situa-se nos 353 mil.

4.

Os negros números:

Portugal regista 599 mortos.

O número de vítimas mortais em França, subiu para 17.167, a Itália regista 21.465 mortos.

Em Espanha já morreram 18.579 pessoas, na Grã-Bretanha 12.868 mortos, enquanto os Estados Unidos chegaram ao número de 25.757 óbitos. Só em Nova Iorque já se registaram 7.905 mortes.

5.

João Lopes no seu Covid-20:

«Tradicionalmente, define-se o jornalismo como a profissão, a arte ou a missão de dar conta da realidade. O que, convenhamos, envolve uma humildade equívoca. O jornalismo é também um sistema de linguagens que, conscientemente ou não, integra e contamina todas as componentes da dita realidade, não poucas vezes transfigurando as suas formas de percepção e verosimilhança. Desde meados da década de 1990, tudo isso passou a ser vivido, e bem ou mal pensado, também através da Internet, prevalecendo a ideia segundo a qual o mundo virtual seria tão só uma reconfiguração técnica do mundo clássico (?) em que vivíamos ou julgávamos viver. Chegados aqui, enfrentamos a mais gelada das evidências: a realidade integra o virtual. Como é que uma profissão, uma arte ou uma missão consegue viver perante tão cruel omnipresença?»

Legenda: João César Monteiro no dia em que soube que o Diário de Lisboa ia deixar de se publicar a partir do dia 30 de Novembro de 1990.

sábado, 17 de agosto de 2019

QUE MAIS IRÁ ACONTECER?


É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).
A pedra que sustenta a abóbada desta acusação, a clé de voûte deste escândalo artístico, é a tal "pressão". Aparente palavrinha, só isso, mas fonte de grande mistério. Lembro aos leitores, todos os domingos, todos os canais televisivos portugueses dedicam, cada um deles, meia dúzia de maduros a debater a impenetrável questão: foi suficiente a "pressão" nas costas do avançado para marcar penálti ou não? Nunca, mas nunca, ouvi unanimidade. Vamos também no caso deste Domingo não concordar todos. Que pressão, por causa do amor (talvez aqui só numa vertente), usou o tenor com cada uma das senhoras?
O jornal El País, ontem, referindo-se ao caso, citou uma frase de Norman Lebrecht, um dos críticos de ópera mais conhecidos no mundo: "A relação entre a batuta e o pénis é mais poderosa do que muitos maestros estariam dispostos a reconhecer." E mais outra frase: "Os abusos de poder na música são uma rotina, já que toda a autoridade vem de um homenzinho com um pequeno bastão." O crítico falava de maestros mas poderia fazer sentido trazê-lo para o caso de um tenor, não fossem frases dessas prestarem maior tributo aos efeitos especiais do que à verdade. E nunca me esqueço de como estive quase para perder grandes obras-primas de Hitchcock, tão boas sobre coisas simples da vida, e tão pirosas pelo parolo preito americano aos psicanalistas, nos anos 1950 e 60.
Afirmações em forma de denúncia feitas, e sem acusação judicial ou policial, já Plácido Domingo não será Romeu, no próximo espetáculo em São Francisco. Está aí a primeira ironia. Até no Romeu e Julieta, de Gounod, lhe fecham a porta. Desde o primeiro ato, e dura por todos os cinco, Romeu e Julieta amam-se ao primeiro olhar, "oh, anjo adorável!", gorjeia ele, falam-se com um balcão de permeio, sem conflito nem briga, se há mortes no fim é por engano - entre os dois não há pressão de quem quer que seja. E muito menos não há autoridade de um homenzinho com curto bastão. Ambos iguais, os do casal. Não sem razão, o libreto é inspirado em peça de Shakespeare, homem de outro século que não os que alimentaram os sentimentos exacerbados da ópera.
A maior das ironias está neste castigo da Ópera de São Francisco, e já se diz que outras se seguirão, quando tudo o que a imensa maioria das óperas cantam são, justamente, as pressões amorosas exacerbadas dos seus (e suas) personagens. Em La Traviata, de Verdi, Violeta está prometida a um barão, mas, logo no primeiro ato, quando Alfredo lhe é apresentado, ele declara-se. Violeta diz que é noiva, mas sempre lhe oferece uma rosa que trazia no peito... No segundo ato já eles estão no propriamente ato. Carmen, Fidelio, La Bohème... a lista é longa e quase unitemática: há um que toma a iniciativa e outra que hesita (ou ao contrário, em Carmen), convencem ou/e traem. Na Fidelio há mulher que por amor ao homem se veste de homem, levando outra a amá-la julgando-o homem... O amor em todas as suas vertentes nunca é linear e por isso as óperas nos empolgam e tão bem contam. A ópera devia ser a última a julgar Plácido Domingo.

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O TORCIONÁRIO DO BEIJO ROUBADO


Uma noite, já longínqua e em lugar público, eu agarrei-me a um polícia, e ele a mim, aos pulos e abraços. Éramos adultos e a coisa completamente consensual mas, há que dizê-lo, estávamos a celebrar um crime. Então, não havia ainda o VAR e o crime ficou impune. Apesar disso, eu próprio me tenho encarregado de auto-denunciar a minha participação na tal prevaricação.
Isso foi, portanto, numa quarta-feira, 18 de abril de 1990. O meu conterrâneo Vata tinha acabado de cometer um golo com a mão, no jogo da Taça dos Campeões que levou o nosso Benfica a uma final europeia. Trago para aqui essa memória e não é por estar aguilhoado pelos remorsos. Não me penitencio. Assumo e explico-me: há momentos de júbilo em que os pecadilhos são perdoáveis.
Entre os abraços ao senhor agente (atenção, nunca houve beijo), vi mais gente nos mesmos preparos jubilatórios. Políticos de várias cores, cunhados que não se falavam nem no Natal (ali reunidos porque o sogro tinha lugares cativos), o pobre que se desunhou para comprar o bilhete na candonga e o administrador que fez o favor de só aceitar uma borla na bancada porque os camarotes estavam cheios... - quase todos em abraços apertados. Quero eu dizer, o meu crime de bancada era socialmente aceitável.
Assim, não o quero comparar com o crime hediondo ocorrido no dia 14 de agosto de 1945, na Times Square, Nova Iorque. Mas vou contar este por dever de atualidade. Ia Greta, com o seu vestido imaculado de enfermeira, sapatinhos e meias brancas também, e por ali andava Alfred, um fotógrafo com sua pequena Leica sem flash, como então tão pouco se usava. Havia um multidão, pois o Japão anunciou que ia render-se. Era o fim da II Guerra Mundial, 80 milhões de mortos, campos de concentração nazis e duas bombas atómicas - desculpem-me esses pormenores irrelevantes, quando estamos perante a coincidência de se encontrarem numa praça nova-iorquina a pureza da alva Greta e o Alfred tão sincero que não usava flash.
Eis que o marinheiro George assaltou esse momento diáfano! No meio da multidão, o marinheiro atacou violentamente a enfermeira Greta. Isto é, enlaçou-a (desculpem a brutalidade do termo) e beijou-a (desculpem, outra vez). O fotógrafo Alfred clicou e deixou para a eternidade o testemunho do horror. Veem-se na foto, à volta, homens e mulheres sorridentes - apesar da evidência do supremo mal tão próximo - parecendo mais interessados na minudência do fim da II Guerra, do que no crime ignóbil que assistiam. Ah, género humano, sempre tão distraído!
A foto, embora nunca exibida em nenhum museu do Mal (de Dachau ao Camboja), tornou-se famosa. Recentemente, procurou-se o marinheiro George e soube-se, para nossa vergonha nacional, que ele se chamava Mendonsa, filho de um Mendonça que emigrou. O marinheiro disse que tinha ido para a Times Square celebrar fim da guerra, até ia com a namorada, bebeu uns copitos, viu a enfermeira e pespegou-lhe um beijo à Hollywood.
 Logo no ano seguinte, Frank Sinatra e Gene Kelly, em Paixão de Marinheiro, iriam dar beijos iguais a raparigas, mas isso era Hollywood. Na vida real, em Times Square, na foto, vê-se o braço esquerdo da enfermeira, lânguido, sem estar agarrado, rendido, mas também o King Kong levou a rapariga para a Estátua da Liberdade e ela ia constrangida. Talvez a enfermeira Greta tivesse desmaiado pela violência do ataque inopinado. Quando também foi encontrada pelos jornalistas, muitas décadas depois, a enfermeira disse que o beijo não foi consensual, fora surpreendida pelo marinheiro.
Mas também contou que se chamava Greta Zimmer, fugida do seu país natal, Áustria, e refugiada nos Estados Unidos, em 1939. Quer dizer, naquele dia do fim de guerra, ela tinha motivos de júbilo. Mas não nos desviemos do essencial: a enfermeira foi atacada. O fotógrafo que publicou a foto na capa da revista Life chamava-se Alfred Eisenstaedt, era um judeu alemão, desde meados dos anos 30 refugiado na América. Naquele dia, na Times Square, também ele celebrava.
Mas porque insisto eu em falar de júbilo, quando 14 de agosto de 1945 foi o dia do horror?! Esta semana, aos 92 anos, morreu George Mendonsa, o torcionário do beijo, infelizmente sem nunca ter sido um daqueles velhos julgados como qualquer kapo de um campo de concentração nazi.

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias on-line

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

UMA MORTE APRESSADA


José-Augusto França tem 95 anos.

A idade que teria José Saramago se ainda caminhasse por aqui.

Ambos nasceram no mesmo dia, no mesmo ano, 16 de Novembro de 1922 , «ele às 14 horas (mas não muito viáveis numa declaração rural), eu às 14 e 35 minutos (declaração rigorosa de meu Pai contabilista), em sítios mais ou menos vizinhos, ele numa aldeia cerca da Golegã, eu, como se sabe, nos Estaus da cidade de Tomar.»

José Prudêncio, professor de Filosofia, investigou as cartas astrológicas de ambos, teve conversas com os dois intelectuais e escreveu sobre o assunto, um interessante livro: Um Céu e Dois Caminhos.

Ontem, o Público noticiou a morte de José-Augusto França.

Como Mark Twain, Augusto França poderia dizer:

«Parece-me que as notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas».

Todos temos a morte anunciada mas é exigível que se morra pelo próprio pé e não empurrado, para a dita cuja, pelo mau jornalismo.

A explicação da Direcção editorial do matutino:

«O PÚBLICO falhou no que não pode nunca falhar
A equipa do PÚBLICO tem um conjunto consistente de explicações para o erro que nos levou a noticiar o falecimento de José-Augusto França. Tem o rasto de uma informação que chegou à redacção e tem uma fonte credível e com rosto (que nomeamos no momento em que corrigimos a primeira notícia) que a validou. Mas essa explicação não passa disso mesmo: de uma explicação. Que não basta para justificar a gravidade do nosso erro. As fontes que ouvimos, mesmo que credíveis, não eram suficientes. E não tomámos a devida consciência que notícias sensíveis como estas, que afectam gravemente a intimidade e os direitos de pessoas concretas e das suas famílias, exigem cuidados redobrados.
O PÚBLICO errou e, manda a nossa forma transparente de estar, a Direcção Editorial assume o erro por inteiro. Vai ser necessário rever procedimentos para garantir que não haverá repetições.
Para lá destas necessárias explicações e do indispensável pedido de desculpas aos leitores, resta-nos ainda uma palavra especial para José-Augusto França e para a sua família. É dada aqui com este reconhecimento e será dada de forma pessoal pela nossa equipa.»

A nota pontual de Ferreira Fernandes publicada, hoje, no Diário de Notícias:

«Um jornal, que não este, anunciou ontem a morte de José-Augusto França. Logo, outros jornais portugueses, incluindo este, publicaram a citada morte. Ora, José-Augusto França, de 95 anos, está vivo. O primeiro dos jornais a publicar-lhe a morte será talvez o único a ter uma razão plausível para o erro cometido - talvez um seu jornalista tenha recebido notícias que julgou fidedignas. Talvez tenha sido vítima de uma brincadeira de mau gosto. Talvez, não sei... Porém, todos os outros jornais, incluindo o DN, não têm desculpa nenhuma.
Desses, incluindo o DN, sabe-se, sem margem para dúvidas, porque publicaram a falsa notícia: porque outro jornal já o fizera, os outros apressaram-se a segui-lo. Apressaram o push - aviso para os telemóveis e computadores dos leitores - pois um segundo de atraso diminuiria os cliques de leitura. Um push é útil porque permite aos nossos leitores terem rapidamente o alerta de uma notícia. Mas um push falso é uma arma letal: informa mal o leitor e desvaloriza o nome do jornal.
E há, como neste caso, outra consequência mais grave: a falsa notícia gratuitamente incomodou um homem, os seus familiares e os seus amigos. De notícias de mortes apressadas está a história do jornalismo cheia, algumas entraram na lenda e, com o passar do tempo, até fazem sorrir. Mas quando a razão do erro bebe numa prática que destapa as fraquezas do jornalismo atual - os seus meios limitados, as suas redações curtas e a pressão pelo imediatismo - o melhor é tomar a sério a gravidade. O push é importante, mas mais importantes são as pessoas.
E outra coisa: o push mandado por um jornal é um assunto editorial, de jornalistas, que têm uma relação com a informação que vai para lá da eficácia. O jornalista serve a verdade e só. Conselhos de técnicos da rapidez e de aumento de tráfego são bons de ouvir porque devemos lidar bem com a tecnologia. Tal como os jornalistas devem agradecer aos técnicos de ontem que lhes deram teclados QWERT para escreverem as notícias. Mas tal como aos técnicos de ontem não lhes era permitido insinuar que numa dada notícia se devia bater mais vezes na letra Q do que na letra R, um jornalista de hoje não deve permitir outra razão, além do jornalismo, que lhe apresse o push. Ponto.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

TRUMPADAS


Ponto de partida. Os serviços de inteligência americanos tinham concluído oficialmente, dias antes: "Não há dúvida de que a Rússia interferiu nas eleições de 2016."
Ponto de exclamação. Na segunda-feira, em Helsínquia, aquela questão (a ingerência russa numa eleição americana) foi posta a Donald Trump. E ele respondeu publicamente: "Não vejo qualquer razão para que tenha sido a Rússia."
Pontos nos is. No dia seguinte, terça, já em Washington, Donald Trump desmentiu-se, com firmeza: quando ele disse "não vejo qualquer razão para que tenha sido a Rússia" na ingerência das eleições, ele queria dizer "não vejo qualquer razão para que não tenha sido a Rússia". Simples.
Ponto e vírgula. Com Trump, o que é, anteontem; ontem, é não.
Ponto de interrogação. O que nos leva a uma dúvida, hoje: "?" Sinal de pontuação que é a frase mais urgente a dizer sobre Donald Trump.
Ponto final. Um tipo que se engana do sim para o não pode ser um ponto. Um simples ponto. Mas este é um Trump, o Donald Trump que se engana em matérias daquelas, numa cimeira, com o outro mais poderoso líder mundial e anda com um botão atómico.
Parênteses. (Não esquecer que o presidente Trump já disse, para algures, que a opção nuclear é uma hipótese a considerar.)
Travessão - Sim? Não? Cruel dúvida... Hoje, não. Amanhã, quem sabe?

Ferreira Fernandes, hoje, no Diário de Notícias on-line.