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sábado, 17 de maio de 2025

REOLHARES


A publicação que hoje fazemos dos Poemas Autografados, em que trouxemos o António Reis, leva-nos a completar a evocação do poeta com um texto de João César Monteiro sobre o António Reis cineasta.

Lembramos de novo a Maria João Duarte:

«Não sei se este homem nasceu primeiro poeta ou cineasta.»

Texto publicado no dia 21 de Abril de 1974:

«O grande destaque do nr. 29 de revista Cinéfilo, publicado a 21 de Abril de 1974, recai na entrevista, a propósito da estreia da média-metragem Jaime, que João César Monteiro faz a António Reis.

O texto de apresentação de entrevista é, simplesmente, uma prosa memorável.

João César Monteiro não esconde nada, e fica como prova - mais uma! - da excelência da sua brilhante, como genial, faceta de escritor, coisa que ele não gostava nada que se dissesse.

Este é o texto de apresentação da entrevista: “Jaime” de António Reis: o inesperado no Cinema Português:

«Tudo começou um pouco antes do Natal. O Fernando Lopes encomendou-me uma reportagem sobre um tipo que acabara um filme chamado Jaime, e é natural, tudo o indica, que eu tenha pensado o que qualquer português que se preza pensaria em idênticas circunstâncias: outra estopada para eu, qual pequeno, vil Tartufo, exercitar a gentileza.

Conhecem o dom dos derviches? Eu, o que se alimenta da própria e da cegueira alheia, não. O da conjectura, sim. Assim: um tipo, pobre diabo, é internado num hospício, enfiam-lhe (terapêutica ocupacional, dizem) umas tintas e um pincel nas unhas e, anualmente, com o velado epíteto de «arte de louco», expõem-lhe os trabalhos, promovem tômbolas, o que, para além de prestigiar o estabelecimento e fazer jus aos mais modernos tratamentos (de choque) que por lá se gastam, serve também para que uns magros patacos revertam em benefício do internado indigente: cigarritos, fardinha, alpargatas novas – doces caracóis da caridade. De Jaime, portanto, eu sabia o que se sabia para que, como nos contos de fadas, a surpresa pudesse ser total e milagrosa: um filme sobre a «pintura» de um tipo que, durante muito tempo viveu num hospício e por lá se finou.

É evidente que um assunto destes dá para tudo, sobretudo para especulações de feirantes, dificilmente para um filme com um mínimo de interesse, mais dificilmente ainda, em esta sucessão de rarefacções, para um grande filme. Entenda-se: um filme em que a severa vigilância ética nunca se separa da permanente invenção estética e, por via da feroz manutenção desse disciplinado equilíbrio, que não é só o da obstinação mas também, e sobretudo, o desse pleno voo da inteligência a que se dá o nome de capacidade poética, projecta, no espaço que é da história, o corpo, da sua própria vidência, feita de um novo furor e mistério.»

E que sabia eu de António Reis? Que escrevera os diálogos de, já tão longínquo, Mudar de Vida, de Paulo Rocha? Que publicara dois (ou mais?) livros de poemas (Poemas Quotidianos e Novos Poemas Quotidianos) que nunca li? Que nasceu no Porto e por lá viveu até há pouco, o que, ainda por cima, não era, antes pelo contrário, nenhuma recomendação especial, sabido como é que o Porto já deu o cineasta que tinha a dar e, como se isso não fosse já bastante, houve ainda que honrá-lo como instituição cinematográfica à lusa escala?

É certo que, na fria tarde de Dezembro em que me dirigi para a sala de projecção da Tóbis, fui recebido pela mais cândida e afável criatura que deve existir sobre a face deste taciturno planeta, mas só me dei conta da exacta dimensão dessas qualidades (e digo isto com o pressentimento de quão terríveis devem ser as manifestações do seu avesso), após ter visto o filme, como se o filme fosse afinal o único revelador possível e sem equívoco dessa tão veemente e natural explosão de humana grandeza.

Estou a falar de António Reis e do dia em que o conheci e que, por acaso profissional, coincidiu com a primeira vez que vi Jaime, quanto a mim, um dos mais belos filmes da história do cinema, ou, se preferem: uma etapa decisiva e original do cinema moderno, obrigatório ponto de passagem para quem, neste ou noutro país, quiser continuar a prática de um certo cinema, o cinema que só tolera e reconhece a sua própria austera e radical intransigência.

Neste sentido, creio que, numa altura em que os dados do cinema português estão a ser, se o não foram já, jogados, o surgimento de António Reis pode ser fundamental, tão fundamental como o enxerto de um coração novo num enfermo agonizante.

De facto, num meio mais do que minado por factores corruptos e já quase sem defesas contra a invasão imunda da rataria oportunista, António Reis pode, por um lado, pontuar exemplarmente a altitude moral a que nos obriga a nossa responsabilidade de cineastas e, por outro, suscitar um tipo de reflexão e discussão que torne algum cinema português mais próximo de formas de cultura de expressão genuína, e nascidas do duro conflito capaz de as desvincular de pesadas e sufocantes heranças ideológicas, o que nada tem a ver, Deus me livre, com o chavão muito em voga, e que não significa nada que sentido faça, de que «são precisos filmes que falem da realidade portuguesa».

Não é fácil, todos nós o sabemos, mas se assim não for, e, parafraseando o que Reis diz, algures, na entrevista que se segue, é preferível que chovam raios e coriscos e desabe uma porcela que tudo leve.»

POEMAS AUTOGRAFADOS


Estamos, hoje, com o nº 25 da Colecção Poetas de Hoje, editados pela Portugália Editora.

O poeta é o António Reis mais os seus Poemas Quotidianos.

Quem escreveu o prefácio, quase obrigatório, como disse José Gomes Ferreira, foi o Eduardo Prado Coelho.

«Em António Reis, toda a poesia emerge do silêncio – processo difícil, lento, convulsivo. Porque se trata dum silêncio tenebroso, feito de cegueira e rouquidão, feito de dias alucinados repetidos, feitos de esgares apenas – esse silêncio de pedra que é o quotidiano de muitos.»

A lápis, o livreiro, escreveu, naquele tempo, o quanto custavam Os Poemas Quotidianos: 35$00. Trinta e cinco escudos que, ao câmbio de hoje, são 0, 175 euros. Dá mesmo para acreditar? Dá! E terá que se dizer que aqueles 35 escudos eram tirados de ordenado curtíssimo porque muitos livros da Biblioteca da Casa foram comprados com sacrifícios vários.

Não tenho palavras para vos contar o que foi a alegria, o prazer, o espanto que a leitura destes Poemas me trouxe.

O Eduardo Prado Coelho, no 1º volume de Tudo o Que Não Escrevi, fala assim de António Reis:

«Pensava-o imortal, não sei porquê. Talvez porque nunca o vi envelhecer. Entrou em minha casa há vinte anos – uma casa vagamente «minha», onde morei apenas alguns meses ali para os lados da avenida de Roma. Uma casa que nem me chegou a ser casa, a não ser por duas ou três coisas muito nítidas que nela me aconteceram. Uma delas foi o António Reis. Ele vinha do Porto, não sei se naquele dia ou no meu imaginário, e era alguém que tinha escrito uns poemas de uma extrema sensibilidade, rasantes ao solo, de uma sensibilidade minimalista, a que chamar por isso mesmo Poemas Quotidianos. O meu mérito estava em ter gostado daqueles versos; o erro seria complicá-los demasiado. Desde esse dia que me ligou ao António Reis uma enorme cumplicidade. E isso transbordou para o cinema. Para o Jaime, primeiro. E depois para o Trás-os-Montes.»

Sim, porque António Reis, para além de poeta e professor na Escola de Cinema, foi o cineasta de filmes que realizou com a sua mulher Margarida Cordeiro e escreveu os diálogos para o filme Mudar de Vida de Paulo Rocha.

Maria João Duarte escreveu:

«Não sei se este homem nasceu primeiro poeta ou cineasta.»

Manuel António Pina no Jornal de Notícias escreveu uma crónica «Lembrança De António Reis»:

«Muitos anos antes, tínhamos (eu, o Chico, o Eduardo Guerra Carneiro, o Manuel Bernardo, o Madureira, quase todos já mortos) pouco mais de 20 anos e trazíamos o coração, sob a forma dos Poemas Quotidianos de António Reis, debaixo do braço, partilhando-os nos cafés do Carmo e de São Lázaro  e lendo-os em voz alta pela noite fora no TUP, como uma espécie de senha por que nos reconhecíamos».

António Reis morreu por um Setembro de 1991 e quase não foi notícia. António Cabrita, no Expresso, insurgiu-se contra esse facto, as muitas ausências no funeral, ou como escreveu João Mário Grilo: «chocou-me ver como é que se morre tão sozinho. Foi a enterrar com os amigos, o que também é bonito, mas não sei… o Reis merecia mais, foi alguém de quem fomos testemunhas. Acho que este país lhe deve mais do que lhe pagou.»

É este o poema que António Reis escolheu para Autógrafo da Colecção Poetas de Hoje:

 

Tenho nome

nome

 

tem nome um tecido

um objecto

o vento

 

oh murmúrio

de lábos juntos

no tempo que me esconde

 

António Reis, como epígrafe para os seus Poemas Quotidianos, escreveu uma frase de Saint-Exupéry tirada de A Terra dos Homens:

«Os homens não sabem o que é uma laranja.»

sexta-feira, 14 de maio de 2021

UMA ENORME CUMPLICIDADE


12 de Setembro de 1991

Pensava-o imortal, não sei porquê. Talvez porque nunca o vi envelhecer. Entrou em minha casa há vinte anos – uma casa vagamente «minha», onde morei apenas alguns meses ali para os lados da avenida de Roma. Uma casa que nem me chegou a ser casa, a não ser por duas ou três coisas muito nítidas que nela me aconteceram. Uma delas foi o António Reis. Ele vinha do Porto, não sei se naquele dia ou no meu imaginário, e era alguém que tinha escrito uns poemas de uma extrema sensibilidade, rasantes ao solo, de uma sensibilidade minimalista, a que chamar por isso mesmo Poemas Quotidianos. O meu mérito estava em ter gostado daqueles versos; o erro seria complicá-los demasiado. Desde esse dia que me ligou ao António Reis uma enorme cumplicidade. E isso transbordou para o cinema. Para o Jaime, primeiro. E depois para o Trás-os-Montes.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

CRUISER A. PUSHKIN


Lembra-se de um verso, num poema de António Reis, «há sempre um rapaz triste em frente a um barco.»

Gosta de começos de livros e agrada-lhe muito o de «O Ano da Morte de Ricardo Reis», de José Saramago, quando o autor revela que o «Highland Brigade», vapor inglês da Mala Real, que atravessava o Atlântico entre Londres e Buenos Aires, chegou por uma tarde chuvosa ao cais de Alcântara e dele desembarcou Ricardo Reis.

Ocorre-lhe a engraçada a história de Jorge Lima Barreto a explicar, no primeiro disco de Eugénia Melo e Castro, que lhe tinha sugerido o nome artístico de Eugénia C, porque se lembrava de um elegante paquete, que andava entre Lisboa e o Rio de Janeiro.

Gosta de ver, do alto das Janelas Verdes, os paquetes ancorados no cais de Alcântara e, não sabe bem porquê, cada vez que os olha, fica a trautear a «What have they’vedone to my song, Ma», da Melanie Safka «vê o que fizeram com a minha canção, ma!É a única coisa que eu sei fazer mais ou menos bem... e deram cabo dela. Quem me dera encontrar um bom livro, para viver dentro dele. Mas... pode ser que tudo acabe bem, mãe. Pode ser que tudo dê certo. Se as pessoas estiverem compradoras de lágrimas, um dia destes vou ficar rica» e vai pensando que um dia ainda há-de viajar num daqueles paquete».

Este disco tem a referência C92-13392, a etiqueta está em cirílico, mas a tradução, a fazer fé no que «Mr. Ié-Ié», algures lá para trás nas páginas do blogue escreveu, deverá ser «Melodia».
É um EP de 33 rpm, coisa pouco vulgar. Pensa que funcionava como «musical souvenir» para os passageiros que viajavam no paquete soviético «A. Pushkin» e é tocado pelo agrupamento musical de bordo, que animava as tardes e noites dançantes. Pelo menos é isso que as fotografias, publicadas na contra capa, sugerem.

São tocadas e cantadas quatro canções do folclore russo com a inevitável «Kalinka».

Conclui que é um disco de propaganda, pois não está a ver os passageiros do cruzeiro que, normalmente são gente do norte da Europa, com algum gosto, a interromperem o jantar de iguarias, regado a champanhe e glamour, para irem dançar a «Kalinka»., a não ser que estivessem muito bem bebidos. 

Hoje, ainda adormecerá deixando que «Trains, Boats and Planes» passem lentos pela imaginação a caminho de uma direcção que não consegue vislumbrar qual é. 

Como não encontrou nenhuma gravação do conjunto privativo do paquete russo, arrisca a canção que trauteia quando olha os barcos no Cais de Alcântara: Melanie Safka a cantar «Look what they’ve done to my song, Ma».



quinta-feira, 2 de abril de 2020

DiÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Não é impunemente que se nasce em Lisboa, frente a este rio que é um mar.

Lembro-me do Mário Castrim: «Sofro desse mal ilhavense: quando estou muito tempo sem ver o mar, sufoco. Nasci com esta droga no sangue, morrerei com ela.»

Há quantos dias não vejo o mar, não oiço o grito das gaivotas?

Tenho pena de morrer sem ver o mar, diziam as velhas no findar do dia, frente ao borralho, preparando o jantar. Muitas, só depois de por aqui acontecer uma revolução, conseguiram ver o mar.

A tarefa de conhecer o barco e o mar em que vamos, ou aquele verso num poema de António Reis: «há sempre um rapaz triste em frente a um barco».

De mar em mar, desaguamos em Claude Debussy, no seu «La Mer», desaguamos à beira do sonho.

Qual sonho?


 1.

O ministério dos negócios estrangeiros pede aos compatriotas que trabalham ou residam no estrangeiro que, pela Páscoa, não venham visitar os familiares e amigos não visitem, pela Páscoa. A pandemia a isso obriga. Temos que nos proteger uns aos outros.

Depois de o prolongamento do estado de emergência ter sido aprovado na Assembleia da República, ficou a saber-se que durante o período de Páscoa não vão ser permitidas deslocações para fora do concelho de residência, excepção feita para pessoas que forem trabalhar e entre os dias 9 e 13 de Abril estarão encerrados os aeroportos nacionais. Uma medida excecional", que não abrange voos de carga, de natureza humanitária, de repatriamento ou de natureza militar. 


2.

Seis dólares por hora e equipamento de proteção individual é o que Nova Iorque oferece aos presos de Rikers Island para cavar valas comuns.
Ideia já constava de plano contra surto de gripe em 2008.

Se Nova Iorque é o epicentro do surto de coronavírus, mais de 38 mil infectados e mais de mil mortos, que está a matar milhares de pessoas nos Estados Unidos, pode-se dizer que a prisão de Rikers Island, a maior prisão do estado de Nova Iorque, é mesmo o epicentro da catástrofe humanitária. A taxa de infeção entre os reclusos e os funcionários daquela prisão isolada é sete vezes superior à taxa da cidade de Nova Iorque.

3.

O número de pedidos de subsídio de desemprego nos Estados Unidos atingiu os 6, 6 milhões de trabalhadores.

4.

A TAP publicou um vídeo em que, aos 75 anos, se despede dos portugueses com um «até já!»

Será que abandonamos as grandes discussões sobre a situação do novo aeroporto que iria desafogar a Portela: Alcochete, Montijo, Marrazes-de-Baixo?

Imagens do aeroporto da Portela no dia de hoje, mostram-no quase vazio… uma náusea de tristeza passeia-se pelos corredores, pelos átrios… o silêncio…

5.

Semanas atrás, quantos novos restaurantes abriam em Portugal?

6.

Aterradoras as fotografias e imagens que estão a chegar da Índia.

A miséria total num país que alberga as maiores fortunas do mundo.

7.

A companhia aérea British Airways vai colocar 28 mil funcionários em situação de desemprego parcial, devido à crise causada pela pandemia de covid-19, que paralisou o sector.

8.

A Altice Portugal, em comunicado, lamentou que não tenha siso ouvida ou notificada no processo de suspensão das Ligas de futebol português, devido ao Covid-19.

9.

Numa só semana, a venda de livros caiu 65,8% devido à pandemia,

A situação de desespero coloca em risco todo o sector livreiro mas, acima de tudo, as pequenas livrarias, os pequenos editores.

10.

Os negros números:

Itália

13.915 mortes

Espanha

10.348 mortes

Estados Unidos

5.137 mortes

China

3.318 mortes

Irão

3.160 mortes

França

5.387 mortes

Grã-Bretanha

2.921 mortes

Bélgica

1.011 mortes

Portugal

209 mortes

No Mundo

52.771

11.

«Acredito que se calhar, aqui, estou mais protegida do que aí fora. Mas a protecção não é conforto nenhum. Por causa da solidão. Isto é paredes brancas, o chão liso o dia inteiro – eles são muito cuidadosos com a limpeza – e às vezes a vida com um bocadinho de sujidade é melhor.»

Depoimento de uma professora reformada, a viver num lar, publicado no Público.

sábado, 2 de março de 2019

AOS DOMINGOS, O GOLO NO ESTÁDIO



Era no tempo em que só havia domingos.
Tenho saudades dos jogos aos domingos às 3 da tarde, à torreira do sol, o meu avô com um chapéu feito com páginas de jornal, ao intervalo mudar de lugar para o lado em que o Benfica atacava.
Depois o eléctrico de Carnide até aos Restauradores.
Sandes de presunto, uma gasosa na Tendinha do Rossio,
Mas apenas quando o Benfica ganhava. O empate não dava direito a nada,
Não havia transístores e ficar a aguardar que na parede da Livraria de O Século ao lado Café Nicola, colocassem os resultados dos outros jogos.
Regressar a casa.
Se o Benfica ganhava, ouvir o rescaldo da jornada, mas apenas quando o Benfica ganhava…
Não havia televisão.
No tempo em que só havia domingos.

Legenda: inauguração do Estádio na Luz no dia 1 de Dezembro de 1954.

Nota do Editor: o título é o verso de um poema de António Reis.

sexta-feira, 1 de março de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Dulcíssima cidade.

Branca?

Tanner diz que sim.

Branco é o silêncio, a solidão, o encantamento, a violência, o feitiço a nostalgia, a amargura, o deslumbramento.

Tudo branco?

Tanner diz que sim.

Lisboa ao voo do pássaro como diria o Mário-Henrique Leiria.

Um rio que se atreve a ser mar.

Cheiros. Gentes. Mãos que encontram outras mãos, mãos que ajudam, desajudam.

Paulo Nogueira, ao tempo da estreia do filme, escreveu que a felicidade só está disponível para quem sabe parar. Tanner pergunta todo o tempo se as cidades gostam dos homens.

Paul é um marinheiro que trabalha na casa das máquinas de um navio que aporta a Lisboa.

De um poema de Eugénio de Andrade:

Os navios existem
e existe o teu rosto encostado
ao rosto dos navios

Paul desembarca e embrenha-se na cidade. Entra num bar e depara na parede com um relógio cujos ponteiros rodam ao contrário. Nada, de facto, é tão permanente em relação a um barco, como a próxima rota da sua viagem.

António Reis deixou versos em que dizia que há sempre um rapaz triste com lágrimas nos olhos frente a um barco.

Paul resolve deixar partir o barco e ficar na cidade. 

Talvez o primeiro dia do resto da sua vida.

A Cidade Branca sofre um pouco da tristeza que é a nossa, ressalta a ternura que ansiamos e procuramos indefinidamente.

Volto à superfície, Stop; Rosa partiu não sei para onde, Stop; o único país de que gosto verdadeiramente é o mar, Stop; amo-vos, Stop; beijo-te ternamente, Stop; o corpo duma mulher é demasiado grande, Stop; a recordação e o esquecimento têm a mesma origem, Stop; as mulheres são demasiado belas, stop; os comboios não partem à tabela, Stop; não sei mais do que dantes, Stop.,  escreve Paul antes de deixar Lisboa, a cidade branca.

Realização e Argumento: Alain Tanner
Interpretação:
Bruno Ganz (Paul)
Teresa Madruga (Rosa)
Estreia em Portugal: Quarteto, 21 de Abril de 1983

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Como é que o cinema português resiste aos seus detractores e a todos aqueles que objectivamente trabalham para o tornar inócuo ou inexistente.

António Guerreiro no Público

Legenda: rodagem de Trás-os-Montes de Margarida Cordeiro e António Reis

terça-feira, 28 de abril de 2015

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO


Série de nove "fascículos de poesia" publicados no Porto, entre 1957 e 1961, sob a direção de Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro. Incluíam poesia empenhada, que se insurgia contra o mundo circundante (a violência, a injustiça, a falta de liberdade) e afirmava o valor da solidariedade com o próximo.
A designação da revista, retirada do título de um poema de Egito Gonçalves, publicado no 4.° fascículo de Árvore, remete para um programa de poesia de resistência, aludindo metaforicamente ao cerco a que estavam submetidos os intelectuais portugueses.
Sem apresentar texto programático, nem textos de crítica ou teoria poética, a publicação reúne criação poética de autores com opções estéticas diversas (além da direção, Jorge de Sena, Casais Monteiro, Miguel Torga, Afonso Duarte, António José Fernandes, Vasco Costa Marques, Mário Henrique Leiria, Maria Almira Medina, João Ribeiro Melo, Orlando da Costa, José Fernandes Fafe, António Reis, Daniel Filipe, Joaquim Namorado, João Rui de Sousa, Alexandre O'Neill, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, José Augusto Seabra, Pedro Alvim, Maria Teresa Rita, Gastão Cruz), mas que colaboram sistematicamente com composições subordinadas a um intuito de denúncia e combate. Cada fascículo incluía, ainda, nas últimas páginas, tradução de poetas estrangeiros (Brecht, Guillevic, Stephan Hermlin, Jorge Carreara Andrade, Jean Todrani, Nicolau Vaptzarov). Os fascículos 6 e 8 são dedicados a poetas moçambicanos e angolanos.

Da Infopédia, Porto Editora

Este é o poema Notícias do Bloqueio de Egito Gonçalves, do livro A Viagem com o Teu Rosto (1958) e reunido em Os Arquivos do Silêncio:

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

Notícias do Bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
             e a esperança reproduz-se 


Esta é a canção Let My People Go cantada por Paul Robeson e referida no poema de Noémia de Sousa Deixa Passar o Meu povo

quinta-feira, 26 de abril de 2012

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA


Esta foi a escolha, para o dia 26 de Abril de 1974, que Eduardo Guerra Carneiro fez para os leitores do Cinéfilo.

Em destaque, a sessão da meia-noite, do cinema Londres, com o filme Lilith de Robert Rossen.

Não sei se houve sessão, no Londres, ou em qualquer outro cinema: uma revolução estava na rua!

Por mera curiosidade direi que, se não fosse o 25 de Abril, eu seria um dos espectadores do filme de Robert Rossen, pois nunca o tinha visto.

Como, a abrir a prosa, o Eduardo escreve:

É muito natural que o nome de Robert Rossen nada evoque à grande maioria do público de cinema.

E mais escreveu:

É precisamente Lilith (que, em português, recebeu o título um pouco fatalista e bastante moralista de Lilith e o Seu Destino) que hoje lhe recomendamos, na certeza de que lhe chamamos a atenção para um dos filmes mais importantes que, na década de 60, se produziu em Hollywood.






O dia 26 era o último dia das escolhas do Cinéfilo, e convém dizer que havia, sempre, uma outra escolha. A do DIA NÃO!

Como o nome indica, servia para avisar o leitor de que não valeria a pena mexer um pé, para ir ver, ouvir, ou ler, o que o Eduardo entendia como puro  (des)aconselhamento.

O NÃO desta semana, recaía no filme de Sydney Pollack, O Nosso Amor de Ontem, com Robert Redford e Barbra Streisand.

Destaque ainda para uma rubrica regular do Cinéfilo.

Dava pelo nome de O Colocador de Cartazes e era assinada por Adelino Tavares da Silva, um dos grandes jornalistas portugueses, homem de um humor fino e, ao mesmo tempo, desconcertante.

No cartaz deste número, a propósito do Jaime de António Reis, Adelino Tavares da Silva, contava a história de um maluco num dia em que a Volta a Portugal em Bicicleta, passou por Serpa.






Uma coisa é o Jaime do António Reis; outra é uma história de malucos.

Não queria terminar a viagem, pelo número 29 do Cinéfilo, da semana de 20 a 26 de Abril de 1974, sem referir um pormenor.

Só no número 31 do Cinéfilo, semana de 4 a 10 de Maio de 1974, se ficou a saber da razão de o número anterior, semana de 27 de Abril a 3 de maio, não ter uma única referência à data histórica:

Razões de fabrico da revista fizeram que o último número do Cinéfilo saído dois diaa de pois do Movimento do 25 de Abril estivesse já pronto na véspera, o que fez com que em nada reflectisse as consequências profundas que, a todos os níveis e, neste caso, na a informação, alteraram de um dia para o outro o funcionamento e a fisionomia dos jornais, revistas, emissões de rádio e televisão e os espectáculos em geral. Os artigos publicados nesse número, por exemplo, haviam sido todos objecto de censura e, coisa obsoleta, dois dias depois desta ter sido suprimida, o Cinéfilo saía pois com artigos censurados.

Por fim, dizer que, uma vez por outra, voltarei a pegar no Cinéfilo, destacar um número, e viajar por ele.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA


Esta foi a escolha, para o dia 23 de Abril de 1974, que Eduardo Guerra Carneiro fez para os leitores do Cinéfilo.

Para além da entrevista a António Reis, João César Monteiro assina um curto texto sobre o filme Peregrinação Exemplar de Robert Bresson.

João César Monteiro chamou ao texto Balthazar ao Acaso:

Se há filme que justifique um debate global entre a crítica da especialidade, Au Hasard Balthazar (Peregrinação Exemplar) é, justamente, esse filme. Porquê? Pela soma de questões (algumas ainda não inteiramente resolvidas) que tem posto, com isso comprometendo e questionando todo o cinema que o precedeu e não pouco do cinema que se lhe seguiu. Significa isto que Au Hasard Balthazar é, antes doo mais, na auscultação do que pode ser uma modernidade cinematográfica, um ponto-chave, e tão radical que, em 1966, e aquando de uma primeira e desnorteada abordagem levada a cabo pela equipa do Cahiers du Cinéma, um crítico como François Weyertgans, se perguntava, se, a partir de Bresson, seria possível continuar-se a gostar dos filmes de que, até então, se gostava, tão oposta lhe parecia a proposta bressoniana. Hoje, em dia, a questão não é bem essa, nem os termos adequados serão os de Weyergans, mas não há dúvida que Au Hassard Balthazar assinala o ponto extremo, mais avançado, da investigação bressoniana, face à utilização da matéria significante. De facto Mouchette (Amor e Morte), Uma Mulher Meiga e As Quatro Noites de um Sonhador, que se lhe seguiram e que o público português já teve oportunidade de ver, pouco ou nada lhe acrescentam, antes pelo contrário, tanto mais que a rarefacção aqui conseguida, não só no plano de uma narratividade completamente liberta de qualquer suporte extra-cinematográfico como na obtenção integral de uma “inexpressividade” por parte dos “actores” (há quem afirme que o burro é o actor ideal de Bresson), não voltou a ser igualada nos filmes posteriores de Robert Bresson.






Seja como for, para já o papel do Cinéfilo (que o tem e terá, mais do que se possa pensar) seria sempre o de chamar a atenção para um filme que nos parece extremamente importante, para além do facto, não menos importante, de servir de “baptismo” ao filme importante do nosso Reis (António). Assim sendo, tudo leva a crer que, muito brevemente o filme de Bresson e algumas questões obrigatórias a ele ligadas sejam amplamente tratadas nas páginas do Cinéfilo, ficando, pois, e desde já, à disposição dos interessados, as colunas da nossa revista para a discussão que se impõe.

Mais filmes que podiam ser vistos nesta semana de Abril de 1974

EDEN

Cantinflas às Ordens de Vossência de Miguel M. Delgado com Mário Moreno.

Solícito e obediente, o porteiro Cantinflas faz gala do seu impenetrável conformismo mascarado de eficiência profissional. Um dos exemplos mais medíocres das comédias moralistas feitas para distrair o público

ESTÙDIO 444

O Porteiro de Jean Girault com Bernard Le Coq e Maureen Kerwin

A fobia dos grandes temas burgueses ao serviço do riso fácil e do exibicionismo dos actores, facilitado pelas tradicionais situações do “boulevard” pornográfico.

Sessões Especiais no Império às 18,30 h.

No dia 24

A Regra do Jogo de Jean Renoir com Marcel Dalio, J. Renoir

Da regra à transgressão, do jogo de actores, Renoir desmonta as relações que se processavam no seio da decadente burguesia francesa de 1939. Um filme decisivo na história do cinema.

Para o dia 26 anunciava-se O Gigante de George Stevens com James Dean, Liz Taylor

Também às 18.30h., sessões especiais no Monumental:

O Processo de Orson Welles de e com Orson Welles

Do quotidiano ao pesadelo mais insuportável, é esse o trajecto deste filme monumental que Orson Welles realizou a partir do romance de Franz Kafka. Não perca.

Para o dia 24 anunciava-se Em Nome do Povo Italiano de Dino Risi com Vittorio Gassman, e para o dia 26 Eu Sou Bob Dylan de D.A. Pennbaker.

domingo, 22 de abril de 2012

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA


Esta foi a escolha, para o dia 22 de Abril de 1974, que Eduardo Guerra Carneiro fez para os leitores do Cinéfilo.

Apresentado o texto introdutório que João César Monteiro escreveu para a entrevista que, sobre o filme Jaime, António Reis lhe concedeu, é altura de dizer que a entrevista pode ser lida, na íntegra, no meritório e excelente blogue António Reis da autoria de António Neves.

Um trabalho a não perder, principalmente, pelos que conhecem mal, ou desconhecem, a obra de uma das figuras mais importantes da cultura portuguesa.

Regressando aos filmes que, durante a semana de 20 a 26 de Abril de 1974 podiam ser vistos em Lisboa:

AVIS

Malteses, Burgueses e às Vezes, realização de Artur Semedo com Artur Semedo, Lola.

Um filme que, aproveitando uma certa tradição do cinema cómico e também as técnicas do teatro de revista e da televisão, procura de alguma maneira, encontrar um caminho que o separe radicalmente das velhas comédias poeirentas do cinema português.

BERNA

A ópera “rock” de Andrew Webber e Tim Rice, Jesus Cristo Superstar, realização de Norman Jewison com Ted Neeley, Car Andersen e Yvonne Elliman.

Enquanto o escriba de serviço do “Hollywood Reporter”, prevê, desde já, o “oscar” para o melhor filme do ano, o crítico do “Osservatore Romano”, órgão oficial do Vaticano, afirma, sem remorsos, que o filme de de Jewison é um dos mais sérios e respeitáveis de todos os produtos da revolução de Jesu” (sic)
Pelo nosso lado, não resistimos à tentação da heresia e desaconselharmos vivamente o sacrifício.

Numa das sessões da Meia Noite do Apolo 70 projectava-se O Vale do Fugitivo de Abrahaam Polonsky com Robert Blake.

Um filme extremamente lúcido que aposta em corrigir os esquemas dominantes no “western” clássico, nomeadamente no que se refere às relações entre brancos e índios.

Também à Meia-Noite, no Londres, podia ver-se Fúria de Viver de Nicholas Ray com James Dean e Natalie Wood.

O retrato íntimo de uma geração inconformista assinado por aquele que, muito justamente, já foi chamado de poeta do cinema, da revolta e da solidão.

Na Meia-Noite do Vox, Suspeita de Alfred Hitchcock com Joan Fontaine e Cary Grant.

Um dos mais belos e perturbantes filmes de Hitchcock: onde se prova que a noção de culpa não passa de uam armadilha moral que os mecanismos do sonho e da obsessão não podem deixar de transgredir e, afinal, tornar suspeita.

Amanhã há mais!



sábado, 21 de abril de 2012

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA



Esta foi a escolha, para o dia 21 de Abril de 1974, que Eduardo Guerra Carneiro fez para os leitores do Cinéfilo.

O grande destaque do nr. 29 de revista Cinéfilo, recai na entrevista, a propósito da estreia da média-metragem Jaime, que João César Monteiro faz a António Reis.

O texto de apresentação de entrevista é, simplesmente, uma prosa memorável.

João César Monteiro não esconde nada, e fica como prova - mais uma! - da excelência da sua brilhante, como genial, faceta de escritor, coisa que ele não gostava nada que se dissesse.

Este é o texto de apresentação da entrevista: “Jaime” de António Reis: o inesperado no Cinema Português:

Tudo começou um pouco antes do Natal. O Fernando Lopes encomendou-me uma reportagem sobre um tipo que acabara um filme chamado Jaime, e é natural, tudo o indica, que eu tenha pensado o que qualquer português que se preza pensaria em idênticas circunstâncias: outra estopada para eu, qual pequeno, vil Tartufo, exercitar a gentileza.

Conhecem o dom dos derviches? Eu, o que se alimenta da própria e da cegueira alheia, não. O da conjectura, sim. Assim: um tipo, pobre diabo, é internado num hospício, enfiam-lhe (terapêutica ocupacional, dizem) umas tintas e um pincel nas unhas e, anualmente, com o velado epíteto de «arte de louco», expõem-lhe os trabalhos, promovem tômbolas, o que, para além de prestigiar o estabelecimento e fazer jus aos mais modernos tratamentos (de choque) que por lá se gastam, serve também para que uns magros patacos revertam em benefício do internado indigente: cigarritos, fardinha, alpargatas novas – doces caracóis da caridade. De Jaime, portanto, eu sabia o que se sabia para que, como nos contos de fadas, a surpresa pudesse ser total e milagrosa: um filme sobre a «pintura» de um tipo que, durante muito tempo viveu num hospício e por lá se finou.

É evidente que um assunto destes dá para tudo, sobretudo para especulações de feirantes, dificilmente para um filme com um mínimo de interesse, mais dificilmente ainda, em esta sucessão de rarefacções, para um grande filme. Entenda-se: um filme em que a severa vigilância ética nunca se separa da permanente invenção estética e, por via da feroz manutenção desse disciplinado equilíbrio, que não é só o da obstinação mas também, e sobretudo, o desse pleno voo da inteligência a que se dá o nome de capacidade poética, projecta, no espaço que é da história, o corpo, da sua própria vidência, feita de um novo furor e mistério.



E que sabia eu de António Reis? Que escrevera os diálogos de, já tão longínquo, Mudar de Vida, de Paulo Rocha? Que publicara dois (ou mais?) livros de poemas (Poemas Quotidianos e Novos Poemas Quotidianos) que nunca li? Que nasceu no Porto e por lá viveu até há pouco, o que, ainda por cima, não era, antes pelo contrário, nenhuma recomendação especial, sabido como é que o Porto já deu o cineasta que tinha a dar e, como se isso não fosse já bastante, houve ainda que honrá-lo como instituição cinematográfica à lusa escala?

É certo que, na fria tarde de Dezembro em que me dirigi para a sala de projecção da Tóbis, fui recebido pela mais cândida e afável criatura que deve existir sobre a face deste taciturno planeta, mas só me dei conta da exacta dimensão dessas qualidades (e digo isto com o pressentimento de quão terríveis devem ser as manifestações do seu avesso), após ter visto o filme, como se o filme fosse afinal o único revelador possível e sem equívoco dessa tão veemente e natural explosão de humana grandeza.

Estou a falar de António Reis e do dia em que o conheci e que, por acaso profissional, coincidiu com a primeira vez que vi Jaime, quanto a mim, um dos mais belos filmes da história do cinema, ou, se preferem: uma etapa decisiva e original do cinema moderno, obrigatório ponto de passagem para quem, neste ou noutro país, quiser continuar a prática de um certo cinema, o cinema que só tolera e reconhece a sua própria austera e radical intransigência.

Neste sentido, creio que, numa altura em que os dados do cinema português estão a ser, se o não foram já, jogados, o surgimento de António Reis pode ser fundamental, tão fundamental como o enxerto de um coração novo num enfermo agonizante.

De facto, num meio mais do que minado por factores corruptos e já quase sem defesas contra a invasão imunda da rataria oportunista, António Reis pode, por um lado, pontuar exemplarmente a altitude moral a que nos obriga a nossa responsabilidade de cineastas e, por outro, suscitar um tipo de reflexão e discussão que torne algum cinema português mais próximo de formas de cultura de expressão genuína, e nascidas do duro conflito capaz de as desvincular de pesadas e sufocantes heranças ideológicas, o que nada tem a ver, Deus me livre, com o chavão muito em voga, e que não significa nada que sentido faça, de que «são precisos filmes que falem da realidade portuguesa».
Não é fácil, todos nós o sabemos, mas se assim não for, e, parafraseando o que Reis diz, algures, na entrevista que se segue, é preferível que chovam raios e coriscos e desabe uma porcela que tudo leve.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA


No dia 20 de Abril de 1974, saía o nº. 29 da revista Cinéfilo.

O Cinéfilo representou um marco importante nas escassas ofertas de revistas sobre/de espectáculos que, ao tempo, existiam.

Mais tarde irei debruçar-me sobre alguns dos seus números, mas agora, este é o núnero que interessa referir, que abrangia a semana de de 20 a 28 de Abril de 1974.

O Cinéfilo tinha como director Fernando Lopes e António Pedro de Vasconcelos era  o chefe de uma redacção onde pontificavam Adelino Cardoso, José Martins, João César Monteiro.

O presente número é substancialmente dedicado ao filme Jaime de António Reis, uma média-metragem, a estrear brevemente em Lisboa,, mas para o qual, como Carta na Manga, o Cinéfilo, para os seus assinantes, agendara uma ante-estreia marcada para domingo 28, às 11 horas da manhã no cinema Satélite.

A importância que a revista dava a este filme, manifestava-se num longa entrevista a António Reis, feita por Joâo César Monteiro, que será amanhã aqui abordada.

Nas primeiras páginas da revista era publicada uma rubrica intitulada Sete Dias da Semana, em que, por cada dia, se dava destaque a livros, filmes, espectáculos de teatro e bailado, televisão ou exposições.

Eduardo Guerra Carneiro era o responsável da selecção e apresentação dos eventos.



O cineasta Eduardo Geada tinha a responsabilidade de organizar o cartaz dos cinemas, principalmente de Lisboa.

No Apolo 70 estava em exibição Nova Geração (American Graffiti) de George Lucas com Richard Dreyfus, Ronny Howard:

A imagem que George Lucas nos fornece da América de 1962 não corresponde tanto à tentativa de elaborar um documento crítico da época como visão inconsistente que ele possui desse período. Oscilando entre um revivalismo romântico, hoje bastante credenciado junto do público, e uma nostalgia conformada, o filme nunca consegue ultrapassar o esboço superficial e inconsequente.

Atentem, agora, nas sessões da meia-noite para o dia 20 de Abril de 1974:

Alvalade

O Mensageiro de Joseph Losey com Alan Bates e Julie Christie.

Exemplo típico do que é hoje um filme académico, embora seja também, indiscutível
mente inteligente. Uma realização cuidada, minuciosa (O que impõe sempre muito respeito ao público) ilustra às mil maravilhas uma ficção em que a burguesia reconhece com facilidade os vestígios da sua decadência e o saudosismo do seu esplendor classista.

Apolo 70

A Maldita, o Gato e a Morte de Roger Corman com Vincent Price,

(Para mais fácil leitura clicque na imagem).