sábado, 22 de fevereiro de 2025
terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
MÚSICA PELA MANHÃ
Sempre
considerou os preços dos bilhetes dos concertos uma exorbitância.
Também nunca se habituou a ouvir música com gente ao lado que, por tudo e por
nada, desata numa gritaria que ultrapassa largamente o limiar da histeria.
Chegou a pensar que grande parte dessa gente vai a concertos não por causa dos
artistas, por causa da música, mas por algo que, necessariamente, nada tem a
ver com os artistas e música.
Como tem vagos problemas de surdez, todo aquele chinfrim de berros e assobios,
causa-lhe algum incómodo.
Mas os filhos encostaram-no à parede, compraram bilhete e seria basto ordinário
se recusasse ir ver os Dire Staits a Alvalade.
Mark Knopfler e a sua banda andavam desde 1991 em tournée mundial que
terminaria em 1993.
Pouco tempo faltava para que Mark Knopfler dissesse, aos restantes
companheiros, que já estava um pouco farto daquela vida, que se queria dedicar,
de alma e coração, a fazer bandas sonoras e outros projectos. Com serenidade
fecharam os taipais em 1995 mas, como tantos outros, talvez se voltem a reunir.
Fizeram o trabalhinho com competência mas nada de entusiasmante. Dois ou três
“encores”, o inevitável “Local Hero”, e foram-se ao resto da vidinha que,
dizem, são dois dias.
Sentiu-se um tanto ou quanto defraudado. Acresce que a noite era uma daquelas
que a Primavera lisboeta, por vezes, tem: sufocantes. E os bares do velho
Estádio de Alvalade vendiam a cerveja quente. E se há coisa que o deixa mesmo
fora de si, a perder por completo as estribeiras, é darem-lhe cerveja quente.
Arranjou mais uma razão para não gostar de ir a concertos.
Os amigos consideram-no um chato!...
domingo, 26 de janeiro de 2025
MÚSICA PELA MANHÃ
Pat Boone é um cantor do meu tempo, tempos de Paul Anka e Elvis Presley também outros.
Nasceu em Jaksonville
no dia 1 de Junho de 1934 e ainda está vivo.
A rapaziada do
meu tempo não simpatizava muito com ele e nunca percebi porquê e também nunca
preocupei com isso.
A canção Dear John, que hoje vos trago pela manhã, conheci-a através do Pat Boone e é uma velha canção country (1953) cantada em dueto por Jean Shepard e Ferlin Husky.
Seguem as duas
versões e também um velho papel rabiscado em 18 de Janeiro de 2008:
Jorge Silva Melo a páginas 226 do seu “Século Passado”, escreve: “Foi passando a vida, fomos deixando o Saldanha e agora olho
para aquela praça quando por ela passo e pergunto-me se estou em Lisboa, se
ainda este sítio é meu, tão meu, tão íntimo que foi. (…)
"Mas dão-me saudades fundas, apetecia-me ver o cartaz do “Exodus” subir,
desenhado com perícia no atelier do Dongrie de Carvalho lá de cima do Monumental.
O cartaz do filme do Otto Premeinger não o tenho, mas tenho o tema do filme
cantado pelo Pat Boone num “EP” London LES 545, também “Made in Portugal”.
Os títulos das canções estão em português: “Canção do Filme Exodus, “Esta Noite
Há Luar”, “Querido João”, “Alabama”.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2025
MÚSICA PELA MANHÃ
WARNER BROS RECORDS - LP-S-65/47/48/49 - 1978
Quando o cerco é grande – olhem pela janela e vejam como ele aperta! – vai à
estante à cata de um vinil que lhe devolva um certo alívio, uma outra cor, que
não o cinzento, ou o negro.
Tropeçou na capa amarela dos The Band, The Last Waltz,o concerto
que, marcou a despedida de um grupo de rapazes que, estrada fora, andaram a
enfeitiçar gentes.
Um dia Bob Dylan deu-lhes a mão.
Ou foram eles que ajudaram Dylan a saltar para a outra margem?
Quem se importa agora com isso?
Pode ler-se na capa que este triplo álbum, mais o encarte, custou 915$00 (ao
cambio de hoje nem chega a cinco euros) e foi adquirido na Discoteca
Mitexa que, se a memória não o atraiçoa, ficava no Cento
Comercial Imaviz.
Um disco fabuloso que regista uma noite única, (25 de Novembro de 1976) precedida de jantar de Acção
de Graças, e em que gente de fino corte, decidiu homenagear uma banda que
marcou um tempo.
Ou todos os tempos?
Para além dos rapazes propriamente ditos, e entre outros, lá estiveram Neil
Young, Joni Mitchel, Dr. John, Eric Clapton, Van Morrison, Bob Dylan, Ringo
Sarr, Stephen Stills, Emmylou Harris e até Neil Diamond - quem diria? - mais o
seu casaquinho azul.
Deste concerto, Martin Scorsese fez um filme documentário que, para quem não o
viu numa sala de cinema, pode rectificar a lacuna, comprando, em qualquer
baiúca da cidade, o respectivo DVD.
Forever Young.
Em tempo – Quem
por lá andou, certamente se lembra que era com o instrumental de The Last
Waltz que o Mário Dias fechava as noites longas do Jamaica.
E que outros
tempos!...
sexta-feira, 17 de janeiro de 2025
MÚSICA PELA MANHÃ
EPIC - EPC 650524 7
Blue Velvet – Blue On Blue
O singlezinho custou 410$00.
Já que na capa estampavam publicidade ao iogurte magro Danone, poderiam ter
feito um desconto à rapaziada.
Mas não. Rapazes jeitosos que são, meteram tudo ao bolso.
Foi por estas e por outras, não apenas pelo champanhe, que a Greta Garbo, em
“Niinotcka”, se converteu às delícias do capitalismo.
Blue Velvet é uma música que esse
rapazinho genial que dá pelo nome de David Lynch incluiu no filme, com o mesmo
nome, e com soberbas interpretações de Isabela Rossellini e Dennis Hopper.
O que definitivamente gosta nos filmes de Lynch é não perceber quase nada do
que lá se passa e não fazer ideia nenhuma do que ele lhe quer dizer.
É o que não alcança que o atrai em David Lynch.
(Texto Datado de 4 de Abril de 2010)
quarta-feira, 1 de janeiro de 2025
PAPÉIS DATADOS
Nasceu em Março de 1945.
Pertence à geração Ié-Ié e isso nunca lhe causou qualquer tipo de comichão,
outros preferem ser Geração de 60.
É mais de livros e de filmes do que de músicas. Musicalmente não é tipo de
confiança. Todo o seu gosto musical é caótico, uma completa anarquia, não dá
para entender. Se gosta, gosta, se não gosta, passa à frente.
Vai de Vivaldi ao Conjunto da Maria Albertina, passa por Tony Bennett, Pete
Seeger, Gram Parsons, Neil Young, Agostinho dos Santos. Confuso? Certamente que
sim, mas a família diverte-se, os amigos nunca entenderam e, no fundo, apenas
tenta seguir os passos do velho Saint-Just quando dizia que a felicidade, seja
lá o que isso for, é possível!
Eram de 78 RPM os primeiros discos de casa do pai, que rodavam num “pick-up” instalado num
móvel com um rádio “Blaupunkt” que, para além do alti-falante central, tinha
dois laterais.
O pai tentava fazer perceber ao avô que aquilo era a estereofonia, o avô era
quase surdo e acenava com a cabeça.
Os bailes de aniversário, ou Carnaval, tinham, por exemplo, o Renato Carosone a
cantar “Torero” ou a Maruzella, também Nat “King” Cole e Line Renaud, enfim, o
que havia à mão e não era muito. Os bailes da vida como, noutro contexto diria,
o Milton Nascimento.
Vieram depois uns 33 RPM, (que eram um “LPs” mais curtos) “Popular Favourites”
da “Philips” com selecção de canções do Frankie Laine, da Jo Stafford, dos
“Four Aces” a “Orquestra de Roberto Inglês”, por aí fora. Depois chegaram os
“EPs”.
O pai tornou-se um fã do Paul Anka, do Pat Boone e apanhou a boleia.
Os 78 rotações partiram-se. Guardava um da Hebe Camargo a cantar “Índia”, mas
nunca mais o viu. Dos EPs e dos 33 rotações a maior parte perdeu-se ou foi
desviada.
O primeiro “LP”, também na “Discoteca Universal” (20.07.1966) foi : “Adamo à L’Olympia – enregistrement original réalisé em direct Le Soir de la Premiére Le Jeudi 16 Septembre 1965”.
Estes os primeiros discos que comprou. Os outros que existiam eram as habituais ofertas de aniversário e Natal e os que o pai ia comprando quando o orçamento permitia.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2023
PAPÉIS DATADOS
Lá fora aquela chuva miudinha, chata, chuva-de-molhar-tolos.
Pelo país vão acontecendo as
eleições para as eleições locais.
Depois de voltas e mais
voltas à casa, não encontrei o cartão de eleitor.
Tive que ir à junta de
Freguesia pedir um certificado com o número de eleitor.
A meio caminho fez-se luz
no espírito.
O cartão de eleitor só
pode estar dentro de umas caixas que, neste momento, estão fazer de montanhas e
colinas no presépio armado no quarto dos miúdos.
«Glória a Deus nas Alturas
e Paz na Terra aos Homens de Boa vontade».
No meio destas insólitas peripécias,
dá menos trabalhar ir chatear o funcionário da Junta do que desmanchar o
presépio à cata do cartão de eleitor, também não sabendo sequer, em que colina
preseperial está a caixa com o cartão de eleito…
Texto datado de 12 de Dezembro de 1982.
domingo, 19 de fevereiro de 2023
PAPÉIS DATADOS
Por vezes precisamos de ter algo para salvar: um gato, um cão, abandonados na rua, algo importante, ou nem tanto, mas o gosto, a importância de salvar.
Há coisas que
não sabe como explicar. Fala delas, apenas, ou o gosto por ter causas, afectos.
Saber que há pessoas mais generosas do que outras.. Sim, é isso, o olhar para o
lado quando alguém, na rua, estende a mão para uma esmola.
Lembra-se das campanhas para defender o lince da Serra da Malcata de extinção,
ainda hoje são tema por aí, ainda o esperam…
Em Janeiro de
2002, um elevado número de surfistas organizou-se em manifestações e abaixo
assinados numa «Luta pela Onda Perfeita», com origem nuns esporões que a Câmara
Municipal estava a construir na Praia de Santo Amaro de Oeiras, e que iriam
destruir “a melhor onda da costa portuguesa, uma das melhores da Europa”.
Porque muito lhe
diz respeito, lembra no Verão de 1999 a luta dos agricultores de Palmela para
evitar o desaparecimento da maçã riscadinha. Acompanhou a luta e soube do
desânimo dos agricultores. Volta e meia davam-lhe informe de que, algures,
tinham visto maçãs riscadinhas, corria lá mas já não as encontrava. E não sabiam
se chegariam mais,,, esperavam mais…
Mas este ano encontrou-as no merceeiro aqui da rua. Onde haveria de ser? Os
tais merceeiros de que o Orson Welles falava e de que, num mundo selvagem de
hiper e super mercados, ainda haveremos de ter muitas saudades. E em tempos de
crise, como estes que atravessamos, mais ainda. Sim, porque só eles permitem
essa palavra mágica e perversa que se chama rol. Não dizemos à menina da caixa
do Continente: “ponha aí na
conta”!
A maça riscadinha é exclusiva de algumas zonas do concelho de Palmela, a
produção não é elevada e por esse facto não chegam às grandes superfícies. Esta
rapaziada apenas está interessada em grandes quantidades para poderem entrar na
especulação que determina preços baixíssimos aos produtores. Na Lourinhã a
batata sai do produtor a 15 cêntimos., ele que prepara a terra, lança as
sementes, rega, apanha-as. É possível? A batata fica na terra, a batata que
consumimos vem de Espanha e França. E quem fala em batata fala em outros
produtos.
O quilo das maçãs riscadinhas está no Sr. Ferreira a 1,95 euros o quilo.
A luta dos agricultores de Palmela teve êxito ou o seu aparecimento deve-se ao
facto de a partir de 1 de Julho a CEE ter revogado uma das suas muitas
estúpidas determinações?
Sim, essa determinação, com que a fúria normalizadora de Bruxelas nos brinda, e
que estabelecia que, de Portugal à Lituânia, as melancias, os pepinos, qualquer
fruta, qualquer vegetal, teriam que obedecer ao mesmo diâmetro, ao mesmo
feitio.
Mas agora não está preocupado com os porquês e apenas lhe apetece o tempo de
olhar, saborear, as belas maçãs riscadinhas de vermelho, amarelo, verde,
gostosura da sua infância.
Sabor e perfumes únicos, memórias doces.
(22 de Junho de
2009)
Legenda: fotografia tirada daqui.
domingo, 2 de outubro de 2022
PAPÉIS DATADOS
DISCOS ESTORIL LD 5018
16 Fados Famosos em Ritmo de Baile pelo Conjunto Shegundo Galarza
Mariana – Fado Amália – Fado Mayer – Lisboa Antiga – Canção do Mar – Ai Mouraria – Fado Malhoa – Anda Comigo – Fado Teresinha – Canção do Moinho – Fado dos Alamares – O Fado e Lisboetas – Não me Esqueceste – Maria da Conceição – Sempre que Lisboa Canta – Não Sei Porque Te Foste Embora
Tem de Shegundo Galarza uma memória antiga.
Se os galegos vieram para Portugal vender água e montar tascos, este basco de Segura, Guipúscoa, nos anos 50, veio para Portugal ganhar a vida, tocando no Casino Estoril.
Mas a memória antiga não o remete para o Casino Estoril, antes para aqueles «TV Clube» da televisão a preto e branco: Shegundo Galarza e os seus Violinos, Shegundo Galarza e o seu Conjunto.
Certa vez, num desses programas Carlos Menezes apareceu a tocar guitarra hawaiana e guardou o espantado prazer que isso lhe causou.
A capa deste long-play, 33 1/3 de Shegundo Galarza, a tocar fados famosos, é uma verdadeira delícia.
Consegue ler-se a autoria: A. Belo Marques que ele admite, apenas isso, ser Álvaro Belo Marques director comercial no «República», director de programas da Emissora Nacional-pós-25-de-Abril, amigo íntimo de Mário-Henrique Leiria, sim, esse mesmo, o Mário-dos-Contos-do-Gin-Tonic, e filho do maestro Belo Marques, director da Orquestra da Emissora Nacional.
Shegundo Galarza também tocava nos chás dançantes e nos jantares do «Restaurante Mónaco», o da célebre curva na marginal que tanta gente levou para sítios de que não mais regressaram.
Desses jantares leu que eram frequentados pelos ministros de Salazar que, enquanto discutiam os problemas desse reino que ia do Minho a Timor, ouviam, em fundo, Galarza e entre esses ministros estava Baltazar Rebelo de Sousa, o pai do nosso Presidente dos Afectos que há dias, sem consulta popular, decididu que Dona Maria Cavaco Silva era, há mais de vinte anos, madrinha dos portugueses pelo apoio a várias instituições de solidariedade nas últimas décadas.
Neste passo da escrita, não resiste em ir buscar prosa de Pedro Bandeira Freire, do livro «Entrefitas e Entretelas», esse homem de sete instrumentos a quem devemos o inesquecível «Quarteto», mítica sala ali Rua Flores de Lima, pleno das Avenidas Novas que, já em clara decadência, fechou portas em Novembro de 2007 – porra! dez anos já lá vão! - e que, segundo notícias que leu, por Fevereiro deste ano, ia ser transformado em edifício de escritórios:
«Havia noites em que as senhoras presentes rodeavam o Galarza e ele, por vaidade, ficava imparável e não deixava de dedilhar o piano. Feliz com os dedos a correrem pelas teclas, por momentos inclinando a cabeça para trás, em busca do acorde perfeito, para ouvir melhor ou apenas para dar um ar de músico transcendente e melhor excitar as madames que estavam na sala.
Numa dessas noites de sublime inspiração, o João Franco, com a bebedeira que ainda conservaria se por cá ainda estivesse, encostou-se ao piano e durante muito tempo – o Galarza estava no seu melhor – não tirou os olhos daqueles dedos que corriam desvairados pelas teclas brancas e pretas e, com certeza às vezes pelas duas, digo eu, como se fossem autónimos ou então conduzidos por um ente celestial. Quando acabou, martelando, no bom sentido, o piano com todo o entusiasmo, levantando-se ao mesmo tempo que erguia os braços como os grandes concertistas, recebeu os mais calorosos aplausos. Tinha sido excepcional e o Joâo estava de olhos esbugalhados. De tal forma, que o Galarza lhe perguntou: «Às gostado de mé ouvir?»
E o João respondeu-lhe: «Aqui não se trata de gostar ou de não gostar. O que é espantoso é a tua força, o teu vigor, a forma como tocas. Vê-se mesmo que gostas muito de tocar, não gostas?»
E o Galarza: «Si me gusta? Me encanta!»
E o João: «Então, se é assim, porque é que não aprendes?...»
Foi corrido porta fora pelo porteiro e pelo próprio Galarza ficando com a entrada cortada.
terça-feira, 13 de setembro de 2022
PAPÉIS DATADOS
Quando Marilyn Monroe morreu, tinha ele 17 anos.
Súbita e violentamente leu a notícia na 1ª página de O Século, numa esplanada de praia na Trafaria.
Tinha do cinema a ideia daquela feira de luzes e espantos, captada na plateia de pau do Cine-Oriente. Os filmes eram com e não de, e Marilyn, doce Marilyn, outras mais, constituíam as paixões platónicas, os anos da inocência, o bater mais apressado do coração. Quero permanecer apenas na fantasia do homem comum. Só muitos anos depois iria apreciar os dotes de artista daquela loira burra, como então muitos lhe chamavam.
O cinema é um mundo enorme de gente, um todo em que não se consegue saber onde está a ponta do novelo. Mas que seria o cinema sem Marilyn Monroe?
Foi em 5 de Agosto de 1962, uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha ou suspeitou que tinha errado a vida, para citar o belíssimo poema de Ruy Belo sobre a morte de Marilyn, um telefone que tocou em busca de ajuda, que alguém ouviu, sabia quem era, mas não quis atender.
Meses antes cantara para John Kennedy “Happy Birthday Mr. President”. Nem precisa de olhar a fotografia para reconstituir a performance daquela noite, a apresentação feita por Peter Lawford, depois o sussurro mais sensual de que há memória num happy birthday, aquela silhueta na noite, aquele vestido cingido ao corpo, que em Outubro de 1999, foi vendido por 1,26 milhões de dólares num leilão da Christie’s. Provavelmente terá sido aí que se começou a desenhar, o suicídio organizado de Marilyn Monroe e que culminaria na descoberta do seu corpo deitado na cama, a mão a apertar o auscultador do telefone, a tal chamada que alguém não quis atender.
Sou a mulher mais bonita do mundo mas não tenho ninguém com quem sair este fim-de-semana, confidenciou a alguém.
Dez anos de carreira,
doze filmes, todos eles memoráveis, inesquecíveis. Fica por saber, não fora a
morte brutal, até onde teria chegado Marilyn.
Billy Wilder, esse cínico genial e maravilhoso realizador, disse que Deus deu-lhe tudo e que Marilyn poderia fazer o que quisesse em cinema.
Vinicius de Morais que ela foi um dos seres mais lindos que já nasceram e se há quem disso possa falar, Vinicius estava completamente à vontade.
Irving Berlin
confessou um dia que Marilyn Monroe foi a melhor intérprete das canções que
compôs.
A criança feita mulher, abandonada nas linhas paralelas da passagem de nível sem guarda (as duas linhas de todas as mais paralelas e as mais negras), sem que o medo a deixasse fugir e sem nós conseguirmos gritar-lhe (como nos pesadelos) que se afastasse. Todo o tempo dela foi tempo da morte a vir, como escreveu João Bénard da Costa nos 40 anos da morte de Marilyn.
A minha cabeça vai estoirar.
Os comprimidos não fazem efeito.
Já não sei o texto. A tristeza afoga-me.
Não há ninguém com quem se possa falar.
Daqui a pouco tenho de sorrir.
Sorrir é uma das coisas que faço bem.
Consigo até sorrir com os olhos.
Poucas pessoas conseguem sorrir assim
Marilyn Monroe morreu há 47 anos.
Suicídio? Assassínio?
Sabe-se apenas que a sua morte é uma história mal contada, tal como leu numa crónica do Eduardo Guerra Carneiro: Ainda há estrelas no céu.
(25 de Agosto de 2009)
Legenda: fotografia
de Elliot Erwitt
domingo, 3 de abril de 2022
PAPÉIS DATADOS
Na sua edição de 5 de Junho de 2009, o Expresso lembrava que Cavaco Silva, enquanto primeiro-ministro concedera uma pensão por serviços excepcionais ou relevantes prestados ao país, a dois inspectores da PIDE/DGS.
Anos antes, recusara dar a Salgueiro Maia essa mesma pensão:
Nas comemorações do 10 de Junho de 2009, a realizarem-se em Santarém, Cavaco Silva, como Presidente da República, iria colocar um ramo de flores junto à estátua de Salgueiro Maia.
José Pedro Castanheira vincava que Cavaco tentava corrigir um erro com 20 anos.
Não foi um erro: foi uma enorme pulhice.
A eleição de Aníbal Cavaco Silva, quer como primeiro-ministro, quer como presidente da república, duas-vezes-duas, foi uma das piores desgraças que se abateram sobre os portugueses.
Por aí se arrasta, trôpego, numa apagada e vil tristeza, embrulhado na negociata que amigos seus, cometeram no BPN, negociata que ele nunca conseguiu explicar.
No final do seu livro Capitão de Abril (1), Salgueiro Maia escrevia:
Passados dez anos, será interessante analisar a evolução do comportamento de muitos dos intervenientes, em especial os políticos e os militares que conseguiram passar de um regime a outro, sempre na crista da onda, e que, com lutas pelo Poder, ajudaram a dificultar e evolução desejada. Por outro lado não acreditando em democracias musculadas nem no sebastianismo, resta-nos, na orgulhosa situação de implicados do dia 25 de Abril de 1974, criticar os muitos que pagam o idealismo e a generosidade com o mesmo comportamento que caracterizou o regime nascido a 28 de Maio:
- a corrupção
- a incompetência
- o compadrio
- o circo do Poder.
Até quando?
Sim até quando?
(Para uma leitura mais fácil, clicar sobre a imagem)
(1) Salgueiro Maia Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, Notícias Editorial, Lisboa Novembro 1997
segunda-feira, 17 de maio de 2021
PAPÉIS DATADOS
Durante seis meses privou com ele no Regimento de Infantaria 5 nas
Caldas da Rainha. Dois temas os levaram a conversas várias: o Benfica e a
guerra colonial. Terá sido ele o primeiro que, quase por sinais de fumo, lhe
disse que o regime só cairia por intervenção dos militares. Como sempre
desprezou fardas, lembra-se de lhe dizer: “bem poderei esperar sentado, meu
tenente.”
Mais ou menos seis anos depois destas conversas, acontecia aquela madrugada “onde
emergimos da noite e do silêncio”.
Uma pequeníssima notícia de jornal diz-lhe que, com 67 anos, morreu ontem João
Manuel Bicho Beatriz, um dos co-organizadores da primeira reunião do movimento
dos “Capitães de Abril.”
Sentia que tinha uma tarefa a cumprir e não descansou enquanto não a pôs em
marcha e, tal como lhe dissera, uma grande convicção de que seriam os militares
a resolver o problema da Guerra Colonial. Juntamente com muitos outros
restituíram a este país a dignidade, das poucas vezes que a palavra Portugal
foi soletrada com respeito. “Foi bonita a festa, pá”!
Cumprida a tarefa não andou para aí em bicos de pés a contar feitos e proezas,
a mostrar os galões, foi mais um dos poucos salgueiros maias que fugiram à luz
dos holofotes.
Após aquelas conversas, nas Caldas da Rainha, só o voltou a encontrar uma vez,
já capitão ou major, não lembra bem, porque para ele foi sempre o tenente BichoBeatriz. Eram umas eleições para a presidência do Benfica, ali na secretaria do
clube na Rua Jardim do Regedor. Já, então, Abril há muito se desfazia em
oportunismos e traições vários. Falou-lhe das muitas esperanças frustradas, das
desilusões, os esforços que só em parte resultaram, mas nada disso o levara à
condição de um derrotado. Por temperamento optimista, esmagou logo ali o
desencanto e propôs um almoço, num qualquer dia, para uma converseta e um tinto
escolhido por colheita. Nunca houve esse almoço, aquelas coisas que vão ficando
para amanhã e acabam em nunca mais. Se isso tivesse acontecido decerto que lhe
levaria para ler, aquele fragmento de poema de Sophia Mello Breyner Andresen:
«Os ricos nunca perdem a jogada
nunca fazem um erro.
E esperam os erros dos outros,
São hábeis e sábios
têm uma larga experiência do poder
e quando não podem usar a própria força
usam a fraqueza dos outros
E ganham.»
Pois foi, limitámo-nos a administrar as nossas divisões, as nossas fraquezas.
Crê que foi aqui que chegámos. Um país onde grassa o clientelismo, a corrupção
e onde a lei é a do salve-se quem puder, exige que voltemos às nossas velhas
conversas e, se possível, restituir os sonhos de uma vida. Que os sonhos
existem e porque tem mesmo que haver um futuro.
Até já, tenente Bicho Beatriz!
30 de Outubro de 2008
Legenda: encontro de
militares de Abril para lembrar em 2004, em Évora, uma das reuniões
preparatórias do Movimento. Bicho Beatriz é o segundo à esquerda. Dinis de Almeida é o segundo à direita
Fotografia de Manuel
Moura/Lusa tirada de Abril
sábado, 1 de maio de 2021
PAPÉIS DATADOS
Um dia, já Abril tinha sido há algum tempo, há-de ouvir alguém dizer: «Vocês foram felizes no fascismo!» Ouvirá um outro-alguém responder: «Não! Fomos felizes contra o fascismo!»
Se bem que o poeta lhe tenha ensinado que saudades, só do futuro, há-de
muitas vezes sentir imensas saudades dos companheiros do 24 de Abril. Face ao
país irrespirável, com o peso da religião, os tribunais plenários, o
colonialismo, a guerra, a Pide, era gente generosa que acreditava, que não
ambicionava nada mais que a liberdade e o fim de uma guerra estúpida e inútil.
Sim, uma imensa saudade desses companheiros de 24 de Abril, possivelmente o
último dia em que ainda nos respeitámos. Depois, não imediatamente, há-de
confrontar-se com uma série de sucedidos que o levarão a não mais acreditar em
coisas em que acreditou. O Mário-Henrique Leiria a dizer: «Vê lá tu, que o
Álvaro Guerra deixou de me falar só porque não sou do partido dele!...»
Enquanto ouvia Beethoven, José Saramago dizia que quando nos julgassem bem
seguros, cercados de bastões e fortalezas, os altos muros ruiriam em grande
estrondo e chegaria o dia das surpresas.
Sim, o dia de muitas surpresas. Uma delas foi ver tanta gente nas ruas.
Onde estava toda esta gente, agora a dar vivas à liberdade, quando nos sabíamos tão poucos os que lutaram contra a ditadura?
Saberá mais tarde, que demasiados erros, demasiadas distracções, demasiadas ingenuidades, mergulharão o país num mar largo de clientelismo, da partilha do poder, de corrupção, do salve-se quem puder…
Trinta e cinco anos depois, perguntam-lhe que é feito daquele sol que uma
madrugada trouxe, essa madrugada que pensávamos estar bem gravada no calendário
dos nossos sonhos. Não encontra resposta, talvez não queira fazer um esforço
para a encontrar. Lembra apenas que houve um tempo em que foi feliz e que de há
muito vive a ressaca desses dias.
E não por acaso saltam-lhe as palavras de Simone Beauvoir:
«É horrível assistir à agonia de uma esperança.»
25 de Abril de 2009
Legenda: um 1º de Maio antes de Abril. Fotografia tirada do blogue O Castendo de António Vilarigues
sábado, 16 de maio de 2020
PAPÉIS DATADOS
Depois das seis da tarde é proibido circular
domingo, 5 de janeiro de 2020
PAPÉIS DATADOS
Como de Vós
Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,
importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.
Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.
Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo
sexta-feira, 29 de novembro de 2019
PAPÉIS DATADOS
adeus longos e tristes embarques de soldados na Rocha de Conde de Óbidos para África ecos de lágrimas uma raiva mastigada passar as fronteiras a monte comboios que partem o som de um acordeão na gare de Austerlitz um povo acossado queríamos um país acontecia-nos uma enorme desesperança uma paz podre de cemitérios como se mantém este deserto? um país medonho monstruoso calado amordaçado sitiado vigiado o medo sobretudo o medo um silêncio de não poder respirar vontade de outros olhares vontade de dizer hoje toda a cidade me fala de ti mas «como hei-de amar serenamente com tanto amigo na prisão» (1) os dias a correr «um verão quando voltava de Londres, tinha passado por Portugal. Tinha posto a si mesmo mil perguntas sobre o declínio dessa nação cujo império se tinha estendido à volta do Globo. Ele tinha pensado que era a pior das infelicidades nascer português. Em Lisboa, pela primeira vez na sua vida, tinha-se encontrado com um povo que se tinha desinteressado» (2) dias e mais dias «estamos catalogados, estamos empalhados dentro de uma redoma de vidro, mergulhados num frasco com álcool, isolados de tudo e com um rótulo debaixo dos pés. O rótulo puseram-no os outros; nós consentimos acomodámo-nos e vamos vivendo com ele» (3) de quando em vez um grito «instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses. Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado! Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!»(4) tentar acreditar «diz-lhes que se resiste na cidade desfigurada por feridas de granadas e enquanto a água e os víveres escasseiam aumenta a raiva e a esperança reproduz-se» (5) ler a história e ficar a saber «que um povo não morre porque o oprimem, mas morrerá certamente, se antes da luta, abdica» (6) e por fim sim por fim «digo-vos senhores é findo o vosso tempo o jogo terminou ainda que não o pareça» (7).
Citações:
(1) Versos de Fernando Assis Pacheco para uma canção de Adriano Correia de Oliveira
(2) Roger Vailland em A Lei
(3) Augusto Abelaira em A Cidade das Flores
(4) Mário Sacramento, em Carta-Testamento
(5) Egito Gonçalves, em A Viagem Com o Teu Rosto
terça-feira, 21 de novembro de 2017
PAPÉIS DATADOS
domingo, 29 de outubro de 2017
PAPÉIS DATADOS
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
PAPÉIS DATADOS
Foi ele que construiu toda a mobília que se encontrava no seu escritório, desde a secretária às estantes.
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