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terça-feira, 28 de janeiro de 2020

MANEIRAS DE VER


Todos saberemos que o Tete Montoliú era uma pessoa de baixa estatura e invisual, mas nem todos tiveram a oportunidade de, privando com ele, apreciar o seu enorme sentido de humor e a sua capacidade de gozar com o seu infortúnio. Era também um inveterado pinga-amor, sempre com novas conquistas femininas. Quando chegou a Lisboa, o Francisco Almeida e o José Soares foram buscá-lo ao aeroporto num FIAT 127. Quando se nos apresentou, vinha acompanhado da sua última conquista. Uma senhora quase com o dobro da sua altura e da sua envergadura. Lá se conseguiu meter toda a gente e bagagem no 127, eles atrás e nós à frente. A caminho do hotel, passámos pela Av. de Roma, onde o antigo Cinema Roma exibia o filme Emmanuelle. Diz a senhora: “Mira, Tete, está ali um cinema que passa a Emmanuelle.” Resposta instantânea do Tete: “Quero vir ver.” Silêncio de morte à frente. Olhámos um para o outro, de boca aberta, como quem diz “Ouvi bem?!”. E era verdade. Fartou-se de insistir e lá comprámos dois bilhetes. Foram ver o filme e o Tete adorou.

João Paulo Bessa em Hot News nº 8

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

OLHAR AS CAPAS



Histórias de Jazz

José Duarte
Capa: Pedro Martins
Abril/Controljornal/Edipresse, Lisboa, Novembro 2201

as histórias do jazz são todas iguais
quando o não são são muito pouco diferentes
mais um episódio ali uma data acolá
um acontecimento vivido uma correcção descoberta
jazz como filho da época das realidades económicas políticas vigentes
de como o jazz dos anos vinte de Armstrong foi diferente
do jazz dos anos trinta de ellington
do dos quarenta de parker
do free dos sessenta e dos noventa

sendo esta a primeira história de jazz escrita em português
sendo o jazz o que é em Portugal uma arte não popular
sem culpa própria que não seja ser linguagem musical estranha
porque vinda de outras origens culturais
esta história deve ser breve de iniciação
fatalmente com faltas
deve ser uma história para principiantes e para bisbilhoteiros
simples e clara que tente esclarecer e desfazer erros e confusões
uma pequena história
para que jazz conste

jazz não tem ainda um século mas por lá próximo anda
é uma música que tem vivido a uma velocidade grande
a cada década seu estilo
a cada estilo vários génios
é assim aliciante contar a sua história por estilos
cada passo estético em consonância com o acidentado correr do tempo
com avanços e recuos
a própria tecnologia se meteu com o jazz e ele com ela
rock cordas percussão afro-cubana colaboraram colaboram
jazz é a primeira música de fusão de variadas fusões
música de criação e consumo instantâneo
floresta de estilos em coabitação permanente

jazz afinal uma palavra que quer dizer nada
como João

lisboa junho 2000

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

MANUEL JORGE VELOSO (1937-2019)


Manuel Jorge Veloso, personalidade marcante na história do jazz em Portugal,  faleceu hoje, contava 82 anos.
Quando há quem diga as coisas de uma certa maneira, não hesito: Vitor Dias, em O Tempo das Cerejas, sobre a morte de Manuel Jorge Veloso.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS



Cadernos do Meio Dia
Nº 2

Coordenação de António Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Fernando Moreira
 Ferreira, Hernâni de Lencastre
Edição dos Coordenadores, Faro, Julho de 1958


Nesse Tempo

Nesse tempo
eu faltava às aulas.

A música do jazz
vibrava no Café.

À noite,
o velho « High-Life»
era o tempo magnífico
onde Chaplin,
como o Deus da Sistina,
erguia o braço
condenando e perdoando…
(Desengonçado
o piano
acompanhava com notas de Beethoven
«O Peregrino», «A Quimera»…)

E numa tarde
em Paris
ajoelhei, em plena rua,
diante dum quadro de Pascin…

Nesse tempo
eu faltava às aulas.

Saúl Dias

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

QUOTIDIANOS


Ontem, domingo para esquecer.

Eleições autárquicas e futebol.

A CDU perdeu autarquias históricas, uma delas, Almada, por pouco mais de 200 votos!

O Benfica está a jogar miseravelmente.

Ontem voltou a escorregar no Funchal dando a clara indicação que o Penta Campeonato é já uma mera miragem.

Não tenho qualquer sabedoria se Eusébio da Silva Ferreira gostava de Jazz ou de música clássica.

Mas ei que, pelo menos, dois grandes nomes do jazz quiseram conhecer Eusébio.
Duke Ellington em 1966 e Dizzy Gillespie que aterrando em Lisboa para o Festival de Jaaz de Cascais, logo falou a José Duarte que queria conhecer Eusébio.


Tudo começara em Novembro de 71, quando Dizzy tocou em Portugal pela primeira vez no I Festival de Cascais, o histórico. Dias antes, em Varsóvia, o trompetista pedira-me para conhecer, em Lisboa, a Pantera Negra, a Black Pearl, está-se mesmo a ver: Eusébio.
Dezanove anos depois, o encontro teria de se repetir e agora por sugestão dos três.
No hotel mostrei-lhe as fotografais de 71, nada de cabelos brancos, uma filha do Eusébio com três anos, fotos para a posteridade, ao colo de Sonny Stitt, outro notável do jazz já desaparecido, e ainda fotos no relvado da Luz a assistirmos a um Portugal-Bélgica e onde Eusébio jogou mal, diz ele.

E para grande escândalo de José Gomes Ferreira, tal como conta num dos seus Dias Comuns, o violinista Igor Oistrakh, baldou-se a una soirée artística em casa da marquesa do Cadaval para ir ver o Eusébio.


 O incomparável violinista soviético David Oistrakh está em Lisboa. E ontem, depois de um concerto triunfal no Império, foi convidado para uma recepção em casa da Marquesa do Cadaval.
O russo porém recusou e preferiu ir assistir a um desafio de futebol em que jogava o Eusébio – hoje o português mais conhecido em todo o mundo pela maneira como joga à bola.
- O Choskatovich ainda gosta mais de futebol do que eu – confidenciou o genial violinista não sei a quem.

Legensa; Eusébio e Duke Ellington em 1966.

sábado, 26 de novembro de 2016

CAFÉ


Quando,
à hora do Jazz,
a minha cabeça rola
pelo tecto pintado do café.
a parede em frente é uma visão de escola
onde um menino de bibe e gola
sonha com aquilo que não é.

E até os criados
têm ares purificados
como ascetas dum branco ritual.
E os mármores das mesas,
Com desenhos obscenos,
surdinam várias rezas…

E as garrafas dos álcoois e absintos,
em garbos áticos,
oferedam viáticos…

E há toalhas brancas e há velas acesas!

E ela vem sempre
(só a cabeça dela,
que o corpo
perdeu-o, porventura,
nalgum escuro quarto de aluguer).
Ela vem sempre,
Como naquele dia,
serena e amavia,
única e excepcional.

O pianista
comeu os dentes do piano
e canta, de pernas para o ar,
uma canção azul.
O violinista adormeceu de pé numa cadeira
e o violino dá som sem ninguém lhe tocar.

E ela vem sempre
como naquela hora
estranha, delicada
e debruada a encanto.
Pura como a água, suave como um manto.

O dia é Dia Santo…



Nota dos autores da Antologia:

SAUL DIAS (pseudónimo de Júlio Maria dos reis pereira, Vila do Conde, 1902-1983).
Engenheiro civil, artista plástico magnífico, Júlio é autor duma obra poética que injustificadamente ficou um pouco na sombra da do desmesurado José Régio, seu irmão. Saul Dias é um poeta contido, que capta com a humildade dos grandes observadores momentos essenciais, por vezes terríveis, por vezes jubilosos, da vivência humana. Contenção e tensão ilustradas pelos títulos dos seus livros.

Os antologiadores chamam a este poema de Saul Dias: um muito lógico café jazz surrealizado em 1934.

Legenda: Músicas e Mulheres no Espaço, pintura de Saul Dias

terça-feira, 1 de março de 2016

RAY CHARLES



Este disco terá sido, para muitos, o ficarmos a saber da existência deste extraordinário cantor.

Os tempos eram de pouquíssima divulgação do muito que em música, literatura, cinema, qualquer arte que acontecia além-fronteiras.

As razões são várias para que assim acontecesse, mas cite-se, como principal, a censura de Salazar, uma censura que, ao mínimo sinal de algo de progressista, fazia desabar o lápis azul de coronéis analfabetos.

José Duarte, rapaz que não deixava créditos por mãos alheias, soube que Ray Charles iria dar, em Paris, o seu primeiro concerto europeu.

Sabia de cor as canções de Ray Charles e até as dançava.

Tinha exame marcado do curso de Economia para esses dias, borrifou-se no dito porque Ray Charles era fortíssimo chamamento, e, no fundo, já sabia que não queria ser económico-canudado, e voou para Paris.

Ele entrou em palco guiado por uma loura alta, nova, esguia, que o levou e, no fim, o trouxe do piano para os bastidores: Foi desde então que os seus óculos escuros nunca mais me saíram dos olhos. Já tive vários parecidos. Onde é que ele os compra? De tartaruga! Autênticos alçapões de escuridão, onde eu me escondia. Que bom!...
Na band debitavam alguns dos seus melhores companheiros musicais de sempre: Leroy Cooper e David Newman entre os saxofonistas, o lendário Dicki Wells entre os trombones, uma histórica scção de trompetes com Philippe Gilbeau, Wallace Davenport, Marcus Belgrave e John Hunt. Uma das quatro Raelettes era já Margie Hendrix.

Jorge Sena dedicou um poema a Ray Charles.
                                                                                                                                                         
Tem a data de 15 de Março de 1964 e é retirado de Sequências, livro póstumo.

Faz parte da antologia de Jazz na Poesia em Língua Portuguesa organizada por José Duarte e Ricardo António Alves:

Cego e negro, quem mais americano?
Com drogas, mulheres e pederastas,
a esposa e os filhos, rouco e gutural
canta em grasnidos suaves pelo mundo
a doce escravidão do dólar e da vida.

Na voz, há o sangue de presidentes assassinados,
as bofetadas e o chicote, os desembarques
de «marines» na China ou no Caribe, a Aliança
para o Progresso da Coreia e do Viet-Nam,
e o plasma sanguíneo com etiquetas de black e white
por causa das confusões.
E há as Filhas da Liberdade, todas virgens e córneas,
de lunetas. E o assalto ao México e às Filipinas,
e a música do povo eleito por Jeová e por Calvino
para instituir o Fundo Monetário dos bancos e dos louros,
a cadeira eléctrica, e a câmara de gás. Será que ele sabe?

Os corais melosos e castrados titirilam contracantos
ao canto que ele canta em sábias agonias
aprendidas pelos avós ao peso do algodão.
É cego como todos os que cegaram nas notícias da United Press,
nos programas de televisão, nos filmes de Holywood,
nos discursos dos políticos cheirando a Aqua Velva e a petróleo,
nos relatórios das comissões parlamentares de inquérito,
e da CIA, do FBI, ou da polícia de Dallas.
E é negro por fora como isso por dentro.

Cego negro, uivando ricamente
(enquanto as cidades ardem e os «snipers» crepitam)
sob a chuva de dólares e drogas
as dores da vida ao som da bateria,
quem mais americano?

Jorge Sena

Uma outra de José Duarte, a propósito de Ray:

Muito se modificou o estilo de Betty Carter desde os tempos dos seus êxitos com Ray Charles e até anteriores, fins dos anos 50!
«Baby It’s Cold Outside» com Ray, está na História da Música. 


                                                                                                                                                           

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Aprender jazz é como aprender a falar.
Aprende-se vai-se aprendendo.
Balbucia-se, imita-se, copia-se.
O vocabulário vai chegando, a gramática também.

José Duarte em Cinco Minutos de Jazz

Legenda: pintura de Robert McGinnis

BRIO PORTUGUÊS


Longos e penosos têm sido os passos dos divulgadores de jazz em Portugal.

A incompreensível adversidade para tudo o que é diferente, é sempre uma conquista difícil, a maior parte das vezes impossível.

Ao longo dos 50 anos de Cinco Minutos de Jazz, José Duarte recebeu imensas cartas, postais, a insultá-lo de tudo e mais alguma coisa.

Eram racistas, nazis que defendiam o império.

No seu primeiro livro, João na Terra do Jaze, José Duarte reproduz uma dessas cartas:

Passo a ler-vos um postal que recebi hoje.
Endereço: Exmo. Sr. Director de Rádio Renascença (escritórios e Estúdios)
Remetente: Exmos. Snrs. Correios
Rogo o Vosso auxílio na defesa da Música Portuguesa e repúdio do infame e anti-Português-Jazz-batuque.
Agradece o vosso Daniel Luiz Sampaio
Texto: Venho pedir a V.Ex. que Rádio Renascença não colabore com os idiotas propagandistas do Jazz-Batuque, pois além de ser um género de música bárbara e subversiva de pretos americanos, é também um género de Música-Batuque, anti-Portuguesa, fora da índole e do sentir do nosso Povo, poi somos um Povo Latino. Os idiotas do Jazz-Batuque tudo têm feito para corromper o Povo Português, mas até hoje, só têm conseguido arrastar parte de alguma desvairada juventude, sem brio português, para um género de Música, anti-Portuguesa, sem brio português, para um género de Música, anti-portuguesa que os pretos insurrectos praticam há mais de 100 anos na América, mas que as pessoas sem dignidade pela verdade e pela sua condição de portugueses, teimam em afirmar que o Jazz-Batuque é Música do nosso tempo. Os idiotas, que tal afirmam, são gente de baixa mentalidade e de alma negra incapaz de apreciar e sentir a beleza da Música verdadeira e digna do género humano.
Exmo. Sr. Director, peço-lhe a Vossa ajuda na defesa da nossa Música e dos Músicos portugueses.
Muito grato lhe fica o Vosso, Daniel Luiz Sampaio.
O postal não traz a morada do remetente.

                                                                                 Novembro de 1972

domingo, 21 de fevereiro de 2016

CINCO MINUTOS DE JAZZ



Quando se fala de jazz em Portugal, há uma fronteira a balizar: antes e depois de Vilas-Boas.

Seguem-se, então, os outros, como Raul Calado ou José Duarte.

Há 50 anos, João Martins, um radialista de excelência, apanhando José Duarte a jantar em casa de Raul Duarte desafiou-o a realizar uma rubrica de jazz na sua 23ª Hora, que se transmitia na Rádio Renascença.

A pergunta que se seguiu foi se não podia ser mais do que cinco minutos.
Que não, apenas cinco minutos.

No dia 21 de Fevereiro, ouvia-se uma faixa do álbum de Lou Donaldson, Lou’s Blues, e o José Duarte a marcar 1, 2, 3, 4, Cinco Minutos de Jazz, o mais antigo programa da rádio portuguesa.

há cinquenta comecei com o «cinco» e com milhares de «cinco» acabarei.
se hoje fosse convidado para realizar um programa de rádio de
jazz
resposta seria sim se:
chamar-se-ia o «jazz, esse desconhecido»

Andou depois pela Rádio Comercial, os companheiros diziam que o Zé Duarte era a melhor orelha branca da Europa, assim como Vinicius se dizia o branco mais negro do Brasil, passou pela Antena 2 e agora estaciona na Antena 1

Ao Expresso, José Duarte disse: sinto que fico na história como o Vila-Lobos.

Assim seja!


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Tudo O Que Não Escrevi
Diário II (1992)

Eduardo Prado Coelho
Capa: João Machado
Ilustração da sobrecapa: David de Almeida
Colecção Finisterra
Edições Asa, Porto, Abril de 1994

A eternidade não me interessa, costumava dizer, deve ser um enorme aborrecimento. O que eu desejo é uma outra imagem do tempo, um tempo que se torne elástico, extensível, pastosos mas transparente, um tempo-chiclets, um tempo como a massas do pão que se modela com os dedos. Os momentos de verdadeira felicidade são exactamente como este: avanço em direcção ao mar, e de súbito é tudo mar dentro de mim. Henri Michaux, esse viajante sem viagens, ensinou-me um dia: «Qui connaît une mer connaît la mer.» Talvez o fascínio do jazz resulte de uma relação com o tempo deste tipo: uma tela que se alarga tanto à volta da minha cabeça que se torna uma venda iluminada (ouço Solitude cantado poe Ella Fitzgerald).

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poezz, Jazz na Poesia em Língua Portuguesa

José Duarte e Ricardo António Alves
Apresentação e Notas: Ricardo António Alves
Comentários: José Duarte
Edição Almedina, Lisboa, Maio de 2004

blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

CLARO QUE MAHALIA PERDEU


Uma gravação de Mahalia é sempre igual a outra gravação de Mahalia: a mesma voz, o mesmo poder, nada de afectividades, grande potência e convicção, o grito bem gritado, o fervor religioso, a simplicidade de processos, um piano ou um órgão ou os dois ou nada, a dificuldade da obra perfeita criada com espectacular naturalidade.
Mahalia foi a vedeta mais antivedeta que a História da música afro-norte-africana conheceu. Primeiro, negou-se a cantar em público, salvo na igreja, para os fiéis praticantes lá da sua terra. Depois, recusou-se a cantar em espectáculos, que este tipo de música não era para ser exibida, mas para ser apreciada e para agitar os crentes, lá na igreja do seu bairro. Por fim (para trás Satanás!), não quis gravar em disco o que quer que fosse, porque música religiosa, com letras vindas directamente da Bíblia, só devia chegar aos seus irmãos de raça e fé.
Claro que Mahalia perdeu.

José Duarte em Cinco Minutos de Jazz

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Cinco Minutos de Jazz

José Duarte
Capa: Fátima Rolo Duarte
Oficina do Livro, Lisboa Setembro de 2000

Tudo isto é, naturalmente, um suponhamos, primeiro porque leva opinião (o que é sempre perigosos e bom), depois porque um músico bom pode tocar mal. É por isso que no jazz não há músicos bons, há só gente.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Jazzé e Outras Histórias

José Duarte
Edições Cotovia, Lisboa, Junho de 1994

Resta lembrar que no jazz não é preciso ir ver a Guernica ao museu de Madrid, as obras-primas circulam pelo mercado mundial em cópias CD, rigorosamente iguais,

Tamanho e cor. Só se tornam diferentes ao entrarem pelas orelhas para os cérebros dos ouvintes. Daí o gosto e a sua horrorosa pedagogia.

domingo, 14 de junho de 2015

ORNETTE COLEMAN (1930-2015)


Morreu OrnetteColeman, figura histórica do jazz.
Tinha 85 anos.
Como salientou a ageneralidade da imprensa, a história de Coleman cruza-se com a história da resistência ao Estado Novo em Portugal: a sua atuação no Cascais Jazz de 1971 - primeiro festival de jazz em Portugal - terminou sob ameaça de intervenção policial, depois de o seu contrabaixista, Charlie Haden, que morreu há um ano em, dedicar uma música aos movimentos de libertação de Angola e Moçambique.

O público recebeu a declaração política efusivamente, com aplausos e punhos erguidos, mas o contrabaixista foi de imediato detido pela PIDE, que o escoltou ao aeroporto de Lisboa, obrigando-o a sair do país.



sexta-feira, 15 de maio de 2015

B.B. KING (1925-2015)


B.B. King morreu aos 89 anos.
Keith Richards no seu Life, escreveu que nenhuma miúda o afastaria de ouvir B.B. King.
Em Novembro de 1969, na digressão pelos Estados Unidos B.B. King, também Ike e Tina Turner, tocava, antes dos Stones e só eles valiam o preço do bilhete.


terça-feira, 29 de julho de 2014

sábado, 5 de abril de 2014

ANTES E DEPOIS DE VILLAS BOAS


5 de Abril de 1974

A imagem mostra Marcelo Caetano na missa celebrada na Catedral de Notre-Dame, por alma do Presidente Pompidou.
Era este o motivo pelo qual a Censura, ontem, solicitava aos jornais, televisão e rádios, que não revelassem de imediato a constituição da delegação portuguesa às solenes exéquias do Presidente Pompidou.
Patético é o mínimo comentário que ocorre.
Sonhavam com fantasmas o tempo inteiro e desconheciam (?) que o 25 de Abril estava, quase, a bater à porta!...

Ana Paula Machado Pinto de Freitas, com 16 anos, estudante, residente no Porto, foi a vencedora do 2º Concurso da «Rapariga Ideal», organizado pela Mocidade Portuguesa Feminina.
O Secretário de Estado da Juventude e Desportos, presidiu à sessão de encerramento e, segundo a imprensa do regime, o concurso foi intensamente formativo, proporcionando simultaneamente a revelação de dons e a aquisição de novos valores, o estudo e a reflexão pessoais, aliados a uma experiência enriquecedora de vida em grupo, a análise objectiva dos problemas e o empenhamento na sua solução. Tudo isto sem perder de vista a missão específica que incumbe a cada rapariga. Já hoje como jovem e, mais tarde, como mulher, na comunidade em que se insere.
Talvez lembrar que, em 1936, Oliveira Salazar preconizava que o trabalho das mulheres fora de casa não deve ser incentivado. Uma boa dona de casa tem sempre muito que fazer.

 Segundo a agenda do Cinéfilo, às seis e meia na tarde, no Cinema Monumental, numa iniciativa de Luís Villas Boas (quando se fala de jazz em Portugal há que considerar, sempre: antes e depois de Villas Boas), actuava Art Blakey, um nome incontornável do jazz dos anos 50, e não só!

Ainda, segundo o Cinéfilo, também  no Monumental, classificado para maiores de 10anos, estava em exibição Luzes da Ribalta de Charles Chaplin:
Chaplin está em Lisboa.
A cidade iluminou-se.
As «Luzes da Ribalta» acenderam-se.
É ver, meus senhores, é ver «o mais belos dos filmes», uma obra-prima no dizer de André Bazin.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

PARA CONHECER A PANTERA NEGRA


Tudo começara em Novembro de 71, quando Dizzy tocou em Portugal pela primeira vez no I Festival de Cascais, o histórico. Dias antes, em Varsóvia, o trompetista pedira-me para conhecer, em Lisboa, a Pantera Negra, a Black Pearl, está-se mesmo a ver: Eusébio.
Dezanove anos depois, o encontro teria de se repetir e agora por sugestão dos três.
No hotel mostrei-lhe as fotografais de 71, nada de cabelos brancos, uma filha do Eusébio com três anos, fotos para a posteridade, ao colo de Sonny Stitt, outro notável do jazz já desaparecido, e ainda fotos no relvado da Luz a assistirmos a um Portugal-Bélgica e onde Eusébio jogou mal, diz ele.

José Duarte em Jazzé e Outras Histórias, Edições Cotovia, Lisboa 1994

Legenda: José Duarte, Eusébio, Dizzy Gillespie, 1990 num hotel em Lisboa.