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sábado, 12 de abril de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Ao contrário da música clássica, o jazz não abundava lá por casa.

Lembro que, volta e meia, o meu pai sentava-se na Biblioteca da Casa e ouvia, religiosamente, um disco de Paul Robeson, mas será um tanto ou quanto abusivo colocar Robeson no jazz, antes na folk, e não deixar de lembrar que, acima de tudo, o importante estava na luta pelos direitos humanos dos negros americanos.

Ouvia os 5 Minutos Jazz do José Duarte, na 23ª Hora da Rádio Renascença, fui a 2 Concertos de Jazz em Cascais, no Sindicato da Marinha Mercante Aeronavegação e Pescas, conheci o Luís Villas-Boas e aproveitei a boleia para algo mais saber de jazz, pois era muito pouco o que sabia. Vagamente convivi com o José Duarte no British-Bar e aproveitei para me chegarem mais dicas Jazzisticas.

Np British fiquei a saber de um programa na Antena 1 que se transmitia aos domingos: A Menina Dança?

Conta o Zé Duarte:

«Fui convidado por Jaime Fernandes. Trabalhávamos na Rádio Comercial. Tinha eu escrito um texto para "O Jornal" sobre Irving Berlin, grande compositor norte-americano". Jaime Fernandes gostou e ficou admirado de meu saber sobre aquela música. Convidou-me para fazer um programa sobre "standards". Inventei então "a menina dança?" que é um programa semanal dedicado a grandes nomes vocais da música norte-americana e a grandes compositores do "American Song Book".»

Maravilha das maravilhas.

«Tudo acontece no salão de uma sociedade recreativa. É um baile ao som de canções. Como as canções devem ser: cheias de «swing», a puxar o pé para a dança. Ouvem-se os «crooners» ou  - Bing Crosby, Dean Martin, Tony Bennett – uns mais apaixonados, outros menos, ouvem-se outras vozes que fizeram as músicas da América. Ouve-se Sinatra e as suas histórias. Aos domingos à noite, quando a Menina encontra o seu par, são as grandes orquestras que se tocam, num qualquer baile de despedida; e são as histórias à margem do tempo que se relatam. O programa realizado por José Duarte podia ser o cenário para os «Dias da Rádio» de Woody Allen. Mas não é. No que diz respeito a rádio, vai mais longe.

«A Menina Dança» oferece um dos mais eficazes exercícios do uso da linguagem radiofónica: diálogos a uma voz definem cenários; afastam e atraem. Informam. E fazem com que a menina, de facto, exista. Ela é a personagem que ganha forma, a cada instante. Do desconhecimento da música passa ao espanto; e deste, ao saborear da descoberta. Mas isso não lhe basta: a Menina «troca as voltas», comanda o jogo e, às vezes, transforma num inferno a vida do seu par: a Menina torce um pé, a Menina pinta o cabelo de louro. A Menina é a Gata Borralheira que parte à meia-noite, abandonando o seu par.»

A menina, mais as suas danças, deixaram-nos a 30 de Dezembro de 2012.

Com José Duarte toda a vida tem a ver com swing.

Perguntaram-lhe:

- Portugal tem swing?

- Não! Somos uma maioria quadrada.

Para encontrar o indicativo para 5 Minutos Jazz, José Duarte vasculhou a enorme quantidade de discos que tinha lá por casa. Acabou por descobrir Lou’s blues tocado por Lou Donaldson.

É a música desta manhã. Também «The One I Love Belongs To Somebody Else» que José Duarte, numa carta que possivelmente Sinatra nunca leu, considerou ser esta canção «uma definitiva, perfeita obra-prima.



domingo, 6 de abril de 2025

À LUPA

«Cinema e jazz, artes do século, muito paralelas, à espera do infinito.

O que é pois certo é que o cinema nunca foi ao jazz, enquanto todo o jazz já foi ao cinema, até TeteMontoliu, pianista cego, foi ver Emmanuelle

José Duarte em Jazzé e Outras Histórias

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

REVISÃO DE NOTÍCIAS LIDAS


 

Os jornais lêem-se.

Por vezes calmamente, outras vezes na viagem do Metro, outras ainda à mesa do café.

Deles guarda-se uma ou outra página para leitura mais vagarosa, mais atenta, num outro qualquer dia.

Serão as notícias relidas.


No dia 14 de Dezembro de 2023, na sua crónica das quintas-feiras no Público, Nuno Pacheco, lembrou a morte, no ano que há pouco terminou, de José Duarte, o Jazzé como ele gostava que o chamassem.

Durante muitos anos fui ouvindo dizer que o jazz em Portugal se registava como: Antes e Depois de Vilas Boas.

Agora, também se acrescentará: Antes e Depois de José Duarte.

Antes e depois de muita gente que, em Portugal, tem dedicado ao jazz um amor sem fim.

 Nuno Pacheco:

 «O jazz está a acabar? Vai morrer? Vai ceder em definitivo a outros géneros musicais e perder os seus traços distintivos?

Passando ao lado desta discussão, não deixa de ser curioso que um homem que lhe dedicou a vida, diluindo-o no seu ego até o absorver no nome, passando de José Duarte a Jazzé Duarte (como gostava de se apresentar e ser conhecido), mantivesse durante décadas uma posição pessimista acerca do futuro do jazz, em particular do seu futuro em Portugal. Numa das últimas mensagens que me enviou, por correio electrónico, datada de Outubro de 2022, escrevia que andava por cá “até ao fim a lutar por jazz causa perdida”. E despedia-se, como sempre, com um “até jazz”. Morreu passados cinco meses, em Março de 2023, mas, muito antes dessa data, aquilo a que ele chamava “causa perdida” parecia, pelo contrário, uma causa ganha, a julgar pelo número (e qualidade) de novos músicos, pela quantidade de escolas, pela proliferação de festivais de jazz e de iniciativas a ele ligadas.»

Para completar os amores de José Duarte pelo Jazz, Nuno Pacheco cita um livro editado pela Guerra & Paz.

A saber:

«Chama-se Histórias de Jazz (ed. Guerra & Paz) mas podia chamar-se Histórias com Jazz, já que em todas elas o jazz está presente, das mais variadas formas (discos, cassetes, instrumentos, evocações fantasmagóricas), mesmo na que evoca Frank Zappa, músico de rock cuja ligação ao jazz se fez por via de influências e colaborações.

O livro, em si, tem uma história curiosa. Leonel R. Santos, que desde 2006 mantém activo o site JazzLogical.net, com informações regulares acerca do que se vai fazendo na área do jazz, dirigiu em 2001 uma revista de que foi co-fundador, a All Jazz. Um dia, conta ele na introdução, apareceu na redacção um leitor com duas histórias para eventual publicação. Interessou-se por uma delas (Jitterbug Waltz), publicou-a, e desafiou leitores e amigos a escreverem outras. Recebeu várias, em forma quase final ou em esquissos, mas, como a revista acabou, ficaram num limbo. Até que, passado anos, voltou a lê-las, reescreveu-as e fez este livro onde inclui 13 histórias, duas de sua inteira autoria e as restantes fruto das adaptações ou reescritas a que livremente se entregou (os autores dos originais são mencionados na introdução).

Assim, por entre ingredientes a que o jazz não é alheio (“amores desesperados, amizade, sexo, sangue, suor e lágrimas, traição, humor e fantástico”), somos conduzidos no desfecho de cada história a audições que lhes servem de banda sonora: de Frank Morgan (A lovesome thing) a Anthony Braxton (Opus 58), passando por Miles Davis (Sketches of Spain), John Coltrane (Every time we say goodbye), Jimmy Smith (Hackensack), Hank Mobley (Smokin’) e tantos outros. Ou ainda Charles Lloyd com Billy Higgins, no disco que gravaram em duo (só saxofone e bateria), Which way is East, com a particularidade de serem ambos chamados a protagonizar uma das histórias, Higgins, onde Charles chora no saxofone a morte de Billy, “porque um pedaço dele tinha morrido com o amigo”. Um livro de histórias para “ouler” com curiosidade, parafraseando o “ouver” de Jazzé.»

Termino recontando uma história já por aqui citada:

 Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:

«Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, obrigaram o José Duarte a pagar excesso de bagagem.»

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

MANEIRAS DE VER


Todos saberemos que o Tete Montoliú era uma pessoa de baixa estatura e invisual, mas nem todos tiveram a oportunidade de, privando com ele, apreciar o seu enorme sentido de humor e a sua capacidade de gozar com o seu infortúnio. Era também um inveterado pinga-amor, sempre com novas conquistas femininas. Quando chegou a Lisboa, o Francisco Almeida e o José Soares foram buscá-lo ao aeroporto num FIAT 127. Quando se nos apresentou, vinha acompanhado da sua última conquista. Uma senhora quase com o dobro da sua altura e da sua envergadura. Lá se conseguiu meter toda a gente e bagagem no 127, eles atrás e nós à frente. A caminho do hotel, passámos pela Av. de Roma, onde o antigo Cinema Roma exibia o filme Emmanuelle. Diz a senhora: “Mira, Tete, está ali um cinema que passa a Emmanuelle.” Resposta instantânea do Tete: “Quero vir ver.” Silêncio de morte à frente. Olhámos um para o outro, de boca aberta, como quem diz “Ouvi bem?!”. E era verdade. Fartou-se de insistir e lá comprámos dois bilhetes. Foram ver o filme e o Tete adorou.

João Paulo Bessa em Hot News nº 8

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

OLHAR AS CAPAS



Histórias de Jazz

José Duarte
Capa: Pedro Martins
Abril/Controljornal/Edipresse, Lisboa, Novembro 2201

as histórias do jazz são todas iguais
quando o não são são muito pouco diferentes
mais um episódio ali uma data acolá
um acontecimento vivido uma correcção descoberta
jazz como filho da época das realidades económicas políticas vigentes
de como o jazz dos anos vinte de Armstrong foi diferente
do jazz dos anos trinta de ellington
do dos quarenta de parker
do free dos sessenta e dos noventa

sendo esta a primeira história de jazz escrita em português
sendo o jazz o que é em Portugal uma arte não popular
sem culpa própria que não seja ser linguagem musical estranha
porque vinda de outras origens culturais
esta história deve ser breve de iniciação
fatalmente com faltas
deve ser uma história para principiantes e para bisbilhoteiros
simples e clara que tente esclarecer e desfazer erros e confusões
uma pequena história
para que jazz conste

jazz não tem ainda um século mas por lá próximo anda
é uma música que tem vivido a uma velocidade grande
a cada década seu estilo
a cada estilo vários génios
é assim aliciante contar a sua história por estilos
cada passo estético em consonância com o acidentado correr do tempo
com avanços e recuos
a própria tecnologia se meteu com o jazz e ele com ela
rock cordas percussão afro-cubana colaboraram colaboram
jazz é a primeira música de fusão de variadas fusões
música de criação e consumo instantâneo
floresta de estilos em coabitação permanente

jazz afinal uma palavra que quer dizer nada
como João

lisboa junho 2000

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

MANUEL JORGE VELOSO (1937-2019)


Manuel Jorge Veloso, personalidade marcante na história do jazz em Portugal,  faleceu hoje, contava 82 anos.
Quando há quem diga as coisas de uma certa maneira, não hesito: Vitor Dias, em O Tempo das Cerejas, sobre a morte de Manuel Jorge Veloso.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS



Cadernos do Meio Dia
Nº 2

Coordenação de António Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Fernando Moreira
 Ferreira, Hernâni de Lencastre
Edição dos Coordenadores, Faro, Julho de 1958


Nesse Tempo

Nesse tempo
eu faltava às aulas.

A música do jazz
vibrava no Café.

À noite,
o velho « High-Life»
era o tempo magnífico
onde Chaplin,
como o Deus da Sistina,
erguia o braço
condenando e perdoando…
(Desengonçado
o piano
acompanhava com notas de Beethoven
«O Peregrino», «A Quimera»…)

E numa tarde
em Paris
ajoelhei, em plena rua,
diante dum quadro de Pascin…

Nesse tempo
eu faltava às aulas.

Saúl Dias

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

QUOTIDIANOS


Ontem, domingo para esquecer.

Eleições autárquicas e futebol.

A CDU perdeu autarquias históricas, uma delas, Almada, por pouco mais de 200 votos!

O Benfica está a jogar miseravelmente.

Ontem voltou a escorregar no Funchal dando a clara indicação que o Penta Campeonato é já uma mera miragem.

Não tenho qualquer sabedoria se Eusébio da Silva Ferreira gostava de Jazz ou de música clássica.

Mas ei que, pelo menos, dois grandes nomes do jazz quiseram conhecer Eusébio.
Duke Ellington em 1966 e Dizzy Gillespie que aterrando em Lisboa para o Festival de Jaaz de Cascais, logo falou a José Duarte que queria conhecer Eusébio.


Tudo começara em Novembro de 71, quando Dizzy tocou em Portugal pela primeira vez no I Festival de Cascais, o histórico. Dias antes, em Varsóvia, o trompetista pedira-me para conhecer, em Lisboa, a Pantera Negra, a Black Pearl, está-se mesmo a ver: Eusébio.
Dezanove anos depois, o encontro teria de se repetir e agora por sugestão dos três.
No hotel mostrei-lhe as fotografais de 71, nada de cabelos brancos, uma filha do Eusébio com três anos, fotos para a posteridade, ao colo de Sonny Stitt, outro notável do jazz já desaparecido, e ainda fotos no relvado da Luz a assistirmos a um Portugal-Bélgica e onde Eusébio jogou mal, diz ele.

E para grande escândalo de José Gomes Ferreira, tal como conta num dos seus Dias Comuns, o violinista Igor Oistrakh, baldou-se a una soirée artística em casa da marquesa do Cadaval para ir ver o Eusébio.


 O incomparável violinista soviético David Oistrakh está em Lisboa. E ontem, depois de um concerto triunfal no Império, foi convidado para uma recepção em casa da Marquesa do Cadaval.
O russo porém recusou e preferiu ir assistir a um desafio de futebol em que jogava o Eusébio – hoje o português mais conhecido em todo o mundo pela maneira como joga à bola.
- O Choskatovich ainda gosta mais de futebol do que eu – confidenciou o genial violinista não sei a quem.

Legensa; Eusébio e Duke Ellington em 1966.

sábado, 26 de novembro de 2016

CAFÉ


Quando,
à hora do Jazz,
a minha cabeça rola
pelo tecto pintado do café.
a parede em frente é uma visão de escola
onde um menino de bibe e gola
sonha com aquilo que não é.

E até os criados
têm ares purificados
como ascetas dum branco ritual.
E os mármores das mesas,
Com desenhos obscenos,
surdinam várias rezas…

E as garrafas dos álcoois e absintos,
em garbos áticos,
oferedam viáticos…

E há toalhas brancas e há velas acesas!

E ela vem sempre
(só a cabeça dela,
que o corpo
perdeu-o, porventura,
nalgum escuro quarto de aluguer).
Ela vem sempre,
Como naquele dia,
serena e amavia,
única e excepcional.

O pianista
comeu os dentes do piano
e canta, de pernas para o ar,
uma canção azul.
O violinista adormeceu de pé numa cadeira
e o violino dá som sem ninguém lhe tocar.

E ela vem sempre
como naquela hora
estranha, delicada
e debruada a encanto.
Pura como a água, suave como um manto.

O dia é Dia Santo…



Nota dos autores da Antologia:

SAUL DIAS (pseudónimo de Júlio Maria dos reis pereira, Vila do Conde, 1902-1983).
Engenheiro civil, artista plástico magnífico, Júlio é autor duma obra poética que injustificadamente ficou um pouco na sombra da do desmesurado José Régio, seu irmão. Saul Dias é um poeta contido, que capta com a humildade dos grandes observadores momentos essenciais, por vezes terríveis, por vezes jubilosos, da vivência humana. Contenção e tensão ilustradas pelos títulos dos seus livros.

Os antologiadores chamam a este poema de Saul Dias: um muito lógico café jazz surrealizado em 1934.

Legenda: Músicas e Mulheres no Espaço, pintura de Saul Dias

terça-feira, 1 de março de 2016

RAY CHARLES



Este disco terá sido, para muitos, o ficarmos a saber da existência deste extraordinário cantor.

Os tempos eram de pouquíssima divulgação do muito que em música, literatura, cinema, qualquer arte que acontecia além-fronteiras.

As razões são várias para que assim acontecesse, mas cite-se, como principal, a censura de Salazar, uma censura que, ao mínimo sinal de algo de progressista, fazia desabar o lápis azul de coronéis analfabetos.

José Duarte, rapaz que não deixava créditos por mãos alheias, soube que Ray Charles iria dar, em Paris, o seu primeiro concerto europeu.

Sabia de cor as canções de Ray Charles e até as dançava.

Tinha exame marcado do curso de Economia para esses dias, borrifou-se no dito porque Ray Charles era fortíssimo chamamento, e, no fundo, já sabia que não queria ser económico-canudado, e voou para Paris.

Ele entrou em palco guiado por uma loura alta, nova, esguia, que o levou e, no fim, o trouxe do piano para os bastidores: Foi desde então que os seus óculos escuros nunca mais me saíram dos olhos. Já tive vários parecidos. Onde é que ele os compra? De tartaruga! Autênticos alçapões de escuridão, onde eu me escondia. Que bom!...
Na band debitavam alguns dos seus melhores companheiros musicais de sempre: Leroy Cooper e David Newman entre os saxofonistas, o lendário Dicki Wells entre os trombones, uma histórica scção de trompetes com Philippe Gilbeau, Wallace Davenport, Marcus Belgrave e John Hunt. Uma das quatro Raelettes era já Margie Hendrix.

Jorge Sena dedicou um poema a Ray Charles.
                                                                                                                                                         
Tem a data de 15 de Março de 1964 e é retirado de Sequências, livro póstumo.

Faz parte da antologia de Jazz na Poesia em Língua Portuguesa organizada por José Duarte e Ricardo António Alves:

Cego e negro, quem mais americano?
Com drogas, mulheres e pederastas,
a esposa e os filhos, rouco e gutural
canta em grasnidos suaves pelo mundo
a doce escravidão do dólar e da vida.

Na voz, há o sangue de presidentes assassinados,
as bofetadas e o chicote, os desembarques
de «marines» na China ou no Caribe, a Aliança
para o Progresso da Coreia e do Viet-Nam,
e o plasma sanguíneo com etiquetas de black e white
por causa das confusões.
E há as Filhas da Liberdade, todas virgens e córneas,
de lunetas. E o assalto ao México e às Filipinas,
e a música do povo eleito por Jeová e por Calvino
para instituir o Fundo Monetário dos bancos e dos louros,
a cadeira eléctrica, e a câmara de gás. Será que ele sabe?

Os corais melosos e castrados titirilam contracantos
ao canto que ele canta em sábias agonias
aprendidas pelos avós ao peso do algodão.
É cego como todos os que cegaram nas notícias da United Press,
nos programas de televisão, nos filmes de Holywood,
nos discursos dos políticos cheirando a Aqua Velva e a petróleo,
nos relatórios das comissões parlamentares de inquérito,
e da CIA, do FBI, ou da polícia de Dallas.
E é negro por fora como isso por dentro.

Cego negro, uivando ricamente
(enquanto as cidades ardem e os «snipers» crepitam)
sob a chuva de dólares e drogas
as dores da vida ao som da bateria,
quem mais americano?

Jorge Sena

Uma outra de José Duarte, a propósito de Ray:

Muito se modificou o estilo de Betty Carter desde os tempos dos seus êxitos com Ray Charles e até anteriores, fins dos anos 50!
«Baby It’s Cold Outside» com Ray, está na História da Música. 


                                                                                                                                                           

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Aprender jazz é como aprender a falar.
Aprende-se vai-se aprendendo.
Balbucia-se, imita-se, copia-se.
O vocabulário vai chegando, a gramática também.

José Duarte em Cinco Minutos de Jazz

Legenda: pintura de Robert McGinnis

BRIO PORTUGUÊS


Longos e penosos têm sido os passos dos divulgadores de jazz em Portugal.

A incompreensível adversidade para tudo o que é diferente, é sempre uma conquista difícil, a maior parte das vezes impossível.

Ao longo dos 50 anos de Cinco Minutos de Jazz, José Duarte recebeu imensas cartas, postais, a insultá-lo de tudo e mais alguma coisa.

Eram racistas, nazis que defendiam o império.

No seu primeiro livro, João na Terra do Jaze, José Duarte reproduz uma dessas cartas:

Passo a ler-vos um postal que recebi hoje.
Endereço: Exmo. Sr. Director de Rádio Renascença (escritórios e Estúdios)
Remetente: Exmos. Snrs. Correios
Rogo o Vosso auxílio na defesa da Música Portuguesa e repúdio do infame e anti-Português-Jazz-batuque.
Agradece o vosso Daniel Luiz Sampaio
Texto: Venho pedir a V.Ex. que Rádio Renascença não colabore com os idiotas propagandistas do Jazz-Batuque, pois além de ser um género de música bárbara e subversiva de pretos americanos, é também um género de Música-Batuque, anti-Portuguesa, fora da índole e do sentir do nosso Povo, poi somos um Povo Latino. Os idiotas do Jazz-Batuque tudo têm feito para corromper o Povo Português, mas até hoje, só têm conseguido arrastar parte de alguma desvairada juventude, sem brio português, para um género de Música, anti-Portuguesa, sem brio português, para um género de Música, anti-portuguesa que os pretos insurrectos praticam há mais de 100 anos na América, mas que as pessoas sem dignidade pela verdade e pela sua condição de portugueses, teimam em afirmar que o Jazz-Batuque é Música do nosso tempo. Os idiotas, que tal afirmam, são gente de baixa mentalidade e de alma negra incapaz de apreciar e sentir a beleza da Música verdadeira e digna do género humano.
Exmo. Sr. Director, peço-lhe a Vossa ajuda na defesa da nossa Música e dos Músicos portugueses.
Muito grato lhe fica o Vosso, Daniel Luiz Sampaio.
O postal não traz a morada do remetente.

                                                                                 Novembro de 1972

domingo, 21 de fevereiro de 2016

CINCO MINUTOS DE JAZZ



Quando se fala de jazz em Portugal, há uma fronteira a balizar: antes e depois de Vilas-Boas.

Seguem-se, então, os outros, como Raul Calado ou José Duarte.

Há 50 anos, João Martins, um radialista de excelência, apanhando José Duarte a jantar em casa de Raul Duarte desafiou-o a realizar uma rubrica de jazz na sua 23ª Hora, que se transmitia na Rádio Renascença.

A pergunta que se seguiu foi se não podia ser mais do que cinco minutos.
Que não, apenas cinco minutos.

No dia 21 de Fevereiro, ouvia-se uma faixa do álbum de Lou Donaldson, Lou’s Blues, e o José Duarte a marcar 1, 2, 3, 4, Cinco Minutos de Jazz, o mais antigo programa da rádio portuguesa.

há cinquenta comecei com o «cinco» e com milhares de «cinco» acabarei.
se hoje fosse convidado para realizar um programa de rádio de
jazz
resposta seria sim se:
chamar-se-ia o «jazz, esse desconhecido»

Andou depois pela Rádio Comercial, os companheiros diziam que o Zé Duarte era a melhor orelha branca da Europa, assim como Vinicius se dizia o branco mais negro do Brasil, passou pela Antena 2 e agora estaciona na Antena 1

Ao Expresso, José Duarte disse: sinto que fico na história como o Vila-Lobos.

Assim seja!


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Tudo O Que Não Escrevi
Diário II (1992)

Eduardo Prado Coelho
Capa: João Machado
Ilustração da sobrecapa: David de Almeida
Colecção Finisterra
Edições Asa, Porto, Abril de 1994

A eternidade não me interessa, costumava dizer, deve ser um enorme aborrecimento. O que eu desejo é uma outra imagem do tempo, um tempo que se torne elástico, extensível, pastosos mas transparente, um tempo-chiclets, um tempo como a massas do pão que se modela com os dedos. Os momentos de verdadeira felicidade são exactamente como este: avanço em direcção ao mar, e de súbito é tudo mar dentro de mim. Henri Michaux, esse viajante sem viagens, ensinou-me um dia: «Qui connaît une mer connaît la mer.» Talvez o fascínio do jazz resulte de uma relação com o tempo deste tipo: uma tela que se alarga tanto à volta da minha cabeça que se torna uma venda iluminada (ouço Solitude cantado poe Ella Fitzgerald).

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poezz, Jazz na Poesia em Língua Portuguesa

José Duarte e Ricardo António Alves
Apresentação e Notas: Ricardo António Alves
Comentários: José Duarte
Edição Almedina, Lisboa, Maio de 2004

blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

CLARO QUE MAHALIA PERDEU


Uma gravação de Mahalia é sempre igual a outra gravação de Mahalia: a mesma voz, o mesmo poder, nada de afectividades, grande potência e convicção, o grito bem gritado, o fervor religioso, a simplicidade de processos, um piano ou um órgão ou os dois ou nada, a dificuldade da obra perfeita criada com espectacular naturalidade.
Mahalia foi a vedeta mais antivedeta que a História da música afro-norte-africana conheceu. Primeiro, negou-se a cantar em público, salvo na igreja, para os fiéis praticantes lá da sua terra. Depois, recusou-se a cantar em espectáculos, que este tipo de música não era para ser exibida, mas para ser apreciada e para agitar os crentes, lá na igreja do seu bairro. Por fim (para trás Satanás!), não quis gravar em disco o que quer que fosse, porque música religiosa, com letras vindas directamente da Bíblia, só devia chegar aos seus irmãos de raça e fé.
Claro que Mahalia perdeu.

José Duarte em Cinco Minutos de Jazz

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Cinco Minutos de Jazz

José Duarte
Capa: Fátima Rolo Duarte
Oficina do Livro, Lisboa Setembro de 2000

Tudo isto é, naturalmente, um suponhamos, primeiro porque leva opinião (o que é sempre perigosos e bom), depois porque um músico bom pode tocar mal. É por isso que no jazz não há músicos bons, há só gente.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Jazzé e Outras Histórias

José Duarte
Edições Cotovia, Lisboa, Junho de 1994

Resta lembrar que no jazz não é preciso ir ver a Guernica ao museu de Madrid, as obras-primas circulam pelo mercado mundial em cópias CD, rigorosamente iguais,

Tamanho e cor. Só se tornam diferentes ao entrarem pelas orelhas para os cérebros dos ouvintes. Daí o gosto e a sua horrorosa pedagogia.

domingo, 14 de junho de 2015

ORNETTE COLEMAN (1930-2015)


Morreu OrnetteColeman, figura histórica do jazz.
Tinha 85 anos.
Como salientou a ageneralidade da imprensa, a história de Coleman cruza-se com a história da resistência ao Estado Novo em Portugal: a sua atuação no Cascais Jazz de 1971 - primeiro festival de jazz em Portugal - terminou sob ameaça de intervenção policial, depois de o seu contrabaixista, Charlie Haden, que morreu há um ano em, dedicar uma música aos movimentos de libertação de Angola e Moçambique.

O público recebeu a declaração política efusivamente, com aplausos e punhos erguidos, mas o contrabaixista foi de imediato detido pela PIDE, que o escoltou ao aeroporto de Lisboa, obrigando-o a sair do país.



sexta-feira, 15 de maio de 2015

B.B. KING (1925-2015)


B.B. King morreu aos 89 anos.
Keith Richards no seu Life, escreveu que nenhuma miúda o afastaria de ouvir B.B. King.
Em Novembro de 1969, na digressão pelos Estados Unidos B.B. King, também Ike e Tina Turner, tocava, antes dos Stones e só eles valiam o preço do bilhete.