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sábado, 13 de dezembro de 2014

DESDE QUE A NOSSA PORTA SE FECHOU

 «Estão amarelecidas as folhas dactilografadas que te mandei naquele Outono de 1944, e esbatido pelo tempo o vermelho da tinta com que foram escritas. Estão amarelecidas, e quase ilegível o que te contei. Mas conservam ainda manchas do bolo em que as introduzi. Esse bolo que o forno cozeu e depois foi levado, longe do alcance da PIDE, até às tuas mãos, na clandestinidade.

Que aperfeiçoasse o que escrevi, desenvolvesse o que pudesse, e depois fizesse «um livro, a publicar um dia», pediste na carta que as acompanhava quando mas devolveste, Já lá vão trinta e cinco anos.

Não cumpri, então, o teu pedido. E se hoje o faço é porque ele não mais se apagou na minha lembrança. Só que a dúvida persiste. A quem poderá interessar o que a ati tanto interessou? Quem quererá saber, decorridos, o que se passou comigo naqueles meses de Maio e Junho, desde que a nossa porta se fechou sobre a tua fuga, até à minha saída da prisão?

Seja como for, e embora volvidos trinta anos após a tua morte, as cartas aqui estão, feitas no pequeno livro que desejaste, e que escrevi, com a minha saudade em tua memória.»


Palavras de abertura do livro Eles Vieram de Madrugada (Dezembro de 1979), as Cartas da Clandestinidade que Manuela Câncio Reis, mulher de Soeiro Pereira Gomes, lhe escreveu.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Eles Vieram de Madrugada
Cartas para a Clandestinidade a Soeiro Pereira Gomes

Manuela Câncio Reis
Capa: José António Flores
Editorial Caminho, Lisboa, Julho de 1981

Eu não gostava das visitas do Alexandre. Não gostava que ele viesse falar contigo às ocultas, fechados ambos no teu escritório, depois de escondida a bicicleta no quintal. Adivinhava nesses misteriosos diálogos alguma coisa que cedo ou tarde te arrancaria a nossa casa. Mas gostava do Alexandre, da bondade que revelavam os seus olhos azuis, transparentes, e do modo compreensivo com que me falava quando o meu «burguesismo» estava em causa. Admirava o arrojo de vir assim, na sua bicicleta, em pleno meio-dia, bater-nos à porta, tão naturalmente como se a sua segurança, a sua vida não perigassem. E fazia-me pena o seu corpo magoado entalado no mesmo fato cinzento, curto e apertado, a palidez do seu rosto que a varíola um dia picou, a magoada ternura com que falava do filhito sempre doente. Dizias que ele passava fome e eu via que era verdade, no apetite com que partilhava o nosso almoço reforçado à pressa. Só que não gostava nada, também, que ele dissesse, trocando breve olhar contigo, que a vida na clandestinidade não era assim tão má como eu poderia julgar.