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quinta-feira, 18 de março de 2021

AINDA EXISTEM AS RUAS


Ainda existem as ruas onde por acaso

nos encontrávamos? Tantos dias correram

num ano, viam-me em dias de mais

desejo apressar os passos, olhar para

o relógio, pôr falhando os discos

nas capas. Parecia ter sido só uma

despedida de um dia para o outro, agora

se escrevo é porque és apenas uma imagem

da memória, pouco faltará para que

guarde de ti um risco, um embaraço.

E sempre chegarei a tactear o rosto,

fingir que me lembro de alguns sinais,

das poucas palavras necessárias para que

eu aceitasse, duas vezes o meu corpo

esteve como teu, outras mais do que

podes pensar. Na volta de uma esquina

não reparo, tropeço, encontro, o último

sorriso começa a nascer.

 

Helder Moura Pereira

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

QUANDO PARO À PORTA DA ANTIGA FÁBRICA


Quando paro à porta da antiga fábrica
onde o meu avô trabalhou. Risca. Quando
a fábrica onde o meu avô trabalhou
surge de repente aos meus olhos,
sem eu ter procurado, e. Risca.
Passam de repente nos meus olhos
muitas imagens, uma delas é a porta
da fábrica onde meu avô trabalhou.
Ali me deu uma vez dez escudos para.
Risca. É um poema num café. Dele
faz parte uma mesa de café e um café.
Depois olho pela janela do café
e não está lá fábrica nenhuma,
não está lá porta nenhum, e também
sinceramente não tenho bem
a certeza de ser eu que estou aqui.
Mas o meu avô estava lá de certeza.

Helder Moura Pereira, Resumo: a Poesia em 2012, Assírio & Alvim, Lisboa Março de 2013