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segunda-feira, 20 de abril de 2026

AS PALAVRAS LENTAS DE UMA CANÇÃO


Que elas, cadentes estrelas dos bairros de sombra, soltem cabelos e rendas e falsas joias porque a vida é apenas este comboio sem destino nem estações, gritando com esta música sobre as cabeças trepidantes. Já poucos se demoram na contemplação de uns olhos que traziam o mistério dos bosques e dos lagos, ninfas e duendes que perseguiam um homem até aos labirintos da insónia. Agora, quase tudo se desprende e não posso, é verdade, não posso prender os meus dedos nos teus, não posso murmurar as palavras lentas da minha canção. Não posso perguntar: qual é o teu nome, a tua casa, a tua história? Não posso perguntar nada, fazer nada. Sei que de trago em trago vou abrindo uma clareira de medos onde só a minha sombra vai medindo os passos do Sol. Vejo, para trás dos ombros que se desarticulam, um rosto perplexo entre as nuvens de fumo. Soubesses tu, rosto perdido, as raízes do meu desastre e não virias aqui, a esta hora, balbuciando uma prece ou uma maldição. Mas não sabes. Não conheces o fulgor que me abandona, os nervos rebentando à medida das marés que nos empurram para os portos nocturnos, no derradeiro naufrágio. Não conheces o impulso que nos atira contra os recifes quando já não somos mais do que um velho que perdeu o Norte, um porão vazio que os fantasmas do mar que é esta vida visitam com enormes letreiros luminosos: «Foste príncipe, adorador, amante. O Tempo passou. Os teus olhos ficam. Elas giram à tua volta. O teu corpo fica. Já não se move.»

José Agostinho Baptista, de uma crónica na Ler, Novembro de 1997.

sábado, 5 de julho de 2025

CONVERSANDO


 As vidas de cada vida são tantas, tantas, que é impossível que se possa dizer que este ou aquele, são livros de uma vida.

Peguei há dias em O Estrangeiro do Albert Camus e poderia dizer que é o livro de uma vida. Não digo. Mas é um grande livro. Sujeito a uma série larga de leituras – quantas vezes o João Bénard da Costa viu o Johnny Guitar? - o livro tem um milhão de sublinhados, mas a minha atenção de agora fixou-se na frase:

«… a partir desse dia senti que a minha casa era a minha cela, e que a vida parava ali.»

Meursault estava preso porque, a seguir à morte da mãe num asilo de velhos, matara um árabe.

Donde partiu esta minha atracção pelas casas?

Só pode ter sido naquele poema do Ruy Belo

«Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro»

A tal ponto que arranjei uma etiqueta para casas e fui lá colocando o que sobre casas ia encontrando. Passei por lá os olhos e trago-vos algumas leituras, a maior parte são versos de poemas e acabo de ler no João Miguel Fernandes Jorge que «um verso fora do poema não deve despertar qualquer interesse.»

Nada se passa por detrás das janelas desde que deixámos de estar por detrás delas.

Palavras encontradas em Alexandre O’Neill

 … a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke

A minha casa é onde estás.

José Agostinho Baptista

O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós a casa mora.

Mia Couto

Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

Margarida Ferra

Acho que quando for grande nunca vou conseguir encontrar o caminho para casa.

Autor desconhecido

Também nós não voltaremos à mesma casa.

Manuel S. Fonseca

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


A minha casa é onde estás.

José Agostinho Baptista

Legenda: pintura de Raymond Wintz

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

POSTAIS SEM SELO


Nunca percebi a preferência de Deus pelo deserto. Afinal, é o lugar da Terra mais parecido com o Inferno.

José Agostinho Baptista

segunda-feira, 24 de abril de 2023

JORNAL DE CRÍTICA


Coordenado por Orlando Neves, «Jornal de Crítica» foi um suplemento do «Repúnlica», publicava-se aos sábados, e da redacção faziam parte Afonso Cautela, Armando Pereira da Silva, Carlos Porto, Miguel Serrano, Serafim Ferreira, Tito Lívio e José Agostinho Bapaista.

O seu 1º número está datado de de 9 de Janeiro de 1971.

A partir do seu nº 11, 19 de Março de 1971, passou a publicar-se aos sábados.

O triste pio do «Jornal de Crítica», publicados que estavam 57 números, ocorre no dia  24 de Março de 1972.

Outros «valores» se levantaram de quem passou a orientar os «novos» passos orientadores do velho diário.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

PARA DEBAIXO DO VULCÃO

Um limão seco como uma anciã de cócoras com o seu capuz debai-

             xo do frio.

Uma pirâmide branca de sal e as moscas

revolteando sobre a mesa laranja, e chove, chove, um peão que

                arranha

e um aparo que arranha, escrevendo oblíquas palavras.

Guerra. E os eléctricos de pescoço quebrado lá fora

e o súbito pensamento quebrado do rosto de uma rapariga em

                Hoboken

e uma tartaruga voltada para cima morrendo lentamente

 na varanda da marisqueira, sangue

que rodeia a sua boca e o chão branco –

pronta para amanhã.

Não haverá amanhã, o amanhã acabou.

Trevo e cheiro a abetos e a grandes ervas,

e peru com molho e a Inglaterra de repente,

a recordação da casa, mas então

os mariachis, dissonantes, pois a ave do maguey

levantou voo, e o empregado de mesa leva

um ondulante prato negro de emoção,

e o rosto do peão é uma mancha de corrupção.

Deixamos de lado o horror do clima

nesta terrível terra de homens meio enterrados

onde vivemos com Canuto, com o relógio de sol e o peixe vermelho,

o leproso, a trepadeira, juntos na torre verde,

e ao pôr do sol tocamos, com flauta e guitarra,

a canção, a canção da eterna espera de Canuto,

o equívoco da minha espera, a flauta do meu pranto,

noiva do nauseabundo vácuo e da raiz descarnada

e a chuva sobre o comboio que lá fora se arrasta, se arrasta,

todo esse vazio na minha alma que agora dorme

onde outrora caminharam altivos tigres limonada andrajosos lepro-

                sos verdes

álcoois peras pimentas pobres e Leopardis recheados;

e o ruído do comboio e a chuva no cérebro…

Tão longe do celeiro e do campo e da azinhaga –

esta pira de Bierce, este trampolim de Hart Crane!

 A morte tão longe da minha casa e da minha mulher

A morte que temo. E rezei pela minha vida enferma –

 

«Um cadáver deve enviar-se por expresso»,

disse o Cônsul misteriosamente, acordando de repente.

 

Malcolm Lowry

Tradução de José Agostinho Baptista em Rosa do Mundo

terça-feira, 10 de maio de 2022

VOA, MEU SONHO

Voa, meu sonho, voa sobre as planícies geladas,
Voa sobre as árvores mortas do Inverno,
Paira sobre a lonjura das belas noites de estrelas,
Nunca pares, continua a voar cada vez mais.
Arde, minha saudade, como chama eterna,
Arde na escuridão onde tudo se apagou e foi há muito.
Eterna é esta saudade, é a vida, é a ousadia,
E o fogo que salta sobre o véu de cinzas.

Compreende que para quem nada conseguiu,
E junto à praia nunca repousou,
Não há morte para alta fogueira que ardeu,
Não há medida para terras azuis da sua saudade.
O meu coração vive de saudade em saudade.
Sempre para desconhecida costa se volta –
A saudade de um poeta não obedece às leis do espaço,
A terra dos sonhos não tem fronteiras.

Bertel Gripenberg

(Tradução de José Agostinho Baptista)

sexta-feira, 11 de março de 2022

ROSA DO MUNDO

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?

Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,

Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,

Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,

E morreram os filhos de Usna.

 

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:

Entre humanas almas, que se agitam e quebram

Como as pálidas águas em seu fluxo invernal,

Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,

Vive este solitário rosto.

 

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:

Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,

Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;

Ele fez do mundo um caminho de erva

Para os seus errantes pés.

 

W.B.Yeats

 Tradução de José Agostinho Baptista em Rosa do Mundo

quarta-feira, 5 de maio de 2021

EU NÃO SEI SE ESTIVESTE AUSENTE


Eu não sei se estiveste ausente.

Eu deito-me contigo, e levanto-me contigo.

Nos meus sonhos tu estás junto a mim.

Se estremecem os brincos das minhas orelhas

eu sei que és tu que te moves no meu coração.

México, Nahuas, tradução de José Agostinho Baptista em Rosa do Mundo

domingo, 23 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Estranha Forma de Vida

Enrique Vila-Matas
Tradução: José Agostinho Baptista
Colecção O Imaginário nº 35
Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 1997

Foram-se embora e deixaram-me tranquilo, e às oito da manhã, como de costume, já estava a afiar lápis e a perfilar ideias destinadas ao artigo de jornal que escrevia diariamente e me divertia sempre como um louco, pois esse género de textos nos quais, com certa ousadia, inventava tudo e não levava mais de meia hora a escrever, compensava-me amplamente das rigorosas leis do realismo social a que submetera a minha trilogia novelesca sobre as vidas das pessoas da minha rua, as pessoas da Calle Durban: um tríptico muito realista sobre a minha vizinhança, sobre os deserdados da vida, sobre os mortos de dor, sobre as almas humildes da Calle Durban, sobre os humilhados e ofendidos, sobre os infelizes sobre los de abajo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Nas minhas costas, os comboios passam e com eles fantasmas entorpecidos, regressando a casa, depressa, no medo das navalhas e do frio, no medo da noite, sem um estremecimento, sem um rumor, nada que deva à vida o seu lume e a sua raiz. Nem sequer é demência isto que os arrasta para o fim das cidades, é talvez a pequena morte, esta existência vegetal entre o princípio e o fim. Mais para cá, uma febre negra empurra os suicidas para as últimas moradas.

Jorge Agostinho Baptista em Crucificação.

Legenda: pintura de Jean Pierre Gibrat

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Texto de José Agostinho Baptista, publicado na revista Ler nº 38, Primavera/Verão de 1997.
Chamou-lhe Crucificação.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Cálamo

Walt Whitman

Versão e notas de José Agostinho Baptista
Edição bilingue
Capa: Ilda David
Colecção Gato Maltês nº 8
Assírio e Alvim, Lisboa, Setembro de 1984


Quando soube ao fim do dia que o meu nome fora aplaudido no capitólio, mesmo assim nessa noite não fui feliz,
E quando me embriaguei ou quando se realizaram os meus planos, nem assim fui feliz,
Porém, no dia em que me levantei cedo, de perfeita saúde, repousado, cantando e aspirando o ar fresco de outono,
Quando, a oeste, vi a lua cheia empalidecer e perder-se na luz da manhã,
Quando, só, errei pela praia e nu mergulhei no mar e, rindo ao sentir as águas frias, vi o sol subir,
E quando pensei que o meu querido amigo, meu amante, já vinha a caminho, então fui feliz,
Então era mais leve o ar que respirava, melhor o que comia, e esse belo dia acabou bem,
E o dia seguinte chegou com a mesma alegria e depois, no outro, ao entardecer, veio o meu amigo,
E nessa noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas invadindo lentamente a praia,
Ouvi o murmúrio das ondas e da areia como se quisessem felicitar-me,
Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta na noite fresca,
Na quietude daquela lua de outono o seu rosto inclinava-se para mim,
E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito – nessa noite fui feliz.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

OLHAR AS CAPAS


Deste Lado Onde

José Agostinho Baptista
Capa: Dorindo de Carvalho
Colecção Cadernos Peninsulares/Nova Série/ Literatura nº 11
 Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 1976

é sobretudo em noites como esta que me lembro de erika

revejoa-a então ao anoitecerr num pequeno quarto da da cidade
sentada ao piano as mãos excessivamente brancas tocando chopin
foi assim durante o outono de 70.
por diversas vezes nesses meses de de absoluta depressão pensei
dedicar-lhe um poema uma primitiva elegia em memória dos
companheiros mortos ao serviço da pátria

nunca fui capaz.

acabava invariavelmente por oferecer-lhe poncha por amar o seu
corpo desabrigado por falar exaustivamente sobre a ilha que
a luz ensombrecida das manhãs se aproximava de lisboa.
ERIKA;
passados dois anos havias de ver o meu novo rosto a nova casa os
poemas desordenados o meu corpo burguês em decomposição -
o que pode fazer de um homem um país!
nunca pensei em dar-lhe notícias.
nunca uma palavra de erika veio estremecer estas noites de 72.
sei porém que hoje erika é a streap-teaser mais aplaudida e o seu
corpo o mais desejado pelos marines em saigon.