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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


A minha casa é onde estás.

José Agostinho Baptista

Legenda: pintura de Edward Hopper.

domingo, 23 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Estranha Forma de Vida

Enrique Vila-Matas
Tradução: José Agostinho Baptista
Colecção O Imaginário nº 35
Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 1997

Foram-se embora e deixaram-me tranquilo, e às oito da manhã, como de costume, já estava a afiar lápis e a perfilar ideias destinadas ao artigo de jornal que escrevia diariamente e me divertia sempre como um louco, pois esse género de textos nos quais, com certa ousadia, inventava tudo e não levava mais de meia hora a escrever, compensava-me amplamente das rigorosas leis do realismo social a que submetera a minha trilogia novelesca sobre as vidas das pessoas da minha rua, as pessoas da Calle Durban: um tríptico muito realista sobre a minha vizinhança, sobre os deserdados da vida, sobre os mortos de dor, sobre as almas humildes da Calle Durban, sobre os humilhados e ofendidos, sobre os infelizes sobre los de abajo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Nas minhas costas, os comboios passam e com eles fantasmas entorpecidos, regressando a casa, depressa, no medo das navalhas e do frio, no medo da noite, sem um estremecimento, sem um rumor, nada que deva à vida o seu lume e a sua raiz. Nem sequer é demência isto que os arrasta para o fim das cidades, é talvez a pequena morte, esta existência vegetal entre o princípio e o fim. Mais para cá, uma febre negra empurra os suicidas para as últimas moradas.

Jorge Agostinho Baptista em Crucificação.

Legenda: pintura de Jean Pierre Gibrat

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Texto de José Agostinho Baptista, publicado na revista Ler nº 38, Primavera/Verão de 1997.
Chamou-lhe Crucificação.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Cálamo

Walt Whitman

Versão e notas de José Agostinho Baptista
Edição bilingue
Capa: Ilda David
Colecção Gato Maltês nº 8
Assírio e Alvim, Lisboa, Setembro de 1984


Quando soube ao fim do dia que o meu nome fora aplaudido no capitólio, mesmo assim nessa noite não fui feliz,
E quando me embriaguei ou quando se realizaram os meus planos, nem assim fui feliz,
Porém, no dia em que me levantei cedo, de perfeita saúde, repousado, cantando e aspirando o ar fresco de outono,
Quando, a oeste, vi a lua cheia empalidecer e perder-se na luz da manhã,
Quando, só, errei pela praia e nu mergulhei no mar e, rindo ao sentir as águas frias, vi o sol subir,
E quando pensei que o meu querido amigo, meu amante, já vinha a caminho, então fui feliz,
Então era mais leve o ar que respirava, melhor o que comia, e esse belo dia acabou bem,
E o dia seguinte chegou com a mesma alegria e depois, no outro, ao entardecer, veio o meu amigo,
E nessa noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas invadindo lentamente a praia,
Ouvi o murmúrio das ondas e da areia como se quisessem felicitar-me,
Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta na noite fresca,
Na quietude daquela lua de outono o seu rosto inclinava-se para mim,
E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito – nessa noite fui feliz.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

OLHAR AS CAPAS


Deste Lado Onde

José Agostinho Baptista
Capa: Dorindo de Carvalho
Colecção Cadernos Peninsulares/Nova Série/ Literatura nº 11
 Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 1976

é sobretudo em noites como esta que me lembro de erika

revejoa-a então ao anoitecerr num pequeno quarto da da cidade
sentada ao piano as mãos excessivamente brancas tocando chopin
foi assim durante o outono de 70.
por diversas vezes nesses meses de de absoluta depressão pensei
dedicar-lhe um poema uma primitiva elegia em memória dos
companheiros mortos ao serviço da pátria

nunca fui capaz.

acabava invariavelmente por oferecer-lhe poncha por amar o seu
corpo desabrigado por falar exaustivamente sobre a ilha que
a luz ensombrecida das manhãs se aproximava de lisboa.
ERIKA;
passados dois anos havias de ver o meu novo rosto a nova casa os
poemas desordenados o meu corpo burguês em decomposição -
o que pode fazer de um homem um país!
nunca pensei em dar-lhe notícias.
nunca uma palavra de erika veio estremecer estas noites de 72.
sei porém que hoje erika é a streap-teaser mais aplaudida e o seu
corpo o mais desejado pelos marines em saigon.