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sábado, 14 de julho de 2018

AS CORDAS DE PAREDES


Nesta cidade sem música
o homem da guitarra gritava o seu segredo
com as mãos em desalinho.

Cristais de crispação
jorravam de uma lua baça
ou quentes do forno da madeira
do linho.

Aí vai a minha vida.
E o homem vergado sobre si, enrolado e mudo,
bordava-se nas suas cordas de aço
macias de suor e livres
do fracasso.

Nesta cidade de ventre abandonado ao vento
mais perverso
ele é uma raiz, uma toalha de água
leve tremor de pálpebras
que retine feliz
no rosto da nossa mágoa.

Colhemos a sonora fruta
que ele deixa tombar das mãos.
E como um rapazinho amedrontado
o homem da guitarra
ainda está aí
à espera de nós, da voz,
de outra cidade.
Talvez de outros irmãos.

Armando Silva Carvalho em Lisboas

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

PANCADAS DE MOLIÉRE




Crítica, assinada por Manuel de Azevedo, publicada no Diário de Lisboa de 2 de Fevereiro de 1965, à peça O Render dos Heróis de José Cardoso Pires e representada pelo Teatro Moderno de Lisboa.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

CAFÉS FUMARENTOS


A música de Carlos Paredes, como a de Astor Piazzola, suscita imagens de ruas lavadas pela chuva e de cafés fumarentos.


Legenda: pintura de Karen Offutt

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

FERNANDO ALVIM (1934-2015)


 Com 80 anos, morreu Fernando Alvim.
Se a guitarra de Carlos Paredes tinha aquele som inigualável a viola de Fernando Alvim tem o seu importante dedilhar.
Foram companheiros durante 25 anos.
Um homem sóbrio, competente.
 Nunca o vimos em bicos de pés e sempre longe dos holofotes.
Gostava de música, sabia da importância dos seus acompanhamentos e era isso que lhe marcava a vida e a carreira.
Faz parte daqueles homens admiráveis que não se dá por eles, mas estão no sítio certo e tornam as coisas mais fáceis e bonitas.

Legenda: pormenor da capa de Movimento Perpétuo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

VIVO NO CORAÇÃO DE TODOS NÓS


Considero que o José Afonso é uma figura histórica. A partir do momento da sua morte passa a estar mais presente do que nunca. De hoje em diante deixa de estar moribundo: passa a estar verdadeiramente vivo no coração de todos nós.

Carlos Paredes

Legenda: Carlos Paredes e José Afonso, finais dos anos 60. Fotografia tirada de As Voltas de um Andarilho

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

PAREDES É NOME DE GUITARRA


Artigo de José Carlos de Vasconcelos, Diário de Lisboa, 16 de Julho de 1968.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A GUITARRA QUE TRAGO DENTRO DE MIM


A palavra por dentro da guitarra
a guitarra por dentro da palavra.
Ou talvez esta mão que se desgarra
(com garra com garra)
esta mão que nos busca e nos agarra
e nos rasga e nos lavra
com seu fio de mágoa e cimitarra.

Asa e navalha. E campo de Batalha.
E nau charrua e praça e rua.
(E também lua e também lua).
Pode ser fogo pode ser vento
(ou só lamento ou só lamento).

Esta mão de meseta
voltada para o mar
esta garra por dentro da tristeza.
Ei-la a voar ei-la a subir
ei-la a voltar de Alcácer Quibir.

Ó mão cigarra
mão cigana
guitarra guitarra
lusitana.

Manuel Alegre, Público, 24 de Julho de 2004

Legenda: fotografia de Augusto Cabrita no CD Na Corrente de Carlos Paredes, capa de Jorge Mourinha, EMI- Valentim de Carvalho

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

UM HOMEM PARA SER ESTUDADO


No dia em que me cruzar com o russo que me atirar à cara o “Guerra e Paz” e o americano que me tente ofuscar com o Grand Canyon, eu pergunto-lhes: “Têm dois minutos e vinte e sete segundos?” Se não, pior para eles. Se sim, ficarão agradecidos para o resto da vida. Ponho-os a ouvir “Mar Goês”.
“Mar Goês é a prova que sim. Sim, um dia os portugueses entraram em pequenos barcos e tornaram o mundo grande, porque completo. Havia de ser um amanuense do Hospital de São José, um tímido com andar estranho, que me confirmaria que já houve portugueses fortes. Os dedos de Carlos Paredes são como os lenhadores do pinhal de Leiria, são como o marinheiro que subia à gávea, são como o capitão que dizia por ali e não cedia.

Ferreira Fernandes

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Na guitarra de Carlos Paredes está tudo escrito. O amor, o trabalho, a rua, os rios e o mar deste país que descobriu meio mundo e se esqueceu de si próprio. Estão as vozes desta gente a que uns quantos teimam em chamar povo, esquecidos que o povo só existe nos conceitos de cada um. Estão os homens e as mulheres que todos os dias se desgastam à espera de um futuro biblicamente prometido, estão nos choros e a raiva de uma marginalidade que nunca navegou pelos uísques poluídos dos bares “soft-left” de segundo escalão.

Viriato Teles, semanário Sete, s/d

Legenda: fotografia de Augusto Cabrita no CD Na Corrente de Carlos Paredes, capa de Jorge Mourinha, EMI- Valentim de Carvalho

UMA GUITARRA COM GENTE DENTRO

  
Rui VieiraNery chamou-lhe Príncipe.

Um Príncipe de uma humildade arrepiante.

Em 11 de Outubro de 1967, entrevistado por José Carlos Vasconcelos para o Diário de Lisboa, dizia que não havia condições para ser profissional:

O profissionalismo de quem acompanha ou dá espectáculos não é o que eu idealizo, nem me interessa. O que eu desejava era poder especializar-me, estudar o instrumento, até com intuitos pedagógicos. Isto é: desenvolver um trabalho de investigação, que está por fazer, no campo da técnica, tentando integrar a guitarra em bases que a tornassem um instrumento capaz de permitir a qualquer compositor escrever para ele.



C. B. em A Capital de 3 de Abril de 1971:

Carlos Paredes não diz quem é, não fala de si. Não tem uma história decorada onde estão cuidadosamente assinalados cada êxito, cada digressão. Não tem álbum para colocar fotografias dos locais onde trabalhou, de quando colaborou no cinema, no teatro, acompanhou a Amália ou foi entrevistado para a Televisão. Com ele só é possível falar da guitarra portuguesa, mesmo que lhe façam vinte perguntas seguidas sobre a sua vida de artista. Vive as possibilidades, as limitações da guitarra. Fala dos seus êxitos, do seu nascimento, da sua morte, mas ele, Carlos Paredes, apaga-se perante a guitarra de que fala sempre e só.

Já depois do 25 de Abril António Duarte telefona-lhe a pedir uma entrevista para o JL.

Diz-lhe:

Mas acha que eu tenho categoria para ser entrevistado pelo Jornal de Letras?


Sentado a uma velha secretária de madeira, no arquivo de películas do Hospital de S. José, onde foi reintegrado depois do 25 de Abril, após ter sido demitido de funcionário público em consequência da prisão por pertencer ao Partido Comunista Português, acabou por dar a entrevista e disse:

Quero ser considerado um pequeno músico e se me conseguir realizar como pequeno músico, sentir-me-ei extremamente satisfeito.


Nasceu a 16 de Fevereiro de 1925, em Coimbra, mas quando morreu no dia 23 de Julho de 2004, já nos deixara, em Dezembro de 1993, acometido de mielopatia, um processo degenerativo na coluna vertebral que vai afectando o sistema nervoso central.

Num texto publicado no DNA, Catarina Carvalho escreveu:

Este é um texto desonesto. Fala da vida de um homem que perdeu a coisa que mais prazer lhe dava na vida: tocar guitarra. Vive em Campo de Ourique, preso pela doença à cama de um lar. Agora ele é só dos que o tratam, dos amigos íntimos, dele próprio. Apenas um homem. Não é nosso, não é dos jornais, não é do público. Do público é o Carlos Paredes. E o Carlos Paredes é um dedilhar fervente, rápido, genial. Por isso, em vez de lerem este texto, podem ouvir os «Verdes Anos», que é a verdade.

Legenda:

- fotografia de Eduardo Gageiro do CD Uma Guitarra Com Gente Dentro, Universal Music Portugal.
-  Título do Diário de Lisboa de 11 de Outubro de 1967.

-  Carlos Paredes fotografado pela PIDE em 1958, fotografia  da revista Vida de O Independente s/d

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Os Verdes Anos, filme de Paulo Rocha, com argumento de Nuno Bragança e música de Carlos Paredes, poema de Pedro Tamen

De Os Verdes Anos, diz Jorge Silva Melo em Século Passado, memórias suas, que viu o filme no São Luiz, tinha quinze anos e nenhum outro filme  tenha rasgado mais o céu possível do que este pequeno filme juvenil, inseguro tímido e lírico de Paulo Rocha, filme feito aos vinte e cinco anos ( o Paulo nasceu em Dezembro de 1936, o filme traz a data de 1963).
Com que então, era possível? Filmar os locais que eu conhecia, filmar desencontros de amor pelo entardecer do campo grande, filmar as barracas que se construíam em cima da Avenida do Aeroporto, até perdermos a vista noutras Chelas e, agora, o parque do Rock in Rio? Filmar Floresta do Ginjal, aquela escada íngreme forrada a conchas? Filmar pessoas, como a criada eu andava pela casa dos meus pais chorando com os folhetins da rádio e aos domingos de namoro? E ver nisto, inscrever na paisagem que todos os dias eu via (a esquina do Vává…) a violência daquele final, a morte da rapariga, o rapaz que desafia a cidade?
Ele havia Salazares, a Pide era mesmo ao lado do São Luiz, a censura não estava longe, mas aquele foi um dia rasgado, puro e limpo, o dia sob a ditadura em que vi os Verdes Anos.
«É o filme que melhor dá a ver Lisboa e Portugal como espaços de frustração, espaços claustrofóbicos, sem saída, onde tudo se frustra e tudo agoniza numa morte branda», diz João Bénard da Costa, e ninguém sabe mais do que ele.
E o Paredes continua a tocar. Até ao sabugo, como o Paulo Rocha.

O Poema Possível

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.



segunda-feira, 29 de julho de 2013

A LENDA DE EL-REI SEBASTIÃO


Pelos idos de 67, o Em Órbita lançou um convite aos ouvintes para que, por escrito, enviassem ideias e que outras músicas entendiam deviam ser passadas no programa.

O prémio consistia numa visita aos estúdios da Sampaio e Pina para presenciar, in loco, a realização do programa feito por nós e dito por mim.

Por esses tempos, andava eu enredado na música brasileira, esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer, contestação para um lado, Chico Buarque para o outro, pelo meio Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano.

Esgalhei um arrazoado sobre essas músicas.

 Os rapazes gostaram e, nessa semana, mandaram-me aparecer por lá.

Lamentavelmente, perdi esse texto, batido à máquina, na minha velha Erika, que ainda está por aqui, como peça de museu.

Foi um belo pedaço de fim de tarde e até calhei num dia em que o alinhamento não tinha sido feito, os LPs foram saindo do armário colocados à papo seco, mas tudo aquilo eram grandes canções e, enquanto os discos rodavam o Cândido Mota, com aquele seu ar bem disposto, profissional de mão cheia, ia colocando os discos e mostrava-me o último relógio de pulso que adquirira para a sua larga colecção.

Como convidado, alinhei na votação dos melhores discos da semana. Tinha que escolher cinco mas, hoje, apenas me recordo de Dedicated To One I Love dos The Mamas and The Papas e o White Rabit dos Jefferson Airplane.

Disseram-me que aparecesse quando quisesse e assim foi acontecendo.

Com o João Manuel Alexandre nasceram laços de estima e consideração.

Numa das conversas com o João, veio à baila a ideia que existia na equipa para apresentar canções de artistas portuguesas, mas as dificuldades eram muitas, a maior delas a obrigatoriedade de não fugir à qualidade do programa.

Falei-lhe, então, do Adriano Correia de Oliveira, que nesse sábado iria realizar  uma sessão de canto (ainda não) livre, na Baixa da Banheira, em que também participavam o Carlos Paredes e o José Carlos de Vasconcelos.

Acertámos em ir falar com o Adriano.

Assistimos ao concerto, alinhámos no convívio no bar da Sociedade, muita conversa, uns queijinhos frescos, jarros de vinho tinto e aguardar o tempo para uma conversa serena com o Adriano.

Só que o Adriano era a imprevisibilidade em pessoa e no meio de tudo aquilo apareceu o escritor António Borga a dizer à malta que o Fernando Lopes Graça estava num fogo de campo na Costa da Caparica com o coro da Academia dos Amadores de Música e foi a debandada quase geral. O Adriano esqueceu a conversa.

Nada havia a fazer.

Eu, o João e a mulher regressámos a Lisboa no seu Carocha.

Não houve mais oportunidade de voltar ao assunto.
.
Poucas semanas depois dessa noite de sábado na Baixa da Banheira, assentei praça em Tavira.

Para ser preciso no dia 10 de Julho de 1967.

O Em Órbita não chegava à caserna do CISMI.

No dia 29 de Julho de 1967 o Em Órbita passava A Lenda de El-Rei D. Sebastião do Quarteto 1111.

Cândido Mota dixit:

É o sebastianismo colectivo que na lenda se retrata, a ideologia negativista dos que se alimentam da crença irracional em coisas, em valores, em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação.

Uma tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteira.

Temos para nós que o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua transmissão através de "Em Órbita" acarretam.

Tendo por título "A Lenda De El-Rei D. Sebastião", é escrito por um português tocado e cantado por portugueses.

Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo, focando em especial os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais.

O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros, desenfeitados.

Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país.

É um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal.

Nunca soube de como se chegou ao Quarteto 1111.

Uma coisa é certa: até hoje, não consegui digerir a escolha.

Legenda: a capa do disco aparece aqui por cortesia de Mr. Ié-Ié.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Uma em duas, duas em uma, como preferirem
Carlos Paredes já há muito nos deixou, um homem do outro mundo, José Duarte dixit
Nada passou a ser como era.
Que saudades meu amigo
Das flores do teu jardim
Eu sentada num degrau
E tu esquecido de mim
Eram flores de fim de dia
Tinham gotas de luar
Que saudades meu amigo
Do teu jardim de encantar
A TAP está em vias de selvaticamente deixar de ser nossa..
Só não se sabe quando.
Há uma boa dezena de anos, ou mais, disse-me o Hans-Martin, um amigo alemão, que de aviões e companhias de aviação percebe, que a TAP era das melhores companhias de aviação do mundo, só não disse que era a melhor porque, por difícil de validar, essas coisas não se dizem.


Por um aniversário, a TAP convidou Carlos Paredes para gravar um disco para ser distribuído pelos passageiros e feito da seguinte maneira: eu fiz dois temas dedicados exclusivamente à TAP - «Asas sobre o Mundo» e «Nas Asas do Saudade» - que depois misturei com outros já gravados,e fez-se um disco novo, um disco que eu tive o cuidado de relacionar com aspectos da vida nacional: as sua paisagens, etc.
José Duarte que o ouvia, acrescentou: é a maneira de a tua música andar a voar por aí…
Disse, então, Carlos Paredes, naquela humildade que se lhe conhecia:
Tenho muita honra e devo à TAP imensos favores. Um deles é deixar levar no avião a guitarra junto a mim, porque se fosse para o porão podia sujeitar-se a ser furada… 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI




Sempre acontece assim:

Ninguém, até hoje, me empresta tanta comoção como Carlos Paredes.

 E é vasto o meu panteão de gente de que gosto

Não apenas pela sua genialidade, o seu virtuosismo, mas também a sua coerência, a sua postura perante a vida, os ideias que cedo abraçou e nunca mais abandonou, uma modéstia arrasadora que levou um dia Amália Rodrigues a dizer que só lhe apetecia bater.

Ouvir Carlos Paredes é sentir todo um país, este que a que, volta e meia, emprestamos arremedos de amor e ódio.

Carlos Paredes era um dos clássicos do meu pai.

Foi ele que comprou todos vinis e considerava-os arrepiantes

Ficava com os olhos molhados quando ouvia “Guitarra Portuguesa” e era esse o disco que aqui eu devia colocar.

Mas será este e passo a explicar.

Uma mensagem enviada de Serajevo, o Pedro a perguntar-me se eu tinha o “Movimento Perpétuo”, na volta eu a dizer que não, já o tivera, mas o disco, emprestado que foi, pelas artes do costume, não retornou à casa pai, ele a finalizar a conversa: “comprei dois, levo-te um quando for a Lisboa.”

Está aqui.

Este lindíssimo disco do Príncipe que nos calhou em sorte, Carlos Paredes de seu nome.
Um tempo feliz, porque uma coisa é ter discos, outra coisa é esses discos serem de vinil, e só quem foi do tempo do vinil, sabe do que estou a falar.

Obrigado, Pedro!

Como isto anda tudo ligado, não fica mal colocar aqui um texto do Mário Viegas, escrito pata uma homenagem que, em 1993, o TEL fez a Carlos Paredes.

A mensagem está incluída na "Auto-Photo Biografia" de Mário Viegas:

“Conheci Carlos Paredes no Pólo Norte … Exactamente! Numa viagem “Mágica” de avião que atravessou esta bola imensa em que vivemos, a caminho do Japão, em 1970, com a Companhia do Teatro Experimental de Cascais.
Lembra-se Carlos, da nossa noite perdida no “bas-fond” de Osaka? O que nos divertimos!!!
É que Carlos Paredes é não só um músico genial como um conversador imparávelel, um homem cultíssimo, um namoradeiro incorrigível, um eterno apaixonado, o maior distraído do Globo terrestre, que atravessou sempre a vida de gravata, máscara de uma enorme humildade e violenta coragem física e crítica.
Se a “Cantiga é uma Arma”, as suas guitarras são e foram um dos maiores canhões contra o fascismo e a indignidade!
Tive a honra de viver com ele espectáculos e convívios que não me esqueço. Mas sem os querer maçar, gostava só de recordar um dos momentos mais comoventes da minha vida. O primeiro espectáculo que se fez dentro dum quartel depois do 25 de Abril, na noite de todos os nossos Primeiros de Maio. No quartel do Campo Grande, onde durante dois anos me embebedava com o horror da estupidez da tropa, como pseudo-oficial miliciano…
Sem hesitar, o Paredes aceitou ir tocar no refeitório e eu a dizer poemas, pela lª vez em Liberdade. E ao ver aquelas centenas de trabalhadores-fardados a aplaudir de pé, a chorarem, a inutilidade da Poesia e das notas de uma guitarra, tive a certeza que ainda podemos servir para alguma coisa como artistas.
Beijinhos Paredes e copiando o seu inimitável estilo, só lhe resta dizer entre o surpreendido e o desajeitado

“Oh amigo!!!”


Nota do editor: o ano da edição em vinil é 1971.
A fotografia da capa é de Augusto Cabrita.
Carlos Paredes é acompanhado por Fernando Alvim na viola e Tiago Velez na Flauta.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

MAIS QUENTE QUE JULHO


Amanhã começa Julho.
Julho seco e ventoso, trabalho sem repouso.
Em Julho ceifo o trigo e o debulho; em o vento lhe dando, o vou limpando
O 7º mês do ano. Tem 31 dias.
Durante Julho o dia diminui 37 minutos.
No dia 1 o Sol nasce às 05h 16m e o Ocaso verifica-se às 20h 05 m
No dia 31 o Sol nasce às 05h 37 m e o Ocaso verifica-se às 19h 52m
As mulheres nascidas em Julho em geral são belas, mas o seu coração perde-se frequentemente. Têm coragem, audácia, junto a um carácter vivo e vingador. São sinceras, as sua ideias são nobres e elevadas. Este mês predispõe à vida espiritual, em que o amor é a principal expressão da alma.
Os homens nascidos em Julho são activos, orgulhosos e valentes, generosos, boas maneiras e boa figura. São amáveis e serviçais, agradam bastante às mulheres. De espírito elevado, gostam de harmonia. Vencem habitualmente na vida.
Os nativos de caranguejo são de temperamento alegre e humilde. Pouco amigos de amealhar, as compras uma tentação. No amor o secretismo prevalece.
Incensos: Alfazema e violeta
Pedra: Turquesa
Metal: Prata
Cor: Prateada
Na horta semeiam-se cenouras, alfaces, agriões, espinafres, ervilhas, rabanetes e salsa. Terminar a colheita da batata temporã. No final do mês aipos e melões.
No jardim semear amores-perfeitos, semeiam-se também, para serem transplantadas e dispostas no Outono, as plantas bienais e vivazes de demorada germinação.
Por um 23 de Julho de 2007 morria o guitarrista e compositor Carlos Paredes.
“Daqui a uns anos ninguém ouve a minha guitarra…”, disse em Outubro de 1983.
Há que fazer tudo para que não se cumpram as palavras de Carlos Paredes.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A NOITE


A Noite

José Saramago
Capa: José Araújo
Editorial Caminho, Lisboa, Março de 1979

A Noite constitui a estreia de José Saramago no teatro.

 Como pude eu escrever uma peça? Aí está uma questão para que ainda não fui capaz de encontrar resposta e que eventualmente a crítica repetirá, não já em todos os tons, mas naqueles só que exprimam decepção, azedume, contrariedade vária ou ironia.”

- de uma entrevista ao semanário Sete, 16 de Maio de 1979.

É o primeiro livro de José Saramago publicado pela Editorial Caminho.

José Saramago escreveu A Noite para Luzia Maria Martins, que dirigia a Companhia Teatro Estúdio de Lisboa, sedeada no Teatro Vasco Santana, na antiga Feira Popular, em Entrecampos.

O livro é, por isso, dedicado a Luzia Maria Martins, que me achou capaz de escrever uma peça.

Na dedicatória também aparece Isabel da Nóbrega, nome que será constante em todos os livros que Saramago publicará.

Quando Saramago conhece Pilar del Rio, o nome de Isabel da Nóbrega deixa de aparecer nas dedicatórias.

Possivelmente, por falta de apoios financeiros, Luzia Maria Martins não conseguiu avançar com o projecto. 

Será Joaquim Benite, com a Companhia do Teatro de Campolide, que em Junho de 1979, no Teatro da Academia Almadense,a levará à cena .

Escreve José Saramago na contra capa do livro:

A noite de que neste livro se fala é a de 24 para 25 de Abril de 1974. Aqui se diz algum pouco do que aconteceu ou podia ter acontecido por trás das janelas iluminadas das redacções e das tipografias, enquanto na rua o regime fascista principiava a cair. Entram jornalistas de alto e baixo, tipógrafos, o director de uns, o administrador de todos. Não há retratos, mas talvez se encontrem retratos. Tal como na vida dos dias todos, uma gente é boa, outra ruim, outra não sabe o que seja nem sabe o que é. Estes são firmes, aqueles são fracos provavelmente porque nunca se lhes pediu a humana ousadia de o não serem. Não será uma história verdadeira, mas é, com certeza, uma história sem mentira.

Cenário da autoria de António Alfredo e direcção musical de Carlos Paredes.


Joaquim Benite, sobre a encenação:


António Alfredo inventou um cenário que ocupava todo o teatro e que ligava o balcão (lugar imaginário da tipografia) ao palco (a redacção), através de um passadiço suspenso por fios de aço – lembrança dos meus tempos de “A República”, que inspiraram, de resto, também o gabinete do director, dominando a redacção, idêntico ao que o velho Artur Inês (quem é que se lembra dele?...) ocupava no jornal da Rua da Misericórdia.

sábado, 12 de junho de 2010

BOLAS PR'O PINHAL!

Se este povo vivesse o País como vive o futebol, outro galo, há muito estaria a cantar, dizia o outro.
Que se deixou cair que o futebol tenha apanhado?

“Obrigado, futebol, por tudo o que nos deste, pelo vinho e pela cicuta (e pelo esquecimento). Obrigado pelos dias desordenados e pelas noites transbordantes, obrigado pelas lágrimas e pelo riso, pelo oiro e pela tempestade, obrigado pelo escândalo ruidoso da alegria (…)
Agora que partiste, voltaram eles, saídos da sombra, os dos discursos, os das promessas, os economistas, os usurários(…)
Agora ligamos a TV e temos apenas motivos de dor e de vergonha. Sophia morreu, Maria de Lourdes Pintasilgo morreu, Carlos Paredes morreu. Restam aqueles homens hirtos, de fatos às riscas, e aquelas mulheres prosaicas, de risos afectados, tresandando a
eau de parfum, repartindo atabalhoadamente títulos e pastas governamentais como os soldados romanos a túnica de Cristo.”
Manuel António Pina, “Visão”, Julho de 2004

“Naqueles pastéis televisivos que tivemos de aturar durante o Mundial, a recepção aos nossos heróis foi um dos pontos altos. Lá estava o povo televisivo com a moleirinha ao sol. O povo televisivo não tem nada a ver com o povo. Foi especialmente criado para o “prime time”. Está em todos os grandes acontecimentos, recepções, festejos e julgamentos. É uma espécie de Lili Caneças colectiva. E é bipolar: ou está indignado ou está comovido. Na SIC, um senhor fez coisa rara e juntou os dois estados de alma: “Queria agradecer ao “miste”r Scolari por ter conseguido o que os políticos não conseguem: unir os portugueses.”
Fernando Madrinha, “Expresso”, Julho 2006

sexta-feira, 2 de abril de 2010

CARLOS PAREDES É NOME DE GUITARRA

CARLOS PAREDES GUITARRA PORTUGUESA
COLUMBIA SPMX 5002
Editado em 1967
Acompanhamento à viola de Pedro Alvim
Fotografia de Augusto Cabrita

Tinham palavras as músicas, havia poemas recitados e havia música sem palavras.

A música de Carlos Paredes, este LP de capa preta, a acompanhar os dias a caminho de um tal Abril.

Lado 1
Variações em Ré Maior – Porto Santo – Fantasia – Melodia Nº 2 – Dança – Canção Verdes Anos
Lado 2
Divertimento - Romance Nº 1 – Romance Nº 2 – Pantomina – Melodia Nº 1

Ouvir Carlos Paredes é voltar sempre aos verdes anos, àquele mudar de vida. Sentir a ofegante respiração em cada espira dos seus discos, um respirar de dignidade, de carácter, de génio, um corpo dobrado sobre uma guitarra.
“Gosto demasiado da música para viver às custas dela.”, disse, um dia, com aquela desconcertante simplicidade que o acompanhava a todas as horas.
Rui Vieira Nery chamou-lhe “um príncipe”.

Dele disse José Saramago:

“Não o pensava antes, quando escutava a guitarra de Carlos Paredes, mas hoje, recordando-a, compreendo que aquela música era feita de alvoradas, canto de pássaros anunciando o sol. Ainda tivemos de esperar uma década antes que outra madrugada viesse abrir-se para a liberdade, mas o inesquecível tema de Verdes Anos, esse cantar de extática alegria que ao mesmo tempo se entretece em harpejos de uma surda e irreprimível melancolia, tornou-se para nós numa espécie de oração laica, um toque a reunir de esperanças e vontades. Já seria muito, mas ainda não era tudo. O resto que ainda faltava conhecer era o homem de dedos geniais, o homem que nos mostrava como podia ser belo e robusto o som de uma guitarra, e que era, a par de músico e intérprete excepcional, um exemplo extraordinário de simplicidade e grandeza de
carácter. A Carlos Paredes não era preciso pedir que nos franqueasse as portas do seu coração. 

Estavam sempre abertas.”

“Canção Verdes Anos”, que Carlos Paredes escreveu para o filme de Paulo Rocha “Os Verdes Anos” (1963) tem poema de Pedro Tamem:

Era o amor
Que chegava e partia
Estarmos os dois
Era um calor, que arrefece
Sem antes nem depois

Era um segredo
Sem ninguém para ouvir
Eram enganos e era um medo
A morte a rir
Dos nossos verdes anos

Foi o tempo que secou
A flor que ainda não era
Como o outono chegou
No lugar da primavera

No nosso sangue corria
Um vento de sermos sós
Nascia a noite e era dia
E o dia acabava em nós