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quinta-feira, 16 de abril de 2026

OLHAR AS CAPAS


 

No Vértice da Noite

Adalberto Alves

Ilustrações: Figueiredo Sobral

Capa: Luís Nazaré Gomes

Argusnauta, Lisboa, Novembro de 2007


Movimento Perpétuo

            À memória do Carlos Paredes

há dedos, garras enclavinhadas

nos corações na penumbra

e assim podem sangras melancolia

 

amarinham sobre silêncios

e escamam a melodia

numa costa perdida

onde é febre à noite

 

quem guia a incontinência dos dedos?

quem doma a fúria do ranger?

só o silêncio o sabe

porque é música a dormir

 

a pausa essa é apenas um sinal

inscrito há face da partitura.

no ser nada repousa

e freme a luz que é pura.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

VELHOS RECORTES


Foi diversa, difícil, dura, a luta de muitos de nós contra a ditadura de Salazar/Caetano.

Este recorte é da revista Seara Nova nº 1458 de Abril de 1967.

Sempre a margem esquerda: Almada, Baixa da Banheira, Seixal, Cova da Piedade.

Por ocasião do 74º aniversário da Cooperativa Piedense, diversas iniciativas registavam a efeméride e sempre a cultura. «Não há machado que corte a raiz ao pensamento», como escreveu o poeta Carlos de Oliveira e que Manuel Freire fez música e deu canção.

Além de um sarau consagrado à música popular portuguesa, apresentava-se o Coro da Academia de Amadores de Música, sob a direcção de Fernando Lopes-Graça e também poesia e música com Carlos Paredes, José Carlos de Vasconcelos, Adriano Correia de Oliveira.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Esta é a semana em que Abril faz 51 anos.

A Música pela Manhã acompanhará algumas das canções, dos acontecimentos, que marcaram aquela madrugada que esperávamos.

A velha história: todos os começos são difíceis.

Mas poderemos começar com aquela noite de 29 de Março de 1974, no velho Coliseu dos Recreios a escassos 28 dias de passarmos a ser livres.

Pegamos em O Cinéfilo nº 27, datado de 6 de Abril de 1974.

Macário Contumélias, a quem foi dado reportar o acontecimento, escreveu assim:

«A coisa chamava-se – chamou-se o I Encontro da Canção. Estavam marcados para se encontrar com a malta o Quarteto de Marcos Resende, o duo Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo, Manuel José Soares, Carlos Paredes (com Fernando Alvim); o conjunto espanhol Vino Tinto, que a televisão já vira; Pablo Guerreiro; Ary dos Santos; José Barata Moura; Manuel Freire; Fernando Tordo; José Jorge Letria; o conjunto Intróito; Adriano Correia de Oliveira; José Afonso; Ruy Mingas e Paulo de Carvalho; cá por mim fui lá, por dever de ofício, a contar com uma grande estopada. Não que, de um modo geral, eu estivesse com dúvidas sobre a importância da maioria dos convidados no contexto da nova canção portuguesa (embora não percebesse muito bem o que iriam lá fazer dois ou três dos que eram para – e acabaram por estar e não – estar presentes. Nada disso. O que eu temia era que, no meio da confusão, a coisa resultasse numa pepineira intragável. Mas fui! E agora que aquilo já passou, há uns dias largos, ainda guardo em mim uma grande emoção. Fosse lá porque fosse, naquela noite, no Coliseu, senti-me. E isso não nos acontece todos os dias. Isso é importante!»
Para cima de cinco mil encheram por completo o Coliseu dos Recreios em Lisboa e assistiram a algo que lhes marcou as vidas.

Tinha acontecido o 16 de Março, a confusão instalada, alguns a dizerem dizer que estava para breve, muitos, tantas vezes esperançados e depois frustrados a não acreditarem.

Naquela noite de emoções várias, passadas as portas do Coliseu, poderíamos pensar que talvez se aproximasse, assim como o poeta dissera à rapariga, o tal dia em que a Primavera se soltaria no País de Abril.

Assim foi.

De uma vez só, ficámos a saber que o acto de cantar é um acto que responsabiliza a pessoa que canta e as que o escutam.


Vou assinalar três passos da reportagem do Mário Contumélias:

1.

«Carlos Paredes Guitarra foi recebido com gritos isolados de «Tira a gravata, pá». Mas veio a música, e aquela sim, não era comercial, ou por outra, aquela era para ouvir com todo o corpo.

Os Verdes Anos foram impostos pelo público, muito mais maduro do que se pensaria.



2. 

E entrou, /De pé como um poeta ou um cavalo/, José Carlos Ary dos Santos. Entrou no palco entre assobios e aplausos. Pense eu o que pensar do Ary, como poeta ou declamador, a verdade é que ele tem muita força (aquela força que havia de faltar a Fernando Tordo). Eu venho cá dizer. Se não gostarem manifestem-se no fim.

E a malta manifestou-se. Aplaudindo o Soneto Presente. Com dois poemas, Zé Carlos, face à insistência do público, diz um terceiro, o Retrato de Alves Redol.



3.

«Quando, depois de Adriano acabar de cantar, José Afonso se aproximou do microfone, as palmas rebentaram. Venho aqui cantar uma canção, a GRÂNDOLA, disse Zeca.

Cerraram-se as luzes, e toda a sla, todos os 5 mil, de pé, entoaram em coro os versos da canção. Braços dados, corpos balanceando, pés, batendo no chão.

Quando o Zeca acabou, o público ficou lá, erguido ainda, nos camarotes, na galeria, na plateia, na geral, em todo o lado onde cabia mais um.»

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


Há dias, neste Cais, poderia encontrar-se o lamento de que as livrarias vão desaparecendo por Lisboa, também a ideia de fazer um roteiro de algumas livrarias, quando as havia.

Porém na Internet podemos ir encontrando sites que vendem livros.

Um bem interessante e de confiança é a Frenesi Loja:

Mais de 5.500 obras disponíveis no catálogo.

Vou lá regularmente e hoje copio as referências que a Frenesi faz ao livro que reúne as peças de teatro A Guerra Santa e A Estátua:

«Livro apreendido pela polícia política do Estado Novo em circunstâncias particularmente vergonhosas, dando origem ao encerramento da casa editora, que, depois de ver as instalações seladas, acabou com as caves-armazém criminosamente inundadas. Sttau Monteiro será preso, paga do regime pela sátira à ditadura e à guerra colonial. A imprensa, a 7 de Dezembro de 1966, transcreveu o comunicado do governo com a versão oficial para o referido “encerramento”:

«Do S. N. I. recebemos a seguinte informação:

“Foi mandada aplicar á Editorial Minotauro a pena de encerramento definitivo, prevista no art.º 3.º do Decreto-Lei n.º 33015, de 30 de Agosto de 1943.

Esta pena foi aplicada àquela empresa por ter editado um volume com graves implicações prejudiciais á defesa dos fins superiores do Estado e nomeadamente ofensivo do prestígio das Forças Armadas, que neste momento se batem, numa guerra que nos é imposta, em defesa da integridade nacional.”».

1.

«Resumindo e concluindo: Portugal é mesmo um país especial e indescritível, dos poucos onde dois partidos gémeos, o PS e o PSD, governam à vez e fingem odiar-se, apesar de frequentarem os mesmos restaurantes, as mesmas igrejas, as mesmas organizações secretas, as mesmas praias, e terem entre os seus quadros todo o tipo de gente, desde corruptos a ladrões, malucos, pervertidos, bêbados, esotéricos e desavergonhados. E imagino que seja assim na Iniciativa Liberal, no Livre, no PAN, no PCP… No jornalismo é a mesma coisa: há de tudo, como na farmácia.»

Pedro Garcias de uma crónica no «Público» de 14 de Fevereiro de 2025

2.

No final de Janeiro deste ano, mais de 1,5 milhões de utentes continuavam sem ter um médico de família atribuído. Um número em linha com os valores registados no final do ano passado e com os de final de Março desse ano - o Governo tomou posse a 2 de Abril. Na altura, o objectivo enunciado pelo executivo é dar uma resposta de saúde familiar a todos os portugueses até ao final deste ano.

3.

No dia em que Carlos Paredes nasceu há 100 anos, o Público publicou um excelente trabalho sobre o príncipe da guitarra portuguesa designado por Três Músicos escrevem sobre Carlos Paredes:

Um leitor deixou este comentário:

«Parabéns ao jornal Público, pelo serviço cívico, cultural e artístico, que presta, ao dedicar espaço, tempo e esforço a divulgar o legado de Carlos Paredes. Permito-me, com a devida vénia, complementar o testemunho de Manuel Fúria, com algumas ideias, que espero serem úteis para o debate, que se pretende plural e tudo menos unânime, consensual e, por isso, vazio de substância. Vinte anos depois da morte de Paredes (em 2004), num mundo em que a política dita um rosário de casos de corrupção, de escândalos éticos, económicos, de guerra selvagem e de gente desiquilibrada e megalómana (Trump e Musk são apenas os mais evidentes), relembrar o legado, a simples existência, de um homem simples, humilde, generoso e elegante como Paredes constitui um bálsamo para a alma. Haja esperança e alegria.»

4.

59% dos professores já se sentiram vítimas de bullying e 10% dos professores dizem já ter sofrido agressões físicas, principalmente de alunos, mas também de pais.

 5.

Nas empresas de restauração e similares os imigrantes são já mais de 30% do total de trabalhadores.

6.

Um em cada cinco portugueses reforma-se antecipadamente e em 2024 verificaram-se cinco despedimentos de grávidas por dia, um significativo aumento face a anos anteriores.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Não são dedos:

são lágrimas.

Não são cordas:

são fios de saudade.

Não é um país: é um coração

que soletra lágrimas

na saudade que temos de nós mesmos.


Mia Couto

VELHOS RECORTES

 

MÚSICA PELA MANHÃ


 De Os Verdes Anos, filme de Paulo Rocha, com argumento de Nuno Bragança e música de Carlos Paredes, poema de Pedro Tamen, diz Jorge Silva Melo em Século Passado, memórias suas, que viu o filme no São Luiz, tinha quinze anos e nenhum outro filme  «tenha rasgado mais o céu possível do que este pequeno filme juvenil, inseguro tímido e lírico de Paulo Rocha, filme feito aos vinte e cinco anos (o Paulo nasceu em Dezembro de 1936, o filme traz a data de 1963).

Com que então, era possível? Filmar os locais que eu conhecia, filmar desencontros de amor pelo entardecer do campo grande, filmar as barracas que se construíam em cima da Avenida do Aeroporto, até perdermos a vista noutras Chelas e, agora, o parque do Rock in Rio? Filmar Floresta do Ginjal, aquela escada íngreme forrada a conchas? Filmar pessoas, como a criada eu andava pela casa dos meus pais chorando com os folhetins da rádio e aos domingos de namoro? E ver nisto, inscrever na paisagem que todos os dias eu via (a esquina do Vává…) a violência daquele final, a morte da rapariga, o rapaz que desafia a cidade?

Ele havia Salazares, a Pide era mesmo ao lado do São Luiz, a censura não estava longe, mas aquele foi um dia rasgado, puro e limpo, o dia sob a ditadura em que vi os Verdes Anos.

«É o filme que melhor dá a ver Lisboa e Portugal como espaços de frustração, espaços claustrofóbicos, sem saída, onde tudo se frustra e tudo agoniza numa morte branda», diz João Bénard da Costa, e ninguém sabe mais do que ele.

E o Paredes continua a tocar. Até ao sabugo, como o Paulo Rocha.

O Poema Possível

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.

(Pedro Tamem)




OLHAR AS CAPAS


Movimentos Perpétuos

Textos para Carlos Paredes de diversos autores

Capa: Rui Garrido

Editorial Público, Lisboa, Novembro de 2003

Homem de uma generosidade ilimitada e de uma simplicidade proverbial, soube sempre que o melhor que há em nós precisa apenas de autenticidade para chegar aos outros. E nós também soubemos sempre que a simplicidade de Paredes é inseparável da sua grandeza e do seu génio. 

sexta-feira, 29 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

             Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


O que acima se vê, é um pormenor da 1ª página do semanário Cinéfilo nº 27, da semana 6-12 de Abril de 1974.

Ainda não se tinham apagado todos os sons, todos os sentimentos do espectáculo de Patxi Andión no Coliseu, e a 29 de Março realizava-se o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da Imprensa, que entendera substituir a habitual “Grande Noite do Fado”,e à reportagem-crítica desse espectáculo, a rapaziada do Cinéfilo, colocava em título: EM BUSCA DA FESTA!

Que festa?

José Saramago já, anos antes, 1966, anunciava que, num qualquer dia  chegaria o DIA DAS SURPRESAS.

Entre outros participaram na festa: Carlos Paredes, José Carlos Ary dos Santos, José BarataMoura, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Manuel Freire, Fernando Tordo, Fausto, Vitorino.

O crítico e radialista Mário Contumélias estava encarregado de contar aos leitores cinéfilos, o que nessa noite iria acontecer na velha sala das portas de Santo Antão e para ele mesmo dissera que aquilo talvez redundasse numa «pepineira intragável», mas fecha a abertura do texto deste modo:

«E agora que aquilo já passou, há uns dias largos, ainda guardo em mim uma grande emoção, Fosse lá porque fosse, naquela noite no Coliseu, senti-me. E isso não nos acontece todos os dias. Isso é importante!»

Dois pormenores da reportagem:

«E entrou José Carlos Ary dos Santos. Entrou no palco entre assobios e aplausos. Pense eu o que pensar do Ary como poeta ou como declamador, a verdade é que ele tem muita força. Eu venho cá dizer poesia. Se não gostarem manifestem-se no fim.

E a malta manifestou-se. Aplaudindo o Soneto Presente. Com dois poemas, Zé Carlos, face à insistência do público, diz um terceiro, o Retrato de Alves Redol.»

«Quando, depois do Adriano acabar de cantar, José Afonso se aproximou do microfone, as palmas rebentaram.

Venho aqui cantar uma canção GRÂNDOLA, disse Zeca.

Cerraram-se as luzes, e toda a sala, todos os 5 mil, de pé entoaram em coro os versos da canção. Braços dados, corpos balanceando, pés batendo no chão.

Quando o Zeca acabou, o público ficou lá, erguido ainda, nos camarotes, na galeria, na plateia, na geral, em todo o lado onde cabia mais um.»

Naquela noite, sob forte vigilância policial e pidesca, mais de cinco mil pessoas, entoaram espontaneamente, Grândola, Vila Morena, ironicamente uma das duas canções que a censura permitiu que, nessa noite, José Afonso cantasse. A outra seria Milho Verde,
mas «Grândola», canção de José Afonso, (incluída em Cantigas do Maio , de 1971, e interpretada pela primeira vez ao vivo em Santiago de Compostela, na Galiza ) posteriormente, escolhida pelos militares do MFA como segunda senha de arranque da Revolução dos Cravos.

 Não há machado que corte a raiz ao pensamento, um entusiasmo delirante e o espectáculo a encerrar com todos os artistas participantes a cantarem, com toda a sala de pé, braços dados, Grândola Vila Morena, ao ponto de Regina Louro escrever na Flama de 12 de Abril: “Até as luzes de gala se acenderam, para esse espectáculo-participação”.

Aquela noite fazia já antever o que, uma vintena de dias depois, veio a acontecer: o consumar do grito do poeta à rapariga, para que ela não esquecesse que um dia iriam soltar a Primavera no País de Abril, o microfone que falaria numa noite às 4 e tal… a madrugada donde um país emergiu da noite e do silêncio.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

OLHAR AS CAPAS


Retrovisor

Nuno Galopim

Assírio & Alvim, Lisboa,  Maio de 2006

Há ainda em Campolide um tema instrumental da banda sonora de Le Soleil en Face e que representa a primeira vez que Sérgio Godinho compôs para guitarra portuguesa, sempre com a memória de Carlos Paredes a assaltá-lo: «Inspirei-me assumidamente no seu fraseado – aliás na minha memória do seu fraseado… Foi uma homenagem íntima ao seu génio e a tudo o que ele me deu. Cheguei a pensar pôr-lhe uma letra, mas não faria sentido».

domingo, 23 de abril de 2023

OUTROS QUOTIDIANOS


 Aquando da morte de Joaquim Pessoa, em buscas na net, encontrei no blogue «Ié-Ié» esta curiosa história que, aparentemente, deverá marcar o aparecimento público de Joaquim Pessoa:

«O Trio Araripa, de que falou no post do Paulo de Carvalho, fez-lhe recordar uma velha história.

No século passado, fez parte de uma lista candidata à Direcção do Sindicato dos Trabalhadores de Terra da Marinha Mercante, Aeronavegação e Pesca.

Escolhido para Presidente da Mesa da Assembleia Geral encontrava-se Luiz Villas-Boas que entendeu que se deveria encerrar a campanha eleitoral com um convívio musical.

Ele trataria de tudo.

Numa tarde de domingo conseguiu juntar na “Guilherme Cossoul”, José Carlos Ary dos Santos, Carlos Paredes, Fernando Tordo e o Trio Araripa.

Segundo Villas-Boas, o Trio Araripa fazia ali a sua estreia e era constituído por José Eduardo, Emílio e João. Navegavam, principalmente, na área jazzistica.

Ary dos Santos, pela primeira vez, recitaria, “Bandeira Comunista”.

Uma figura tímida, praticamente desconhecida, que não estava no programa, e que também recitou poemas. Tratava-se do Joaquim Pessoa.

O convívio acabou no bar da “Guilherme Cossoul” e não pode esquecer essa força da natureza que era Ary dos Santos. Acompanhava lulas recheadas com “gin-tonic” e pelo meio recitava poemas e contava histórias deliciosas.

Tempo, agora, para uma chapelada a esse extraordinário Vilas, outra força da natureza, que nos deixou em 1999, um companheiro bem-humorado, com uma cultura musical, simplesmente de arrasar.

Não tem qualquer tipo de dúvidas em afirmar que a História do Jazz em Portugal está balizada com um “antes de Villas-Boas”e um “depois de Villas-Boas”. »

terça-feira, 19 de abril de 2022

QUE NUNCA MAIS


ORFEU – STAT 033

LADO A

Tejo Que Levas As Águas - O Senhor Gerente - As Balas - No Vale Escuro - Tu E Eu Meu Amor

LADO B

 Recado A Helena - Dona Abastança - Cantiga De Montemaior - P'ra Frente

Letras de Manuel da Fonseca, músicas de Adriano Correia de Oliveira.


Arranjos e direcção musical de Fausto.

Participação musical de Fausto, Júlio Pereira, José Luís Simões e Carlos Paredes

Capa: Maria Keil

Este é o primeiro trabalho de Adriano no Portugal que se queria novo.

Segundo Nuno Pacheco, o álbum estava para sair antes do 25 de Abril mas, devido à recusa de Adriano em submeter as letras à comissão de censura, acabou por ser adiado.

domingo, 2 de maio de 2021

OLHAR AS CAPAS


Auto-photo Biografia (não autorizada) de (António) Mário Viegas

Mário Viegas

Capa: António Carvalho

Edição (fac-similada): Câmara Municipal de Cascais segundo original cedido pela

Família

Cascais, Maio de 2003

«Conheci Carlos Paredes no Pólo Norte … Exactamente! Numa viagem “Mágica” de avião que atravessou esta bola imensa em que vivemos, a caminho do Japão, em 1970, com a Companhia do Teatro Experimental de Cascais.

Lembra-se Carlos, da nossa noite perdida no “bas-fond” de Osaka? O que nos divertimos!!!

É que Carlos Paredes é não só um músico genial como um conversador imparávelel, um homem cultíssimo, um namoradeiro incorrigível, um eterno apaixonado, o maior distraído do Globo terrestre, que atravessou sempre a vida de gravata, máscara de uma enorme humildade e violenta coragem física e crítica.

Se a “Cantiga é uma Arma”, as suas guitarras são e foram um dos maiores canhões contra o fascismo e a indignidade!

Tive a honra de viver com ele espectáculos e convívios que não me esqueço. Mas sem os querer maçar, gostava só de recordar um dos momentos mais comoventes da minha vida. O primeiro espectáculo que se fez dentro dum quartel depois do 25 de Abril, na noite de todos os nossos Primeiros de Maio. No quartel do Campo Grande, onde durante dois anos me embebedava com o horror da estupidez da tropa, como pseudo-oficial miliciano…

Sem hesitar, o Paredes aceitou ir tocar no refeitório e eu a dizer poemas, pela lª vez em Liberdade. E ao ver aquelas centenas de trabalhadores-fardados a aplaudir de pé, a chorarem, a inutilidade da Poesia e das notas de uma guitarra, tive a certeza que ainda podemos servir para alguma coisa como artistas.

Beijinhos Paredes e copiando o seu inimitável estilo, só lhe resta dizer entre o surpreendido e o desajeitado

“Oh amigo!!!»

13/11/93

(Mensagem lida pelo actor João Vasco, numa homenagem em 1993, no TEL, ao Carlos Paredes)

domingo, 12 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS



Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE…

Uma em duas, duas em uma, como preferirem.

Carlos Paredes já há muito nos deixou, um homem do outro mundo, José Duarte dixit.

Nada passou a ser como era.

«Que saudades meu amigo
Das flores do teu jardim
Eu sentada num degrau
E tu esquecido de mim
Eram flores de fim de dia
Tinham gotas de luar
Que saudades meu amigo
Do teu jardim de encantar»

Y.K. Centeno

A TAP está em vias de, selvaticamente, deixar de ser nossa.

Só não se sabe quando.

Há uma boa dezena de anos, ou mais, disse-me o Hans-Martin, um amigo alemão, que de aviões e companhias de aviação percebe, que a TAP era das melhores companhias de aviação do mundo, só não disse que era a melhor porque, por difícil de validar, essas coisas não se dizem.


Por um aniversário, a TAP convidou Carlos Paredes para gravar um disco para ser distribuído pelos passageiros e feito da seguinte maneira: eu fiz dois temas dedicados exclusivamente à TAP - «Asas sobre o Mundo» e «Nas Asas do Saudade» - que depois misturei com outros já gravados, e fez-se um disco novo, um disco que eu tive o cuidado de relacionar com aspectos da vida nacional: as sua paisagens, etc.

José Duarte que o ouvia, acrescentou: «é a maneira de a tua música andar a voar por aí… »
Disse, então, Carlos Paredes, naquela humildade que se lhe conhecia:

«Tenho muita honra e devo à TAP imensos favores. Um deles é deixar levar no avião a guitarra junto a mim, porque se fosse para o porão podia sujeitar-se a ser furada…»


Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2013.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

DE UMA HUMILDADE ARREPIANTE


Li não sei onde – antes tudo o que lia, a memória registava, agora é o que se vê! -  que o começo dos Dead Combo aconteceu no dia em que responderam ao desafio para comporem uma música para um  tributo a Carlos Paredes.

Num daqueles muitos dias em que Vergílio Ferreira era invadido pela desolação, houve um em que colocou no gira-discos um disco de Carlos Paredes para que pudesse sentir a áspera melancolia que o dilacerava não sabia onde.

Se ainda andasse junto a nós, Carlos Paredes teria feito, ontem, 95 anos.

Esse prodigioso príncipe que tocou a genialidade, mas era de uma humildade arrepiante.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

RELACIONADOS


De entre os temas que Carlos Paredes escreveu para peças de teatro e filmes, encontra-se António Marinheiro de Bernardo Santareno.

Esse tema faz parte do álbum Movimento Perpétuo.

É sempre tão estimulante, tão bonito, tão inebriante voltar a Carlos Paredes, «talvez esta mão que se desgarra(com garra com garra)esta mão que nos busca e nos agarra e nos rasga e nos lavra com seu fio de mágoa e cimitarra.», como escreveu Manuel Alegre.

Rui VieiraNery chamou-lhe Príncipe.

Um Príncipe de uma humildade arrepiante.

«Em 1958, é preso pela PIDE por fazer oposição a Salazar, é acusado de pertencer ao Partido Comunista Português, do qual era de facto militante, sendo libertado no final de 1959 e expulso da função pública na sequência de julgamento. Durante este tempo andava de um lado para o outro da cela fingindo tocar música, o que levou os companheiros de prisão a pensar que estaria louco - de facto, o que ele estava a fazer, era compor músicas na sua cabeça.» 

sábado, 14 de julho de 2018

AS CORDAS DE PAREDES


Nesta cidade sem música
o homem da guitarra gritava o seu segredo
com as mãos em desalinho.

Cristais de crispação
jorravam de uma lua baça
ou quentes do forno da madeira
do linho.

Aí vai a minha vida.
E o homem vergado sobre si, enrolado e mudo,
bordava-se nas suas cordas de aço
macias de suor e livres
do fracasso.

Nesta cidade de ventre abandonado ao vento
mais perverso
ele é uma raiz, uma toalha de água
leve tremor de pálpebras
que retine feliz
no rosto da nossa mágoa.

Colhemos a sonora fruta
que ele deixa tombar das mãos.
E como um rapazinho amedrontado
o homem da guitarra
ainda está aí
à espera de nós, da voz,
de outra cidade.
Talvez de outros irmãos.

Armando Silva Carvalho em Lisboas

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

PANCADAS DE MOLIÉRE




Crítica, assinada por Manuel de Azevedo, publicada no Diário de Lisboa de 2 de Fevereiro de 1965, à peça O Render dos Heróis de José Cardoso Pires e representada pelo Teatro Moderno de Lisboa.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

CAFÉS FUMARENTOS


A música de Carlos Paredes, como a de Astor Piazzola, suscita imagens de ruas lavadas pela chuva e de cafés fumarentos.


Legenda: pintura de Karen Offutt

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

FERNANDO ALVIM (1934-2015)


 Com 80 anos, morreu Fernando Alvim.
Se a guitarra de Carlos Paredes tinha aquele som inigualável a viola de Fernando Alvim tem o seu importante dedilhar.
Foram companheiros durante 25 anos.
Um homem sóbrio, competente.
 Nunca o vimos em bicos de pés e sempre longe dos holofotes.
Gostava de música, sabia da importância dos seus acompanhamentos e era isso que lhe marcava a vida e a carreira.
Faz parte daqueles homens admiráveis que não se dá por eles, mas estão no sítio certo e tornam as coisas mais fáceis e bonitas.

Legenda: pormenor da capa de Movimento Perpétuo.