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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

CONVERSANDO


 Morrer de amor como o King Kong, escreveu o Eduardo Guerra Carneiro.

Pode-se morrer de qualquer coisa.

O Pedro Oom morreu de felicidade.

Uma pequena notícia na última página dos jornais de 27 de Abril de 1974, dizia-nos que, na véspera, fulminado por um ataque cardíaco, morreu o poeta Pedro Oom. Não resistiu à emoção de ver a ditadura cair. Tinha 47 anos, um pouco menos que o regime deposto.

Ao entrar no “13” restaurante no Bairro Alto, onde habitualmente se encontrava com os amigo, abriu os olhos, escancarou o sorriso e caiu fulminado em cima do seu amigo e editor Victor Silva Tavares. “Não tinha o pulmão preparado para a corrente de ar provocada pela liberdade”, explicou o editor da “& Etc”, num programa evocativo transmitidoo há alguns anos pelo Canal 2 da RTP.

Conotado com o Surrealismo escreveu, nos anos 40, sobre o Estado Novo: “Até onde pode chegar um homem desesperado quando o ar é um vómito e nós seres abjectos.”.

Em 1980 a “& Etc.” publicou a dispersa obra de Pedro Oom no livro “Actuação Escrita”.

No entanto, no livro Coisas, publicado pela &etc., são reunidas algumas história de Pedro Oom. Como esta:

                      UM TOSTÃO PARA O ENSINO

«Num pequeno país atrasado e pobre o Primeiro-Ministro preocupava-se muito com a ignorância do seu povo.
A percentagem de iletrados era tal que não se descortinava maneira de arrancar do estado de subdesenvolvimento para a fase industrial a que o país necessitava chegar.
O Primeiro-Ministro reuniu os melhores pedagogos do país que elaboraram um pequeno livro de bolso, a que chamaram a “Cartilha Paternal”, onde se resumia em frases simples toda a Ciência existente.»
A “Cartilha Paternal” foi distribuída gratuitamente a todo o Povo, o qual lhe deu a serventia que estava habituado a dar a tudo o que fosse papel, liso ou impresso.”

terça-feira, 15 de julho de 2025

VELHOS RECORTES


O Notícias da Amadora, juntamente com o Jornal do Fundão, e o Comércio do Funchal, foram bastiões regionais contra a ditadura que caiu a 25 de Abril de 1974

O semanário publicou-se desde 25 de Outubro de 1958 até Dezembro de 2006.

A censura nunca o deitou abaixo, o que levou ao seu fim foi a crise económica que tem vindo a destruir a imprensa escrita.

A censura sempre foi implacável com o semanário.

Em 2001 foram publicados diversos suplementos em que se  mostrava o quanto a censura invadiu as prosas que se queriam publicadas e amiúde eram cortadas, parcial ou totalmente.

Um extraordinário e importante espólio que pode ser consultado na Torre do Tombo.

Hoje, publicanos um artigo de Vitor Silva Tavares, totalmente cortado pela censura:

sábado, 10 de agosto de 2024

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


O de hoje, será um estranho Itinerário do Eduardo.

Mil e Outras Noites é uma antologia poética do Eduardo Guerra Carneiro, publicado em Maio de 2018, pela Língua Morta, com selecção de Miguel Filipe Mochila, prefácio e posfácio de Vitor Silva Tavares.

Um bonito livro de um dos bons poetas e jornalistas deste país.

Fizeranm-se 300 exemplares!

Quantos foram vendidos?

A abrir o livro, esta nota:

«Eduardo Guerra Carneiro (Chaves, 1942 – Lisboa, 2004) levava isto muito a sério que, em momentos, a escrita terá sido das poucas coisas que o segurou à vida, lhe deu alento, adiando o fim. Não se vê a linha que separa a poesia do resto que por cá foi fazendo. Mas tal como não se pode viver todos os dias, daí também se observa um espaçado silêncio entre cada livro, e se entende a nota dissonante, a aparência descabelada da sua poesia. Obedecemos, por isso, nesta recolha a uma ordem fiel à cronologia da obra.»

Repete-se: fizeram-se 300 exemplares!

Também se repete a pergunta:

Quantos foram vendidos?

Vitor Silva Tavares que tão bem o conheceu, que tanto gostava dele:

«Como se diz dos elefantes, também ele se considerou morto e morreu. Foi-se indo morrendo. Deixando-se matar nele até que se matou. Subscrevendo o homicídio.»

O livro é de 1973, publicado pela Assírio & Alvim e chama-se É Assim que se Faz a História.

«O princípio de tudo num P.S.: Há tantos silêncios… Porto Covo abriga ainda uma canção, dois ou três maços de cigarros vazios, um spray para a garganta que lá ficou esquecido, uma aventura dos anos cinquenta que repetimos nos nossos trinta anos. Falavas de um tempo de escuridão total: as trevas. Um P.S.: Tantas coisas que não se podem deixar escritas…»

Legenda: a imagem que se reproduz é a contra capa de Mil E Outras Noites 

sábado, 20 de julho de 2024

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


«As motos roncam no circuito

de Vila Real e lá estou eu, pendurado

no muro das traseiras, a espreitar a Norton

que vem à cabeça, curvando, espectacular,

na rampa de São Pedro. O cheiro a gasolina

embebeda a catraiada. É quase tão bom

como o incenso do mês de Maria. Baba-se

o tontinho da cidade e alguns padres

deitam foguetes e apanham as canas.

As motos cortaram já a meta, quando chega

a notícia de um desastre na Timpeira.

Mas a festa prossegue, com a feira

dos pucarinhos, e o barro negro de Bisalhães

racha-se na cabeça dos feirantes.»

 

A alegria que Eduardo Guerra Carneiro nos transmite de uma Vila Real da sua adolescência, neste poema tirado de Contra a Corrente.

Um itinerário diferente daquela figura amável com memórias, sonhos, encontros, desencontros, as marcas incisivas do prazer – e do conhecimento da dor», como tão bem o retratou Vitor Silva Tavares.

Um itinerário de imprevisto, diga-se. 

Mas que imprevisto?


terça-feira, 18 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS


 Obra Escrita

Volume 4

João César Monteiro

Coordenação: Vitor Silva Tavares
Capa: Luís Henriques

Livraria Letra Livre, Lisboa, Outubro de 2021

João de Deus e Joana passeiam à beira da falésia.

João de Deus: E a tua mãe?

Joana: A minha mãe morreu vai para três meses. Somos de Belmonte. Não sei se conhece.

João De Deus: De passagem.

Joana: Não tínhamos mais ninguém. O meu pai vive em França, mas nunca quis saber de nós. Não há terra como a nossa. Quando cheguei à gare de Austerlitz não sabia uma palavra de francês. Queria ir direita ao serviço de accueil a refugiados  de Saint Joseph das nações, mas ninguém se ralava. Encolhiam os ombros e gronhavam, gronhavam…

João de Deus: Resmungam muito esses parisienses. Parecem baratas tontas.

Joana: Por fim, fui ter onzième arrondissamento. Comi uma sopa e um naco de pão e, ao fim de três dias lá dei com o paradeiro do meu pai.

João de Deus: O que é que o teu pai faz?

Joana: Trabalhava na Renault. Agora só bebe. Está no chômage. Vive com outra mulher de quem tem mais três filhos pequeninos, mas também é uma desgraçada. Só chora. Dormíamos todos a monte… Eu tinha que fazer de cega.

João de Deus: De ceguinha?

Joana: Sabe que quando estava a fazer de cega deixava mesmo de ver? Ficava com dores horríveis nos olhos até me saltarem as lágrimas. Era de Olhar fixamente.

João de Deus: Olha, para eu ver.

João de Deus: E não tens vergonha?

Joana: Tenho, mas o que é que hei-de fazer. O mau pai obrigava-me. A isso, e a pior.

João de Deus: A pior. Como?

Joana: Tenho que dizer’

João de Deus: Já tenho idade para ouvir certas coisas…

Joana: A ir com os homens. Se me recusasse, moía-me com pancada.

João de Deus: A moral dos cegos é diferente da nossa.

Joana: O senhor é um santo mas já lhe dei muita maçada. Coitadinho, até podia ter morrido enregelado por minha causa.

João de Deus: Enregelado não direi, mas meio da digestão de umas sardinhas de conserva podia dar-me uma congestão. Íamos os dois.

Joana: Ainda por cima, não faço falta a ninguém.

João de Deus: Já não estás só no mundo. Vou-me ausentar por uns dias. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Sou um homem rico, isto é, privado do privado assento etéreo. Ando cá por baixo a refazer a minha vidinha. Tenho uns Fazereres no Cambodja.

Joana: O senhor é a minha luz.

João de Deus: Sou fraca candeia.

sábado, 25 de maio de 2024

LIVROS E JACARANDÁS, SEMPRE!


 No dia 29 de Maio abrem as barracas da Feira do Livro, no Parque Eduardo VII, para a sua 94ª edição, que fechará portas a 16 de Junho.

Terá dez novas barracas e os horários de segunda a quinta serão das 12h às 22h; às sextas e vésperas de feriado o fecho será às 23horas, aos sábados das 10h às 23horas; e aos domingos e feriados das 10h às 22,00 horas.
Recordo-me que já na edição do passado ano tive algumas dificuldades nos caminhos de subida e este ano, como mais barracas, acontecerão as mesmas dificuldades e, provavelmente, mais algumas.

Que seja tudo pelo amor dos livros, do cheiro dos jacarandás, do voo dos melros, dos pardais, de todas as magias que nos caem, vindas não se sabe de onde, ao longo dos passeios que em cada dia fazemos em tempo de Feira.

A ilustração é o pavilhão da «& etc», em tempos antigos, quando o Vitor Silva Tavares por aqui andava, das vezes, muitas, que no intervalo de vendas, falava da sua rica e vasta vida de fazedor de livros.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO

A utopia que concebo assenta pois e apenas nisto: que cada qual do aqui-e-agora traga amanhã outro amigo também. Ai não há? – Então fecha-se a porta.

Vitor Silva Tavares

Legenda: pintura de Pieter Bruegel The Elder

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 Cronos

Cadernos de Literatura e Arte Nº 4

Direcção de Mendes de Carvalho, Eduardo Prado Coelho, Fernando Luso Soares

Colaboração de Mário Sacramento, Alexandre O’ Neill, Mário Cesariny, António Ramos Rosa, Natália Correia, Fiama Hasse Pais Brandão. Mendes de Carvalho, Luiza Neto Jorge, Vitor Silva Tavares, Urbano Tavares Rodrigues, entre outros.

Edição de Autores, Lisboa s/d

Como tantos outros homens da minha idade, cheguei à primeira dentição intelectual bebendo o leite impoluto do ensaísmo sergiano, para depois comer o pão que o Diabo amassou. Ficou-me desse desmame um remoer de culpa absurda quando as vagas implacáveis do Realismo Ideológico começaram a espadanar sobre a sua obra a espuma amarela da Verdade Represa, pelo Sol Nascente e por outras plagas. Abrirei assim o meu exame – exame dela e meu – pondo-me a rosto com esta pergunta: Que se passou com Sérgio para que fosse, a um tempo, o Mestre inigualável de quantas gerações viram e verão na Inteligência o piloto do Mundo (mas não o seu armador!), e a Sereia que pôs embargos à derrota da nau de Ulisses?

(Do texto António Sérgio: O Ensaista e o Doutrinário da autoria de Mário Sacramento)

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

OS CARTAZES DO ADELINO


 A primeira vez que apanhei a escrita do Adelino Tavares da Silva foi no Cinéfilo, excelente revista, dirigida por Fernando Lopes que se publicou entre 4 de Janeiro de 1973 e 22 de Julho de 1974 e tento um boneco tirado do volume encadernado de todos os Cinéfilos que consta da Biblioteca da Casa.

Depois encontrei-o no primeiro livro que a & ETC publica, Coisas, com um texto em 18 pontos a que chamou Crucificolagem e aqui repruduzo os dois últimos pontos do texto:

Mais tarde dou com os Cartazes que publicou em O Diário.

Numa  limpeza de caixas e caixinhas encontro um envelope, com alguns desses cartazes  de O Diário que teve vida de 10 de Janeiro de 1976 até 1990, o jornal que o José Saramago, quando ficou desempregado do Diário de Notícias, chegou a admitir que fosse convidado pelo Partido para nele colaborar, que não veio a acontecer e que o obrigou a procurar outros horizontes de vida que foram desembocar nesse grande livro que dá pelo nome de Levantados do Chão e depois a toda uma obra que culminará no Nobel da Literatura.

Sobre o Adelino tentei encontrar algo mais que o vulgar nascer e morrer mas a única referência com interesse é uma história do Adelino contada pelo Mário Mesquita publicada no Público de 1 de Setembro de 2012:

«…a reportagem de Adelino Tavares da Silva da recepção no Palácio de Queluz à Rainha Isabel II, que se resumia a uma foto-legenda. A imagem era do quarto onde o casal real iria pernoitar. As palavras muito sucintas: "Aspecto dos aposentos reais no Palácio de Queluz, onde Sua Majestade Isabel II vai encontrar-se hoje à noite com o Príncipe de Edimburgo, seu marido, após quase um ano de separação". Com efeito, o Príncipe Filipe reencontrava a rainha após longos meses de viagem pela Comunidade Britânica. A censura, no dia seguinte, chamou "à pedra" o Diário Ilustrado.»

Resta-me copiar o que o Vitor Silva Tavares desenhou na & ETC quando o Adelino por lá surgiu a colaborar:

Gosto destes Cartazes  de O Diário guardados em envelope amarelecido pelo tempo e vou copiá-los por aqui.

Os cartazes estão datados mas, lamentavelmente, não lhe coloquei datas

Costumes, gentes, um país outro que ainda encontramos por aí, cartazes datados mas muito bem escritos. Pede-se desculpa pela má qualidade das reproduções. Da imagem mais não posso fazer, do texto farei transcrição.

E é este o 1º Cartaz do Adelino que se publica:

 ÀS VEZES SÓ MUITO TARDE SE ACORDA

«Eis o que muita gente pensa. Eis o que muitos fazem, julgando que «não tocar nas coisas é melhorá-las». Deitam-se a dormir e, depois, quando acordam, estão hirtos, gastos, entorpecidos, anquilosados.

Mais tarde, só muito mais tarde, às vezes, é que percebem o logro. Resistir é estar de pé e atento. Vencer é não se deixar ficar à espera do que, apenas, vem dentro do sonho, porque é mesmo pesadelo.

É útil criar boas legendas, mas o importante, claro, é fazer delas uma bandeira, que se leva ao alto e não de rastos. É assim em tudo.»

                                                                                             A.T. da S.

terça-feira, 25 de abril de 2023

CONVERSANDO


 Era uma vez…

Quarenta e nove anos do 25 de Abril.

Final do poema «A Nossa Terra» do poeta catalão Félix Cucurul em  «Vida Terrena» :

«Agora, juntos, temos de construir um país

sem fome de nenhuma espécie, sem mitos,

um país de onde não seja preciso partir,

uma pátria onde tu e eu possamos sentir-nos

plenamente entre outros homens»

A «Vida Terrena» é o número 12 da excelente «Colecção Poesia e Ensaio», invenção de Vitor Silva Tavares, enquanto director literário da Editora Ulisseia.

Tradução de António de Macedo com a colaboração de Carlos de Oliveira que também escreveu o prefácio.

A fotografia no cimo do texto é um pormenor da Exposição «Carlos de Oliveira: A Parte Submersa do Iceberg», Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, Outubro de 2017 e mostra uma reprodução do 1º volume dos Dias Comuns do José Gomes Ferreira, 16 de Maio de 1966, em que acusa a recepção de «Vida Terrena» que Félix Cucurul lhe enviara de Barcelona e que lhe trouxe à memória um rosbife, rijo como cornos, ou como diz o Zé Gomes: «duro como o fascismo».

segunda-feira, 16 de maio de 2022

OLHAR AS CAPAS


Mil e Outras Noites

Uma Antologia

Eduardo Guerra Carneiro

Selecção de Miguel Filipe Mochila

Prefácio e Posfácio de Vitor Silva Tavares

Capa: a partir de pintura de Hieronymus Bosh

Língua Morta, Lisboa, Maio de 2018

 

Na ampla praça há apenas plátanos.
Nem crianças a correm de tão fria,
nem estátuas a comovem bronzeadas.
Das margens secas, com ilhas e outras casas,
janelas, se as há, são quase setas.
O frio perfurou tábuas e latas.
Um vento seco corta junto aos olhos.

O espaço é recomposto agora mesmo: na praça
estou na sombra dos plátanos
e tudo vejo com vontade e amor.
Mas não chega a presença ou a vontade.
Outros não chegam, ou aparecem apressados.
Nomes se referem. Desenha-se um olhar.
Apenas gesto, memória, sombra rara.

Envolvo-me na praça. Os plátanos cobrem-me.
Das margens sempre vem algum calor.
Renascem os olhos. Os plátanos movem-se.
As casas iluminam-se. Um grito
cobre a sombra e assim anima
a ampla solidão de todos nós.


Poema de Eduardo Guerra Carneiro do livro Algumas Palavras

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

MAL E PORCAMENTE


Uma das primeiras pessoas que me tratou bem em jovem foi o Vitor Silva Tavares, o editor da & etc. A etc era um projecto com uma integridade, uma coerência e uma disciplina que nem sempre se encontra. Faziam exactamente aquilo que queriam e não o que o resto do mundo queriam que fizessem. Escolhiam quem queriam ter e quem não queriam ter, Não faziam coisas demais, não se faziam ao tacho, não faziam nenhum esforço para serem populares ou conhecidos ou publicitados.

Fiz a capa para um livro do Mário Carvalho quando tinha 20 anos e fiz mal e porcamente. O Vitor Silva Tavares deveria ter esperado dois anos. Quando o conheci tinha para aí 17 anos, Fui visitá-lo num furo das aulas do liceu. Tinha visto aquelas plaquetas que ele fazia e queria saber como é que aquilo se fazia. Então fui bater à porta, na Rua da Emenda. E lá estava aquele senhor de barba, que me atendeu. É o género de disciplina ética que se encontra em certos cineastas, em certas editoras de música.

Jorge Colombo, de uma entrevista ao Expresso.

domingo, 12 de setembro de 2021

AH! SIM, A FEIRA


Por motivos vários, as minhas visitas à Feira do Livro deixaram de ter aquele instante feliz de outros tempos.

Quase arrisco a dizer que a visita que faço tem mais a ver com a fotografia que tiro sempre ao pavilhão da «& etc.», recordando os tempos em que ficava por ali a conversar com o Vitor Silva Tavares.

A Feira tem pavilhões a mais, uma boa parte com nada relacionado com livros.

Como é que um país que não lê, tem tantos editores a publicar milhares de livros que não sei a quem se dirigem?

Estou a tornar-me um leitor estranho.

Um leitor chato. 

terça-feira, 23 de março de 2021

TIRAR O VÉU A CARTAS DESTA VALIA


A capa do precioso livrinho já mereceu um Olhar.

Hoje, reproduzo as palavras que os editores, Emanuel Carneira e Paulo da Costa Domingues, colocam no prefácio. No meio de todo o lixo que por aí campeia, sabem bem estas palavras:

«Tem-se, por vezes, a sorte de ler aquilo que poetas e editores entre si trocam de mensagens. Fala-se de livros, fala-se do como dar a ler a oficina poética em páginas límpidas. Conspira-se sobre esboços a legar ao Futuro. Tem-se, por vezes, sorte. A sorte de testemunhar da fábrica, a sorte de sermos nós o autêntico destinatário, o alvo verdadeiramente cultural de preocupações e minúcias editoriais. Cuja implícita pedagogia é de agradecermos.
Aqui, numa toada que nos faz lembrar o bailado felino de dois gigantes criativos que se respeitam mutuamente e que, mutuamente, procuram eles (e encontram) o melhor terreno para a travessia dalguma arte vinda do outro lado do oceano. E se é um triângulo o que aqui temos, não é ele o buraco negro sorvedouro de matéria, mas, isso sim, o triângulo “amoroso” revelador do espírito de uma época culta irrepetível. Tirar o véu a cartas desta valia, que circunstâncias várias acabam, tantas vezes, por votar a uma invisibilidade perene – não fosse a acção dos que se dedicam, com obstinado entusiasmo, à preservação de arquivos e da memória histórica – favorece, pois, a possibilidade de enquadrar, de avivar protagonismos, de desenterrar detalhes dessa extraordinária aventura humana, poética e/ou editorial.
Em cena: Mário Cesariny, poeta-ex-editor proponente de um original inédito do poeta brasileiro Sérgio Lima, a Vitor Silva Tavares, editor-poeta e guardião do Subterrâneo Três. O livro a que tudo se refere – Aluvião Rei – sairia chancelado & etc, no mês de Setembro de 1992.
Da transcrição dos manuscritos, vai aproximativamente diplomática.»

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Por Menos, Só Talvez no Biafra

Vitor Silva Tavares, Mário Cesariny, Sérgio Lima

Capa: Carlos Ferreira

Barco Bêbado, Lisboa, Setembro de 2020


Meu Caro Poeta

Desculpe-me o só agora. Mada por não ter ficado grato pelas suas cartas e o folheto «Noa Noa» do Le Clézio, este ao encontro do que muito prezo na intervenção editorial. Aconteceu que deambulei por outras geografias próximas do meu recolhimento – e tal foi este que até o propósito de lhe escrever se me ficou a leste. Não sem recriminações: é que não queria, não quero, que V. pensasse ter o seu contacto caído em nenhures. Julgo ter captado os sinais, a fala – afinal o que importa.

Reeditar o Pedro Oom? – Uma já neurótica tentação, sempre adiada por dúvidas, escrúpulos, falta de molécula para enfrentar as previsíveis dificuldades, talvez uma humildade castrante por exagero, talvez uma certa cobardia, talvez a assumição de uma desistência a somar ao real. Só de pensar na irmã do Pedro, senhora que me esgota a capacidade de classificação, sinto logo o desejo de não tirar a cabeça do buraco. Não que ela tenha o que quer que seja a ver com a obra do irmão, sim porque tal se atribui mais do que não seja por razões… de sangue (?!) e isso me incomoda sobremaneira.

Pretextos meus? Admito. Mas também admito que o seu convite (ou a sua proposta) me espevite para o que tem de ser feito, é sempre a Hora! Óbvio que não veria, não vejo, quem melhor, com mais propriedade e justeza pudesse organizar o livro do Pedro que o Mário Cesariny. Assim se disponha, assim desato eu o novelo em que me tenho enredado. E com júbilo!...

(de uma carta de Vitor Silva Tavares para Mário Cesariny).

domingo, 16 de agosto de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

AS CARTAS DO PACHECO

Se existiu alguém que deu trabalho aos Correios de Portugal, Luiz Pacheco está no pelotão da frente.

Através do seu ficheiro pessoal enviava aos leitores, à cobrança, os livros da Contraponto,

Por tudo e por nada, enviava, cartas e bilhetes-postais, a meio mundo e parte do outro.

Numa entrevista chegou a observar:

«As pessoas dizem «estou a ler», «tenho à cabeceira», mas não lêem. Dizem que não têm tempo: não têm é hábitos de leitura.»

Para os livros da Contraponto Pacheco não invocava nada.

Lessem ou não lessem, o importante é que mandassem o guito,  para ajudar à sobrevivênciazinha.

Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.

Do prefácio:

«No entanto, talvez seja através das suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas  e depoimentos que se conhecem.»

Já em Maio de 1974, Pacheco lança, na Estampa, Pacheco Versus Cesariny, um folhetim inventado e montado.

Entre a muita correspondência que por lá abunda, há uma carta do crítico e escritor Manuel de Lima, que começa assim:

«Acabo de saber, com grande surpresa e algum alarme que, todas as vezes, que lhe escrevia por uma simples necessidade de comunicar consigo, estava inadvertidamente a escrever para a história.»

Na conversa que Rui Zink e Carlos Quevedo mantiveram com Luiz Pacheco, foi-lhe perguntado como tinha surgido a ideia de fazer um livro a partir de um conjunto de cartas.

Pacheco respondeu:

«No tempo do fascismo, a epistolografia era considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas eu gostava muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me apetecia. O Pacheco versus Cesariny é um documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa. Literária e não só.»

Os jornalistas lembram-lhe que as pessoas podiam ficar chateadas com a publicação das cartas.

Pacheco não desarma:

«Alguns sim. Mas eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois, um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca maus me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca era mais de 100 ou 200 paus…»

Em Fevereiro de 2002, Bernardo de Sá Nogueira, edição Alexandria, transcreve treze cartas e quatro postais de Luiz Pacheco para o poeta António José Forte. 

O livro chama-se Mano Forte.

Pacheco não gostou.

Na entrevista a João Pedro George, publicada em O Crocodilo que Voa, explicou:

«Um tipo sabe que fulano António José Forte, por exemplo, guardou coisas que lhe mandou, cartas e postais. Guardou, morreu, foi para às mãos de alguém e depois aquilo representa um valor… e então vendem… Depois aparece um urubu mais categorizado, com outra perspectiva empresarial, e faz a edição. Eu em princípio não posso estar contra isso. De qualquer forma, este livro é uma golpada, é de rabo à mostra…»

Luiz Pacheco no seu Memorando, Mirabolando, Setembro de 1995 para além de outros textos, publica cartas enviadas a Mário Cesariny de Vasconcelos, Pepe Blanco, Jaime Aires Pereira, Jaime Salazar Sampaio, Vitor Silva Tavares e Maria Manuela Ferreira.

Muito mais postais e cartas existirão por aí espalhados em jornais, jornalecos, revistas, revistecas.

Talvez algum dia se faça a necessária divulgação de toda essa correspondência.

Talvez…

Texto publicado em 15 de Dezembro de 2016.

Legenda: pintura de William Albanese

domingo, 9 de agosto de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

EM LISBOA DEBAIXO DE CHUVA

Havia a apresentação do site sobre o 25 de Abril da Agência Lusa.

 Terminado o evento saí, mais o Luís Pinheiro de Almeida, que tinha que ir buscar à Letra Livrena Calçada do Combro, uns livros que prometera ao Jack Kerouac.
Começou a pingar, nada do outro mundo.

Sorte das sortes – há bruxas! – encontrei na Letra Livre o Vitor Silva Tavares a quem, em Dezembro de 2012, por ocasião do lançamento do Para já Para já,  prometera mostrar-lhe a minha colecção encadernada da &Etc., ficou encontro marcado, e aproveitar para, finalmente, olhar o subterrâneo maravilhoso que já deu um lindíssimo livro.

Quando saímos da Letra Livre continuava a chover, mas um pouco mais forte.

Subir o que restava da Calçada do Combro, entrar pela Orion dentro para um fininho e pastel de bacalhau.

Findo o repasto, chovia torrencialmente.

O Luís tinha um encontro marcado na Associação 25 de Abril e avançámos para o Largo do Camões onde aproveitaria para comprar uma umbrella - mais uma, disse ele -, odeio umbrellas e de corpinho bem feito, encharcado, ataquei a descida da Rua do Alecrim e a pensar que nada que a barra mansa do British-Bar não conseguisse resolver.

Lá chegado, o espanto ficou um grande ah! na minha cara.

Fechado para obras.

Olhei para dentro, apenas operários, nenhum dos trabalhadores do bar.

Informei-me.

Disse quem por lá se encontrava a trabalhar, que apenas estão a fazer limpezas, juntar alguns melhoramentos, ajeitar as casas de banho, lavar a cara, nada de especial, sublinharam.

Mas diz-se tanta coisa hoje em dia, e nada se cumpre, pelo que o melhor é esperar para ver.

O relógio que anda ao contrário, que aparece em A Cidade Branca do Alain Tanner disseram que vai continuar, não falaram na fotografia do José Cardoso Pires, mas espero que não se atrevam a tirá-la.

Pode ser que tudo corra bem…

Certo, é que da vez anterior, por ocasião das grandes obras, mão danificaram o estilo.

Apenas aumentaram ligeiramente os preços.

Nada a que não estejamos habituados.

Porque não se pode destruir um bar que consegue parar o tempo, que tem um relógio que anda ao contrário.

No British-Bar a única música ambiente é o tilintar do gelo nos copos, e todos os seus trabalhadores (antes e depois do dia mágico) têm o recato e a discrição dos verdadeiros barmen: o que ouvem é como se não tivessem ouvido.

O Cais do Sodré apresentava um pandemónio de trânsito, gente a correr, buzinadelas.

Quarenta e cinco minutos à espera do autocarro, lembranças ainda da barra mansa do BB e o trautear de uma velha canção, vinda não sei a que propósito, talvez que por Abril já entrámos e que diz quem somos, o que fazemos aqui, quem nos abandonou, do que nos esquecemos…

Texto publicado em 5 de Abril de 2014

terça-feira, 9 de junho de 2020

POSTAIS SEM SELO


Porque a leitura faz de nós melhores pessoas. Aprendi eu isso. E isso consolidou em mim o autodidacta.

Paulo Da Costa Domingos em Narrativa

Legenda: desenho a grafite da autoria de Vitor Silva Tavares

terça-feira, 17 de março de 2020

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Esta é a capa de A Guerra Civil de Espanha de Hugh Thomas, que é o mais importante documento histórico acerca da Guerra Civil de Espanha. A sua tradução portuguesa deve-se a Vitor Silva Tavares que, enquanto editor da Ulisseia, proporcionou a publicação, em plena ditadura salazarista, de um conjunto de livros e colecções de transcendente importância.

O Luís Miguel Mira, na sua excelente crónica, fala de que Red River Valley, na versão de Ed McCurly, era o tema final da banda sonora que acontecia nos jantares em sua casa.

Por uma noite, falámos de que seria imprescindível ter todas essas canções, de finais de jantares, gravadas em CD.

Assim aconteceu.

Num sábado, pegámos nos vinis, alinharam-se uns ovos estrelados com «bacon», umas garrafas de Muralhas de Monção e fez-se a gravação do CD.

Lamentavelmente esse CD perdeu-se algures, sabe-se lá como, talvez num daqueles loucos jantares que aconteciam na última sexta-feira de cada mês.

Para além de «Red River Valley» do Ed McCurly,  havia Tom Paxton a cantar «My Daddy and Me», «Quando Sali de Cuba» pelos Sandpipers, «Lisboa, Meu Amor» do Carlos Mendes, «Love Hurts» Gram Parsons e a Emmylou Harris, «I'm So Lonesome I Could Cry», Hank Williams, « Like an Old Fashioned Waltz» pela Sandy Denny, «For the Sake of the Childreens» Henry Gibson do filme «Nashville», «Teach your Children» Crosby Still Nash and Young, «Take These Chains from my Heart» pelo  Ray Charles, tantas outras até serem completados 90-minutinhos-90 de grandes músicas.

Ficam algumas das versões referidas pelo Luís Miguel Mira.

Não consegui encontrar o vídeo do Cohen a tocar o «Red River Valley» em harmónica, tal como o Luís conta: «dirigir-se àquele quartinho que está na contracapa de “Songs From a Room”,  abrir a gaveta da mesma cómoda e lá encontrar uma velha harmónica. Leva-a aos lábios e o que toca ele…? “Red River Valley”, como quem diz, mais uma vez,  “so long Marianne”…», está uma outra versão e o Henry Fonda a cantar a canção enquanto dança com a mãe, tem um corte abrupto mas, nesses pequenos segundos, está o essencial.










segunda-feira, 28 de outubro de 2019

FINJO QUE SOU MAS NÃO SOU


Finjo que sou nas não sou.
Eu nem sei o que é ser.
Pra’ qui estou.
Até ver.

Finjo que estou mas não estou.
Eu nem sei como se está.
E por aqui me vou.
Até já.

Só quando finjo que finjo
Sou afinal quem pareço.
Esta não atinjo.
Esqueço.

Vitor Silva Tavares de púsias em  textinhos,intróitos &etc