sábado, 31 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


 O Papagaio de Flaubert

Julian Barnes
Tradução: Ana Maria Amador
Capa: Rogériio Petinga

Quetzal Editores, Lisboa, 1984

Talvez houvesse mais outra coisa. Algumas pessoas, quando envelhecem, parecem ficar mais convencidas da sua própria importância. Outras ficam menos convencidas. Há algum significado na minha existência? A minha vida vulgar não terá ficado resumida, encerrada, esvaziada de sentido pela vida um pouco menos vulgar de outra pessoa? Não estou a dizer que é nosso dever negarmo-nos face ao que julgamos mais interessantes. Mas a vida, neste aspecto, é parecida com a leitura. E como disse antes, se todas as nossas reacções a um livro já foram duplicadas e alargadas por um crítico profissional, então qual é o interesse de lermos? Apenas o facto de ser a nossa leitura. Da mesma maneira, para quê vivermos a nossa vida? Porque é nossa. E se uma tal resposta se tornar gradualmente menos convincente?

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


O Humor é a coisa mais séria do mundo.
Esta frase já toda agente conhece… mas tem muita graça! E a mais triste e solitária do Mundo, digo eu. É muito triste e angustiante fazer rir.

Mário Viegas

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Mário-Henrique Leiria está bem representado na biblioteca da casa.

Veja-se a etiqueta Mário-Henrique Livros.

Acontece que a editora E-Primatur iniciou, em Maio de 2017, a publicação das Obras Completas de Mário-Henrique Leiria constituída por três volumes.

O terceiro, e último volume, foi publicado em Junho deste ano e nele constam manifestos, textos críticos e afins, bem como cartas e postais.

A obra completa de Mário-Henrique Leiria tem como responsável Tânia Martuscelli, crítica de literatura e de arte, professora da Universidade do Colorado/Boulder nos Estados Unidos.

Desconhecia que houvesse alguém tão especializado na obra de Mário-Henrique Leiria e o quanto isso o divertiria. Tania Martucelli tem a ideia de que conseguiu reunir todos os textos constantes do espólio do autor.e vários outros materiais dispersos.

Mário-Henrique Leiria não se considerava um escritor mas um tipo que escrevia umas coisas quando a veia, aliada a um grande gin-tonic, resolve ser boa companheira.

Depois de 1951 começou a andar de um lado para o outro.

«Teve vários empregos, marinha mercante, caixeiro de praça, operário metalúrgico, construção civil (não, não era arquitecto, carregava tijolo), etc., pelas terras onde andou: a Europa cristã e ocidental, o Mediterrâneo norte-africano, o Oriente Médio e até, dizem, os países socialistas. Não ia aos Balcãs porque tinha medo, todos lhe diziam que lá os bigodes eram enormes e as bombas estoiravam até no bolso. Um dia teve de passar por lá. Os bigodes eram realmente grandes, mas toda a gente sabia rir. Tirou o casaco e bebeu que se fartou. Em 1958 meteram-se-lhe ideias na cabeça e foi até Inglaterra, para aprender coisas. Não aprendeu e voltou. Entre 1959 e 1961 foi casado e não fez mais nada. Em 1961 foi para a América Latina donde voltou nove anos depois. Por lá conseguiu ser, entre outras actividades menos respeitáveis, planejador de stands para exposições, encenador de teatro e até director literário de uma editora. Fizera progressos»

Quantos papéis, quantos textos, quantos projectos Mário-Henrique Leiria perdeu nestas suas novas-velhas-andanças?

Mas este é o trabalho possível e louve-se a iniciativa.

Claro que o autor já mandou descer mais um gin e está ainda a gargalhar porque ele sempre foi um campeão de perder textos, e textinhos, divertia-se a escrever e a esconder o que escrevia.

Mas repito: Quantos papéis, quantos textos, quantos projectos Mário-Henrique Leiria perdeu por esse mundo fora?

Nova repetição: mas pronto! É o trabalho possível, um trabalho dignificante para a literatura portuguesa e para esse futuro que se não ler o Mário-Henrique não sabe o que perde e tão pouco merce ser futuro.

Acredito que Mário-Henrique Leiria sentirá uma lágrima rebelde aflorar-lhe aos olhos, pedirá mais um gin e agradecerá do fundo do coração.

O 1º Volume reúne Fragmentos da Minha Vida Real, os Contos do Gin-Tonic, os Novos Conto do Gin, Fábulas do Próximo Futuro, Contos Extraídos de Depoimentos Escritos, Contos Inéditos e Dispersos, Casos de Direito Galático, o Mundo Inquietante  de Josela,  a banda desenhada Mário e Isabel, a novela Diapasão , Teatro e Guiões.

O 2º volume é dedicado à poesia e reúne toda a sua obra poética incluindo inéditos e textos nunca antes compilados em livro

Comprei o 1º volume da Obra Completa do Mário-Henrique Leiria na Feira do Livro deste ano e, oportunamente, irei comprar os outros dois volumes. É que há um bom número de textos escritos que não fazem parte das obras publicadas.

No programa de Mário Gin Tónico Volta a Atacar, Mário Viegas escreve:

«Quantos textos inéditos (?), perdidos, semi-publicados (?) não andam por aí??
Onde estão os grandes amigos deste Mário??? É urgente reuni-los num livro. Este espectáculo e este programa aqui estão para o provar e dar uma ajuda!»

Passaram 30 anos sobre estas palavras.

Muito tempo? Tempo demasiado?

Mais vale tarde que nunca, diria a minha avó materna.

A Obra Completa do Mário Gin-Tónico está aí, Mário Viegas.

O quanto gostaria que esta E-Imprinatur, outras editoras, seguissem esta reunião de obras completas de autores que deixaram um espólio que andará por aí  ao abandono, por aí perdido.

Tantos e tantos autores nessas condições e, assim de repente, lembro-me do Eduardo Guerra Carneiro.

A Obra Completa de  Mário-Henrique Leiria foi publicada com o apoio dos leitores através de um funcionamento colectivo.

Em cada volume pode ler-se este avisos:

«De acordo com a legislação autoral em vigor, a E-Imptimatur tentou localizar os herdeiros de  Mário-Henrique Leiria, sem sucesso. Os representantes legais devidamente identificados poderão entrar em contacto com a editora para se elaborar contrato de direitos.»

De uma carta de Mário-Henrique Leiria, Carcavelos 25 de Novembro de 1973, para Isabel, ou Maruska, ou o grande amor da sua vida:

«Quanto ao meu livro (Novos Contos do Gin), já está em primeiras provas. Talvez esteja na rua lá para meados de Dezembro. Achei que tinha historietas demais e tirei um monte delas, não gosto de chatear demais os leitores.
Sabes que o Gaspar Simões botou elogio grosso aos CONTOS DO GIN-TÓNICO na página literária do "Diário de Notícias"? Pois foi: Só tenho coisas que me ralem; só me faltava o Gaspar Simões a dizer bem de mim. Ele há cada coisa!»

OLHAR AS CAPAS


Obras Completas de Mário-Henrique Leiria
Volume I

Mário-Henrique Leiria
Introdução, Organização e Notas de Tania Martuscelli
E-Primatur, Lisboa Maio de 2019

A VIAGEM, ENFIM

Isto de ter sempre o mesmo sonho todas as noites torna-se aborrecido.
Era assim: saía de casa, ia até ao carro e dizia à família «vamos lá fazer essa viagem». Primeiro entravam a mulher e as duas crianças, depois os pais, ele instalava-se ao volante e pronto, não havia lugar para os sogros! Era sempre a mesma coisa. Por mais que empurrassem, não conseguiam metê-los lá dentro.
Acordava a suar, empurrando ainda qualquer coisa que não estava lá.
A mulher aconselhou-lhe uns calmantes, para ver se o sonho se ia.
Mas nada. Lá vinha sempre, todas as noites. É verdade que empurrava menos, talvez os calmantes, mas continuava naquele desespero de não conseguir enfiar os sogros no carro alucinante.
Os sogros disseram-lhe que não se interessavam em ir, não faziam questão, já estavam velhos para viagens.
Os pais prontificaram-se a ceder os lugares deles.
Toda a família colaborava, mas o sonho continuava.
Chegou a fazer experiências, a meter a família completa no velho Citroën arrastadeira. E conseguia, lá se metiam todos, mais ou menos apertados mas entravam. Mas no sonho não.
A coisa tornava-se desesperante.
- Porque é que não vais ao Mora? Ele é psicanalista, explica-te, tira-te isso – insistia a mulher, já arreliada, e preocupada também, com aquelas viagens nocturnas e frustradas em que ele se envolvia sem culpa.
O Mora era amigo de infância, nem sequer permitia que ele pagasse, era extraordinário! Às vezes até ia lá jantar. E respondeu à mulher:
- Tens razão, Xuxa, vou mesmo, que isto assim não pode ser. Tens sempre razão menina.
Contou tudo. O Mora mandou-lhe contar mais, o passado continua sempre oculto, ao que disse. Deitado, contou-lhe o que ele precisava era de derivar, sabem, encontrar qualquer coisa além do carro e da viagem que não fazia em sonhos. Derivar. Substituir o carro. Agradeceu e convidou o Mora para jantar no sábado. O Mora não podia e deu-lhe uma palmada nas costas.
Chegou a casa aliviado e esclareceu a Xuxa:
- Vou derivar, menina.
- Derivar?
Sim, substituir o carro e tudo o mais, excepto tu, as crianças, os velhos e a casa. Amo-te mas vou derivar.
Xuxa concordou. Desde que derivar resolvesse o caso, ele que derivasse quanto fosse preciso.
Nessa noite ainda teve o sonho e acordou estafado de tanto empurrar os sogros.
No dia seguinte avisou para o emprego que ia mais tarde, foi ao Banco buscar o que sobrava e entregou-se a uma moto, uma Rudge poderosa e em segunda mão. Estava a derivar em cheio.
O sonho foi-se diluindo. Cada vez empurrava menos, com grande satisfação da mulher.
Então após ter passado um fim-de-semana a mexer na máquina para ver se percebia alguma coisa e a dar voltas pela vizinhança de capacete preto e amarelo enfiado na cabeça, deixando ao carro na garagem, sentiu-se livre.
E era berdade.
À noite não sonhou. No dia seguinte a Xuxa disse-lhe que até parecia dez anos antes.
Tudo voltou à normalidade, os sogros deixaram de se preocupar com a viagem, as crianças entusiasmaram-se com os estoiros da moto. E o carro na garagem.
E, de repente, tornou a sonhar. O sonho.
Assim: saiu de casa, foi até ao carro e disse à família «vamos lá fazer essa viagem». A mulher e as crianças entraram, depois os pais, e ele instalou-se ao volante. E não havia lugar  para os sogros! Começaram a empurrar para os meter lá dentro, e nada. Então virou-se para a garagem. Estava um pouco diferente mas a moto continuava lá dentro. Deixou tudo, montou a moto, pôs o chapéu de palha e avançou pela estrada. Uma estrada larga, muito aberta a tudo. Pareceu-lhe já a ter visto alguma vez. Olhou para  trás e lá ao longe, à porta da casa, continuavam a empurrar-lhe os sogros. Acenou uma despedida, acelerou e continuou, olhando árvores e nuvens. Ainda não voltou.

A PROPÓSITO DE ESTRELAS


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas

Adília Lopes

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


não entres meu amor
não entres
senão depois de teres a
certeza
de que tudo que irás
encontrar nada é
comparado com o nosso
excesso de claridade
a claridade dada pelo tempo

Mário-Henrique Leiria em Imagem Devolvida

Legenda: imagem Shorpy

OLHAR AS CAPAS


Mário Gin-Tónico Volta a Atacar

Mário-Henrique Leiria e Mário Viegas
Textos inéditos, semi-inéditos, desconhecidos, esquecidos e muito divertidos
Capa do programa do Teatro Estúdio no S. Luiz, Março de 1987
Único actor e irresponsável: Mário Viegas

«A minha cumplicidade com Mário em 1978 e com o seu Humor foi fulminante!!
Estreei Mário Gin-Tónico no Porto em Junho de 1986 e durante dois anos foi das experiências maiores da minha vida: milhares de gargalhadas e espectadores.
Quando o espectáculo chegou às 3 horas… decidi parar. Aqui está de volta e com novos textos.
Vai um copo?

ORIGEM DOS SONHOS ESQUECIDOS


Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

Qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre ti e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo.

Mário-Henrique Leiria

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


Quando pousar a última carga, quando fizer a última caminhada, quando chegar a hora de descansar... já será tarde demais para iluminar o rosto com um sorriso, para ir brincar, para ser criança...
Muito tarde!

Samuel, o Cantigueiro

OLHAR AS CAPAS



Marcada a Fogo

Bem Benson
Tradução: Mascarenhas Barreto
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 173
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Pouco depois das dez horas dessa segunda-feira de Agosto, seguia ao volante do carro-patrulha nº 51, pela nacional 2, a oeste de Concord, Massachusetts. À minha frente, tinha a lista dos veículos desaparecidos, durante o último fim-de-semana, e procedia à verificação dos números dos carros que se cruzavam com o meu. Devo confessar que o fazia maquinalmente, pois o meu espírito estava preocupado com outra coisa. Com efeito, pensava no meu próximo casamento, marcado para o princípio de Setembro, e perguntava-me a quantos dias de férias teria direito.

EM TODOS OS JARDINS


Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia de Mello Breyner Andresen de Poesia em Mar

Legenda: jardins da Gulbenkian.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO



Aprendi a vida
da vida
aprendi o amor com um só beijo,
e não pude ensinar nada a ninguém
senão quanto vivi,
o que tive em comum com outros homens,
o que lutei com eles:
o que espremi de todos no meu canto.

Pablo Neruda de Ode ao Livro (I) em Antologia Breve

OLHAR AS CAPAS


Antologia Breve

Pablo Neruda
Selecção, tradução e prefácio: Fernando Assis Pacheco
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção Cadernos de Poesia nº 2
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1969

Madrigal Escrito no Inverno

No fundo do mar profundo,
na noite de longas riscas
como um cavalo atravessa correndo
o teu calado calado nome.

Dá-me lugar no teu ombro, ai, abriga-me,
aparece-me no teu espelho, de repente,
brotando do escuro, detrás de ti.

Flor da doce luz completa,
acode-me com a tua boca de beijos,
violenta de separações,
determinada e fina boca.

Pois digo-te, no mais longe dos longes,
de um esquecimento a outro moram comigo
os carris, o grito da chuva:
o que a escura noite preserva.

Acolhe-me no tear da tarde,
quando o anoitecer vai urdindo
o seu vestuário e palpita no céu
uma estrela cheia de vento.

Traze-me a tua ausência até ao fundo,
pesadamente, com os olhos tapados,
atravessa-me a tua existência, admitindo
que este meu coração está destruído.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente estranha nesta Viagem

Luiz Pacheco em Textos Sadinos

OUTROS MOTIVOS DE CONVERSAÇÃO


Era suposto percorrermos os atalhos bravios, iniciarmo-nos nas artes de farejar e perseguir os bichos, dominarmos as secretas linguagens das árvores. Todavia, Zacaria esquivava-se a ser nosso mestre. O que queria era contar histórias de caça, falar sem conversar, escutar-se a si mesmo para deixar de ouvir os seus fantasmas. Mas nós reclamávamos por outros motivos de conversação.
- Fale-nos do nosso passado.
- Minha vida é coisa de toupeira: quatro buracos. Quatro almas. Que conversa vocês querem?
- Da nossa mãe, dos namoros dela com o pai.
- Isso não, isso nunca.

Mia Couto em Jesusalém

OLHAR AS CAPAS


Textos Sadinos

Luiz Pacheco
Prefácio: Baptista-Bastos
Epitáfio: Ângela Caires
Capa e ilustrações: Rui Mesquita
Plurijornal, Setúbal 1991

Pronto. É uma história de amor, triste como o costume. As histórias de amor alegres não são para contar. As verdadeiras acabam sempre mal, duma maneira ou doutra. Com a Irene ao lado, algures em Setúbal, meti n’Os Namorados três parágrafos melancólicos. É tudo o que me resta da Fátima.

O QUE ESPERAR DO LEITOR



Espero do leitor que abra um livro de poesia como se abre uma caixa de fósforos: fazendo a cada poema o que se faz quando se risca um fósforo, para que ele se acenda e o seu fogo ilumine ou incendeie quem o lê. E é isso que eu, colocando-me na posição de leitor, espero de um poema: a capacidade de revelar nas palavras e nas imagens a música, a interrogação, a inquietação, mas também a percepção daquilo a que chamei "o mistério da beleza". É isso que procuro quando escrevo, tentando captar na convergência dos ventos os sinais de que a poesia continua a abrir horizontes surpreendentes num permanente convite à viagem para dentro e para fora de nós.

Nuno Júdice

domingo, 25 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


Não, não. Agora é a sério. Vou decidir de uma vez para sempre que sou um grande escritor. Estar à espera de que mo digam é uma estupidez. Como é que eles mo podem dizer, se não têm grandeza que o entenda?

Vergílio Ferreira em Conta-Corrente, 3º Volume

ETECETERA


Há 15 dias que a Amazónia arde e o presidente Jair Bolsonaro diz que os incêndios existem por culpa das Organizações não Governamentais que estão a incendiar a floresta para prejudicar o governo brasileiro.

1.

Umberto Eco terá dito numa entrevista que os imbecis vão tomar conta do mundo.

Olha-se em redor do dito mundo e encontramos Donald Trump, Jair Bolsonaro, Boris Johnson, Matteo Salvini, Putin, Orbán, Erdogam, outros que não lembro agora.

É provável que haja exagero na firmação de Eco, mas seria conveniente estarmos  de pés bem atrás.

O que não acontece e vamos assobiando para o lado.

2.

Os especialistas consideram que existem sinais de que a economia alemã está a parar, o que pode afectar a zona euro.

3.

«Os salários continuam inaceitavelmente baixos.»

Sérgio Rebelo economista em entrevista ao Expresso.
4.

Zita Seabra trocou o PSD pela Iniciativa Liberal.

Diz a eterna trocadora-de-partidos:

«A direita está num fosso. É preciso encontrar saídas.»

7.
 

Recorte do Público de 3 de Agosto.

5.

Teme-se que o reflexo da actuação do governo durante as greves dos camionistas, possa conduzir, nas próximas eleições,  o Partido Socialista para a maioria absoluta,

António  Costa que já era o político das contas certas também é o da ordem.

6.

Devido aos prejuízos de 400 milhões verificados até Junho, o Novo Banco vai pedir 541 milhões ao Fundo de Resolução.

7.

No dia 20 de Agosto o número de mulheres mortas, neste ano, por violência doméstica subiu para 180.

8.

De um conto de Anton Tchékhov

«— Ivan Ivánitch, conte alguma coisa de meter medo!
Ivan Ivánitch torceu o bigode, tossiu, estalou os lábios e, acomodando-se mais perto das meninas, começou:
— O meu conto começa do mesmo modo que, em geral, todas as melhores histórias russas: eu estava com os copos, confesso... Festejei a passagem do ano em casa de um velho amigo e emborrachei-me como um sapateiro. Para me justificar, direi que não foi por alegria que bebi. A alegria por motivo tão insignificante como a passagem do ano é, no meu entender, absurda e indigna da razão humana. O ano novo é tão ruim como o velho, com a única diferença de que o velho foi mau e o novo é sempre pior... A meu ver, na passagem do ano, em vez de se rejubilar é preciso sofrer, chorar e tentar suicidar-se. Não esqueçamos que o ano, quanto mais novo, mais perto nos põe da morte, mais vasta é a calvície, mais sinuosas são as rugas, mais velha é a nossa mulher, mais filhos nos nascem, menos dinheiro temos…»

OLHAR AS CAPAS


O Circo das Palavras

Eduardo Olímpio
Capa e ilustrações: Afonso
Círculo de Leitores, Novembro de 1981

Quando o Circo das Palavras chegou à Cidade dos Meninos que Gostam de Aprender, foi uma festa tão grande, tão grande, que até os pombos voavam com música dentro das asas e as fontes pintaram as gotas de água com as cores todas do Arco-Íris.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

NÃO GOSTAM DE NOS SERVIR...


Os empregados não nos querem cá e não gostam de nos servir. Acreditam que os pretos nos puseram de lá para fora porque os explorámos, perdemos tudo mas a culpa foi nossa e não merecemos estar aqui num hotel de cinco estrelas a sermos servidos como éramos lá. Os empregados preferem servir os pretos que nem nos talheres sabem pegar a servir-nos a nós, acham que os pretos são vítimas que ao fim de cinco séculos de opressão ainda tiveram de fugir da guerra. Dêem-lhes de comer como nós demos, sirvam-nos e um dia vão ver, quando eles se revoltarem e quando lhes fizerem o que nos fizeram a nós, batem-lhes à porta e levam-nos de mãos atadas, vão levá-los e eu vou rir-me. Os de cá podem dizer o que quiserem que não vão mudar a minha opinião, os pretos não prestam. Também se riam para nós até terem uma catana na mão, os de cá ainda vão arrepender-se mas já vai ser tarde demais. E eu não vou ter pena nenhuma.

Dulce Maria Cardoso em O Retorno

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


O verdadeiro amor é o que acontece entre duas pessoas que já não precisam de se conhecer uma à outra.

Leonard Cohen em A Chama

RUY BELO QUE ME DESCULPE


Dou-me mal com o Verão, dou-me pessimamente com o mês de Agosto.
O Cais do Olhar sempre se ressentiu dos dias agostinianos. Nada flui como devia fluir.
Mas este Agosto tem sido o pior de todos os Agostos que pelo Cais já passaram.
Não sei as razões, talvez saiba mas daria uma trabalheira, uma inutilidade adiantar explicações.
Mas Agosto aproxima-se do seu fim e eu lembro-me sempre do meu pai:
«Em Setembro voltamos a ser gente»

OLHAR AS CAPAS


A Chama

Leonard Cohen
Prefácio:
Adam Cohen
Tradução: Inês Dias
Capa: Carlos César Vasconcelos
Relógio d’Água, Lisboa, Janeiro de 2019

EU NÃO SABIA

Sabia que era fraco
Sabia que eras forte
Não ousava ajoelhar-me
Onde não pertencia

E se quisesse tocar
A tua beleza com a mão
Vinham as bolhas e o sangue
Que eu entenderia

Rasgaste os teus joelhos
E a solidão revelou-se
Puxando este coração por nascer
De correntes que não cediam

Mas enfraquecida pelo esforço
Caíste sobre a minha alma
A alma ferida
Que a mente nega
Até a recompres

Já posso amar a tua beleza
Embora pareça de longe
Até o meu mundo neutro aceitar
Quão íntima tu és

Às vezes estou tão sozinho
Que não sei o que fazer
Trocava a minha reserva de tédio
Por uma dose de ti

Eu não sabia
Eu não sabia
Eu não sabia
Que precisavas tanto de mim

QUOTIDIANOS

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS



Os Crimes das Meias de Seda

Anthony Berkeley
Tradução: E. Lass
Capa: lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 196
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Roger circunvagou o olhar pelos rostos pensativos dos seus colegas, e sorriu. Estava bastante contente consigo próprio, e desejava uma vítima. A sua escolha recaiu sobre Moresby.
Levantou-se, e deu-lhe uma pancadinha nas costas.
- Sabe o defeito que vocês têm, vocês, os verdadeiros detectives da Scotland Yard? – perguntou-lhe afectuosamente. – É o de não lerem muitos romances policiais.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO



Escrever uma página inspirada não acontece todos os dias. Às vezes movemos o pensamento pelos atribulados caminhos do doméstico, que corrompem a subtileza e a graça; outras vezes pomos na cabeça o nosso gorro sábio, e resulta uma enfadonha tabuada de sentimentos

Agustina Bessa-Luís

OLHARES


Corria o ano de 1950, Bilhete Postal de Afonso Duarte a agradecer a Carlos de Oliveira ter-lhe enviado os seus livros Terra da Harmonia e Descida aos Infernos.

QUOTIDIANOS


João Caramês, médico-dentista, diz hoje no Diário de Notícias-on line:

«Portugueses são dos mais desdentados da Europa.»

O Serviço Nacional de Saúde não tem condições para prestar assistência dentária aos portugueses. Resta a medicina privada, mas uma ida a um consultório de doutor dentista custa os olhos da cara e mais alguma coisinha!...

Por dentes, num delicioso filme de Francis Ford Coppola, Peggy Sue Casou-se, Kathleen Turner tem este diálogo com o avô:

- Avô!
Sabe, quando o senhor e a avó morrerem a família morre convosco. Não voltarei a ver os primos.

- O “strudel “da tua avó é que mantém esta gente unida.

- Se pudesse voltar a fazer tudo de novo, avô, que faria de modo diferente?

- Trataria melhor dos meus dentes.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


O rio flui, flui para o mar. Onde quer que o rio vá, é onde eu quero estar.

Roger McGuinn em Ballard of Easy Rider

Legenda: Rio Mississipi

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No tempo da morte de Peter Fonda, uma lembrança, escrita por um tal de Gin-Tonic, e encontrada no blogue Ié-Ié:

EMI RECORDS - SSL 5018

Lado 1

The Pusher (Stepenwolf) – Born To Be Wild (Steppenwolf) – The Weight (Smith) – Wasn’t Born To Follow (The Byrds) – If You Want To Be a Bird (The Holy Modal Rounders)

Lado 2

Don’t Bogart Me (The Fraternity Of Man) – If Six Was Nine (The Jimi Hendrix Experience) – Kyrie Eleison Mardi Gras (The Electric Prunes) – It’s Alright Ma (Roger McGuinn) – Ballad Of Easy Rider (Byrds)

Há cenas de filmes que nos perseguem pela vida.
Como por exemplo aquela de um ainda desconhecido Jack Nicholson a sair da prisão em “Easy Rider". Era um cliente habitual da casa pelas suas costumadas bebedeiras.

Wyatt e Billy são presos por desfilarem de mota, sem terem licença para tal, no meio de uma parada do Carnaval de New Orleans. Batem com os costados na mesma cela onde está o Dr. Hausen.

Hausen é um advogado, filho de boas famílias e a quem, pela manhã, os policias levam uma aspirina para aliviar a ressaca.

Billy - Achas que consegues tirar-nos daqui sem problemas?

Hausen: Se não mataram ninguém, não há problema. Desde que não tenha sido um branco.

Por 25 dólares são postos em liberdade. Já na rua, Hausen saca do bolso do casaquinho branco uma garrafa de whisky.

Isto é para começar o dia, amigos.

Ergue a garrafa aos céus e grita: Ao velho D.H. Lawrence.

Bebido o gole de whisky faz um esgar trágico de sentir o mundo a desabar em cima dele e bate com o braço no corpo gritando “nique, nique, nique” fornecendo o informe que se trata de um grito índio.

Tem um cartão no bolso da “Casa das Luzes Azuis” de Madame Tinkertoy, “o bordel mais chique de toda a região do sul”.

Seria bom irem até lá. Partem os três estrada fora, nas suas lindíssimas motas, enquanto, em fundo, se ouve os Holy Modal Rounders a cantar “If You Want To Be a Bird” e as paisagens da América profunda vão desfilando, as estradas de que Luís Mira fala nas suas “Crónicas da América”.

“Easy Rider” é um filme realizado, em 1969, por Dennis Hopper que, juntamente com Peter Fonda o interpreta. É o filme de uma geração.

Eles não têm medo de ti, têm medo do que tu representas – a liberdade!

Dennis Hopper morreu sábado vítima de cancro. Tinha 72 anos. Um tipo com mau feitio, dizem, mas um artista de gabarito: escritor, pintor, fotógrafo e coleccionador de Arte.

Há uns tempos dele aqui falámos a propósito de “Blue Velvet”, do David Lynch. Uma das suas últimas aparições em público deu-se em Março deste ano, para receber uma estrela com o seu nome no passeio da fama de Hollywood, a número 2.403.

Confessou: diz-me muito, acreditem!

Por ele, fica aqui a capa da banda sonora de “Easy Rider” e também o disco dos Byrds, “Ballad of Easy Rider".

Chega um tempo em que os degraus são só de descida. Também não sabe por que carga de água, pelo meio da prosa, se foi lembrar do Guy Debord.

É quase um rapaz da mesma geração, quando nasceu tinha o Guy 14 anos. O seu livro “A Sociedade do Espectáculo” foi assim como que uma bíblia para os que, em Maio de 68, andaram pelas ruas de Paris para que os tempos mudassem.

Algures deixou escrito algo que Dennis Hopper teria gostado de ouvir: embora tenha lido muito, bebi mais. Escrevi muito menos do que a maior parte das pessoas que escrevem; mas bebi muito mais do que a maioria das pessoas que bebem.



PETER FONDA (1940-2019)


No dia 16 de Agosto morreu Peter Fonda. Tinha 79 anos.

Filho de Henry Fonda, irmão de Jane Fonda.

Borrifou-se em Hollywood, preferiu ser um independente, deixa para a História do Cinema «Eassy Rider», ao lado de Dennis Hopper, um filme que custou 342 mil euros e rendeu 36 milhões.

«Enquanto lamentamos a perda deste homem doce e encantador, também desejamos que todos celebrem o seu espírito indomável e o seu amor à vida. Em homenagem a Peter, por favor, façam um brinde à liberdade», pode ler-se num comunicado escrito pela família.

Luís Miguel Mira, numa das suas crónicas sobre a América escreve  sobre Easy Rider:

«Easy Rider” é, como se sabe, um marco da “Contracultura” americana dos anos 60/70 e um dos filmes que deu maior impulso ao surgimento de um novo tipo de cinema na América, aquilo a que Peter Hiskind chamou a “Nova Hollywood”.

 E é em Krotz Springs, no Louisiana, a muito poucas milhas da “Highway 61”, que acaba  “Easy Ryder”, naquela pavorosa cena final em que os dois “motards” interpretados por Peter Fonda e Dennis Hopper são mortos a tiro de caçadeira por um duo de inofensivos agricultores locais, “just to watch them die”, como na canção do  Johny Cash. E depois a câmara sobe até ao céu deixando ver os corpos deitados e a mota em chamas e aparece um rio que poderia ser o Mississippi, mas não é, enquanto Roger McGuin arranca lentamente com a “Ballad” que acompanha o genérico final:

“The river flows, it flows to the sea
Wherever that river goes, that’s where I want to be”

Uns dias antes, pouco antes de ter sido ele próprio morto à paulada pela calada da noite, o jovem advogado interpretado por Jack Niicholson, que bebia whiskey pelo gargalo em memória de D.H. Lawrence, já lhes tinha explicado, em conversa, porque razão eles iriam morrer:

“- Sabem, este costumava ser um país formidável. Não compreendo o que se passa…
- Acobardaram-se todos, é o que é. Nem num hotel de 2º…. num motel de 2ª conseguimos entrar. Acham que os vamos degolar ou coisa assim…Têm medo.
- Não têm medo de vocês, têm medo do que vocês representam.
- Só representamos quem precisa de cortar o cabelo…
- Não. O que vocês representam é a liberdade.
- E que mal tem a liberdade…? Ela é o mais importante.
- Ela é o mais importante, sim senhor, mas falar dela e vivê-la são duas coisas diferentes. Quer dizer, custa muito ser-se livre quando se é comprado e vendido no mercado. Mas nunca lhes digam que não são livres senão vão matar e mutilar só para provar que são. Vão falar convosco e falar convosco e falar convosco sobre liberdade individual. Mas quando veem um individuo livre, sentem medo…
- Mas isso não os põe a fugir assustados…
- Não. Torna-os perigosos…”

Se nenhum outro mérito tivesse, “Easy Rider” ficará sempre, para mim, como o filme premonitório do fim de um Sonho, o final de uma Utopia...Quase a acabar o filme já Peter Fonda tinha desabafado, com ar dolorido: “estragámos tudo…”.


O filme foi lançado em Julho de 1969. Em Agosto desse ano, Woodstock ficou célebre mas já não correu muito bem. Altamont, em Dezembro, foi um desastre… No ano anterior tinham sido assassinados Martin Luther King Jr e Robert Kennedy. A América tão depressa não voltaria a ser a mesma…»

OS NÁUFRAGOS


O mundo viaja.
Há mais náufragos do que navegantes.
Em cada viagem, há milhares de desesperados que morrem sem completar a travessia para o paraíso prometido onde até os pobres são ricos e todos vivem em Hollywood.
Não duram muito as ilusões dos poucos que conseguem chegar.

Eduardo Galeano em O Caçador de Histórias

OUTRA


Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: – a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!

António Botto em Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa de Eugénio de Andrade

Legenda: pintura de Pablo Picasso

domingo, 18 de agosto de 2019

QUOTIDIANOS


O governo vai decretar que os dias da crise energética chegaram ao fim.

O Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas, após uma semana de luta, anunciou o final da greve.

Quanto, ganharam, ainda mais, as empresas petrolíferas?

Trabalhadores por um lado, patrões por outro, o governo a servir de árbitro entre as partes, uma arbitragem que tendeu mais para o lado do patronato e, face a esses sinais, a ministragem arbitral foi murmurando que era importante que o país não parasse que os portugueses tivessem umas férias sem sobressaltos.

O estranho desta greve é que os responsáveis das petrolíferas não foram chamados pelo governo e mantiveram um silêncio ensurdecedor.

Importante é que os trabalhadores, de uma vez por todas, exijam melhores salários, melhores condições de trabalho e que os diversos subsídios, que as empresas pagam por debaixo da mesa, sejam declarados.

Os dinheiros não declarados, que agora recebem, sabem bem mas em caso de baixa médica, subsídio de desemprego ou reforma futura, não servem para nada!

sábado, 17 de agosto de 2019

QUE MAIS IRÁ ACONTECER?


É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).
A pedra que sustenta a abóbada desta acusação, a clé de voûte deste escândalo artístico, é a tal "pressão". Aparente palavrinha, só isso, mas fonte de grande mistério. Lembro aos leitores, todos os domingos, todos os canais televisivos portugueses dedicam, cada um deles, meia dúzia de maduros a debater a impenetrável questão: foi suficiente a "pressão" nas costas do avançado para marcar penálti ou não? Nunca, mas nunca, ouvi unanimidade. Vamos também no caso deste Domingo não concordar todos. Que pressão, por causa do amor (talvez aqui só numa vertente), usou o tenor com cada uma das senhoras?
O jornal El País, ontem, referindo-se ao caso, citou uma frase de Norman Lebrecht, um dos críticos de ópera mais conhecidos no mundo: "A relação entre a batuta e o pénis é mais poderosa do que muitos maestros estariam dispostos a reconhecer." E mais outra frase: "Os abusos de poder na música são uma rotina, já que toda a autoridade vem de um homenzinho com um pequeno bastão." O crítico falava de maestros mas poderia fazer sentido trazê-lo para o caso de um tenor, não fossem frases dessas prestarem maior tributo aos efeitos especiais do que à verdade. E nunca me esqueço de como estive quase para perder grandes obras-primas de Hitchcock, tão boas sobre coisas simples da vida, e tão pirosas pelo parolo preito americano aos psicanalistas, nos anos 1950 e 60.
Afirmações em forma de denúncia feitas, e sem acusação judicial ou policial, já Plácido Domingo não será Romeu, no próximo espetáculo em São Francisco. Está aí a primeira ironia. Até no Romeu e Julieta, de Gounod, lhe fecham a porta. Desde o primeiro ato, e dura por todos os cinco, Romeu e Julieta amam-se ao primeiro olhar, "oh, anjo adorável!", gorjeia ele, falam-se com um balcão de permeio, sem conflito nem briga, se há mortes no fim é por engano - entre os dois não há pressão de quem quer que seja. E muito menos não há autoridade de um homenzinho com curto bastão. Ambos iguais, os do casal. Não sem razão, o libreto é inspirado em peça de Shakespeare, homem de outro século que não os que alimentaram os sentimentos exacerbados da ópera.
A maior das ironias está neste castigo da Ópera de São Francisco, e já se diz que outras se seguirão, quando tudo o que a imensa maioria das óperas cantam são, justamente, as pressões amorosas exacerbadas dos seus (e suas) personagens. Em La Traviata, de Verdi, Violeta está prometida a um barão, mas, logo no primeiro ato, quando Alfredo lhe é apresentado, ele declara-se. Violeta diz que é noiva, mas sempre lhe oferece uma rosa que trazia no peito... No segundo ato já eles estão no propriamente ato. Carmen, Fidelio, La Bohème... a lista é longa e quase unitemática: há um que toma a iniciativa e outra que hesita (ou ao contrário, em Carmen), convencem ou/e traem. Na Fidelio há mulher que por amor ao homem se veste de homem, levando outra a amá-la julgando-o homem... O amor em todas as suas vertentes nunca é linear e por isso as óperas nos empolgam e tão bem contam. A ópera devia ser a última a julgar Plácido Domingo.

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Centeio que Mata

Agatha Christie
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 225
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Era a vez de Miss Somers fazer o chá. Miss Somers, a dactilógrafa mais recente e inapta, estava longe de ser jovem e tinha um rosto suave e triste, como o de uma ovelha. A água ainda não fervia quando a deitou no bule, mas a pobre senhora nunca sabia ao certo quando a água estava a ferver. Essa era uma das muitas contrariedades que lhe amarguravam a vida.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


Não confiem em ninguém com mais de 30 anos.

Declaração lançada, no dia 15 de Agosto de 1969 no Festival de Woodstock

SARAMAGUEANDO


Verão, Agosto, feriado católico dito da Assunção da Virgem Maria ao céu.

Como seriam as tardes de Verão de José Saramago na sua casa da Parede onde começou a viver a partir de 1955?

Em 1956 fez-se sócio do Clube Nacional de Ginástica com o número 488, dedicando-se a praticar ténis.


Casado com a pintora Ilda Reis têm uma filha, Violante, que, narra a Joaquim Vieira ter  «a memória de que a casa onde vivia era diferente da das outras crianças, pela quantidade de livros que o pai para lá levava e de quadros que a mãe pintava.»

Anos de desassossego, incerteza profissional.

Complicações familiares e profissionais que o colocaram à beira de um colapso nervoso que o deixou «positivamente arrasado», como diz em carta, datada de 24 de Fevereiro de 1963, para Jorge de Sena.

Um romance com fraquíssima aceitação por parte dos leitores e da crítica, um segundo romance perdido no armazém de uma editora, outros romances iniciados e nunca terminados.

«Serei eu um dia um escritor?»

Agustina Bessa-Luís, numa entrevista, dirá que José Saramago não é um grande escritor, apenas o produto de diversas circunstâncias.

Saramago replicará: «Mesmo que eu demoradamente explicasse, Bessa-Luís não compreenderia que nunca pretendi ser um grande escritor, mas um escritor simplesmente.»

A Rua Trindade Coelho, na Parede, é uma rua sossegada. Ainda seria mais na época em que Saramago por ali viveu.

A rua fica próxima da estação do comboio.

Saramago nunca teve carro. 

Muito perto vivia Fernando Lopes Graça e sempre tiveram um pelo outro uma grande amizade não só  pela sua militância no Partido Comunista mas também pela via intelectual.

Joaquim Vieira diz que a casa era um rés-do chão no nº 2 da Rua Trindade Coelho mas esse número, hoje, não existe. A rua começa no nº 12.

Após o casamento de Violante em 1970, Saramago divorcia-se de Ilda Reis, e após 15 anos, abandona a casa da Parede e vem viver para Lisboa.

AINDA O EM ÓRBITA


O mítico programa de rádio Em Órbita, teve a sua primeira emissão no dia 1 de Abril de 1965.

Passados 50 anos dessa data, A Antena 1 realizou uma emissão especial conduzida por António Macedo.

Foram convidados Pedro Albergaria, Pedro Castelo, Cândido Mota, José Cid e José Ribeiro.

Sempre me fez uma enorme confusão o facto de os responsáveis, como primeira canção portuguesa passada no programa, terem escolhido A Lenda de El-Rei D. Sebastião interpretada pelo Quarteto 1111, onde pontificava José Cid.

Dizem, Paul McCartney é um dos donos dessa afirmação, que os Beatles chegaram ao fim pela aparição da japonesa Ioko Ono na vida de John Lennon.

Jorge Gil nunca escondeu que o Em Órbita iniciou os seus passos finais a partir do dia em que essa canção do Quarteto 111 passou no programa.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Telefonia

Matos Maia
Prefácio: Adriano Duarte Rodrigues
Capa: A. Rochinha Diogo
Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 1995

Criar Gosto (como na qualidade que reúne todas as outras), e a procura de novas formas do Dizer Radiofónico, constituem as duas únicas linhas onde se inscreve o horizonte comum a toda a vida do Em Órbita. Se hoje em dia ele for somente entendido e classificado como um “programa de música erudita”, todo o trabalho investido ao longo de quase trinta anos terá sido mal compreendido, ou então teremos falhado no modo como procurámos atribuir-lhe uma identidade própria – que deveria afirmar-se como algo autónomo e independente da música que transmite.
Há contudo razões para acreditar que assim não sucede, já que existem provas seguras da existência de um público que se manteve fiel ao programa, a despeito das mudanças por ele experimentadas com o passar dos anos.
A permanência desse auditório, assim como a conquista de um outro que foi aderindo ao movimento da redescoberta do verdadeiro espírito da Música Antiga (oculto durante vários séculos), não pode decorrer apenas de um fenómeno de identificação mimética do gosto dos ouvintes com as opções que foram sendo assumidas pelos responsáveis do Em órbita.
Não foi só a qualidade da música transmitida que permitiu ao programa manter um público fiel.
O modo como ele questionou o Dizer Radiofónico, e as formas encontradas para levar à prática os resultados de semelhante indagação, estão igualmente na origem daquilo que atribuiu ao Em órbita a condição própria de um “objecto familiar”, à semelhança daqueles retratos antigos de família que não se podem perder – porque nos dizem sempre coisas novas.
Se o programa não tivesse despertado intimidades afectivas naquelas regiões da alma onde as coisas ganham a força do que é credível, nunca teria havido condições para a mudança radical que se operou no início de 1974, quando a chamada música erudita estava excluída de qualquer estação de rádio de vocação comercial.
E se foi possível levar por diante semelhante projecto, com naturais perdas de audiência nos primeiros anos, é porque já existia uma audiência cuja generosidade a tornava receptiva à semente de um gosto musical mais rico e profundo.»
Palavras de Jorge Gil que explicam opções, dão definições e caracterizam espaços e fronteiras para um dos grandes programas de rádio portuguesa e que marcou toda uma geração.
Fundamental para um completo entendimento do espantoso feed-back que o Em órbita provocou é o ter-se em conta que não foi só pela qualidade da música que o programa se consagrou. Foi também por um nível altíssimo de qualidade técnica que contrastava com o desleixo e o amadorismo generalizados na nossa rádio.Uma das mais brilhantes análises ao Em órbita, foi feita, no Expresso, por Rui Vieira Nery:
«Tudo começou com um grupo de jovens profissionais da rádio que em meados da década de 60, em pleno reino do nacional-cançonetismo, de Rafael e de Gianni Morandi, tocava regularmente o que de melhor e mais avançado se fazia na música popular anglo-americana, constituindo um espaço radiofónico alternativo que serviu de referência de qualidade a toda uma geração marcada pelo movimento associativo universitário, pela resistência antifascista, pelo trauma da guerra colonial, pela ruptura com os códigos morais pequeno-burgueses dos filmes cor-de-rosa de Doris Day e Marisol. Depois veio o 25 de Abril, a geração que se formara ao som do Em Órbita entrou de uma vez por todas na esfera do poder e o próprio grupo dos responsáveis pelo programa se dissolveu enquanto tal para gradualmente se ir convertendo – com diferentes graus de felicidade conforme os casos no novo núcleo dirigente da rádio portuguesa».
Mas a vocação alternativa do Em Órbita não se tinha esgotado, quando a consagração institucional do seu primeiro figurino ameaçava transferi-lo das convulsões do desafio para a rotina fácil do sucesso, o programa reconverteu-se radicalmente em termos que muitos consideram quase suicidas e dedicou-se exclusivamente à música erudita, com destaque para o repertório barroco. Os seus níveis de audiência desceram vertiginosamente e tudo indicava que a sua própria sobrevivência estaria em breve seriamente ameaçada.
A nova aposta do Em Órbita assenta sobretudo não só na promoção de um repertório pré-romântico quase desconhecido entre nós como na insistência na sua execução com instrumentos e práticas interpretativas originais, um movimento que em toda a Europa lutava ainda arduamente pela conquista de uma credibilidade que lhe era negada pelos herdeiros da tradição interpretativa oitocentista.
O combate de Jorge Gil, que ficara sozinho à frente do programa, começou pouco a pouco a surtir efeito. Os níveis de audiência começaram de novo a subir (no início da década de 80 eram já dos mais altos da rádio portuguesa) e a consequência mais evidente deste fenómeno que se foi verificando foi uma procura crescente de gravações de música antiga no mercado discográfico nacional.