quinta-feira, 30 de setembro de 2010

DOCE OUTUBRO

Amanhã começa Outubro.
Nos meus tempos as aulas começavam no dia 1 de Outubro, apresntação no ginásio do Liceu Gil Vicente: alunos, pais, o reitor, os professores.
As aulas da Primária começavam a 7 de Outubro.
Já se andava de camisolas de gola alta, gabardines e sobretudo. Chovia quase todos os dias.
Agora as aulas começam no meio de Setembro e chegamos a Outubro envergando as roupas de Verão.
Quando Outubro começava já a minha avó tinha feito o doce de tomate e tudo aquilo que gira em volta dos marmelos: a marmelada, a geleia e marmelos cosidos aos quartos com açúcar que se guardavam em grandes frascos de vidro.
Outubro quente traz o diabo no ventre
Em Outubro pega tudo
Outubro sisudo recolhe tudo
Quem planta no Outono, leva um ano de abono
Vindima em Outubro, que S. Martinho to dirá
É o décimo mês do ano e tem 31 dias.
No dia 1 o Sol nasce às 06h. 32 m. e o Ocaso verifica-se às 18h. 20m.
No dia 31 o Sol nasce às 07h 2m e o Ocaso acontece às 17h. 32m.
Durante o mês de Outubro o dia diminui 01h. 12m.
As mulheres nascidas em Outubro possuem uma imaginação propensa, fácil e inconsciente. Atraem simpatias pelas suas maneiras amáveis. Perfeitas nos seus trabalhos de mãos, mas pouco trabalhadoras; amam o dinheiro, Têm um carácter incompreensível e com a idade tornam-se melancólicas e más.
Os homens são inteligentes; o seu cérebro activo, apto a formar projectos, dedicam-se algumas vezes às ciências ocultas; amando os prazeres, sabem agradar pelas suas palavras e maneiras simpáticas. Alegres e pândegos na sua mocidade, de uma alegria um tanto grosseira e baixa, a solidão e a idade torna-os taciturnos.
Incensos – almíscar
Pedra – opal
Metal – cobre
Cor – rosa.
Na horta dispõem-se couves, alfaces, alhos, morangueiros, cebolas. Semeiam-se agriões, bróculos, coentros, repolhos, lombardos.
No jardim plantam-se roseiras e semeiam-se o mesmo do mês passado.
E faltam 86 dias para que seja Natal!

E NÃO É QUE ELE ESTÁ QUASE A CHEGAR?!...


Quando os tempos não eram de crise, ou de crise menos pronuciada, pois sempre le lembro de viver em crise, os primeiros sinais da chegada do Natal, aconteciam por finais de Setembro, quando os “Irmãos Castro” começavam a colocar as decorações nas ruas de Lisboa.
Agora as iluminações são a tirar para o pindérico e nem todas as ruas são iluminadas, de modo que só lá mais para a frente os “Irmãos Castros” irão aparecer.
Outro sinal é o dos “Supermercados Lidl” e hoje já estava na caixa do correio a “Dica da Semana” a informar que a partir de hoje já por lá há um “cheirinho de Natal” com Bolo-Rei a 3,49 euros e Broas Castelar a 99 cêntimos.
Bom Natal, se possível!...

MÚSICA NAS PRAÇAS


A música devia ser uma constante da vida nas cidades.
Mas não, só acontece quando há folclore.
No caso presente as comemorações dos 100 anos da República.
Sempre no sábado dia 2 de Outubro, com entrada livre,  podem ouver no Largo de São Carlos os “Pequenos Violinos da Metropolitana”, “Percussões da Metropolitana”, “Septeto do “Hot Clube de Portugal”, “Orquestra Metropolitana de Lisboa”, no Páteo Siza Viera “Quarteto de Clarinetes com Percussão, Gonçalo Pescada (Acordeão), "Quarteto com Piano de Moscovo", nas Ruínas do Carmo "Jovens Vozes de Lisboa" “Coro de Câmara Lisboa Cantat”, “Coro Infantil da Universidade de Lisboa” e no Largo da Estação do Rossio “Banda da Sociedade Filarmónica União Seixalense, “Banda da Sociedade Filarmónica 1º de Dezembro” e “”Banda da Sociedade Filarmónica Palmelense”.

DA MINHA GALERIA

Tony Curtis morreu hoje aos 85 anos.
Percorro os álbuns de postais da minha galeria e verifico que já muitos poucos são os que estão vivos.
Uma pena!

DA MINHA GALERIA

Neste dia, em 1955, morria o actor James Dean.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

GAROTICES


"As últimas semanas foram copiosas em demonstrar que Portugal é um país para se levar pouco a sério. Dois rapazolas transformaram-no num terreiro de berlinde, cada um com um abafador que destinará quem venceu. O pior é que ninguém ganha e todos estamos a perder. Um deles possui um sentido circense que legitima todo o faz-de-conta. O outro manifesta uma devoção ingénua pelo poder que, na realidade, não possui. Ambos resultam desse milagre convencional que nos fez reféns de dois partidos desprovidos de grandeza, intelectualmente asténicos e politicamente impostores."
Baptista-Bastos no “Diário de Notícias” de hoje
Legenda – “La Folle”, quadro de Chaim Soutine

AS COUVES PARA A CONSOADA


Seguindo uma tradição do meu tio Isidoro, de que as couves para a consoada deviam ir para a terra em finais de Setembro, plantámo-las hoje na quinta do Magoito.
As do Natal passado ficaram prontas três semanas antes das festas. O meu primo Mário disse que este ano as plantaríamos na segunda semana de Outubro para estarem no chamado “ ponto” na noite de Natal.
Mas a tradição familiar pesou e lá seguimos as indicações do meu tio e ei-las já na terra.
Certo que no tempo do meu tio as estações tinham os seus tempos bem definidos e por esta altura já caíam as primeiras chuvas.
Hoje fazia um calor estival e as couves precisam de muita água. Vamos a ver no que vão dar.
Para registar a efeméride, bebemos um tinto alentejano acompanhado por uns nacos de queijo e chouriça.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

IDÍLIO EM BICICLETA


Em Emigrant há um provérbio do meu agrado: “se não gostas do tempo, espera cinco minutos”. Pelo menos foi o que me disse a simpática dona do “mini-quiosque” em frente ao “meu quintal.


Texto e fotografia de Idílio Freire

AS ANDORINHAS AMARELAS


No dia 28 de Setembro de 1967 José Gomes Ferreira escrevia:

Cheguei sorridente a casa, porque vi cair folhas secas (as famosas folhas secas) do outono das árvores.
Afinal, não se trata de uma imagem literária, como eu, de tanto viver nos livros, jà inconscientemente supunha.
Vi-me hoje de repente rodeado dessas folhas – as andorinhas amarelas, como escrevi não sei onde.

José Gomes Ferreira em “Dias Comuns” Vol. II, "Publicações Don Quixote", Lisboa Setembro 1998

Legenda: Imagem tirada daqui. 

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Não sabia os nomes de todos  pássaros mas gostava de  lhes olhar o voo e ouvir o canto.
Pelo menos aqui na cidade, é cada vez mais difícil ver e ouvir os pássaros.
Esta Primavera voltei a não ver andorinhas.
Os pássaros passavam do sul para o norte e vice-versa.
As estações do ano estavam definidas no tempo.
Dizem-me que as diferenças climatéricas são uma das causas das mudanças que se verificam.
Dessas coisas, e outras, falava esse estranho e belo filme de Alfred Hitchcock a que lhe chamou “Os Pássaros”.
Mas há dias li no “Público” uma frase de Roger Tory Peterson, ornitólogo norte-americano:
“As aves são indicadoras do estado do ambiente. Se estiverem em dificuldades, então saberemos que também nós em breve o estaremos.”

MEMÓRIAS


Andando a navegar pela blogosfera, fui desaguar ao “blogue” Frenesi Loja que se dedica a vender, na blogosfera, livros em 2ª mão. Acabei por saber que Calos Faria morrera em Janeiro deste ano.. Este é o texto retirado da Frenesi:

“Lisboa, 1966
Editora Lux, Lda.
1.ª edição [única]
19,5 cm x 13,2 cm
80 págs.
capa impressa a duas cores e relevo seco
exemplar manuseado mas muito aceitável, miolo limpo
COM EXTENSA DEDICATÓRIA DO AUTOR ASSINADA E DATADA
30,00 eur

Carlos Faria, ou Karlos Faria, tendo nascido no Ribatejo foi autor de expressão açoreana, e nessa qualidade, aquando do seu recente (Janeiro de 2010) falecimento, foram os escritores Eduardo Bettencourt Pinto e Onésimo Almeida os únicos que o celebraram. Aí, no arquipélago, co-fundou suplementos literários como Glacial (no jornal A União) ou Basalto (no Correio dos Açores). Entre as dedicatórias dos seus poemas de Lisboa pode ser traçado o lugar poético de um convívio a todos os títulos interessante, a saber: José Gomes Ferreira, Herberto Helder e Mário Cesariny. E são, precisamente, os poemas dedicados a estes dois últimos aqueles que mais nos revelam acerca dos nossos anos sessenta: «Cloridrato de Heroína» e «Flash».
Do segundo:
«Bêbedo de lua
recito António Nobre e Becquer
pelas ruas de Nova York...
– certo de que na América ninguém repara
como na Europa ninguém ouve!
– “Eh, sailor! Where do you come from?”





Conheci o Carlos Faria em 1967, na cave-estúdio-casa que o  pintor Artul Bual tinha na Amadora.

Carlos Faria dizia-nos, então:

“Pânico é com Todos!” e “Pânico é incombustível”

O Helder Pinho delirava com aquela história do Pânico em plena ditadura salazarista, o Hugo Beja não percebia bem, o Armindo não tinha pachorra para excentricidades daquelas, por mim achava-o um tipo divertido. Grandes jantaradas naqueles restaurantes baratos que então havia no Bairro Alto. Andava sempre entre Angra do Heroísmo e Lisboa, a que chamava cidade pânica de reles silêncio, Kapital do Medo.

Em 1967 enviou-me o postal com o galo de Barcelos e nas costas escreveu um poema a que chamou “Epitáfio Pânico ao Galo de Barcelos”:

Um galo português é só pescoço!
- Ais de melancolia!
- “Bico” calado!
- Orelha Murcha!
- Olhos de Cegueira!
- Medo no peito!
- Coração no rabo!
- Doces, cornos farpados!
- Cornos de ½ Leca!

Depois fui para a tropa e nunca mais o vi.

Também nunca mais vi o Armindo, e o Hugo Beja passou um dia, como cliente, pela “Mariazinha” mas a Aida só se lembrou de quem era, quando já tinha saído, depois de deixar uma série de desenhos na toalha de papel, que acabámos por emoldurar e  pôr na parede da tasca e que o pintor Fernando Azevedo, cliente da “Mariazinha”, achava um belo e curioso traço.

O Helder Pinho morreu em 2003 com 55 anos. Jornalista desde os princípios de A Capital,”em 1968, não entendia a vida sem excessos e  morreu de um fulminante ataque cardíaco.

domingo, 26 de setembro de 2010

QUOTIDIANOS


“Homens há que mentem tanto e com tal arte, que correm sérios riscos a primeira vez que dizem uma verdade”

IDÍLIO EM BICICLETA


“Oh estrada onde tens estado!? Partilhamos em silêncio quantas horas, quantos minutos, quantos segundos? Olho-te de cima e tu a mim de baixo. Tenho-te admirado, não pela beleza da tua tez escura, da suavidade ou agressividade da tua pele, do risco ao lado ou ao meio ou dos lados e ao meio, ou sem qualquer risco com que te apresentas para minha sedução ou protecção. Tenho-te admirado simplesmente porque sem tu cá estares eu não estaria também. Sem tu seres, eu não seria…Tenho-te observado cuidadosamente umas vezes, superficialmente, outras, ou ignorado simplesmente o mais das vezes. E sabes que já descobri em ti uma imensidão de objectos que te são alheios, te desfeiam e a mim me atrapalham? Porcas, parafusos, pregos, abraçadeiras, molas, chaves, porta-chaves, os mais diversos bocados de ferro, toalhas, roupa diversa, vidros, para não falar das latas, plásticos, bocados de pneus esfarrapados…e algum desses objectos já me travou a marcha e irritou. Mas foram eles não foste tu…e se fosses, estavas mais que perdoada. Apesar das partidas que me pregas!”

Texto e Fotografia de Idílio Freire

sábado, 25 de setembro de 2010

OUTONO


Quando o Outono chega, as folhas caem das árvores para o chão. Aliás, deveria dizer: quando as folhas caem, é Outono. Preciso de melhorar o meu estilo. Na minha última redacção escreveram: estilo lamentável. Acho isto preocupante, mas não consigo mudar. Gosto do Outono e pronto. O ar fica mais fresco, todas as coisas sobre a terra parecem de repente tão diferentes, as manhãs são fulgurantes e esplêndidas e as noites deliciosamente frias. Mesmo assim, passeamos até muito tarde. Sobre a cidade, a montanha apresenta cores bonitas, e é triste pensar que elas já anunciam o seu próprio desaparecimento. Em breve vai andar neve pelo ar. Eu também gosto da neve embora seja desagradável vaguear por aí com os pés frios e molhados. Mas então para que é que servem as pantufas quentes e fofas e a casa aquecida? Só tenho pena das crianças pobres que, eu bem sei, não têm a casa quente. Como deve ser horrível andar às voltas sempre gelado. Não seria capaz de fazer o meu trabalho de casa, morreria, sim, sem dúvida alguma morreria se fosse pobre. Como estão as árvores! Os seus ramos ferem o ar cinzento como punhais afiados e vêem-se corvos, o que raramente acontece. Deixa de se ouvir o canto dos pássaros. A natureza é qualquer coisa. O modo como se veste de novas cores, muda de roupa, põe e tira máscaras! Esquisito. Se eu fosse pintor, o que não está fora de questão, pois ninguém sabe o seu destino, muito gostaria de ser um pintor do Outono. O meu único receio é que as minhas cores não estejam à altura. Talvez ainda saiba demasiado pouco sobre o Outono. Mas para quê preocupar-me com algo que ainda não aconteceu? Ao fim e ao cabo é ao presente que me devo dedicar. Onde é que já ouvi isto? De certeza que já ouvi estas palavras em algum lado, possivelmente ao meu irmão mais velho, que anda na universidade. Daqui a pouco é Inverno, a neve cairá em torvelinhos, oh, estou tão ansioso por isso! Quando tudo fica completamente branco, estudamos muito melhor. As cores podem atrapalhar a nossa memória. As cores são um caos delicioso. Gosto de coisas de uma só cor, de uma só tonalidade. A neve é uma canção bastante monótona. Porque é que uma cor não nos há-de tocar como uma canção! O branco é um murmúrio, um sussurro, uma prece. As cores de fogo, como estas do Outono, são gritos. O verde do pino do Verão é uma canção para várias vozes no tom mais agudo. Será isto verdade? Não tenho a certeza se está certo. Bom, o professor terá a amabilidade de me corrigir. — Tudo no mundo parece voar! O Natal já está à porta, daqui ao Ano Novo é um saltinho e daí à Primavera outro tanto, tudo avança, passo a passo. Seria de tolo querer contá-los. Não gosto de números. Sou mau a matemática embora as minhas notas sejam razoáveis. Nunca serei um homem de negócios, desconfio. Por isso os meus pais não me puseram a praticar. Eu fugiria e com que é que eles ficariam? Mas, já falei o suficiente sobre o Outono? Escrevi umas coisas sobre a neve. Isso vai dar uma boa nota na minha caderneta. As notas são uma invenção estúpida. Tive um "A" em canto e não sei cantar uma nota. Então como é? Deveriam dar-nos maçãs em vez de notas. Mas, depois, acho eu, teriam que distribuir tantas maçãs. Oh!

Robert Walser em Fritz Kocher’s Essays, citação tirada daqui

A HORA DAS NOVELAS

Banda Sonora da novela “Cabocla”
Mágoas de Caboclo – Nelson Gonçalves
Amora – Renato Teixeira
Assim é Meu Sertão – Sérgio Reis
O Trem Tá Feio – Banda de Pau e Corda
Andorinha – Gilson
Pelo Sinal – Ruy Maurity
Você Vai Gostar – Vanusa
Gosto de Maçã – Cauby Peixoto

POSTAIS SEM SELO


Agora mesmo uma rapariga, com jeito de rodopio alegre, estacou  de súbito perto do marco do correio, onde, a ondear o braço, enfiou uma carta. Depois, a sorrir sem motivo, senão o de haver sol, desatou a corre pela rua fora…
Parei a vê-la e a dizer, de mim para mim, aposto que vai voar… que vai pairar por cima dos telhados… agarrada a uma pena de leveza azul… Aposto…

José Gomes Ferreira em “Dias Comuns”, 1º volume, “Publicações Dom Quixote”, Lisboa 1990.

Legenda: Marco do Correio em Vouzela.

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI



O meu gostava muito de Franz Schubert.

Quando ouvia música clássica, Schubert comparecia quase sempre. Deliciava-se com “Trout” e tinha um prazer secreto com a 8ª Sinfonia, também conhecida por “Incompleta”.

Dos LPs de Schubert apenas existe este. Os outros, bateram asas, voaram sabe-se lá para onde.
Pelo menos eu não sei, e se eu não sei…enfim, os tais mistérios…

Porquê Schubert?

O meu pai não sabia muito bem. Acontece-me o mesmo: muita dificuldade em explicar os meus gostos.

José Rodrigues Migueis tinha de Franz Schubert esta opinião:
“Julgo por vezes compreender Schubert – dentre todos, de mim, o mais amado! – como homem: não podendo alcançar a sua Esterhazy, contenta-se com o amor de uma criada. É que os espíritos requintados e sensíveis preferem a sensibilidade dos humildes à sofistificação dos grandes (ou pseudograndes), que os atormenta de antagonismos r problemas. Assim o Poeta obscuro, meu amigo, que durante anos viveu secretamente de amores com uma varina e no dia em que ela lhe morreu se suicidou sem uma palavra de queixume.”

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Pedaços de céu, ou a memória de alguns champanhes. Sobre o champanhe poder-se-ia fazer um tratado de estética, é a bebida que empresta beleza ao que está à sua volta, é quase o paradigma da sofisticação e a verdadeira definição do estilo. O champanhe tem outra qualidade que me é particularmente grata, resiste ao “gosto duvidoso” e à piada fácil, mantendo sempre uma grande elevação. A memória dos vinhos que nos emocionaram é indissociável a lembrança do brilho dos olhos de quem connosco partilhou esse prazer.
Célia Lourenço, enóloga

UM PORTUGUÊS NA PAN-AMERICANA


Chama-se Idilio Freire e é um amigo da casa.


Na noite em que nos disse, no meio de umas fabulosas migas de bacalhau por ele confeccionadas, que ia fazer a “Pan-Americana", senti um arrepio espinha abaixo.

Pediu uma licença sabática, comprou uma “bicla” e ala que se faz tarde, pernas para que vos quero.
Tendo lido com gosto e emoção, entre outros, os livros de Emilio Salgari , reconheço que dessas enternecedoras leituras não saltou uma fagulha do chamamento daquilo a que chamam o espírito da aventura, sair porta fora, saco às costas,  em busca de...

Detesto deslocar-me. Ir a Cacilhas já me causa calafrios.

A respiração começa aos solavancos, quando se fica a saber como se percorre a estrada Pam-Americana do Alaska à Patagónia argentina, algo que lembra histórias de outro mundo.
In brief, como se diz pelos sítios em que o Idílio anda, cito do “Expresso”:
“É todo um mundo, um projecto – ou um estado de “delirum tremens”. Fazer a estrada Pan-Ameicana do Alaska à Patagónia argentina, unindo extremo a extremo do continente descoberto por Colombo, é somar 48.000 kim de estrada, através de 13 países, paisagens e climas totalmente diferentes. Da Icefields Parkway Road, no Canadá, que atravessa as Rocky Mountains ao longo de 300 kms, ao Big Sur dois EUA, na costa entre Monterey e Cambria, entre o mar e as falésias, com vistas estonteantes. Do Parque de Yellowstone às ruínas místicas da civilização maia, em Tikal, na selva tropical da Guatemala, ou em Palenque, na vasta travessia que é o México. Da América Central para a do Sul, entrando pela selva amazónica do Equador, pode cruzar o Pantanal brasileiro e descobrir inúmeras espécies animais (cuidado com os encontros imediatos com jacarés…) e encadear com a Transpantaneira boliviana (o nome diz tudo, não?), 400 km de caminho em Parque Natural. Das missões de jesuítas e do altiplano da Bolívia, a viagem prossegue pela cordilheira andina do Chile, com o regresso do alactrão para percorrer os 430 kms que separam o Deserto do Atacama de Purmamarca, na vizinha argentina. A epopeia termina na Patagónia de Chatwin, e na cidade mais austral do mundo, Ushuaia. Tenha em conta que alguns troços ficam intransitáveis na altura da estação das chuvas. Mais do que uma estrada, a Pan-Americana é uma verdaeira epopeia, de duração imprevisível.”
O Idílio começou a sua aventura em Inuvik no dia 23 de Julho, e pensa terminá-la em Setembro do ano que vem.

Tanta água que irá passar por baixo das pontes...

São 35.000 kms, uma média de 100 kms por dia, enfrentando neve, chuva e frio. 

O equipamento pesa 55 kgs, e perguntamos: como é possível?

Não é impunemente que se nasce a meio da década de 60.

Heroísmo, dizem os montanheses do Cáucaso, é aguentar um minuto mais.

O Idilio não pretende provar nada a ninguém. Apenas quer saber o que está para além do arco-íris.

Entretanto já foi tema de reportagem no “El País”.

Nasceu em Setembro de 1966 e, tal como desenhou no seu perfil,  já foi pastor, cozinheiro, agricultor, calceteiro, aprendiz de pedreiro, pintor, estudante, economista, estaticista, desportista. Curioso e viajeiro, aventureiro também. Acontece que a jornalista espanhola, deliciosamente, transformou o Idílio de pastor para sacerdote.

Uma aventura destas, “a aventura do fim do mundo e eu ouço os teus segredos mais ousados e aceito os teus desmandos e regras sem protestos”, tem  necessariamente de dar um livro e, enquanto não o temos nas mãos, podemos deliciar-nos com o relato dos dias que voam de Idílio Freire pela Pan-Americana, no seu “blog”  e ao qual deu um nome bem patusco: “Bacalhau de Bicicleta Com Todos”.

“Este blog não é de receitas (nem despesas). Pelo menos não culinárias... Pretende ser uma janela por onde espreito os meus amigos, de onde lhes acenarei e por onde vos deixarei entrar nos meus dias.”

São deliciosos os textos do Idílio, “o relato despretensioso de um biciclista que passa o tempo a pedalar, não a escrever, não a filosofar, não sociologisar, não a antropologisar.”  e maravilhosas as fotografias que nos mostra. A tal ponto que irei aproveitar algumas, e por aqui as irei apresentando, como “Idílio em Bicicleta”. Umas vezes com textos do Idílio, outras com o que calhar.

No sábado, o Idílio estava aproximar-se de S. Francisco e deixei-lhe um comentário no blog para não esquecer, tal como manda o evangelho segundo São Scott McKenzie, as flores para o cabelo.

OLHAR AS CAPAS


À Lareira, Nos Fundos da Casa Onde o Retorta Tem o Café

Manuel da Fonseca
Capa de Armando Alves
Editorial Caminho, Lisboa, Agosto 2000

“- Traga a caldeirada. Mas, ao menos, espero que seja boa.
A frase soou a Daniel como uma ofensa.
- Maria! – gritou ele – Traz daí uma panela cheia! – e para o sujeito: - Aposto que nunca comeu na sua vida caldeirada como as que eu preparo!
- É o senhor que as prepara? – interrogou o sujeito.
De olhos semi-cerrados, Daniel soltou uma gargalhada:
- E então? Que é que as mulheres além do que é próprio delas, sabem fazer bem feito? Nada!”

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O GRANDE HOMEM


O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, deixou, hoje, o recado que adoptará mais medidas de austeridade se isso for necessário para permitir o cumprimento do objectivo do défice, fixado em 7,3 por cento no final do ano.

Em 12 de Outubro de 1979, José Rodrigues Migueis escrevia:

“Nações pobres” são em geral as que se deixam governar por quadrilhas minoritárias supostamente escudados numa qualquer doutrina ou ideologia, cuja finalidade real é sobretudo o “venha a nós o nosso vintém.”

Ainda José Rodrigues Migueis, mas em 17 de Fevereiro de 1980:

“Então que me diz você ao novo governo: acha-o melhor ou pior que os outros anteriores?” “São todos uns piores que os outros!”

Sobre os povos Simone de Beauvoir deixou escrito, citando em segunda mão, em “A Força das Coisas”:

“A verdade é que eles não querem ser governados por iguais: pensam muito mal deles porque pensam mal a seu próprio respeito e a respeito dos seus mais próximos vizinhos. É «humano» amar o dinheiro e viver ao serviço dos seus interesses. Mas quando somos humanos, como os outros, não somos capazes de governá-los. O povo pede então o não humano, o sobre-humano, o Grande Homem, que será «honesto» por que está «acima dessas questões”.

DA MINHA GALERIA

Durante o mês de Setembro e seguintes, o "Canal Hollywwod" está a exibir filmes interpretados por Patrick Swayze.
Patrick Swayze morreu, vítima de cancro, em 14 de Setembro de 2009.

A UM HOMEM HONRADO

Da secção “Cartas ao Director”, a edição do “Diário Popular” de 14 de Agosto de 1961 destacava esta.

“É com prazer que o nosso jornal serve, hoje, de veículo a uma palavra dirigida a um homem honesto:
“Sr. Director – Por intermédio do “Diário Popular” desejaria manifestar, publicamente, o meu agradecimento ao sr. João da Fonseca Pereira, que achou uma carteira com determinada quantia e documentos que me faziam muita falta e que eu havia perdido. Logo que a encontrou, esforçou-se aquele senhor por entrar imediatamente em contacto comigo para me devolver a carteira com todos os seus haveres, num gesto nobre e honrado, infelizmente raro. – Joaquim Jorge Costa – Rua do Outeiro – Bucelas.”

OLHARES



Parede, Fevereiro 2008.
Vivenda junto ao Externato do Afonso.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...

O laboratório onde realizo as análises médicas, situa-se na Avenida de Roma.
O prédio é servido por este elevador de portas de correr com grades.
Dentro tem este aviso aos utilizadores:
“Este elevador tem perto de 50 anos é um “Património” com história e bons serviços prestados”.
Seguem-se diversos conselhos para a sua utilização, necessários para que continue a prestar “bons serviços”, conselhos que vão desde o fechar das portas devagar e com suavidade, encostando-as bem, ao cuidado de verificar, depois de fechadas as portas, que a luz vermelha junto ao botão de chamada se encontra apagada, pois só assim "o elevador ficará pronto a ser utilizado.”

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

BAILES DA VIDA

Claro que o José Cid não entrou nos "Bailes da Vida", mas algumas canções poderiam ter entrado.
Esta, por exemplo.

O CONTO DO VIGÁRIO


Manuel António Pina no "Jornal de Notícias" de hoje:

"A notícia ontem divulgada pela TSF de que "a polícia finlandesa está à procura de um vigarista identificado como tendo uma cara muito parecida com a de Durão Barroso e que enganou uma pessoa numa cidade a 70 quilómetros de Helsínquia" não mereceria por cá comentários não acontecesse, há uns anos, alguém com uma cara igualmente muito parecida com a do actual presidente da Comissão Europeia ter enganado milhares de pessoas numa cidade a 1600 quilómetros de Lisboa. Estava acompanhado de três indivíduos com caras muito parecidas com as de George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar, todos tendo então impingido ao Mundo a existência de depósitos gigantescos de armas de destruição maciça no Iraque, usando isso como pretexto para a invasão daquele país e para uma guerra que ainda dura e causou já centenas de milhares de mortos. Parece que o vigarista finlandês convenceu um transeunte "a comprar fatos e outra roupa de luxo que tinham sobrado de uma passagem de moda", ficando-lhe com 200 euros. Por isso tem a Polícia à perna. Ninguém anda atrás dos quatro da Base das Lajes. Nem a sua consciência."

A TODOS UM BOM NATAL!...

O Governo poderá ser obrigado a avançar com medidas adicionais de controlo da despesa pública antes do final do ano para assegurar que as metas do défice são cumpridas. O cenário é admitido pelo secretário de Estado do Orçamento, Emanuel dos Santos, que diz que o Executivo fará tudo o considere necessário para cumprir os seus objectivos.
Face a uma situação que parece cada vez mais provável, Francisco Murteira Nabo, bastonário da Ordem dos Economistas, sublinhou que, caso o Governo se veja obrigado a avançar com novas medidas de austeridade, "a não distribuição do subsídio de Natal é a medida que parece ser a mais eficaz e com efeitos imediatos" nas contas do Estado.
Daniel Oliveira no “Expresso Online”
"Se não houver 13º mês Novembro e Dezembro, os meses que podem dar algum desafogo ao pequeno e grande comércio, vão ser uma tragédia. Se forem uma tragédia as grandes superfícies vão despedir e muito do pequeno comércio vão fechar as portas. Novos desempregados vão-se juntar aos muitos que por aí andam. Não vão pagar impostos e as receitas do Estado diminuem. As receitas do Estado diminuem e o défice aumenta. O défice aumenta e o problema do endividamento público agrava-se.
A solução que se procura não resolve nenhum problema: nem o do emprego, nem o do endividamento privado, nem o do endividamento público, nem o do défice. Piora todos. Não é solução nenhuma. Decidir cortar nos rendimentos disponível quando o nosso grande problema é a falta de crescimento é apenas um tiro na cabeça."

POSTAIS SEM SELO

Em “Just As You Are” tento captar uma espécie de country. Andava a ouvir Johnny Cash e emocionei-me muito com os seus duetos com Bob Dylan. Eu nunca gostei de country. Sempre achei que era a música mais chata na história do universo, até que comecei a perceber as suas especifidades. A country tem um conjunto de regras muito difíceis: não se podem usar analogias, metáforas (excepto algumas muito pirosas), não pode ter subterfúgios, sarcasmo, ironia, apenas emoções directas, sentimentos que qualquer pessoa pode compreender imediatamente. E isso não é nada fácil, principalmente para uma pessoa como eu que joga “mind games” e brinca com a linguagem.

Robert Wyatt

terça-feira, 21 de setembro de 2010

AS MÃOS

"Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade."


Manuel Alegre em "O Canto e as Armas"

BOM DIA, OUTONO

Tenho estado à espera dele, e se bem que os dias ainda sejam quentes, já lhe sinto o cheiro.

Chegou o Outono, Outono que brilha em sol cor de laranja derramando uma luz amigável. Chamo-lhe a visibilidade dos afectos.

Albert Camus disse que o Outono é outra primavera, cada folha uma flor.

As folhas das árvores adquirem tons amarelecidos e já vão caindo sobre os jardins e os passeios. Não tarda que o homem que ali, numa esquina da Praça de Londres, e durante o Verão vendeu sorvetes, substitua o carrinho e lhe coloque em cima o assador de castanhas, cujo fumo há-de perfumar as ruas, a serenidade do cair da tarde.

As primeiras chuvas hão-de trazer o cheiro leve e puro da terra molhada
.
O Outono é o cheiro do doce de tomate que a minha avó fazia – não esqueças o pau de canela -um cheiro paradisíaco que ainda hoje viaja dentro de mim– é possível os cheiros viverem assim?

 Pelos vistos, é!

Começam a aparecer, em algumas montras de pastelarias, não em tantas como noutros tempos, as tigelas com marmelada nova, cobertas com papel vegetal.

Os pássaros voltarão em Março.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

NOS VERÕES DA INFÂNCIA O MAR FICAVA LONGE



Nos verões da infância o mar ficava longe,
atrás dos muros que davam para as falésias,
e ninguém se metia pelas ondas a não ser
os pescadores, depois de empurrarem os barcos
e puxarem as redes atrás deles. Nas esplanadas,
havia mulheres, com crianças e criadas a tratar
delas, e protegiam-se do sol com as sombrinhas
que serviam para esconder os seus olhares
furtivos, quando não queriam que vissem
para onde estavam a olhar. Nesses verões, o mar
era a única coisa que mexia, sob o céu imóvel
e um mundo que parecia tão imóvel como o céu,
enquanto as mulheres conversavam, longe
dos homens que estavam nos cafés, de fato escuro
e gravata, a discutir negócios e notícias. A burguesia
parecia eterna, nos verões antigos, e os pescadores
eram luzes longínquas, nuns barcos que a noite
escondia, e não se sabia quando voltavam, a não ser
que o farol tocasse, à noite, e já se sabia que a manhãs
eguinte era de nevoeiro. Nos cafés, os homens
não se importavam com isso, e pousavam os chapéus
à entrada, passando a manhã a discutir negócios
e notícias, até o nevoeiro se levantar, e as mulheres
encherem a esplanada de criadas e de crianças,
sem se importarem com as ondas onde nenhum
barco entrou, depois da noite de nevoeiro. Mas
as suas conversas eram mais baixas, para que ninguém
as ouvisse, e não se soubesse que o verão chegava
ao fim, como os negócios que faliam, e as notícias
que chegavam do fim do mundo a dizer
que aquele mundo chegava ao fim.

Nuno Júdice

Legenda: Fotografia de Edouard Boubat

domingo, 19 de setembro de 2010

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


A memória perdeu alguns fios e, a esta distância, não sei em que dias, no Verão, para além dos sábados e domingos, o “Cine-Esplanada” da Trafaria, realizava sessões de cinema, sessões essas constituídas pela exibição de filmes que, há algum tempo, tinham sido estreados em Lisboa.
Eu que descobri a magia do cinema, nas pequenas salas do meu bairro, tenho uma ternura muito grande por estes cinemas que, aos poucos, um pouco por todo o país foram sendo abandonados.
Os proprietários dizem que, a televisão, os “Dvds”, qualquer coisa, os impeliram ao findar do negócio, que já não lhes dava qualquer ponta de lucro.
Hoje , o “Cine-Esplanada” da Trafaria tem este desolador aspecto. Está ali à espera de uma qualquer especulação imobiliária.
Assim vai acontecendo o fim dos Cinemas Paraíso, fica apenas a memória do encontro da malta aos domingos pela tarde, a caminho do “piolho”, como uma qualquer liturgia e sem pipocas.
Também o tempo da ingenuidade, agora o começo da nostalgia.

DO BAÚ DOS POSTAIS

Postal da Várzea de Colares enviado pelo Armindo no dia 19 de Setembro de 1967:

“Para já, mais imagens de “Monserrate”.
O poema desta vez , é aquele burro…”

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

POSTAIS SEM SELO



Gostava de estar no campo para poder gostar de estar na cidade.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

DA MINHA GALERIA

Lauren Bacall.
Faz hoje 86 anos.
Charmosa como sempre, quer apenas que não lhe chamem lenda.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI

O meu avô era um tipo assaz curioso, patusco mesmo. Por chalaça, por um certo gosto anarquista, apresentava-se às pessoas como: “Mário Santos – benfiquista, republicano histórico e anticlerical”. Ficava depois a gozar o efeito das palavras.Tinha um “béguin” pelo “Johnny Guitar” de Nicholas Ray, aquele diálogo fabuloso em que Vienna pede a Johnny para lhe contar mentiras, que ainda a ama como ela o ama e o velho vaqueiro, a filosofar sobre Johnny: “tal como ele disse, só precisa de um café e de uma boa cigarrada”.

A última vez que o viu terá sido para aí, por 1965, no “Chiado Terrasse”, e essa foi a minha segunda vez. Hoje já levo mais algumas.

O meu pai também gostava do “Johnny Guitar” porque, como dizia o mestre “o cinema é Nicholas Ray”.

Este disco existe porque o meu avô pediu ao meu pai que lhe arranjasse a canção tema do filme. Naqueles tempos a oferta de bandas sonoras era quase nula, o meu pai não encontrou a interpretação da Peggy Lee e comprou esta versão em espanhol cantada pela Juanita Cuenca, uma soberba capa amarela, uma fotografia como mandavam as regras.

Anos mais tarde consegui a Peggy Lee a cantar“Johnny Guitar”. O meu avô morreu com 85 anos e já não o ouviu.

Sempre que o meu pai punha o disco a rodar, mandava descer uns “whisquinhos” e empandeirava meio maço de “Unic” tabaco negro.

Play the guitar, play it again, my Johnny, maybe you're cold, but you're so warma inside.


OLHARES

Praia do Magoito, hoje, pelas 10,30 duma manhã chuvosa e rodeada pelo cinzento do tal microclima que, amiúde, assola a região, que vem lá da Foz do Arelho e se estende até ao Cabo da Roca.

A praia não tem gente, e apenas dois sufistas se divertem com as ondas, apesar do mar, como eles gostam de dizer estar “flat”.

O lento entardecer do Verão. Não tardam as mães vivas.

O areal encher-se-á, então, dos mais diversos objectos e de pedaços de madeira, trazidos pelas marés, quais destroços de um qualquer barco que naufragou, delírio de quem viu filmes e leu livros a mais.

Alguma mensagem numa garrafa?

As praias no Outono, as praias no Inverno, as melhores praias, digo eu, agora que as de Verão se vão despedindo, já sem celebridades fúteis ou os horrorosos-acapachados-dos-chefes-de-gabinete-das-excelências-do-país e, em fundo começam a distinguir-se os sons das guitarras dos “Les Chats Sauvages”.



O Sol bem tentou romper a neblina sem o ter conseguido.

Voltará amanhã, para uma nova corrida, uma outra viagem.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

OLHAR AS CAPAS


Memórias de Cascais

Branca de Gonta Colaço e Maria Archer
Parceria António Maria Pereira, Lisboa 1943
Edição fac-similada, em Março de 1999, com os apoios da Câmara Municipal de Cascais e da Câmara Municipal de Oeiras.

Leitor amável – tu entras na moderna e simpática estação do Cais do Sodré, compras o teu bilhete, tomas lugar no óptimo comboio eléctrico, e não lanças um olhar aguçado pela curiosidade erudita.
Nem sabes o que perdes! A história dessa linha tem pitoresco, emoção, novidade, vale por um filme dos últimos cinquenta anos. Vamos indicar-te o que não viste na linha de Cascais, vamos dizer-te dela o que não sabes. E depois, quando voltares ao teu fadário de viajante de Estril-Lisboa, Lisboa-Estoril, acharás mais sabor ao desfilar dessa enfiada de povoações garridas, de casario novo em folha, de fortins para soldadinhos de chumbo, de jardins pintalgados de pelargónios, de praias doiradas e deslumbrantes aguarelas marítimas.
O princípio é dizer-te: a linha de Cascais é tão curiosa que começou por não existir…

A RIVIERA PORTUGUESA



Quando o Algarve era praias pequenas e desertas, terra de pescadores, longe da invasão de alemães e ingleses que, pelos anos 60, veio a sofrer chamavam ao Estoril a “Riviera Portuguesa”.

Hoje não sei o que lhe chamam.

Mas em 1943, Maria Archer, e Branca de Gonta Colaço escreveram um livro a que puseram o título de “Memórias da Linha de Cascais”, e chamaram ao Estoril “o fulcro irradiante da Costa do Sol.”

“O areal é pequeno, estreito inclinado, enegrecido por afloramentos de rochas, e dá pouco espaço para o espraiara da onda. A oeste, sob a água, alongam-se agora uns paredões que provocam correntes submarinas e quedas de areia na praia. Assim se conseguiu, nos últimos anos, alargar o areal para os lados do Monte Estoril.
De Verão toda a praia desaparece sob os toldos multicores.
Sobre um degrau de pedra, alto como um homem, cingido à terra, segue uma esplanada de empedrado, estendida do Monte Estoril a São João.
O “restaurant”, o balneário, com música, movimento, alegria, erguem-se na praia. A multidão espairece, Vêem-se fatos de banho janotas, tão despidos quanto o permite a lei, Vêem-se os banhistas do sol que tenteiam as audácias do nudismo, vêem-se os que nadam, os que barquejam, os que namoram, os que se exibem, os que se isolam entre o tumulto.
Uma praia da moda. A quem não encanta, diverte.
O Estoril é o mostruário da alta burguesia lisboeta.
Cada moradia, cada palacete, cada “Chalet”, ali erguidos, têm a etiqueta dum morador ou dum proprietário com situação e nome cotado e classificado no modesto caleidoscópio da vida nacional.”
Legenda: Imagem tirada do “Expresso”, 23.08.2003

DO BAÚ DOS POSTAIS


O Armindo, um velho amigo, gostava de mandar postais, de qualquer lugar, sobre tudo e mais alguma coisa.
Este refere um jantar, em Queluz, em casa do Valdemar. Também lá estava o Helder Pinho que ficava sempre à espera das sobras das papas dos meus sobrinhos Rui e Mário Pedro.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

CLAUDE CHABROL (1930-2010)



Claude Chabrol morreu ontem aos 80 anos.
Fumava cachimbo, gostava de charutos e filmes policiais.
Ele, e os rapazes que o acompanharam (Godard, Truffaut, Rivette, Rohmer), puseram o cinema francês de pantanas. A burguesia francesa seja lá o que isso for, nunca mais lhes perdoou. Eles ficaram muito preocupados!…
Os hipócritas franceses já beberam “champanhe”, por Chabrol não mais lhes dar cabo das cabecinhas ocas... Talvez estejam, neste momento, a braços com uma caganeira.
Agora é esperar que a Cinemateca, talvez já em Outubro, o recorde e eu vá limar algumas (?) lacunas da obra de Chabrol.
O saber também que, com essa evocação, virá a espantosa Isabelle Hubert.

domingo, 12 de setembro de 2010

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

OLHARES





Igreja de Durães no Concelho de Barcelos.