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sexta-feira, 5 de abril de 2019

OLHAR AS CAPAS


As Mãos Sujas

Jean-Paul Sartre
Tradução: António Coimbra Martins
Publicações Europa-América, Lisboa, Fevereiro de 1972

Jorge: Os sentimentos não se encomendam.
Hoederer: Estás enganado. Encomendam-se e por medida, quando se destinam a rapazes do mesmo partido que andam juntos em missão.
Jorge: Não somos do mesmo partido.
Hoederer: O quê? Não és filiado?
Hugo: Sou.
Hoederer: Que queres tu dizer na tua?
Slick: Somos talvez do mesmo partido, mas não pelas mesmas razões.

segunda-feira, 11 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS



A Náusea

Jean-Paul Sartre
Tradução: António Coimbra Martins
Colecção Livro de Bolso nº 133
Publicações Europa-América, Lisboa, Junho de 1976

Eu então vivo sozinho, absolutamente sozinho. Nunca falo a ninguém; não me dão, não dou nada a ninguém. O Autodidacta não conta. É verdade que há Françoise, a patroa do Rendez-vous dos Ferroviários. Mas pode dizer-se que falo com ela? Às vezes, depois do jantar, quando vem servir-me uma cerveja, pergunto-lhe:
«Esta noite você tem tempo?»
Nunca diz que não, e então sigo-a a um dos quartos grandes do 1º andar, que ela aluga à hora ou ao dia. Não lhe pago senão o quarto. Ela goza (precisa dum homem por dia, e além de mim, tem muitos outros) e eu purgo-me assim de certas melancolias cuja causa conheço perfeitamente. Mas mal trocamos algumas palavras. Para quê? Cada um por si; aos olhos dela, de resto, continuo a ser, antes de mais um freguês do café. Diz-me assim, ao despir o vestido:
«Ouça lá, você conhece um aperitivo chamado Bricot? É que houve dois fregueses, esta semana, que pediram. A rapariga não sabia, veio prevenir-me. Eram caixeiros viajantes; foi coisa que beberam em Paris, com certeza. Mas não gosto de comprar sem saber. Se não se importa, não tiro as meias.»

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

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As Moscas

Jean-Paul Sartre
Tradução: Nuno Valadas
Capa: F.C.
Colecção Presença/Nova Série nº 6
Editorial Presença, Lisboa s/d

Mas, ó meu povo, amo-vos e foi por vós que matei. Por vós. Vim para reclamar o meu reino e vós repelistes-me por não ser dos vossos. Mas agora já sou dos vossos, estamos unidos pelo sangue e já mereço ser o vosso rei. Os vossos pecados e remorsos, as vossas angústias nocturnas, o crime de Egisto, tudo isso é meu, tudo isso eu tomo sobre mim. Que vos não assustem mais os vossos mortos, pois agora são os meus mortos. E olhai: até as vossas fiéis moscas vos trocaram por mim. Mas não temais, ó povo de Argos, que me vá sentar, ensanguentado, no trono da minha vítima; um Deus mo ofereceu e eu recusei-o. Quero ser um rei sem reino nem súbditos. Adeus, meu povo, tentai viver; agora tudo é novo por aqui, tudo vai começar. Uma vida estranha. Escutai só isto: um Verão, Ciro foi invadido pelas ratazanas. Era uma praga horrível que tudo roía e os habitantes chegaram a pensar que por causa dela acabariam por morrer. Porém, um dia, chegou um tocador de flauta e todas as ratazanas se reuniram à sua volta. Pôs-se então o flautista em marcha em grandes passadas, assim gritando aos habitantes de Ciro: «Afastai-vos»! E as ratazanas levantaram a cabeça hesitantes – como as moscas. Olhai! Olhai as moscas! E depois, de repente, precipitaram-se no seu encalço. E o tocador de flauta, com as suas ratazanas, desapareceram para sempre. Assim.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

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Mortos Sem Sepultura

Jean-Paul Sartre
Tradução: Francisco da Conceição
Capa: Alves Martins
Editorial Presença, Lisboa, Março de 1961

Sorrier – A garota da quinta. Ouvia-a gritar, enquanto eles os traziam para aqui. O fogo já chegava à escada.
Lucie – A pequena da quinta? Não precisavas de nos dizeres.
Sorbier – Muitos outros morreram. Mulheres e crianças. Mas eu não lhe ouvia a agonia. Ao passo que a miúda, ainda aparece que a oiço gritar. Não podia guardar só para mim esses gritos.
Lucie – Ela tinha treze anos. Foi por nossa causa que morreu.
Sorbier – Foi por nossa causa que todos morreram.
Canoris – Vês que valia mais ficar calado.
François – E então? Já não voltamos a combater. Daqui a pouco, és capaz de chegar à conclusão de que tiveram sorte.
Sorbier – Eles não aceitaram morrer.
François – E eu aceitei? A culpa não é nossa, se a missão falhou.
Sorbier – Sim. A culpa é nossa.
François – Limitámo-nos a cumprir ordens.
Sorbier – É certo.
François – Disseram-nos: «Vão lá acima e tomem a povoação». E nós observámos-lhe: «Isso é idiota; dentro de vinte e quatro horas, os alemães estarão prevenidos». E a resposta deles foi: «Vão lá mesmo assim e tomem-na», ao que nós ripostámos: «Está bem». E fomos. De quem é a culpa.
Sorbier – Devíamos ter vencido.
François – Não tínhamos possibilidades de vencer.
Sorbier – Eu sei, mas apesar de tudo devíamos tê-lo conseguido. Trezentos. Trezentos que não aceitaram a morte e que morreram por coisa nenhuma. Estão estirados no meio de pedras à torreira do sol; deve-se poder avistá-los de todas as janelas. Por nossa causa não há nessa ladeia senão milicianos mortos e pedras. É duro morrer com esses gritos nos ouvidos.

domingo, 5 de abril de 2015

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O Existencialismo É Um Humanismo
Jean-Paul Sartre
Vergílio Ferreira

Tradução e notas de Vergílio Ferreira
Editorial Presença, Lisboa, Novembro de 1964


Do alto porém, de uma vida que já apela para um balanço, de uma obra que, se a não olharmos, a sentimos todavia como um olhar, o que de Sartre nos fala não é só o que nos fala, mas ainda o que há palavra se recusa, o silêncio que dela sobra e onde se nos instala a admiração comovida. Eis aí o «autor escandaloso» e que é o homem, diz Ponty, o «’menos provocante». Eis aí o escritor «sujo» e o homem de uma conduta moral invulgar, talvez o «santo» de que nos fala C. Rochefort. Eis o agitador, o mestre da «devassidão» e o trabalhador monstruoso de uma esmagadora, o austero pensador de um rigor que é quase rigorismo. Por sobre o amontoado legendário do equívoco, do anedótico, das fáceis interpretações, dos magazines, das esquinas do ócio, do fumo dos cafés, um homem levanta-se e a História reconhece-o. Desse tentámos falar. A esse admiramos e respeitamos.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

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A Náusea

Jean-Paul Sartre
Tradução: António Coimbra Martins
Capa: Estúdios P.E.A.
Colecção Livro de Bolso nº 133
Publicações Europa-América, Lisboa Junho de 1976

«Muito bem», digo eu, «desde que o senhor é feliz…»
»Feliz?» O olhar dele incomoda: voltou a erguer as pálpebras e fixa-me com um modo duro, «O senhor poderá julgar. Antes de tomar essa decisão, sentia-me numa solidão tão horrível que pensei no suicídio: o que me reteve foi a ideia de que ninguém, absolutamente ninguém, se comoveria com a minha morte, que ficaria mãos sozinho ainda na morte que na vida.»
«Nunca mais estarei sozinho, meu caro senhor, nunca mais.»
«Ah, conhece então muita gente?», digo eu.
Ele sorri, e imediatamente me apercebo da minha ingenuidade:
«Quero dizer que deixei de me sentir sozinho. Mas é claro, meu caro senhor, que não é necessário, para isso, estar acompanhado.»
«Entretanto», digo eu, «na secção socialista…»
«Ah! Conheço lá toda a gente. Mas a maior parte só de nome. Ouça», diz ele com esperteza, «seremos obrigados a escolher os nossos companheiros de maneira tão estreita? Os meus amigos são todos os homens. Quando vou para o escritório, de manhã, há, diante de mim, atrás de mim, outros homens que vão para o seu trabalho. Vejo-os; se ousasse, sorriria para eles. Penso que sou socialista, que são eles todos a finalidade da minha vida, dos meus esforços, e que não o sabem ainda. É uma festa para mim.»
Interroga-me com os olhos; eu aprovo fazendo que sim com a cabeça, mas sinto que está um pouco desiludido, que pedia mais entusiasmo. Que lhe hei-de fazer? Será culpa minha se, em tudo quanto ele disse, reconheço incidentalmente as ideias de outros, as citações? Se vejo reaparecer, enquanto ele fala, todos os humanistas que conheci? Ah, conheci tantos! O humanista radical é amigo especialmente dos funcionários. O humanista dito «da esquerda"» tem como preocupação principal a de conservar os valores humanos: não adere a nenhum partido para não trair o humano, mas as suas simpatias vão para os humildes; é aos humildes que consagra a sua bela cultura clássica. Em geral é viúvo e tem uns bonitos olhos sempre húmidos de lágrimas: nos aniversários chora. Gosta também dos gatos, dos cães e de todos os mamíferos superiores. O escritor comunista gosta dos homens desde o segundo plano quinquenal: castiga porque ama.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

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As Palavras


Jean-Paul Sartre
Tradução de J. Guinsburg, revista por Fernanda Botelho
Capa: José Cândido
Livraria Bertrand, Lisboa s/d

É o meu hábito e é, também, o meu ofício. Durante muito tempo tomei a pena por uma espada; agora, conheço a nossa impotência. Não importa: faço e farei livros; são necessários; sempre servem, pesar de tudo. A cultura não salva nada nem ninguém, não justifica. Mas é um produto do homem: o homem projecta-se nela, reconhece-se nela; só esse espelho crítico lhe devolve a própria imagem.

Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

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Kean

Alexandre Dumas
Adaptação de  Jean-Paul Sartre
Tradução de Fernando Midões
Capa de Álvaro Martins
Editorial Presença, Lisboa s/d

Não se representa para ganhar a vida. Representa-se para se mentir, para se ser o que não se pode ser e não ser o que se é. Representa-se para não nos conhecermos e para nos conhecermos demasiadamente. Representam-se heróis porque somos cobardes e santos porque somos maus; representam-se assassinos porque se morre do desejo de matar o próximo, representa-se porque se é mentirosos de nascença. Representa-se porque se ama e se detesta a verdade. Representa-se porque ficaríamos doidos se não representássemos. Representar! Eu próprio saberei quando represento? Haverá algum momento em que eu deixe de representar? Olhai para mim: detesto as mulheres ou represento  detestá-las? Represento para vos causar medo e vos desgostar ou será que minto verdadeiramente e muito maldosamente desejo fazer-vos pagar pelas outras?