terça-feira, 21 de julho de 2026
TRUMPALHADAS
O corrupto Infantino, presidente da FIFA, ainda tentou tirá-lo da fotografia de consagração dos campeões do Mundo, mas Donald Trump nunca, mas nunca mesmo, resiste a mais uma palhaçada!
À LUPA
Olham-se as notícias do dia, e no que toca ao governo, que alguns nos deram em sorte, reparamos que as culpas são de todos, menos do primeiro-ministro, menos dos ministros!...
OLHAR AS CAPAS
Fragmento
e Enigma
José
Antunes Ribeiro
Capa:
António Pimentel
Colecção
Imagem do Corpo nº 30
Ulmeiro,
Lisboa Novembro de 1985
Quem
saberá toda a verdade de ti? E o que é a verdade? Falavas da mentira com grande
ênfase. E o que é a mentira? Será o contrário da verdade?? Dizia o velho sábio:
a verdade é o contrário da não-verdade. Tu disseste: prefiro o contrário de
quase tudo. Eu disse: eis aqui uma pessoa sensata.
SABER SEMPRE ONDE ESTÃO AS COSTAS
Saber sempre onde estão as costas
e
o norte.
Deixar
de repetir a palavra
Ainda
Como
se pudesse salvar-me da chuva
Inesperada.
Margarida
Ferra em Sorte de Principiante
segunda-feira, 20 de julho de 2026
POSTAIS SEM SELO
… peço desculpa se não citei alguém ou se citei alguém. Devo tudo a todos e ninguém me deve nada.
Ruy
Belo
NOTÍCIAS DO CIRCO
A
extrema-direita nunca gostou de Luís Neves, o ministro da Administração
Interna.
O
jornalismo de sargeta, que a apoia, tem vindo a cozinhar o caldo habitual que,
nestas circunstâncias, pratica e onde há de tudo.
O
presidente daquela coisa, com o seu costumaz timbre histérico, escreveu ao primeiro-ministro
exigindo a demissão imediata de Luís Neves e mais um par de botas.
Diga-se
que, vá lá saber-se porquê, que o ministro se colocou a jeito.
O
ruidoso silêncio que passou a praticar, de modo algum lhe é favorável.
Teremos que esperar as cenas dos próximos capítulos, como o bom senso aconselha!...
OLHAR AS CAPAS
Poetas
Húngaros
Antologia
Organização, Prefácio e Notas:
Zoltán Rózsa
Capa:
Vitorino Martins
Moraes
Editores, Lisboa, 1983
Como
era ela, loira…
Eu
já não sei como era loira ela,
mas
sei que os campos, esses, loiros são
no
pleno Verão, numa espiga amarela;
e
assim a vejo, loira como o pão.
Já
não sei do azul dos olhos dela,
mas
abrem-se, porém, no Outono, os céus,
e
de novo a cor dos olhos se revela
quando
Setembro finda e diz adeus.
E
já não sei também da voz de seda e bela;
mas
vem a Primavera sussurrante
e
a quente voz de Ana fala, apela
de
outra Primavera tão distante.
Gyula
Juhász
(Tradução
literal de Zoltán Rózsa
versão de Predo Tamen)
TRUMPALHADAS
«Donald Trump está desesperado. Resta-lhe o caos.
Enquanto Rubio e Trump elaboram sobre os “inimigos” da América, o ICE (a
polícia de fronteiras e de imigração) mata gente inocente nas ruas das cidades
americanas com uma impunidade assustadora. Depois do que aconteceu no Minnesota
em Janeiro deste ano, foi agora a vez de Houston e do Maine. No Minnesota, o
ICE assassinou uma jovem mãe de família que seguia no seu carro e que não terá
parado às ordens dos seus agentes, e um enfermeiro que tentava socorrer uma pessoa
caída no chão quando o ICE atacou uma manifestação de protesto contra as suas
investidas contra os imigrantes. Chamavam- se Renée Good e Alex Pretti. Desta
vez foi em Houston, quando abateram a tiro um pacífico cidadão mexicano,
Lorenzo Salgado Araujo, construtor civil de profissão, a viver nos EUA há 35
anos, que conduzia o seu carro numa rua da cidade, aparentemente com uma única
justificação: era latino. Queriam parar a viatura? Como disse a procuradora da
cidade, atiravam para os pneus. Começaram por dizer que se enganaram. Agora
dizem que havia um pó branco dentro do carro. Agem com o descaramento de quem
sabe que ninguém os chamará à responsabilidade. O Departamento de Segurança
Interna da Administração federal ainda falou em averiguações. Trump corrigiu-o,
dizendo que eles têm de manter a ordem nas ruas. No Texas, está em causa a
eleição de um senador nas eleições de Novembro e as sondagens dizem que o
candidato democrata, James Talarico, pode vencer o republicano, coisa que não
acontece no maior estado americano há mais de 40 anos. No Maine, o mesmo ICE
assassinou outro pacífico cidadão, um jovem pai de 25 anos que ia com a filha
no carro e que não terá parado às suas ordens, tal como em Houston. Chamava-se
Joan Sebastian Guerrero. Estava legalmente nos Estados Unidos. Tinham em comum
o facto de serem latinos. Os agentes do ICE fazem-se transportar em carros não
identificados.»
Teresa de Sousa, Público 19 de
Julho
2) «Lorenzo Salgado Araujo
(1973-2026), morto pela manhã.
Segundo estimativas conservadoras, os cortes efectuados pelo DOGE de Elon Musk
na Agência para o Desenvolvimento Internacional provocaram já a morte de 700
mil seres humanos, a maior parte dos quais crianças. De acordo com a insuspeita
e prestigiada revista The Lancet,
tais cortes levarão à morte de 9,4 milhões de pessoas, pelo menos, até 2030. É
mais do que os judeus mortos no Holocausto, é praticamente toda a população de
Portugal, liquidada de uma penada, por uma decisão impensada. Lembre-se disso
quando decidir comprar um Tesla ou navegar na rede X.
Lorenzo Salgado Araujo (1973-2026), morto pela manhã
Nada que cause espanto num país em que Richard Sackler, o principal responsável
pela crise dos opióides — que já matou cerca de um milhão e 250 mil pessoas —,
dorme tranquilamente na sua mansão em Boca Raton, ao sol da Florida, enquanto
um homem da Califórnia foi condenado a 50 anos de prisão, sem liberdade
condicional, por ter furtado cassetes de vídeos infantis no valor de 153
dólares numa loja Kmart ou outro, no Alabama, cumpre hoje pena de prisão
perpétua por ter trocado a etiqueta do preço de um tapete de automóvel e ter
tentado sair da loja sem pagar.»
António Araújo, Público 19 de Julho
ENTRE O INFERNO E OS ANJOS
Se o amor se vestisse
de sentidos vernáculos e plenos:
um palco vicentino
a acomodar coragens de falar
A língua transitória
– caminho a meio entre o inferno
e os anjos, e ao fundo
dessa porta, em baixa-esquerda:
a glória
de escolher o adereço certo
A pluma mais brilhante,
a capa de veludo mais macio,
e a fivela
(que, vista assim de perto, era só isso),
ali: um quase diadema
O palco vicentino agora
em cor,
o que antes só amor
agora livre,
e de um ponto
vernáculo
no tempo,
vestir-me outra vez luz,
e olhando os teus olhos
outra vez,
morrer junto à coluna de papel,
num solilóquio que marcasse o fim
do século em viragem
e em coragem de espelho ou de punhal,
oferecer-te só isso:
o som, a fúria,
mesmo sabendo-os só sentidos
vãos
Ana Luísa Amaral
domingo, 19 de julho de 2026
ERRAR...ERRAR...ERRAR!...
Há quem não goste de errar.
Há quem goste
de errar e entender que errar é importante.
Há quem nunca erre, como murmurava Cavaco Silva, ele proprio, que também nunca tinha dúvidas!...
Falemos de
erros, falemos de experiências.
Há uma canção
da América Latina que nos fala de tropeçar sempre na mesma pedra e com o mesmo
pé. Também há Bertold Brecht: «Não me interrompam nem me distraiam. Estou
muito ocupado na preparação do meu próprio erro.», ou E.J. Phelps: «o
homem que não comete erros não costuma fazer grande coisa», Elbert Hubbard:
«o maior disparate que se pode fazer na vida é viver continuamente com medo
de cometer erro», também não falta Pablo Picasso: «o que me salva a vida
é que cada fez faço pior», ou Federico Fellini: «a pessoa que eu mais
admiro é aquela que é capaz de falhar repetidamente, e mesmo assim ter a
persistência de continuar a tentar. Quando lutas por uma coisa, o mais difícil
é manteres o respeito por ti», e há aquele poema do Paulo Leminski:
«Nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez.»
Frequentemente
atribui-se a Napoleão Bonaparte a frase:
«Nunca interrompas o teu inimigo
enquanto estiver a cometer um erro».
O Dicionário
de Morais define erro como «acção de errar; desacerto; inexactidão» e
errar como «não acertar com; enganar-se em: não dar com ou em; falhar».
A actriz
Beatriz Batarda, numa entrevista, contou:
«Uma vez com 17 anos, tive um desses
desgostos. O meu avô passou-me a mão pela cabeça e eu disse-lhe que ele devia
estar envergonhado por mim. E ele respondeu-me: «Eu não te avalio pela
quantidade de vezes que tu cais, mas pela rapidez com que te levantas». E no
dia a seguir deu-me um sempre-em-pé de madeira, um bonequinho que anda sempre
comigo na minha caixa de maquilhagem. Na vida não vale a pena ter medo de nos
entregarmos. Não importa cair, mas levantar-se rápido. Vencer, mesmo que depois
se caia outra vez…»
Cinco anos
antes de morrer, Samuel Beckett escreveu três frases que resumem tudo: «tentar
outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.»
Raul Brandão
escreveu: «Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros
e paixões». O meu pai dizia praticamente o mesmo, mas acrescentava: «uma
única coisa faria diferente – tratava melhor dos meus dentes!»
Cometer
sempre novos erros ou errar, errar de novo, errar melhor.
Durante um
tempo, pela net, apareceu um texto intitulado Instantes atribuído a
Jorge Luís Borges. Não é da autoria de Borges mas, aparentemente, da escritora
norte-americana Nadine Stair, escrito em 1978, quando tinha 85 anos.
"Se eu pudesse novamente viver a
minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a
sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu
sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a
vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo».
MÚSICA PELA MANHÃ
Desafiaram-me para ficar com as músicas de domingo e, como muito gosto, aceitei.
Por aqui,
irei fazer passar as canções, principalmente as dos anos 60, que marcaram a minha
vida. Quase todas já nada dirão à maior parte dos leitores do Cais, mas talvez
seja bom ficarem a saber como tudo se passou.
Esta é a capa
do 1º LP que comprei, 20 de Julho de 1966.Marco histórico.
Este foi o primeiro LP que comprei. Já tinha dois ou três EPs
do Adamo mas este ao vivo no Olimpia, era o máximo.
É assim que (re)começamos.
Bom domingo.
Colaboração de Aida Santos.
sábado, 18 de julho de 2026
SOLTAS
Fotografia tirada por Sebastião Salgado em Luanda, ano de 1975, durante um comício do MPLA.
«O simbolismo da fotografia é claro: o rosto das crianças debaixo das botas e da arma.»
1.
O Campeonato
do Mundo de Futebol 2026 acaba amanhã.
Dado o
excessivo calor que se fazia durante os jogos, a meio de cada parte, existia um
período para beber água.
David Beckham
é o protagonista de dezenas de anúncios milionários exibidos durante as pausas
para hidratação das transmissões de futebol. O ex-jogador aparece em campanhas
de várias marcas globais e os seus contratos de publicidade geram lucros que
rondam os US $25 milhões.
Por mero
acaso encontrei dois textos sobre David e a respectica família.
Ficam por aqui:
2.
Em oito anos,
a despesa directa dos portugueses com hospitais privados subiu 59%, para os
1087 milhões de euros, o que significa quase três milhões de euros por dia,
3.
Num fim de semana de calor extremo a CP
suprimiu 12 comboios Intercidades e entre 4 e 6 de Julho, suprimiu mais
30 comboios, na maioria dos casos devido à falência dos sistemas de ar
condicionado nas carruagens; durante estes dias houve também dezenas de
incidências que afectaram a oferta regular da empresa e que se traduziram em
atrasos consideráveis em 88 comboios.
4.
O Egito Gonçalves dizia que a felicidade não tem história.
O Nuno Júdice dizia que «A medicina é uma
arte do comércio.»
5.
Não se sabe
nunca que mistério nos pode trazer um por de sol.
NOTÍCIAS DO CIRCO
Isto está mesmo a acontecer-nos!
1) Bidões com químicos para processar droga estavam na posse de amigo do ministro.
2) “Um ministro que não assume responsabilidades deixa de ser ministro”
MÚSICA PELA MANHÃ
Há dias, para
o Mundial de Futebol, a Argentina jogou coma Inglaterra e, epicamente, ganhou.
AntónioRodrigues, no Público de ontem, lembra uma canção dramática de Fito
Paez. Aproveitamos tudo isso, e essa será a nossa música pela manhã de hoje.
«A
canção estende-se por 11 minutos e 28 segundos de uma ambiciosa tentativa de
traçar um retrato das sombras traumáticas com que se fazia a Argentina depois
de uma década de neocapitalismo selvagem que se tinha seguido a décadas de
violência, com ditaduras e guerrilha e milhares de desaparecidos muito
presentes no quotidiano.
La Casa Desaparecida, incluído por Fito Paez no seu
álbum Abre,
de 1999, é, como o próprio afirmou, uma “canção incómoda”. Levou-lhe 37 anos a
escrever, porque tinha 37 anos quando a escreveu, mas tardou-lhe apenas uma
hora a compor, porque “a tinha guardada em algum canto, em alguma gaveta”.
É um rio caudaloso de palavras que começa, precisamente, no desastre das
Malvinas, com um veterano carregado de medalhas que perdeu as pernas na guerra
de 1982 e que ainda hoje, tergiversado pelo alcoolismo (o “malvino”,
num tão acertado trocadilho que se perde na tradução para o português mau
vinho) deixa o refrão e o mote: “Argentinos, argentinos/ que destino, meu
amigo, argentinos,/ ninguém sabe responder.”
Em 2014, Paez voltaria a falar das Malvinas noutro tema, La canción del soldado y Rosita Pazos,
para a qual gravou um vídeo vestido de militar, sozinho combatendo os seus
demónios num local inóspito. Rosita está apaixonada por ele e quer “mudar o seu
mundo”, mas “o que o seu amor não conhecia/ é que a guerra nos assassina/ não
sinto amor, não sinto nada”.
Como escreveu no Instagram o treinador e veterano da guerra Omar De Felippe,
junto à foto dos jogadores argentinos no relvado com a faixa sobre as Malvinas,
“o desporto nunca muda a história, mas às vezes ajuda a curar emoções que
continuam muito vivas”. Como as canções: há vídeos nas redes sociais que
assinalam a vitória da Argentina com a banda sonora de Otoño del 82 dos Airbag, que também fala das
Malvinas: “Ninguém me irá devolver a minha recordação perdida.”»
Legenda: Em plena euforia da seleção da Argentina, surgiu uma tarja com uma referência à ferida aberta entre os dois países, a guerra das Malvinas (ou Falklands, em inglês), que opôs as duas nações em 1982, e que terminou com o triunfo britânico. Ainda se desconhece o castigo que a FIFA irá aplicar aos argentinos.
sexta-feira, 17 de julho de 2026
POSTAIS SEM SELO
Se há homens cujo ridículo nunca se tornou evidente, é porque nunca procurámos bem. François de la Rochefoucauld
NOTÍCIAS DO CIRCO
A Assembleia
da República reuniu para nos mostrar o Estado da Nação. Nada que a esmagadora
maioria dos portugueses não conheça.
Helena
Pereira na Crónica Parlamentar no Público:
«Um ministro a pedir socorro e um primeiro-ministro a tentar fugir. O dia
começou com Fernando Alexandre a suplicar a mais professores que apareçam para
acabar de classificar os exames do secundário. E continuou à tarde com Luís
Montenegro a tentar evitar a todo o custo enfrentar a crise na educação, no
debate do estado da nação.»
Não se sabem
(?) os motivos da fragilidade de Luís Montenegro mas o governo está quase num
fanico.
Numa sondagem
do Centro de Estudos da Universidade Católica para o Público, RTP e Antena 1,
conclui-se que a avaliação negativa do governo atingiu o valor mais elevado
desde que Montenegro é primeiro-ministro.
A coisa está preta!
OLHAR AS CAPAS
Meia
Noite Trágica
Rex
Stout
Tradução
L. de Almeida Campos
Colecção
Vampiro nº 436
Livros
do Brasil, lisboa s/d
Soltei
um resmungo. Não podia estar a repudiar a minha memória incomparável.
-Está
a sugerir – perguntou ele – que jogos de palavras não devem ser permitidos nas
nossas conversas privadas? Por qualquer um de nós?
-
Não senhor.
Wolfe
bufou.
-
É melhor que não o faça. Não nos aguentaríamos uma semana.
Tocou
a campainha para mandar vir cerveja.
CANÇÃO FRATERNA
Irmão negro de voz quente
o
olhar magoado,
diz-me:
Que
séculos de escravidão
geraram
tua voz dolente?
Quem
pôs o mistério e a dor
em
cada palavra tua?
E
a humilde resignação
na
tua triste canção?
E
o poço de melancolia
No
fundo do seu olhar?
Foi
vida? o desespero? o medo?
Diz-me
aqui, em segredo,
irmão
negro.
Porque
a tua canção é sofrimento
e
a tua voz sentimento
e
magia.
Há
nela a nostalgia
da
liberdade perdida,
a
morte das emoções proibidas,
e
a saudade de tudo que foi teu
e
já não é.
Diz-me,
irmão negro,
Quem
fez a vida assim...
Foi
a vida? o desespero? o medo?
Mas
mesmo encadeado, irmão,
que
estranho feitiço o teu!
A
tua voz dolente chorou
de
dor e saudade,
gritou
de escravidão e veio murmurar à minha em alma
ferida
que
a tua triste canção dorida
não
é só tua, irmão de voz de veludo
e
olhos de luar...
Veio,
de manso murmurar
que
a tua canção é minha.
Noémia de Sousa, copiado da Seara Nova, Verão 2026
quinta-feira, 16 de julho de 2026
RELACIONADOS
Um texto de José António Barreiros sobre a Seara Nova:
Não sei se é uma tristeza ou uma vergonha. Aqui fica o aviso, avisei-me a mim próprio esta tarde. Daqui a pouco começa a quietude do entardecer. Naquele tempo, aos sábados, talvez por ser a hora da tristeza, eu lia. Hoje, que escrevo, não sei se o meu mundo estará melhor.
Apesar da negritude cultural em que a ditadura de Salazar mergulhou o país,
apesar do cinzetismo que foi a ditadura de Marcelo Caetano, esse estranho
equivoco que deu pelo nome de primavera marcelista, existiam pequeninos faróis
que serviam de porta-aviões onde fomos descortinando algo, principalmente nas
entrelinhas. Apesar de tudo havia uma oferta cultural que fez algumas
diferenças, só possíveis à teimosia e coragem de alguns intelectuais. Jornais e
revistas conseguiram furar o cerco da ignorância, da solidão, do despotismo, do
medo, sobretudo do medo.
Do Sótão tirou algumas dessas revistas que lhe acompanharam os dias daqueles tempos. Começa pela “Seara Nova”, uma revista fundada em Lisboa em 1921. O primeiro número saiu em 15 de Outubro desse ano, por iniciativa de Raul Proença a que se juntou um naipe de intelectuais portugueses onde, entre outros, pontificavam António Sérgio,, Câmara Reys, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão. Na sua origem era uma publicação essencialmente doutrinária e crítica, assumidamente com fins pedagógicos e políticos. Recusaram ser partido político apenas pretendiam contribuir para quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social.
Apesar das vicissitudes resultantes da censura e das dificuldades financeiras que o projecto atravessou, publicou-se regularmente até 1989. O seu último número corresponde aos meses de Outubro/Novembro desse ano e tem o número 1596/1597. Custava 30$00 e o seu director era Ulpiano do Nascimento.
No editorial deste último número regular da Seara Nova, já se dava conta que a
revista abandonara a sus periodicidade e vivia as dificuldades sentidas por
milhares de pequenas e médias empresas ao mesmo tempo que se estudavam medidas
tendentes a sanear financeiramente a empresa, de forma a poder viabilizar-se o
projecto patriótico e humanista que a Seara Nova se impôs.
Não foi possível. A ditadura nunca conseguiu calar a voz à “Será Nova”, os
novos tempos democráticos permitiram-no.
Este é o número mais antigo da “Seara Nova “ que possui, referente aos meses de
Novembro/Dezembro de 1957 e com os números 1345/1346. Era director Câmara Reys
e custava 5$00. A meio da primeira página pode ler-se “VISADO PELA COMISSÃO DE
CENSURA” e, entre outros, regista colaboração de Fernando Piteira Santos, João
de Barros, Victor de Sá, Mário Sacramento, Lilia da Fonseca, José-Augusto
França. aso números 1345/1346
Porque é um documento histórico transcreve-se a Declaração de Princípios,
publicada no primeiro número da revista:
“O GRUPO SEARA NOVA:
- não lisonjeará nenhuma classe da sociedade
- não dará a nenhum dos seus aderentes qualquer beneficio de ordem pessoal
- não pretende o poder, mas preparar as condições necessárias de todo o
verdadeiro poder
- quer a Revolução mas não aplaude as revoluções
- quer semear em proveito colectivo, e não colher em proveito próprio
- não se limita a prosternar-se perante as glórias passadas da Pátria: quer
criara para a Pátria uma nova glória
- não olha o passado, marcha resolutamente para o Futuro.
- não se limita a glorificar os mortos heróis: quer que apareçam os heróis
vivos.
- não fará festas, nem lançará morteiros. Dirige todos os esforços para a
acção, e para a preocupação do dia de hoje e de amanhã.”
Legenda: 1º número da Seara Nova , imagem tirada da Internet.
O OUTRO LADO DAS CAPAS
A Biblioteca da Casa possui, devidamente encadernados, os números da Seara Nova desde o nº 1400 (Junho de 1962 até ao nº 1597 (Novembro 1979), um total de 8 volumes.
Os
primeiros dois volumes foram encadernados com o amadorismo do meu avô, os
restantes foram encadernados por um grupo de reformados da Companhia Nacional
de Navegação, que assim ocupavam os seus tempos livres, e completavam, com uns
escudos, as baixas reformas.
«A Seara Nova é uma revista
fundada em Lisboa, no ano de 1921, (15 de Outubro de 1921) por
iniciativa de Raul Proença e de um grupo de intelectuais portugueses
da época.
Na
sua origem era uma publicação essencialmente doutrinária e crítica,
assumidamente com fins pedagógicos e políticos.
O
grupo de intelectuais reunidos em torno do projeto editorial definiram-na como
"de doutrina e crítica", tendo como objetivo, como se lê no
editorial do N.º 1, datado de 15 de outubro de 1921, ser
de poetas militantes, críticos militantes, economistas e pedagogos
militantes.
Com
a publicação pretendiam contribuir para quebrar o isolamento da elite
intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social.
Depois
da implantação da Ditadura Nacional surgida da Revolução
Nacional de 28 de Maio de 1926, o grupo da Seara
Nova, a que atualmente se usa atribuir a designação de seareiros,
não obstante a censura e as dificuldades financeiras, assumiu-se como
um dos grupos mais ativos no combate ideológico contra o salazarismo.
Nos
seus anos iniciais o projeto reuniu alguns dos principais nomes da
intelectualidade do tempo, com destaque para Jaime Cortesão, Raul
Proença e António Sérgio, mas também, entre outros, Raul
Brandão, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis, António Ferreira de
Macedo, Cabral do Nascimento e Augusto Casimiro. Após estas
vicissitudes e múltiplas entradas e saídas de colaboradores, a revista perdeu o
prestígio de outrora e já pouco significa enquanto movimento social atuante.
Desde
2015, o seu nome está consagrado na toponímia de Lisboa através da Rua Seara
Nova, que foi inaugurada em maio de 2017 na Urbanização Nova Amoreiras (antiga
Quinta do Mineiro), na freguesia de Santo António.
A
revista prosseguiu com a sua publicação, embora nem sempre regularmente, até ao
ano de 1979, atingindo então o número 1598/1599. A partir daquele ano,
passou a publicar apenas um exemplar anual para assegurar que, face à lei
portuguesa, o título não caducasse, assim se mantendo até ao ano de 1985,
quando reapareceu com uma nova série. Agora como revista trimestral, a partir
da edição do Verão de 2004 a publicação retomou a anterior numeração,
incorporando posteriormente todas as edições entretanto feitas.»
Nem
sempre a encontro, mas quando isso acontece, compro.
Três
revistas completaram o curso cultural e político da casa: a Seara Nova, a Vértice e O Tempo e o Modo
(esta apenas esporadicamente).
OLHAR AS CAPAS
Seara Nova
Nº
1775/Julho 2026
Director:
João Luiz Madeira Lopes
Capa:
Óleo sobre tela de Artur Bual
Seara
Nova Editores, Lisboa Julho de 2026
E,
todavia, vale a pena ter um Tribunal Constitucional. Não porque seja o tribunal
dos direitos que imaginámos, mas pelo que ele verdadeiramente é: o Guardião da
integridade objectiva da Constituição, um árbitro que impede que a maioria do
momento disponha livremente do pacto de abril. Num tempo em que, por toda a
parte, se elegem democraticamente os que corroem a democracia por dentro, ter
um órgão que vincula o poder ao texto fundamental, que barra o arbítrio e
obriga à fundamentação, não é supérfluo, é uma defesa importante.
NOTÍCIAS DO CIRCO
Governo
a dois tons: Montenegro acusa professores, Fernando Alexandre pede desculpa
A polémica em torno do processo de classificação digital dos exames nacionais
tem levado a mudanças de tom no Governo. Luís Montenegro apontou o dedo, na
terça-feira, à "resistência" de alguns professores ao processo de
digitalização. Um discurso que contrasta com o do ministro da Educação, que,
nesta quarta-feira, voltou a pedir desculpa aos docentes, e que é diferente do
utilizado pelo próprio primeiro-ministro nas primeiras intervenções sobre o
caso, quando procurava tranquilizar as famílias, prometendo o empenho do
executivo. Também Fernando Alexandre mudou o tom: se agora pede desculpa,
começou por falar em "imprudência" de pais e criticar quem desde o
início do processo já antecipava um desfecho negativo.
Joana Mesquita no Público
LEDA SERENIDADE DELEITOSA
Leda
serenidade deleitosa,
que representa em terra um paraíso;
entre rubis e perlas doce riso;
debaixo de ouro e neve cor-de-rosa;
presença
moderada e graciosa,
onde ensinando estão despejo e siso
que se pode por arte e por aviso,
como por natureza, ser formosa;
fala
de que ou já vida, ou morte pende
rara, suave; enfim, Senhora, vossa;
repouso na alegria comedido:
Estas
as armas são com que me rende
e me cativa Amor; mas não que possa
despojar-me da glória de rendido.
Luís de Camões em Sonetos
quarta-feira, 15 de julho de 2026
POSTAIS SEM SELO
O
segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso
pacto com a solidão.
Gabriel Garcia Márquez
TRUMPALHADAS
A
jornalista Jean Carroll recebeu uma indemnização de cerca de cinco milhões de
dólares atribuída num processo contra o Presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump, mais de três anos depois de um tribunal o ter considerado responsável
por abuso sexual e difamação.
O montante, depositado numa conta de garantia do tribunal enquanto decorriam os recursos apresentados por Trump, foi entretanto transferido para os advogados de Carroll. Segundo os documentos judiciais, o pagamento totalizou 5.625.005,48 dólares (cerca de 4,9 milhões de euros), com juros.
OLHAR AS CAPAS
Man Ray
Direcão: Henrique Monteiro
Colecção Mestres da Fotografia
Edição: Expresso, Lisboa 2008
«A fotografia é uma maravilhosa descoberta dos pormenores que, sem ela. A nossa retina nunca poderia registar».
NOTÍCIAS DO CIRCO
O que se está a passar com Luís Neves, ministro da Administração Interna, é uma aberração.
Como é que se
podem cometer erros tão primários?
Poderão
admitir-se coisas destas ao Zé da esquina, nunca a um homem que passou tantos
anos a trabalhar na Polícia Judiciária e, agora, é um ministro de que se
esperava outros sinais, não o quase imitar o desastre da Spinumviva do Luís, agora
sem dar palavra do que quer que seja, aparentemente perdido no meio de teias futebolísticas.
Tudo isto resulta em mais um prego no caixão dos «políticos são todos iguais!...»
VEJO PASSAR OS BARCOS
Vejo passar os barcos
sob a chuva
Sentado sobre a ausência
Nenhuma boca
pronuncia o
nome
De mãos vazias
vejo passar
os barcos
Egito
Gonçalves em O Fósforo na Palha
terça-feira, 14 de julho de 2026
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Um livro,
quase, inédito de poemas de António Lobo Antunes, que o escritor, que sempre
lamentou não ter sido poeta foi escrevendo ao longo da vida, foi publicado em
Junho pelas Publicações Dom Quixote.
António Lobo
Antunes, poeta?
Não na exacta palavra, mas são versos, versinhos, coisinhas, chamava-lhe “letrinhas de cantigas” que, no dizer de Vitorino, foram escritos, a BIC, nas toalhas dos restaurantes que, que uma vez por semana, visitavam com incidência primeira nos Moínhos da Funcheira:
«E às quintas-feiras almoço nos Moinhos da Funcheira
com o Zé Ribeiro, o Zé Francisco, o Vitorino. Os Moinhos da Funcheira são o
subúrbio do subúrbio, depois da Venda Nova, da Brandoa, da Pontinha: toda a
gente acha feio e eu acho lindo. De onde me virá este amor sincero, genuíno,
pelo que as pessoas consideram de mau tom, leões de calcário, duendes de gesso,
quadros de queimadas, cerâmicas de casa de banho com cisnes doirados?
Quando digo que almoço às quintas-feiras
nos Moinhos da Funcheira digo que a empregada nos trata por
- Meu querido
nos traz salsichas com ovos estrelados e
nos sentimos indecentemente felizes
Com pena da gente a empregada diz
- Meus queridos
e soma-nos a conta na toalha».
Adianto já que, algumas crónicas do António Lobo Antunes, são verdadeiros poemas.
Leiam-nas, por favor!







.jpg)
.jpg)
.jpg)



.jpg)




.jpg)