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quarta-feira, 15 de abril de 2026

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Para o poema de amanhã, lembrei-me do Eduardo Guerra Carneiro e peguei na Profissão de Fé, livro de poemas, uma bonita capa do Rogério Petinga, editado pela Quetzal no ano de 1990 e que me custou 900 escudos, ao câmbio de hoje seriam 4 euros e 50 Cêntimos.

Na contra capa do livro encontra-se um texto do Manuel João Gomes, seu amigo, e disse de mim para mim que este texto também poderia ser um dos Itinerários do Eduardo.

Aqui fica:

«É hoje vulgar dizer-se: "Isto anda tudo ligado, como diz o poeta." E qual é o poeta que diz: Isto anda tudo ligado? Camões? Pessoa? Não. Isto anda tudo ligado é o título dum livro que Eduardo Guerra Carneiro publicou em 1970.
O que para o poeta andava ligado naquele já remoto ano de 1970? Tudo: a cerveja, os Beatles, uma mesa de café numa pequena vila perto de Tomar, um poema da Camilo Pessanha, a Twiggy (inventora de minissaia), a memória "destes anos, destas cidades mornas onde com vagar enlouqueço", enlouquecemos, enlouqueceremos. E também Allen Ginsberg, Joan Baez a cantar, a estação de Nelas, uma enorme bebedeira na Covilhã, Walt Whitman, os guerrilheiros que saem do Vavá "com uma citação à bandoleira". E outra vez a cerveja: as letras "que escorrem pela caneta como a cerveja pelos cantos da boca"...
Poesia em prosa, prosa de poeta incorrigível, melancólico, irónico, um tudo-nada romântico. Poesia às vezes jornalística, quotidiana e quotinocturna, em cima do acontecimento. Antes, durante e depois da ressaca. Confissões, recordações da terra natal, paisagens, retratos.»

domingo, 25 de janeiro de 2026

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


O Eduardo foi  poeta e um homem de jornais. 

Sempre. 

Em 1975 esteve na Guiné-Bissau a escrever, a ensinar, experiência que deixou, Outubro de 1975,  em artigos publicados na Vida Mundial. Ele que já antes dissera que tinha muito para aprender neste negócio dos jornais:

«Por entre sorrisos de acolhimento e de chalaça alinhavo a prosa jornalística, obviamente sintética. Entrego-me receptivo,  à espera das notícias. Rápidas e maduras escorregam-me das mão se, às tantas, com medo que se quebrem,  os meus joelhos unem-se e as amparo. Grávido pareço. Presunção? Talvez não. De água benta nem sei. Apenas águas das cheias em telex. Ah!, prosa, prosa! Danada me  saíste por essas linhas fora. Não sei que te fazer para sacudir de ti tanto lirismo que em ganga se move entre os linguados. O solo lusitano tinge as mãos e o sol inexistente do solstício violenta-me de turismo. Levanto me simpático. Rabisco umas ternuras. O Ribatejo inteiro é um oceano! Que tirada, ó poeta! E as notícias? Mobilizo recursos que nem sei onde metê-los. Encaixa poeta, encaixa! Tens muito que aprender neste negócio.»

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Sentir saudades?

O poeta Zé Gomes Ferreira amiúde dizia: «saudades. Só do futuro!»

Mas não há começo de ano que não se lembre do Eduardo Guerra Carneiro e do seu último itinerário.

Há 22 anos, corriam as primeiras horas de um novo ano, quando o poeta e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, envolvido por uma imensa amargura, cansado de muita coisa, cansado de estar por aqui, se mandou da janela para o pátio da casa onde vivia em Lisboa. A notícia quase foi isso.

Baptista-Bastos, recordando o amigo e camarada de profissão, titulou um artigo no Público : «O poeta que se atirou para o céu».

Eduardo Guerra Carneiro deixou passar o Natal, sabe-se lá porquê, para se suicidar.

Era previsível, disseram os amigos que lhe eram chegados. Parecia ser esse o caminho por ele traçado, depois de uma filha ter morrido.
A pouco e pouco foi dizendo «escrevo com medo de ser tarde».
Marilyn Monroe, actriz que ele muito venerava e amava, também ela um dia deixou escrito, ou num dia qualquer, com alguém desabafou: «É Natal! Quem tenho? Ninguém! Para que preciso de viver?»

Sempre gostou muito do Eduardo Guerra Carneiro. Ao longo destes anos em que nos deixou, aos seus livros tem recorrido e pena tem que tão poucos o conheçam: «vivia dos cafés e das conversas, de uma poesia lírica feita na continuação do mesmo gesto imparável de viver, vivia de um desarrumada ligação entre a vida e letras, letras e tinta, rotativas e provas. E a sua morte escolhida prolonga a sua arte, ele tantas vezes abandonado a si mesmo, indefeso, estóico, solitário, libertário e tímido, rapaz para sempere de província apostrofando a desordem da cidade», escreveu Jorge Sila Melo.

Em 1970 publicou um livro a que chamou Isto Anda Tudo Ligado. E deste título se passou a fazer remate para conversas e prosas. Sim, isto anda tudo ligado, como dizia o poeta.

«Foi então que o barulho das luzes começou a sentir-se.
Foi então que o barulho das luzes começou a crescer.
Foi então que o barulho das luzes começou a entusiasmar.
Qual a cor das luzes do futuro?»


No seu livro O Revólver do Repórter deixou escrito:

«Abro as janelas para o rio, meto o papel na máquina, acendo um cigarro e penso: “Que grande solidão!”»

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO

Todos os itinerários que o Eduardo fez, tinham em vista coisas simples, mas muito importantes: os amigos, «as amigas e os amigos do Grupo Jantarista do Cais do Sodré», o pão quente de madrugada, uma cerveja clara, os livros, todas as coisas, que eu digo simples e que fizeram a história da vida do Eduardo.

 

Livro

 

Percorro livre o livro.

Não tenho cartilha. Bebo as letras.

Risco o livro. Leio em voz alta.

Liberto-me do livro e livre

atravesso as ruas. Mas ao livro

regresso e nele me deito.

A ternura das páginas íntimas.

O esboço de outro livro. Nos livros

soletro o que nele não está.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Rua Azedo Gneco em 1949.

Onde?

Será Chaves? Será Vila Real? Será Porto? Será Lisboa?

Por vezes, o Eduardo, quando fala de ruas, nem sempre  indica a cidade.

Importa saber?

Rua Azedo Gneco em 1949.

O Eduardo fala de escadas de serviço, junto-lhe traseiras de casas, de que tanto gosto. Vão desaparecendo na voragem dos prédios demolidos para abrir construções novas.

«Rua Azedo em 1949. Nas escadas de serviço: corridas, perseguições, casas abandonadas, outras escadas de serviço. O terrível pormenor de uma tesoura aberta, a discussão, o pontapé a atingir-lhe o sexo que logo ali sangrou. Daí. A clínica, raios ultra-violetas, vergonha, e um sinal agora nítido na erecção que talvez excite e interesse e que lhe faz recordar uns clandestinos pães com marmelada ou os livros Zé Fagulha comprados em Natal precário de que mais tarde se fala nas obras completas ao referir a destruição de qualquer coisa a exigir muitas mais páginas.»

Eduardo Guerra Carneiro em É Assim que se Faz a História

Legenda: fotografia Shorpy

domingo, 20 de abril de 2025

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


No último dia de Março de 1979, o Diário de Lisboa, anunciava que ia começar a publicar, em folhetim, O Imenso Adeus de Raymaond Chandler, numa tradução de Mário-Henrique Leiria, há muito esgotado.

Para a apresentação do folhetim foi pedido ao Eduardo Guerra Carneiro para que realizasse a tarefa. Uma feliz ideia, porque o Eduardo sabia mesmo do assunto: de livros, de copos, de policiais, do Mário-Henrique Leiria, do Raymond Chandler, de cartas que há muito devia ao Zé Emílio, e tudo isso, algo mais que ele sempre esgalhava muito bem, ajudou-o no Itinerário encomendado pelo chefe de redacção.

Como se pode ler acima no recorte do Diário de Lisboa, chamou-lhe Com Chandler e Marlowe nos Bares do Cais do Sodré, e que o Eduardo nunca incluiu em nenhum dos livros onde reuniu crónicas e textos publicados na imprensa.

Começa assim:

«Marlowe entra no “English-Bar”, despe a trincheira, sacode-a da chuva de Março que, em morrinha, como em Vigo ou no Porto, ainda pinga, atira o chapéu para o bengaleiro e pede um “gimlet” duplo.
Humphrey Bogart está ao balcão e sorri-lhe, de esguelha, com o paivante aceso ao canto da boca. A “magrinha” ainda não tinha chegado. Eu bebia gin tónico, numa mesa do canto com o Chandler. O Mário-Henrique Leiria não pôde vir: mandou recado a dizer para bebermos dois ou três copos por ele. Lauren Bacall chegou agora, senta-se à nossa mesa e pede-me um cigarro na sua voz rouca, inconfundível. Reparo que Bogey está com ciúmes. Como não quer a coisa, de uma velha telefonia vem uma música de piano: “Casablanca”. Afinal Bogart deve estar ainda à espera da Ingrid Bergman. Chandler, que nada tem a ver com isto, começa a falar da Cabeleira de Prata.»

Agora pode entrar o tal Zé Emílio que é história que se pode ler na página 54 do tal caderdinho de capa vermelha onde, como dizia o velho, tudo anda ligado:

«Eu sei bem que te devo carta mas, sabes bem: words, words pouco valem para a saudade, é a palavra exact, saudades de ti, ó meu amigo a quem não disse quanto queria. Cheguei a ir, sabes , como no «Imenso Adeus» do Raymond Chandler, beber dois copos, para mim e para ti, a um outro lugar dos que gostavas. Mas, que é isso? A lírica ternura de que às vezes me acusavas.»

E, para fazer um The End adequado para este Itinerário, desengate-se um pedacinho do policial que aqui nos trouxe:

«Gosto dos bares à tardinha, logo que abrem. Quando ainda há ar fresco e limpo e tudo está luzidio e o tipo do bar dá a última olhadela aoa espelho para verificar se a gravata está direita e o cabelo bem liso. Gosto das garrafas arrumadas nas prateleiras do fundo e dos copos bem brilhantes e da sensação de antecipação que se tem. Gosto de ver o homem misturar a primeira bebida da tarde e pô-la no bar com o pequeno guardanapo bem dobrado ao lado. Gosto de a saborear sem pressa. A primeira bebida sossegada num bar sossegado – é estupendo!
Eu concordei.
- O álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é intenso e o terceiro é rotina. Depois só resta despir a rapariga.
- E isso é mau? – perguntei-lhe.»

domingo, 28 de julho de 2024

OS ITINEÁRIOS DO EDUARDO


Uma guerra terrível em África.

Milhares de mortos, milhares de feridos, milhares de estropiados, milhares que ainda acordam a meio da noite num pesadelo de tiros e granadas e minas a rebentarem…«uma guerra que nos fere e dói que mais não seja por ser guerra em vão».

O poeta Eduardo Guerra Carneiro andou por Mafra, a aprender ninguém sabe o quê, um enorme desespero sempre, uma angústia enorme.

Em Mafra teve como companheiros de companhia, ou de pelotão, o Adriano Correia de Oliveira, o Nuno Guimarães, o José Cid.

Começamos o percurso do Eduardo de hoje no seu 3º livro Algumas Palavras (1969) :

 

Em certos meses mafras se povoam

de soldados novos São meses sol

de guerra que aqui dentro vai roendo

as mãos e lá fora vai matando

homens São meses morse

denso que já sabe ao som

do erro Ao sol da morte


E desaguamos, tinha que ser!, no livrinho de capa vermelha:

«Lá te foste embora, António. De ideias ao ombro; todo vestido de bombazina. Estou a ver-te na Praça da Batalha, já lá vão uns anos. Não me dossete nada mas parece que o adivinhava no castanho da bombazina, na pressa em ires embora, nas poucas palavras que disseste. De que cor são os lagos da Suiça?»


E ainda:


«Vai a correr, de Mauser nas mãos, por longos corredores, escuros e baptizados. Cerradas filas o aguardam num terreiro cercado. O verde da paisagem está sujo por centenas de homens armados, vestidos de verde».

quinta-feira, 20 de julho de 2023

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Este Itinerário do Eduardo não é bem um itinerário.

São duas palavras: «balneários públicos» e retratam um tempo curto do seu quotidiano, só dele,  que mete laranjas, um cigarro, nevoeiros…

«Os balneários públicos, laranjas, um cigarro, o rescaldo das drogas, a redescoberta, o Terreiro da Sé cheio de nevoeiros.»

Em Isto Anda Tudo Ligado.

Balneários públicos.

Este nosso país, que alguns dizem desenvolvido, o saneamento básico ainda não existe por completo e originam doenças provenientes dos solos contaminados.

«Aos 29 anos, Madalena ficou viúva, com duas filhas pequenas e vivia numa ilha de Ramalde, mais pobre não podia ser. Lá está, quantos doutores não sabem que "ilha" é um pátio nas traseiras, ainda mais pobre do que o bairro à volta?»

Diário de Notícias, 17 de Abril de 2020

quarta-feira, 1 de junho de 2022

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


 O Eduardo gostava de cinema.

Quando a televisão no que toca à Sétima Arte não se tinha tornado no esgoto a céu aberto que hoje é, semanalmente o Eduardo publicava uma crónica na revista semanal TV Filmes que publicitava os filmes a transmitir pela televisão, a geral e as de Cabo, salvo erro apenas o Canal Hollywood.

A Teorema, em devido tempo, publicou essas crónicas em livro, a que deu o mesmo título das crónicas Outras Fitas, livro que o Eduardo dedicou ao Alberto Pinto e às amigas e amigos do Grupo Jantarista do Cais do Sodré.

Os itinerários do Eduardo tinham o caminho dos pequenos restaurantes e dos pequenos cafés do Bairro Alto.

Por uma noite andava à procura de tema para a crónica e, sentado num daqueles pequenos restaurantes a coisa apareceu, e acabou por sair, mais tarde, do cinema com uma vontade doida e única de dançar em plena Avenida da Liberdade e talvez gritar Toda Gente Diz que te amo.

Assim, tal qual se lê na página 55 do livrinho:

Eram seis meninas, num jantar de aniversário, num restaurante do Bairro Alto, e lá estava ele, sozinho, numa mesa em frente, ouvidos atentos à conversa. Falavam de festas, de roupas, de namorados. E, quase todas, à volta dos 19 anos, recordavam episódios com o pai de cada uma.

 Quando chegou a altura do Parabéns a você – a aniversariante chamava-se Mafalda – juntou a sua voz ao coro e ergueu o copo num brinde. Trouxeram-Ihe uma fatia do bolo de anos e, assim, uma certa cumplicidade se instalou na saleta. Eugénio, o patrão, aumentou a simpatia e ofereceu-1he um charuto cubano. 

À saída, ele perguntou à Mafalda qual o último filme que tinha visto, esperançado que fosse o Toda a Gente Diz que te Amo, do Woody Allen. Mas, surpreendido, ela falou-Ihe no Poder Absoluto, do Clint Eastwood, de que parece não ter gostado. E outro?, indagou ainda. O Paciente Inglês, respondeu a Mafalda. Desse já falei, disse ele, e despediu-se, deixando as seis meninas atrapalhadas com o insólito daquele questionário, quase a queima-roupa. 

Pois é, o tipo procurava um pretexto para ligar a fita do Woody Allen, que ainda não tinha visto, a uma situação que podia ter a ver com os enredos dos filmes desse realizador que ele tanto admira. Os pais divorciados, a psicanálise, o contraste das gerações e as aproximações inter-etárias. 

Para ligar mais as coisas, no dia de Santo António, patrono dos namorados, avançou, ao fim da tarde, até ao São Jorge, de tão gratas memórias, para ver Toda a Gente Diz que te Amo. E, mais uma vez ele agradece ao Woody Allen, o ter-lhe proporcionado momentos de quase exaltação, com esta comédia, mais que musical, de homenagem ao musical. 

Entre Nova Iorque, Veneza e Paris, a história gira à roda de encontros e desencontros, pontuada com momentos musicais, alguns bem divertidos, como a cena dos bailados num hospital ou na cena do velório do avô, com fantasmas bailarinos a insistirem que a vida são dois dias e nós já vamos no segundo. 

Depois há o enredo amoroso entre Woody Allen e Julia Roberts (cada vez mais bonita), com esse delicioso "jogging" pelo percurso labiríntico das ruelas de Veneza, junto aos canais, e o encontro nocturno, numa escadaria, com as "deixas" de Woody, ensinadas pela sua filha na fita, que sabia tudo da personalidade da outra, por tê-la ouvido e visto, às escondidas, em sessões de psicanálise.

O humor está sempre presente em Toda a Gente Diz que te Amo, com as personagens definidas pelo realizador, em diálogos certeiros e hábeis momentos musicais. De realçar a homenagem, quase no final, aos irmãos Marx, num Natal parisiense, e a apoteose, com a dança de Woody Allen e Goldie Hawn, com Goldie a flutuar sob as pontes do Sena. 

Saiu do São Jorge, também com vontade de dançar na Avenida da Liberdade e, como de costume, a sentir-se uma das personagens da fita que tinha acabado de ver. Agora, se voltar a ver aquelas seis meninas do início da história, especialmente a tal Mafalda, ele, sem razão aparente, irá murmurar apenas isto: Toda a Gente Diz que te Amo.

terça-feira, 17 de maio de 2022

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Entendi colocar a aquisição deste livro nos Itinerários do Eduardo que tenho vindo a publicar por aqui.

Gosto muito do Eduardo Guerra Carneiro.

Gosto muito do título da Antologia publicada em Maio de 2018: Mil e Outras Noites

Gosto muito, apesar de tudo, de a ter adquirido.

O «apesar de tudo» explico a seguir.

Em Setembro de 2018 li no blogue Antologia do Esquecimento uma referência à publicação da Antologia do Eduardo.

Gostei acima de tudo do que o autor escreveu:

«Mil e Outras Noites, de Eduardo Guerra Carneiro, é dos melhores livros de poesia portuguesa que podíamos desejar.»

Exceptuando os primeiros, «O Perfil da Estátua» e «Corpo Terra», tenho todos os livros do Eduardo Guerra Carneiro

Mas o que escreveu Henrique Manuel Bento Fialho, levou-me a ter de comprar a Antologia do Eduardo que, lamentavelmente, não conheci pessoalmente.

Uma das vezes em que procurei o livro, foi na Avenida de Roma onde, quase lado a lado, estão a Bertrand e qualquer coisa que se chama «Leya/Fnac» e que noutros tempos, tempos negros, diga-se, foi porta aberta da Livraria Barata que forneceu , a toda uma geração,  livros que a  PIDE salazarenta proíbia.

Como se houvesse uma cassette gravada, tanto numa, como na outra livraria, foi-me dito que não vendiam livros de pequenas editoras. O porquê ficou refugiado como algo que vinha de cima e a que não sabiam dar uma resposta.

Em Janeiro deste ano, passei pela Almedina, no Saldanha, perguntei pela Antologia do Eduardo, tiveram o livro mas, ou venderam, ou devolveram. Mas o jovem que me atendeu,  que sobre livros não sabia apenas o que está nos computadores, adiantou que talvez ainda o encontrasse na Letra Livre, na Calçada do Combro.

Por Março lá cheguei à Letra Livre e, prontamente me informaram que ainda deviam existir 1 ou 2 exemplares em armazém que fica para os lados do «Bairro das Colónias», nome antigo.

Fui lá agora buscá-lo.

Um livro lindíssimo, editado em Maio de 2018, do qual se fizeram 300-exemplares-300.

O Manuel António Pina sempre disse que a Poesia está para acabar.

Quatro-anos-quatro em que não se conseguiram vender 300 exemplares, «dos melhores livros de poesia portuguesa que podíamos desejar».

O bocado de estante onde, aqui na casa, estão os livros do Eduardo Guerra Carneiro, ficou ainda mais reluzente.

E se pudessem, poderiam ver a alegria estampada no rosto por estar a escrever  este Itinerário do Eduardo.

Porque, como ele dizia, «isto anda tudo ligado».

 

Legenda:  Capa e contra capa de Mil e Outras Noites, tendo uma pintura de Hieronymus Bosh como fundo.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


O viajante passou por Nelas e lembrou-se do Eduardo Guerra Carneiro , dos itinerários que ficou de ir fazendo por poemas, histórias, palavras, o que quer que seja.

É este o texto no tal livrinho de capa vermelha, em que ele fala de um café na estação de Nelas:

«Um pequeno bar junto à estação de Nelas. Verão de 1964. Uma íntima sensação de liberdade (penso nas abelhas). Uma rapariga tão dourada ao longe. Outra vez a estação libertadora, um respirar mais fundo, sorri, segurei uma das tuas mãos, entrámos pouco depois no bar da estação de Nelas. Sim, isso foi serenidade!»

O viajante ficou na dúvida se falavas de um bar junto à estação de Nelas, ou no bar da estação de Nelas.

Pouco importa agora.

O bar junto à estação não encontrou, o bar na estação já não existe e é agora um vulagaríssimo snack-bar forrado a alumínio e néons, onde não se vislumbr ponta de serenidade.

Deu para tirar uns bonecos na estação, os azulejos da estação vão em postal à parte, onde não se viu qualquer trabalhador ferroviário, nem bilheteira há.

Ao longe a Serra da Estrela plena de serenidade, pensa o viajante.


Ah! e não encontrou – não quis encontrar – a Rua António Lobo Antunes em Nelas.  Porque definitivamente chateou-se com o Lobo Antunes, ele que teve a basófia de dizer numa entrevista: «Ninguém escreve como eu».

Tão ao contrário do seu irmão Miguel:

«Tenho dificuldade em ter conversas, discussões com pessoas vaidosas, que supõem que em tudo o que fazem são muito boas, não são capazes de autocrítica.»

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Aquele livrinho de capa vermelha editado pela Ulmeiro. 

Custou-lhe 25 escudos, qualquer coisa como 0,125 euros. Dá para sorrir, agora, mas naquele ano de 1970, não era fácil o sorriso…

Irá pegar em alguns poemas e textos do Eduardo e chamar-lhe-á Os Itinerários do Eduardo.

Há um poema do Eduardo Guerra Carneiro, no É Assim Que Se Faz a História, onde se pode ler:

Talvez não me encontrem num jardim nocturno da Europa e seja visto em granjas, arrozais, plantações de cana, no Maghreb, no último andar do Empire State Building, morrendo de amor como o King Kong.

Morrer de amor como o King Kong.

Até ler o poema do Eduardo, nunca vira o filme de Meriam C. Cooper.

Apanhei-o tempos depois numa sessão da meia-noite no Cinearte, meados de 1973, depois de umas bifanas e umas largas imperiais nos Caracóis da Esperança.

Uma sala cheia para ver o filme. Gente que vibrava de uma maneira única. Quem não assistiu a sessões destas, não tem a total noção do que é ver cinema.

 Já não há sessões da meia-noite como estas e duvido que, nos dias de hoje, uma sala enchesse, mesmo num outro qualquer horário, para ver King Kong, mesmo que esteja considerado, pelo American Film Institute, como um dos melhores cem filmes de sempre.

A heroína do filme era a actriz Fay Wray.

Apesar de ter participado em mais de uma centena de filmes, foi a sua criação de loura, por quem um macaco gigante se apaixona, que a tornou famosa. E será sempre a imagem da jovem desfalecida na mão de um macaco gigante, no alto do Empire State Building  a ser atacado  por aviões.

Sim, morrer de amor como o King Kong.

Ir ver um filme por causa de um poema.

Isto Anda Tudo Ligado, já lá dizia o velho.

E dizia bem.