O Eduardo gostava de cinema.
Quando a televisão no que toca à Sétima Arte não se
tinha tornado no esgoto a céu aberto que hoje é, semanalmente o Eduardo publicava
uma crónica na revista semanal TV Filmes
que publicitava os filmes a transmitir pela televisão, a geral e as de Cabo, salvo
erro apenas o Canal Hollywood.
A Teorema, em devido tempo, publicou essas crónicas em
livro, a que deu o mesmo título das crónicas Outras Fitas, livro que o Eduardo dedicou ao Alberto Pinto e às amigas e amigos do Grupo Jantarista do Cais do Sodré.
Os itinerários do Eduardo tinham o caminho dos
pequenos restaurantes e dos pequenos cafés do Bairro Alto.
Por uma noite andava à procura de tema para a crónica
e, sentado num daqueles pequenos restaurantes a coisa apareceu, e acabou por
sair, mais tarde, do cinema com uma vontade doida e única de dançar em plena
Avenida da Liberdade e talvez gritar Toda Gente Diz que te amo.
Assim, tal qual se lê na página 55 do livrinho:
Eram seis meninas, num jantar de aniversário, num
restaurante do Bairro Alto, e lá estava ele, sozinho, numa mesa em frente,
ouvidos atentos à conversa. Falavam de festas, de roupas, de namorados. E,
quase todas, à volta dos 19 anos, recordavam episódios com o pai de cada uma.
Quando chegou a altura do Parabéns a você – a aniversariante
chamava-se Mafalda – juntou a sua voz ao coro e ergueu o copo num brinde.
Trouxeram-Ihe uma fatia do bolo de anos e, assim, uma certa cumplicidade se
instalou na saleta. Eugénio, o patrão, aumentou a simpatia e ofereceu-1he um
charuto cubano.
À saída, ele perguntou à Mafalda qual o último filme que tinha
visto, esperançado que fosse o Toda a Gente Diz que te Amo, do Woody
Allen. Mas, surpreendido, ela falou-Ihe no Poder Absoluto, do Clint
Eastwood, de que parece não ter gostado. E outro?, indagou ainda. O Paciente
Inglês, respondeu a Mafalda. Desse já falei, disse ele, e
despediu-se, deixando as seis meninas atrapalhadas com o insólito daquele
questionário, quase a queima-roupa.
Pois é, o tipo procurava um pretexto para
ligar a fita do Woody Allen, que ainda não tinha visto, a uma situação que
podia ter a ver com os enredos dos filmes desse realizador que ele tanto
admira. Os pais divorciados, a psicanálise, o contraste das gerações e as
aproximações inter-etárias.
Para ligar mais as coisas, no dia de Santo António,
patrono dos namorados, avançou, ao fim da tarde, até ao São Jorge, de tão
gratas memórias, para ver Toda a Gente Diz que te Amo. E, mais uma
vez ele agradece ao Woody Allen, o ter-lhe proporcionado momentos de quase
exaltação, com esta comédia, mais que musical, de homenagem ao musical.
Entre Nova
Iorque, Veneza e Paris, a história gira à roda de encontros e desencontros,
pontuada com momentos musicais, alguns bem divertidos, como a cena dos bailados
num hospital ou na cena do velório do avô, com fantasmas bailarinos a
insistirem que a vida são dois dias e nós já vamos no segundo.
Depois há o
enredo amoroso entre Woody Allen e Julia Roberts (cada vez mais bonita), com
esse delicioso "jogging" pelo percurso labiríntico das ruelas de
Veneza, junto aos canais, e o encontro nocturno, numa escadaria, com as
"deixas" de Woody, ensinadas pela sua filha na fita, que sabia tudo
da personalidade da outra, por tê-la ouvido e visto, às escondidas, em sessões
de psicanálise.
O humor está sempre presente em Toda a Gente Diz
que te Amo, com as personagens definidas pelo realizador, em diálogos
certeiros e hábeis momentos musicais. De realçar a homenagem, quase no final,
aos irmãos Marx, num Natal parisiense, e a apoteose, com a dança de Woody Allen
e Goldie Hawn, com Goldie a flutuar sob as pontes do Sena.
Saiu do São Jorge,
também com vontade de dançar na Avenida da Liberdade e, como de costume, a
sentir-se uma das personagens da fita que tinha acabado de ver. Agora, se
voltar a ver aquelas seis meninas do início da história, especialmente a tal
Mafalda, ele, sem razão aparente, irá murmurar apenas isto: Toda a Gente
Diz que te Amo.