Para o poema de amanhã, lembrei-me do Eduardo Guerra
Carneiro e peguei na Profissão de Fé,
livro de poemas, uma bonita capa do Rogério Petinga, editado pela Quetzal no
ano de 1990 e que me custou 900 escudos, ao câmbio de hoje seriam 4 euros e 50
Cêntimos.
Na contra capa do livro encontra-se um texto do
Manuel João Gomes, seu amigo, e disse de mim para mim que este texto também
poderia ser um dos Itinerários do Eduardo.
Aqui fica:
«É
hoje vulgar dizer-se: "Isto anda tudo ligado, como diz o poeta." E
qual é o poeta que diz: Isto anda tudo ligado? Camões? Pessoa? Não. Isto anda tudo ligado é o título
dum livro que Eduardo Guerra Carneiro publicou em 1970.
O que para o poeta andava ligado naquele já remoto ano de 1970? Tudo: a
cerveja, os Beatles, uma mesa de café numa pequena vila perto de Tomar, um
poema da Camilo Pessanha, a Twiggy (inventora de minissaia), a memória
"destes anos, destas cidades mornas onde com vagar enlouqueço", enlouquecemos,
enlouqueceremos. E também Allen Ginsberg, Joan Baez a cantar, a estação de
Nelas, uma enorme bebedeira na Covilhã, Walt Whitman, os guerrilheiros que saem
do Vavá "com uma citação à bandoleira". E outra vez a cerveja: as
letras "que escorrem pela caneta como a cerveja pelos cantos da
boca"...
Poesia em prosa, prosa de poeta incorrigível, melancólico, irónico, um
tudo-nada romântico. Poesia às vezes jornalística, quotidiana e quotinocturna,
em cima do acontecimento. Antes, durante e depois da ressaca. Confissões,
recordações da terra natal, paisagens, retratos.»
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