sexta-feira, 17 de abril de 2026

BALANÇA

Com pesos duvidosos me sujeito

À balança até hoje recusada.

É tempo de saber o que mais vale:

Se julgar, assistir, ou ser julgado.

Ponho no prato raso quanto sou,

Matérias, outras não, que me fizeram,

O sonho fugidiço, o desespero

De prender violento ou descuidar

A sombra que me vai medindo os dias;

Ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,

Traições naturais e relutâncias,

Ponho o que há de amor, a sua urgência,

O gosto de passar entre as estrelas,

A certeza de ser que só teria

Se viesses pesar-me, poesia.

 

José Saramago

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