«Fernando Leonardo sabe
o que é pescar nesses tempos de miséria em que as crianças fugiam da escola
para esperarem os barcos e comerem os restos do que os pescadores cozinhavam no
mar, uma sopa, um guisado, o peixe acabado de escamar. Cozinhavam num tacho de
alumínio, num fogareiro à popa do barco, onde não chegava água, aí se guardava
também o pão, o sal, o azeite. As lanchas eram de vela latina, pescava-se das
cinco da manhã às três da tarde. Não é como agora, dois homens é o suficiente,
às vezes um, nesse tempo eram companhas de cinco ou seis homens, quatro ou
cinco no mínimo, quatro aos remos, um ao leme, tudo à força dos braços, sem
avisos meteorológicos, sem GPS nem sombras, sem guinchos de alar, vinha um
temporal e perdiam-se as redes, em havendo nortada não se rompiam avante,
içava-se a vela, metia-se um ou dois riços e ia-se bordejando, bordo de mar,
bordo de terra, a direito, ia-se à Praia Verde ou Cacela, bordo da terra para
lá, bordo de mar para cá, tudo à força de braços, eram outros tempos.»
José Carlos Barros em Os Filhos de Monte Gordo
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