Mostrar mensagens com a etiqueta João Botelho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta João Botelho. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 19 de maio de 2026

OLHAR AS CAPAS

A Chave de Vidro

Dashiell Hammett

Tradução: Helena Domingos

Capa: João Botelho

Colecção: Série Negra nº 5

A Regra do Jogo Edições, Junho de 1980

Ned Beaumont foi para casa. Bebeu café, fumou, leu um jornal, uma revista, metade de um livro. De vez em quando parava de ler e punha-se a passear, enervado, pela casa. A campainha da porta não tocou. O telefone não tocou

Às oito da manhã tomou banho, fez a barba e vestiu-se de lavado. Depois mandou vir o pequeno almoço e comeu-o.

terça-feira, 12 de maio de 2026

OLHAR AS CAPAS


 Hammett

Joe Goes

Tradução: Helena Domingues

Capa: João Botelho

Colecção:  Série Negra nº 14

A Regra do Jogo, 1983

E para se vingar, usaria toda a gente. A não ser o herói. Ninguém conseguia usar o… Ned? Certo. Ned. Fisicamente, podia servir-se do LeGrand Dedod. E até talvez não só fisicamente.

Mas ninguém conseguia usá-lo, a não ser que fosse ele a querê-lo. Cínico, sempre nos copos, leal, incorruptível…

Claro, pensou, e desatou a andar de um lado par o outro, entre a janela do living e a porta. Ia funcionar. Ia funcionar perfeitamente.

terça-feira, 5 de maio de 2026

OLHAR AS CAPAS


O Falcão de Malta

Dashiel Hammett

Tradução: Helena Domingos

Capa: João Botelho

A Regra do Jogo Edições, Lisboa Setembro de 1970

O maxilar de Samuel Spade era comprido e ossudo, o queixo era um V saliente e sob o V mais flexível da boca. As narinas desciam recortando outro V mais pequeno. Os olhos cinzentos amarelados abriam-se horizontalmente. Espessas sobrancelhas que emergiam de duas rugas paralelas ao cimo de um nariz adunco formavam novo V e o cabelo castanho adensava-se, a partir de têmporas altas e lisas, no cimo da testa. Tinha o ar agradável de um demónio loiro.

terça-feira, 21 de abril de 2026

OLHAR AS CAPAS


O Verão Quente de 1944

Andrew Bergman

Tradução: Carlos Leite

Capa: João Botelho

Colecção: Série Negra nº 6

A Regra do Jogo, Lisboa, Setembro de 1980

Naquela manhã de quinta-feira eu só tinha que ir bebendo café por um copo de plástico e estar à janela a ver os empregados dos escritórios em frente baralharem os papéis todos. Ia começar a brincar com um dente molar quando ouvi abrir-se a porta de fora do escritório. Voltei-me para ver uma rapariga loura, aí duns vinte anos, que fechava a porta e ia sentar-se por baixo do poster dos Bónus de Guerra, na sala de espera.

- Pode entrar para qui – chamei. – A maior parte dos clientes já foi embora.

Ela levantou-se, alisou a saia e entrou rapidamente. Era alta e de aspecto tranquilo, com os olhos azuis que ardiam através dum excesso de pintura, uma boca pequena e um nariz perfeito, absolutamente perfeito.

- É Jack LeVine?

Sentou-se em frente de mim.

- Até agora, tenho sido.  

terça-feira, 14 de abril de 2026

OLHAR AS CAPAS


A Maldição Dain

Dashiell Hammett

Tradução: Manuel Grangeio Crespo

Capa: João Botelho

Colecção Série Negra nº 7

A Regra do Jogo Edições, Lisboa, Novembro de 1980

Mas ela não o amava. Pelo menos não há razão nenhuma para supor que sim. Ele não passava para ela dum troféu de caça; e isso é um valor que a morte não apaga. Embalsama-se a cabeça e pendura-se na parede.

terça-feira, 31 de março de 2026

OLHAR AS CAPAS


Na Jogada

William Riordan

Tradução: M. Ferreira

Capa: João Botelho

Colecção: Série Negra nº 1

A Regra do Jogo, Lisboa, 1979

- Pois é, Joe. Claro. Bom, sou eu que o tenho. Mal te reformes e depois de contares toda a história à comissão criminal e não te esqueças de que estão proibidos por lei de perseguir quem quer que seja incluindo tu próprio, pode rematá-la dizendo que eu o conservo em gelo no porão do iate. Ele sempre foi um grande viajante, não é?

Bem, meus senhores, é tudo. Nada mais tenho a dizer. 

terça-feira, 17 de março de 2026

OLHAR AS CAPAS


LeVine em Hollywood

Andrew Bergman

Tradução: Manuel Granjeio Crespo

Capa: João B.

Série Negra mº 03

A Regra do Jogo, Edições, Lisboa, Outubro de 1970

Os anos a seguir à guerra foram bestiais para os detectives particulares, Nunca od houve melhores, nem antes nem depois. Ninguém acreditaria quantos soldados contactaram olhos vivos para descobrir no mais confidencial dos segredos o que é que as suas mulherzinhas teriam andado a fazer para se entreterem durante a guerra. DE manhã à noite os bares de Nova Iorque estavam apinhados de soldados cheios de importância contando a interlocutores simpatizantes como as miúdas francesas os tinham afrancesado, as miúdas alemães os tinham blitizado e as miúdas inglesas lhes tinham palmado os pacotes de chá. Depois, quando saíam, iam a correr para telefonar para gajos como eu, subitamente receosos de que as esposas e as noivas tivessem como eles aproveitado a guerra para explorar um pouco da cor local.  

terça-feira, 11 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS


Rever Portugal

Textos Políticos e Afins

Edição Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço

Prefácio: Jorge Fazenda Lourenço

Capa: João Botelho

Guimarães Editores, Lisboa, Abril de 2011

Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido abatido. Claro que esse aproveitamento não teria sido possível se ele não tivesse escrito Os Lusíadas. Porque para além de encher-se a boca com a Fé e o Império, que nem uma nem outra eram para Camões o que eram para o Dr. Salazar, o poeta que servia para mais nada senão para exercícios de gramática estúpida, o que, tudo junto, chega para gerações lhe terem ganho alguma raiva e perdido o gosto de o ler. E há mais e pior: quando no liceu líamos Os Lusíadas éramos proibidos de ler (e não estudávamos) as passagens consideradas mais chocantes pela pudicícia hipócrita desta nossa sociedade de sujeitos felizmente desavergonhados que fingem lamentavelmente possuir a virtude que não têm, e vivem a perseguir os reprimir os pecados alheios.

domingo, 28 de abril de 2024

OLHAR AS CAPAS


 25 de Abril Imagens

Manuel S. Fonseca, Osório Mateus, Jorge Molder

Rui Simões, José Manuel Costa, João Lopes, Luís de Pina

José de Matos-Cruz

Capa: João Botelho

Edição da Cinemateca Portuguesa, Lisboa, Abril de 1984

Teria sido preciso que um homem de génio tocasse as imagens da Revolução de Abril para que, de mero documento de um processo político, se transcendessem em saga, para que os factos se aproximassem da lenda. Mas, pensando bem, para que há-de um homem de génio tocar um tempo e uma história sem heróis?

sábado, 14 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


Relembrando e Comentando

(Memórias de um Operário Corticeiro

José Dos Reis Sequeira

Capa: João Botelho

A Regra do Jogo Editores, 1978

Ainda na escola, portanto antes dos 8 anos, eu ia depois das aulas, para a fábrica onde o meu pai trabalhava e onde também trabalhavam muitos rolheiros manuais.

O trabalho na indústria corticeira era quase todo de empreitada e os rolheiros para facilitar o seu trabalho pagavam a rapazitos para lhes «desquinarem» os quadros dos quais ele faziam a rolhas. Isto facilitava muito o seu trabalho. Gente miúda contentava-se com pequenas retribuições que utilizava para comprar: fruta, utilidades escolares ou para amealhar.

Eu saía da escola e ia direito à fábrica, desquinava um caixote ou dois de quadros para um determinado mestre e ao sábado é que ele pagava a um tanto por caixote.

Isto duraria pouco tempo, porque no ano seguinte deixei de ir à escola por dificuldades no lar.

sábado, 6 de maio de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Não é bem o Outro Lado das Capas porque a contra capa do livro, excepção feita às palavras FIGURAS/MÚSICA A REGRA DO JOGO, está em branco. Pego antes na 1ª página onde se fica a saber que Corações Futuristas, com o subtítulo  Música Popular Notas Sobre Brasileira, foi comprada na Livraria Opinião e custou-me 280 escudos, ao cambio de hoje,  qualquer coisa como  um euro e 14 cêntimos.

No ano de 1978 ainda era um entusiasta da Música Brasileira, a nova e a antiga.

Mas, essencialmente, comprei o Corações Futuristas causa da capa do João Botelho.

Do autor sabia que James Anhanguera era o pseudónimo do jornalista português Sérgio Fernandes, que escrevia no «Musicalissimo», semanário de música e espectáculos, dirigido pelo José Jorge Letria, que começou a ser publicado antes do 25 de Abril e terminou no ano de 1982.  Lembro-me que por ali colaboraram Fernando Assis Pacheco, Mário Contumélias, José Nunes Martins e tantos outros.

As passagens de leitura que, calmamente, fiz na Opinião, não se mostraram conclusivas, nem entusiasmantes, mas como, já disse, comprei o livro pela capa do João Botelho.

Ainda há dias encontrei na Loja Frenesi Corações Futuristas, «exemplar estimado; miolo limpo» pelo preço de 22,00 euros.

OLHAR AS CAPAS


Corações Futuristas

James Anhanguera

Capa: João Botelho

A Regra do Jogo Edições, Lisboa 1978

Um dos maiores êxitos do início da carreira d Chico foi feito d propósito para nara leão, cantora d voz simples, enxuta, no melhor estilo da bossa-nova, q havia acompanhado & incentivado o movimento promovendo em seu apartamento na zona sul o encontro d músicos & poetas q haviam entrado naquela.

domingo, 15 de maio de 2022

OLHAR AS CAPAS


Uma Paixão Inocente

João Miguel Fernandes Jorge

Capa: João Botelho

Edições Cotovia, Lisboa Dezembro de 1989

Conheci Ruy Belo em 1989, após ter publicado os meus primeiros poemas. Um dia, durante um almoço na cantina da Cidade Universitária, Ruy Belo apareceu-me à frente com o tabuleiro da sua refeição. Vinha com ele o Manuel Gusmão, seu colega de curso, que tinha sido quem me publicara dois poemas na revista O Tempo e o Modo.

O Manuel Gusmão disse-me: «O Ruy Belo quer conhecer-te, pois gostou dos teus poemas e falou deles para o Km Zero. Tratava-se de uma folha literária do jornal de Castelo Branco, na qual acabaria por publicar alguns poemas.

A partir desse almoço fomos ficando amigos. Uma amizade que acabaria por perdurar. Por sua sugestão, levou o meu primeiro livro para a Moraes Editores e escreveu o prefácio desse livro.

Ruy Belo era um homem justo, profundamente bondosos. E era, sobretudo, um homem de grande saber.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

SARAMAGUEANDO

O Ano da Morte de Ricardo Reis.

 O livro tem um dos melhores começos da literatura portuguesa:

 Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, como uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boilogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas, mas aguenta bem o mar, como outras vezes se provou nesta travessia, em que, apesar do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao Highland Monarch, seu irmão gémeo, o intimo apelativo de vapor de família. Ambos estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar, por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é impossível, assim seja a vontade de quem lá manda. Em dias de amena meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e paraíso de velhos, porém não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas, como se só de casas térreas construída, por acaso além de um zimbório alto, uma empresa mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é ilusão, quimera miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu fechado.

 Lido e relido o livro, nunca me ocorreu a ideia de que poderia dar um filme.

Mais:

 É possível transformá-lo num filme?

 João Botelho acreditou que seria possível e o filme está aí.

Filmou-o a preto e branco para criar «um ambiente verosímil, onde os personagens se vão movendo, aflitos ou entusiasmados e para respeitar o realismo, as sombras, a clareza das luzes, os suaves tons de cinzento onde as personagens se movem.»

 Seis meses de preparação, pouco mais de dois meses em filmagens, cerca de cinco mil figurantes.

 Numa entrevista ao JL, João Botelho lembra que vai envelhecendo e, há medida que isso vai acontecendo, só quer fazer o que lhe apetece.

 O Ano da Morte De Ricardo está entre a meia dúzia de livros de José Saramago pelos quais tenha grande preferência, daí que a minha expectativa em relação ao filme de João Botelho, seja um desafio que considero muito interessante.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

SARAMAGUEANDO


Voltamos às páginas do Joaquim Vieira em José Saramago Rota da Vida.

Vieira conta que José Saramago, vivendo na Parede com Ilda Reis e a filha Violante, inscreve-se «como o sócio nº 488 do Clube Nacinal de Ginástica da Parede, dedicando-se ao ténis como a sua actividade física favorita. E surpreendentemente publica no suplemento «Cultura e Desporto», do jornal «O Benfica», em início de 1956, um longo artigo intitulado «É tempo», onde não fala de desporto mas sim de «atitude do homem cristalizado diante da arte moderna, para fazer uma apaixonada apologia das vanguardas estéticas.

Joaquim Vieira não conta, mas José Saramago foi sócio do Sport Lisboa e Benfica e tal como se pode ler no catálogo da exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos em 1999 tornou-se Sócio Honorário Desportivo do Sport Lisboa e Benfica.

Há um curioso recorte do Mário Castrim, numa crítica, publicado no semanário Tal & Qual, a um programa, bem idiota, dos princípios da SIC, que dava pelo nome de Os Donos da Bola:

«O momento mais alto do programa aconteceu na Assembleia do Benfica transmitida em directo. Levantou-se para falar o sócio Jorge Máximo. “O galardão máximo da literatura foi entregue a José Saramago. Ainda por cima, José Saramago é do Benfica. Vamos daqui dar uma salva de palmas a esse grande homem, a esse grande português. Somos campeões do mundo em literatura! É isso que nós, benfiquistas, não podemos perder no nosso humanismo».
Fico siderado. Uma vontade doida de rir e não ser capaz. Porque aquilo é mesmo assim. Todos agora nos sentimos campeões do mundo em literatura, todos e não apenas os benfiquistas. Está aí a grandeza so Saramago: dar força ao nosso humanismo».

Algures, José Saramago reflecte que o futebol tem o velho problema: ou é bem, ou mal jogado.

Numa entrevista que deu a Afonso de Melo, e publicada em A Bola Magazine de Novembro 1998, José Saramago fala dos seus desencantos com o futebol.

Eu fui sócio do Benfica com os meus oito ou nove anos, Por influência do meu pai, claro está!, ele era um benfiquista ferrenho, no tempo do Estádio das Amoreiras, com aquelas bancadas e aquele peão de terceiro mundo. Mas depois as mudanças de vida levaram-me por outros caminhos. Não me apetecia estar a sair de casa para ver um jogo. Nunca fui suficientemente entusiasta para andar de bandeira e cachecol e toda essa parafernália que fez com que o espetáculo se tenha deslocado do campo para as bancadas. O que, aliás, está de acordo com os atuais costumes do Mundo. Além do
mais desagradei-me.

Também não quero estar aqui com a conversa saudosista do «antigamente  é que era bom». Mas a verdade é que, nessa época, o jogador tinha o seu clube, e clube e jogador estavam pegados um ao outro. A camisola era uma coisa respeitável. Quase como uma outra bandeira. E o Benfica viveu o orgulho de só ter jogadores portugueses...Num tempo não muito distante. E agora o que é que acontece? Caiu-se num exagero. Onde estão hoje o Benfica, o Sporting, o F.C.Porto? O futebol não passa de um negócio. Desapareceu uma certa solidariedade de grupo. Isso fez-me desinteressar pelo futebol. O futebol converteu-se num espetáculo e já nada tem praticamente de desporto. Apenas isso.

Sobre o Benfica e o futebol, já Saramago andara às voltas na longa conversa que manteve com João Céu e Silva. O jornalista pergunta se um desafio de futebol lhe causa entusiasmo.

Não. O meu pai levava-me e eu gostava mas não me entusiasma. Nunca fui de transferir para onze pessoas que estão ali no campo a dar pontapés numa bola as emoções que eu deixaria sair por outras razões e por outros motivos, Gostava de ver um bom jogo mas mesmo isso também é bastante relativo, o que eu queria sobretudo era que o Benfica ganhasse mesmo que a equipa jogasse mal. Eu deixei de ser sócio do Benfica há uma quantidade de anos. Eu era o sócio 1322 e hoje estaria entre os primeiros e mais antigos, talvez fosse o número três ou quatro. Enfim, as coisas mudam e nesse tempo era um princípio absolutamente radical de que o Benfica só utilizaria jogadores portugueses. E assim foi, durante uma quantidade de anos, depois – isto é um negócio como outros – com a compra e venda de jogadores e as transferências tornou-se num espectáculo um pouco lamentável, às vezes bastante lamentável. E não quer dizer que uma pessoa na vida profissional, que não tenha a ver com o desporto, se encontrar um trabalho melhor e mais bem remunerado não saia de onde estava e vá para outro lado. Portanto, não se pode estranhar que um jogador de futebol o faça, além de que essa coisa de amor à camisola é uma treta.

O meu avô meteu-me, aos 6 anos, o vício do futebol, mais concretamente do Benfica. Anos mais tarde não deixou de me dizer que as coisas mais importantes da vida não se escolhem.

António Mega Ferreira, benfiquista assumido, gosta de ver os jogos sozinho para poder fazer figuras tristes à vontade, porque em matéria de futebol não se pode ser razoável, ou como disse o cineasta João Botelho, outro benfiquista: «a paixão pelo futebol é um dos lados dos comportamentos irracionais das pessoas».

Albert Camus dizia que o melhor que sabia sobre a moral e as obrigações dos homens, devia-o ao futebol.

«Aprendi rapidamente que uma bola nunca nos chega de onde a esperávamos. Isso serviu-me para toda a vida».

Mas fechamos os taipais com o escritor Mário de Carvalho:

«A maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do joga da bola e meter na cadeia essa pardalada.»

Legenda: fotografia de José Saramago em 1933, tirada do catálogo exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Entrevistas
1958-1978

Jorge de Sena
Selecção de Jorge Fazenda Lourenço
Capa: João Botelho
Babel, Lisboa, Março de 2013

Escrever, para mim, não é sacrifício: é um prazer. É também um acto moral e social. Eu sempre achei que a criação literária é uma criação comprometida, , ainda que a pessoa não esteja comprometida, digamos no sentido partidário. Mas está comprometida com todo um ideal de justiça, de liberdade, de visão social do mundo. Tudo isso representa um comprometimento sem o qual a literatura acto moral e social. Tudo isso representa um comprometimento sem o qual a literatura para mim não existe.

Da entrevista dada a Baptista-Bastos e publicada no Diário Popular de 30 de Setembro de 1976

quinta-feira, 19 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS


80 Poemas

Emily Dickinson
Selecção, tradução e prefácio: Jorge de Sena
Nota Preliminar: Márcia de Sena
Capa: João Botelho
Guimarães Editores, Lisboa, Outubro de 2010

Morri pela Beleza mas mal eu
Na tumba me acomodara,
Um que pela Verdade então morrera
A meu lado se deitava.

De manso perguntou por quem tombara…
. pela Beleza – disse eu.
- A mim foi a Verdade. É a mesma Coisa.
Somos irmãos – respondeu.

E quais na Noite os que se encontram falam –
De Quarto a Quarto a gente conversou –
Até que o Musgo veio aos nossos lábios –
E os nossos nomes  -  tapou.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Porque a gente que viu pouco mundo, como viu pouco, também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram.

Fernão Mendes Pinto

Legenda: fotograma do filme Peregrinação de João Botelho.

sábado, 12 de agosto de 2017

HOJE VAI-SE AO CINEMA PARA CONSUMIR PIPOCAS



Já chega de salas de coca-colas, perdemos as salas todas. No centro do Porto, não há uma sala de cinema; em Lisboa, só em centros comerciais. É preciso criar dignidade no cinema.
As salas de cinema já não são dignas dos filmes. É uma coisa para aventuras infanto-juvenis. A maioria das pessoas que vão ao cinema são miúdos. Os adultos têm mais relação com as séries televisivas americanas, onde há mais cinema clássico, do que em filmes com três mil planos. Hoje, ir ao cinema é consumir, tanto faz comprar sapatos como ver um filme. Desapareceu a ideia da sala escura, a dignidade do espectáculo.

João Botelho em entrevista ao Ipsilon do Publico, 24 de Setembro de 2010

sábado, 5 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


Aquele Que Quer Morrer

Manuel António Pina
Capa e Desenhos de João B.
A Regra do Jogo, Lisboa, Junho de 1978

Transforma-se a Coisa Estrita no Escritor


Isto está cheio de gente
falando ao mesmo tempo
e alguma coisa está fora de isto falando de isto
e tudo é sabido em qualquer lugar.

(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto;)
o escritor é uma sombra de uma sombra
o que fala põe-o fora de si
e de tudo o que não existe.

Aquele que quer saber
tem o coração pronto para o
roubo e para a violência
e a alma pronta para o esquecimento.