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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Morrer é mais difícil do que parece.

Paulo Varela Gomes

GRANDE PRÉMIO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESCRITORES


Paulo Varela Gomes foi distinguido, a título póstumo, com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores pela obra Era Uma Vez em Goa.

Paulo Varela Gomes morreu a 30 de Abril do ano passado, aos 63 anos, mas a Associação aceitou a admissão do romance a concurso, por ter sido editado ainda em vida do autor.

Eram finalistas a este prémio, no valor de 15 mil euros, as obras Flores, de Afonso Cruz, As Claras Madrugadas, de Amadeu Lopes Sabino, Os Timorenses (1973-1980), de Joana Ruas, e O Sonho Português, de Paulo Castilho.

O júri foi constituído por José Correia Tavares, Dionísio Vila Maior, Fernando Pinto do Amaral, Isabel Cristina Rodrigues, José Manuel de Vasconcelos e Paula Mendes Coelho.

Publicado em Fevereiro de 2015, Era Uma Vez em Goa, está editado pela Tinta-da-China.

sábado, 30 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga‑me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

PAULO VARELA GOMES (1952-2016)



Victor Cunha Rego escreveu numa crónica publicada no Diário de Notícias:

A pessoa preparar-se para a morte é a grande finalidade da vida.

Paulo Varela Gomes morreu hoje , aos 63 anos, de um cancro que lhe foi diagnosticado há quatro anos.

Em Junho do ano passado, escreveu um impressionante texto, publicado na revista Granta:
Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”.

São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”.

Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara.

Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Verão de 2012

Paulo Varela Gomes
Edições Tinta-da-China, Lisboa, Janeiro de 2013


Deixou que se esvaíssem todos os projectos e planos, e tentou aprender a difícil arte de viver um dia de cada vez, como um moribundo, pensando que o mesmo devia suceder aos soldados na guerra, absolutamente lúcidos em relação à contagem decrescente a que todos os seres vivos estão submetidos desde o momento em que nascem e para quem a morte já não é a abstracção distante com que a maioria desses seres se entretém.

sexta-feira, 1 de março de 2013

POSTAIS SEM SELO


A mais conhecida frase de Gandhi é:
«Não há qualquer causa pela qual esteja disposto a matar. Mas há causas pelas quais estou pronto a morrer.»
Estas palavras resumem a perspectiva de luta com que hoje se defrontam centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, mas em especial no Ocidente (Europa e continente americano). Estamos na última das extremidades: está em jogo a vida das pessoas. Primeiro seremos reduzidos à pobreza. Depois farão de nós o que bem lhes aprouver.

Paulo Varela Gomes retirado do blogue Que se Lixe a Troika

Legenda: ilustração de Maroe Susti

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

AQUILO QUE É NECESSÁRIO


Interessam-nos as pessoas e os acontecimentos, pelo que não procuramos efemérides redondas para falar dessas pessoas, desses acontecimentos.

Tudo vai acontecendo no correr dos dias do Cais do Olhar.

No primeiro dia do ano passado evocámos aqui o Assalto ao Quartel de Beja, um significativo marco da luta do povo português pela conquista da Liberdade.

Sobre essa efeméride, deixamos este comovido texto de Paulo Varela Gomes, publicado no Público de 7 de Janeiro de 2012:.