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sábado, 23 de março de 2019

POSTAIS SEM SELO


Sem as palavras… sem aquelas que nós… que cada um em si tem, as que se dizem e as que não se dizem, quem seríamos, e o quê?

segunda-feira, 24 de julho de 2017

sábado, 12 de dezembro de 2015

SUMMER WIND


Na biografia não autorizada escrita por Kitty Kelley, a páginas 363, depois de ter sido agraciado pelo Clube de Variedades da Califórnia do Norte por «serviços prestados às crianças do mundo inteiro, Frank disse que, sendo um adulto extremamente privilegiado, devia ajudar as crianças desprotegidas e contou uma história que o comoveu muito.

Numa visita a uma criança de seis anos, que era cega.

Estava bastante vento, e eu afastei-lhe o cabelo dos olhos e disse que o vento estava a levantar-lhe os cabelos. Fiquei sem saber o que dizer quando ela me perguntou: «De que cor é o vento?»

Ruy Belo, poeta português, provavelmente, também nunca soube a cor do vento, mas sabia o seu preço:

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

O mesmo com Irene Lisboa, uma tão esquecida escritora portuguesa, que, provavelmente, também não sabia a cor do vento, mas entendia-o:

Já no Monte Agudo – pelos meus dezassete anos – eu queria dizer qualquer coisa ao vento. Rapariga solitária, demasiado solitária, impressionava-me o vento, a lua e outras coisas mais. Mas também sei, não esqueci que me achava incapaz de dizer o que queria ou sequer, de entender o que o vento me sugeria. O vento é um companheiro. As vozes acompanham-nos. Cortam o absoluto silêncio, a atonia e a calma do calado.”

Mas Sinatra sabia do Vento de Verão e cantou-o como só ele sabia cantar, tão suave como um tocador de flauta a chamar por alguém.

terça-feira, 13 de maio de 2014

POSTAIS SEM SELO


 A manhã estava tão clara e tão alegre que a minha cozinha, virada para os lados do Tejo parecia um lugar de embarque. É verdade que aquele bairro onde muitas vezes chegava o cheiro da maresia, o apito dos barcos e um ventinho fresco que semeava fuligem na roupa, nos dava muitas tentações de partir. Estava-se em casa e tinha-se a impressão de se ir sair para o mar.

Irene Lisboa

sábado, 22 de junho de 2013

CALÇADA DO SOL


José Gomes Ferreira chama-lhe, nesse seu diário desgrenhado de um homem qualquer nascido no princípio do século XX, Calçada do Sol.

Mais não era que a Calçada do Monte Agudo que, a partir de 1909, passou a chamar-se Rua Heliodoro Salgado.


Uma calçada que só tinha casas construídas de um lado para se ver o longo panorama de Lisboa.

Mais tarde ali viria a ser instalado o Miradouro do Monte Agudo, uma das muitas fabulosas vistas de Lisboa, mas que é muito pouco frequentado quer por turistas, quer pelos lisboetas. A Câmara gastou alguns bons milhares de euros na sua recuperação, existe por lá uma esplanada, apenas esteve aberta escassos meses, e, de repente, tudo voltou ao abandono e à vandalização.

Conheço bem o Miradouro,nasci perto dele, na Rua Mestre António Martins, e ali passava as noites quentes dos verões de Lisboa, quando não havia televisão e as famílias se sentavam por ali a respirar o fresco das noites.

Junto ao Miradouro havia um Mercado.

Corria os finais dos anos 60 o mercado foi transferido para Rua Forno de Tijolo, junto aos Anjos, para no seu lugar, ser construída a Escola Dona Luísa de Gusmão.

Mas voltemos ao livrinho do Zé Gomes:


A calçada do Sol parecia uma espécie de aldeia que os homens se tinham esquecido de levar para for de Lisboa. Uma aldeia escondida numa colina onde os doentes da Baixa de 1900 iam convalescer do cansaço das doenças difíceis.

Em 1906, com seis anos, José Gomes Ferreira vivia no r/c esq. do nº 52.

Damos um salto para um outro seu  livro, A Memória das Palavras, ou o Gosto de Falar de Mim, para ouvi-lo contar uma história dessa Calçada do Sol.

- Vou para a quinta, mãe! – despedia-me aos pinotes.
E, dissipada a poeira dos poucos minutos da correria, empurrava o ranger do portão velho, na avidez de encher o peito de ao ar cheirosos aos pinheiros dos primeiros dias da invenção do mundo, e mergulhava na liberdade feliz de devorar a fruta verde e de trepar às árvores com a agilidade aprendida no marinhamento dos telhados que tanto pavor de gritos provocava à minha mãe, conforme o testemunho presencial de Irene Lisboa, então minha vizinha no prédio ao lado da Vila Rodrigues. Por sinal soube disso poucos meses antes do falecimento da escritora, que um dia em minha casa interrompeu a conversa para me perguntar no usual tom de agressividade arrependida, coado pelo sorriso, com que se dirigia, suave, aos amigos:

 - Quê? Você morava na Calçada do Monte Agudo? Perto da Vila Rodrigues?...

E num berro gostoso:

-Então era o Zeca!

Baixei os olhos diante daquela fatalidade irreversível de ser o Zeca.

- Era. Era o Zeca.

E iluminada pela nesga de sol que irradia lá do fundo da infância de cada um:

- Ora imagine que, durante anos e anos – eu nessa ocasião era já uma senhorinha que olhava para a sombra! – ouvi a voz aguda da sua mãe aos chamamentos aflitos


do lado de lá dos muros e da confusão das nespereiras: «Ó Zeca! Não vás para aí, Zeca! Sai do telhado, Zeca! Não caias Zeca!»


José Gomes Ferreira, na Calçada do Sol, também cita este episódio da Irene Lisboa ter sido sua vizinha e deixa um lamento:

Ah naquele caldeirão grande, a escritora Irene Lisboa sentou-se muitas vezes a protestar contra o mundo que a rodeava. Ninguém a lia! Ninguém lhe comprava os livros. Porquê? Porquê? Talvez porque, até tu nasceres, nunca nesta nossa língua de palavras rudes e fidalgas, aparecera uma mulher a escrever como tu. O teu rolará pelos séculos fora.


Vila Henriques.

Os registos da Freguesia da Penha de França não fazem menção à Vila Henriques, mas informam que no nº 48 da Rua Heliodoro Salgado existe a Vila Guilherme Rodrigues, situada entre os prédios onde moraram José Gomes Ferreira e Irene Lisboa.

Mas não parece ser a vila de que José Gomes Ferreira fala.



Legenda:

Calçada do Sol, Moraes Editores, Lisboa Setembro 1983

A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, Portugália Editora, Lisboa Março de 1966.

Fotografias:

- Nº 52 da Rua Heliodoro Salgado. No R/C esquerdo, entre 1904 e 1917, viveu José Gomes Ferreira.

- Miradouro do Monte Agudo

- Escola Luísa de Gusmão

- Mercado do Forno do Tijolo

- Vila Guilherme Rodrigues, nº 48 da Rua Heliodoro Salgado.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

NEM CAIXA DE CORREIO HÁ...


Neste dia, talvez no ano de 1937, o poeta Afonso Duarte, escreveu esta carta à escritora, e sua amiga, Irene Lisboa.

Carta inédita, publicada no JL de 27 de Janeiro de 2009.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O VALOR DO VENTO


Irene Lisboa em Solidão II:

Já no Monte Agudo – pelos meus dezassete anos – eu queria dizer qualquer coisa ao vento. Rapariga solitária, demasiado solitária, impressionava-me o vento, a lua e outras coisas mais. Mas também sei, não esqueci que me achava incapaz de dizer o que queria ou sequer, de entender o que o vento me sugeria. O vento é um companheiro. As vozes acompanham-nos. Cortam o absoluto silêncio, a atonia e a calma do calado.”

Frank Sinatra, num concerto para angariação de fundos para ajudar crianças invisuais.

Algumas crianças visitam-no no final do espectáculo, e uma pergunta-lhe:

- Frank: de que cor é o vento?

Talvez um enorme silêncio como resposta.

De que cor é o vento?

RuyBelo, um dia, soube o valor do vento:

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Legenda: Fotografia de Afonso Santos.