Mostrar mensagens com a etiqueta Angela Davis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Angela Davis. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 12 de junho de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Aproveitamos a Música pela Manhã, para lembrar as canções de Yoko e dos Rolling Stones resultantes do julgamento de Angela Davis em 1970.

Lembramos também Nina Simone, que com o seu Mississipi Goddam permitiu a Angela Davis constituir a canção como um gritoda sua revolta, como o foi o We Shall Overcome e lembrar ainda  que às 09,00 horas publicámos o poema de Nicolas Guillen sobre Angela traduzido por António Ramos Rosa.




VELHOS RECORTES


 A história dos negros americanos terá, um dia, o seu fim?

É uma luta longa do desejo ardente de conseguir uma dignidade. Não pretendem africanizar a América, nem tornar branca a sua alma, mas saberem ancestralmente que a cor do sangue não é a cor da pele.

O saberem que no Vietname, em outras guerras que os americanos espalharam pelo mundo, morreram mais negros que brancos.

Steve Biko, nasceu na África do Sul, Dezembro de 1946 e, em Setembro de 1977,  a polícia matou-o, conduzido a um hospital, chegou já morto.

Nelson Mandela disse:«Eles tiveram que matá-lo para prolongar a vida do apartheid».

Frase dita por Biko, meses antes de ser assassinado.

«Os brancos têm de ser convencidos de que são apenas humanos, e não superiores. O mesmo com os negros: têm de ser convencidos de que também são humanos, não inferiores.»

Podemos dar as voltas que quisermos, olhar as pontas soltas, disfarçar sombreados, mas num qualquer final, sentirmos que todos somos racistas.


                                       
Jornal do Fundão, 20 de Fevereiro de 1972

No dia 18 de Agosto de 1970, Angela Davis tornou-se a terceira mulher a integrar a Lista dos Dez Fugitivos Mais Procurados do FBI, ao ser acusada de conspiração, sequestro e homicídio, por causa de uma suposta ligação com uma tentativa de fuga do tribunal do Palácio de Justiça do Condado de Marin, em São Francisco.

Com sua prisão decretada pelo estado da Califórnia e o FBI em seu encalço, Angela fugiu do estado e desapareceu por dois meses, acabando por ser presa em Nova Iorque. Foi julgada durante 18 meses, um julgamento que despertou atenções pelo mundo, com manifestações gritando pela sua absolvição, o que veio a acontecer.

Nesses tempos, acompanhei, pelos jornais, o que a censura salazarista deixava passar e constituí um Dossier Angela Davis.

Desse Dossier, o último recorte é um artigo publicado no Público de 30 de Setembro de 2023, assinado por Isabel Lucas, com o título «Angela Davis e a pergunta: “Como será a liberdade daqui a 50 anos?”, que agora releio:

«O tom de rebeldia cedeu a uma espécie de serenidade, a argumentação ganhou mais referências, experiência, testemunhos. Os cabelos ficaram brancos, mas a vontade de transformar a sociedade, ou de como ela tantas vezes refere, de "fazer a revolução", persiste. É como se a mulher de hoje olhasse com alguma condescendência alguns excessos ou romantismo da mulher das décadas de setenta e oitenta, quando teve a atenção do mundo a partir do momento em que foi presa. "O que eu considerava liberdade, enquanto jovem activista, não incluía muitos dos problemas que eu procuro combater e abordar intelectualmente hoje", diz no documentário — ou filme-ensaio, como é apresentado — Angela Davis: A World of Greater Freedom, neste sábado mostrado pela primeira vez em Portugal, às 19h, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa.

Assinado pelo escritor maliano Manthia Diawara, director do departamento de Estudos Afro-Americanos na Universidade de Nova Iorque, o filme é uma espécie de monólogo, ou solilóquio, no qual Angela Davis discorre sobre os assuntos que a apaixonam quando está quase a completar 80 anos.»


                                                               
República, 23 de Setembro de 1972

«Quem segue o pensamento de Angela Davis está familiarizado com as principais ideias ali veiculadas e expostas numa teia de raciocínio que reflecte as ramificações sociais e políticas do princípio em que a activista sustenta a sua crítica e que se pode resumir numa frase: a sociedade democrática em que vivemos tem por base o sistema esclavagista. É a partir desta ideia fundamental no seu pensamento que Angela Davis conversa sobre a urgência de transformar o mundo, uma transformação, diz ela, que tem de passar pela extinção de uma das instituições mais marcantes da herança esclavagista presente nas "democracias burguesas" actuais: as prisões.»

«A prisão", enquanto sistema, "incorpora o racismo estrutural da sociedade", afirma em coerência com o que já ouvimos e lemos noutras circunstâncias. Entre elas, em Novembro de 2022: "As instituições de encarceramento são racistas." Dois anos antes, em Junho de 2020, pouco depois de ser pela primeira vez publicada em Portugal com o livro A Liberdade é uma Luta Constante (Antígona), Davis formulara esse pensamento à luz de uma das dimensões que o modela, o ter implícita a ideia de que não se pode acabar com o racismo sem pôr fim a uma série de fenómenos que o alimentam, entre os quais a pobreza ou a falta de acesso à educação. Dizia ela que “acabar com o racismo é  acabar com os grandes problemas do mundo”.

«Davis fala sempre do todo, para falar das causas que defende. Aqui, isso fica evidente. Faz um exercício. Por exemplo, pensar “o que significaria construir uma sociedade que já não dependesse nem de prisões nem de polícia”. Tal implicaria, refere, “ter de lidar com todas as outras questões, como educação, saúde, emprego”. E neste contexto, refere o feminismo: “Não é apenas uma questão de género, mas uma questão de estruturas de sociedades que dão azo ao patriarcado e ao heteropatriarcado.”

“É preciso ser crítico em relação ao modo como a democracia se tem materializado ao longo da História e que contempla o racismo.”»

ANGELA DAVIS

Não vim aqui para te dizer que és bela,

creio que sim, que és bela

mas não se trata disso.

É que eles querem que tu estejas morta

Junto às caveiras de Jackson e de Lumumba.

 

E Angela, nós

precisamos do teu sorriso.

Vamos substituir os muros que o ódio construiu

por claros muros de ar,

e o tecto da tua angústia

por um tecto de nuvens e de pássaros,

e o guarda que te esconde

por um arcanjo com a sua espada.

 

Como se enganam os teus verdugos! És feita

de um material ardente e áspero,

de ímpeto inoxidável,

apto a permanecer através de sóis e chuvas,

de ventos e de luas,

sem tecto nem resguardo.

Pertences

A essa classe de sonhos em que o tempo

Sempre se fundiu as suas estátuas

e escreveu as suas canções.

 

Angela, não estou ante o teu nome

para te falar de amor como um adolescente,

nem para desejar-te como um sátiro.

Ah, não se trata disso.

O que eu digo é que és forte e maleável

para poderes saltares ao pescoço (e fracturá-lo)

dqueles que quiseram e ainda querem e hão-de querer sempre

ver-te arder viva atada ao sul do teu país,

atada a um poste calcinado,

atada a um carvalho sem folhagem,

atada a uma cruz ardendo vivo atada ao Sul

 

O inimigo é torpe.

Quer calar a tua voz com a sua voz,

mas todos nós sabemos

que a tua voz é a única que ressoa,

única que se acende

alta na noite como uma coluna fulminante,

um clarão fixo,

um vertical incêndio abrasador,

um repetido relâmpago

a cuja luz se destacam

negros de ardentes unhas,

povos enfraquecidos e coléricos,

 

Sob o sol real que eu habito

junto dos milicianos decididos,

na margem íngreme deste terrível e amigável mar,

vendo furiosas ondas a quebrarem-se nos escolhos,

grito e faço a minha voz viajar sobre os ombros

do grande vento que passa,

vendo, pai nosso caribeano.

 

Digo o teu nome, Angela, vocifero. Junto as mãos

não em rogos, rezas, súplicas, preces

para que os teus carcereiros te perdoem,

mas num acto de aplauso, mão na mão,

duro e forte, muito forte,

mão na mão para que saibas que eu sou teu.


Nicolás Guillén

Tradução de António Ramos Rosa