Um texto de José António Barreiros sobre a Seara Nova:
Não sei se é uma tristeza ou uma vergonha. Aqui fica o aviso, avisei-me a mim próprio esta tarde. Daqui a pouco começa a quietude do entardecer. Naquele tempo, aos sábados, talvez por ser a hora da tristeza, eu lia. Hoje, que escrevo, não sei se o meu mundo estará melhor.
Apesar da negritude cultural em que a ditadura de Salazar mergulhou o país,
apesar do cinzetismo que foi a ditadura de Marcelo Caetano, esse estranho
equivoco que deu pelo nome de primavera marcelista, existiam pequeninos faróis
que serviam de porta-aviões onde fomos descortinando algo, principalmente nas
entrelinhas. Apesar de tudo havia uma oferta cultural que fez algumas
diferenças, só possíveis à teimosia e coragem de alguns intelectuais. Jornais e
revistas conseguiram furar o cerco da ignorância, da solidão, do despotismo, do
medo, sobretudo do medo.
Do Sótão tirou algumas dessas revistas que lhe acompanharam os dias daqueles tempos. Começa pela “Seara Nova”, uma revista fundada em Lisboa em 1921. O primeiro número saiu em 15 de Outubro desse ano, por iniciativa de Raul Proença a que se juntou um naipe de intelectuais portugueses onde, entre outros, pontificavam António Sérgio,, Câmara Reys, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão. Na sua origem era uma publicação essencialmente doutrinária e crítica, assumidamente com fins pedagógicos e políticos. Recusaram ser partido político apenas pretendiam contribuir para quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social.
Apesar das vicissitudes resultantes da censura e das dificuldades financeiras que o projecto atravessou, publicou-se regularmente até 1989. O seu último número corresponde aos meses de Outubro/Novembro desse ano e tem o número 1596/1597. Custava 30$00 e o seu director era Ulpiano do Nascimento.
No editorial deste último número regular da Seara Nova, já se dava conta que a
revista abandonara a sus periodicidade e vivia as dificuldades sentidas por
milhares de pequenas e médias empresas ao mesmo tempo que se estudavam medidas
tendentes a sanear financeiramente a empresa, de forma a poder viabilizar-se o
projecto patriótico e humanista que a Seara Nova se impôs.
Não foi possível. A ditadura nunca conseguiu calar a voz à “Será Nova”, os
novos tempos democráticos permitiram-no.
Este é o número mais antigo da “Seara Nova “ que possui, referente aos meses de
Novembro/Dezembro de 1957 e com os números 1345/1346. Era director Câmara Reys
e custava 5$00. A meio da primeira página pode ler-se “VISADO PELA COMISSÃO DE
CENSURA” e, entre outros, regista colaboração de Fernando Piteira Santos, João
de Barros, Victor de Sá, Mário Sacramento, Lilia da Fonseca, José-Augusto
França. aso números 1345/1346
Porque é um documento histórico transcreve-se a Declaração de Princípios,
publicada no primeiro número da revista:
“O GRUPO SEARA NOVA:
- não lisonjeará nenhuma classe da sociedade
- não dará a nenhum dos seus aderentes qualquer beneficio de ordem pessoal
- não pretende o poder, mas preparar as condições necessárias de todo o
verdadeiro poder
- quer a Revolução mas não aplaude as revoluções
- quer semear em proveito colectivo, e não colher em proveito próprio
- não se limita a prosternar-se perante as glórias passadas da Pátria: quer
criara para a Pátria uma nova glória
- não olha o passado, marcha resolutamente para o Futuro.
- não se limita a glorificar os mortos heróis: quer que apareçam os heróis
vivos.
- não fará festas, nem lançará morteiros. Dirige todos os esforços para a
acção, e para a preocupação do dia de hoje e de amanhã.”
Legenda: 1º número da Seara Nova , imagem tirada da Internet.

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