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sábado, 23 de maio de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Já mais de uma vez disse por aqui que o meu pai foi um marxista-leninista. 

Nas nossas conversas entendia que eu, acima de tudo, deveria ler Marx e Engels. Por Marx ainda li o que se entenderia (?) por fundamental, mais por o João César Monteiro ter escrito que no Marx está tudo.

A carne é fraca e li mais Raymond Chandler do que os clássicos marxistas, leninistas e estarei em condições de dizer que cheguei mais às ideias que hoje tenho lendo Sartre, Camus, Vailland, Vittorini, Roger Martin du Gard, tantos outros, do que clássicos da política.  

«A tese de que o fim da União Soviética e do bloco socialista europeu, entre 1989 e 1991, obrigaria os partidos comunistas a abandonar o marxismo-leninismo – defendida a partir de 1998 pelo malogrado Carlos Brito e que conduziu à sua ruptura com o PCP em 2000 – sempre me pareceu partir de um pressuposto errado: o de que o marxismo-leninismo teria como única expressão prática possível a experiência soviética. 

O marxismo-leninismo, criado depois da morte de Lénine, albergou projectos políticos muito diversos e até antagónicos. Em Portugal, além do PCP, existiram entre 1964 e 1976 pelo menos 40 organizações que se reivindicavam marxistas-leninistas. Na própria URSS a mesma designação serviu para fundamentar o “socialismo num só país” de Estaline, a desestalinização de Khrushchev, apresentada como “regresso a Lénine”, e a Perestroika de Gorbachev, descrita como renovação leninista do socialismo.

A elasticidade do conceito permitiu ainda legitimar experiências tão distintas como o maoísmo, que deslocou o eixo revolucionário para o campesinato em sociedades semicoloniais, ou o titoísmo jugoslavo, que combinou socialismo, mecanismos de mercado e autogestão operária. Na China, no Vietname, em Cuba e noutros países, o marxismo-leninismo serviu aplicações nacionais muito diferentes.

A ideia de que a adaptação do comunismo aos “novos tempos” exigiria a rotura com essa identidade contradiz a conceção antidogmática defendida por Lénine. Em múltiplos textos, Lénine insistiu que a teoria de Marx não era um “dogma morto”, nem um mapa detalhado do futuro, mas um “guia para a acção”. Essa flexibilidade permitiu-lhe defender a participação de comunistas em parlamentos burgueses ou criar a NEP de 1921, que reintroduziu mercado, comércio privado e iniciativa camponesa na jovem URSS.

Os partidos que se reivindicam marxistas-leninistas partilham alguns princípios: transição para o socialismo, subordinação dos meios de produção ao interesse colectivo, anti-capitalismo, anti-imperialismo, denúncia da exploração humana na democracia burguesa, partido de massas. Mas esses princípios nunca deram origem a uma institucionalização homogénea. Podem exprimir-se em sistemas políticos distintos, como também o capitalismo convive tanto com ditaduras como com democracias liberais.

A adaptação de partidos comunistas marxistas-leninistas às instituições da democracia representativa encontra, aliás, exemplo contemporâneo no programa do Partido Comunista Português. O PCP, o meu partido, define o marxismo-leninismo como a sua base teórica não dogmática. O seu projecto de “democracia avançada” para Portugal incorpora liberdades, pluralismo de opinião e organização política, sufrágio universal, separação e interdependência de poderes, liberdade de imprensa, direito à formação de partidos e protecção jurídica dos direitos individuais e coletivos dos cidadãos.

Esta compatibilidade funda-se na ideia de que a luta pelo socialismo passa pelo aprofundamento da democracia política, económica, social e cultural, sem renúncia ao objectivo de uma sociedade sem exploração.

É por isso que me parece que Carlos Brito e os camaradas que a partir de 1998 o apoiaram na reivindicação do fim do marxismo-leninismo no PCP estavam errados: é que discutir a democracia interna no PCP, que é um tema que deve estar sempre em cima da mesa, nada tem a ver com o fim do marxismo-leninismo, pelo contrário.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

domingo, 19 de abril de 2026

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


O meu pai foi um marxista-leninista. 

Nas nossas conversas entendia que eu, acima de tudo, deveria ler Marx e Engels. Por Marx ainda li o que se entenderia por fundamental, até porque, mais tarde, o João César Monteiro apareceu a dizer que no Marx está tudo, Lenine é que foi muito pouco. 

Este Manual de Marxismo-Leninismo, de diversos autores, - 2 volume num total de 739 páginas - foi comprado pelo meu pai no Festival Internacional do Livro e do Disco, realizado no Centro Cultural de Belém em 1977, traduzido por Carlos Grifo, revisto por Manuel Gusmão, editado por Novo Curso Editores, em Setembro de 1975, Venda Nova/Amadora:

«Só uma classe determinada, os operários urbanos e, em geral, os operários fabris, industriais, está em condições de dirigir todo o conjunto de trabalhadores e explorados na luta para derrubar o jugo do capital, no momento em que este é derrubado, na luta para manter e consolidar a vitória com o objectivo de criar um regime social novo, socialista, e em toda a luta pela total supressão das classes». Lenine, citado na página 239 do 2º volume.

Livros apenas folheados porque, como a carne é fraca, li mais Raymond Chandler, mas retive que, como ensinavam os clássicos do marxismo-leninismo,  a  revolução socialista leva os trabalhadores ao poder, dirigidos pela classe operária.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Este é o plano de obra para os 2 volumes de História das Teorias Políticas (mais ou menos 450 páginas cada volume) de George H. Sabine

Os 2 volumes, na Biblioteca da Casa, estão no Outro Lado das Estantes.

Ao logo da sua vida, o meu pai foi comprando vários volumes de História e Filosofia para poder desfrutar da sua leitura quando a reforma chegasse.

Grande parte desses volumes, não foram lidos, outros nem abertos foram. O meu pai decidiu-se por outras leituras em que predominavam Os Mestres da Literatura Policial, editados pela Livros do Brasil.

Curiosamente o 2º volume foi o único que terá sido lido.

Diga-se que o meu pai era um marxista-leninista. Citação sublinhada:

«A filosofia do comunismo constitui versão revisada do marxismo. Em grande parte trabalho de Lenine, é por isso frequentemente chamada de “marxismo-leninismo”. A parte desempenhada por Trotsky na formulação da mesma, realmente considerável, é ter sido ele posteriormente expulso do partido.»

terça-feira, 29 de julho de 2025

DISTO DAQUILO E DAQUELOUTRO


É uma interessante crónica de Luís Filipe Castro Mendes publicada no Diário de Notícias, Já tem algumas semanas mas entendeu-se que a deveríamos reproduzir nesta secção aberta a tudo e mais alguma coisa.

«Vivemos um tempo em que os partidos social democratas começaram a ter vergonha de se dizer socialistas, porque “a palavra S” evoca nacionalizações, mais impostos para os ricos e estratégia económica reguladora do Estado, o que vai contra a “doxa” económica neo-liberal vigente, que visa remeter o Estado às estritas funções de soberania, beneficiar fiscalmente os mais ricos e anular qualquer influência estatal nos domínios económico e social. Em contrapartida, a extrema-direita perdeu qualquer resquício de vergonha e advoga o racismo, a xenofobia, o conservadorismo moral e o autoritarismo político, através da abolição da Constituição que nos rege. Qual seria a reação da nossa imprensa, dominada pelos ideais da economia liberal, se, algum iluminado de extrema-esquerda viesse propor uma Quarta República?

As universidades financiadas por empréstimos bancários aos estudantes, que passarão os primeiros tempos da sua vida profissional a trabalhar para os bancos, a saúde entregue aos privados, com seguros exorbitantes a cobrir dificilmente os elevados custos dos tratamentos mais inovadores, a educação para a desigualdade e não para a cidadania, esta é a face oculta do paraíso liberal, tão hipócrita e injusto como foi o paraíso comunista.

Face a esta hegemonia cultural da direita, no que toca às áreas económica e social, o socialismo democrático retrai-se, abriga-se num vago “socialismo liberal”, que não seria mais do que um liberalismo de rosto humano, uma economia desregulada com algum assistencialismo público associado.

Quem me lê dirá que estou a forçar as tintas, a caricaturar e a desvirtuar os objetivos liberais. Eu penso do neo-liberalismo que ele constitui uma ideologia extremista a partir dos princípios do liberalismo clássico, como o marxismo-leninismo (que eu, como social democrata que sou, distingo do marxismo), e que é expressão dos interesses de um capital financeiro que veio exercer a sua dominação nociva sobre a economia real. Houve antes um liberalismo social, aquele que integrou no pós guerra a economia social de mercado e que durou até ao dia em que Margaret Thatcher descobriu que não havia sociedade, só mercado.

Esse liberalismo extremista, próximo do anarco-capitalismo, encontra-se por toda a extrema-direita mundial, salvo quando o líder da extrema-direita (por exemplo Trump) descobre que esse neo-liberalismo vai limitar a sua autoridade absoluta e prolongar a abertura ao mundo que a globalização trouxe, impedindo políticas nacionalistas extremas: volta então (sempre Trump) ao conservadorismo autoritário tradicional das extremas-direitas, rompendo com Musk, o tecno-feudalista que desfaz os Estados com um serrote .

Não durou muito o idílio entre os multimilionários das tecnologias da informação e o presidente Trump. Mas olhemos para a Europa: a extrema-direita cresce por todos os Estados e interrogamo-nos até quando a direita que se reclama da Democracia irá fazer barreira a essa torrente e manter o seu lema “não é não”. A esquerda, obviamente, deve assumir como sua missão o combate, sem reservas nem meias palavras, àqueles que querem o suicídio do regime democrático. O que pode implicar da sua parte alianças e compromissos com a direita democrática, mas nunca o esquecimento da sua identidade e da sua diferença.»

Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias

1.

Alterações no programa da disciplina de Cidadania confirmam “pendor retrógrado” do Governo, acusa a Fenprof.

2.

Dez mil milhões de euros para reconstruir a Ucrânia., conclusão da Conferência de Recuperação da Ucrânia, para planear o pós-guerra, realizada em Roma.


3.

A Infraestruturas de Portugal perdeu 995 milhões de euros de fundos europeus para o projecto de linhas ferroviárias de alta velocidade.

4.

Portugal é o país que mais depende de fundos europeus e por cada dez euros gastos pelo sector público, nove são suportados por verbas de Bruxelas. 

5.

A Comissão Europeia corta verbas para agricultura em 22%.

6

«Era um miúdo, estava a correr para ir para casa, que era relativamente perto, passou um carro da polícia e abordaram-me. A primeira coisa que disseram foi: 'Então, preto, o que é que já roubaste?»

Rapper Harold

7.

Dados da OCDE mostram que sem imigrantes, a população activa em Portugal diminuiria e aquela organização defende que é preciso continuar a atrair estrangeiros, sobretudo para áreas menos qualificadas.

8.

 Roman Arkadyevich Abramovich ocupa o 311.º lugar na lista de bilionários da Forbes. Nascido na Rússia, em 2018 tornou-se israelita, encontrou ascendência sefardita da comunidade judaica de Hamburgo e, em 2021, conseguiu ser português também. O seu nome está associado a diversos crimes, mas a direita nunca se incomodou.

 10.

A proibição de voos nocturnos entre a uma e as cinco da madrugada, anunciada há sete meses, ainda não se concretizou e o Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, desculpa-se dizendo que a medida “ demora um tempo a ser implementada”.

11

Em Maio havia 1.644.807 utentes sem médico de família, mais 42.230 que no mesmo mês de 2024.

12

Portugal continua a atrair cada vez mais milionários estrangeiros e deverá somar mais 1400 «indivíduos com património elevado» este ano, indica o mais recente relatório da consultora britânica Henley & Partners.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

CONVERSANDO


O pai, vezes sem conto em largos tempos, foi-lhe dizendo para ler Karl Marx, porque nele está tudo.

Apesar da Obra Completa, publicada pelas Edições Avante,  existir na Biblioteca da Casa, apenas folheou os 3 volumes e dedicou-se mais a leituras de Raymond Chandler.

Recorda-se de uma fala de Chandler em que nos diz que alguém terá de ser tão honesto  quanto se pode esperar de um homem, num mundo em que isso está completamente fora de moda.

Nos dias que agora atravessamos, diria ao pai que Philip Marlowe, para resolver o caso das gémeas, tratadas em Santa Maria, que começaram por ser brasileiras e, num estalar de dedos, passaram a luso-brasileiras, faria mais falta do que qualquer página de Marx.

O tratamento das gémeas envolve o Presidente Marcelo, seu filho Nuno, uma série de gente, até chegar a um secretário de estado, Lacerda Sales, que agora se declara completamente esquecido do que se terá passado com a assistência médica que, em Santa Maria. foi prestada às gémeas.

Aqui no pedaço, precisaríamos de tudo, menos de um embrulhado caso como este.

Neste tempo-quase-Natal, os deuses, os anjos, se tornam nossos amigos.

Tanto dinheiro dado nas igrejas, e fora delas, aos santos, às santas, para agora levarmos com uma encomenda destas!..

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Por vontade própria, o meu pai reformou-se tarde.

Já tinha, há algum tempo, passado os 65 anos, quando colocou um ponto final na carreira de jornalista-gráfico, como gostava de se considerar.

Passámos, então, a ter um tempo que até aí não existira e, pelo menos, uma vez por mês, arrancávamos para uma jantarada, mais regada do que o resto, que terminava sempre com conversas “non-sense”, que iam desde o marxismo-leninismo ao carrapito da D. Aurora, do Benfica às pernas da Cyd Charisse.

Por vezes a jantarada era antecedida de sessão de cinema.

Juntos, vimos, no Fórum Picoas. as Recordações da Casa Amarela do João César Monteiro, - e o que nos divertimos! -, juntos também, (não) vimos no Londres a adaptação cinematográfica da Insustentável Leveza do Ser. Ao fim de vinte minutos de filme, olhou para mim e disse: vamos embora!.

Apanhámos um táxi para Alcântara e aterrámos no Cuidado Com o Degrau, um restaurante que, penso, já não existe.

Marxista-leninista convicto, gostava particularmente de Sartre e, e lia-o em francês. O livreiro Carvalho, da Livraria Clássica Editora, nos Restauradores, ao lado do então Cinema Eden, , conseguiu arranjar-lhe os seis primeiros volumes de Situations e sempre disse:

Mais vale estar errado com Sartre do que ter razão com Aron.

Não admira as cócegas que sentiu vendo o filme saído do livro do Milan Kundera. 
  
Pelo meu lado li Sartre, As Palavras é um livro que marcou muito os meus passos, mas sempre fui mais Albert Camus.

Há dias, ao rever Peggy Sue Casou-se, um filme mal-amado, ou melhor dito: pouco citado,  de Francis Ford Coppola, dono e criador de obras inescapáveis, topei com o diálogo de uma maravilhosa Kathleen Turner com o avô:

- Avô!
Sabe, quando o senhor e a avó morrerem a família morre convosco. Não voltarei a ver os primos.

- O “strudel “da tua avó é que mantém esta gente unida.

- Se pudesse voltar a fazer tudo de novo, avô, que faria de modo diferente?

- Trataria melhor dos meus dentes

Este tratar melhor dos dentes, mandou-me para idênticas palavras do meu pai  (estaria a citar Coppola? Não sei!), numa das jantaradas,  quando a conversa  terá entrado pelo velho beco do se eu soubesse o que sei hoje, se voltasse atrás, blá,blá,blá, e ele muito peremptório a afirmar que faria tudo, mas mesmo tudo, o que fizera, com uma única excepção: 

Trataria melhor dos meus dentes."