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quarta-feira, 29 de julho de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Um útil e interessante documento sobre a censura em Portugal, publicado pelo Expresso e que assinala os 35 anos do nascimento do semanário.

A contra capa do livro assinala, quando o povo no 25 de Abril invadiu os escritórios da censura e destruíram documentos preciosíssimos sobre a nefasta censura.

A ignorância mata!

Em Portugal existiu censura: às imagens, às palavras, ao pensamento.

Em Novembro de 1945, Salazar disse:

«Declaro não ter nunca percebido esta incoerência que ninguém ainda me explicou claramente: por que motivo se exige atenta fiscalização dos géneros deteriorados – o arroz, o bacalhau, a manteiga – e se descura completamente a higiene do espírito, não a aceitando para os baixos sentimentos?

Conheci a censura. Mas, não tendo gosto pelas memórias ressentidas, só muito raramente falo dela. Ainda há pouco toquei nesse terror quando reli Os Demónios – não Os Possessos – na tradução do António Pescada, a quem tão grata sou por me ter permitido ler sem desconfiança os meus romances russos. Está nele incluído o capítulo que Dostoievski se viu forçado a retirar aquando da publicação. Escreveu um outro, totalmente diferente. E a chave do enigma respeitante à personagem principal caiu no lodo. «Que nunca mais, que nunca mais isto aconteça», é o voto que faz qualquer leitor. E, no entanto, está a acontecer.

Não pela força de um poder instituído e frequentemente muito estúpido, mas pela força de um poder massificado, igualmente estúpido, igualmente autorizado por um puritanismo executório. É uma polícia da opinião que não parece imposta e que se aloja no interior de cada um para desencorajar a ousadia, sendo que a ousadia não está hoje na infantil libertinagem sexual e sim no dar palavra e dar figura ao que o homem e a natureza têm de terrível, de necessário, de indomesticável. Dar a palavra ao que é inominável, afrontar o tabu, eis a tarefa.

Não podemos deixar que uma cruzada de higienização se estenda à arte.»

Hélia Correia

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


 O Que a Censura Cortou

José Pedro Castanheira

Prefácio: Francisco Pinto Balsemão

Capa: Rui Guerra

Expresso, Lisboa Abril de 2009

“Politicamente só existe o que o público sabe que existe»

                    António de Oliveira Salazar, 1933

“Sem censura, o salazarismo não duraria um mês”

                     Mário Soares, 1972

sábado, 4 de novembro de 2023

DE S. BENTO AO ALTO MINHO


Terá António Oliveira Salazar se perdido de amores com a francesa Christine Garnier, jornalista francesa que veio a Portugal para entrevistar Salazar, passeando-se por São Bento e pela casa do Vimieiro?

 O pide Rosa Casaco, que fez as fotografias para o livro «Férias Com Salazar», numa entrevista de José Pedro Castanheira, publicada no Expresso de 21 de Fevereiro de 1998, admite que sim.

Perguntado sobre as propaladas relações de Salazar com Dona Maria, declara que isso não passa de uma infâmia. Salazar nunca desceria tão baixo, não se rebaixaria a ir para a cama com uma criada. As relações deles eram as de patrão e criada. Ele era um aristocrata, íntegro em tudo. As relações deles eram as de patrão e criada».

Maria do Céu Ricardo, que escreveu a peça em 1 acto, dividido em três cenas, Salazar, Deus, Pátria, Maria, deixa, no decorrer da peça, largos desabafos de Dona Maria:

«Sou para aqui uma coisa, Maria para isto, Maria para aquilo…, passei a vida a servi-lo, sempre à espera, sempre na sombra a apaparica-lo. Sempre a pensar que talvez um dia, quem sabe, ele olhasse para mim para me ver… Não para me dar ordens, olhasse para mim como ele olha outras mulheres, com outra delicadeza no olhar…»

(…)

»A francesa!... Cá está outro romance que esfriou. Hoje ele diz que ela era muito agitada para o seu gosto, «um vendaval de simpatia e uma desordem perfumada. Isso é o que ele diz hoje. Ela também se enervava cada vez mais com Lisboa e les gens… Sabe que nunca gostaram dela em Portugal. O povo, as mulheres, as madames de cá, não lhe perdoaram as intimidades. Andam todas à volta dele, como borboletas e depois julgam que são as únicas. Todas são únicas enquanto duram. Só eu é que sou a única de todos os dias, a que lhe atura as madurezas.»

domingo, 3 de abril de 2022

PAPÉIS DATADOS


Na sua edição de 5 de Junho de 2009, o Expresso lembrava que Cavaco Silva, enquanto primeiro-ministro concedera uma pensão por serviços excepcionais ou relevantes prestados ao país, a dois inspectores da PIDE/DGS.

Anos antes, recusara dar a Salgueiro Maia essa mesma pensão:

Nas comemorações do 10 de Junho de 2009, a realizarem-se em Santarém, Cavaco Silva, como Presidente da República, iria colocar um ramo de flores junto à estátua de Salgueiro Maia.

José Pedro Castanheira vincava que Cavaco tentava corrigir um erro com 20 anos.

Não foi um erro: foi uma enorme pulhice.

A eleição de Aníbal Cavaco Silva, quer como primeiro-ministro, quer como presidente da república, duas-vezes-duas, foi uma das piores desgraças que se abateram sobre os portugueses.

Por aí se arrasta, trôpego, numa apagada e vil tristeza, embrulhado na negociata que amigos seus, cometeram no BPN, negociata que ele nunca conseguiu explicar.

No final do seu livro Capitão de Abril (1), Salgueiro Maia escrevia:

Passados dez anos, será interessante analisar a evolução do comportamento de muitos dos intervenientes, em especial os políticos e os militares que conseguiram passar de um regime a outro, sempre na crista da onda, e que, com lutas pelo Poder, ajudaram a dificultar e evolução desejada. Por outro lado não acreditando em democracias musculadas nem no sebastianismo, resta-nos, na orgulhosa situação de implicados do dia 25 de Abril de 1974, criticar os muitos que pagam o idealismo e a generosidade com o mesmo comportamento que caracterizou o regime nascido a 28 de Maio:

- a corrupção

- a incompetência

- o compadrio

- o circo do Poder.

 

Até quando?

 

Sim até quando?


(Para uma leitura mais fácil, clicar sobre a imagem)

 

(1)   Salgueiro Maia Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, Notícias Editorial, Lisboa Novembro 1997

sábado, 25 de novembro de 2017

ATÉ NA MORTE É TRISTE SER-SE MISERÁVEL


Nós não diríamos: foram as cheias, foi a chuva. Talvez seja mais justo afirmar; foi a miséria, miséria que a nossa sociedade não neutralizou, que provocou a maioria das mortes. Até na morte é triste ser-se miserável. Sobretudo quando se morre por ser.

Citação de «O Comércio do Funchal», retirada do texto de Joana Pereira Bastos c/ Joana Beleza e José Pedro Castanheira, fotografia de Eduardo Gageiro, publicado na revista do Expresso de 12 de Novembro de 2017.