Mostrar mensagens com a etiqueta Peter Fonda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Peter Fonda. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 26 de março de 2024

O QUÉ QUE VAI NO PIOLHO?

 


Há cenas de filmes que nos perseguem pela vida.

Como por exemplo aquela de um ainda desconhecido Jack Nicholson a sair da prisão no Easy Rider. Era um cliente habitual da casa pelas suas costumadas bebedeiras.

Wyatt e Billy são presos por desfilarem de mota, sem terem licença para tal, no meio de uma parada do Carnaval de New Orleans. Batem com os costados na mesma cela onde está o Dr. Hausen.

Hausen é um advogado, filho de boas famílias e a quem, pela manhã, os policias levam uma aspirina para aliviar a ressaca.

Billy - Achas que consegues tirar-nos daqui sem problemas?


Hausen: Se não mataram ninguém, não há problema. Desde que não tenha sido um branco.

Por 25 dólares são postos em liberdade. 

Já na rua, Hausen saca, do bolso do casaquinho branco, uma garrafa de whisky.

- Isto é para começar o dia, amigos.

Ergue a garrafa aos céus e grita:

 - Ao velho D.H. Lawrence.

Bebido o gole de whisky, faz um esgar trágico de sentir o mundo a desabar em cima, e bate com o braço no corpo gritando “nique, nique, nique”, dando o informe aos amigos que se trata de um grito índio.

E arrancam os três de mota ao som de «If you want to be a bird» dos The Holy Modal Rounders.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

RELACIONADOS


No tempo da morte de Peter Fonda, uma lembrança, escrita por um tal de Gin-Tonic, e encontrada no blogue Ié-Ié:

EMI RECORDS - SSL 5018

Lado 1

The Pusher (Stepenwolf) – Born To Be Wild (Steppenwolf) – The Weight (Smith) – Wasn’t Born To Follow (The Byrds) – If You Want To Be a Bird (The Holy Modal Rounders)

Lado 2

Don’t Bogart Me (The Fraternity Of Man) – If Six Was Nine (The Jimi Hendrix Experience) – Kyrie Eleison Mardi Gras (The Electric Prunes) – It’s Alright Ma (Roger McGuinn) – Ballad Of Easy Rider (Byrds)

Há cenas de filmes que nos perseguem pela vida.
Como por exemplo aquela de um ainda desconhecido Jack Nicholson a sair da prisão em “Easy Rider". Era um cliente habitual da casa pelas suas costumadas bebedeiras.

Wyatt e Billy são presos por desfilarem de mota, sem terem licença para tal, no meio de uma parada do Carnaval de New Orleans. Batem com os costados na mesma cela onde está o Dr. Hausen.

Hausen é um advogado, filho de boas famílias e a quem, pela manhã, os policias levam uma aspirina para aliviar a ressaca.

Billy - Achas que consegues tirar-nos daqui sem problemas?

Hausen: Se não mataram ninguém, não há problema. Desde que não tenha sido um branco.

Por 25 dólares são postos em liberdade. Já na rua, Hausen saca do bolso do casaquinho branco uma garrafa de whisky.

Isto é para começar o dia, amigos.

Ergue a garrafa aos céus e grita: Ao velho D.H. Lawrence.

Bebido o gole de whisky faz um esgar trágico de sentir o mundo a desabar em cima dele e bate com o braço no corpo gritando “nique, nique, nique” fornecendo o informe que se trata de um grito índio.

Tem um cartão no bolso da “Casa das Luzes Azuis” de Madame Tinkertoy, “o bordel mais chique de toda a região do sul”.

Seria bom irem até lá. Partem os três estrada fora, nas suas lindíssimas motas, enquanto, em fundo, se ouve os Holy Modal Rounders a cantar “If You Want To Be a Bird” e as paisagens da América profunda vão desfilando, as estradas de que Luís Mira fala nas suas “Crónicas da América”.

“Easy Rider” é um filme realizado, em 1969, por Dennis Hopper que, juntamente com Peter Fonda o interpreta. É o filme de uma geração.

Eles não têm medo de ti, têm medo do que tu representas – a liberdade!

Dennis Hopper morreu sábado vítima de cancro. Tinha 72 anos. Um tipo com mau feitio, dizem, mas um artista de gabarito: escritor, pintor, fotógrafo e coleccionador de Arte.

Há uns tempos dele aqui falámos a propósito de “Blue Velvet”, do David Lynch. Uma das suas últimas aparições em público deu-se em Março deste ano, para receber uma estrela com o seu nome no passeio da fama de Hollywood, a número 2.403.

Confessou: diz-me muito, acreditem!

Por ele, fica aqui a capa da banda sonora de “Easy Rider” e também o disco dos Byrds, “Ballad of Easy Rider".

Chega um tempo em que os degraus são só de descida. Também não sabe por que carga de água, pelo meio da prosa, se foi lembrar do Guy Debord.

É quase um rapaz da mesma geração, quando nasceu tinha o Guy 14 anos. O seu livro “A Sociedade do Espectáculo” foi assim como que uma bíblia para os que, em Maio de 68, andaram pelas ruas de Paris para que os tempos mudassem.

Algures deixou escrito algo que Dennis Hopper teria gostado de ouvir: embora tenha lido muito, bebi mais. Escrevi muito menos do que a maior parte das pessoas que escrevem; mas bebi muito mais do que a maioria das pessoas que bebem.



PETER FONDA (1940-2019)


No dia 16 de Agosto morreu Peter Fonda. Tinha 79 anos.

Filho de Henry Fonda, irmão de Jane Fonda.

Borrifou-se em Hollywood, preferiu ser um independente, deixa para a História do Cinema «Eassy Rider», ao lado de Dennis Hopper, um filme que custou 342 mil euros e rendeu 36 milhões.

«Enquanto lamentamos a perda deste homem doce e encantador, também desejamos que todos celebrem o seu espírito indomável e o seu amor à vida. Em homenagem a Peter, por favor, façam um brinde à liberdade», pode ler-se num comunicado escrito pela família.

Luís Miguel Mira, numa das suas crónicas sobre a América escreve  sobre Easy Rider:

«Easy Rider” é, como se sabe, um marco da “Contracultura” americana dos anos 60/70 e um dos filmes que deu maior impulso ao surgimento de um novo tipo de cinema na América, aquilo a que Peter Hiskind chamou a “Nova Hollywood”.

 E é em Krotz Springs, no Louisiana, a muito poucas milhas da “Highway 61”, que acaba  “Easy Ryder”, naquela pavorosa cena final em que os dois “motards” interpretados por Peter Fonda e Dennis Hopper são mortos a tiro de caçadeira por um duo de inofensivos agricultores locais, “just to watch them die”, como na canção do  Johny Cash. E depois a câmara sobe até ao céu deixando ver os corpos deitados e a mota em chamas e aparece um rio que poderia ser o Mississippi, mas não é, enquanto Roger McGuin arranca lentamente com a “Ballad” que acompanha o genérico final:

“The river flows, it flows to the sea
Wherever that river goes, that’s where I want to be”

Uns dias antes, pouco antes de ter sido ele próprio morto à paulada pela calada da noite, o jovem advogado interpretado por Jack Niicholson, que bebia whiskey pelo gargalo em memória de D.H. Lawrence, já lhes tinha explicado, em conversa, porque razão eles iriam morrer:

“- Sabem, este costumava ser um país formidável. Não compreendo o que se passa…
- Acobardaram-se todos, é o que é. Nem num hotel de 2º…. num motel de 2ª conseguimos entrar. Acham que os vamos degolar ou coisa assim…Têm medo.
- Não têm medo de vocês, têm medo do que vocês representam.
- Só representamos quem precisa de cortar o cabelo…
- Não. O que vocês representam é a liberdade.
- E que mal tem a liberdade…? Ela é o mais importante.
- Ela é o mais importante, sim senhor, mas falar dela e vivê-la são duas coisas diferentes. Quer dizer, custa muito ser-se livre quando se é comprado e vendido no mercado. Mas nunca lhes digam que não são livres senão vão matar e mutilar só para provar que são. Vão falar convosco e falar convosco e falar convosco sobre liberdade individual. Mas quando veem um individuo livre, sentem medo…
- Mas isso não os põe a fugir assustados…
- Não. Torna-os perigosos…”

Se nenhum outro mérito tivesse, “Easy Rider” ficará sempre, para mim, como o filme premonitório do fim de um Sonho, o final de uma Utopia...Quase a acabar o filme já Peter Fonda tinha desabafado, com ar dolorido: “estragámos tudo…”.


O filme foi lançado em Julho de 1969. Em Agosto desse ano, Woodstock ficou célebre mas já não correu muito bem. Altamont, em Dezembro, foi um desastre… No ano anterior tinham sido assassinados Martin Luther King Jr e Robert Kennedy. A América tão depressa não voltaria a ser a mesma…»