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domingo, 20 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO



O maior grito pode ser um silêncio.

Almada Negreiros

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

CANÇÃO MUTILADA


A tarde cai amaciando a terra,
E enchendo-a de miragens tentadoras
Enquanto o Sol,
Nos últimos alentos,
Se prende aos galhos de um arbusto
Que, ressequido, à beira de uma ermida,
Parece o próprio símbolo da Vida.

De enxada ao ombro, alguns trabalhadores,
Pisam o pó e as pedras dos caminhos
- Como bandeiras humanas
Movidas pelo infortúnio,
Sem alegria, sórdidos, curvados,
Mas enormes no seu frémito de luta!

Ah!, nem a Morte quer os homens
Quando eles são desgraçados!

As estrelas lá, no alto,
Riscam cintilantes brilhos.

E em bandos –
Os maltrapilhos,
Silenciosos e ateus,
Zombam do Amor
E até de Deus!

A miséria
Quando atola
O homem nos seus negros labirintos,
Dá-lhe, também, a loucura
Dos mais trágicos instintos…

Agora, neste momento,
A noite –
É a imensa realidade…

E eu julgo ver a justiça
Afundar-se na penumbra
Da sua inútil verdade.

António Botto

Legenda: retrato de António Botto por Almada Negreiros

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

PARIS E EU


Um dia foi a minha vez de ir a Paris. Foi necessário um passaporte. Pediram a minha profissão. Fiquei atrapalhado. Pensei um pouco para responder verdade e disse verdade: Poeta!
Não aceitaram.
Também pediram o meu estado. Fiquei atrapalhado. Pensei um pouco para responder verdade: Menino!
Também não aceitaram.

E para ter o passaporte tive de dizer o que era necessário para ter o passaporte, isto é uma profissão que houvesse! E um estado que houvesse!

José de Almada Negreiros em Obras Completas

sábado, 14 de janeiro de 2017

CONFIDÊNCIAS


Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!


José de Almada Negreiros em Obras Completas, Volume IV

Legenda: pintura de Mihai Criste

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

TERTÚLIAS NO MARTINHO DA ARCADA


No dia 7 de Janeiro de 1782 abria as portas na Praça do Comércio a Casa da Neve, primeira designação do café que ao longo do tempo passou por vários nomes - e cuja história está irremediavelmente ligada ao nome de Fernando Pessoa. Depois da Casa da Neve chamar-se-ia, a partir de 1784, a Casa de Café Italiana. Anos mais tarde, em 1795, passa a Café do Comércio e em 1824 o nome oficial muda para Café da Arcada do Terreiro do Paço e, seis anos mais tarde, passa a chamar-se Café Martinho, designação que mantém até hoje. Martinho era apelido do dono nessa altura, que o quis distinguir (da Arcada) do outro café que abrira com o nome de Café Martinho do Camões.

Conta a lenda que foi no Martinho da Arcada que Fernando Pessoa terá tomado um último café, na companhia de Almada Negreiros, o amigo poeta e pintor, três dias antes de falecer.

A mesa ainda lá está.

Após o Nobel, a gerência, atribuiu uma mesa a José Saramago.

No Livro de Visitas do Café, Saramago escreveu:

Que palavras poderei escrever na minha mesa? Provavelmente não há outra melhor que a mais banal de todas. Obrigado.

Leio no Diário de Notícias que Luiz Machado vai retomar as tertúlias que, a partir de 1991, volta e meia, tem organizado no Martinho da Arcada, onde já levou personagens como Álvaro Cunhal, Mário Soares, Amália, Siza Vieira, Eusébio ou Júlio Pomar.

Para Luís Machado, escritor e jornalista, o Martinho da Arcada começou por ser o sítio onde ele bebia um cafezinho quase diário com a namorada que vivia na margem sul do Tejo e ali chegava de barco nos anos 70.

As tertúlias recomeçam no dia 20 deste mês com Eunice Muñoz e terminam a 4 de abril com o Presidente da República.

O preço, com jantar incluído, é de 20 euros.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Se eu fosse cego amava toda a gente.

Almada Negreiros

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

V.S.T. & ETC


Hoje, contam-se pelos dedos – devem sobrar dedos… - os editores que, no nosso país, amam verdadeiramente os livros que fazem.

Claro que sabem da importância do dinheiro, mas não é o vil metal que lhe faz mover os passos.

Muitos desbarataram fortunas nessa paixão.

Joaquim Figueiredo Magalhães foi um desses homens, um verdadeiro patriarca da edição.

Os editores falham ou porque são dedicadamente editores e não são administradores, ou porque são friamente administradores e não têm alma de editores, disse a Catarina Portas.

Aquando da sua morte, o insuspeito Vitor Silva Tavares disse que tinha sido um dos melhores editores do Século XX, desenvolvendo um trabalho notabilíssimo.

Catarina Portas escreveu no Público:

Sempre acreditei que a morte não teria coragem de se aproximar dele. Mas, afinal, também ela não lhe resistiu. Aos 92 anos, desapareceu Joaquim Figueiredo Magalhães, o primeiro grande editor moderno português. Ele era o homem mais vivo que jamais conheci. Maravilhosamente culto, espantosamente audaz, loucamente imaginativo e, para usar uma das suas expressões favoritas, altamente divertido, este homem era também, em igual medida, justo e generoso. Todos aqueles que gostam de livros lhe devem mais do que sabem.

Em 1950. Joaquim Figueiredo Magalhães, abre a sua primeira editora: a Empresa Editora Édipo, Ldª, sediada na Travessa do Noronha nº 30 e lança a Colecção Escaravelho d'Ouro com periodicidade mensal.


Os nossos intelectuais, na altura, entendiam que a literatura policial era secundária, de fancaria. Mas há livros notáveis: o Chandler, o Dashiel Hammet, a Agatha Christie, o Simenon, o Maurice Leblanc, fui eu que os editei.


Este é o único exemplar da Colecção Escaravelho d'Ouro que tenho, um livro de Raymond Chandler, À Beira do Abismo, editado em Abril de 1951, com tradução de Baptista de Carvalho e capa de Rosa Duarte.

Para garantir o sucesso da colecção, Figueiredo Magalhães, elaborou um plano de lançamento que culminava com a oferta de viagens aos locais que serviam à trama policial de cada história, ou o chamado «local do crime».

Estes são os livros com a indicação das respectivas viagens:


A campanha de lançamento chegou ao ponto de, num jogo internacional no Jamor, o editor mandou fazer chapéus para o sol que tinham escrito Três igual a Um. Compre! e até pôs um avião no ar com os dizeres Três Igual a Um.

A compra de À Beira do Abismo possibilitava uma viagem a Monte Carlo.  

Na contra capa são apresentadas as companhias que apoiavam a viagem:



Com os lucros da Escaravelho d'Ouro, Joaquim Figueiredo Magalhães, lança, dois anos mais tarde, a Editora Ulisseia.

O primeiro livro publicado é A Famosa Arte da Imprimição, de Américo Cortês Pinto.

A obra, acabada de imprimir na véspera de Natal, tem capa e capitulares de Manuel Rodrigues e é ilustrada com gravuras do pintor Lino António.

Trata-se de um belíssimo livro que vem da Biblioteca do meu pai.



Achei que devia iniciar a actividade com um pleito à arte da edição.

Na Ulisseia chamou para seus colaboradores Branquinho da Fonseca, Adolfo Casais Monteiro, Mário Henrique-Leiria, Jorge de Sena, José Blanc de Portugal, João Gaspar Simões.
Reuniam-se nas tardes de sexta-feira com uma garrafa de whisky para comentar os livros, trocar as revistas literárias estrangeiras que assinava, assinalar possíveis problemas com a censura, decidir tradutores.

Escolhi escritores como tradutores porque eram homens que sabiam português. É que se eu quisesse alguém que soubesse línguas, entregava as traduções ao porteiro do Avenida Palace que sabia oito idiomas, só não sabia era português. Mas também preferia os escritores porque gostavam do que traduziam, traduziam por gosto." E pagava bem as traduções, não se esquecendo de, em cada reedição, enviar um cheque, tanto a tradutores como capistas, no valor de um terço dos honorários iniciais.

Aos escritores portugueses, propôs desde logo um negócio inédito. Decidiu pagar os mais altos direitos de autor do mercado, 20 por cento do preço de capa, e adiantava mensalmente uma parcela dessa verba para que pudessem escrever em paz. Editou José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, David Mourão-Ferreira.

Eu estava muito bem colocado entre os jesuítas, a censura e os comunistas. A dada altura, entregava traduções a presos políticos em Peniche e em Caxias, justificando à censura que "sempre é preferível estarem a trabalhar do que a conspirar... E assim as famílias sempre recebiam algum". Pois nem a censura lhe conseguia resistir, publicou 14 livros proibidos.


Em 1959, Joaquim Figueiredo Magalhães, resolve lançar uma revista, oAlmanaque, cujas 18 capas de Sebastião Rodrigues e de Abel Manta são pura antologia da história do design gráfico português. Cardoso Pires, José Cutileiro, Sttau Monteiro, Alexandre O'Neill ou Augusto Abelaira são dos mais assíduos, mas a revista conta com as colaborações de Alexandre Pinheiro Torres, Baptista-Bastos, Francisco Mata. Irene Lisboa, Almada Negreiros, Sophia de Mello Breyner.

Sem ele e sem o lugar livre e alegre que ele criou na cultura portuguesa, o regime paroquial e bronco de Salazar teria sido para muita gente muito mais pesado, escreveu Vasco Pulido Valente que também colaborou no Almanaque.

Em 1972, Figueiredo Magalhães, decide vender a Ulisseia.

É aqui que entra a história de Livros Entre Bacalhau, Azeite e Vinho a Martelo.

Vitor Silva Tavares diz que, com a saída de Figueiredo Magalhães a Ulisseia tinha ficado sem cabeça, e é ele que, à frente da Ulisseia, com novos projectos, faz renascer toda a qualidade que era apanágio da editora.

Fundei uma colecção muito bonita, ainda hoje gosto muito dela, “Poesia e Ensaio”. O Magalhães tinha a colecção dos sucessos literários, com os romances; tinha a colecção dos Documentos Sociológicos e Políticos; era a Ulisseia que publicava os livros da Pelikan. Mas não tinha Poesia e Ensaio. E até nessa colecção houve logo livros apreendidos. Desde “Feira Cabisbaixa” do Alexandre O’Neill a uma antologia da poesia portuguesa do pós-Guerra, até casos mais graves. 

Entretanto Figueiredo Magalhães quis fazer uma companhia de aviação, depois um negócio de importação aérea de marisco de Cabo Verde para a Europa, a meias com Champalimaud. Tudo falhou. Quis comprar a Ulisseia de volta, mas a Verbo não acedeu. Fundou então a Meridiano para editar livros para a Gulbenkian, passou como director literário pela Bertrand na revolução, fundou finalmente a Convergência, que manteve até quase ao fim, no Chiado.

Quando fiz oitenta anos, decidi que era tempo de começar uma nova etapa na minha vida. E é por isso que ando a pensar em mudar a editora para uma sociedade só de mulheres. E não faço de sultão porque já não tenho idade para isso.

Chegou a contactar Catarina Portas para esse projecto.

Outra das sócias seria sua mulher, Rosa Lobato Faria, para além de duas moças novas.

Morreu no dia 26 de Novembro de 2008.

Fontes:
Figueiredo Magalhães- O Homem da Ulisseia, texto de Ricardo Machaqueiro, publicado na revista Ler nº 44 Inverno 1999.
O Último Livro da Ulisseia s.f.f. de Catarina Portas texto publicado noPúblico de

Legenda:
Fotografia de João Francisco Vilhena, publicado na revista Ler nº 44
O exemplar doaAlmanaque foi tirada da net.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Obras Completas

José de Almada Negreiros
Editorial Estampa, Lisboa, Agosto de 1971

PRIMEIRA MANHÃ

Quando eu cheguei devia ser tarde,
já tinham dividido tudo
pelos outros e seus descendentes.
Só havia o céu por cima dos telhados
lá muito alto
para eu respirar
e sonhar.
Tudo o mais
cá em baixo
era dos outros e seus descendentes.
A terra inteira
e o mar
e o ar
tudo medido
dividido tudo a régua e compasso
pelos outros e seus descendentes.
No mundo inteiro
não faltava ninguém
depois dos outros e seus descendentes.
A terra inteira
era estrangeira
mais este pedaço onde nasci.
Não me deixaram nada
nada mais do que o sonhar.
Eu que sonhasse!
E eu que amo a vida mais do que o sonho
e o sonho e a vida juntos
mais do que ambos separados
e que não sei sonhar senão a vida
e que não sei viver senão o sonho
hei-de ficar aqui
entre os outros e seus descendentes?
Eram meus os caminhos
os caminhos murados
só os caminhos eram meus.
Só tinham fim os caminhos
ao começar outros caminhos.
As portas fechadas
as janelas cerradas
só os caminhos eram meus.
A minha viagem não tinha fim
no fim de todos os caminhos.
O fim que tinha era outro
bem perto de mim
em todos os caminhos.
Bem perto de mim andava
aquele que eu buscava,
aquele que não era nenhum dos outros e seus descendentes,
aquele cuja pessoa era eu
que não me achava.
Apenas uma voz me falava e sabia
que eu não era nenhum dos outros e seus descendentes.
E esse que a voz sabia que eu o era
me levava pelos caminhos
os meus olhos primeiro do que eu
e o coração no peito a contar.
A voz sabia-o bem
e eu para me encontrar
Também vi pelos caminhos
lembro-me de quantos
também como eu
à procura de tantos como eles.
Perdidos vão
perdidos? não!
não achados
não achados ainda.
Perdidos não estão
vão perdidos por se acharem,
vão mortos por se verem a si-próprios
como são.
Levam o sonho no ar
e o coração a contar
as idades que é preciso ter
até cada um ser
aquele que vai em si.
Nascer é vir a este mundo
não é ainda chegar a ser.

Nascer é o feito dos outros.
O nosso é depois de nascer
até chegarmos a ser
aquele que o sonho nos faz.

Já sei de cor os caminhos
já sei o que vale a promessa
já vejo perfeito no sonho
o que me há-de a vida imitar.
Mais além
e o sonho e a vida
libertar-se-ão um do outro em mim!

segunda-feira, 16 de março de 2015

ANTÓNIO BOTTO



Um dos maiores poetas da língua portuguesa.

Fernando Pessoa considerou-o o seu maior mestre na poesia.

O crítico João Gaspar Simões escreveu que a poesia de António Botto põe-nos diante de um dos mais delicados problemas do amor.

Federico Garcia Lorca: bom e amável como criança predestinada, conhecê-lo e ouvi-lo é ganhar tempo aprendendo muita coisa que só ele sabe dizer como ninguém.

Camilo Pessanha considerou Botto como um assombroso artista, um extraordinário poeta.

Para Raul Brandão, António Botto era o grande mestre da poesia moderna.

Poemas seus constam da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia:

A suprema originalidade de António Botto reside, sobretudo, no desassombro com que procura redimir o lado negro do erotismo, disputando luminosamente a homossexualidade a uma maldição que até aí a aprisionava à grilheta da sátira ou da musa obscena.

Em Novembro de 1942, foi demitido da função pública, era escriturário de primeira classe do Arquivo Geral de Identificação, por não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social, por fazer versos e recitá-los durante as horas regulamentares do funcionamento da repartição, prejudicando assim não só o rendimento dos serviços mas a sua própria disciplina interna.


Cinco anos depois, foi para o Brasil, levo comigo os meus versos, a minha alma e a minha angústia, mas a sua vida não deixou de ser atribulada.

Nos últimos anos, vivia da caridade alheia, vinte cruzeiros por um poema.

Na noite de 4 de Março de 1959, ao atravessar uma rua no Rio de Janeiro, foi atropelado, vindo a morrer no dia 16.

Tinha 61 anos.

Em 29 de Outubro de 1965 os seus restos mortais foram trasladados para Lisboa, por via aérea, mas só em 11 de Novembro de 1966 foram depositados num gavetão no Cemitério do Alto de São João.

 Na cerimónia fúnebre estiveram presentes, entre outras personalidades do meio intelectual, José Régio, Ferreira de Castro, David Mourão-Ferreira, Luís Amaro, Natália Correia. Assis Esperança, Dórdio Guimarães.

António Botto é, hoje, um poeta esquecido.

Não é o único.


Legenda: retrato de António Botto da autoria de Almada Negreiros.

                 Notícia do Diário de Lisboa de 10 de Novembro de 1966.               

domingo, 10 de junho de 2012

LIVROS ENTRE AZEITE, BACALHAU E VINHO A MARTELO


No tempo da ditadura há casos curiosos de capitalistas e empresários portugueses que  ajudaram escritores e artistas, que eram da oposição, por motivos nunca declarados e que, agora, não sei como se podem explicar.

O industrial Manuel Vinhas ajudou artistas como Júlio Pomar, Vespeira, escritores como Ary dos Santos, Mário Cesariny de Vasconcelos, Alexandre O’Neill, Luiz Pacheco, financiou Raul Solnado para a construção do Teatro João Villaret, cedeu as instalações de um antigo armazém, ao lado da Cervejaria Portugália, pertença da Sociedade Central de Cervejas, para que A Comuna apresentasse os seus espectáculos.

Luiz Pacheco dedicou-lhe o seu livro Exercícios de Estilo (Editorial Estampa, Lisboa 1971) e numa Carta de Longe fala da ajuda que Vinhas lhe prestou:

Do mecenas Manuel Vinhas, falo pelo que me toca. Durante anos, mais de dez, auxiliou-me em dinheiros, renda de casa pontualmente paga, bolsa de estudo em livros, máquina de escrever, a minha charrua, oferecida. Sem me conhecer pessoalmente, apenas alertado para a minha difícil situação económica por um Amigo comum.

Nunca tive nem creio que venha a ter mecenas tão delicado e escrupuloso. Nunca se esquivou quando a ele tive de recorrer, e apenas o fazia em última instância, e nunca, também, me deu conselhos ou sugestões que interferissem no meu trabalho.

“O Mecenas paga, não dá ordens”, costumava dizer Mestre Almada Negreiros.

Claro que ninguém está a ver os merceeiros Belmiro de Azevedo, Soares dos Santos, ou o sr. José de Mello a terem desvios deste jaez!...

Os proprietários da Sociedade Abel Pereira Fonseca possuíam a Editorial Ulisseia e o Diário Ilustrado.

Esta Praça da Canção , de Manuel Alegre, um livro que marcou toda uma geração, é o nº 18 da Colecção Poesia e Ensaio, uma belíssima e importante colecção, publicada com orientação gráfica de Espiga Pinto e que viu alguns livros apreendidos pela PIDE/DGS.

A Praça da Canção foi publicada, em 1965, pela revista Vértice, em exclusivo para os seus assinantes. Os poucos exemplares que apareceram nas livrarias foram, de imediato, apreendidos pela polícia política.
  
Esta 2ª edição, prefaciada por Mário Sacramento e editada pela Ulisseia, também foi apreendida pela PIDE/DGS, mas aqui, com a conivência de alguns livreiros, foi possível que grande parte não caísse nas suas pérfidas mãos.

Servindo-me do livro Memórias Vivas do Jornalismo, sigo até à entrevista de Edite Soeiro para contar a história da Ulisseia, que amanhã se completará com um depoimento de Vítor Silva Tavares, para depois, Roby Amorim, contar a história do Diário Ilustrado:

Em 1964 fui convidada para orientar as edições Ulisseia. Aceitei com certa relutância, mas o ordenado era tentador. Assegurei a colaboração do Vítor Silva Tavares, actual editor das publicações & etc., o qual já trabalhara comigo no Intransigente e que teve papel preponderante na selecção de autores. Estive lá 30 meses, mas não tardei a verificar que os patrões não queriam saber da editora para nada e pouco se lhes dava que imprimisse obras-primas ou fotocópias. A única coisa que realmente pretendiam era que aquilo não desse prejuízo. Efectivamente, a Ulisseia deixou de dar prejuízo, mas nós tínhamos projectos mais ambiciosos. Por exemplo, queríamos lançar uma colecção chamada Pelicano, para que os estudantes universitários pudessem deixar as miseráveis sebentas que utilizavam, por falta de alternativa. Este e outros projectos reclamavam um forte investimento, pelo que não podia ser decidido sem o aval dos proprietários da editora, que eram da firma Abel Pereira da Fonseca. Nunca conseguimos fazer com eles uma reunião decente, para lhes apresentarmos os nossos projectos e tomarmos deliberações em conjunto. Entre o bacalhau, o vinho, o arroz e todas essas coisas, tinham aquela preciosidade que era a Ulisseia, para tratar da qual não dispunham de tempo. Por isso, resolvi demitir-me.

sábado, 7 de maio de 2011

SARAMAGUEANDO


De facto, dos portugueses nunca se esperou muito, aos portugueses nunca se lhes pediu nada. O despertar vai se atroz. Ou talvez não. A gente habitua-se a tudo, até a não existir…

José Saramago no 2º volume dos “Cadernos de Lanzarote”

Legenda: quadro de Almada Negreiros

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

IDÍLIO EM BICICLETA


Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas.
A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

José de Almada Negreiros em O Regresso ou o Homem Sentado