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sábado, 27 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


A saudade é uma tatuagem da alma: só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós.

Mia Couto

Legenda: fotografia de Rui Ornelas

domingo, 29 de março de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Segundo o Expresso, José Saramago pode deixar de ser obrigatório no 12.º ano; Camilo Castelo Branco passa a leitura obrigatória.

A proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais de Português, atualmente em consulta pública pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação, retira a obrigatoriedade de obras de José Saramago no ensino secundário.

Na prática, as escolas deixam de estar obrigadas a escolher uma obra do escritor no 12.º ano, passando a poder optar por outros autores. Atualmente, o programa prevê a leitura integral de “Memorial do Convento” ou de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

A proposta prevê ainda que Camilo Castelo Branco passe a leitura obrigatória neste nível de ensino e abre a possibilidade de escolha de obras como “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, de Mário de Carvalho.

Segundo responsáveis da área, a revisão procura aumentar a diversidade de autores e temas trabalhados nas escolas, permitindo maior flexibilidade na escolha das obras.

A alteração, que retira da obrigatoriedade o único Nobel português da Literatura, poderá suscitar debate no meio académico e cultural.

O documento está em consulta pública até 28 de abril e poderá ser ajustado antes de entrar em vigor no próximo ano letivo.

Entretanto, o Rui Ornelas enviou-nos um texto, da autoria de Daniel Bento, publicado na NetLetter, e que passamos a apresentar:

«A vida podia ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe arrancar as pétalas”. Quando se lembraram da famosa citação de José Saramago em “Memorial do Convento”, Rui Taveira, José Taveira e Sofia Oliveira não tiveram dúvidas: tinham encontrado a frase que inspiraria o projeto que tinham em mãos.

“Todas as nossas ideias começam com uma frase, geralmente de um autor que gostamos. Tentamos fazer uma ligação da arquitetura com o mundo das artes. Pode ser a literatura, o cinema ou qualquer outra área”, explicam à NiT, acrescentando que olham para o seu trabalho como “poesia materializada”.

Fiel a esta visão, o trio desenhou uma casa inovadora na ilha de Yakushima, no Japão, local classificado como Património Mundial da UNESCO. Batizada “Life could just be” — como no início das palavras de Saramago — o projeto foi criado para o prestigiado concurso internacional NOT A HOTEL Design Competition 2026.

O resultado final tornou Rui, José e Sofia parte dos 10 finalistas da segunda edição da competição, tendo-se destacado entre as mais de mil submissões de 113 países. 

Os três arquitetos decidiram participar um mês antes do fim das submissões. “Uma equipa espanhola entrou em contacto connosco para entrarmos juntos. Ainda não estávamos a par, mas respondi logo a dizer que também estávamos a concorrer”, recorda Rui, que se apressou a ligar ao irmão e à amiga para os desafiar.

Nenhum hesitou. Até porque, ao contrário dos concursos em que já tinham participado, em Portugal, “havia muito menos limitações”. A única exigência era que todos os profissionais tivessem menos de 40 anos e desenhassem um T3, com suites e piscina, em Yakushima. “A nível de criatividade, estávamos soltos.”

Os três têm valências em áreas complementares. Rui trabalha no atelier de arquitetura Frederico Valssassina, enquanto o irmão, José faz parte do estúdio de imagens em 3D uto.vz. Conheceram Sofia durante a faculdade, criativa que agora trabalha a solo. “Somos super próximos e, sempre que há uma competição, queremos participar”, confessa.

O primeiro passo foi estudar o “ambiente super específico” da região, um local tropical e com muita chuva. Através de videos e imagens, perceberam que naquele terreno, onde não havia grande envolvente, poderia haver problemas como a humidade ou a densidade da vegetação.

A solução foi a escolha de materiais que pudessem envelhecer bem e não “propostas artificiais”. Optaram por opções como o betão para que, ao longo do tempo, o musgo que pode aparecer no exterior ou manchas mais escuras “não fossem vistas como algo a evitar, mas como a casa a pertencer cada vez mais à ilha.”

Vista de fora, a habitação foi pensada como um volume mais pesado, quase como uma pedra que pertence aquele solo. “Tentámos encontrar um bom equilíbrio entre aquilo que a [plataforma japonesa de casas de férias de luxo com design de autor] Not a Hotel gosta e o que a localização pedia”, explica Rui.

Juntaram ainda uma pala na parte da frente, “como uma folha suspensa” que esconde o resto da moradia. É um “momento mais leve” que recebe a pessoa e que lhe permite “absorver o máximo possível da ilha” com relativa proteção: não estamos fechados, vemos a chuva e sentimos o vento, mas ao mesmo tempo é um espaço coberto.

Todos os detalhes foram pensados para fazer uma casa luxuosa, mas não de forma convencional. Rui, José e Sofia interpretaram o conceito do “luxo do tempo” à sua maneira, respondendo a uma questão que se colocaram uns aos outros várias vezes: o que é uma casa de férias que seja uma pausa neste ritmo frenético?

Acabaram por perceber, explicam, que “a ilha, por si só, já tinha todo o valor necessário” e que a abordagem nunca seria competir com a beleza do local. “Decidimos fazer um projeto que passasse despercebido, quase invisível. Algo que fosse aceite e que permitisse conhecer a ilha por dentro.”

Quanto à possibilidade de ver a casa construída, começam por defender que, mais do que “aos problemas do mundo real”, é a parte criativa da arquitetura que os três mais gostam de explorar. “Damos muita importância a esta parte teórica. As formas representam essa ambição criativa e poética.”

Não escondem, por isso, a felicidade de terem sido reconhecidos por um júri que incluiu nomes como Bjarke Ingels ou Sou Fujimoto. “Tentámos manter uma postura confiante, mas sabíamos que podia não dar certo. A oportunidade de fazer esta viagem, conhecer estes arquitetos é o prémio mais incrível.”

A verdade é que já se imaginam sentados num terreno em Yakushima, a segurar um malmequer, mas sem lhe arrancar as pétalas. “Por serem já sabidas as respostas, ou por serem estas de tão pouca importância que descobri-las não valeria a vida de uma flor”, como termina a citação de Saramago.»

quinta-feira, 12 de março de 2026

ARCO-ÍRIS


 Poema de Raul de Carvalho dedicado a Vasco Granja, patente na Exposição «Olá Vasco Granja».

Legenda: fotografia de Rui Ornelas.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

FRANÇA DEBAIXO DE ÁGUA - A CRISE QUE QUASE NÃO VEMOS EM PORTUGAL


 Enquanto o debate público se centra nas cheias em Portugal, a França atravessa uma situação excecional que devia preocupar toda a Europa.

As imagens publicadas pelos  média são fortes.

Os números são ainda mais claros:

 900.000 casas sem eletricidade na semana passada

 Cheias generalizadas em várias regiões

 Mais instabilidade prevista, aumentando a pressão sobre a rede elétrica

 Porque é que isto nos deve preocupar?

Porque isto não é um “acidente isolado”.

É a demonstração de que crise climática e vulnerabilidade da nossa sociedade andam de mãos dadas.

Quando centenas de milhares de pessoas ficam sem casa e sem luz, o impacto é económico, social e sistémico.

 Três pontos para reflexão

 Resiliência das redes

Estamos a investir o suficiente para proteger linhas, postes e subestações contra eventos extremos?

 A invisibilidade do risco

Como é possível uma catástrofe desta dimensão num país vizinho ter tão pouco eco no debate público em Portugal?

 Conclusão:

A transição energética já não é só sobre produzir energia limpa.

É, cada vez mais, sobre manter a luz acesa quando o clima testa os limites da engenharia.

Vale a pena ler o artigo do Le Figaro.

A segurança energética europeia é muito mais frágil do que gostamos de admitir.

Pergunta para debate

Estamos a preparar a nosso País para o “novo normal” climático — ou continuamos apenas a reagir depois do choque?

Nota: este texto é de um colega meu.

Pareceu-me interessante.

Colaboração de Rui Ornelas

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

Vasco Granja, em tempos de ditadura, foi um dos que lutaram pela liberdade.

Por essa luta foi perseguido, esteve preso nas masmorras da PIDE.

O livro, justíssima homenagem no centenário do nascimento de Vasco Granja, foi-me oferecido pelo Rui Ornelas, meu companheiro de luta, a viver no 4º andar direito.

Eu moro no 2º andar, também direito

Com o meu filho mais velho, após o 25 de Abril, assisti aos extraordinários, únicos, desenhos animados dos países ditos de leste, apresentados na televisão pelo Vasco Granja.

Como escreve sua filha Cecília Granja:

«Emergindo do interior das nossas memórias, parece que o estamos a ver, no pequeno ecrã a preto e branco, mais tarde a cores, numa qualquer tarde de sábado, aconchegados no sofá da nossa sala pequeno ecrã  a preto e branco».

Nos anos 50 Vasco Granja era militante do Partido Comunista Português, participa nas actividades clandestinas da célula dos partidos, organiza passeios culturais, convive com as populações camponesas e operárias, pinta palavras de ordem nos muros das ruas de Lisboa, distribui o jornal Avante e demais propaganda.

Este pormenor da vida de Vasco Granja, traz-me à memória que, já depois do 25 de Abril, às quintas-feiras, vendia o Avante na Estação de Comboios do Cais do Sodré e não raro me lembrava de O Rival, romance de Roger Vailland:


« Tem entrevista marcada? 

- Não.

- Então faça o favor de preencher uma ficha.

Mignot escreveu:

NOME: Fréderic Mignot

FINALIDADE DA VISITA: da parte de secção de Clusot do Partido Comunista Francês.

- Faça a fineza de esperar um momento, - disse o contínuo, que depois se dirigiu, coxeando, para escada.

Mignot teve a impressão que o velho lhe lançara um olhar espantado. Na realidade, há muito que o velho era demasiado míope para ser capaz de ler, mesmo quando punha os óculos: e era apenas isso que lhe dava aquele ar assombrado.

- Mande entrar esse senhor imediatamente. – disse Letourneau, que ficou à espera, com o coração a bater com força.

«Aí está a iniciativa misteriosamente anunciada ontem pela pequena Amable», pensou ele. «Cumpriu a sua promessa». Estava disposto a fazer algo de muito importante «introduzindo o inimigo na fortaleza». «Aqui está finalmente o meu primeiro acto de coragem», disse para si mesmo.

Mignot preparara cuidadosamente toda uma série de argumentos para persuadir Letourneau a petição para a libertação de… Mas Philippe dispôs-se a assinar mesmo antes de ouvir uma única palavra.

«Então é apenas isto!» pensava ele. Chegara a temer que Pierrette exigisse dele uma profissão de fé pública, como, por exemplo, ir ao domingo de manhã, à saída da missa, vender, berrando o L’Humanité. Tivera receio de ser ridículo. Não que ele ligasse grande importância à opinião que dele fariam os burgueses, e sabia até, pelo contrário, que os seus amigos de Lyon ou de Paris teriam achado extremamente divertido que ele andasse a gritar L’Humanité pelas ruas de uma sede de concelho provincial. Mas temia parecer ridículo aos olhos dos operários: «Não me saberia comportar como eles, ficaria deslocado.»

 

Vasco Granja, às quartas-feiras no República coordenava o suplemento Bastidores sobre cinema, banda desenhava, outras secções da cultura.

No Diário de Lisboa-Juvenil, para além da poesia, do conto, da fotografia, existia «Panorama», um registo de de recortes de jornal, de livros.

Numa dessas leituras dos Bastidores, encontrámos o artigo do escritor brasileiro Rubens F. Lucchetti com o título «As Histórias de Quadradinhos Criam o Hábito da Leitura» e comentámos:

A nota provocou uma polémica em que entraram, pela parte dos Bastidores: Vasco Granja, Lauro António, Vitor Silva Tavares, Jorge Silva Melo e um estudante, leitor do suplemento, de nome António Armando Costa que, entre outros disparates, que pouco, ou nada, tinham a ver com o assunto em discussão, sugeria ao Mário Castrim que nos expulsasse do Juvenil e intimava a que o tratássemos com dignidade que lhe era devida como universitário!!!

À parte de quem tinha razão sobre as tais histórias em quadrinhos, depois misturadas, desnecessariamente, com banda desenhada, eram tempos, apesar de todas as nuvens negras, bem interessantes.

Um gosto muito grande de lembrar Vasco Granja, um nome incontornável na nossa cultura, um lutador pela liberdade e pela Justiça.

domingo, 28 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Dizem que os tempos mudam… dizem…

Avenida da Liberdade em Lisboa.

Por acaso perto de uma empresa chamada "Feelslikehome" (sinto-me em casa) que se dedica ao chamado "Alojamento Local"

Texto e fotografia de Rui Ornelas

quarta-feira, 30 de abril de 2025

POSTAIS SEM SELO


«Alguns acharam que a festa de abril era incompatível com o pesar que sentimos pela morte do Papa Francisco. Estamos de luto, pensaram, e no luto não pode haver festa. 

Ocorreu-me a mim, velho agnóstico que sou, a ideia de que o verdadeiro luto pelo Papa Francisco estava afinal na alegria. Na alegria que ele próprio irradiava e na nossa profunda e inabalável alegria de abril».

Luís Filipe Castro Mendes de uma crónica no Diário de Notícias

Legenda: fotografia de Rui Ornelas

sexta-feira, 18 de abril de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


 Tempo de silêncio, quase trevas, esperando a alegria de uma grande Aleluia.

Música e Poesia. A Música de Mozart, a Poesia de Jorge de Sena.

Tudo se cala. Tudo há-de tornar-se num enorme Grito, enquanto ouvimos «Lacrimosa» do «Requiem» de Mozart.

 

«REQUIEM» DE MOZART

 

                     I

Ouço-te, ó música, subir aguda

à convergente solidão gelada.

Ouço-te, ó música, chegar desnuda

ao vácuo centro, aonde, sustentada

e da esférica treva rodeada,

tu resplandeces e cintilas muda

como o silente gesto, a mão espalmada

por sobre a solidão que amante exsuda

e lacrimosa escorre pelo espaço

além de que só luz grita o pavor.

Ouço-te lá pousada, equidistante

desse clarão cuja doçura é de aço

como do frágil mas potente amor

que em teu ouvir-te queda esvoaçante.

 

 

                         II

 

Ó música da morte, ó vozes tantas

e tão agudas, que o estertor se cala.

Ó música da carne amargurada

de tanto ter perdido que ora esquece.

Ó música da morte, ah quantas, quantas

mortes gritaram no que em ti não fala.

Ó música da mente espedaçada

de tanto ter sonhado o que entretece,

sem cor e sem sentido, no fervor

de sublimar-se nesse além que és tu.

Ó vida feita uma detida morte.

Ó morte feita um inocente amor.

Amor que as asas sobre o corpo nu

fecha tranquilas no possuir da sorte.

 

                         III


Além do falso ou verdadeiro, além

do abstracto e do concreto, além da forma

e do conceito, além do que transforma

contrários pares noutros par’s também,

além do que recorre

ou nunca vem

ao que se pensa ou sente, além da norma

em que o não-ser se humilha e se conforma,

além do possuir-se, e para além

dessa certeza que outro ritmo dá

àquele de que as palavras têm sentido:

lá onde ouvir e não-ouvir se igualam

na mesma imagem virtual

do na-

da – é que tu vais, ó música, partido

o nó dos tempos que por si se calam.

 

                       IV


Tudo se cala em ti como na vida.

tudo palpita e flui como no leito

em que se morre ou se ama, já desfeito

o abraço do momento em que sustida

a sensação da posse conseguida,

a carne pára a ejacular-se atenta.

Tudo é prazer em ti. Quanto alimenta

Esta glória de existir, trazida

a cada instante só do instante ser-se,

reflui em ti, liberto, puro, aflante, certeza e segurança de conter-se

na criação virtual o renascer-se

agora e sempre pelo tempo adiante,

mesmo esquecido. Em ti, o conhecer-se

deste possível é a paz do amante

 

Jorge de Sena em Arte de Música


Legenda: fotografia de Rui Ornelas

domingo, 18 de agosto de 2024

CANÇÔES DE ENTARDECERES


 Esperar o crepúsculo nestas janelas.

Não todos os dias, mas quando possível.

E o possível é quando? Já agora, o impossível também entra?

Certamente haverá quem não compreenda que dois tipos, um no 2º andar, o outro no 4º andar olhem os pôr-de-sol.

Os entardeceres batem à porta em cada dia.

Para onde vão quando os últimos lampejos ficam, por momentos, agarrados no horizonte?

«Na cidade quem olha par o céu?», perguntou um dia o poeta Carlos Queiroz.

Tratado de filosofia à vista!...

Acabamos, mais cedo ou mais tarde, por acreditar no silêncio.

No filme «Smoke» de Wayne Wang, com argumento de Paul Auster,  Auggie, dono de uma tabacaria em Brooklyn, explica a Paul, cliente, escritor e fumador de «Schimmelpennincks», que todos os dias, tira fotografias na esquina da Rua Três com a Sétima Avenida, às oito da manhã.

«Quatro mil dias seguidos com todos os tipos de tempo. É por isso que nunca passo férias. Tenho de estar no meu posto todas as manhãs. Todas as manhãs no mesmo sítio à mesma hora. É o meu projecto. Aquilo que se poderia chamar a obra da minha vida.

São todas a mesma coisa. Tem aí manhãs brilhantes de sol e manhãs sombrias. Tem aí a luz do Verão e a luz do Outono. Tem aí os dias de trabalho e os fins-semana. Tem aí pessoas de sobretudo e galochas e as pessoas de cações e T-shirts. Às vezes são as mesmas pessoas, às vezes são outras. E às vezes as outras tornam-se as mesmas e as mesmas desaparecem. A Terra gira à volta do Sol e todos os dias a luz do Sol incide na Terra com ângulos diferentes.»

Auggie, quase, quase, no final do filme ainda a filosofar com Paul:

«Merda. Se não podemos partilhar os nossos segredos com os amigos, que raio de amigo seríamos.»

A conversa vai longa, chegado é o tempo de pôr a rodar uma canção que, por não mera coincidência, faz parte da banda sonora de »Smoke» e é cantada pelo Senhor Tom Waits: «Innocent When You Dream»

Somos inocentes, enquanto sonhamos?

Ou voltar ao principio do filme quando Dennis, um outro cliente da loja de Auggie, aparece com uma T-shirt com estas palavras estampadas:

 «Se a vida é um sonho, o que é que se passa quando acordo?»


quarta-feira, 7 de agosto de 2024

CANÇÕES DE ENTARDECERES


Ah!, os entardeceres!...

Conheceu o Mário-Henrique Leiria na redacção do jornal República e passou a acompanhá-lo em algumas tardes no Bar Expresso, no Largo Trindade Coelho, mesmo ao lado do jornal.

O Mário é um tipo inclassificável, mas espantosamente fascinante.

Claro que poucos o conhecem e muitos menos o leem.

Pois é do Mário-Henrique o mote escolhido para o pôr-do-sol que o Rui Ornelas fotografou. O mote já, largamente, por este Cais foi (re)dito, mas acha-o, simplesmente brilhante e não hesita na sua repetição:

«… encostou-se no parapeito da janela aberta e ficou a olhar o entardecer discreto e melancólico.»

Falando-se de Mário-Henrique Leiria, tirando-se citação de um dos seus contos do Gin-Tonic, entendeu-se voltar a Françoise Hardy, precisamente a um dos seus álbuns a que chamou «Françoise-Gin-Tonic-Hardy», editado em 1980, e, naturalmente a canção seis da Face A que, justamente, Françoise chamou «Gin Tonic».

Dois gin-tonics, um bar de hotel, talvez em Londres, ou Paris, ou Berlim, mesmo Bruxelas, um piano triste palavras algo falsas, desencontradas, paraísos artificiais ditos indefinidos…

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

CANÇÕES DE ENTARDECERES

Os pôr de sol já andaram por aqui, em palavras e músicas.

Não lembra bem como tudo começou.

Há mais de 50 anos mora numa casa com vista que solta-se da Ponte Sobre o Tejo até ao aeroporto da Portela.

Por um dia, desatou a tirar fotografias de entardeceres com uma fatela máquina comprada em «loja de chineses».

Se não lembra como começaram, também não lembra com acabaram. O começo data de 6 de Junho de 2015, o fim de 7 de Dezembro de 2017, e, apesar de quase dois anos decorridos, há apenas 18 Entardeceres.

Não se sabe nunca que mistérios nos pode trazer um pôr de sol.

Se formos mais concretos, lembraremos sempre o que Chaplin em «Luzes da Cidade» diz: «A elegante melancolia do Crepúsculo.»

E ele agora volta aos pôr-do-sol porque, num golpe quase de mágica, descobriu que Rui  Ornelas, vizinho do 4º andar deste prédio com 51 anos, diariamente, nos finais do dia, tira fotografias, belíssimas fotografias, que nada, mesmo nada, têm a ver com as da sua máquina de «loja de chineses».

Aberto o pano para estes novos  entardeceres, neste primeiro de Agosto, primeiro de Inverno, lembra Françoise Hardy que há um mês, mais alguns dias, nos deixou e lembra-a na canção «Dis Lui Non», que um velho e querido amigo, o Pedro Freitas Branco, considera uma das melhores canções da década de 60.


segunda-feira, 17 de junho de 2024

POSTAIS SEM SELO


O Andy Warhol dizia que não tinha muitos amigos porque os amigos faziam-no perder muito tempo.

Gonçalo M. Tavares

Legenda: fotografia de Rui Ornelas

sábado, 16 de dezembro de 2023

OLHARES


A morte construiu-se rápida e reluzente por detrás dos taipais. Nunca me disseram podia ter sabido    a casa dantes habitada fora destruída e dela só haviam aproveitado os materiais mais resistentes.    O granito Certas madeiras as mais caras.    Outras dos caixilhos queimaram-na os operários no aquecer das suas comidas.    Devem ter passado dois invernos depois do vazio e certamente se juntavam muitas vezes durante os intervalos ou pequenas fugas    Falariam de quê?   de como decorria a construção da morte   dos pormenores tanto-fecho-nas-portas   do pequeno salário   quem sabe se ainda recordavam algum dos antigos habitantes e diziam obrigara-no-a-mudar-foi-para-longe-as-rendas-têm-subido-no-centro-da-cidade.

Marta Cristina Araújo em O Tear da Casa

Legenda: fotografia de Rui Ornelas