sábado, 31 de agosto de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


O GOVERNO já de há muito faz leis que vão contra a Constituição da República.

Continua a insistir.

Porque a habilidade lhe serve de capa para aplicar ao país mais austeridade.

Os jornalistas de serviço, atentos, venerandos, vão compondo o ramalhete fazendo passar o recado que o Tribunal Constitucional é uma força de bloqueio, que, manifestamente, impede que se faça a reforma estrutural do estado, seja lá o que isso for.

A primeira página do Público de hoje revela o que já se sabia: que o Pedro ameaça já com segundo resgate que, inevitavelmente, vai trazer mais austeridade, mais sacrifícios e, sobretudo mais miséria.

BAPTISTA-BASTOS no Diário de Notícias:

António Borges foi, até ao fim, António Borges.

PEDRO TADEU no Diário de Notícias:

Não me esqueço quando António Borges disse que "a diminuição de salários não é uma política, é uma urgência".

Não me esqueço quando defendeu que os trabalhadores deveriam pagar mais taxa social única e os patrões menos.

Não me esqueço quando advogou a destruição da RTP.

Não me esqueço que instituições como a Goldman Sachs e o FMI foram responsáveis, no tempo em que ele lá esteve, pela distorção de equilíbrios na economia mundial que nos levaram a uma crise gigantesca empobrecedora de milhões de pessoas.

Não me esqueço que aquelas instituições onde ele pontificou foram cúmplices (e até autoras) de autênticos crimes económicos que, tirando um ou outro bode expiatório mais desprotegido, ninguém pagou, a não ser as suas vítimas, diretas ou indiretas.
António Borges seria pessoalmente admirável mas a sua visão do mundo, para mim, era detestável. Para um homem que sempre odiou a hipocrisia, penso que o que escrevo é o verdadeiro sinal de respeito que, sem dúvida, lhe é devido.

AS DIFICULDADES ECONÓMICAS impedem muitas vezes as famílias de irem aos hospitais buscar os seus familiares idosos depois de terem alta médica.

Numa ronda feita pela Lusa juntos dos principais hospitais de Lisboa, Porto e Faro constatou-se a existência de vários idosos internados com alta médica, mas cujas famílias não os vão buscar devido aos seus constrangimentos económicos e, por vezes, físicos.

Trata-se maioritariamente de uma população com idade superior a 70 anos, portadora de doenças crónicas e incapacitantes, totalmente dependentes ou semi-dependentes, com famílias que apresentam dificuldades em prestar-lhes apoio efectivo.

POSTAIS SEM SELO


Porque em Lisboa tudo acaba sempre em Sol.

José Gomes Ferreira em  Gaveta de Nuvens, Diabril Editora, Lisboa Fevereiro de 1975.

SARAMAGUEANDO


Abre-se, na página 127, o catálogo da exposição JoséSaramago: A Consistência dos Sonhos e pode ler-se:

É nomeado Sócio Honorário Desportivo do Sport Lisboa e Benfica.

Algures, José Saramago reflecte que o futebol tem o velho problema: ou é bem, ou mal jogado.

Numa entrevista que deu a Afonso de Melo, e publicada em A Bola Magazine de Novembro 1998, José Saramago fala dos seus desencantos com o futebol.

Eu fui sócio do Benfica com os meus oito ou nove anos, Por influência do meu pai, claro está!, ele era um benfiquista ferrenho, no tempo do Estádio das Amoreiras, com aquelas bancadas e aquele peão de terceiro mundo. Mas depois as mudanças de vida levaram-me por outros caminhos. Não me apetecia estar a sair de casa para ver um jogo. Nunca fui suficientemente entusiasta para andar de bandeira e cachecol e toda essa parafernália que fez com que o espetáculo se tenha deslocado do campo para as bancadas. O que, aliás, está de acordo com os atuais costumes do Mundo. Além do
mais desagradei-me.

Também não quero estar aqui com a conversa saudosista do «antigamente  é que era bom». Mas a verdade é que, nessa época, o jogador tinha o seu clube, e clube e jogador estavam pegados um ao outro. A camisola era uma coisa respeitável. Quase como uma outra bandeira. E o Benfica viveu o orgulho de só ter jogadores portugueses...Num tempo não muito distante. E agora o que é que acontece? Caiu-se num exagero. Onde estão hoje o Benfica, o Sporting, o F.C.Porto? O futebol não passa de um negócio. Desapareceu uma certa solidariedade de grupo. Isso fez-me desinteressar pelo futebol. O futebol converteu-se num espetáculo e já nada tem praticamente de desporto. Apenas isso.

Sobre o Benfica e o futebol, já Saramago andara às voltas na longa conversa que manteve com João Céu e Silva. O jornalista pergunta se um desafio de futebol lhe causa entusiasmo.

Não. O meu pai levava-me e eu gostava mas não me entusiasma. Nunca fui de transferir para onze pessoas que estão ali no campo a dar pontapés numa bola as emoções que eu deixaria sair por outras razões e por outros motivos, Gostava de ver um bom jogo mas mesmo isso também é bastante relativo, o que eu queria sobretudo era que o Benfica ganhasse mesmo que a equipa jogasse mal. Eu deixei de ser sócio do Benfica há uma quantidade de anos. Eu era o sócio 1322 e hoje estaria entre os primeiros e mais antigos, talvez fosse o número três ou quatro. Enfim, as coisas mudam e nesse tempo era um princípio absolutamente radical de que o Benfica só utilizaria jogadores portugueses. E assim foi, durante uma quantidade de anos, depois – isto é um negócio como outros – com a compra e venda de jogadores e as transferências tornou-se num espectáculo um pouco lamentável, às vezes bastante lamentável. E não quer dizer que uma pessoa na vida profissional, que não tenha a ver com o desporto, se encontrar um trabalho melhor e mais bem remunerado não saia de onde estava e vá para outro lado. Portanto, não se pode estranhar que um jogador de futebol o faça, além de que essa coisa de amor à camisola é uma treta.

Legenda: cartaz do filme de João Moreira, Bola ao Centro.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

RAIVA


Um país a arder.
Destruição e morte.
Uma raiva sem destino.
Por isso ainda  mais raivosa.
Todos somos culpados.
Como é possível não aprender com a praga de incêndios que, nas últimas décadas, tem vindo a destruir a nossa floresta, os nossos parques naturais?

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO


Por que será que tanta gente gosta de A Primeira Noite de Mike Nichols?

Quem gosta de cinema pode gostar dos filmes de Mike Nichols?

João Bénard da Costa vem em auxílio dizendo que um filme, por muito mau que seja deve ser visto porque guarda sempre algo que merece ser visto.

Mas gostar de A Primeira Noite.

Pelas canções de Simon and Garfunkel?

Pelas pernas de Anne Bracroft?

Pela corrida vertiginosa de Dustin Hoofman no Alfa Romeo Spider ao som de Mrs. Robinson?
Por ser o filme que lança Dustin Hoffman como actor de cinema?

Tudo isso e ainda mais alguma coisa. Não me perguntem o quê?

Por fim:

Percorrendo as curiosidades que na net existem sobre o filme, fica a saber-se que
- a perna de Mrs. Robinson que aparece no cartaz do filme não pertence a Anne Bracroft, mas sim a Linda Gray, uma desconhecida modelo.

- Jeanne Moreau, Judy Garland, Susan Hayward e Ava Gardner foram algumas das actrizes que chegaram a ser pensadas para o papel de Mrs. Robinson.


- Ronald Reagan esteve para ser Mr. Braddock, o marido de Mrs. Robinson.


UMA ÚNICA PARTICULARIDADE


 Foi então que algo o fez voltar e olhar de novo o mostrador enegrecido do relógio da estação. Examinou-o com cuidado e percebeu que havia qualquer coisa que não estava bem. Lembrava-se muito bem que ao chegar à estação o relógio indicava meia hora depois do meio-dia. Agora, os ponteiros marcavam meio-dia menos dez.
- Max! - soou a voz do pai, chamando-o da furgoneta. . Vamos embora!
- Já vou – murmurou Max para si mesmo, sem deixar de olhar para o mostrador.
O relógio não estava estragado, funcionava bem, com uma única particularidade: andava ao contrário.

Carlos Ruiz Zafón em O Príncipe da Neblina, Planeta Manuscrito, Lisboa Setembro 2011

Legenda: relógio que se encontra no British-Bar, também anda ao contrário e aparece no filme de Alain Tanner,  A Cidade Branca, 1983.

OLHAR AS CAPAS


Livro de Crónicas

1º volume
António Lobo Antunes
Publicações Dom Quixote, Lisboa Novembro de 1998

Serei como aquela prima idosa surdíssima, outrora bonita, com uma enorme telefonia à cabeceira, a quem o enfermeiro que lhe dava as injecções para o reumático comentou
- Que lindo rádio que a senhora tem
e ela num suspiro, de nádegas ao léu à espera da seringa, orgulhosa e coquete
- Havia de o ter visto aqui há quarenta anos.
Devo estar a ficar velho. E no entanto, sem que me dê conta, ainda me acontece apalpar a algibeira à procura da fisga. Ainda gostava de ter um canivete de madrepérola com sete lâminas, saca-rolhas, tesoura, abre-latas e chave de parafusos. Ainda queria que o meu comprasse na feira de Nelas um espelhinho redondo com a fotografia de Yvonne de Carlo em fato de banho do outro lado. Ainda tenho vontade de escrever o meu nome depois de embaciar o vidro com o hálito. Ainda caminho pela borda do passeio sem pisar o intervalo das pedras. Ainda me apetecia que o meu avô me viesse fazer uma festa à cama. Ainda gosto de resolver os hieróglifos comprimidos dos Almanaques Bertrand do sótão organizados pela Sra. D. Maria Fernandes Costa e escrver nas soluções quando a pergunta é Grande Escritor Português Infelizmente Já Falecido, o nome do emérito poeta General Fernandes Costa. Pensando bem
(e digo isto ao espelho)
Não sou um senhor de idade que conserva o coração menino. Sou um menino cujo envelope se gastou.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

UM NÉDIO BOI CAPADO


Miguel Torga em Travassos do Rio, Montalegre, no dia 29 de Agosto de 1991

Notabiliza este lugar um baixo-relevo na torre sineira a figurar a cabeça dum toiro, que foi campeão invencível nas turras do seu tempo e os habitantes ufanos de tanta valentia, quiseram perpetuar.
Vou rememorando: Cornos das Alturas, Cornos da Fonte Fria, Torém, Toural, Pitões.

Era assim antanho. Por todo o lado  a mesma obsessão  a tutelar consciências. O mal é que o povo, em meia dúzia de anos, deixou apagar nos olhos a imagem viril, e perdeu a identidade. O Barroso de hoje é uma caricatura. Sem força testicular, fala francês, bebe coca-cola, deixou de comer o pão de centeio do forno comunitário, assiste a chegas comerciais, em campos de futebol, com bilhetes pagos e animais alugados. É um nédio boi capado.

Legenda: imagem do site da Câmara Municipal de Montalegre.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio publicado no Diário de Lisboa de 31 de Março de 1966.

OLHAR AS CAPAS


Os Cinemas de Lisboa, Um Fenómeno Urbano do Século XX
Margarida Acciaiuoli

Prefácio: João Mário Grilo
Capa Armando Lopes
Editorial Bizâncio, Lisboa Novembro de 2012

O destino do espectador vive, durante algumas horas, preso aos destinos que se jogam num rectângulo de tela. E quando sai, há nele qualquer coisa de abandono e de revolta, de humilhação e de protesto. Aquela mentira embaladora que o enfeitiçou, desfeita agora, parece-lhe, ao mesmo tempo, um bem e um mal, uma recompensa e um castigo. Congratula-se e arrepende-se de ter querido iniciar-se em coisas novas e profundas, presenciando aquela fantasmagoria luminosa.

Para o espectador de cinema, gostar de um filme é ter chorado, ouvido, compreendido, ou não.Não gostar é o mesmo – e ainda mais. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

Os homens continuam com problemas com a queda do cabelo.
Hoje há sofisticados produtos para que isso não aconteça.
Sempre ouvi dizer que não resultam.
Este é um anúncio dos finais dos anos 60, talvez princípios dos anos 70.

NÃO PENSES DUAS VEZES, ESTÁ BEM ASSIM


É inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Não interessa, de qualquer modo
E é inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Se já não o sabes agora
Quando o teu galo cantar ao despontar da aurora
Olha pela janela e eu terei ido embora
Tu és a razão pela qual viajo
Não penses duas vezes, está bem assim

É inútil acenderes a luz, miúda
Essa luz que nunca conheci
E é inútil acenderes a luz, miúda
Estou no lado escuro da estrada
No entanto quem me dera que houvesse algo que fizesses ou dissesses
Para tentar fazer-me mudar de ideias e ficar
De qualquer maneira nunca conversámos muito
Por isso não penses duas vezes, está bem assim

É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Eu já não consigo ouvir-te
Vou pensando e magicando estrada abaixo
Outrora amei uma mulher, uma criança, dizem-me
Dou-lhe o meu coração mas ela queria a minha alma
Mas não penses duas vezes, está bem assim

Vou por esta longa, solitária, estrada abaixo, miúda
Onde irei parara, não o sei dizer
Mas adeus é uma palavra boa de mais, rapariga
Então direi apenas passa bem
Não estou a dizer que me trataste mal
Podias ter feito melhor mas não me importo
De certo modo apenas desperdiçaste o meu precioso tempo
Mas não penso duas vezes, está bem assim

Bob Dylan


Canção do álbum The Freewheelin’ Bob Dylan (1963)

Nota dos tradutores:

Don’t Think Twice, It’s Allright canção baseada  em «Who’ll Buy You Ribbons When I’m gone», de Paul Clayton, o qual por sua vez, baseou a sua canção na canção tradicional «Scarlet Ribbons For Her Hair».

Bob Dylan em Canções Volume I (1962-1973) Relógio D’Água, Lisboa Setembro de 2006


Legenda: imagem de The Long Voyage Home, John Ford, 1940.

QUOTIDIANOS


Um homem que dormia nas ruas de Dublin foi recolhido pelo camião do lixo, no caixote onde dormia, e acabou por morrer triturado.
Pouco se conhece da vida do cidadão polaco Henryk Piotrowski, de 43 anos, excepto que costumava dormir nas ruas de Dublin. Na quinta-feira, o caixote onde dormia foi recolhido por um camião do lixo e acabou por morrer triturado.
Segundo a BBC News, os seus restos mortais foram descobertos quando, horrorizados, os homens que se encarregavam de descarregar o lixo num depósito de reciclagem, a sul de Dublin, se depararam com o macabro cenário.

Dos jornais

Legenda: imagem tirada de Trade Union.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

MARCADORES DE LIVROS


Não são propriamente os Marcadores de Livros que a Aida por aqui costuma apresentar.
São bilhetes da CARRIS e da CP que encontrei  no Pedro de Manuel Mendes, Enseada Amena do Augusto Abelaira, Angústia para o Jantar do Sttau Monteiro, Bastardos do Sol do Urbano, Para a História da Cultura em Portugal,  do António José Saraiva., livros que há muito não eram manuseados.
Leituras em transportes públicos, os respectivos bilhetes a servirem de marcadores.
Memórias ternurentas.

UM PASSEAR PELOS TEMPOS

Recorte do Diário de Lisboa de 27 de Agosto de 1971.

NOTÍCIAS DO CIRCO


São treze os juízes que constituem o Tribunal Constitucional.

Auferem, mensalmente, um vencimento de 6.130 euros.

O período de férias destes juízes estende-se desde o dia 15 de Julho e prolonga-se até 14 de Setembro.

Como determina a lei, estão sete juízes de piquete.

São estes sete juízes que irão decidir o sistema de requalificação dos funcionários públicos, que poderá levar ao despedimento de milhares de trabalhadores do Estado, ou a possibilidade de 11 autarcas voltarem a recandidatar-se noutra câmara após três mandatos.
Estão criadas garantias de isenção?

O constitucionalista Jorge Miranda garante que as decisões do Tribunal não vão sair enfraquecidas mas adianta que, de futuro, os juízes deveriam interromper as férias para se pronunciarem sobre acórdãos importantes, principalmente os pedidos de fiscalização preventiva.

É uma questão de bom senso, de transparência, de ética, o que lhe quiserem chamar.

Os juízes deveriam ser os primeiros a considerar que não existem apenas direitos, também há deveres.


Legenda: imagem do Público.

LINDA RONSTADT


Linda Rondstad sofre da doença de Parkinson.

Não poderei voltar a cantar uma única nota. Ninguém pode cantar com Parkinson, faça os esforços que fizer, escreveu a cantora.

O diagnóstico da doença foi conhecido há oito meses mas datavam de há oito anos os primeiros sintomas.

Uma triste notícia.

Linda Maria Rondstad  nasceu no Tucson, Arizona no dia 15 de Julho de 1946.

Uma vastíssima discografia que inclui incursões pela música country, standards, canções da América Latina, sobressaindo dois álbuns, Canciones de Mi Padre e Más Canciones, em que Linda canta canções rancheras, um tributo aos laços que a família tem no México, canções que, desde muito nova, ouvia lá por casa e que a marcaram.

Os dedos deslizam pelo teclado do computador, ressalta uma estranha amargura, talvez angústia.


Há um tempo em que não se pode não dizer nada mas não se acha nada que se possa dizer.

Legenda: pormenor da capa do álbum de Linda Ronstadt, Canciones de Mi Padre.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Fotografia da reportagem sobre o incêndio do Chiado, da autoria  de Daniel Blaufuks, publicada em O Independente de 26 de Agosto de 1968.
Na fachada das Galerias Novo Figurino podia ler-se: Liquidação Total.
Os Grandes Armazéns do Chiado estavam para ser vendidos a um grupo sueco.

O "NOSSO" URBANO


A morte de Urbano Tavares Rodrigues, evocada por José Carlos de Vasconcelos, no JL de 21 de Agosto.

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Comunicado do Presidente da Câmara de Lisboa, sobre o incêndio do Chiado e publicado na imprensa
do dia seguinte.
(Para uma leitura mais fácil, clicar sobre a imagem).

DIREITO À INDIGNAÇÃO


Fernando Curto, presidente da Associação de Bombeiros Profissionais, comparando a actuação de Cavaco Silva perante a morte do economista António Borges e dos três bombeiros que este ano faleceram no combate aos incêndios.

Há um descuido do Presidente da República perante o que aconteceu.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Numa recente entrevista que o escultor Alberto Carneiro deu ao Público, Anabela Mota Ribeiro perguntou-lhe:

Lia livros?

Alberto Carneiro respondeu-lhe:

Li imenso. A Gulbenkian tinha bibliotecas itinerantes. A carrinha passava todos os meses por São Mamede e eu requisitava livros. Li sempre muito, desde criança. Foi isso que me abriu os horizontes. O que é que requisitava? Aquilino Ribeiro, Miguel Torga. Camões. Do Pessoa, não me lembro.

Inestimável o papel que as Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian deram a este país que Salazar quis inculto, submisso, assustado. O suficiente era saber ler, escrever, contar, mas não valia a pena mais esforço. Havia campos para trabalhar, mares para pescar, gado para tratar, ruas para calcetar.

Mesmo os que sabiam ler, grande parte eram incapazes de compreender aquilo que liam.

Para Salazar, ser culto era um pecado mortal.

Camilo Castelo Branco em Os Vulcões de Lama:

A poderosa razão que o lavrador Roberto Rodrigues opunha para não mandar ensinar a ler o filho, era - que ele pai também não sabia ler, e mais arranjava lindamente a sua vida. Esta vinha a ser a razão capital, reforçada por outras subalternas e praticamente bastante persuasivas.
 - Se o rapaz souber ler – argumentava triunfantemente o idiota – assim que chegar a idade, às duas por três, fazem-no jurado, regedor, camarista, juiz ordinário, juiz de paz, juiz eleito. São favas contadas. Depois, enquanto ele vai à audiência ou à Camara, a Cabeçais daqui uma légua, os criados e os jornaleiros ferram-se a dormir a sesta de cangalhas à sombra dos carvalhos, e o arado fica também a dormir no rego. E ademais, isto de saber ler é meio caminho andado para  asno e vadio. E citava exemplos, personalizando meia dúzia de brejeiros que sabiam ler e eram mais asnos e vadios que os analfabetos.

Alberto Carneiro vivia numa aldeia perto do Porto, isolada, triste e a chegada das Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian funcionou como um pauzinho na engrenagem, uma possibilidade de os imperativos de Salazar não terem resultados mais funestos.


É assim que a Gulbenkian faz o resumo das suas Bibliotecas Itinerantes:


Ainda em 1958, baseado na experiência pioneira de Branquinho da Fonseca e sob a sua direcção, foi criado pela Fundação Calouste Gulbenkian, instituição privada, o Serviço de Bibliotecas Itinerantes, com o intuito de tentar resolver um problema: o da educação pós-escolar dos cidadãos.
As bibliotecas itinerantes ou carros-biblioteca levavam a bordo cerca de dois mil volumes arrumados nas estantes. Nas prateleiras de baixo, encontravam-se os livros para crianças, nas prateleiras do meio a literatura de ficção, de viagens e biografias e, por fim, nas de cima os livros menos procurados, de filosofia, poesia, ciência e técnica.
Em 1962 existiam 47 bibliotecas itinerantes, o número de leitores rondava os trezentos mil e os livros emprestados atingiam os 3 milhões.
Durante a ditadura salazarista, que assentava a sua acção na manutenção da censura e do obscurantismo da sociedade portuguesa, o livro e a leitura eram um luxo e também, uma actividade arriscada. Foi, no entanto, a acção levada a cabo pela Fundação Calouste Gulbenkian que dotou o país de uma rede de bibliotecas coerente, com o objectivo principal de alcançar e promover o gosto pela leitura.

Uma explosão de memórias leva-me até aos jardins da infância.

Em alguns jardins de Lisboa, existia um pequeno armário cinzento com alguns livros, mas as leituras mais disputadas eram o Condor Popular e afins.

Um funcionário da Câmara zelava pelo serviço.

Deslocava-me, então, da Penha de França até ao Jardim Constantino para, nessas pequenas, mas úteis, bibliotecas ler o Condor Popular, o velho Mandrake e os seus passe de mágica

O Carlos Alberto, cujo pai tinha mais posses do que os pais dos outros putos da rua, fazia com que o Cavaleiro Andante e o Mundo de Aventuras, passassem de mão em mão. Nenhum exemplar podia ficar mais de um dia nas mãos de cada puto. Se isso acontecesse, o Carlos Alberto determinava que para o prevaricador não havia leitura na semana seguinte.


Ainda hoje, quando passo pelo jardim Constantino, olho o espaço onde se encontrava o armário dos livros e revistas, que foi o meu pontapé de saída para outras aventuras romanescas que tiveram como referências Emílio Salgari, Júlio Verne, Walter Scott, misturados com as aventuras dos Cinco.

Mais tarde vim a saber pelo José Gomes Ferreira, que foi o seu pai, Alexandre Ferreira, também fundador da Universidade Livre e da Associação dos  Inválidos do Comércio que, como vereador da Câmara Municipal, lançou a ideia de instalar bibliotecas nos jardins públicos

Bibliotecas onde os leitores poderiam não só requisitar os livros para ler ali mesmo, na dureza dos bancos, mas, quando o desejassem, levá-los para casa com a condição de devolvê-los no dia seguinte. (1)

Em 1961 a Câmara Municipal de Lisboa lançou as Bibliotecas Itinerantes que percorriam os bairros de Lisboa.

Já depois do 25 de Abril, lembro-me de ver uma carrinha estacionada na Praça Paiva Couceiro, encontrei uma outra no jardim junto à Igreja da Encarnação.

Em Fevereiro de 2011 o Partido Ecologista Os Verdes entregou na Assembleia Municipal de Lisboa um requerimento questionando a Câmara sobre as razões da suspensão do serviço de Bibliotecas Itinerantes.

Ao que parece a interrupção teve a ver com custos de reparação das viaturas.

Nos tempos de internetes e coisas-que-tais, as bibliotecas itinerantes viraram dinossauros.

Das Bibliotecas Itinerantes da Câmara Municipal de Lisboa nunca mais houve notícia.

Alguém na Câmara terá concluído que já ninguém se desloca a um jardim para ir buscar um livro para ler.

Altura ideal para cortar nas despesas e aplicar o dinheiro em folclore.

Sempre dá mais nas vistas!...

Na Feira do Livro do ano passado puseram lá uma dessas Bibliotecas Itinerantes.

Se já não foram extintas, estão em vias de…

Mas as Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian e da Câmara fazem parte do imaginário de gerações.

E não é sem emoção que esses tempos renascem como gratas memórias.

Final de O Raio Verde de Júlio Verne

- Mas com efeito, minha querida Helena – argumentou Olivier Sinclair -, não o vimos, esse raio que quisemos tanto ver!
- Vimo-lo melhor – disse baixinho a jovem senhora. – Vimos a felicidade, aquela que a lenda ligava à observação deste fenómeno!... Visto que o encontrámos, meu querido Olivier, que ele nos baste, e abandonemos aos que não o conhecem, e quiserem conhecê-lo, a busca do raio verde!

(1) José Gomes Ferreira em Relatório de Sombras, Moraes Editores, Lisboa Setembro de 1980.

POSTAIS SEM SELO


Miguel Torga em 14 de Novembro de 1985:

Há uma coisa que eu nunca perdoarei aos políticos: é deixarem sistematicamente sem argumentos a minha esperança.

Miguel Torga em Diário, Vol. XIV, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1999

Legenda: fotografia da Life.

domingo, 25 de agosto de 2013

DA MINHA GALERIA


Último domingo de Agosto com uma velha canção de Roberto Carlos: Jovens Tardes de Domingo.

Eu me lembro com saudade
O tempo que passou
O tempo passa tão depressa
Mas em mim deixou
Jovens tardes de domingo
Tantas alegrias
Velhos tempos
Belos dias
Canções usavam formas simples
Pra falar de amor
Carrões e gente numa festa
De sorriso e cor
Jovens tardes de domingo
Tantas alegrias
Velhos tempos
Belos dias

Hoje os meus domingos
São doces recordações
Daquelas tardes de guitarras
Sonhos e emoções
O que foi felicidade
Me mata agora de saudade
Velhos tempos
Belos dias

Velhos tempos
Belos dias
Hoje os meus domingos
São doces recordações
Daquelas tardes de guitarras
Flores e emoções
O que foi felicidade
Me mata agora de saudade

Velhos tempos
Belos dias
Velhos tempos
Belos dias
Velhos tempos
Belos dias

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


O Chiado existe.

Não aquele que as minhas pernas percorreram durante anos e anos.

Sempre foi um momento especial subir-descer-o-Chiado.

Parar na Bertrand, na Sá da Costa, na Portugal, na Lello, na Discoteca do Carmo, na Universal, na Melodia, na Valentim de Carvalho.

Olhar a Brasileira mas preferir beber a bica na Leitaria Garrett, drops da Heller na Jerónimo Martins, facas na José Alexandre.

Um pavoroso incêndio, faz hoje 25 anos, destruíu esse Chiado.

O fogo da incúria, da irresponsabilidade do passa-culpas.

Mário-Soares-presidente a perguntar a Eurico-de-Melo-ministro-da-administração-interna: onde é que estão os meios aéreos, sr. Ministro, o ministro a culpar as obras que o presidente-da-câmara-Krus-Abecasis mandara, em 1985, fazer na Rua do Carmo -  bancos de jardim, canteiros de árvores e flores.

Cavaco –Silva-primeiro-ministro, obrigado a interromper as férias no Algarve, donde saíu de automóvel-batedotes-da-gnr-à-frente-estridentes-sirenes, às 09,30  tendo chegado, já em tempo de rescaldo, às 11,00 horas.

Duas mil pessoas que perderam o seu posto de trabalho.

Prejuízos incalculáveis.

Krus-Abecasis-eloquente: Lisboa renasce sempre e voltará a renascer, a vida continua.

 Um desesperado título de A Capital: Nada será como dantes.

Passaram vinte e cinco anos.

O projecto de recuperação do Chiado, concebido por Siza Vieira, ainda está por completar.

Muita obra já foi feita.


 O Chiado apresenta-se com um bom ar mas, irremediavelmente, perdeu aquela patine.

Os olhos não se habituam a olhar o que foi renascendo,

O desabafo de um comerciante: o negócio era bem melhor antes do incêndio.

Subir-descer-o-Chiado deixou de ter aquele perfume de momento especial.

Era quinta-feira, uma madrugada quente de Agosto, quando o Chiado foi pasto das chamas.

Ainda uma grande tristeza, uma melancolia incurável.

O EDUARDO


Quando neste dia, no ano de 2007, Eduardo Prado Coelho morreu, tinha 63 anos.

Em miúdo preenchia caderdinhos com frases que achava fundamentais para a vida.

No decorrer dessa vida, diziam: Citas muito.

O Eduardo, no seu Tudo o Que Não Escrevi, explicou:

Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata do uso de argumentos de autoridade, nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro»
.
Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas - isto é, os nomes próprios - para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto ( a citação faz um desvio) é criara em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que , que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide - efeito de descontextualização.

Resta o argumento mais pessoal, quase íntimo: sempre vivi entre palavras, através dos textos que escrevi sobre os textos dos outros, e as citações são o material que me habituei a trabalhar. Poderei chamar a isto efeito de montagem?

Pequeno exercício quotidiano: ler freses desgarradas, soltá-las arbitrariamente do texto. Isto é, abrir um livros ao acaso, num sinal vermelho, antes de o filme começar, durante os anúncios na televisão, e escolher à toa algumas palavras. Sempre pensei que, numa dessas frases, chegaria a verdade, o encontro decisivo. Uns jogam na lotaria, outros nas palavras.

sábado, 24 de agosto de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO



O PAÍS arde.

Todos os anos o mesmo desespero: milhares e milhares de hectares de floresta ardida, vilas e aldeias cercadas pelas labaredas, habitações destruídas, perda de vidas.

Pelo meio as promessas governamentais de sempre.

Que será preciso para que os responsáveis governamentais e autárquicos, de uma vez por todas, se deixem de palavreado balofo para os directos das televisões, e criem condições precisas e concretas para que, todos os anos, os fogos não sejam uma fatalidade com que temos de nos conformar.

Um fogo florestal, como um dia escreveu Ruben de Carvalho, tem sempre um de três beneficiários: madeireiros, loteadores de construção civil e a rede de interesses ligada à eucaliptização.

Até quando?

Em Setembro esquecemos o fogo e o cheiro da terra queimada.
Em Outubro a chuva já levou a cinza.
Em Novembro apercebemo-nos de que já não encontramos a árvore onde escrevemos a canivete o nome do nosso primeiro amor.
Em Dezembro decoramos a sala com um pequeno pinheiro de plástico.
E então em Junho do ano seguinte os dias voltam a ser mais curtos e o fumo cobre-nos o corpo, entranha-se na roupa, tolha-nos a visão.
Foi isto que Solvstag me disse e é isto que vos digo.

A NAÇÃO BENFIQUISTA está em polvorosa.

O querido líder apareceu nas televisões tentando colocar água na fervura.

Mas não disse o que os benfiquistas queriam ouvir:

- por que Jorge Jesus se perpetua no lugar de treinador e não foi embora após o descalabro da última época.

- por que não são transparentes as contratações, os empréstimos, as vendas dos jogadores.

- por que se continua a apostar em obscuros jogadores estrangeiros colocando  de lado jogadores portugueses que, raras vezes, têm uma oportunidade na primeira equipa.

A isto, a muito mais, Luís Filipe Vieira nada disse.

No que ao país concerne, faz lembrar o Pedro: o rumo que o Benfica tem seguido nos últimos anos é para manter.

A família benfiquista reage muito por impulso. Vale a pena as pessoas não terem a memória curta. Não vale a pena entrar por um caminho que põe em causa o que fazemos. Nós crescemos bastante com Jorge Jesus, ele evoluiu bastante connosco. Não podemos, de um momento para o outro, cortar este ciclo. Seria terrível para o Benfica começar outro ciclo.

COMPLETAM-SE AMANHÃ 25 anos sobre o incêndio que destruiu o Chiado.

Um das iniciativas agendadas pela Câmara Municipal de Lisboa, para evocar a efeméride, inclui um simulacro do incêndio.

Pergunto-me como é possível que a estupidez, a falta de bom senso, a ausência de sensibilidade ,chegue a estádios de indigência deste tipo.

Esfregar os olhos muitas vezes, e com força, para se ficar a saber que é mesmo possível que isto vá acontecer.

O SINDICATO DA CONSTRUÇÃO CIVIL denunciou a escalada de situações de escravatura de trabalhadores portugueses do sector, quer em Portugal, onde recebem 300 euros mensais, quer no estrangeiro, para onde são levados por angariadores e redes mafiosas.

DE UM ARTIGO de Nuno Ramos de Almeida no jornal I:

Se lermos a "História de Portugal" organizada por José Mattoso, verificamos que no início do século xx, com uma população escassamente alfabetizada, "O Século" e o "Diário de Notícias" vendiam, cada um, cerca de 100 mil exemplares por dia. Em pleno século xxi, os nossos jornais têm muito menos leitores. Não foram eles que desapareceram, são os jornais, a comunicação social e os jornalistas que não estão a cumprir devidamente o seu papel de informar com qualidade. O que fazem não serve.

Legenda: imagem do Diário Digital.

EU TENHO UM SONHO


Há 50 anos um homem disse ao mundo que tinha um sonho.


 Em Washington, perante 250.000 pessoas, proferiu as palavras que ficaram para a História:

Tenho um sonho: que os meus quatro filhos hão-de viver um dia nesta nação sem serem julgados pela cor da pele.

Seria assassinado no dia 8 de Abril de 1968.

Robert Kennedy, ministro da Justiça, disse então:

Cabe-nos agora fazer cumprir os seus sonhos.

Dois meses depois era, também, assassinado.

Em 1 de Dezembro de 1955, uma costureira negra, de seu nome Rosa Parks, acabara e seu dia de trabalho e apanhou o autocarro que a levaria a casa. Sentada num banco viu o autocarro ficar cheio e o condutor mandá-la levantar-se para que desse o lugar a um branco.

Não o fez.

Nesse dia, o  rastilho pegou fogo e o mundo passo a ouvir o vigor do grito que dizia que a cor da pele não é a cor da alma.

Uma longa luta liderada por Martin Luther King, uma luta que ainda não terminou, mas que  já permitiu que um negro fosse eleito Presidente dos Estados Unidos.

Martin Luther King III, que seguiu o exemplo do seu pai na defesa dos direitos civis, pediu hoje, no mesmo local onde há 50 anos o seu pai proferiu o célebre Eu tenho um Sonho para que a luta prossiga com vista a que  esse sonho seja plenamente realizado.

Se cada um de nós fizer a sua pequena parte, nas nossas casas, nas nossas igrejas, nas nossas escolas, nos nossos empregos, nas nossas organizações, se em cada um dos aspectos da vida tentarmos alcançar a causa da liberdade, de certeza que a alcançaremos. Seremos então todos livres. 

Legenda: imagem da manifestação de hoje em Washington.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Portinho da Arrábida.

POSTAIS SEM SELO


Enquanto isso era Verão.Verão largo como o pátio vazio nas férias da escola...

Clarice Lispector

Pintura de Diane Romanello

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

DA MINHA GALERIA


Já arranjei muito bem
Tudo quanto convém
P'ra praia levar
O pente, o espelho, o baton
E o creme muito bom
P'ra me bronzear
Tenho o meu rádio portátil
E o bikini encarnado
Também está no meu rol
E como é bom de ver
Não podia esquecer
Os meus óculos de sol
Refrão:
Que levo p'ra chorar uuuuhuh
Sem ninguém ver
P'ra não dar uuuuhuh
A perceber
P'ra ocultar uuuuhuh
O meu sofrer
Pois eu sei que te hei-de encontrar
Talvez deitado à beira-mar
Com outra lado
E eu vou passar
A tarde a chorar
Já pensei não sair
Mas aonde é que eu hei-de ir
Com este calor?
O que é que eu hei-de fazer
P'ra não ter que te ver
Com o teu novo amor?
Ver-te-ei com certeza
Mas eu peço à tristeza
Um pouco de controle
E pelo sim pelo não
Eu vou ter sempre à mão os meus óculos de sol

Vou chorar
Uuuuh uh
Vou sofrer
Uuuuh uh
Vou chorar
Uuuuh uh

POSTAIS SEM SELO


Toda a gente é bissexual até certo ponto. Agora, os homens agem como mulheres e é difícil manter uma relação porque eu gosto de homens à antiga. Gosto de masculinidade e na verdade, só as mulheres são assim agora.

Sharon Stone

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

MARCADORES DE LIVROS


O VENTO IMPREGNADO DE CHEIRO A SALITRE


Max lera uma vez num dos livros do pai que certas imagens da infância ficam gravadas no álbum da mente como fotografias, como cenários aos quais, passe o tempo que passar, voltamos sempre e recordamos. Compreendeu o sentido daquelas palavras a primeira vez que viu o mar. Seguiam há mais de cinco horas no comboio quando, de repente, ao emergir de um escuro túnel, uma infinita lâmina de luz e claridade espectral se estendeu diante dos seus olhos. O azul-eléctrico do mar resplandecente sob o sol do meio-dia gravou-se na sua retina como uma aparição sobrenatural. Enquanto o comboio seguia o seu caminho a poucos metros do mar, Max pôs a cabeça fora da janela e sentiu pela primeira vez na pele o vento impregnado de cheiro a salitre. Voltou-se para olhar o pai, que o observava do extremo da carruagem co comboio com um sorriso misterioso, aquiescendo a uma pergunta que Max não chegara a formular. Soube então que não importava qual fosse o destino daquela viagem nem em que estação pararia o comboio; a partir daquele dia, nunca viveria num lugar de onde não pudesse ver todas as manhãs ao acordar aquela luz azul e deslumbrante que subia até ao céu como um vapor mágico e transparente. Era uma promessa que fizera a si mesmo.

Carlos Ruiz Zafón em O Príncipe da Neblina Planeta. Lisboa 2010

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.