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segunda-feira, 12 de junho de 2023

POSTAIS SEM SELO

Já me referi há tempos a um casal de estrangeiros que veio pela segunda vez a Lisboa e se mostrou espantado ao dar com uma cidade triste. Julgavam-na a cidade mais alegre do mundo porque tinham por cá passado, da primeira vez, em noite de marchas populares.

Maria Judite de Carvalho em Este Tempo

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

UMA AUTENCIDADE ESPANTOSA

18 de Julho de 1968

Envergando a sua fina camisa de boa seda, bem engravatado e sem casaco, o N. – recordo-o agora – mostrou-me um cartão da Maria Judite de Carvalho em que esta guitarra cigana tão dolente e fina, penetrante e nostálgica, não se sabe de quê, recusou dar uma entrevista ao suplemento do jornal, a pretexto de que é antiliterária. Com a sua incapacidade de entender o que não meta cifrões, o N. (que a admira, está claro, pois as incomparáveis crónicas dela são pólen adejante que entra pela mais ténue frincha) comentou:

-Veja lá, não tem consciência do valor que tem…

Disse-lhe que pelo contrário!

A autenticidade dessa mulher é realmente espantosa, se tivermos em conta, por demais, que não sofreu qualquer influência visível do Urbano, o que é bem difícil, se levarmos em conta a irradiação que o caracteriza. Apetece ajoelhar diante dela, para lhe beijar humildemente os pés.

Mário Sacramento em Diário.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

OLHAR AS CAPAS


As Escadas Não têm Degraus

5º Volume
 Direcção: António M. Feijó, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães

Teresa Veiga, Mário de Carvalho, Rui Nunes, Luísa Costa Gomes, Nuno Júdice, Agustina Bessa-Luís, Armando Silva Carvalho, João Miguel Fernandes Jorge, Mari de Fátima Borges, Helena Vasconcellos, Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Judite de Carvalho, Miguel Esteves Cardoso, Alberto Pimenta, José Dinis Fidalgo, Pedro Paixão.
Capa: João Botelho
Livros Cotovia, Lisboa, Novembro de 1991

Há uma palmeira no largo da estação, o que justifica que se lhe chame o Largo da Palmeira, e apanha-se aí o autocarro para a cidade. Mas há quem nunca o tenha apanhado, limitando-se a ficar no banco que está no passeio, em frente de um pequeno relvado que o jardineiro traz bem tratado, bem como os canteiros com uma tulipas e uams roseiras, estas raquíticas, parece que do clima – demasiado sol. Ao fim da tarde, o lugar enche-se de velhos e de pássaros, mas só se ouve o barulho dos pássaros. Isto de abril até ao outono, Depois é a chuva: o barulho da chuva e o largo deserto.
Saí da estação e cheguei ao tal jardim com relva e alguns canteiros. Vi a paragem da camioneta, o poste com a tabuleta indicando o sítio do embarque, mas não havia camioneta. Já esperava que acontecesse uma coisa dessas: o comboio chegou demasiado tarde, a última camioneta já tinha saído; poderia apanhar um táxi, mas este não era um meio de transporte que me agradasse. Estava habituado à ligação comboio-camioneta, e agora teria de esperar toda a noite num banco da estação que a primeira camioneta do dia saísse. Como ninguém estava à minha espera, tanto fazia – excepto para as minhas costas, que saíam sempre maltratadas das viagens.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

CENÁRIOS CATITAS


Por causa da pandemia todos os bichos caretas que aparecem nas televisões a botar palavra, desde as suas casas, resguardam-se com os livros por detrás.

Marques Mendes que, aos domingos, dá catequese na SIC, provável tirocínio para candidato a Belém, tal como fez o seu companheiro de partido agora presidente, também tem uma estante de livros por cenário.

Durante semanas, porque é um calhamaço de 751 páginas, via-se «José Saramago: Rota de Vida» de Joaquim Vieira.

Alguém lhe terá chamado à atenção que a coisa talvez não fosse muito bem vista entre as hostes do partido.

No passado domingo, em lugar do calhamaço sobre o José Saramago, aparece um calhamaço sobre Mota Pinto, biografia de João Pedro George, editada em finais de 2016.

Que terá acontecido?

Mistérios dos mistérios, vindos desde Caxias até nossas casas.

No próximo domingo continuará, na estante, o calhamaço sobre o Mota Pinto, ou surgirá uma outra obra?

Estes rapazes compram os livros?

 Ou são-lhes oferecidos pelos editores?

E lêem os livros que compram, assim como os livros que lhes oferecem?

 As vendas dos livros não páram de cair.

O panorama já era grave antes da pandemia, agora revela-se dramático.

Resta uma certa gente que vai comprando livros para completar a mobília, como dizia o Eça de Queiroz.


Curiosamente, há dias, no seu blogue, Maria do Rosário Pedreira dizia-nos que esses cenários das estantes com livros, já viraram negócio.

Mas já a escritora Maria Judite de Carvalho, numa crónica publicada em Fevereiro de 1975 e incluída no livro Este Tempo, contava:

«Nunca vi mas li já não sei onde, que há decoradores que utilizam – ou utilizavam? – as tais lombadas de cabedal e oiro, a metro, para as suas decorações novo-riquistas. Porque não usavam livros autênticos, isto é para mim um mistério.»

Comprar livros qualquer um pode  comprar. Saber ler é tarefa mais complicada.

São vastos os níveis de iliteracia que vamos tendo, mas olhando para os nossos políticos, ou estes tais opinadores, poderemos concluir que, tal como falam e opinam, não lêem ou não sabem ler, mesmo que os livros estejam lá pelas casas.

Apesar de tudo, se comprassem livros, mesmo que não os leiam, já era um bom sinal para os editores, os autores que, comovidos, lhes agradeceriam.

quarta-feira, 18 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS



Como se vivem estes dias difíceis?

Não sei.

Ando para aqui a apanhar papéis, pedaços de livros, músicas, rasgos de quotidianos, sei lá que mais.

As palavras já não me saltam para exprimir o que quero dizer…

Alguma coisa se passa.

Raios parta o Covid-19!

Vou juntar todos os pedaços e, ao terminar do dia, coloco-os aqui.

A primeira canção é a do Chico Buarque de Holanda do álbum Construção em que ele nos diz para fazer tudo como se fosse a última vez …

Que seja!


1.


Numa das mais famosas passagens de Tanta Gente Mariana de Maria Judite Carvalho, pode ler-se: «Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana. E ninguém vai fazer nada por nós.»

Alexandre O’ Neill entendia que a solidão procurada é boa, a não procurada é muito chata.

Inauguramos a solidão quando nascemos?

«… estava isolado e quem está isolado está perdido.»

Será?

2.

O escritor Mário de Carvalho disse um dia que «a maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do jogo da bola e meter na cadeia essa pardalada.»

O senhor Pedro Proença, presidente da Liga de Futebol, não gostou de ouvir o primeiro-ministro António Costa dizer que o futebol não é prioridade nas ajudas económicas que o governo poderá disponibilizar perante o cenário de pandemia que vivemos.

«Essas declarações do primeiro-ministro espantaram-me, no mínimo. Terão sido inapropriadas e inadequadas face ao momento. O futebol não é um mundo à parte, tem de ser tratado como o turismo, a distribuição ou a cultura.»

Há muito que o estado devia ter posto esta malta do futebol no seu devido lugar. Talvez ainda se vá a tempo… talvez…

Digo que gosto muito do futebol jogado mas dispenso os trolhas-dirigentes, toda a corrupção que envolve o futebol.

Quando era puto os velhos diziam: «não há dinheiro, não há palhaços!»

Se eu mandasse, não viam um cêntimo.

O ambiente que rodeia o futebol, nos dias de hoje, é extremamente triste.

3.

Obrigados a permanecer em casa devido às medidas de prevenção impostas face à ameaça do COVID-19, as pessoas começam a sentir os mais diversos tipo de dificuldades.

Um cidadão espanhol, na comunidade de Castela e Leão, foi surpreendido pela polícia, na rua a passear um cão de peluche.

Segundo as medidas aplicadas pelo governo espanhol só podem sair à rua para: ir à farmácia, ao médico, ao hospital , ao supermercado para comprar apenas bens estritamente de primeira necessidade.

4.

Um livro para estes dias: A Peste de Albert Camus.

«Visto que a ordem é regulada pela morte, talvez valha mais para Deus que não acreditamos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu onde ele se cala.»


Camus conta a história do eclodir de uma epidemia numa cidade. Rieux, um dos médicos, combate a doença até ao momento, após muitas mortes, em que ela fica controlada, mesmo sabendo-se que algumas das vitórias serão sempre provisórias. Ao longo das páginas Camus mostra-nos a reacção da população que vai da apatia à acção, os riscos que correm.

5.

Daqui a instantes, vigorará o estado de emergência decretado pelo Presidente da República, aceite pelo governo e aprovado pela Assembleia da República.

O leigo que sou na matéria, não me permite uma opinião clara. 

Mas sempre direi que talvez não houvesse necessidade de chegarmos onde o presidente, e uma falange histérica, nos colocou.

As regras terão de ser muito claras e ninguém pode mentir a ninguém.

Será que é assim que vai conhecer?

sábado, 22 de setembro de 2018

ETECETERA


Tantas vezes reclamei de mim para mim por que raio nenhuma editora se abalançava a publicar os livros de Maria Judite de Carvalho.

Apenas tenho três livros, encontrados por acaso já não lembro bem onde, talvez na Feira da Ladra, ou naquelas feiras de ocasião, que havia em outros tempos com fundos de catálogo de editoras.

Mas a Minotauro, em hora feliz, decidiu-se a publicar a Obra Completa de Maria Judite de Carvalho.

Uma mulher excepcional, com obra emblemática que não foi apenas a mulher do escritor Urbano Tavares Rodrigues, embora a sua discrição a tenha feito viver sempre um pouco à sombra do marido.

São muitos os que pensam que a obra da escritora é superior à de Urbano e a consideram mais talentosa que o marido, a escritora da solidão e do silêncio.

A coleção, que será composta por 6 volumes, irá abranger toda a obra de Maria Judite de Carvalho. escritora exímia do século passado, que ficou conhecida principalmente pelas suas coletâneas de contos de cunho existencialista. Foi a escritora da solidão e do silêncio das palavras poupadas.

Apelidada por Agustina Bessa-Luís como «flor discreta da nossa literatura», Maria Judite de Carvalho, também jornalista, dedicou trinta anos da sua vida à carreira literária, durante a qual publicou 13 livros, privilegiando as novelas, as crónicas e os contos, e escreveu sobre a solidão, histórias sombrias da vida quotidiana que observava.

Em boa hora, a editora entendeu que as capas dos livros seriam pinturas suas e isso revela outras facetas da escritora: o desenho e a pintura.

No 6º volume dos seus Dias Comuns, José Gomes Ferreira tem duas entradas referentes a Maria Judite de Carvalho:

1 de Novembro de 1968

Ontem, encontro inesperado com Judite de Carvalho na sala de espera do mei dentista, onde durante alguns minutos conversámos com aquela intimidade de termos de passar o tempo da sala de espera de um dentista.
Admiro-a muito como escritora e parece-me uma mulher autêntica. Isto é: que não estraga a liberdade com escravidões fáceis. Prefere as difíceis,

11 de Novembro de 1968

Novo encontro com Judite de Carvalho no dentista.
- Não traz o cabelo penteado da mesma maneira!... – observou o dentista.
- Pois não. Como não gosto da minha cara e não posso mudá-la, mudo de penteado.
Procurei uma frase amável para lhe dizer, mas não a encontrei – malogro que ela infelizmente percebeu.
E no entanto bastaria dizer-lhe que, por mais que mudasse de rosto, nunca arranjaria outro mais inteligente.

PAPA FRANCISCO

O escândalo que envolve as mais altas figuras da Igreja Católica não para de crescer.

O Papa convocou uma reunião com os presidentes das conferências episcopais (organismos que congregam os bispos em cada país) de todo o mundo para debater «a proteção de menores».

Está marcada para 21 e 14 de Fevereiro do próximo ano ,as deveria ser já amanhã!

O clero retrógrado, que nunca deixou a Igreja viver os dias dos novos séculos, tenta por todos os meios fazer a vida negra ao Papa.

Na visita que fez à Irlanda, no passado Agosto, afirmou que se considerava envergonhado com o peso do escândalo dos abusos sexuais que abala a Igreja,

Leo Varadkar, presidente do país, pediu-lhe para passar das «palavras à acção.»

Sim , não basta pedir desculpa.

Conseguirá Francisco prosseguir a luta?

SUÉCIA

Aos poucos as pessoas vão-se apercebendo que a ascensão da extrema-direita nos Estados Unidos, na Europa, pelo resto do mundo, é uma realidade que vai galgando o dia-a-dia.

Há poucos dias foram as eleições na Suécia que colocaram a extrema-direita em patamares nunca alcançados.

Os monstros vão crescendo.

Aproximam-se as eleições presidenciais no Brasil.

Continuamos distraídos, muitos distraídos…

SANTANA ANDA POR AÍ

Saiu do PSD e já formou novo partido.

Chamou-lhe Aliança.

Vitor Dias no Tempo das Cerejas:

Encosto à «popularidade» de Marcelo ?

Se ele quer que o PR
faça isto tudo, para que 
é que fundou um partido ?
 «O senhor Presidente
da República pode e deve
usar toda a popularidade
 que conseguiu para mudar
a sociedade portuguesa,
 para fazer reformas que
 há muito são necessárias
 - reformas do sistema
eleitoral, da justiça,
da produtividade, mas
também das questões
das pessoas»

- Santana Lopes


A FOME NO MUNDO

Mais de 820 milhões de pessoas no mundo passam fome, a maior parte em África e na América do Sul, um número que, segundo um relatório das Nações Unidas, aumentou pelo terceiro ano consecutivo.

MAIOR QUE O NOBEL!

Começar com livros, com livros fechar.

António Lobo Antunes vai passar a integrar a colecção francesa Bibliothèque de la Pléaide. Será o segundo português a fazer parte dado que Fernando Pessoa foi incluído em 2001.

A colecção, criada em 1931, publica as obras dos autores em edições cuidadas em papel bíblia e capa dura.

«Sonhei com este prémio desde a adolescência até agora. É o maior reconhecimento que se pode ter enquanto escritor, muito maior do que o Nobel.»

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


O dinheiro modifica as pessoas duma maneira tão extraordinária! As que eram secretamente, modestamente más, passam a sê-lo com ostentação quando enriquecem. Vão ser agressivas, vão ser indiferentes. E tudo lhe será perdoado…

Maria Judite de Carvalho em Tanta Gente, Mariana.

sábado, 4 de novembro de 2017

TALVEZ MUDE DE OPINIÃO QUANDO LHE CONVIER


Carta de Sophia, datada de 28 de Junho de 1962, para Jorge de Sena.
Custa um pouco (?) ver a doce, e católica, Sophia escrever o que escreveu sobre Maria Judite de Carvalho.
É assim.
Com estes pequenos (?) episódios se perceberá, um pouco, como levámos tantos anos a ver-nos livres de Salazar e Caetano.
Invejas, vaidades, ciumeiras, ódiozinhos de estimação.
Se perceberá também quando a seguir ao 25 de Abril nos dispersámos, quando tivemos nas nossas mãos a possibilidade de construir um país e que acabou por descambar no por aí se vê.
Sophia começa por pedir desculpa a Jorge por levar tanto tempo a responder a uma sua carta. Escreveu-lhe uma longa resposta mas rasgou-a.

Hoje escrevo a correr.
Nós graças a Deus vamos andando bem, mas sempre com os combates que você sabe.
A minha família – pelas sabidas razões políticas – quase não me fala. Os meus amigos de juventude quase me detestam.
Por outro lado daqui também se vêem muitos bailados. A mulher do Urbano Maria Judite de Carvalho ganhou o Prémio Camilo castelo Branco com um livro perfeitamente medíocre chamado As Palavras Poupadas.
Penso que é urgente você escrever ao Murilo.
Não pode imaginar todas as massadas e desilusões que tenho tido com alguns amigos. Eles não têm a menor noção do que seja lealdade nem seriedade. Felizmente consigo dominar-me e nem me zangar com eles. Creio que são dignos de dó, Talvez sejam casos onde a miséria material acaba por provocar a miséria moral. Vendem-se por baixo preço.
Diga-me o que pensa do Livro Sexto.
Vou para o Algarve em meados de Julho e penso lá ficar até fins de Setembro.
Vocês fazem-nos a maior falta. As pessoas são raras.
O 0’Neilll disse-me que se afastara do grupo português de Florença pois o ambiente é de grande intriga e «porcaria». Disse-me que cortou relações com a «Natália» por ter «descoberto» que ela era mentirosa e sí lutava por ambições pessoais! Mas como o O’Neill é fraco talvez mude de opinião quando lhe convier!
Enfim!


Legenda: capa tirada do site da Livraria Pó dos Livros.

domingo, 2 de abril de 2017

RECADOS


Contra capa de Os Armários Vazios de Maria Judite de Carvalho.

quarta-feira, 1 de março de 2017

POSTAIS SEM SELO


Onde estão os golfinhos? De que fugiram eles? Dos barcos a motor do Verão? É possível. Mas no Inverno e na Primavera e no Outono? De que têm medo para nunca mais terem passado, carruagens vivas de um comboio ondulante, emergindo das águas fundas, logo mergulhando.

Maria Judite Carvalho em Este Tempo

domingo, 8 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Talvez os velhos e as crianças fossem mais autênticos por estarem mais perto do nada… Os que partem e os que chegam…

Maria Judite de Carvalho em Tanta Gente Mariana

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

domingo, 30 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


Memória Possível
6º Volume dos Dias Comuns

José Gomes Ferreira
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote. Lisboa, Janeiro de 2013

Novo encontro com Judite de Carvalho no dentista.
- Não traz o cabelo penteado da mesma maneira!... – observou o dentista.
- Pois não. Como não gosto da minha cara e não posso mudá-la, mudo de penteado.
Procurei uma frase amável para lhe dizer, mas não a encontrei – malogro que ela infelizmente percebeu.
E no entanto bastaria dizer-lhe que, por mais que mudasse de rosto, nunca arranjaria outro mais inteligente.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

FICAVA BEM A LISBOA


Fico triste quando encontro uma casinha antiga, a ser demolida. Era feia? Talvez fosse feia. Mas ficava bem a Lisboa e devia ser muito agradável viver dentro dela, no tempo em que o sol não era só dos gigantes e as árvores e os canteiros não eram um luxo inacessível.
Amanhã, daquele mesmo chão, crescerá um prédio esburacado, todo ele celas iguais, mobiladas de igual, ou quase, e com alcatifa.

Maria Judite de Carvalho em Este Tempo

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O RELÓGIO



Maria Judite de Carvalho, crónica publicada no Diário de Lisboa de 26 de Fevereiro de 1969 e inserta na antologia Este Tempo, Editorial Caminho, Março de 1991.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

URBANO TAVARES RODRIGUES (1923-2013)



Um homem amável, apaixonado, corajoso, solidário, coerente.

Um escritor de vasta obra, um tanto ou quanto desequilibrada, mas com uma dúzia de títulos incontornáveis.

Militante do Partido Comunista Português, ouviu, um dia, Álvaro Cunhal dizer que ele era comunista de coração, e não de cabeça.

Sim, de coração, e não é difícil saber o porquê

O meu pai gostava muito do Urbano, o Urbaninho como ele lhe chamava.

Por vezes chegava a casa e dizia-lhe:

- Trouxe o último livro do Urbano!...

- Porra! esse gajo mija livros!...

Mas não tardava  em pegar-lhe não descansando enquanto não chegasse à última página.

Urbano Tavares Rodrigues faria 90 anos no próximo dia 8 de Dezembro.

Legenda: Retrato de Urbano Tavares Rodrigues pintado pela escritora Maria Judite de Carvalho, sua primeira mulher.
Retirado de Urbano Tavares Rodrigues: 50 Anos de Vida Literária, Edições Asa, Porto Junho 2003..

quinta-feira, 13 de junho de 2013

UM CRAVEIRO NUMA ÁGUA FURTADA...


Já me referi há tempos a um casal de estrangeiros que veio pela segunda vez a Lisboa e se mostrou espantado ao dar com uma cidade triste. Julgavam-na a cidade mais alegre do mundo porque tinham por cá passado, da primeira vez, em noite de marchas populares.

Maria Judite de carvalho em Este Tempo

Legenda: imagem do Diário de Notícias.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Não há nada mais tranquilizador, reconfortante e doce que um sonho reconhecidamente irrealizável.

Maria Judite de Carvalho em Este Tempo

Legenda: pintura de Paul Delvaux.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

POSTAIS SEM SELO


O homem estava especado a olhar. Esquecido. Melhor perdido. Perdido no tempo. Era um homem modesto, vestido como os homens modestos que, por assim dizer, não se vestem, andam vestidos, sempre do mesmo modo e da mesma cor, cinzenta.

Maria Judite de Carvalho em Este Tempo.

Legenda: fotografia de Gerard Castello Lopes.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O PARQUE DE TODOS OS JACARANDÁS


Meses antes da Feira do Livro de 2004, os mentores, para justificarem ordenado ou subsídio, começaram a estudar a mudança da Feira do Parque Eduardo VII. Não sabiam bem para onde, mas isso para eles nunca é importante. Pensam em mudar e mudarm depois logo se verá. Por norma sai sempre disparate.
Um coro de protestos levantou-se.
Na feira desse ano um grupo de editoras, editoras que gostam mesmo de livros (Afrontamento, Antígona, Assírio & Alvim, Climepsi, Cotovia, Gótica, Meribérica-Liber, Relógio d’Água, Teorema) fizeram um livrinho que reunia textos de autores diversos , “Os Livros no Parque”, em defesa da localização da Feira do Livro de Lisboa no parque Eduardo VII.
“É para nós evidente que a feira neste local pode e deve ser melhorada; mas só parque Eduardo VII ela mantém as características de festa cultural da ciddae de Lisboa, num local central e aprazível, ao ar livre.”
Este é o texto que o Jorge Silva Melo escreveu para este livrinho:
"Eu só gosto do Parque Eduardo VII em Maio, nunca lá vou noutra altura. Mas gosto de subir e de descer, sobretudo ao sábado e ao domingo, com gente que nunca vi nas livrarias, gente que mexe em livros, dicionários tantas vezes, livros do dia, livros mais baratos, gente, tanta gente, fico sempre com a sensação que há pessoas, que os livros servem as pessoas, que os editores são gente honesta que quer um mundo melhor, gosto de coleccionar os catálogos, de marcar com cruzinha os livros a comprar, de nem sequer comprar esses mas outros que me aparecem, esquecidos, de encontrar livros insuspeitos que nem sabia estarem editados, gosto de pedir autógrafos, há muitos anos foi lá que falei com a Maria Judite de Carvalho e lhe disse quanto a admirava, gosto de ver escritores sentados, gosto dos altifalantes a anunciarem escritores e descontos, gosto das farturas que ainda o ano passado engorduraram um livro de poesia acabadinho de comprar e até carote, não me tirem a rua


dos livros ao sol, não me fechem a Feira do Livro, deixem-me, uma vez por ano, passear pelo Parque Eduardo VII de todos os jacarandás, ao cair da noite, pela fresca, deixem-me encontrar os amigos, são cada vez menos!, deixem-me queixar-me de já não ter dinheiro, nem espaço em casa para mais papelada, deixem-me voltar a casa com quilos de sacos, deixem-me a minha Feira do Livro onde ela é, é onde todos os anos eu respiro um mundo que talvez fosse maior, com mais gente, mais livros, histórias, poesias, gente a subir e a descer aos sábados à tarde, com tanto calor. E um dia gostava de filmar, porque não filmar a descoberta do amor entre um rapaz de uma barraquinha de livros em segunda mão e uma jovem escritora neurasténica, rapariga loira com as suas singularidades. Ou vice-versa, em Maio, no Parque Eduardo VII."

segunda-feira, 24 de maio de 2010

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES (06)



Petição de Recurso apresentada ao Supremo Tribunal Administrativo.

Tentativa para que fosse reparada a decisão ilegal e injusta do encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores.

A petição foi apresentada pelo advogado Eduardo Figueiredo em nome da Sociedade Portuguesa de Escritores, Jacinto do Prado Coelho, Joel Serrão, Matilde Rosa Araújo, Maria Judite de Carvalho, Álvaro Salema, João José Cochofel, Natália Nunes, Bernardo Santareno, Orlando da Costa, Egidio Namorado,

José Gomes Ferreira nos seus "Dias Comuns" Vol. II

24 de Fevereiro de 1967
Volto ao presente, por gosto de precisar de respirara vida, e reencontro a paisagem amarga de sempre com algumas notícias graves. Assim a Sociedade Portuguesa de Escritores foi definitivamente assassinada pelo Supremo Tribunal Administrativo, por meio de um acórdão injusto."