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quinta-feira, 30 de abril de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Filha de peixes sabe nadar.

É o que acontece com Cristina Carvalho, filha de Natália Nunes e António Gedeão.

Ultimamente tem-se dedicado a escrever sobre gente de que muito gosta: António Gedeão, Selma Lagerlöf, Strindberg, Ingmar Bergman, W.B.Yeats e Paula Rego e agora MargueriteYourcenar.

Conhece-lhes a obra, visita os locais onde nasceram, viveram as suas vidas, percorre as dúvidas e angústias, bem como a percepção desse mistério insondável que é o ímpeto de escrever como fuga à morte.

Correndo atrás de Marguerite Yourcenar, Cristina Carvalho elucida-nos: «Eu não devoro livros. Saboreio-os, apalpo-os, sublinho-os, dobro as pontas das páginas que me interessam e quando começo a apaixonar-me por essa leitura, leio-os ainda mais devagar. Quando acabo, muitas vezes volto ao princípio e isto pela minha eternidade fora, que é um assunto desinteressante e incompreensível: a eternidade de cada um de nós».

Liberdade e Paixão começa assim:

«Faz com que escreva ou não escreva. Pretendo invocar um qualquer tom de cinzas ou a ruga permanente desse olhar. Ou ainda sobre a aspereza ou a maciez, a rugosidade da pele das mãos. Faz com que escreva e descreva o lenço a cobrir o cabelo, a cabeça. A proteger-te de algum frio que possa existir. Ou sobre as roupas que usas, o comprimento da saia ou o desbotado da gabardine, a ausência de quase tudo. Também posso escrever sobre os passeios que vais dando ao longo do lago. Conheço os passos que dás sobre as pedrinhas e sobre as folhas caídas nos caminhos».

Marguerite Yourcenar sabe, e di-lo claramente, que os seus livros não são de leitura fácil, muito menos de compreensão fácil, tão pouco não é uma pessoa acessível.

«Não lhe interessam os aplausos literários. Esquiva-se. Foge. Não deseja milhares de leitores ávidos, ignorantes.»

«Aí está! Morrerei cheia de conhecimento antigo, daquele imutável, que os meus antepassados gregos, romanos, japoneses, orientais me ofereceram desde muito jovem. E também me ensinaram que não valho quase nada.»

Das dificuldades da escrita de Yourcenar, dos seus medos, das suas angústias, Cristina ajuda-nos a perceber algo mais.

Yourcenar conta que herdou alguma fortuna: «Derreti-a em poucos anos com passeios extravagantes, com mulheres, com homens e muita bebida. E brinquei e amei muito nas noites da Europa: não conheci os dias, pois a luz servia-me para dormir. Muitas vezes me perguntei quem era eu, afinal. Mas eu sabia que essa resposta teria o seu tempo para aparecer. Sabia perfeitamente»

Há gentes assim, repletas de loucas magias.

Lembro o futebolista George Best: «Na minha vida gastei montanhas de dinheiro em mulheres, vinhos e carros rápidos. O resto desperdicei…».

Um dia, Best sintetizou exemplarmente a sua vida:

«Na América vivia numa casa perto da praia. No caminho para lá, havia um bar, por isso nunca chegava à água.»

Tempo de fechar este O Outro Lado das Capas e voltar a Yourcenar:

«A partir de certa idade comecei a ler profundamente e, sim, amei os livros, amei-os apaixonadamente. E toda a vida viajei. E toda a vida li. E toda a vida escrevi.»

OLHAR AS CAPAS


Marguerite Yourcenar: Liberdade e Paixão

Cristina Carvalho

Capa: Carlos César Vasconcelos

Relógio D’Água Editores, Lisboa Novembro de 2025

Não. Os livros não se devoram. Os livros degustam-se.

Dá ideia de que um devorador de livros é um leitor cultíssimo, variado, presente, sempre na crista da onda; alguém com um cérebro assimilador e uma capacidade sempre esfomeada por livros.  

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

DE COMO SE CAMINHA CONTRA O VENTO


Cristina Carvalho venceu o Prémio Miguel Torga com a obra Ingmar Bergman — O Caminho contra o Vento, publicada pela Relógio D’Água.

«Mais e melhor do que uma leitura atenta e objetiva sobre uma das personalidades mais marcantes da história do cinema, esta ficção, redigida na primeira pessoa, ou ‘diário imaginário’, leva o leitor a entrar no vivido quotidiano e nas recordações de um velho homem de génio.», refere a acta do júri.

E ainda:

«Se a identificação passional da escritora à sua personagem produz um sedutor efeito de desdobramento, a literatura ganha neste jogo do mesmo e do outro, sem que o auto-retrato de Bergman perca a sua verdade e a sua pujança».

Para escrever o livro, agora distinguido pela Associação Portuguesa de Escritores, Cristina Carvalho deslocou-se à Suécia, em particular à ilha de Fårö, e falou com algumas das pessoas que mais de perto conheceram o realizador de Fanny e Alexander.

Cristina de Carvalho, filha de Rómulo de Carvalho/António Gedeão e da escritora Natália Nunes, apaixonou-se por Ingmar Bergman e voou para a ilha de Fårö

«que tem um clima muito agreste. O vento fortíssimo arrasa qualquer intenção de permanência. O solo é duro. O silêncio é estridente comos os gritos das aves marinhas a cortar o céu. Eu estive aqui por uns dias. Numa pequena casa alugada, no campo. Não encontrei, como vizinhança, uma única pessoa.»

«Pretendi, ao escrever sobre Ingmar Bergman, informar todos quantos lerem este levro sobre alguns pormenores de um ser artístico e invulgar que penso ter per4cebido. Mergulhei, pois, nessa vida e só apareci à superfície do meu quotidiano para respirar.

É que mesmo, dedicadas à arte, nem todas as vidas, nem todas as existências são artísticas. A dele foi.»

(Da nota introdutória do livro.)

Gosto dos filmes de Ingmar Bergman. O Woody Allen também. Com a diferença que Woody Allen entende Bergman lindamente e eu perco-me amiúde.

Este livro serviu-me de bengala e fiquei a entender um pouco melhor Bergman.

1.
«Apresento-me:

Sou um fóssil antiquíssimo agarrado às paredes da Terra. Naufragado no miolo do mar. Só percebi a minha condição quando cheguei a esta praia, quando deixei de me preocupar com a vida que tenho e tive desde o dia do meu nascimento; só deixei de me preocupar com a vida e com a morte quando estes pés calcaram pela primeira vez o areão grosso e os meus olhos viram, se abriram e viram, e perceberam o peso das nuvens junto à sua água primitiva. Complicado.

Sou um fóssil antiquíssimo agarrado para sempre à rocha, destas que existem por aqui. Qualquer pessoa as pode ver e apreciara. Têm formas esquisitas a despontar das águas quase paradas desta praia onde a solidão é a perder de vista.

É isso que sou. Um fóssil de líquen.

E um fóssil, à primeira vista, não tem muito que se lhe diga.»

2.

«Esquelético, febril, doente, sem quase dar sinais vitais, nasci. O ambiente psicológico em casa não podia ser pior e Karin, a minha mãe, na altura do parto, encontrava-se no mais desolador estado depressivo.

Nasci num domingo, o que já de si é um bom augúrio. Uma criança nascida num domingo, segundo a tradição sueca, terá o dom de ver mais longe, de alcançar outro horizonte. Além disso, o dia em que vim a este mundo, 14 de Julho, já era uma data histórica, o Dia da Tomada da Bastilha, dia de protestos e revoltas no mundo.

Deram-me o nome de Ernst Ingmar Bergman.»

3.

«Envelhecer.

É difícil envelhecer. Dá.me muito trabalho. Tenho de me levantar todos os dias muito cedo, logo que acordo, por volta das seis da manhºã, quando as babas da madrugada ainda resvalam pelas vidraças e o vento não assobia. Não posso ficar na cama acordado, pois começo com pensamentos sinistros a propósito de tudo e de nada. Levanto-me.»

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


Uma pessoa vai caminhando sempre em frente, até decidir voltar para trás. E volta.
Volta sempre.

Cristina Carvalho em O Caminho Contra o Vento

domingo, 29 de dezembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Ingmar Bergman: O Caminho Contra o Vento

Cristina Carvalho
Capa: Carlos César Vasconcelos
Relógio d’Água Editores, Lisboa, Outubro de 2019

Apresento-me:
Sou um fóssil antiquíssimo agarrado às paredes da Terra. Naufragado no miolo do mar. Só percebi a minha condição quando cheguei a esta praia, quando deixei de me preocupar com a vida que tenho e tive desde o dia do meu nascimento; só deixei de me preocupar com a vida e com a morte quando estes pés calcaram pela primeira vez o areão grosso e os meus olhos viram, se abriram e viram, e perceberam o peso das nuvens junto à sua água primitiva. Complicado.
Siu um fóssil antiquíssimo agarrado para sempre à rocha, destas que existem por aqui. Qualquer pessoa as pode ver e apreciara. Têm formas esquisitas a despontar das águas quase paradas desta praia onde a solidão é a perder de vista.
É isso que sou. Um fóssil de líquen.
E um fóssil, à primeira vista, não tem muito que se lhe diga.

sexta-feira, 31 de março de 2017

O QUE UM HOMEM LEVA DESTA VIDA!


Quarto, e último, passo de uma das andanças de António Gedeão, com a sua filha Cristina Carvalho, para as Termas da Curia e em que são referidas algumas das suas preferências, verdadeiramente de bom gosto, gastronómicas:

Mas o que eu queria referir, neste momento, é o quanto aprecio o Bacalhau à margarida da Praça, ou um tenro bife com batatas fritas, uma travessa bem organizada apesar da perna de cabrito e das suas batatatinhas coradas me fazerem lembrar que sou um pobre omnívoro. Um consciente e atávico omnívoro. Um condenado! Quero lá saber das Quaresmas e suas restrições gastronómicas! Prefiro, a bem dizer e sem ligar quase nada, mesmo quase nada as Páscoas e os Natais e todos os desvarios doces e salgados que um homem leva desta vida. E na Pensão Lourenço, como já disse, há leitão da Bairrada aos domingos e um espumante Rosé que não é nada mau, mas ainda a terminar aquele, o verdadeiro pudim flan. Gosto muito! Isto para não falar de uma ampla fatia de melão.


Legenda: a imagem do Bacalhau à Margarida da Praça foi tirada de Cozinha Tradicional.

quinta-feira, 23 de março de 2017

GOSTO MUITO DE ANDAR DE COMBOIO


Terceira descrição de António Gedeão a caminho das Termas da Curia e onde ressalta o seu estimado gosto por comboios.

Mas isto sou eu a pensar, sentado aqui na carruagem pouco arejada deste comboio que nos irá levar à estação da Curia. Saímos há pouco de Lisboa, será uma viagem de, aproximadamente, três horas. Gosto muito de andar de comboio. Muito mais do que andar de avião, embora já tenha feito muitas viagens  nessas aves mecânicas, gigantescas e velozes, Gosto deste ramerrão continuado, do deslizar das rodas de aço nos carris, gosto desse guincho metálico, pesaroso, gosto de ver as pessoas coabitar tão pacificamente na estreita atmosfera da carruagem, gosto de ver as pessoas comer e oferecer e trocar peças de fruta e pastéis de bacalhau, uns goles de vinho tinto, gosto das trocas dos olhares oblíquos e dos agradecimentos de banco para banco, trocam tudo, aqui de repente, unidas as pessoas pelo sentimento comum de se verem obrigadas a repartir algumas conversas, algumas lembranças, alguns gostos e desgostos.

terça-feira, 14 de março de 2017

AOS DOMINGOS HÁ LEITÃO ASSADO E LEITE-CREME


Apresentamos o segundo passo da narrativa que António Gedeão escreveu sobre uma sua ida, com a filha Cristina, às Termas da Curia:

De momento viajo para a Curia, onde vou fazer o meu tratamento anual de águas termais milagrosas que fazem com que o meu organismo expulse os cálculos renais de que padeço. Viajo com a minha filha Maria Cristina. Aqui neste comboio sentamo-nos de frente um para o outro. Ela dormita. Eu observo. Vamos sempre ao dois, ano após ano. Observamo-nos, no passar dos anos. Às vezes, a meio da estada, a Natália vem passar uns dias. Concordo que este é um ambiente difícil – muitas senhoras, senhoras mesmo, daquelas que é difícil imaginar de manhã quando se levantam ainda sem os grossos colares de pérolas e sem os seus grossos maridos que também se enroscam à volta dos seus pescoços bem nutridos. Sim concordo! E depois estes horários das tomas de água são rígidos, o primeiro copo às oito da manhã, o segundo, ao meio dia, o terceiro às quatro da tarde, o último, às sete e meia, não dá para ir a lado nenhum, a pequena tem um grupo de jovens, eu escrevo e leio e passeio e como e durmo, o sítio é bonito, muito bonito, o lago, as gaivotas do lago a marulhar namorados, as noites quentes, aos domingos há leitão e leite-creme, não falo com ninguém, não conheço aqui ninguém (nem me interessa conhecer…) gosto muito do senhor Eduardo Simões e da mulher, a dona Maria e acho uma certa graça à Leninha que é a filha e à tarde, ao fim da tarde, quando todas as aves do mundo recolhem nos braços dos castanheiros e das amoreiras deste grande parque existe um silêncio, uma espécie de silêncio que é o mesmo que tenho ouvido em outros locais que conheço, o silêncio na paz dos conventos antiquíssimos, o silêncio das ameias dos castelos arruinados, o silêncio das masmorras exuberantes de condenados, o silêncio dos tempo e dos tempos que já foram e ainda mais dos que virão.


Legenda: fotografia do Mototurismo do Centro

segunda-feira, 6 de março de 2017

TUDO A CORRER NA DIRECÇÃO CONTRÁRIA


Primeiro de quatro apontamentos escritos por António Gedeão aquando de uma das suas idas para as Termas da Curia, acompanhado da filha Maria Cristina e que se encontram em Rómulo de Carvalho/António Gedeão, Príncipe Perfeito:

Difícil é avançar numa viagem destas, o homem que eu sou, é maravilhoso, é sim, já fui macaco, hoje ando a pé sobre os meus membros, pernas e pés, é maravilhoso, vejo tudo a correr na direcção contrária àquela em que avanço, a correr mesmo, o ar, o céu, o mar, as árvores, os campos, as cidades, o casario disperso, tudo corre antes de mim e na direcção contrária, curioso, eu avanço, tudo o resto avança para trás! De forma que todas as cores se resumem numa só, tal é a velocidade!, que admito ver através da janela deste comboio uma faixa esbranquiçada como fumo a esvair-se em pressa, a desmaiar, a desmaiar e olho sem desviar o olhar sempre em frente pelo vidro da janela, a noite que se aproxima, há um som, um silvo, não sei, não percebo, sinto-me leve a levitar, vejo-me refletido no vidro, a minha cabeça redonda e calva, olhos vivos, a atenção, a curiosidade, não quero adormecer nem quero dormir apesar da noite que é verdade e o comboio que desliza, o homem já assoma, vem a pergunta «boa noite, o bilhete, por favor?» e lá vou eu na doce, na dulcíssima trepidação, neste ligeiro estremecimento até Florença, até Veneza, até Londres, até paris, até Lisboa, até Coimbra, até ao Porto, até a casa, regresso a casa, regresso-te, regresso-me, exalto-me e não me canso, eu vivo, eu vou, eu conheço e mais ainda e tudo o que eu desejo são explosões desta vida que dão o sopro desejado para ferver, para esfriar, ferver, esfriar, ferver, esfriar, quero e quero e quero e posso!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

DE PÉ, SEMPRE


Em casa, também trabalhava de pé.
Antes de ter o seu escritório, na sala de estar desta casa, havia um armário mandado fazer adequadamente à sua altura, com a comodidade necessária ao trabalho. Era o «armário!»
Alto, liso, com duas portas à frente e lá por dentro duas prateleiras a dividir o espaço. Em cima e do lado esquerdo, um candeeiro de bicha com um botão luminosos. Ao alto, na parede em frente, ironia pendurada: a moldura com uma fotografia a preto e branco que mostra Albert Einstein com a língua de fora. No tampo e apoio superior do armário, ao lado do candeeiro, um cavalinho de bronze a servir de pisa-papéis. Tudo absolutamente arrumado à frente, um lápis, uma esferográfica bic de cor azul e uma caneta de tinta permanente. Ao lado, papéis arrumados uns por cima dos outros e por ordem. Ele chegava da rua ao fim da tarde, percorria o longo corredor quase sem se ouvir, entrava naquela sala, ligava o rádio, ajustava-lhe o som nem alto nem baixo, dirigia-se ao armário. No verão, abria as janelas dessa sala que dava para os jardins das traseiras dos outros prédios e junto ao peitoril, às escuras, com uma expressão de grande serenidade, aspirava o ar quente da noite. E sempre a música que, baixinho, goteja da telefonia e acabava por inundar toda a divisão, dum som acostumado, antigo, indispensável. Encostado ao seu armário, carregava no botãozinho luminosos do candeeiro, ajeitava os papéis e, com gestos muito aplicados, desenroscava a tampa da caneta de tinta permanente, ensaiava a pena num papel exclusivamente para esse efeito colocado do seu lado direito, pensava um pouco apoiando os punhos na cabeça e, de repente, começava a escrever, a escrever sem qualquer interrupção. Horas sem fim ali de pé, num planar, num esvoaçar silenciosos para paragens tão distantes, naquelas lonjuras de espírito que ninguém alcança. Às vezes mexia as pernas, erguendo a perna direita em ângulo reto, depois a esquerda e assim sucessivamente, como que para desentorpecer aquele estado parado.
Às oito em ponto jantava.
E depois do jantar, até às onze, hora exata em que se deitava, lá estava a trabalhar apoiado no seu armário. De pé, sempre.
«Que bom que é dormir! É das coisas melhores do mundo!», ouvi-o tantas vezes dizer.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

UMA GRAÇA IRÓNICA DELE PRÓPRIO


A ironia era, talvez, a característica mais imediata do seu temperamento, da maneira de exprimir o pensamento na atitude diária. Atitude esta que não é nem fácil de entender, nem fácil de aceitar. A ironia é uma arte subtil e revela, em primeira instância, sábio tratamento e aplicação das palavras. Requer sinais de inteligência imediata para se poder perceber se é elogio, se é crítica, se é sarcasmo. Mas no caso de Rómulo, a ironia era incrivelmente sedutora, porque nunca, por nunca ser magoava. Não eram pedradas palavrosas nem gracejos desajustados. Era a fina ironia, a elegante, e mesmo que fosse para contrariar ou apreciar ou criticar negativamente, Rómulo falava de maneira tal que ninguém se sentia tocado ou ofendido. Pelo contrário, percebia-se muito bem o que poderia estar mal. E os acontecimentos incomuns na família ou na profissão eram contados e traduzidos de um modo completamente diferente do habitual, com palavras distintas e divertidas, embora por vezes de compreensão complexa a quem estivesse alheado do assunto ou fosse menos atento.
A sua caricatura mais interessante foi um desenho feito por ele próprio, um autorretrato, em que expõe uns olhos enormes e redondos sob uma testa cheia de rugas. Na cabeça calva sobressai um único e pelo, um rebelde resistente.
Uma grande graça irónica dele próprio.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

NÃO A REVOLUÇÃO EM SI


A desordem que se viveu, o espetáculo social e humano absolutamente degradante a que se assistiu nos tempos imediatos à Revolução do 25 de Abril, a estupefação, a incredulidade, a impossibilidade de conviver com toda uma imensa miséria cultural de um país com um enorme índice de analfabetismo alimentado pelo regime salazarista e que vinha agora «ao de cima» nas mais elementares situações do quotidiano, de compreender e aceitar a balbúrdia instalada, a agonia provocada por um tão grande desequilíbrio, pelas frases tão grosseiras que ouvia na rua, nos transportes públicos, nas lojas, enfim, por toda a parte, pela dificuldade da aceitação de novas atitudes de «liberdade», tudo isto, todos estes fenómenos sociais o deprimiram intensamente. Não a Revolução em si, porque essa foi desejada, naturalmente, mas o que a Revolução deixou ver e que não cabe aqui neste livro demonstrar.
Rómulo de Carvalho viveu a situação profundamente amargurado. No seu livro Memórias, o leitor poderá observar descrições pormenorizadas, todas documentadas, de cenas do dia a dia. Cenas e dizeres absolutamente inacreditáveis que, sem qualquer orgulho, fazem parte de um certo rascunho da nossa História recente. Ele reuniu muita documentação dessa época especial, socialmente falando, que espelha, nas mais perfeitas condições, um determinado e peculiar comportamento de toda uma sociedade. Qualquer pessoa ficará impressionada ao ler esses relatos compilados pela mão serena de um homem a tento e admirado com tudo o que passou nessa altura.
Em finais de 1974 elaborou o requerimento que iria proporcionar-lhe a aposentação e em janeiro de 1975 foi confirmada essa aposentação.
Ao fim de quarenta e dois anos de ensino presidencial, sem nunca ter usado gravata e sem a mesma cor política desses cinzentos governantes, Rómulo de Carvalho terminava a sua atuação como professor mas não terminava a sua vida cheia de atividades, ligadas sempre ao ensino e à divulgação cultural, que foram uma constante durante toda a sua vida.


Legenda: Liceu Pedro Nunes

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

HARMONIA E RIGOR


Tirando umas constipações anuais e uma ou outra dor de dentes, Rómulo nunca teve incómodos de saúde. Não praticava exercício físico, bebia um copo de vinho às refeições, deixou de fumar aos cinquenta anos. Andava a pé, é certo. E isso era um bom exercício físico, se assim quisermos chamar, o andar a pé. Se havia coisa que ele detestava era o «clássico» exercício físico, a ginástica, a natação, essas atividades todas! E quase nunca se sentava. Comia de tudo, carne e peixe e arroz e batatas e legumes. Quase todos os dias da vida, ao jantar, à sobremesa, comia uma laranja. O ato de descascar a laranja não é concebível por palavras. Havia ali um entendimento entre ele e a faca e o garfo e o fruto.
Uma ritualização diária. Um final perfeito de refeição. Uma entrega a pensamentos que se materializavam e concretizavam nessa preparação metódica de fim de «missa», no princípio da noite.
Poderá parecer estranha, esta descrição da laranja diária, mas eu considero-a importante. Mais um passo na ordem de uma vida que se pretendeu harmoniosa e muito rigorosa.
A laranja no meio do prato. O garfo espetado no polo superior que fazia com que a fixasse com suavidade e, ao mesmo tempo e a seu tempo, a rodasse. A faca a descer desse polo, longitudinalmente, rodando, deslizando, cortando, a casca a sair em fatias todas da mesma largura. A casca fina, quase transparente. De modo que a laranja apresentava-se agora não cor de laranja, mas branca. Iniciava, então o mesmo processo de exatidão, agora com muito mais cuidado, pois a pele finíssima, a pele branca colada à polpa, saía com mais dificuldade. Lá ia. De cima para baixo e sempre à volta. No prato, amontoava-se a um canto a camada das cascas. Primeiro a casca de fora, por cima a película branca. Tudo organizado.
Finalmente, a faca bem afiada cortava uma rodela de laranja. E outra, E outra. Depois, voltava a laranja e cortava outra rodela. E outra, E outra. Até restar a parte comprida com as nervuras do meio, que era também colocada por cima das cascas todas. Agora o prato de sobremesa apresentava uma coroa de rodelas de laranja disposta do centro para a beira. Seguia-se a limpeza dos caroços, Um por um, com a ponta da faca, iam saltando todos, mas com cuidado para não estragar nem romper a fatia. Esta operação levava o seu tempo. Um certo tempo nunca perdido, pois os pensamentos andavam por ali a rodar, a rodar como a própria laranja, e a prova disso é que o seu olhar estava absolutamente concentrado, naquela concentração que só um total alheamento e algum automatismo permite.
Enfim, a boca! A caverna natural de todos os prazeres, onde a fibra do mundo se derrete.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

DOS PINGOS DA CHUVA NO CALCÁRIO DOS PASSEIOS


E sempre a avançar sem se demorara em lado algum, nem na montra de uma loja nem em cumprimentos de esquina ou pequena conversa de bairro. A sua figura alta, de passos longos e firmes, era extremamente agradável à vista e vi, eu vi, muitas vezes, pessoas a olhar para ele. Ele a passar e alguém a reparar. Depois, lá regressava a casa, à hora do almoço. E terminada a refeição lá ia outra vez para o liceu e no fim da tarde voltava. Sempre a pé. Sempre e sempre a pé fizesse frio ou calor, fosse noite ou fosse dia. Rómulo evitava os transportes públicos, não tinha automóvel nem sequer carta de condução. Percorreu quilómetros sem fim nesta cidade de Lisboa para todo o lado onde podia deslocar-se a pé.
Houve um período em que todos os domingos da parte da tarde saía com a sua máquina fotográfica a tiracolo. Demorava-se umas horas. E um dia, apareceu publicado um grande livro, um álbum chamado Memória de Lisboa. Entre tantas das suas notáveis e diversas atividades, Rómulo foi também fotógrafo amador e, da cidade de Lisboa, que tanto amou, desde a Sé à Torre de Belém, de Alcântara ao cais das Colunas, guardou todas as imagens possíveis do seu rio Rejo. Das ruas, de monumentos, de pormenores, de pessoas, da luz de todos os dias, dos pingos da chuva no calcário dos passeios.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

PENA DE POMBO DE TRAFALGAR SQUARE


São belos os seus cadernos de viagem, com todos os pormenores de variados interesses: um bilhete de entrada para um qualquer museu, um bilhete de teatro, a conta da limonada, a fatura do hotel, o bilhete de avião, tudo, tudo com legendas e cheio de explicações. Verdadeiros compêndios artística e sensivelmente organizados para um estudo de imagens, de costumes e pormenores de civilizações diferentes da nossa, álbuns riquíssimos contados quase como num diário de hora a hora.
De ti para nós.
Cuidadosamente anotados, com desenhos por mão própria, fotografias coladas, bilhetes-postais, frases perfeitas, poemas imaginários.
Num desses cadernos de viagem escritos todos os dias ao fim do dia – tal como um artista desenharia as suas impressões de tudo quanto vai vendo -, dedicado a uma visita a Londres, numa das páginas está colada uma pena de pombo. A legenda, no rodapé, é: Pena de pombo de Trafalgar Square.
Poderá parecer inocente, frágil até, esta frase. Contudo, penso nela. Nesta frase não existe a ausência ou a distância. Nem saudade. Existe vida. Tal e qual ela é concebida neste elemento do cosmos em que habitamos e a que chamámos planeta, e ainda por cima, Terra. A pena do tal pombo, apanha numa praça de Londres, ao acaso, é ela própria um microcosmos. Já pertenceu a um corpo de ave que por sua vez pertenceu a um todo. A este todo cósmico.
Meras conjeturas! Simples pensamentos. E quanto mais simples mais complexos. Não foi posta ali nesse caderno por mero acaso. Rómulo, ao recolhê-la e ao fixá-la, quis muito mais do que esse imediato pensamento – Olha! Uma pena de Pombo inglês! Que engraçado! Do que ele se foi lembrar! – Muito mais do que isto! Porque ele sabia o poder da interrogação, o sentimento na dúvida, e, observando a pessoa que era, tudo continha uma intenção pedagógica.
Todos os pássaros têm penas! Esta é a verdade! Esta é uma pena que eu tenho.
Todas as penas são diferentes.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

OS QUINTAIS DAS TRASEIRAS


Às oito e vinte abria a porta da rua e por ela saía rumo ao Liceu normal de Pedro Nunes. O percurso era sempre feito a pé, estivesse sol intenso ou fosse chuva torrencial. E era ainda bastante longo, desde a rua Sampaio Bruno, em Campo d’ Ourique, até à Av. Pedro Álvares Cabral, na Estrela.
À hora de almoço o mesmo trajecto. Exactamente o mesmo trajecto sem qualquer desvio, mas em sentido contrário. Vinha sempre almoçar a casa. Passada uma hora tornava a sair com o mesmo destino. Às seis e meia da tarde, em ponto, estava a meter a chave à porta, uma das chaves do molhinho de chaves que se ouvia tilintar ainda ele vinha a dobrar a esquina da Rua Coelho da Rocha para a Sampaio Bruno. Talvez significasse, esse antecipado tilintar, alguma pressa que teria em chegar a casa, em sentir-se envolvido nesse espaço aconchegado, arrumadíssimo, que era o seu pequeno escritório. No parapeito da janela, as eternas violetas que regava dia sim, dia não, esperavam pela sua discreta atenção.
Ali ficava, em silêncio, a escrever. A telefonia, sempre no mesmo posto, vertia baixinho.
Às oito em ponto jantava-se. Conversava-se, então, e muito! E era bom quando de verão se abria a janela da casa de jantar que dava para os quintais das traseiras e ouvíamos, como numa reza prévia, como uma oração, as conversas das vizinhas, de janela para janela, sempre e sempre àquela hora.
A comer e a conversar, ali estávamos à mesa mais ou menos uma hora. Era como a presença do verão – a época do ano que Rómulo mais gostava – por ali, pendurado das janelas das traseiras, mais ou menos pouco tempo.


Legenda: fotografia Mapio

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

NUNCA HOUVE, O QUE SE CHAMA, TRADIÇÃO


Havia certas rotinas, na sua maneira de viver, que não condiziam com os hábitos tradicionais das famílias e mesmo se vivesse nos dias que hoje correm, seria assim. Era a sua maneira de ser e de entender a vida das pessoas no mundo. O dia de natal, por exemplo, não apresentava nenhuma diferença de outro dia qualquer do ano. Não se enfeitava a casa, não havia presépio nem «espírito natalício». O costume, nesse dia, era lanchar em casa da sua mãe.
Lá íamos.
Comprava-se um pequeno bolo-rei numa pastelaria qualquer, apanhávamos o elétrico, descíamos na Rua de Buenos Aires, caminhávamos um pouco, ele batia três repenicadas, a porta da rua abria-se, abraços e beijos. Sentávamo-nos então, com amor e sem pressa, à volta da mesa do lanche. Sem haver nenhuma troca de presentes a assinalar a data, era costume eu receber nesse dia – e recebi durante anos e anos sem fim – o novo exemplar do Almanaque Bertrand referente ao novo ano que daí a uma semana chegaria.
Não havia, pois, comemorações especiais neste ou naquele dia. Não era uma questão económica. Era uma consciência plena e a aceitação, perceção dessa mesma vontade da consciência. Também não impunha nada a ninguém. Explicava por palavras simples e frases transparentes por que não fazia isto ou aquilo. O seu próprio dia de aniversário era um dia igual aos outros todos, sem festejos nem comemorações. Poderá parecer estranho tudo isto, na sociedade em que vivemos, onde todos cumprimos com «obrigações» indistintas e muitas vezes desinteressante. Onde se comemora tudo e nada a maior parte das vezes sem qualquer convicção, apenas porque se deve comemorar ou faz parte ou é costume.

domingo, 27 de novembro de 2016

TODAS AS JANELAS ESTÃO FECHADAS


Logo ao lado, na divisão contígua, uma grande portada abria-se sobre a famosa varanda, recinto estreito e comprido, concebido para o repouso dos adultos, para todas as aventuras de uma infância na cidade, observatório de todos os possíveis rastos da vida, ponto de convívio obrigatório nas noites estreladas do verão. Nessa época, durante o dia, nas alturas de sossego e também em noites muito quentes, quase todas as janelas e varandas de Lisboa estavam ocupadas: eram as pessoas que aí se visitavam e conversavam, coscuvilhavam, mal diziam e bem diziam. Era um hábito muito interessante e extraordinário convivial que Rómulo de Carvalho lembra, cheio de nostalgia, ao longo da vida.


Era uma característica do tempo, do meu tempo, hoje totalmente ultrapassada. Chego à janela, nos dias que decorrem, e verifico que todas as janelas estão fechadas, dia e noite, a não ser quando se abrem, da parte da manhã para arejar os quartos, mas sem ninguém à vista. À noite é o encerramento total. Que tereia acontecido? Que prenderá as pessoas, dentro de suas casas, invisíveis do exterior, como se o governo tivesse declarado o estado de sítio?

Rómulo de Carvalho em Memórias

Legenda: pormenor de fotografia de Rómulo de Carvalho em Memória de Lisboa

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

RECADOS


Para além da restante e variada obra de António Gedeão, é muito importante conhecer as Memórias do professor e cientista Rómulo de Carvalho, do poeta António Gedeão, um livro a todos os títulos notável que, volta e meia, visito e onde, folheando ao acaso, me perco e me delicio numa escrita cheia de graça, num português modelar.

Interessante também, por um conhecimento único, o livro Rómulo de Carvalho/António Gedeão, Príncipe Perfeito, escrito pela sua filha Cristina Carvalho.

Um livro simples, quero ser muito simples, repleto de amor e admiração:

Não é, pois uma biografia exaustiva, repleta de datas e acontecimentos que tornariam, seguindo a minha intenção, a escrita dura e a informação espessa. Este livro não pretende ser objecto de estudo mas sim um espreitar documentado, embora simples, da sua longa vida. Refiro aqui alguns trechos mais significantes enquanto homem de ciência, professor e poeta. Fases de uma vida intensa. Intervalos da existência de alguém que muito amei.
Quero ser simples, quero ser muito simples. Gostaria que todos compreendessem que acredito totalmente no poder das palavras e nos seus arranjos finais, esses tais que formam as frases. Nada de rebuscado, poucas sentenças e o que mais me nascer do espírito e o que mais me vier ao pensamento. Acredito no fervilhar das emoções que podem ser traduzidas em páginas e páginas de leitura. Acredito na simplicidade da transmissão do meu pensamento que, desejo, vá ao encontro de todos. Afasto a sofisticação palavrosa que não deixa nem ler nem compreender o que se leu.

Por estes dias, e outros, irei deixando, aqui, pequenos extractos que possibilitem um outro conhecimento sobre este português notável.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Rómulo de Carvalho/António Gedeão, Príncipe Perfeito

Cristina Carvalho
Colecção Memória das Letras nº 1
Editorial Estampa, Lisboa, Outubro de 2012

Este é um breve encontro numas linhas escritas em algumas páginas. Tudo o que eu possa afirmar e informar, ainda que com muitas omissões, sobre este eminente professor, pedagogo, historiador, poeta, é que foi um Homem do Renascimento. Dum outro renascimento, o do século XX.
Quem foi, de quem nasceu, como cresceu, que desejos, que impulsos, que transcendência foi essa que o iluminou, tudo o que realizou e onde trabalhou, o que deixou dito, o que deixou feito, o desejo de ser útil, a vontade, a vida, tudo dito e escrito será nada ou quase nada.
O seu dia a dia foi de trabalho, de pesquisa, de investigações demoradas e de criação. Incansavelmente. Essa vontade da ciência, da sua divulgação e do ensino, dentro do que foi possível, cumpriu-se. A disciplina, as regras e o método foram a orientação de toda a sua vida. A compreensão da atitude para com o próximo e o espírito de dádiva que marcou o longo percurso da vida pessoal, familiar e profissional, desenharam um traçado permanente. A estética, a beleza, o deslumbramento, o intangível acorde de um outro mundo – o da poesia – envolveram-no e tornou-se realidade.
Também quero referir o quanto me foi difícil separar da figura de meu pai enquanto escrevi esta biografia. Tentei distanciar-me mas tenho a certeza que não consegui. Não me foi possível. Por isso, algumas vezes escrevi de um modo muito mais íntimo; por isso, algumas vezes afastei-me e a temperatura baixou. Preferi sempre o tom arrebatado e sentimental, que, embora, contido, nunca foi forçado.
Talvez estranhem, senhores, tanto elogio, tanta admiração, tanto entusiasmo, tantas são as palavras que transbordam das folhas deste livro. Mas i que é que se pode dizer de um homem que

Tudo fiz por amor, a única força poderosa capaz de congraçar as pessoas e as coisas numa felicidade possível.
Atravessei a existência sempre com a surpresa nos olhos, a amargura no rosto, a tristeza no íntimo.

É meu dever dar-vos esta informação.