Começo de O
Que Diz Molero de Dinis Machado.
«Teve uma infância estranha», disse
Austin. «Em última análise, todas as infâncias o são», disse Mister DeLuxe.
«Molero diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente
estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele,
simultaneamente, ator e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um
pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse
do corpo que transportava e, muitas vezes, o projetasse brutalmente contra a
realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a
espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva.»
Teremos que
pegar num artigo de Luiz Pacheco, publicado no Diário Popular de 5 de
Março de 1977, para percebermos o que é O Que Diz Molero.
O assombro
está logo no título do texto:
«Descobri um
autor: Dinis Machado».
Há que ter em
atenção que a Pachecal Figura era um exímio crítico do que por aqui se escrevia
e muito pouco dado a lambidelas de botas:
« Um livro-bomba. Uma obra referenciada
para gente nova. Contém cenas eventualmente chocantes aos literatos da nossa
praça e já está. Não recomendável a ceguetas, que cinema («o cinema é um álbum,
o mais fabuloso e embriagador dos álbuns imaginários», afirma o guarda da
última fronteira) e banda desenhada (álbum ou folhetim semanal também fabuloso
e embriagador, afirmo agora eu) passeiam-se muito pelas suas páginas. O Gaspar
Simões não vai gostar (excelente coisa!). A malta vai (excelentíssima coisa!).
Podiam ser frases publicitárias. Quem ler
«O Que Diz Molero», de Dinis Machado (Bertrand), por ruas e montras e olhos
ávidos de maravilhados ou espavoridos leitores nos próximos dias, confirmará
que não: é que é mesmo assim, como eu digo.Fiquei banzado. Para já, para já,
não julgava poder haver disto em português tão cedo. A livralhada de minha
lavra envelheceu vinte anos a partir de hoje. Não faz mal. Faço 52 no sábado,
se lá chegar, é tempo de reforma. Vou-me dedicar à pesca (de dólares, de
marcos, como o nosso Primeiro), vou deixar a Associação Portuguesa de
Escritores (é o deixas!, eu cá sei as linhas com que me coso) e ingressar no
Mercado Comum dos Cravas. Felizmente não sou invejoso, cada um, cada geração
cumpre a sua rábula e passa o facho. É a Lei.»
E a terminar:
«Repito e finalizo: um livro-bomba, uma
obra d’arromba.»

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